domingo, abril 12, 2020

O dia seguinte

Leila Guerriero
El Pais

 “Isto é uma marca da peste”, dizia meu avô quando lhe perguntava sobre um buraco que tinha na testa

  JUAN IGNACIO RONCORONI EFE
Entregador de alimentos de uma empresa de aplicativos 
nesta segunda-feira, em Buenos Aires.  

Domingo. Buenos Aires. As pessoas se lançaram aos supermercados em uma debandada de guerra nuclear. Eu também vou. Para comprar areia para o banheiro das gatas. Não há fila porque é um supermercado chinês, mas estaria igualmente vazio se fosse de italianos ou de espanhóis, só que os chineses têm a má sorte que a nacionalidade se note em seus rostos. À noite eu telefono para o meu pai. Ele está furioso. Ele é apenas 19 anos mais velho do que eu. Diz que meu irmão e seus funcionários querem trancá-lo em casa por medo de que os contagie. Digo a ele que não é por eles, mas por ele, que é ele que não deve ser infectado. Ele grita, indignado: “Eles têm medo, eu não! É uma guerra contra os velhos, um vírus perfeito para aniquilar estorvos”. Penso naquela frase que martelam: “É perigoso para os idosos, não tanto para os jovens”, no alívio que muitos devem sentir ao pensar “Ah, eu tenho 45, 32, 20”. Nos “salvos?” pelo acaso das datas. Tudo o que parecia sólido é menos sólido do que o ar.

Até dias atrás falávamos do avanço da direita, da xenofobia, do nacionalismo, de Trump e de Bolsonaro como as bestas negras. Agora, em um cenário de guerra química, nas varandas da Itália o hino nacional é cantado e até os mais hereges se sentem transtornados de patriotismo, atordoados de emoção, cantando “Estamos prontos para morrer, a Itália chamou”. Os cidadãos clamam a seus Governos que lhes impeçam de viajar, que os vigiem, que fechem as fronteiras, que expulsem os estrangeiros, que a polícia patrulhe. A quarentena obrigatória transformou a delação em orgulho cidadão, a suspeita em solidariedade: “Denunciou o vizinho porque não cumpria a quarentena”. O confinamento é vivido como alívio, o controle social como dever. A distância com o outro como “sinal de amor”.

“Isto é uma marca da peste”, dizia meu avô quando lhe perguntava sobre um buraco que tinha na testa. Ele era sírio. Na Síria tivera “a peste negra”. É provável que tenha sido a mesma que matou a família da minha avó, também síria, que uma manhã de seus 12 anos, foi à missa –eram cristãos ortodoxos– e, quando voltou, “um ar ruim tinha vindo” e descobriu que os irmãos e a mãe estavam mortos. Para salvá-la, a avó a colocou em um navio com destino à Argentina e nunca mais souberam uma da outra. Ela falava daquela manhã fatídica com um pranto que me envergonhava. Se agora minha avó tivesse 12 anos, não teria nenhum lugar para se esconder. Nenhum lugar para ir.

Muitos têm medo e vergonha de ter medo. E muitos não têm medo, mas não podem dizer que não têm medo, porque não ter medo os torna perigosos.

O homem com quem vivo mencionou há alguns meses, quando matavam camelos na Austrália para que não acabassem com a água necessária para apagar incêndios, a frase “rifle sanitário”. Encontro um artigo de 2009, assinado pelo engenheiro Saúl A. Ubici, de Bahía Blanca. Diz que o rifle sanitário tem como objetivo “eliminar animais perigosos para deter o avanço da doença (…) consiste na eliminação pura e simples dos doentes, por precaução. Uma espécie de eutanásia sem consulta para evitar males maiores”. O artigo fala de vacas com febre aftosa.

Não sei que peste meu avô teve, qual delas matou a família da minha avó. Não lamento não ter perguntado a eles. Fico feliz em tê-los acompanhado na agonia, em ter podido mentir-lhes: “Não se preocupe, amanhã você estará melhor”. Fico feliz que eles não tenham morrido como agora fazemos morrer os idosos: sozinhos, talvez com que lembranças, com que medos.

Todos os meus amigos estão longe: na Espanha, no Chile, no México. Penso naquele poema de Borges: “Quem nos dirá de quem, em nosso espaço, / Sem sabê-lo, nos temos despedido?”.

Teremos um mundo depois disso. Mas que mundo teremos depois disso?



Fique em casa

Notas & Informações, 
O Estado de S.Paulo

Se poucos começarem a não respeitar o isolamento, muitos cidadãos que o fazem com disciplina começarão a questionar o poder de seu sacrifício pessoal para frear a disseminação do contágio



 O governador de São Paulo, João Doria (PSDB), fez o que se espera de um gestor público responsável e estendeu até o dia 22 deste mês a quarentena decretada no Estado para conter a expansão desenfreada dos casos de covid-19. Permanecem abertos apenas os estabelecimentos que prestam serviços essenciais, como supermercados, postos de combustíveis e farmácias. Bares e restaurantes só podem funcionar com serviço de entrega em domicílio. Não há qualquer razão a justificar outra decisão que não a tomada pelo governo paulista. De acordo com as autoridades sanitárias, o País ainda não atingiu o pico de casos de infecção pelo novo coronavírus, previsto para o final de abril, início de maio. Portanto, seria absolutamente temerário flexibilizar as medidas restritivas à circulação de pessoas justamente no Estado que concentra o maior número de casos confirmados e de mortes por covid-19.

A extensão do prazo do isolamento social é igualmente bem-vinda porque, não obstante grande parte dos paulistas ter aderido voluntariamente à medida, observa-se que um número maior de pessoas começa a relaxar quanto ao necessário recolhimento, tanto na capital como no interior. Não se trata daqueles que devem estar nas ruas por dever de ofício. No fim de semana passado, a beleza do pôr do sol visto da praça de mesmo nome, na zona oeste da capital paulista, contrastou com a imagem da aglomeração de pessoas que lá se divertiam em grupos como se um vírus mortal não estivesse em circulação. Um aumento do fluxo de pessoas também foi registrado em outros pontos da cidade, como a Avenida Paulista e o entorno do Parque do Ibirapuera. Em alguns municípios do interior do Estado, onde a quantidade mais reduzida de casos de covid-19 transmite à população uma falsa sensação de normalidade, o descontrole é ainda maior. Os trágicos exemplos de pequenas cidades da Itália e da Espanha, que no início desdenharam do poder de disseminação da Sars-CoV-2 e não adotaram o isolamento, recomendam máxima cautela.

O governo paulista estima que 277 mil pessoas morrerão em decorrência da covid-19 nos próximos seis meses se o isolamento não for respeitado no Estado. Com a estrita observância das medidas restritivas, o número de óbitos cairia para 111 mil. Em ambos os cenários, são números de guerra. No entanto, a redução de 60% entre um e outro dá a medida da responsabilidade social que recai sobre os ombros de cada habitante de São Paulo. “Nenhuma aglomeração, de nenhuma espécie, em nenhuma cidade ou área de São Paulo, será permitida”, afirmou o governador.

Estudo feito pelo Instituto Butantan e pela Universidade de Brasília (UnB), com base em dados de geolocalização de telefones celulares, mostrou que entre os dias 23 de março e 2 de abril o isolamento na capital paulista caiu de 66% para 52,4% da população. “Por meio da triangulação das antenas que recebem sinal de celular, temos condições de observar quem se deslocou por mais de cem ou duzentos metros de casa”, disse o pesquisador Júlio Croda, que participou do estudo. Em que pese a necessidade de preservar a privacidade do indivíduo em monitoramentos deste tipo, o estudo é um instrumento a mais para orientar as decisões governamentais tendo em vista a segurança da coletividade. Durante o anúncio da prorrogação da quarentena no Estado, o governador João Doria não descartou o uso da Polícia Militar para dispersar as aglomerações. “Em um primeiro momento, serão medidas de orientação. Em um segundo momento, coercitivas. Mas espero que isso não seja necessário”, disse Doria. Oxalá não seja mesmo.

Não é hora de baixar a guarda. Não há espaço para a autoconfiança irresponsável. O vírus pode ser mais perverso para certos grupos, mas ninguém está imune a ele. A vida de milhões de paulistas está sob risco. Se poucos começarem a não respeitar o isolamento, como tem ocorrido, muitos cidadãos que o fazem com disciplina e espírito público começarão a questionar o poder de seu sacrifício pessoal para frear a disseminação do contágio, o que seria o prenúncio de uma tragédia inaudita. Portanto, fique em casa.

Com medo da penúria e da morte? Bem-vindos ao mundo real

J.P. Cuenca 
Deutsche Welle

A pandemia de covid-19 democratizou a insegurança e o receio do futuro que já afligia milhões de brasileiros. Resta saber se os abastados aprenderão alguma coisa com isso.
    

Comércio fechado em São Paulo, em 20 de março

1.

Você vai até a janela, olha para o céu, estica o braço apontando o telefone para cima, fecha o olho esquerdo, olha o céu no quadro do telefone – é o mesmo. Você tira uma fotografia, a examina, volta a olhar para o céu: as nuvens desembestaram a mudar de lugar, o sol talvez agora lhe cegue um pouco.
Mas você estava lá, e por isso publica um instantâneo daquele céu onde não havia nada de especial, apenas o panorama difuso do círculo solar por trás de nuvens em contraluz, visto por uma nesga entre edifícios e antenas de São Paulo. As pessoas vão olhar sua fotografia, cada uma dentro de cada apartamento, e ler seu nome impresso no canto esquerdo sobre a imagem do céu nos cristais dos telefones, e pensar em você, talvez olhando pela janela – talvez sentindo o mesmo pavor.

