quarta-feira, julho 31, 2013

O médico de Chapadinho

Sebastião Nery
Tribuna da Imprensa

Pontes de Aguiar era prefeito de Chapadinho, agreste do Maranhão. Elegeu-se deputado. Josélio Carvalho, secretário de Saúde:

- Deputado, há um movimento em Chapadinho para trocar o nome do Hospital Pontes de Aguiar para Hospital Manoel Sebastião.

- Senhor secretário, quem fez o hospital fui eu, quando prefeito de Chapadinho. O Dr. Manoel Sebastião é apenas um candidato a deputado estadual contra mim. Por que, agora, o hospital vai ter o nome dele?

- Porque o doutor Manoel Sebastião é médico. Há uma lei, agora, que diz que só médico pode ser nome de hospital.

- Bobagem, Dr. Josélio. Deixe de querer ajudar o doutor  Sebastião. Aqui mesmo, na capital, tem o Hospital Cruz Vermelha, e, ao que me consta, o tal de Cruz Vermelha nunca foi médico.

Até hoje o hospital de Chapadinho é Hospital Pontes de Aguiar.

DIPLOMAS
O programa “Mais Médicos” do Ministério da Saúde está provocando mais confusão. Quando foi anunciado, o ministro Padilha, competente e eficiente, um dos raros ministros do governo Dilma (o amador é a desgraça dos governos, ocupa o lugar mas não resolve o problema), disse que os médicos estrangeiros revalidariam seus diplomas.

É o obvio. Em qualquer pais, médicos, engenheiros, professores, etc, vindos do exterior para exercer a profissão são obrigados a fazer o Revalida um exame para conferir o nível de seu diploma e experiência profissional.

Como programa de emergência governamental o “Mais Médicos” é urgente, providencial. Se o pais tem 700 municípios  sem um só medico e não há médicos brasileiros querendo ir para lá nem para periferias ou favelas,  que venham os de fora. Mas com “revalidação” dos diplomas.

Das 11 mil vagas oferecidas pelo governo, nem 4 mil brasileiros se inscreveram. Que os 7 mil venham com diplomas e currículos revalidados.

LULA
Perguntem aos brasileiros exilados que tiveram de trabalhar no exterior durante a macabra ditadura militar de 64 a 84. Antes de assumirem suas funções, tinham que submeter seus diplomas e currículos a exames.

Pois o Palácio do Planalto do PT, o maior centro de amadorismo da historia brasileira, resolveu desfazer a decisão do ministro Padilha e dispensar o “Revalida” para os médicos portugueses e espanhóis que virão. Por que? Porque Lula quer pagar a Portugal e Espanha os ridículos e fajutos títulos “honoris causa” que lhe deram e não resistiriam a um Enem.

Até Chapadinho tinha medico.Corporativismo medico é desumanidade.

DILMA
Não adianta Dilma falsear a realidade. As contas públicas brasileiras estão em situação difícil. Vamos, como o Papa Francisco, por partes:

1.- De junho de 2012 a junho de 2013, 4,8% do PIB (Produto Interno Bruto), representando 14% da carga tributária, foram destinados a pagamento de juros. As contas externas caminham para uma situação preocupante, apesar da “mágica contábil”.

2. – Nos últimos 12 meses, o resultado das transações do Brasil com o mundo registrou saldo negativo de US$ 73 bilhões. A conta corrente de transações retrata operações da balança comercial, pagamento de juros, viagens, dividendos e remessa de lucros e serviços. Um exemplo: em 2012, na área do turismo os brasileiros gastaram no exterior U$ 22 bilhões, enquanto os turistas estrangeiros gastaram no Brasil, U$ 7 bilhões.

“PIBECHINHO”
3. – O Banco Central projeta para 2013 déficit em conta corrente de U$ 75 bilhões, representando 3,2% do PIB, resultado que só tem referência histórica com 1947. O economista Felipe Salto, da “Tendência Consultoria, adverte: -  “A fonte de dólares secou. Havia apostas na economia brasileira, mas que não existem mais com a deterioração provocada por políticas equivocadas. É um cenário que acende a luz amarela”.

4. – A partir de 2008, o Brasil vem colecionando “déficits” ascendentes em transações correntes, elevando a dependência da economia brasileira em empréstimos para fechar as contas. O perfil dos “déficits”, em bilhões de dólares, foi: em 2008, U$ 28,2; em 2009, U$ 24,3; em 2010, U$ 47,3; em 2011, U$ 52,5; Em 2012, U$ 54,7. Em 2013 o BC projeta U$ 75,00.

O “Pibinho” de 2012 ameaça ser um “Pibechinho” de 2% em 2013.  E lição: conversa fiada não engorda a economia.

É fascinação e amor

Carlos Brickmann
Brickmann & Associados Comunicação

O papa Francisco conquistou o Brasil. Tem carisma, uma empatia evidente com a população. Seus hábitos simples caíram no gosto do povo (e não só dos católicos). Falou de religião enquanto as autoridades tentavam conquistar eleitores. Mas, principalmente, ganhou o país por outro fator positivo: a tolerância.

Enquanto fundamentalistas anticatólicos e ateus que se imaginam melhores que os outros partiram para a grosseria e a intolerância, profanando símbolos religiosos e promovendo lamentáveis cenas de talibanismo (os talibãs afegãos, lembremos, dinamitaram duas magníficas estátuas de Buda, com mais de mil anos de idade, porque Buda não era muçulmano), o papa tomou cafezinho com um pastor evangélico, conversou com dirigentes de várias religiões, monoteístas ou não, e admitiu que muitos católicos se afastaram da Igreja porque a Igreja não lhes dava assistência espiritual. Lembrou que todos são filhos de Deus. E, nesse denso contexto, condenou sem reservas a homofobia, o ódio aos homossexuais. "Se a pessoa é gay e procura Deus, quem sou eu para prejulgá-la?" 

Marketing? Não, ele é assim mesmo. Há anos é grande amigo de um rabino, Abraham Skorka, e com ele escreveu um livro ótimo, Sobre o Céu e a Terra - sobre tolerância, convivência entre pessoas com crenças diferentes. O papa mostrou que discordar de um comportamento não significa discriminar pessoas. E disse: "Casais que moram juntos antes do casamento são um fato antropológico".

O papa Francisco venceu. O Brasil preferiu a tolerância ao rancor.

A descoberta... 
O papa, veja só, conseguiu abrir até a dura cabeça do governador fluminense Sérgio Cabral. O governador disse que, inspirado por Francisco, será agora mais humilde e aberto ao diálogo. Cabral se achava quase perfeito, embora lhe faltasse a humildade. 

Agora, com toda a nova humildade, deve considerar-se perfeito.

...de Cabral
Os grupos que se manifestam incessantemente em frente ao prédio em que mora Sérgio Cabral ultrapassam os limites do que é civilizado: a família e os vizinhos do governador não são responsáveis pelo seu Governo nem devem ser vítimas de seus adversários. Que se proteste contra o governador diante da sede do Governo, poupando família e vizinhos. E não se pode esquecer que Cabral nunca foi melhor do que é hoje; mesmo assim, elegeu-se e reelegeu-se governador, em eleições diretas e limpas.

Mas alguém precisa informar o neo-humilde Cabral que reclamar só do incômodo imposto à sua família pelos manifestantes é demonstração de falta de humildade. Nem se lembrou do sofrimento dos vizinhos.

A voz de Dilma
A presidente Dilma Rousseff deu longa entrevista a respeito das maravilhas e das medidas - invariavelmente corretas - de seu Governo que pode ser resumida em poucas palavras: "Se não têm pão, comam brioches". Em outra época, quem disse a mesma coisa foi uma rainha francesa, Maria Antonieta. 

Ficou famosa!

A voz das ruas
Dilma disse que entendeu a voz das ruas mas que não vai mudar nada no Governo. Os parlamentares dizem ter entendido a voz das ruas e saíram de férias sem votar a Lei de Diretrizes Orçamentárias, que obrigatoriamente precisa ser aprovada antes das férias. E a gastança maluca não se esgotou na recepção do governador Sérgio Cabral ao papa Francisco, em que um bufê teve a audácia de cobrar (e o Governo fluminense teve a audácia de pagar) R$ 1.300,00 por pessoa, para servir café, água e biscoitos. O Congresso também saiu gastando sem freios.

Os ouvidos do Poder
Em fevereiro, tanto Renan Calheiros, ao assumir a Presidência do Senado, quanto Henrique Alves, ao assumir a Presidência da Câmara, prometeram reduzir as despesas. Resultado: o Congresso gastou R$ 140 milhões a mais que no mesmo período do ano passado, já levada em conta a inflação. Veja o balanço completo em http://www.contasabertas.com.br/website/noticias/arquivos/1887_PDF.pdf

Os bolsos do cidadão
E a festa continua. Dois anúncios do Senado deram na vista. Primeiro, pela publicação num pé de página, em letras pequenas; segundo, embora tratassem de licitações, por não se tocar em valor. Mas o que saiu já mostra do que se trata: mais luxos. Uma das licitações visa alugar veículos com motorista, para atender aos senadores em seus Estados, todos os dias, mesmo que o senador esteja em Brasília. São, no total, 78 carros (os senadores brasilienses ficam só com os carros que já têm, tadinhos!). 

