Eurípedes Alcântara
O Globo
Os poderosos calçaram os sapatos Church’s da humildade. Donald Trump agora elogia a imprensa e prepara os Estados Unidos para tempos ainda mais duros. Bolsonaro classifica a crise atual como “o maior desafio de uma geração”. A continuação do mundo como o conhecemos depende hoje cada vez mais dos trabalhadores essenciais, uma categoria de pessoas antes secundárias na ordem natural das coisas, na perspectiva dos poderosos. Os garis nos olham de cima para baixo. As enfermeiras recuperaram o orgulho primevo de Ana Néri e Florence Nightingale. Os médicos, na falta crônica de aventais, máscaras e luvas, estão escudados pelo Juramento de Hipócrates e sua nobre declaração em defesa da “integridade da vida e assistência aos doentes” e o “desprezo pela própria pessoa”.
Com seus míseros 120 bilionésimos de metro, o novo coronavírus parece ter libertado “os melhores anjos da natureza humana”, na expressão de Steven Pinker, psicólogo e linguista canadense, professor da Universidade Harvard. Nunca como agora foi tão atual a canção “Salt of the Earth” (“Sal da terra”), dos Rolling Stones, aquela banda britânica de rock cujos integrantes já estão há uns bons 20 anos no grupo de risco. Sal da Terra é uma frase bíblica e se refere, em última análise, justamente aos trabalhadores essenciais, pessoas que os Stones em 1968 tentavam em vão identificar entre “uma multidão sem rosto/ uma massa cinza, preto e branca/que não parece real/ e, de fato, parece muito estranha.” Para essa, “gente que trabalha duro… os humildes de berço”, os Stones levantavam um brinde e pediam orações.
Salários em dia, um brinde e orações — que funcionam mesmo para quem não acredita nelas, como ensinava Haskell Besser, rabino símbolo de Nova York — para os enfermeiros, médicos, parteiras, paramédicos, assistentes sociais, voluntários, produtores e distribuidores de remédios e equipamentos de proteção médica; para os funcionários da Justiça, os religiosos das instituições de caridade, os coveiros, os motoboys os soldados das polícias e das Forças Armadas; para os que continuam atendendo nos“call centers”, nos portos e na manutenção da infraestrutura de TI e de dados; para os carteiros, os entregadores, os motoristas de ambulância e os garis. Enfim, para todos que, mesmo sem terem feito o Juramento de Hipócrates, não deixam de cumprir funções essenciais, colocando em risco a própria vida.
Não é de hoje que as imagens bíblicas afloram quando as coisas estão ruins e ainda vão piorar antes de começarem a melhorar. Em uma das cartas da famosa colaboração epistolar entre os escritores Ernest Hemingway e F. Scott Fitzgerald, o autor de “Por quem os sinos dobram” esbraveja: “Estou aqui imprecando contra a Bíblia pois não encontro nem um título (que não tenha sido usado antes)… Todos os grandes títulos de livros foram tirados da Bíblia até onde li, Fitz… Vou escavar agora o ‘Eclesiastes’ e os ‘Provérbios’, onde deve ter ainda algumas propriedades valiosas enterradas”.
A crise trazida pelo novo coronavírus e a descomunal reação mundial contra sua propagação, ao que tudo indica até aqui, vai piorar antes de começar a melhorar. Depois vem o período de ladeira acima. A ver como as famílias, os governos, as empresas e os mercados vão recuperar a saúde financeira dilapidada no combate à epidemia. Esse cenário parece distante agora que a prioridade óbvia é minimizar o número de vítimas fatais da Covid-19. Mas a conta vai chegar. As previsões variam de pouco otimistas (recessão) a devastadoras (estagnação). A diferença entre uma e outra é abismal. Só no período posterior à Segunda Guerra Mundial o mundo enfrentou dezenas de recessões. Elas duram em média dez meses e são seguidas de períodos de crescimento. Estagnação, só uma, a que se abateu sobre o mundo depois da quebra dos mercados financeiros em 1930. Ninguém sabe dizer ao certo qual a duração ou a profundidade de uma potencial estagnação econômica pós-coronavírus. A única certeza é que sem o sal da Terra nem sequer chegaremos a saber.