Andamos assim, silenciando no meio das frases.

Especialmente, os privilegiados que hoje podem isolar-se em cápsulas domésticas. Nas últimas semanas, nossas horas foram ocupadas por tentativas de trabalho remoto, aulas online, ativismo de internet, drinks via zoom e houseparty – e uma enevoada sensação de luto antecipado. Até que percamos o emprego, enterremos nossos mortos ou, na melhor das hipóteses, tenhamos que nos confrontar com um mundo que ainda desconhecemos do outro lado desta quarentena.

São tempos estranhos? Talvez não mais que há três semanas – a diferença é que agora todos sabemos disso.


2.

Nas últimas décadas, o capitalismo tardio promoveu mudanças climáticas irreversíveis e um aumento exponencial na concentração de renda mundial. Pouco importava aos detentores dos meios de produção e do capital financeiro – e às classes médias que votam nos representantes daqueles no governo – que a política econômica de seus países causasse desigualdade, doenças e morte aos menos favorecidos.

No Brasil, o 1% mais rico hoje concentra 28,3% da renda total do país, segundo o Relatório de Desenvolvimento Humano (RDH) da ONU divulgado em dezembro do ano passado. É a segunda maior concentração de renda do mundo, apenas atrás do Catar, um emirado absolutista sem eleições legislativas desde os anos 1970 que usa a charia como sistema legal, onde mulheres supostamente adúlteras são punidas com chibatadas e relações homossexuais, com a pena de morte.

Essa combinação nefasta de concentração de renda e ameaças aos direitos humanos também encontra-se por aqui.

Ainda que, durante o recente ciclo do Partido dos Trabalhadores no poder, tal desigualdade tenha sido mitigada via programas de distribuição de renda e uma economia aquecida, os brasileiros moradores de periferias e favelas seguiram tendo direitos desrespeitados pelas polícias militares de todo o país, assim como os povos indígenas originários ameaçados por ruralistas, grileiros, milícias e superfaturadas obras de infraestrutura. E, se nossas favelas são guetificadas pelo Estado, o que dizer dos presídios brasileiros, verdadeiros campos de concentração para negros e pobres?

Abrindo o panorama, pesquisas do IBGE em 2017 e 2018 apontaram que 64,9% da população brasileira não têm pelo menos um dos seguintes direitos garantidos: educação, proteção social, moradia adequada, serviços de saneamento básico e comunicação (internet). A realidade é certamente pior: o relatório usa o conceito de autodeclaração e só inclui os brasileiros que tenham domicílios, excluindo moradores de rua. Entre mulheres negras ou pardas, sozinhas, e com filhos pequenos, o número é ainda maior: 81,3% . Entre idosos, são 80%. 

O Estado Democrático de Direito, garantido pela Constituição de 1988 e ameaçado pelo bolsonarismo, nunca foi democratizado no Brasil pós abertura – jamais chegou plenamente aos cantos menos favorecidos do país, mesmo sob governos supostamente de esquerda. E, com a guinada abertamente fascista da política brasileira depois do golpe de 2016, a situação, que já era trágica, piorou.

Em tempos de pandemia, talvez um pouco – apenas um pouco – do pesadelo distópico no qual já viviam milhões de brasileiros pareça agora democratizado. Insegurança financeira e ameaça constante à vida: antes tão normalizados quando no andar de baixo, agora motivos para ansiedade generalizada.

3.

A grande novidade não é a pandemia. É o fato de que as classes mais abastadas brasileiras possam enfrentar, pela primeira vez em gerações, circunstâncias em que sua casta superior não lhes oferece grande vantagem de sobrevivência.

No Brasil, hospitais particulares já sofrem estrangulamento semelhante ao SUS – e mal começamos a escalar a curva de casos e mortes. Tragédia com horizontalidade semelhante, talvez apenas durante guerras, sob bombardeio. O que nunca tivemos por aqui.

Quando isso tudo acabar, talvez a espera e o testemunho da catástrofe, a implosão do que entendíamos como vida normal, faça os abastados da Zona Sul do Rio de Janeiro e da Zona Oeste de São Paulo mais empáticos com quem convive com o medo de ver o chão abrindo sob seus pés desde que nasceu.

Mas não sei se eu apostaria nisso.



Imunes ao coronavírus

Gazeta do Povo


Foto: Pillar Pedreira/Agência Senado
Congresso e governo decidiram não mexer com os salários
 dos servidores públicos durante a pandemia da Covid-19.| 

A comunidade científica mundial se lançou em uma corrida para encontrar uma vacina contra o novo coronavírus, que causa a Covid-19, mas mesmo as pesquisas mais adiantadas ainda exigirão pelo menos alguns meses para chegar à população. Por enquanto, a única maneira de se tornar imune ao vírus é ser infectado por ele e se recuperar da doença. Já para alguns grupos de brasileiros, imunizar-se contra a outra consequência maléfica do coronavírus, a econômica, tem sido muito mais fácil. Enquanto empreendedores e trabalhadores da iniciativa privada pagarão, na melhor das hipóteses, com aumento no endividamento e redução de salário, e na pior das hipóteses com quebradeira e desemprego, outros garantem que não verão um centavo a menos enquanto durar a pandemia.

A paralisação súbita e abrangente da atividade econômica significará uma redução drástica na arrecadação em todas as esferas de governo. Mas, se empresários com caixa reduzido ganharam a possibilidade de negociar com sua equipe reduções de salário e jornada, esse risco não deve atingir aqueles que têm o Estado como empregador, pois não há interessados suficientes para comprar essa briga nem no Poder Executivo, nem no Poder Legislativo. A Gazeta do Povo apurou que o Ministério da Economia até havia preparado uma PEC permitindo redução em até 25% em vencimentos e jornada de trabalho de servidores do Executivo, e que o Congresso considerava importante incluir também o funcionalismo do Legislativo e do Judiciário. As resistências, no entanto, levaram o governo a recuar e o ministro Paulo Guedes chegou a alegar que reduzir salários equivaleria a retirar poder de compra dos servidores – ironicamente, o mesmo fenômeno que a equipe econômica considerou aceitável para os trabalhadores da iniciativa privada.

Não é justo que apenas a iniciativa privada, seus trabalhadores e empreendedores sejam chamados ao sacrifício econômico para que o país possa vencer o coronavírus

Mesmo assim, alguns poucos parlamentares e partidos tentam fazer com que o funcionalismo também ofereça sua cota de contribuição, aliviando a folha do governo e permitindo que mais dinheiro seja investido na saúde. Os projetos, no entanto, não caminham por vontade dos presidentes das duas casas do Congresso, convenientemente escorados no fato de não contarem com o apoio do Poder Executivo – algo que não parece ser empecilho em outros casos, como o da reforma tributária. O mais perto que se chegou de conseguir incluir o funcionalismo no esforço financeiro contra o coronavírus foram emendas do Partido Novo à PEC do “Orçamento de Guerra”. A proposta era sensata: a redução dependeria do salário do servidor, poupando aqueles com vencimentos menores, e quem estivesse diretamente envolvido no combate à pandemia não seria atingido. Mesmo assim, uma grande coalizão de direita, esquerda e centro deu respaldo ao relator da PEC, Hugo Motta (Republicanos-PB), para que ele rejeitasse as propostas.

É evidente que a demanda por serviços públicos não cai completamente com o isolamento social, e não são apenas aqueles que estão na “linha de frente”, como profissionais da saúde e da segurança pública, que seguem trabalhando normalmente; órgãos como o INSS e aqueles que gerenciam os benefícios sociais, por exemplo, precisam seguir atendendo a população, ainda que de forma remota quando for possível. No entanto, o mesmo não ocorre com várias outras áreas do poder público, em todas as esferas, e autarquias em que houve, sim, redução na produtividade – e mesmo naquelas cujo funcionamento é essencial, também haverá setores em que a demanda por trabalho está temporariamente reduzida. Que esses servidores não tenham uma redução salarial compatível com a diminuição de sua carga horária é um privilégio imoral, bancado pelos recursos justamente daqueles que estão sofrendo na pele esses cortes porque a única alternativa é o desemprego. Esta desigualdade no tratamento entre o funcionalismo e os assalariados da iniciativa privada fica ainda mais evidente quando se recorda que a média salarial em várias carreiras do funcionalismo é bem maior que a de funções equivalentes na iniciativa privada.

Não é justo que apenas a iniciativa privada, seus trabalhadores e empreendedores sejam chamados ao sacrifício econômico para que o país possa vencer o surto da Covid-19. O funcionalismo já está a salvo do medo que atinge hoje dez entre dez assalariados do setor privado e autônomos, pois o seu emprego está garantido, aconteça o que acontecer. Quando, por medo de pressões corporativistas, Executivo e Legislativo permitem que um grupo continue recebendo o mesmo salário para cumprir uma carga horária menor, ou até mesmo carga horária nenhuma, dependendo da função exercida, comete uma injustiça com todos os demais brasileiros – incluindo aquela parte do funcionalismo que continua trabalhando incansavelmente para atenuar os efeitos sanitários e econômicos do coronavírus."