E, como senador não é papa, nada de automóvel de pobre. É carro caprichado. O outro edital é para compra de material gráfico. Divulgar as maravilhas que o senador faz em seu mandato também é transparência.

Perdendo a razão
A revolta dos médicos contra a decisão do Governo de buscar estrangeiros sem exigir que revalidem seus diplomas no Brasil (e contra a tentativa de jogar nos médicos brasileiros a culpa por problemas sanitários, de falta de infraestrutura, de falta de verba) é justíssima. Mas greve de médicos é coisa errada: quem sofre não pode pagar pela culpa do Governo. 

É perder a razão numa causa justa.

carlos@brickmann.com.br 
www.brickmann.com.br

Os país das multidões

Elio Gaspari
O Globo

Os brasileiros mostraram que acreditam em muita coisa, menos em governos que querem fazê-los de bobos

Em apenas dois meses, pode-se estimar que pelo menos cinco milhões de brasileiros tenham ido às ruas. A maior parte deles, festejando a fé com o Papa Francisco. Outros, reclamando nas passeatas que tomaram as avenidas em quase todos os estados.

Exatamente nestes dois meses, os poderosos do país mostraram que não estão entendendo nada, ou não querem entender.

Aconteceram, ou tornaram-se públicas, as seguintes gracinhas, todas amparadas pela lei. Mesmo nos casos em que o ronco da rua provocou recuos, eles foram apresentados como atos voluntários. Esse é um Brasil que faz tudo de acordo com as normas, suas normas.

Começando pelos tribunais, que vivem um doce momento, embalados pelo julgamento do mensalão: o Tribunal de Contas da União decidiu que 4.900 magistrados têm direito a receber auxílios-alimentação reatroativos a 2011. Um conta de R$ 312 milhões. Um de seus ministros, Raimundo Carneiro, mostrou ao país que sua idade, como a Terra de Galileu, eppur si muove. Para se aposentar como servidor do Senado, nasceu em 1946. Para permanecer no Tribunal, veio ao mundo em 1948. Exercitando um direito de todos os procuradores, o atual presidente do Supremo Tribunal Federal, Joaquim Barbosa, recebeu R$ 580 mil referentes a bônus-moradia e licenças não gozadas. Comprou um apartamento em Miami, avaliado em US$ 480 mil, “modesto”, nas suas palavras, e considera “violação brutal da minha privacidade” a divulgação dessa informação. O ministro tem um apartamento funcional em Brasília, mas, justificando suas viagens ao Rio de Janeiro, informou que faz isso “regularmente há mais de dez anos”, como outros magistrados. Com a Viúva pagando.

Passando-se ao Executivo, o custo da maquiagem da doutora Dilma em suas aparições em cadeia nacional de TV passou de R$ 400 para R$ 3.181em menos de três anos.

Alguns de seus ministros rompem o teto salarial do serviço público (R$ 28.059) com as Bolsas Conselho. Guido Mantega, por exemplo, fatura R$ 43.202 mensais. Tudo dentro da lei.

No Congresso, os doutores Henrique Alves e Renan Calheiros voaram pela JetFAB. Um foi para o Rio e o outro para um casamento. Diante do ronco, indenizaram a Viúva.

Saindo-se do Brasil do andar de cima, no de baixo chega-se à escola Candido de Assis Queiroga. Ela fica no município de Paulista, no sertão paraibano, onde vivem 11 mil pessoas. Seu Índice de Desenvolvimento Humano no indicador de educação (0,461) está abaixo da média nacional (0,637). Lá, Jonilda Alves Ferreira, de 44 anos, formada em economia, leciona Matemática por R$ 1.500 mensais. Ela ensina frações fazendo “vaquinhas” e levando alunos a pizzarias. Qualquer pessoa que vê uma pizza entende o que são frações ordinárias, mas quem provar que se pode nascer em 1946 (para ganhar aposentadoria) e em 1948 (para continuar num cargo) certamente revolucionará as ciências.

A escola da professora Jonilda conseguiu cinco medalhas de ouro, duas de prata e três de bronze na última Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas. Sozinha, acumulou mais prêmios que muitos estados.

A repórter Sabine Righetti perguntou à professora se a escola tem laboratório de informática. Tem, pago, porém parado: “Estamos esperando o técnico para usar os computadores.”

Muito obrigado, Francisco!

Percival Puggina

Como pode ser tão imenso o bem que não se vê? O mal me cansara os olhos e turbara meus ouvidos. A sociedade brasileira, pastoreada por lobos, emitia sinais de completa perdição. Quantas vezes, nas últimas décadas, obriguei-me a escrever - totalmente em vão, pensava - contra as muralhas que se erguiam para apartar os brasileiros da fonte de todo o bem. Eram muralhas erguidas com as pedras de uma certa mídia dotada de princípios e virtudes incertos, com as pedras de ideologias malsãs, com as pedras do deboche e da avacalhação. Eram tão ferozes e tão continuados os ataques à Igreja (por dentro e por fora), andava tão desprotegida a vítima, que o coração dos fieis temia pelo futuro. Mas havia também, absconditus, um imenso bem que eu não via. 

Por isso, a visita do Papa Francisco foi, de modo muito especial para mim, uma bênção e um bálsamo. Sua figura acolhedora e suas palavras ternas, plenas de verdade, conquistaram o povo brasileiro que, às dezenas de milhões, o acompanhou nos eventos do Rio, ao vivo ou pela tevê, cativado por seus exemplos e suas mensagens. O modo como os brasileiros o recepcionaram embasbacou os meios de comunicação. A audiência era tanta que se impôs uma cobertura quase permanente. 

Há alguns anos, em viagem pela Espanha com minha mulher, decidimos num fim de tarde entrar na cidade de Saragoza. O trânsito estava tão lento e pesado que estacionei o carro no primeiro hotel que vi. Registrei-nos e saímos para uma caminhada até o centro da cidade. De repente, as pessoas surgiram de todos os lados e, em instantes, nos vimos no meio de uma multidão formada por centenas de milhares de devotos de Nossa Senhora del Pilar, padroeira da Espanha, cuja festa anual ocorre principalmente em Saragoza e exatamente naquele dia. Lembro até hoje da sensação de haver iniciado a caminhada como indivíduo e ir me transformando, aos poucos, em parte da humanidade. Senti a mesma coisa diante das imagens das grandes concentrações ocorridas em Copacabana, a princesinha do mar e esplêndido umbigo da frivolidade nacional. Não, não estamos sós. Nem tudo está perdido. O povo brasileiro ainda conserva a capacidade de emocionar-se, de amar a Deus e ao próximo, de flexionar os joelhos diante do altar do Senhor. 

Não houve qualquer dessas coisas frívolas que cremos serem as únicas capazes de tirar as pessoas de casa. Houve lágrimas rolando pelas faces e pelos corações. Houve risos da mais pura alegria. Houve um imenso testemunho coletivo de fé proporcionado por um público majoritariamente jovem, do mundo inteiro e do mundo moderno. Quanto isso deve ter embasbacado os inimigos da Igreja, os militantes do ateísmo e os sumo sacerdotes do materialismo! Como soaram patéticas e bisonhas as investidas da marcha das vadias e da militância ateísta contra a Igreja e contra a vinda do Papa Francisco! Ali, nas areias da Praia de Copacabana, milhões de brasileiros mostraram haver, na fonte de todo o Bem, verdades que libertam, belezas que encantam e forças restauradoras que salvam. 

Mitos das redes sociais

Editorial 
Folha de SPaulo

Essas plataformas têm valor comunicativo e profissional que não as isenta de debate crítico acerca de seus aspectos mais controversos

Ninguém duvida da imensa utilidade das redes sociais como ferramenta profissional e recreativa. Organizam um gigantesco contingente de usuários conforme suas afinidades e facilitam toda forma de comunicação interpessoal. Tornam a vida mais prática.

Mais controvertidas são suas dimensões política e midiática.

À primeira vista um enorme fórum de livre debate, as redes são formadas por células que mais reiteram as próprias certezas e hábitos do que os submetem a discussão. Esta, quando ocorre, adquire tons de estéril guerrilha verbal.

Às vezes se formam consensos formidáveis e legítima mobilização, como visto em junho passado, mas que tendem a ser passageiros, além de superficiais. Talvez pela natureza fluida do veículo em que se expressam, falta-lhes organicidade e duração.

Tampouco cabe dúvida de que o jornalismo amador ou militante, impulsionado pela internet, ajuda a suplementar o sistema de informação como um todo. Nem por isso está isento de críticas.

Embora faça a apologia da veracidade, essa forma de jornalismo se mostra ainda mais sujeita a falhas do que as já frequentes no jornalismo profissional. Informações se divulgam sem comprovação, quase sempre embaladas nas estridentes convicções, autênticas mas parciais, de seu emitente.