Os incendiários e os bombeiros

Editorial
 O Estado de S.Paulo

A tarefa dos militares lotados no governo, como o general Braga Netto, tem sido a de proteger o presidente Bolsonaro de si mesmo e do tal “gabinete do ódio” 

O presidente Jair Bolsonaro esteve a ponto de demitir seu ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, segundo informações de bastidores que circularam em Brasília ao longo de toda a segunda-feira. Não o fez, mas isso não significa que não venha a fazê-lo no futuro próximo, a julgar pelo clima de crispação criado pelo próprio Bolsonaro, empenhado nos últimos dias em desmoralizar publicamente o ministro Mandetta mesmo diante da brutal crise sanitária causada pela epidemia de covid-19.

O motivo do recuo de Bolsonaro não ficou muito claro, assim como já não eram muito claros os motivos pelos quais o presidente estava investindo contra um de seus ministros – e não um qualquer, mas sim, justamente, aquele sobre cujos ombros está a responsabilidade de organizar os esforços do governo federal para enfrentar a epidemia. Sob a Presidência de Bolsonaro, a rigor, nada parece fazer muito sentido, a não ser para a chamada ala “ideológica” que assessora o presidente, e para a qual tudo se resume à luta pelo poder contra os “comunistas” – nome genérico de todos os que essa turma considera como inimigos.

Seja como for, o recuo de Bolsonaro em sua escalada contra o ministro Mandetta, ainda que provavelmente seja apenas momentâneo, é um indicativo de que o presidente se viu limitado pelas circunstâncias. Ou seja, teve que se conformar com as coisas como elas são, e não como os bolsonaristas radicais que o cercam gostariam que fossem.

A julgar pelo que tem sido o comportamento de Bolsonaro até aqui, no entanto, é difícil acreditar que o presidente tenha se dado conta sozinho de que não é prudente brigar tanto com a realidade, especialmente no momento em que o País mais precisa de paz para enfrentar a calamidade sanitária e econômica causada pela epidemia. No caso específico da quase demissão do ministro Mandetta, Bolsonaro voltou atrás depois de ser convencido pelo seu ministro da Casa Civil, general Walter Braga Netto, segundo revelou reportagem do Estado.

Essa informação confirma o papel de “gerente” do governo assumido pelo ministro Braga Netto, formalmente escalado para comandar o comitê de crise que coordena as ações do governo durante a epidemia. A Casa Civil tem entre suas funções primárias justamente a de coordenar a ação do Ministério, mas atualmente, em razão das características caóticas da governança de Bolsonaro, seu titular também está tendo de fazer entrar em forma a própria Presidência.

Assim, o ministro Braga Netto, general que se destacou ao liderar a intervenção federal no Rio de Janeiro em 2018, parece trabalhar ao mesmo tempo como uma espécie de moderador no Palácio do Planalto em face do avanço da ala “ideológica” dentro do governo – a ponto de um de seus principais expoentes, o vereador Carlos Bolsonaro, filho do presidente e líder do chamado “gabinete do ódio”, ter ganhado uma sala ao lado do gabinete do pai. Não à toa, partem de Carlos Bolsonaro alguns dos piores ataques nas redes sociais aos militares que estão no governo e que, como Braga Netto, tratam de temperar os ímpetos voluntaristas do presidente.

A tarefa dos militares hoje lotados no governo, portanto, tem sido a de proteger o presidente Bolsonaro de si mesmo e do tal “gabinete do ódio”, dirigido a distância por um ex-astrólogo que mora nos Estados Unidos. Essa figura extravagante, ao exigir a demissão de Luiz Henrique Mandetta, escreveu nas redes sociais que o ministro da Saúde “é o exemplo típico do que acontece quando um governo escolhe seus altos funcionários por puros ‘critérios técnicos’, sem levar em conta a sua fidelidade ideológica”.

Ao desestimular a demissão do ministro Mandetta, o general Braga Netto e outros que nisso se empenharam provavelmente atuaram pela lógica segundo a qual essa atitude intempestiva minaria o governo a ponto de ameaçar sua própria continuidade. É justamente esse clima de confronto e até de ruptura que interessa muito aos fanáticos do “gabinete do ódio”, que apostam no caos, mas não interessa nada ao País, que precisa desesperadamente de tranquilidade política para atravessar a tormenta.

Bolsonaro, Mandetta e a gestão da divergência

Gazeta do Povo (Paraná)


Diz o manual do bom gestor que os elogios são feitos em público e as críticas, em particular. Infelizmente, não é o que vem ocorrendo com o presidente Jair Bolsonaro em sua relação com o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta. A origem do choque está na divergência sobre a melhor forma de lidar com a pandemia do coronavírus, especialmente no que diz respeito ao isolamento e à reabertura dos negócios. Quem afirmava que as discordâncias entre ambos eram uma invenção da imprensa para enfraquecer o governo teve de ouvir Bolsonaro dizer, na última quinta-feira, em entrevista à rádio Jovem Pan, que “Mandetta já sabe que estamos nos bicando há algum tempo”, que “em algum momento ele extrapolou” e que “está faltando um pouco mais de humildade” ao ministro. 

No domingo, o presidente voltou a falar de pessoas em seu governo que “estão se achando” e “viraram estrelas”, mas foi além. Em uma verdadeira ameaça velada, acrescentou que “vai chegar a hora deles”, ou seja: em vez de resolver definitivamente o que parece ser um problema óbvio, o presidente prefere manter no governo quem lhe causa transtornos, contando com um acerto de contas futuro. Bolsonaro não citou nomes, mas, dado todo o contexto, não é absurdo supor que ele estivesse se referindo ao ministro da Saúde.

Não surpreende que, depois da entrevista em que Bolsonaro confirmou o choque com seu ministro, tenham crescido os pedidos pela demissão de Mandetta – um dos mais recentes veio de Olavo de Carvalho, mentor ideológico de parte do governo. Relatos palacianos dão conta de que a demissão poderia ter ocorrido na tarde desta segunda-feira, mas ministros da ala militar convenceram Bolsonaro a manter Mandetta. Mesmo assim, os rumores persistem e existe até mesmo um nome para o cargo, o de Osmar Terra, que já esteve no primeiro escalão de Bolsonaro, ocupando a pasta da Cidadania até fevereiro deste ano. Isso apesar de uma recente pesquisa do instituto Datafolha ter apontado que 82% dos eleitores do presidente apoiam o modo como o Ministério da Saúde vem conduzindo a prevenção e o combate ao coronavírus. Até agora, o ministro tem respondido a tudo sem elevar o tom, embora não deixe de demonstrar incômodo com a situação, como quando afirmou que “quem tem mandato fala, quem não tem trabalha”. 

O debate sobre a reabertura de estabelecimentos comerciais e industriais é não apenas legítimo, mas necessário. À medida que o isolamento social se prolonga, os efeitos na economia são sentidos de forma mais intensa, e “a economia” não é um ente abstrato e impessoal, e sim milhões de pessoas afetadas: autônomos que estão sem trabalho algum, assalariados que perdem seus empregos, empresários sem capital de giro. Muitos deles, especialmente os mais pobres, mais cedo ou mais tarde terão seu sustendo ameaçado, se é que já não estão passando por necessidade. Há casos em que nem mesmo as medidas que o governo vem tomando – acertadamente, é preciso lembrar – serão capazes de atenuar as dificuldades.

Com duas situações tão graves na balança, divergências são algo natural – como, aliás, em muito do que diz respeito à Covid-19 até agora, desde as projeções de casos e mortes até a eficácia deste ou daquele tratamento –, agravadas, no caso brasileiro, pela falta ou pela defasagem dos dados que dariam uma dimensão real da doença, graças à dificuldade em se testar massivamente a população. De cada lado deste debate há pessoas de boa fé, que, analisando os dados disponíveis, com toda a honestidade de consciência defenderão determinadas formas de lidar com a pandemia. E Bolsonaro não descarta que seu ministro tenha razão, pois na mesma entrevista afirmou que “pode ser que ele [Mandetta] esteja certo”.

“Se ele se sair bem, sem problemas”, ainda disse Bolsonaro à Jovem Pan – na verdade, poderia ser muito mais que isso. O sucesso de Mandetta poderia ser também o sucesso de Bolsonaro como chefe e como gestor de uma equipe que, como já lembramos em outra ocasião, não conta apenas com o ministro da Saúde no combate à pandemia. As divergências seriam tratadas de maneira privada enquanto se buscam consensos ou se fazem concessões. O próprio Mandetta não tem se mostrado inflexível; apesar de defender a manutenção das medidas restritivas neste momento, já criticou o modo como elas foram implantadas e também falou em um planejamento para a reabertura dos negócios. Essa reativação precisará ocorrer em algum momento; o Ministério da Saúde poderia colaborar oferecendo critérios (relativos, por exemplo, à estabilização na curva de contágio ou à capacidade das redes hospitalares) que sejam aceitáveis para que se pense no fim do isolamento?

Por fim, se as divergências realmente continuarem insanáveis e não houver uma mudança sincera de posicionamento em nenhum dos lados, Bolsonaro não precisa continuar lembrando a nação de que “tem a caneta na mão”; basta usá-la. Será mais honesto com Mandetta do que continuar fritando e ameaçando publicamente seu ministro, como já fez com outros que deixaram o governo. Mas que Bolsonaro também tenha a consciência de que, se fazer valer a própria convicção é legítimo em se tratando do chefe do Executivo, o resultado – bom ou ruim – não poderá ser “terceirizado” para seu novo ministro, especialmente se o critério de escolha for justamente a afinidade com as ideias do presidente.


Por que o Brasil é obrigado a obedecer as ordens da OMS?