Os usuários sabem disso, e seu comportamento sugere que as redes são antes uma ampla câmara de ressonância da própria mídia.

Levantamento publicado pela Folha mostrou que mais de 80% do conteúdo informativo tramitado pelo Twitter, por exemplo, relativo às jornadas de junho passado, era produzido pelo jornalismo profissional da imprensa e da TV.

Para os conglomerados empresariais que exploram as redes, política ou jornalismo são facetas secundárias do negócio.

Daí a desfaçatez com que "posts" noticiosos são censurados, como ocorreu duas vezes, somente na semana passada, com inserções desta Folha no Facebook. Daí a docilidade dessas empresas --todas norte-americanas-- em face das exigências paranoides de seu governo à custa da privacidade dos usuários mundo afora.

É honesto reconhecer um aspecto corporativo nestas críticas, pois as redes sociais e os buscadores de notícias se beneficiam comercialmente da audiência gerada por produtos jornalísticos que não criaram nem custearam.

Este é apenas um dos problemas a serem enfrentados pela legislação relativa ao Marco Civil da Internet, que a Câmara dos Deputados deve votar em agosto.

Admitir esse aspecto de interesse próprio, porém, não impede este jornal de contribuir para a crítica que as redes sociais, com todo o seu valor comunicativo e utilitário, merecem.

Costela de Adão

Dora Kramer
O Estado de SPaulo

A clareza na expressão de linguagem não é o forte da presidente Dilma Rousseff. Em suas declarações, verbos, substantivos, adjetivos e advérbios não primam pela harmonia. Nisso é parecida com o ex-presidente Luiz Inácio da Silva, mas com sinal trocado.

Na dificuldade com o manejo das palavras, ele torna simplista o argumento, usa a "quase lógica" que dispensa a coerência, mas parece convincente aos ouvidos do senso comum. A precisa conceituação foi feita pela cientista política Luciana Veiga ainda nos primórdios do governo Lula sobre os espantosos discursos dele.

Já Dilma é tortuosa. Falta-lhe fluência mesmo nos pronunciamentos escritos. No improviso, não raro diz alguma coisa que parece significar outra. Esta, por sua vez, dá margem a uma terceira interpretação e o conjunto nem sempre forma um raciocínio claro.

É o caso da recente afirmação que mereceu destaque na entrevista à Folha de S. Paulo, edição de domingo último, sobre a hipótese de o antecessor disputar a eleição de 2014 no lugar dela.

Disse a presidente: "Eu e o Lula somos indissociáveis. Então esse tipo de coisa, entre nós, não gruda, não cola. Agora, falar volta Lula e tal... Eu acho que o Lula não vai voltar porque ele não foi. Ele não saiu".

Não saiu do governo? Não foi aonde? Haveria na declaração da presidente uma confissão de tutela ou terá ela querido apenas sair pela tangente no assunto reeleição que, com seu beneplácito, foi posto à mesa por Lula no início do ano alegadamente para conter o crescimento da palavra de ordem "volta" no PT e adjacências?

Diante da quantidade de sombras de dúvidas que permeiam a resposta, a conclusão ficou ao gosto de cada freguês. Segundo a oposição, Dilma deu sinal de fraqueza, reconheceu que governa teleguiada pelo antecessor. De acordo com a situação, a presidente quis dizer que a nação petista é firme e indissolúvel como uma rocha.

Aqui também cabe uma terceira avaliação sobre o significado das palavras da presidente. Ao repudiar qualquer possibilidade de separação entre orientador e orientanda, Dilma praticamente anula a chance de armação de um plano B do PT para 2014 tendo como candidato o ex-presidente.

Se não foi essa a intenção da presidente ao dizer que os dois são "indissociáveis", deixou patente que Lula não poderá se apresentar em feitio de contraposição a ela, apresentada que foi ao País por ele como uma versão melhorada de sua imagem e semelhança.

Na mesma linha, o ex-presidente outro dia informou: "Dilma não é mais que uma extensão da gente lá". O eleitor haverá de concordar. Para o bem ou para o mal.

Sinuca.
 Quando mudou a regra de cálculo para o reajuste do salário mínimo a partir de 2012, o governo retirou do Congresso a prerrogativa de debater anualmente o assunto.

O argumento: a norma deveria ser permanente e, o aumento, estabelecido pela combinação do Índice Nacional de Preços ao Consumidor com a taxa de crescimento da economia dos dois anos anteriores.

Na prática, agora, dois problemas: criou-se uma indexação, perigosa em tempos de inflação escapando da meta, e eliminou-se a possibilidade de divisão de responsabilidade com o Legislativo por reajuste reduzido em decorrência do PIB diminuto.

Emérito. 
Na celebração geral ao papa Francisco falta o reconhecimento ao antecessor Bento XVI por ter aberto espaço, com sua renúncia, para a pessoa certa no momento certo na condução da Igreja Católica.

Jorge Mario Bergoglio fala de humildade, simplicidade, reencontro da humanidade com valores da espiritualidade em contraposição aos excessos da materialidade. Joseph Ratzinger disse o mesmo com seu gesto de desprendimento.

Se Lula nunca saiu, por que Dilma entrou?

Carlos Chagas
Tribuna da Imprensa

Noves fora  a frase de efeito da presidente Dilma, sobre o Lula não precisar voltar, porque nunca saiu, permanece a mesma dúvida no PT e adjacências: caso a popularidade da sucessora não se recupere e até continue  em queda livre, terá o antecessor condições de negar-se a disputar o palácio do Planalto em 2014?

A resposta preliminar é óbvia. Se Dilma não puder sustentar sua candidatura, a única forma de preservação do poder pelos companheiros e aliados será a apresentação do Lula.

Não há prazo imediato  para a definição. Neste ano, pelo menos, nada ficará claro. Lá para março do ano que vem, no entanto, situa-se a encruzilhada. Mesmo se os concorrentes continuarem amorfos, insossos e inodoros, como estão,  será preciso uma decisão, amarga para os dois lados. Porque nem o ex-presidente sentir-se-á confortável atropelando a atual, nem ela encontrará forças para justificar o afastamento.

Por enquanto vale a partitura, apesar de a orquestra desafinar. Dilma é a candidata, comporta-se como tal e mais buscará recuperar o prestígio que as recentes pesquisas levaram. Pode reverter os números e assegurar o segundo mandato. Tudo depende dela, ou de seu governo. Um esforço extra precisará  desenvolver-se  nos diversos setores de atuação de sua equipe.  Há ministros visivelmente travados, daqueles que não conseguem  dizer a que vieram, a não ser para satisfazer os respectivos partidos, abrindo-lhes oportunidades nem sempre muito éticas de participação na máquina pública. Mas também existem ministros competentes, que apenas necessitam de estímulo e de condições para fazer o que não fizeram até agora.

NÃO HÁ VICE-PAPA
Francisco sorriu ao deparar-se com o vice-presidente Michel Temer na festa da despedida. Até gostou das palavras do substituto,  no hangar do aeroporto do Galeão. Apertou suas mãos, agradeceu e comportou-se como todo jesuíta que, mesmo contrariado, procura tirar o melhor proveito possível da contrariedade.

Mas que foi uma baixaria, isso foi, a decisão de Dilma Rousseff de não comparecer. Com todo o respeito ao vice-presidente, cumpridor de  suas obrigações, fica no ar o  comentário que o  Papa não fez, mas poderia ter feito: “no Vaticano, não temos a figura do vice-Papa…”

PARA REVOLUCIONÁRIOS E HUMILDES
De tantos pronunciamentos excepcionais da lavra do Papa, destacamos dois igualmente explosivos: os jovens devem ser revolucionários e os bispos, humildes. De que forma aqueles poderão exprimir sua revolução a não ser protestando nas ruas? E estes, senão abandonando a pompa, os luxos, a arrogância e o distanciamento das respectivas comunidades?

COMPREM GUARDA-CHUVAS, A TEMPESTADE VEM AÍ 
Esta semana talvez não, porque os trabalhos parlamentares reabrem no dia em que Suas Excelências costumam ir embora, ou seja, quinta-feira. Na próxima, porém, são esperadas múltiplas escaramuças: dos presidentes da Câmara e do Senado  contra a presidente da República.  Do PT contra o PMDB, e vice-versa. Dos companheiros contra a companheira.  Dos pequenos partidos da base oficial contra o  palácio do Planalto.

Sobra o Judiciário, na hipótese de o presidente Joaquim Barbosa der solução cirúrgica e imediata aos embargos dos mensaleiros, sinalizando o rumo da cadeia para os réus condenados.

Salve-se quem puder

Ferreira Gullar
Folha de SPaulo

Seria muita pretensão minha afirmar que entendo perfeitamente o que está ocorrendo no país, desde as passeatas de protesto que invadiram as ruas das principais cidades e abalaram o prestígio aparentemente inabalável do governo petista.

Trata-se, sem dúvida, de um fenômeno novo, surpreendente mesmo num país que parecia adormecido, como que indiferente aos escândalos que comprometeram o governo de Lula, à inoperância que acomete o governo de Dilma e à corrupção generalizada dos políticos.

A verdade é que, de meu ponto de vista, o setor da sociedade que nada lucrou com o populismo lulista -vendo que esse estado de coisas prometia manter-se indefinidamente, dados os altos índices de aprovação da atual governante- decidiu sair às ruas e dizer "basta!".

Multidões manifestaram seu descontentamento com a situação social e política, denunciando a corrupção, a inoperância e a incompetência administrativa. O nível de aprovação de Dilma despencou. Lula, como faz sempre que a coisa encrenca, sumiu, mas a questão estava posta: o povo exige mudanças drásticas, o contrário do quadro mantido nestes dez anos de governo petista.

Lula e sua turma tentaram "aderir" aos protestos, mas foram repelidos. Em face disso, tendo ficado claro que as centrais sindicais foram cooptadas pelo governo, resolveram fingir que também estão descontentes. Um fiasco, já que essas centrais, dominadas por pelegos, não representam mais ninguém.

Como se não bastasse o número relativamente inexpressivo de manifestantes, tampouco suas palavras de ordem corresponderam ao descontentamento explícito nos protestos "desorganizados" que sacudiram a sociedade no mês passado.

Embora nas últimas semanas aquelas manifestações populares massivas tenham cessado, outros tipos de protestos tomaram as ruas. Diferentemente daquelas (ao que tudo indica, desvinculadas de quaisquer entidades), essas últimas foram, sem dúvida, organizadas por categorias profissionais, que exigem providências efetivas, da parte do governo, na solução de problemas concretos. É o caso dos médicos, dos professores, dos policiais militares.

Desta vez, os manifestantes exigem providências efetivas para resolverem questões profissionais e atenderem a promessas que o governo fez e não cumpriu. Isso representa uma mudança qualitativa no caráter dos protestos -que, ao que tudo indica, tendem a se multiplicar e ampliar, deixando à mostra a inépcia do governo na solução desses problemas.

É que o populismo petista -embora se trate de um partido dito dos trabalhadores-, voltado para a compra de eleitores carentes, desvinculou-se do real interesse das categorias profissionais, concentrado como está no assistencialismo.

Não resta dúvida de que melhorar as condições de vida dos setores mais carentes da sociedade -como fez Lula, ampliando o número de beneficiário do Bolsa Família- é providência em princípio correta que merece apoio e reconhecimento. O erro não está aí e, sim, em ignorar que programas como esse, de caráter assistencial, devem ser realizados como medidas emergenciais. Correto é, a par disso, criar condições para que as pessoas vivam de seu trabalho e de sua competência profissional.

Todo mundo sabe que uma das características marcantes do governo petista é a autopromoção, de Dilma a Mantega. Quando falam em público, é para elogiar o próprio governo, dizer que está tudo às mil maravilhas e que o PIB vai crescer.

O PIB não cresce, eles atribuem a culpa a algum fator não governamental e continuam a manipular os dados econômicos para fingir que está tudo bem.

Mas isso é só para enganar a opinião pública, porque eles sabem muito bem que a situação real é outra. Agora, estão embananados porque o povo nas ruas mostrou que já não se deixa enganar. A prova disso é a queda assustadora da aprovação de Dilma nas pesquisas, o que ameaça a sua reeleição em 2014.

Esses fatos explicam a mudança de atitude do principal aliado do governo, o PMDB, que se opõe ao plebiscito proposto por Dilma e sugere a redução do número de ministérios. Pura sacanagem, para explorar a fragilidade de Dilma e tirar partido disso. É que parece estar chegando a hora do salve-se quem puder.

As reformas

Paulo Brossard
Zero Hora

Nosso sistema eleitoral é um dos segmentos que mais tem se aperfeiçoado, em anos sucessivos

Não é de hoje que se fala em reforma política e reforma eleitoral e agora após variadas agitações urbanas, que deram feições novas à mesmice habitual das muitas cidades, praticamente em todos os Estados; em consequência o Congresso teve pressa em adotar medidas no que tange à tramitação parlamentar ou ao funcionamento do Poder Legislativo, até onde vai o meu conhecimento do assunto, à luz do que foi divulgado, as questões que despertaram a atenção congressual nem de longe resultaram da experiência acumulada, tanto assim, que jamais haviam sido arroladas como desnecessárias ou inconvenientes; parece terem sido uma espécie de tributo pago aos noticiários do dia, que estariam a indicar velharias intoleráveis.

Dou um exemplo: passando os olhos pela Constituição, vejo que em dúzia de vezes nada se lê que nos casos que indicam votação da Câmara ou do Senado, seria tomada em escrutínio secreto. Seria de indagar porque tradicionalmente a norma Constitucional exige que a decisão se desse mediante votação secreta. A regra geral era no sentido das decisões parlamentares, fossem públicas; excepcionalmente elas haveriam de ser “em escrutínio secreto”. Os casos excepcionais são poucos creio não passariam de meia dúzia e, em sua maioria, em favor do Legislativo e no sentido de limitar o Executivo. E teriam sido apagados todos os casos de votação secreta, na Câmara e no Senado. Todos. Dou um exemplo: O voto a projeto de lei, mesmo que aprovado pela maioridade da Câmara e do Senado, só pode ser rejeitado pela maioria absoluta dos deputados e senadores, em escrutínio secreto”. Por que? Para que o Executivo, com todas suas múltiplas ramificações, não poderiam pressionar parlamentares, a lei cuida de assegurar a votação secreta, como se não bastasse a maioria absoluta, ou seja, a maioria da Câmara e do Senado. O expediente é eficaz? Não sei, sei apenas que busca assegurar aos parlamentares plena independência ao votar, como sei que a lei pode muito mas não pode tudo.

Fico por aqui no que tange à reforma política e passo à reforma eleitoral. Parece que o ato congressual foi a abolição dos suplentes ou do segundo suplente. Diga-se de passagem, que nem sempre houve a figura do suplente de senador e quando vagava o Senado, por uma renúncia ou perda de mandato, ou pela nomeação para ministro de Estado, deveria haver eleição para preencher a vaga, até porque dado o número de senadores em consequência obrigatória da Federação e da igualdade dos Estados, embora fossem grandes ou pequenos, populosos ou de baixa população os Estados. Foi a Constituição de 34 que instituiu a figura do suplente para substituir o titular em caso de impedimento ou sucedê-lo em caso de vacância. De resto, nunca se questionou sua conveniência. Eliminar o suplente como necessidade a justificar uma reforma eleitoral, a meu juízo, é um contrassenso. A verdade é que a Constituição é expressa: “cada Senador será eleito com dois suplentes”. Embora a solução consagrada não seja um dogma uma coisa é certa, a sua eliminação não justifica uma reforma eleitoral.

Um pormenor que não pode ser omitido é que o nosso sistema eleitoral é um dos segmentos que mais tem se aperfeiçoado, em anos sucessivos. Em verdade, se durante o Império as eleições não eram modelares e a adoção da eleição direta implantada quando o Conselheiro Saraiva era o presidente do Conselho representou um progresso histórico, foi constante a preocupação do Imperador no sentido de aprimorar o sistema vigente. Adotada a República os abusos se multiplicaram. É de lembrar-se, desde logo, ser então estadual a legislação eleitoral e isso ensejava demasias ainda mais nocivas. O certo é que o Partido Republicano, embora em crescimento, estava longe de competir com o Liberal e o Conservador. A propósito, lembro na última eleição realizada no segundo reinado, os republicanos elegeram apenas três deputados, como é sabido Campos Salles era um deles. Nesse quadro os republicanos beneficiados com a surpresa de 15 de novembro temiam que os antigos monarquistas aderindo à República pudessem facilmente assumir os postos de direção. Por mera reminiscência recorde-se que Rodrigues Alves e Afonso Pena, um conservador e o outro liberal, vieram a ser eleitos presidentes da República no primeiro decênio do século 20.

De qualquer sorte parece-me oportuno ressaltar que a despeito dos muitos acidentes institucionais que macularam a história da Nação, é forçoso reconhecer que a Justiça Eleitoral permaneceu incólume, nos 20 anos de bastardia republicana e democrática. E, além disto, é inegável que a partir do longo período do Estado Novo, foram vários os aperfeiçoamentos aditados ao Código Eleitoral como a adoção da cédula oficial, o acesso ao rádio e à televisão gratuitos, a participação no fundo partidário e a urna eletrônica.

De modo que o risco da reforma projetada importar em clamoroso retrocesso não me parece hipótese gratuita.


O cérebro vadio das vadias: a indomável opção pelo nada

Sidney Silveira
Mídia Sem Máscara

As marchas das vadias são um dentre tantos retratos de que, no Brasil atual, delírios megalômanos, pretensiosos e de maligna puerilidade ganharam voz “política”.
A devoção à imbecilidade é a religião dessas meninas-moças. Religião que se propaga como rastilho de pólvora numa sociedade psicótica.