J.R.Guzzo:, 
O Estado de S.Paulo

Essa é uma pergunta para tantas eminências em infectologia e demais disciplinas da ciência médica sobre o combate ao novo coronavírus

  Foto: EFE/EPA/SALVATORE DI NOLFI
Sede da OMS, em Genebra, na Suíça 

O Brasil é um país complicado para quem discorda de alguma autoridade pública, seja o presidente do Supremo Tribunal Federal ou o guarda da esquina. Você tem o direito, é claro, porque está escrito na Constituição, mas é mais ou menos como o direito do torcedor do Corinthians ir gritar “Vai Curíntia” no meio da torcida do Palmeiras – melhor não, não é mesmo? No caso de discordar das autoridades que representam as nossas “instituições”, o cidadão, se estiver num dia de sorte, pode até não ser punido com alguma represália. Mas não vai escapar de ser considerado um idiota. Por definição, ter qualquer opinião diferente é um erro – e, além disso, um atrevimento. Se quem manda sou eu, como é que alguém pode discordar de mim? Se eu mando é porque só eu sei, e se só eu sei todo mundo tem de calar a boca.

Assim sendo, vamos deixar claro, desde já, que as observações feitas a seguir não significam, pelo amor de Deus, nenhuma discordância com os vigilantes das “instituições”, mas um mero pedido de esclarecimento para uma dúvida. A dúvida é a seguinte: “Onde está escrito, na Constituição Federal ou em qualquer lei no momento em vigor no território nacional, que um cidadão brasileiro, do presidente da República ao flanelinha do sinal de trânsito, é obrigado a obedecer, aqui dentro do Brasil e em questões internas do país, a alguma ordem dada por autoridades estrangeiras?” O Brasil, com certeza, assinou uma infinidade de tratados internacionais em seus 198 anos de independência. Mas nenhum deles obriga o governo brasileiro a abrir mão de sua soberania, ou sujeita o cidadão a cumprir leis, decretos, regras ou qualquer coisa estabelecida lá fora.

Diante disso, solicita-se com todo o respeito às autoridades que têm baixado seguidas bulas de excomunhão sobre o tema, a seguinte gentileza: daria para explicar por que o governo da República Federativa do Brasil, ou a Prefeitura Municipal de Brejo Seco, ou o cidadão comum em dia com os seus deveres legais, seriam obrigados a obedecer as ordens da Organização Mundial de Saúde quanto a covid-19? Já que o assunto é esse, seria uma boa oportunidade para se fazer mais uma pergunta – ao ministro Gilmar Mendes, do STF, à ex-presidente Dilma Rousseff e outras tantas eminências em infectologia e demais disciplinas da ciência médica. Por que o não cumprimento das determinações da OMS levaria o Brasil a um “genocídio”? Em que eles se baseiam para dizer isso? Dilma, em seu último manifesto sobre a epidemia, falou na possibilidade de “até 1 milhão de mortos” caso não seja cumprido rigorosamente o “confinamento horizontal”, pois as “famílias também são horizontais”, o vírus “é esperto” – bom, é melhor ir ficando por aqui.


Mandetta fica, mas Bolsonaro tem que decidir entre Olavo e as instituições

Sérgio Praça
Exame.com

Bolsonaro terá que escolher, cedo ou tarde, entre um grupo ideológico leal a qualquer custo e o resto dos cidadãos

REUTERS/Ueslei Marcelino (/)
MANDETTA: coletivas só com o Ministro da Saúde foram suspensas pelo governo. / 

Virou piada, há tempos, a ideia de que “as instituições brasileiras estão funcionando”. Injustiça. Congresso, Supremo e a presidência da República estão legalmente constituídos e com independência formal. A Constituição está de pé. As instituições não estão em “frangalhos”, para lembrar um famoso editorial d’O Estado de S. Paulo logo após o AI-5. Mas, na feliz formulação de Cláudio Couto há algumas semanas, raras vezes o sistema político brasileiro passou por um “teste de estresse” tão intenso.

Isso se evidencia, especialmente, em disputas políticas cujos contornos formais são imprecisos. Como se sabe, o presidente brasileiro pode nomear quem quiser para seu ministério. Em termos técnicos, uma nomeação ministerial é regida por um contrato incompleto (e tanto!). Ao ministro cabe equilibrar competência técnica (sua e/ou de sua equipe) com responsividade política – tanto aos eleitores do presidente quanto aos congressistas e suas siglas partidárias. Mas isso não consta de documento formal.

Há imprevistos em qualquer política pública. E o ministro reage a eles.

Em tempos normais, o desempenho do ministro é avaliado informalmente pelos partidos políticos (inclusive o seu próprio, quando há); pelo presidente; pela imprensa e, em raros casos, pelo público em geral. No governo Bolsonaro, organizações partidárias não cumprem esse papel. Quem avalia se um ministro está indo bem ou mal são os jornalistas e o presidente.

Com a crise do coronavirus, o elemento novo é que os cidadãos não só estão prestando atenção ao Ministério da Saúde como avaliando muito bem o ministro Luiz Henrique Mandetta (DEM). Para seu azar, Mandetta é pró-ciência, ao contrário de Olavo de Carvalho, o comandante do grupo ideológico que circunda Bolsonaro. O presidente superestima a importância das redes sociais como termômetro da conjuntura política. O olavismo só existe, de fato, no Twitter. Seu apelo fora da internet é minoritário.

Nesta segunda-feira, 6 de Abril, os responsáveis pela conta de Bolsonaro no Instagram se depararam com mensagens favoráveis a Mandetta, ameaçadíssimo de demissão. Pouco depois das 20h, em uma coletiva, Mandetta diz que fica. Um exemplo típico (sem edição): “Arrependimento do meu voto em você presidente, demitir o melhor ministro da saúde que tivemos”. (Vale dizer que a autora do comentário se precipitou e está acompanhada de outros comentaristas que atacam Mandetta.)

Aos poucos, Bolsonaro começa a mostrar fraqueza até na internet. Que não é “instituição”, mas está funcionando.

(Este artigo expressa a opinião do autor, não representando necessariamente a opinião institucional da FGV.)

Mentiras nos EUA luzem sob o sol; na China seguem escondidas

Demétrio Magnoli
Folha de São Paulo

“Na guerra, a primeira vítima é a verdade.” Essa verdade célebre, cuja autoria atribui-se tanto ao senador americano isolacionista Hiram Johnson (1918) quanto ao grego Ésquilo, o pai da tragédia, no século 5º a.C., vale também para a Peste Negra em curso. Mas as mentiras são diferentes: nos EUA, luzem sob o sol; na China, seguem escondidas abaixo da superfície.

Donald Trump mentiu ininterruptamente, retardando a preparação dos EUA para enfrentar a pandemia.

No fim de janeiro, disse à rede CNBC: “Temos isso sob controle total. É uma pessoa vinda da China, e a temos sob absoluto controle”. No início de fevereiro, gabou-se na Fox News: “Nós basicamente desligamos isso, que vinha da China”.

No final de fevereiro, garantiu que “isso é mais ou menos como a gripe; logo teremos uma vacina” e, referindo-se ao número de infecções, acrescentou: “Vamos substancialmente para baixo, não para cima”. Os EUA tinham, então, 68 casos; hoje, são 240 mil.

No meio de março, quando finalmente admitiu que o vírus “é muito contagioso”, ainda adicionou: “Mas temos tremendo controle sobre isso”.

A mentira trumpiana é uma narrativa política em constante mutação. Apoia-se nas muletas dos “jornalistas” chapa-branca e do aparato de difusão de fake news da direita nacionalista nas redes sociais.

Acredita quem quer —e não são poucos. Contudo, ela concorre com as vozes discordantes, que não são caladas pela força, e sobretudo com a verdade (factual), que emana tanto de órgãos oficiais quanto da imprensa independente. A hora da verdade (política) chega nas eleições, ocasião em que a maioria decidirá se prefere a mentira.

A China também mente sem parar, mas de modo diferente, fabricando uma “verdade” paralela.

A mentira chinesa tem raízes fincadas no chão do controle social totalitário. Ela se espraia por toda a vida cotidiana, propiciando a manipulação centralizada das estatísticas hospitalares —isto é, da fonte primária de informações sobre a natureza da crise.

Há indícios alarmantes de que os números fornecidos pelo governo chinês miniaturizaram a epidemia. Nos EUA, estima-se que a Covid produzirá entre 1 e 3 milhões de casos positivos e algo entre 100 mil e 240 mil mortes.

Já na China, situada em latitude semelhante e com mais de quatro vezes a população americana, a Covid teria praticamente estancado, com menos de 83 mil casos acumulados e cerca de 3.200 mortes. O contraste intriga os mais respeitados epidemiologistas —inclusive Deborah Birx, coordenadora da força-tarefa dos EUA para o coronavírus.

No centro do mistério está a contabilidade de óbitos. Os casos pioneiros da Covid em Wuhan ocorreram em dezembro, mas a notícia foi interditada e os médicos que os relataram, silenciados. A quarentena começou em 23 de janeiro. O vírus teve mais de três semanas para se disseminar, enquanto comemorava-se o Ano-Novo chinês.

Testemunhos anônimos de agentes de saúde chineses dão conta de incontáveis internações sem testagens e centenas de óbitos atribuídos a influenza ou pneumonia. No final de março, veículos online chineses publicaram fotos, tomadas por cidadãos comuns, de milhares de urnas funerárias ainda alinhadas em crematórios de Wuhan.

A OMS (Organização Mundial da Saúde) nada viu de estranho nos números chineses —e celebra a “eficiência” totalitária de Xi Jinping. Tedros Adhanom, seu diretor-presidente, eleito com decisivo apoio chinês, um ex-integrante do núcleo duro do governo autoritário etíope, não parece alimentar dúvidas entre as alternativas de assegurar a bilionária parceria da China com a OMS ou proteger a verdade (estatística).

Mas, de acordo com relatórios sigilosos da inteligência americana que começam a vazar, a China engajou-se na fabricação de uma mentira monumental, iludindo o mundo.

Mentiras são diferentes. Todas elas, porém, cobram vidas.


Ímpeto suicida

Eliane Cantanhêde, 
O Estado de S.Paulo

Quebra criminosa do isolamento de Norte a Sul vem de cima, do isolado nº 1

Com o coronavírus ultrapassando a barreira de mais de cem mil mortos no nosso mundo e mais de mil no nosso Brasil, as pessoas parecem não entender, sofrem uma intrigante negação da realidade e estão voltando às ruas em todas as capitais, de Norte a Sul do País. Por que Manaus e Porto Alegre, Cuiabá e Recife, São Luís e São Paulo fazem esse movimento suicida ao mesmo tempo? Porque a ordem, ou o exemplo, vem de cima. Vocês sabem de quem. E não vão esquecer.

Seria impossível desconhecer e esquecer que o isolado número 1 do País estimula manifestações contra o Supremo e o Congresso, toca pessoas e celulares na frente do Planalto, mistura-se e tira selfies com cidadãos em três locais do Distrito Federal, descumpre decreto do DF para comer numa padaria, causa aglomeração em frente a uma farmácia. É tão inacreditável que se torna inesquecível.

Não satisfeito, o isolado número 1 corre atrás de governadores, e do prejuízo político, inaugurando uma forma inédita de compra de apoios: o toma lá dá cá em tempos de coronavírus. Oferece mundos e fundos para reduzir o impacto econômico da pandemia nos Estados, desde que relevem a preocupação com a mortandade e relaxem o isolamento. Ou seja, façam como na ditadura militar: “Às favas os escrúpulos de consciência”.

A pressão se estende para o Dr. Ronaldo Caiado e a aposta é que este não ceda e não troque recursos por vidas em Goiás, mas o empresário Romeu Zema saiu alegrinho do Planalto, voltou para Minas em atrito com o prefeito de Belo Horizonte, Alexandre Kalil, e acena com abrandamento do isolamento bem no pico da contaminação.

O advogado Ibaneis Rocha também saiu outro das conversas com o governo federal. Primeiro governador a decretar a suspensão das aulas - então com a oposição até do ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta -, ele agora relaxa o isolamento, única forma de prevenção contra o vírus.

Ibaneis liberou a volta ao trabalho em diferentes setores do DF, como o de móveis e eletrodomésticos. Ué?! Será que móveis e eletrodomésticos são serviços essenciais, ou é só para aumentar a aglomeração em pontos, ônibus e metrô? Como lembrança, o DF tem 16,9 contaminados por cem mil habitantes e é o quarto na fila para entrar na “fase descontrolada”. Hora ideal para mandar as pessoas para as ruas, não é?

Enquanto o isolado número 1 - que, aliás, nunca exibiu seus pelo menos três testes para o coronavírus - tenta quebrar o próprio isolamento político na base do homem a homem, continua a guerra do socorro aos Estados na Câmara, trocando o varejo do Planalto pelo atacado do Congresso. Mas Paulo Guedes bate pé contra o que chama de “bomba fiscal”, Rodrigo Maia fecha com os Estados (sobretudo com o seu Rio de Janeiro...) e as bancadas se dividem, cada uma pensando na sua região, no seu governador.

Essa guerra entre União e Estados, e entre o isolado número 1 e os governadores, extrapola a linha sanitária, política e educada e cai no jogo sujo das redes sociais. Os principais alvos são Mandetta, que ousa usar critérios técnicos e científicos para as pessoas não morrerem e não matarem, e João Doria, que não é visto como o governador que enfrenta a situação mais desesperadora, com metade dos contaminados e mortos, mas sim como adversário político.

Depois de guerras e tsunamis, chega a hora de contar mortos e feridos e avaliar a atuação dos líderes, generais e tropas, com base nos erros e acertos das estratégias, comandos e ações. O coronavírus será o divisor de águas nas eleições de 2022. O risco do isolado número 1 é ocupar o lugar do PT em 2018, com o eleitor aglutinando para qualquer um que não seja ele. A grande pergunta tende a ser: quem é capaz de derrotar essa ameaça à saúde, à vida e à Nação?

Teremos que conviver com o coronavírus

Samuel Pessôa
Folha de São Paulo

Já sabemos que ficaremos muitas semanas presos em casa. Essa é a estratégia correta para impedir que a evolução da epidemia não leve o sistema de saúde ao colapso. E, consequentemente, que não subam muito os óbitos por Covid-19 e por todas as outras doenças e emergências que ocorrem normalmente.

Até há pouco, a impressão que se tinha é que a epidemia passaria e em seguida teríamos vida normal.
Não vai ser assim. A epidemia passar significa uma das três possibilidades: haver uma vacina; haver um remédio que reduza muito a gravidade e o tempo de internação; ou o vírus ter se espalhado e a população ter se imunizado naturalmente. Era por essa última forma que as epidemias antigas terminavam.

Ou seja, em algumas semanas, quando o nível da infecção estiver baixo e iniciarmos medidas para normalizar nossas atividades, a vida não voltará a ser como antes. Teremos que conviver com o vírus.
Homem usando máscara compra peixes de um comerciante no porto de Manaus – Bruno Kelly/Reuters

Quais são as medidas? Primeiro, atacar o maior gargalo, a falta de leitos hospitalares específicos para gripes respiratórias graves, devidamente equipados e com recursos humanos adequados.

Para que haja progressão mais rápida da imunização natural, teremos que conviver com um número maior de doentes. É necessário nos prepararmos para tratá-los.

Se houver uma normalização parcial de nossas vidas, teremos que conter a epidemia. Diferentemente da estratégia de distanciamento social, que visa a supressão das atividades para impedir a progressão da epidemia, a contenção corre atrás do vírus sempre que ele aparece. Uma espécie de corrida de gato e rato.

Assim, quando alguém com os sintomas aparece, vai imediatamente para quarentena. Adicionalmente, procuram-se as pessoas que entraram em contato com o infectado, que também são enviadas imediatamente para a quarentena.

Para procurar o vírus, se adotará a prática de medição da temperatura em diversos locais, bem como deverá haver uma política de testagem em massa. Aquelas pessoas que já foram expostas ao vírus e que não transmitem podem voltar às suas atividades regulares.

Nesse cenário que se desenha, atividades que envolvam grandes aglomerações serão evitadas —muitos meses, ou até anos, sem jogos de futebol com público ou shows de rock—, assim como o controle das fronteiras e das viagens internacionais será muito maior. Em Singapura, todos que chegam do estrangeiro vão para a quarentena.

A vida no espaço público será outra. Utilizaremos sempre máscaras, principalmente para proteger os demais. A disposição das mesas nos restaurantes será alterada, e a vida doméstica será valorizada.

E, mesmo em Singapura, que tem praticado a melhor política de contenção do vírus, foi observado nos últimos dias um reaparecimento em escala maior da epidemia. O governo de Singapura avisou que, a partir da próxima terça-feira (7), adotará a supressão plena das atividades, com exceção das essenciais, por um mês.

Há notícias de que, em certas localidades na China, que caminhavam para a normalização de algumas atividades, como sessões de cinema, houve recuo.

Do ponto de vista econômico, o choque tem sido liquidamente desinflacionário. Há queda da demanda e da oferta, mas o recuo da primeira tem superado o da segunda. Tem sido assim na China.

Por aqui, aparentemente iremos adotar uma política de manutenção das rendas, e não somente dos menores salários, que será financiada pela elevação da dívida pública. Não sei como pagaremos essa conta quando a epidemia passar.

De quem será a conta da pandemia?

Carlos Pereira*, 
O Estado de S.Paulo

O presidente pode se beneficiar ao empurrar para governadores o custo econômico da pandemia

Quem, afinal de contas, é o responsável pela gestão das crises de saúde e econômica criadas pela pandemia do Covid-19?

É certo que, em situações de normalidade, o chefe do Executivo não é capaz de transferir responsabilidade pelo desempenho de políticas macro ou universais para outros. Por exemplo, se a inflação e/ou desemprego aumentam, o presidente será inexoravelmente responsabilizado. Por outro lado, se os indicadores da atividade econômica melhoram, é também o chefe do Executivo federal quem será capaz de extrair os maiores benefícios políticos decorrentes dessa boa performance.  

Essa responsabilização do presidente decorre da distribuição geográfica da sua representação política. Como recebe votos em todo o território nacional, é dele a responsabilidade de políticas nacionais. Os legisladores e governadores, por sua vez, por serem eleitos por uma base geográfica delimitada, respondem às preferências das redes locais e estaduais de interesse, respectivamente. 

Será que esse perfil de responsabilização seria também observado quando o País é acometido de choques exógenos de grande magnitude, como a atual pandemia do Covid-19? 