Há uma escala na relação da inteligência com as coisas — que pode ir da compreensão extática de elevadas verdades até a mais agônica recusa do ser, quando as convicções de uma pessoa se tornam impermeáveis a todas as evidências em contrário. Neste caso, a alucinação ganha contornos sistêmicos e é quase impossível sair da ciclofrenia, ou seja: da loucura circular que até pouco tempo os manuais de psiquiatria chamavam de psicose maníaco-depressiva. Em situações tais, as certezas do indivíduo transformam-se na expressão cabal de um delírio. Então, o caminho apresenta-se desimpedido para que o afastamento da realidade se dê em progressão geométrica, até gerar taras e monomanias de todos os tipos possíveis e inimagináveis.

Interessa-nos aqui mencionar o que chamaremos de delírio político, caracterizado por um estado crepuscular frenético no qual o sujeito sonha de olhos abertos, projetando sobre a coletividade um falso ideal que não é outra coisa senão a tentativa de moldar tudo e todos à imagem e semelhança de sua própria perda do senso comum. Neste quadro, é completa a irredutibilidade da convicção delirante a qualquer tentativa de dissuasão. O sujeito constrói a sua visão do mundo a partir dos destroços de si próprio, e nestes casos não há psicotrópico ou remédio de tarja preta que dê jeito, pois o problema não é clínico. É espiritual, noético. O alucinado amansa, é claro, porque o medicamento atua sobre o sistema nervoso central, mas continua sem manter contato com a realidade dos valores que conformam a sua humana condição.

Traço típico da personalidade do delirante político é forjar analogias entre situações essencialmente distintas, sem ter a menor noção de que se trata de uma petição de princípio, ou seja, do ato de inserir indevidamente a conclusão nas premissas de que parte. Para tanto, o delirante conta com o terrível auxílio de dois fatores: a hipertrofia da sensibilidade, que pode levá-lo a histrionismos patéticos, e a intransigência autoritária típica dos estados paranóicos, nos quais qualquer objeção é rejeitada instintivamente — e o objetor, tido como inimigo a ser desqualificado a qualquer custo. O delírio torna-se sistema vital gerador da incrível e absurda coerência entre as idéias-fixas que o modelam e a conduta do sujeito.

O Brasil das “manifestações” — termo eufemístico que serve de antolhos para o delirante político não ver os crimes que, direta ou indiretamente, comete ou apóia — tem dado mostras veementes de como esse tipo de personalidade brutal, insana, tornou-se endêmica. Na prática, o caminho para chegarmos à presente situação foi palmilhado por décadas de desinteligência daquilo que alguns filósofos medievais chamavam de saluberrima veritas, ou seja: o núcleo de verdades constituintes da essência humana. Não existe nenhum exagero em dizer que há cinqüenta anos estamos sendo educados para o desespero, e o desespero é a indomável opção pelo nada.

As marchas das vadias são um dentre tantos retratos de que, no Brasil atual, delírios megalômanos, pretensiosos e de maligna puerilidade ganharam voz “política”. Nestes eventos vê-se algo insólito, levando-se em conta toda a história humana: pessoas a ostentar publicamente a própria depravação como um troféu — circunstância reveladora de que, em suas pobres almas, a vaidade alcançou estranho e superlativo grau. Em breves palavras, este é o signo distintivo de um peculiar transtorno da personalidade, no qual a referência tirânica ao próprio umbigo vira bandeira social, tendo como adereço publicitário suplementar algumas tetas murchas, de espontânea feiúra. Coerentes e fiéis às premissas hedonísticas que lhes servem de sustentáculo, essas criaturas têm da liberdade uma erudita concepção vaginal-peniana, e também anorretal.

Para o bem de todos e felicidade geral da nação, alguém poderia prendê-las por vadiagem cerebral explícita. Mas não apenas por isto, é claro: os vários delitos constantes do Código Penal cometidos por elas em eventos dignos de enrubescer um Calígula — enquanto, com funesta benemerência, a grande imprensa as chama de “manifestantes” — já há tempos ultrapassaram os limites suficientes para o Ministério Público denunciá-las. Desta vez, com a naturalidade cênica de quem tira meleca do nariz, à luz do dia essas vadias enfiaram crucifixos nas suas asseadas vaginas, como também os introduziram amavelmente nos gulosos ânus dos seus companheiros de utopia. Quebraram símbolos religiosos, berraram palavrinhas de ordem, simularam masturbação com a cabeça da imagem de Nossa Senhora e levaram a cabo (e pelo cabo) outras de suas lúdicas atividades, por acaso contrárias à lei.

A devoção à imbecilidade é a religião dessas meninas-moças. Religião que se propaga como rastilho de pólvora numa sociedade psicótica, ao mesmo tempo em que representa a narcolepsia social em forma de coletivismo anárquico.

Como se vê, o gigante brasileiro acordou. Pena que era um demônio de quinta categoria.

O Exorcista e a Marcha das Vadias – Escravos da Revolução

Milton Pires
Alerta Total



Em 1973, a atriz americana Linda Blair, então uma menina de 13 anos, interpretava a personagem Regan MacNeil na adaptação para o cinema do livro de William Peter Blatty - The Exorcist.

Uma das cenas mais polêmicas do filme, e censurada na primeira versão mostrava a criança (substituída na verdade por uma atriz adulta) masturbando-se com um crucifixo em frente à mãe. Isso foi há 40 anos e causa até hoje, para quem assiste a versão completa colocada à venda, um evidente mal-estar - efeito esperado na pessoa sadia quando vê uma criança ser ferida.

Na semana passada, em protesto à JMJ (Jornada Mundial da Juventude), ativistas da Marcha das Vadias protagonizaram em plena rua uma cena que resume-se no seguinte: uma moça (ou pelo menos parecida com uma) colocou um preservativo num crucifixo e fez a sua introdução no ânus de um de seus colegas de protesto perante todas as pessoas presentes. A foto está disponível na web. Não apresento aqui por uma questão de "higiene eletrônica".

Esse artigo não tem como objetivo fazer um discurso moralizador. Para meus leitores não é preciso e para as "vadias" não adianta. Também não pretendo (e poderia facilmente fazer isso mesmo sem ser especialista) escrever sobre esse tipo de coisa do ponto de vista da psiquiatria. A idéia é mais simples - fazer uma comparação rápida entre a "intenção do Diabo" da novela de Blatty levada às telas e aquela das ativistas do Rio de Janeiro. Não passa de pura especulação. Vamos ver se consigo ser feliz na tentativa..

Associar sexo, masturbação e pecado é algo tão velho quanto a Bíblia. Escrever livros, filmes e peças de teatro em que a sexualidade é objeto de manipulação por supostos demônios tornou-se algo tão comum que prender-se em exemplos seria perda de tempo. O roteiro me parece sempre o mesmo. Adquirindo poderes fornecidos pelo Diabo a pessoa pode seduzir sexualmente outras e, consumado o ato, sua alma, a do parceiro (ou parceira) ou de ambos está "perdida para sempre". Acredita-se que a alma, seduzida ou sedutora, passe a pertencer ao Diabo - seu destino é a eternidade no Inferno. Ponto. Nova linha..rss..rss.

Faço agora uma pergunta - E se o pecado fosse, ao invés do caminho para o prazer, o caminho para a Revolução? E se quem se masturba com crucifixos não sentisse de fato prazer sexual algum? Se fosse apenas (na sua visão) um meio necessário para destruir aquilo que molda a nossa visão do real?

E se o objetivo for exatamente esse..o fim da moralidade que nos permita entender o mínimo a respeito do certo e do errado?Lembrem - na novela de Blatty, Regan já está possuída..Trata-se no filme de uma luta entre ela e os padres para que sua alma não seja levada ao Inferno, mas e se nós fizéssemos uma inversão? E se tratássemos de trazer o Inferno a todos até aqui na Terra, hein?

Até hoje o "inferno" ficou restrito a determinados pontos desse planeta. Países como a antiga Alemanha de Hitler, a URSS de Stalin e a China de Mao são hoje parte da história, não é? Todos concordamos que na prática eles faliram..desapareceram..Isso na “prática”, mas e do ponto de vista teórico?

E como possibilidade de um "reino ideal" criado aqui mesmo nesse mundo..Mais de uma vez já escrevi que o Governo Total, seja ele Islâmico, Comunista ou do Clube de Bilderberg, só pode vir numa situação: quando a Humanidade "implorar por ele"..quando o caos, o desespero e a falta de esperança forem tão grandes que ele possa surgir como "Salvador"...

Observem aí a diferença dos "Diabos de filme de Terror" - eles já tem seu reino e querem "apenas" nos levar para lá com eles. A Revolução Cultural tem outra meta: "zerar o relógio da história", preparar o "ano Zero"..enfim..deixar a humanidade pronta para o Governo Único.