A pandemia criou um novo tipo de polarização política no Brasil. Governadores e legisladores, de um lado, têm apresentado preocupação com os riscos de estrangulamento do sistema de saúde causado pela pandemia, que pode levar a um grande número de vítimas fatais. Como resposta, os governadores têm implementado medidas muito duras, como o fechamento de escolas, cinemas, praias, teatros, e comércio em geral. 

De outro lado, Bolsonaro tem minimizado os riscos de contágio bem como os impactos epidemiológicos da doença. Sua maior preocupação tem se concentrado nas consequências negativas que medidas de isolamento social acarretam para a economia.

O presidente tem tentado transferir para outros atores políticos a responsabilidade pela potencial diminuição ou mesmo recessão da atividade econômica. A estratégia do presidente será bem-sucedida?

Para responder a essa e a outras perguntas, eu e minha colega da FGV EBAPE, Amanda Medeiros, fizemos, com apoio do Estadão, uma pesquisa experimental via WhatsApp. Uma das perguntas quis justamente saber quem seria o principal responsável pelo controle e consequências da pandemia do Covid-19. Os resultados preliminares, obtidos com uma amostra de 1148 respondentes, indicam que 79,5% responsabilizam o presidente e apenas 19,5% os governadores. 

A maioria dos respondentes acredita que o presidente não está fazendo um bom trabalho (68%). Entre os que avaliam positivamente o presidente, 72% se identificam como de direita e 9% como de esquerda, o que evidencia uma grande polarização. Por outro lado, essa polarização não ocorre na avaliação do desempenho positivo dos governadores (75% dos respondentes), dos quais apenas 20% e 19% se identificam como de esquerda e direita, respectivamente. 

Os respondentes também foram aleatoriamente submetidos a dois choques informacionais: 1) consequências negativas para a saúde, com crescimento exponencial do número de mortes; e 2) para a economia, com retração de 3 pontos percentuais do PIB. Surpreendentemente, receber as manipulações aumenta a chance de as pessoas avaliarem mal o trabalho do governador e de avaliarem bem a atuação de Bolsonaro.

Portanto, o comportamento do presidente de minimizar as consequências da pandemia e enfatizar o impacto para economia, tido por alguns como irracional, pode vir a se revelar uma estratégia bem-sucedida. 

Análises mais aprofundadas da pesquisa serão publicadas em breve. 

O sal da terra

Eurípedes Alcântara
O Globo

Os poderosos calçaram os sapatos Church’s da humildade. Donald Trump agora elogia a imprensa e prepara os Estados Unidos para tempos ainda mais duros. Bolsonaro classifica a crise atual como “o maior desafio de uma geração”. A continuação do mundo como o conhecemos depende hoje cada vez mais dos trabalhadores essenciais, uma categoria de pessoas antes secundárias na ordem natural das coisas, na perspectiva dos poderosos. Os garis nos olham de cima para baixo. As enfermeiras recuperaram o orgulho primevo de Ana Néri e Florence Nightingale. Os médicos, na falta crônica de aventais, máscaras e luvas, estão escudados pelo Juramento de Hipócrates e sua nobre declaração em defesa da “integridade da vida e assistência aos doentes” e o “desprezo pela própria pessoa”.

Com seus míseros 120 bilionésimos de metro, o novo coronavírus parece ter libertado “os melhores anjos da natureza humana”, na expressão de Steven Pinker, psicólogo e linguista canadense, professor da Universidade Harvard. Nunca como agora foi tão atual a canção “Salt of the Earth” (“Sal da terra”), dos Rolling Stones, aquela banda britânica de rock cujos integrantes já estão há uns bons 20 anos no grupo de risco. Sal da Terra é uma frase bíblica e se refere, em última análise, justamente aos trabalhadores essenciais, pessoas que os Stones em 1968 tentavam em vão identificar entre “uma multidão sem rosto/ uma massa cinza, preto e branca/que não parece real/ e, de fato, parece muito estranha.” Para essa, “gente que trabalha duro… os humildes de berço”, os Stones levantavam um brinde e pediam orações.

Salários em dia, um brinde e orações — que funcionam mesmo para quem não acredita nelas, como ensinava Haskell Besser, rabino símbolo de Nova York — para os enfermeiros, médicos, parteiras, paramédicos, assistentes sociais, voluntários, produtores e distribuidores de remédios e equipamentos de proteção médica; para os funcionários da Justiça, os religiosos das instituições de caridade, os coveiros, os motoboys os soldados das polícias e das Forças Armadas; para os que continuam atendendo nos“call centers”, nos portos e na manutenção da infraestrutura de TI e de dados; para os carteiros, os entregadores, os motoristas de ambulância e os garis. Enfim, para todos que, mesmo sem terem feito o Juramento de Hipócrates, não deixam de cumprir funções essenciais, colocando em risco a própria vida.

Não é de hoje que as imagens bíblicas afloram quando as coisas estão ruins e ainda vão piorar antes de começarem a melhorar. Em uma das cartas da famosa colaboração epistolar entre os escritores Ernest Hemingway e F. Scott Fitzgerald, o autor de “Por quem os sinos dobram” esbraveja: “Estou aqui imprecando contra a Bíblia pois não encontro nem um título (que não tenha sido usado antes)… Todos os grandes títulos de livros foram tirados da Bíblia até onde li, Fitz… Vou escavar agora o ‘Eclesiastes’ e os ‘Provérbios’, onde deve ter ainda algumas propriedades valiosas enterradas”.

A crise trazida pelo novo coronavírus e a descomunal reação mundial contra sua propagação, ao que tudo indica até aqui, vai piorar antes de começar a melhorar. Depois vem o período de ladeira acima. A ver como as famílias, os governos, as empresas e os mercados vão recuperar a saúde financeira dilapidada no combate à epidemia. Esse cenário parece distante agora que a prioridade óbvia é minimizar o número de vítimas fatais da Covid-19. Mas a conta vai chegar. As previsões variam de pouco otimistas (recessão) a devastadoras (estagnação). A diferença entre uma e outra é abismal. Só no período posterior à Segunda Guerra Mundial o mundo enfrentou dezenas de recessões. Elas duram em média dez meses e são seguidas de períodos de crescimento. Estagnação, só uma, a que se abateu sobre o mundo depois da quebra dos mercados financeiros em 1930. Ninguém sabe dizer ao certo qual a duração ou a profundidade de uma potencial estagnação econômica pós-coronavírus. A única certeza é que sem o sal da Terra nem sequer chegaremos a saber.

Falso dilema

Adriana Fernandes
O Estado de S.Paulo

É falso o dilema entre salvar vidas e ter cuidado com as contas públicas. O cofre não está fechado para o resgate dos brasileiros que estão sem poder trabalhar devido ao isolamento recomendado por autoridades de saúde.  

Quem tenta colocar carimbo de insensível naqueles que defendem o cuidado com as contas públicas em tempos de pandemia da covid-19 não está vendo ou não quer ver o problema sob uma visão mais ampla. Esse tipo de crítica só serve para lacração barata nas redes sociais. Mais uma opção pela polarização de apenas dois lados: o mau e o bom; adversários e aliados do governo Jair Bolsonaro.

Quem defende o zelo fiscal também deve e está defendendo a expansão das despesas, do endividamento público, para salvar vidas humanas, socorrer os mais vulneráveis, os informais, o emprego dos trabalhadores com carteira assinada e a sobrevivência das empresas. 

Deve-se criticar a velocidade das medidas e a briga política do presidente Jair Bolsonaro com governadores e congressistas. No Brasil, essa disputa foi acirrada e chegou a níveis perigosos em tempos de crise. E já custa caro. 

A inércia do governo no início da pandemia, a pressão para o afrouxamento do isolamento, os entraves burocráticos num País onde tudo é muito amarrado, a começar pela legislação retardaram o socorro. Tudo isso é verdade.

Mas a despeito de todos esses problemas, o governo federal, governadores e prefeitos estão tomando mais medidas em único mês do que em muitos anos. As regras fiscais foram e estão sendo alteradas para abrir espaço para mais gastos. O que se fez já custa o tamanho de uma reforma da Previdência, que demorou anos para ser aprovada.

O cheque para o socorro está aumentando e vai crescer mais com o resgate do Banco Central via compra de dívidas das empresas. A medida está na Proposta de Emenda à Constituição (PEC), batizada de “orçamento de guerra”, que deverá ser aprovada pelo Senado na próxima semana.

A PEC é um marco, sem dúvida. Foi construída e votada rapidamente na Câmara, com votação para lá de expressiva. Histórica. Muitos que a criticavam, no início, estão aos poucos revendo posição. A emenda constitucional retira as amarras para abrir o cofre. E, sim, busca salvar vidas com mais dinheiro para ações de combate a covid-19.

A PEC é um cheque em branco dado a Bolsonaro para os gastos? É. Mas tem seus mecanismos de controle durante e após a crise.

A ideia da PEC foi negociada e levada adiante pelo presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ). Com articulação, ele reuniu apoio e colaboradores políticos para aprová-la em tempo recorde, enquanto a equipe econômica se debatia com a burocracia das regras fiscais, com temor de punições futuras pelos órgãos de controle. Ninguém vai conseguir tirar esse mérito dele. Muito menos seus adversários mais raivosos no centro do poder da capital federal.

Mas, passada uma semana da votação da PEC, a mesma Câmara presidida por Maia deu asas para construir uma proposta de socorro emergencial aos Estados e municípios com uma série de concessões aos governadores que vão muito além das necessidades diante da covid-19.

Aproveitaram a crise para tentar resolver problemas antigos e, em alguns casos, muito específicos, como o perdão de dívida passada. Não é hora para isso. Uma nova renegociação com os governos regionais está a caminho, para depois da crise. Mas é preciso fazê-la com coordenação.

A votação do projeto foi adiada para a próxima semana em meio à guerra de números entre equipe econômica, Câmara e economistas que alertaram se tratar de uma “bomba fiscal” para os próximos anos.

Nesse espaço conflagrado, os críticos correm para taxar os defensores da saúde das finanças públicas como os vilões do pedaço.

Isso não quer dizer que os Estados e prefeituras não têm que receber socorro do governo federal. Está demorando. Eles não podem emitir dívida no mercado para se financiar como o Tesouro Nacional.

O cheque em branco da PEC é para isso. Bolsonaro e o seu ministro da Economia, Paulo Guedes, terão que aumentar as transferências voluntárias para os governadores e prefeitos. Por outro lado, a Câmara tem que desarmar urgentemente a bomba que começou acionar.




A revolta da cloroquina

Vera Magalhães, 
O Estado de S.Paulo

Assim como a reação à vacina em 1904, a apologia a um remédio é irracional e perigosa

Cada epidemia que assola a humanidade tem seus surtos de irracionalidade, ignorância e aproveitamento político associados. Não é diferente com a covid-19, e o fenômeno não é uma exclusividade do Brasil, embora por aqui estejamos nos esforçando para passar à frente no campeonato desses efeitos incidentais.

Em 1904, o Rio de Janeiro viveu a Revolta da Vacina. O presidente Rodrigues Alves nomeou o médico sanitarista Oswaldo Cruz para tentar conter os surtos concomitantes de varíola, febre amarela e peste bubônica, que assolavam uma população crescente que vivia em condições sanitárias precárias. A obrigatoriedade de vacinação para a varíola, aprovada pelo Congresso, foi o estopim para uma revolta popular instrumentalizada por grupos políticos em novembro daquele ano.

Mais de um século depois, diante da pandemia do novo coronavírus, outra reação irracional e perigosa, insuflada por políticos e seus apoiadores, confunde a população e desarticula a estratégia nacional para o combate à propagação do vírus.

Trata-se da pregação do uso de cloroquina e hidroxicloroquina no tratamento da covid-19. Na última semana, o debate, que já era intenso nas hostes bolsonaristas, ganhou emissoras de TV aberta, fez com que o ministro da Saúde, Luiz Mandetta, fosse forçado a se pronunciar e colocou na berlinda até médicos conceituados, instados por comunicadores a dizer se haviam ou não usado os medicamentos em seus próprios tratamentos.

O uso dos dois fármacos no tratamento da covid-19 é controvertido: resultados positivos na evolução de alguns pacientes são relatados pelo mundo, bem como complicações que não só não resultam na propalada cura como pode fazer com que os pacientes evoluam para óbito.

Seu uso mais efetivo, até aqui, foi observado em laboratório, em dosagens e condições que não podem ser replicadas em pacientes. Seu efeito tem sido mais efetivo quando em associação com outras drogas, como antirretrovirais e corticoides. Esse coquetel só pode ser prescrito por médicos, de acordo com o histórico e as condições de cada doente.

Mas não é isso que se vê nas insanas redes sociais e na movimentação deliberada de Jair Bolsonaro. O que se tem é uma propaganda irresponsável dos poderes da cloroquina e da hidroxicloroquina, sem comprovação científica que a ampare. Chegou-se ao ridículo de parlamentares sempre dispostos a pagar mico para bajular Bolsonaro subirem hashtags como #RemediodoBolsonaro e #JairNobeldaPaz.

A “revolta” da cloroquina e da hidroxicloroquina embute riscos graves. O primeiro e mais evidente é contrapor seu efeito “milagroso” à necessidade de isolamento social, como se o uso liberasse as pessoas a relaxarem a quarentena. O efeito da semana da histeria cloroquínica foi justamente esse: em todo o País os índices de isolamento regridem perigosamente.

Sem testes em quantidades mínimas, o incentivo de Bolsonaro para que as pessoas voltem às ruas tem potencial genocida. Seu novo tour por Brasília, um dos lugares do Brasil que primeiro adotaram regras duras de distanciamento social, é um desserviço presidencial à saúde pública. Displicente, limpou o nariz no antebraço antes de dar a mão a simpatizantes, entre os quais idosos. Uma cena capaz de chocar um mundo quarentenado e envergonhar o Brasil.

Caso prospere a narrativa de que basta pressionar médicos para que receitem medicamentos de eficácia ainda não comprovada e todos podem sair por aí livremente, vamos viver uma tragédia. Neste caso, o presidente não será candidato ao Nobel da Paz (risos), mas sim ao título de chefe de Estado que pior lidou com o mais grave problema enfrentado pela humanidade neste século.

E se metro e meio de distância na fila do supermercado for pouco?

Filomena Naves
Diário de Notícias (Lisboa)

Estudo finlandês mostra que micropartículas de saliva permanecem mais tempo em suspensão e podem viajar nas correntes de ar. Resta saber se, contendo o vírus, podem propagar o covid-19

© EPA/CATI CLADERA
Em tempos de pandemia ir ao supermercado comporta os seus riscos

A discussão está no ar: será que a transmissão do covid-19 se pode fazer pela inalação de micropartículas de saliva expelidas por pessoas infetadas? Resultados preliminares de um estudo finlandês liderado pela Universidade de Aalto mostram que essa possibilidade pode ser mais forte do que até agora se pensava.

Tossir e espirrar para o interior do cotovelo, lavar as mãos a toda a hora e manter sempre uma distância prudente de metro e meio, ou mais, dos outros nas indispensáveis saídas para ir ao supermercado ou à farmácia são há semanas o mantra de milhares de milhões de pessoas no mundo - cálculos apontam para que mais de metade da humanidade está agora em regime de isolamento.

O objetivo é tentar conter a propagação do vírus Sars-cov-2 que há pouco mais de três meses surgiu na China e já se espalhou ao mundo inteiro, causando dezenas de milhares de mortos. Mas será que é suficiente?

O que se sabe sobre a transmissão da covid-19 aponta para que a infeção se propaga a partir das gotículas de saliva expelidas pelas pessoas infetadas, quando tossem ou espirram, e que aterram rapidamente nas superfícies em seu redor, onde permanecem por largas horas ou mesmo dias.

Quando alguém toca nessas superfícies contaminadas e depois leva inadvertidamente as mãos aos olhos, boca ou nariz pode ficar facilmente infetado. Daí, as recomendações todas de manter o distanciamento e fazer uma higiene frequente das mãos.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) tem insistido não estar comprovado que o contágio também se pode fazer através micropartículas de saliva contendo o vírus (bioaerossóis) que possam permanecer por mais tempo em suspensão, penetrando depois nas vias respiratórias de outras pessoas. Mas a discussão tem andado no ar - literalmente.

Para tirar teimas, um grupo de investigadores finlandesas lançou-se ao problema - e os resultados não podem sossegar ninguém.

A equipa liderada por Ville Vuorinen, especialista em mecânica de fluídos da Universidade de Aalto, fez simulações computacionais para estudar o transporte de bioaerossóis através do ar e os seus resultados preliminares mostram que eles podem permanecer em suspensão durante mais tempo do que se supunha e propagar-se, não apenas a metro e meio, ou dois metros, mas a mais do que isso, transportados pelas correntes de ar.

"Uma pessoa infetada pelo coronavírus pode tossir e afastar-se do local, mas deixa para trás uma pequena nuvem de pequeníssimas partículas aerossóis que transportam o vírus", afirma Ville Vuorinen, citado num comunicado da sua universidade, explicando que "essas partículas podem chegar às vias respiratórias de outras pessoas que estejam na vizinhança".

Simulação em cenário de supermercado

O estudo, que envolve também cientistas da Universidade de Helsínquia, do Instituto de Meteorologia finlandês e de Centro de Investigação Tecnológico VTT, e tem também a colaboração do Instituto Finlandês de Saúde e Segurança, criou um modelo computacional para estudar como os aerossóis com menos de 20 micrómetros (mil vezes mais pequenos do que um milímetro) se propagam no ar, depois de lançados a toda a velocidade por alguém que tosse.

Segundo os investigadores, a dimensão média desses bioaerossóis é de 15 micrómetros e, na simulação, o cenário proposto era o de um espaço típico de um supermercado com alguém a tossir junto das prateleiras.

Ao contrário do que acontece com as gotículas de saliva maiores, que caiem rapidamente no solo ou noutras superfícies em redor da pessoa, os aerossóis permanecem no ar no local e podem ser transportados a maiores distâncias nas correntes de ar.

Resta agora saber se a carga viral transportada por estes aerossóis é suficiente para causar infeção.

Isso vai ser agora objeto de estudo pelo grupo de cientistas finlandeses, mas para Jussi Sane, diretor científico do Instituto Finlandês de Saúde e Segurança, os resultados preliminares "mostram a importância das recomendações que fazemos, de as pessoas se manterem em casa e, no caso de terem de sair, se manterem afastadas das outras pessoas, de tossir para o cotovelo e fazer a higiene frequente das mãos".

Olhando para os novos dados, o especialista considera que "eles ainda não suficientes para se emitirem novas recomendações", mas sublinha que "são importantes em si e terão de ser comparados com os dados reais de estudos epidêmicos".

A investigação vai, por isso, continuar, mas fica uma certeza: manter as distâncias é mais importante do que nunca.