Meus amigos, esse texto não pensa em associar comunismo e satanismo embora exista muito material interessante sobre isso. Não atribui à Marcha das Vadias nenhum pacto com o Diabo (o Diabo não é burro), mas questiona a similaridade de métodos dela e de certos personagens de ficção. Não podemos nos enganar - o Diabo do Exorcista não recebia dinheiro público, não é?

Não soube de nenhuma "legião" fundando ONGS ou importando "6000 diabos cubanos" para um "inferno carente", mas em outros aspectos parece que não ficamos nada a dever..rsss...rsss...Para ser sincero, acho que perto dos revolucionários, o demônio de Blatty é bem mais modesto. Ele só quer que "acreditem nele" como alguém da oposição a Deus, não é? Acho isso bem modesto comparado com gente que não admite a simples existência de oposição.

Termino fazendo uma distinção séria, mais uma entre o Exorcista e a Marcha das Vadias, e que na minha opinião é a principal. Esse famoso filme de terror mostra a luta do Bem contra o Mal na disputa pela alma de uma criança que está para se tornar eterna escrava do Demônio. A Marcha das Vadias, e aquele cidadão que introduziu um crucifixo no ânus, são soldados de outra guerra..Lutam pela alma de adultos e querem torná-los escravos de uma Revolução - não conheço exorcismo para isso.

Milton Simon Pires é Médico.

Se eu quero, eu posso

Celso Ming
O Estado de SPaulo

Os críticos da atual política econômica vêm apontando como principais causas dos desacertos tanto problemas de gerenciamento quanto barreiras de ordem ideológica.

Com algumas exceções, talvez não se possa falar propriamente de barreiras ideológicas, mas de posturas equivocadas de governo.

As resistências desta administração em chamar o setor privado a participar mais agressivamente de projetos de infraestrutura e de outros serviços públicos são provavelmente um dos poucos entraves de ordem ideológica propriamente dita. Mesmo depois de ter trombado tantas vezes com as limitações de recursos públicos, o governo Dilma ainda não superou antigos preconceitos contra quaisquer formas de privatização, inclusive as Participações Público-Privadas (PPPs) que muitos ainda insistem em chamar de "privataria".

Entre as posturas equivocadas do governo está a concepção de que mais importante do que a solidez dos fundamentos da economia é a vontade política, na base do "se eu quero, eu posso", em que a decisão transformadora supera qualquer obstáculo. Daí a enorme dose de voluntarismo que perpassa a administração Dilma.

Faz parte desse jogo a ideia de que basta garantir o avanço do consumo e aumentar a escala da economia para que o resto venha junto. Logo se viu que a criação de mercado interno por meio de políticas de transferência de renda não foi suficiente para puxar pela produção e pelos investimentos, porque os produtores nacionais estão atolados na baixa competitividade.

Outro equívoco dessa natureza foi a política de derrubada sistemática dos juros, prevalecente de agosto de 2011 a abril de 2013, independentemente das exigências da política de metas de inflação. O pressuposto foi de que ganhariam as contas públicas, pela queda do serviço (juros) da dívida pública, e ganharia a inflação, pela redução dos custos financeiros. Mas a política fiscal ficou defeituosa e a inflação disparou.

A postura voluntarista seguinte foi a de que, ao contrário do que aponta a maioria dos estudos sobre a matéria, valeria a pena sacrificar a inflação em benefício de mais crescimento econômico. O resultado, como advertiu no Estadão de ontem o ex-diretor do Banco Central Alberto Furuguem, foi apenas mais inflação.

Para tentar consertar distorções desse tipo, o governo Dilma apelou para expedientes de política de preços. Segurou e subsidiou os reajustes dos combustíveis, forçou a redução das tarifas de energia elétrica (que agora terão de ser cobertas com recursos do Tesouro), postergou e, agora, removeu a correção das tarifas dos transportes públicos e até mesmo usou certas reduções de impostos (como a dos veículos e dos aparelhos domésticos) para conter a inflação. Em seguida, vieram as distorções já conhecidas.

Não dá para deixar de enumerar entre as práticas voluntaristas do governo certos procedimentos de política industrial. O abuso das exigências de conteúdo local (instalações, bens de capital, peças e componentes a serem obrigatoriamente produzidos no País); a criação de reservas de mercado; e a escolha de campeões do futuro para receber subsídios, financiamentos a juros favorecidos e encomendas generosas também fazem parte dessa política.

Essas coisas produzem consequências. E entre elas estão as enormes distorções que travam o sistema produtivo e tiram eficácia da economia. 

Os nós a quatro mãos

Míriam Leitão  
O Globo

A economia brasileira está diante de vários obstáculos que impedem o crescimento mais forte. Para recuperar o ritmo, terá que superá-los e, para isso, o governo precisa reconhecer o que não está funcionando. A presidente propôs um "pacto da verdade" mas, em seguida, fugiu dele. O fato é que os nós se acumularam e isso está derrubando a confiança dos consumidores e dos empresários.

A inflação será baixa em julho e agosto, mas ela está alta demais há muito tempo e não há previsão de quando volta ao centro da meta. A balança comercial está com déficit. Algumas commodities caíram de preço, mas isso sozinho não explica o rombo. Ele é resultado de uma importação crescente de petróleo e derivados, causada pelo incentivo ao consumo da gasolina e pelo uso das térmicas, e insuficiência de produção. O déficit em conta corrente subiu e não é coberto por investimentos diretos.

O mercado de trabalho vive um drama duplo: os empresários acham que falta mão de obra qualificada mas jovens não encontram emprego. O consumo não crescerá no ritmo que cresceu porque o endividamento das famílias dobrou nos últimos 8 anos e hoje compromete quase um quarto do orçamento familiar. Continuar estimulando o consumo, via dívida, é mais difícil. O cenário é parecido com os gastos públicos. Apenas no primeiro semestre deste ano, o governo concedeu R$ 35 bilhões em desonerações que não deram o resultado esperado.

A arrecadação cresceu 0,5% no semestre, descontada a inflação, e não há espaço para novos estímulos. O superávit primário caiu, e a dívida bruta está aumentando. A dívida que todos olham é a bruta, e, segundo dados do Banco Central, ela saiu de 54,06% do PIB, em janeiro de 2011, para 59,58%, em maio de 2013. A dívida líquida perdeu credibilidade porque passou a incorporar ativos sem liquidez, como os empréstimos feitos ao BNDES.

O PIB será baixo pelo terceiro ano seguido. As projeções para o ano que vem também caíram para a casa de 2% e o período entre 2011 e 2014 deve ser o de mais baixo crescimento dos últimos 20 anos: média de apenas 2,12%, levando em conta as projeções feitas no Boletim Focus para 2013 e 2014.

O principal gargalo é a inflação. Ela está perto do teto da meta, em 6,5%, mesmo com um nível de atividade baixo. Se a economia voltar a acelerar, ela pode ficar mais alta. A menos que a taxa caia bastante agora. Mas, se errar na dose de juros, o BC derruba demais o nível de atividade.

A balança comercial encerrou o primeiro semestre com déficit de US$ 3 bi. No mesmo período de 2012, estava com superávit de US$ 7 bi. Olhando mais para trás, em 2005, foram US$ 20 bi, de janeiro a junho.

O setor de energia é um dos gargalos. Os níveis dos reservatórios subiram, felizmente, mas ainda estão no patamar mais baixo dos últimos 10 anos para o período, segundo o Operador Nacional do Sistema Elétrico. O ONS tem os dados no site, para consulta pública. Para economizar água, as térmicas foram acionadas. Como o governo tinha anunciado, em clima de campanha, a redução da tarifa, agora não poderá pedir para o consumidor pagar a conta do custo das térmicas. Ontem, o "Estado de S. Paulo" informou que R$ 6,7 bi terão que ser repassados do Tesouro para cobrir o custo. Não pagarão os consumidores, mas os contribuintes.

A presidente Dilma Rousseff, em entrevista à Mônica Bergamo, da "Folha de S. Paulo", disse que, além dos cinco pactos que propôs, iria propor um sexto: o pacto da verdade. Em seguida, disse que a inflação está baixa, a dívida pública está caindo, os gastos estão sob controle, e o déficit da Previdência é pequeno.

A verdade que ela disse foi que o ex-presidente Lula não voltará porque nunca foi embora. Momento de louvável sinceridade. Confirma o que se sabia sobre a autonomia da atual governante em relação ao seu antecessor. E mostra que os nós atuais foram atados a quatro mãos.

No Brasil, descumprimento da meta de inflação vira arma política

Murilo Rodrigues Alves 
O Estado de S.Paulo

Presidente tem usado em discursos e entrevistas um dos pontos mais criticados de seu governo para atacar oposição

A presidente Dilma Rousseff passou a usar o descumprimento da meta de inflação como uma arma política, mas o tiro pode sair pela culatra. Em discursos e entrevistas, ela afirmou que, antes de seu antecessor e padrinho político Lula, a inflação ficou acima da meta em três dos quatro anos do governo Fernando Henrique Cardoso. Dados do Banco Central (BC) revelam, porém, que, depois de um sucesso na desinflação em 1999 e 2000, as metas não foram atendidas entre 2001 e 2003 - nos dois últimos anos do mandato de FHC e no primeiro ano da "era Lula".

O que mais pressionou a inflação no último ano do tucano foi uma crise de confiança desencadeada, principalmente, pelas incertezas na eleição de Lula. O mercado temia que o PT faria uma auditoria da dívida externa ou interromperia pagamentos, como defendia até então.

Com essa estratégia, Dilma usa de um dos pontos mais criticados do seu governo - a estabilidade dos preços - para atacar a oposição. O economista Alberto Furuguem, ex-diretor do BC, disse não considerar "honesto" que o governo escolha essa como uma de suas bandeiras porque diferenças de postura, segundo ele, mostram que a atual gestão é mais "complacente" com a inflação.

"No governo Dilma, o cumprimento da meta, mesmo a 'frouxa', nunca foi levado muito a sério. A equipe dela pensou erroneamente que pudesse trocar um pouco de inflação por mais crescimento. Só teve uma dessas coisas", disse. No médio e longo prazos, complementou, uma inflação maior, em vez de gerar mais crescimento, cria um ambiente desfavorável aos investimentos e promove concentração de renda.

O economista Roberto Luís Troster disse que o descrédito de Dilma pode ser medido pelo fato de o presidente do BC, Alexandre Tombini, não ter se comprometido nos últimos três anos a entregar a inflação no centro da meta. Tombini prometeu que neste ano a inflação será menor que os 5,84% registrados em 2012, patamar acima do centro da meta.

Mudanças. 
No primeiro ano de Dilma, a inflação encostou no limite superior, de 6,5%. "Cada hora temos uma meta diferente. Ninguém acredita mais nos 4,5%", afirmou Troster. A prova disso é o nível elevado das projeções. A mediana das estimativas de uma centena de instituições consultadas pelo BC para o boletim Focus apontam inflação de 5,4% para 2017.

Pela cartilha dos economistas, para recuperar a credibilidade, o governo deveria ter mudado a meta de inflação, colocando um limite menor a médio prazo. Entretanto, em junho, o Conselho Monetário Nacional (CMN) decidiu que em 2015, pelo 11.° ano seguido, a meta será de 4,5%, com intervalo de tolerância de dois pontos para cima ou para baixo. O ex-diretor do BC considera "perigoso" manter a mesma meta por tantos anos. "A memória inflacionária do brasileiro é algo que ainda não morreu", afirmou Furuguem.

Nos discursos, Dilma também se comprometeu a entregar a inflação dentro da meta este ano, mas Troster critica a falta de comprometimento do governo em alcançar o centro da meta. "A repetição do uso desse recurso acaba prejudicando a credibilidade do regime de metas."

Virtudes e armadilhas do orçamento impositivo

Editorial
O Globo

A mudança para que valha o que está escrito na lei orçamentária precisa esperar a depuração do Congresso, a fim de que melhore a representatividade política

Em países de economia estabilizada e regime democrático consolidado, o envio do Orçamento ao Congresso, sua discussão e aprovação se constituem momentos decisivos da agenda nacional a cada ano. Como os números de despesas e receitas são para valer, têm de ser cumpridos pelo Estado, o debate em torno da peça orçamentária é a discussão sobre efetivas prioridades eleitas pela sociedade.

Não há mágica, nem pode existir “contabilidade criativa”. No final do primeiro mandato de Barack Obama, a máquina pública americana pararia se democratas e republicanos não se entendessem para elevar o nível do endividamento público. Um desentendimento semelhante, na gestão Clinton, levou ao fechamento de repartições federais.

Quando se propõe no Brasil a mudança de orçamento “autorizativo”, em que a despesa pode ser feita ou não, para “impositivo”, pelo qual o Estado terá de cumprir aquilo que está escrito, aponta-se para uma mudança radical nos usos e costumes na formulação e execução do plano de receitas e despesas do governo federal.

Inflar receitas para justificar despesas, um dos cacoetes de parlamentares para encaixar emendas de gastos paroquiais, terá de ser abandonado. É natural e até desejável que o representante do povo defenda a inclusão de projetos de sua base no Orçamento. As despesas públicas precisam de capilaridade para atingir todo o país. Este, porém, terá de ser um processo transparente e sério — dois predicados escassos no jogo de faz de conta orçamentário em Brasília.

Como o governo não poderá cortar despesas sob o eufemismo de “contingenciamento”, toda a produção da chamada peça orçamentária e o seu cumprimento precisarão ter uma qualidade hoje inexistente.

Há tempos se discute o orçamento impositivo para o Brasil. Será, de fato, um avanço. No momento, tramita proposta de emenda constitucional no Congresso com este objetivo, com a previsão de ser votada em comissão especial, no início de agosto, na volta dos parlamentares do recesso.

O governo se preocupa com esta PEC. A tendência no Congresso costuma ser defender a imposição no cumprimento do Orçamento apenas para proteger as emendas. E o Planalto não quer abrir mão de contingenciá-las em supostos justes fiscais, pois o Orçamento tem cerca de 80% de suas despesas já predefinidas, engessadas: Previdência, salário do funcionalismo, Saúde etc.

Outro ponto é imaginar o que seria um Orçamento impositivo formulado por um Congresso em parte dominado pelo baixo clero e por legendas nanicas especializadas em vender (de fato) apoios. Há, portanto, riscos em se adotar a fórmula sem antes melhorar-se a representatividade do Legislativo. É uma reforma a ser feita a conversão do orçamento autorizativo em impositivo. Mas no tempo certo.

Derrubada de vetos presidenciais pode custar R$ 6,2 bilhões

Ricardo Brito
O Estado de S. Paulo

Promessa de corte de gastos do governo pode esbarrar na ‘rebelião’ da base aliada 

BRASÍLIA - Com a nova fórmula de apreciação dos vetos presidenciais, o Congresso já acumula seis matérias que terão de ser obrigatoriamente votadas por deputados e senadores no próximo mês. Em quatro delas, parlamentares da base aliada começaram a articular a derrubada dos vetos da presidente Dilma Rousseff.

A rebelião dos aliados, no momento em que a relação com o Planalto está desgastada e a presidente teve uma queda de popularidade após as manifestações, pode custar, numa projeção mais conservadora, um rombo de pelo menos R$ 6,2 bilhões aos cofres da União por ano.

Antes do recesso parlamentar, o Legislativo decidiu que todos os vetos a iniciativas legislativas têm de ser apreciados pelo Congresso em até 30 dias, sob pena de trancarem a pauta. Nos últimos 15 dias, Dilma vetou 51 itens de três medidas provisórias, um projeto de lei e um projeto de lei complementar. A presidente ainda rejeitou na íntegra o projeto que acabava com a multa adicional de 10% do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) pago pelas empresas nos casos de demissão sem justa causa. O veto a essa norma e cada um dos itens do projeto terão de ser apreciados separadamente, em votação secreta.

Na provável pauta do Congresso em 20 de agosto, a sexta proposta legislativa que deve ir à votação, a queda da contribuição do FGTS custaria, nas contas do próprio governo, R$ 3 bilhões por ano.

Pressionados pelo lobby empresarial, parlamentares da base aliada já defendem abertamente a derrubada do veto. Para barrar essa articulação, o governo Dilma tentará ressuscitar uma proposta de vincular a multa adicional do FGTS ao programa Minha Casa, Minha Vida.

Desonerações. 
Outro motivo de apreensão no Planalto é a análise dos 31 itens vetados da Medida Provisória da Seca, a MP 610, que incorporou parte do conteúdo de outra MP, a 601. Esta última permitiu a desoneração da folha para uma série de setores produtivos.

Os parlamentares aproveitaram a tramitação da MP da Seca para, além de incluir novas desonerações, também prorrogar até o fim de 2014 a validade do Regime Especial de Reintegração de Valores Tributários para as Empresas Exportadoras (Reintegra), que devolve a elas parte dos tributos sobre o faturamento com exportação.

Dilma vetou a maioria das inclusões dos parlamentares, como a prorrogação do Reintegra, que tem custo anual estimado em R$ 2,23 bilhões. Dessa forma, o regime especial vai vigorar só até o fim deste ano.

Insuflada por prefeitos e governadores, a base aliada também ameaça derrubar o veto parcial à nova lei de redistribuição de recursos do Fundo de Participação dos Estados (FPE). Os aliados querem que o Congresso restabeleça uma emenda que impede que as desonerações feitas pelo governo federal tenham impacto no bolo dos recursos do FPE e do Fundo de Participação dos Municípios (FPM). A Confederação Nacional dos Municípios estima que só este ano, por causa das desonerações, o FPM perderá R$ 1 bilhão em recursos.

Educação. 
A pauta do Congresso ainda conta com vetos parciais a duas medidas provisórias que podem ter custos para o Executivo. O primeiro é o que permite a adesão de faculdades municipais particulares ao Programa Universidade para Todos (Prouni). Sem quantificar o custo dessa ampliação, o autor da emenda derrubada, deputado Mendonça Filho (DEM-PE), diz que a inclusão dessas instituições ampliaria "significativamente" o número de bolsas ofertadas e, consequentemente, os gastos da União.