ALÔ BOLSONARO: 65 estudos científicos investigam efeitos da cloroquina contra covid-19; só 3 foram finalizados

Fabiana Cambricoli, 
O Estado de S.Paulo

Mesmo sem estudo conclusivo, médicos ao redor do mundo utilizam droga contra malária para tratar pacientes graves de covid-19

  Foto: CJ Gunther/ EFE 
Com o avanço da covid-19, médicos ao redor 
do mundo passaram a testar diversas drogas 

Até a pandemia do coronavírus, a cloroquina era conhecida como um medicamento usado no tratamento de doenças como malária, lúpus e artrite reumatoide. Com o avanço da covid-19 e sem uma terapia comprovada cientificamente para combatê-la, médicos ao redor do mundo passaram a testar diversas drogas e associações entre elas, especialmente para os casos mais graves – e a cloroquina é uma delas.

Ao menos 65 estudos estão sendo realizados no mundo para investigar a eficácia da cloroquina e hidroxicloroquina contra a covid-19. Por enquanto, três foram finalizados, dois chineses e um francês, e os resultados são controversos. Mas, diante da falta de uma opção certeira e apesar de efeitos colaterais graves, como arritmia cardíaca e problema de visão, há médicos que vêm utilizando a droga, especialmente em pacientes em estado grave ou crítico. 

O que era mais um medicamento sendo receitado na luta contra a covid-19 ganhou destaque após ser citado pelos presidentes Jair Bolsonaro e Donald Trump, dos EUA, como possível solução para a pandemia.

Nas últimas semanas, governos, agências regulatórias e entidades médicas autorizaram o uso compassivo do remédio para pacientes internados (para quando não há outra opção de tratamento), mas ressaltaram que os estudos finalizados até agora não permitiam ampliar a recomendação para pacientes leves nem garantir a ausência de efeitos colaterais.

Entidades médicas e de saúde tratam o tema com cautela. A Organização Mundial da Saúde (OMS) afirma que os possíveis benefícios de cloroquina apresentados nas pesquisas chinesas e francesa "precisam de confirmação por meio de estudos randomizados (quando os pacientes de cada grupo são escolhidos aleatoriamente)" e afirma estar "preocupada com relatos de indivíduos se automedicando com cloroquina e causando sérios danos a si próprios".

A Associação Brasileira de Alergia e Imunologia (ASBAI) e a Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI) também ressaltam a falta de evidências e desaconselham o uso mais amplo. "Enquanto aguardamos a emergência de novos ensaios clínicos randomizados multicêntricos para avaliar os benefícios da contribuição de cloroquina / hidroxicloroquina no tratamento da covid-19, esses medicamentos não devem ser prescritos de modo generalizado e indiscriminado nos casos leves e ambulatoriais da doença", disse a ASBAI.

Já a SBI afirmou em comunicado considerar o tratamento como "terapia de salvamento experimental", cujo uso deve ser "individualizado e avaliado pelo médico prescritor, avaliando seus possíveis efeitos colaterais e eventuais benefícios".


Diretrizes

O Ministério da Saúde vem embasando suas diretrizes na revisão da literatura científica realizada por um grupo de cientistas brasileiros de instituições como os hospitais Sírio-Libanês e Oswaldo Cruz. É esse trabalho que afirma que 65 estudos estão em andamento e que 3 foram concluídos, com resultados controversos. 

De acordo com os pesquisadores, são várias as limitações e falhas das pesquisas, como amostras pequenas de pacientes, falta de um grupo controle (pacientes que tomaram placebo) e ausência de metodologia duplo-cego, ou seja, quando nem pesquisadores nem pacientes sabem quais doentes estão recebendo o medicamento.

A principal polêmica, agora, é justamente a ampliação da autorização do uso do remédio para qualquer paciente com a infecção. O governo do Estado de São Paulo e a Prefeitura deram aval para a utilização na rede pública contanto que haja recomendação médica e consentimento do paciente, que precisa ser informado dos riscos.

O relatório aponta que as pesquisas são consideradas "pequenas e com alto risco de viés, principalmente associado à falta de mascaramento". O termo refere-se ao problema dos chamados estudos abertos, nos quais pesquisadores e pacientes sabem quais grupos estavam tomando o remédio e quais estavam recebendo placebo, o que pode influenciar os resultados. É por esse risco de influência que o "padrão-ouro" da pesquisa clínica é o estudo randomizado, com grupo controle e duplo-cego.

A principal divergência entre o primeiro estudo chinês e a pesquisa francesa citados no relatório do ministério foi observada no índice de pacientes que tiveram remissão do vírus. No estudo francês, com amostra total de 42 pacientes, 70% dos que tomaram a hidroxicloroquina tiveram diminuição da carga viral contra 12,5% do grupo controle. O estudo não era randomizado nem duplo-cego. Já no estudo chinês, feito com 30 doentes, não foi encontrada diferença estatisticamente significativa entre os resultados dos dois grupos: o controle, inclusive, teve uma taxa de remissão viral maior do que o que tomou a hidroxicloroquina (93,3% contra 86,7%). Após 14 dias, os 30 pacientes apresentaram o exame negativo. A pesquisa chinesa era randomizada, mas aberta.

O terceiro estudo, também chinês e com 62 participantes, mostrou que o uso de hidroxicloroquina propiciou melhora no tempo de febre, de tosse e da imagem do pulmão na tomografia, mas não mediu nem a remissão viral nem o desfecho clínico final de cura, como alta, óbito ou menor tempo de internação em UTI ou de ventilação mecânica.

"O estudo francês não é randomizado e os grupos não são comparáveis. O primeiro estudo chinês é randomizado, mas o grupo de pacientes é muito pequeno. O segundo estudo chinês mediu melhora de sintomas, mas não acompanhou questões mais importantes. É para se jogar fora os resultados? Não. Mas eles não têm força de recomendação para uso em todos os doentes", afirma Álvaro Avezum, diretor do Centro Internacional de Pesquisa do Hospital Alemão Oswaldo Cruz e parte da equipe que supervisionou a revisão de estudos feita para o documento do ministério.

Também integrante do grupo que colaborou com a relatório, a médica Rachel Riera, coordenadora do Núcleo de Avaliação de Tecnologia em Saúde do Hospital Sírio-Libanês, destaca que os três estudos tinham problemas nos grupos controle porque em alguns os pacientes não foram escolhidos aleatoriamente ou, quando foram, os grupos tinham perfis diferentes, o que também pode influenciar nos resultados. "Se a pesquisa não tem grupo controle ou os grupos são muito heterogêneos não dá para atribuir o resultado exclusivamente ao remédio", diz ela, que também é professora de medicina baseada em evidências da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

Métodos

A realização de um estudo randomizado, com grupo controle e duplo-cego é importante por duas principais razões: primeiro, porque, como em parte dos casos a infecção por coronavírus pode ser combatida pelo próprio sistema imunológico, é preciso ter dois grupos de pacientes em condições similares – um que toma o remédio e outro que não toma – para saber se os resultados obtidos são de fato relacionados à ação do medicamento e não a fatores como a estrutura hospitalar onde o paciente é tratado, a eventuais cuidados extras da equipe de saúde ou mesmo ao acaso. Segundo, para eliminar o risco de os resultados serem prejudicados por algum viés, alguma conduta ou escolha feita pelos pesquisadores que possa distorcer o desfecho, como seleção do perfil de doente que fará parte de cada grupo ou de quais casos serão relatados nos resultados.

É esse último, inclusive, o principal problema de centros de pesquisa que apenas têm descrito casos de melhora com a cloroquina, sem apresentar os dados dos demais pacientes: tanto os que não tomaram o remédio quanto os que tomaram e não tiveram benefício.

A Prevent Senior, por exemplo, que conduz uma pesquisa sobre o uso do medicamento, informou que 300 pacientes já tiveram alta após a utilização da droga, mas não informou o número de pessoas que mesmo com remédio não melhoraram, o índice de óbitos nem a taxa de cura entre os que não fizeram o tratamento. A operadora afirma que os resultados completos do estudo serão publicados em "veículos científicos indexados". O mesmo grupo francês que fez o estudo que ganhou destaque no mundo publicou ontem no site de seu instituto o resultado do tratamento de 1.061 doentes tratados com cloroquina – 91,7% teriam sido curados. Mas além da pesquisa não ter sido publicada em nenhuma revista científica, não há registro de grupo controle, o que impede concluir ou não se o resultado obtido foi por causa do tratamento com hidroxicloroquina.


Recomendação

De acordo com os pesquisadores brasileiros que têm acompanhado os estudos sobre o tema, a falta de evidências científicas não significa que o remédio não possa ser usado em casos graves da doença, em que não há opção terapêutica, ou então dentro de protocolos de pesquisa experimentais, mas é preciso ter cautela. "É fato que estamos em uma situação fora do usual e sem precedentes, e a decisão deve ser do médico, com consentimento da família. Mas é preciso deixar claro que, apesar da gravidade da situação, não há evidências nem de eficácia nem da segurança que nos permitam baixar uma recomendação de uso rotineiro para todos os pacientes", diz Avezum.

Rachel ressalta que é possível ter uma resposta sobre a eficácia do medicamento em pouco tempo, contanto que os estudos sejam feitos de forma mais criteriosa. "Se tivermos um estudo bem feito, randomizado, com 500 pacientes, já conseguimos saber se ela é eficaz ou não rapidamente. Essa angústia pela resposta é compreensível, o que não é compreensível é abandonar o rigor metodológico", ressalta.