Em seguida, os congressistas vão analisar o veto parcial à ampliação das desonerações na medida provisória da cesta básica, a MP 609. A presidente rejeitou a concessão de benefícios fiscais a produtos como carne de frango, pão de forma, biscoitos, molho de tomate e sucos. Não se tem uma estimativa do custo financeiro com essas isenções.

Brasil deve crescer 2%, diz economista do Credit Suisse

Exame.com
Ricardo Leopoldo, Estadão Conteúdo

De acordo com Nilson Teixeira, a taxa de desemprego está em leve expansão e deve atingir 5,7% neste ano, com uma velocidade menor do avanço da renda real dos trabalhadores

Marcos Issa/Bloomberg 
"Não se trata de uma situação ruim um crescimento de 2%", afirmou economista

São Paulo - O economista-chefe do banco Credit Suisse, Nilson Teixeira, que participa nesta terça-feira, 30, de palestra na Amcham Brasil, na capitral paulista, afirmou que o Brasil deve crescer 2% em 2013 e 3% no ano que vem.

"Não se trata de uma situação ruim um crescimento de 2%", afirmou. Ele ressaltou que o potencial de expansão do PIB do País, "com devidos investimentos", está mais próximo de 4% do que de 2%.

De acordo com Teixeira, a taxa de desemprego está em leve expansão e deve atingir 5,7% neste ano, com uma velocidade menor do avanço da renda real dos trabalhadores.

O economista ponderou que a inflação deve subir 5,8% neste ano e em 2014 e destacou que o IPCA não está fora do controle. Nesse contexto, ele pondera que o Banco Central deverá elevar a Selic para 9,25% em 2013.

O ex-ministro da Fazenda Delfim Netto, também presente na palestra da Amcham, afirmou nesta manhã ter a impressão de que o Banco Central "declarou sua independência".

Segundo ele, o presidente do BC, Alexandre Tombini, sinaliza que "se as finanças públicas não ajudarem, vai cumprir o seu papel", que é elevar os juros básicos para conter a demanda agregada e diminuir as pressões do desequilíbrio fiscal sobre a inflação.

"Seguramente as últimas decisões do BC tem sido tomadas nessa direção", afirmou, referindo-se ao movimento de alta da Selic iniciado em abril pelo Comitê de Política Monetária (Copom).

Delfim destacou que "a inflação de 6,5% é desconfortável", pois no mundo apenas quatro ou cinco países tem um nível de preços superior a 5% ao ano. "Mas no Brasil ela não está fora do controle. Não há nenhuma catástrofe", ressaltou.

Já sobre o lado fiscal, Delfim Netto afirma que o Brasil passa por "uma situação um pouco desconfortável", que inclusive leva o déficit nominal para um patamar ao redor de 2,5% do PIB. Para ele, "60% do PIB de dívida bruta é (uma fatia) elevada, mas não é nada trágico", ponderou.

O ex-ministro destacou, contudo, que "as manobras" contábeis feitas pelo governo nos últimos anos fez com que o indicador que mede a dívida líquida se torna-se praticamente inoperante.

Superávit do setor público é o menor para o semestre desde 2010, diz BC

Eduardo Cucolo e Célia Froufe 
Agência Estado

Economia do governo para pagamento de juros, o superávit primário, caiu 20,5% no primeiro semestre na comparação com o mesmo período de 2012

BRASÍLIA - O esforço fiscal do setor público caiu 20,5% no primeiro semestre em relação a igual período de 2012, de acordo com o Banco Central (BC). As contas do setor público acumulam no período um superávit primário de R$ 52,1 bilhões, o equivalente a 2,25% do Produto Interno Bruto (PIB). O superávit dos primeiros seis meses do ano é o mais baixo para o semestre desde 2010, quando somou R$ 42 bilhões. No mesmo período de 2012, o superávit primário estava maior, em R$ 65,6 bilhões ou 3,08% do Produto Interno Bruto (PIB).

O esforço fiscal no acumulado de 2013 foi feito com a ajuda de um superávit de R$ 33,7 bilhões do Governo Central (1,46% do PIB). Os governos regionais (de Estados e prefeituras) apresentaram um saldo positivo de R$ 18,4 bilhões (0,80% do PIB). Enquanto os governos de Estados registraram superávit de R$ 15,8 bilhões, as administrações municipais alcançaram um resultado positivo de R$ 2,5 bilhões. As empresas estatais registraram um superávit de R$ 15 milhões entre janeiro e junho de 2013 (0,0% do PIB).

Junho
O chefe-adjunto do Departamento Econômico do Banco Central, Fernando Rocha, ressaltou que o superávit primário do mês passado, de R$ 5,4 bilhões, é o melhor resultado para o mês desde 2011. "Isso possibilitou a elevação do resultado acumulado em 12 meses, que voltou a 2% do PIB", comparou. Rocha salientou que os juros nominais registraram redução ante o mês anterior, atingindo a marca de R$ 17,6 bilhões em junho. Isso ocorreu, de acordo com o técnico, porque junho teve um dia útil a menos e porque o resultado do IPCA também ficou menor no mês.

Em 12 meses
As contas do setor público acumulam um superávit primário de R$ 91,4 bilhões em 12 meses até junho, o equivalente a 2% do PIB. Segundo o Banco Central, o esforço fiscal subiu em 12 meses em relação ao período encerrado em maio, quando estava em 1,95% do PIB, ao totalizar R$ 88,8 bilhões. 

O superávit em 12 meses está abaixo não só da primeira meta fixada para esta ano, de 3,1% do PIB, quanto da estimativa de 2,3% apresentada pelo ministro da Fazenda, Guido Mantega, e que também passou a ser incorporada pelo BC no mês passado como um cenário possível para 2013. 

Déficit nominal
O setor público consolidado registrou um déficit nominal de R$ 12,1 bilhões em junho. Em maio, o resultado havia ficado negativo em R$ 14,5 bilhões e, em junho do ano passado, em R$ 13,3 bilhões. 

Rocha considerou que o déficit nominal de junho se reduziu em relação a junho de 2012. "Tudo isso considerado, mais a depreciação cambial, que foi de 3,9% no mês passado, a dívida líquida do setor público permanece em trajetória declinante e atinge 34,5% do PIB", resumiu. O resultado, destacou o técnico, é o melhor da série histórica do BC iniciada em 2001. "O fator que mais contribuiu para a dívida líquida do setor público foi o ajuste cambial", considerou, acrescentando que a redução no mês foi de R$ 26,7 bilhões.

No mês passado, o Governo Central registrou déficit nominal de R$ 11,4 bilhões. Os governos regionais tiveram saldo negativo de R$ 1,2 bilhão. E as empresas estatais registraram um superávit nominal de R$ 491 milhões.

No acumulado do ano, o déficit nominal ficou em R$ 65,9 bilhões (2,85% do PIB). Em igual período de 2012, o resultado estava negativo em R$ 45,3 bilhões (2,13% do PIB). Já nos 12 meses encerrados em junho do ano passado, o déficit nominal está em R$ 129,4 bilhões, ou 2,83% do PIB. 

Gasto com juros 
O setor público consolidado gastou R$ 17,6 bilhões com juros em junho. Houve queda em relação ao gasto de R$ 20,2 bilhões registrado em maio deste ano e alta ante os R$ 16,1 bilhões vistos em junho do ano passado.

O governo central teve no mês passado um gasto com juros de R$ 12,8 bilhões. Já os governos regionais registraram uma despesa de R$ 4,4 bilhões, e as empresas estatais tiveram gastos de R$ 345 milhões.

No acumulado do ano, o gasto com juros do setor público consolidado soma R$ 118 bilhões, o equivalente a 5,1% do PIB. No mesmo período do ano passado, o gasto com juros foi de R$ 111 bilhões ou 5,2% do PIB. Já nos últimos 12 meses encerrados em junho, a despesa chega a R$ 220,9 bilhões ou 4,82% do PIB.

Dívida líquida
A dívida líquida do setor público recuou para 34,5% do PIB em junho ante 34,8% em maio. Em dezembro de 2012, estava em 35,2% do PIB. A dívida do governo central, governos regionais e empresas estatais terminou o mês passado em R$ 1,580 trilhão. A dívida bruta do governo geral encerrou o mês passado em R$ 2,7 trilhões, o que representou 59,3% do PIB. Em maio, essa relação estava em 59,6% e, em dezembro do ano passado, em 58,7%.

De acordo com o BC, a depreciação de 3,9% do câmbio em junho foi o principal fator para a queda da dívida líquida ante maio, com impacto de 0,6 ponto porcentual. No ano, a desvalorização cambial de 8,4% teve uma contribuição de 1,2 ponto porcentual para a queda no período.

O chefe-adjunto do Departamento Econômico do Banco Central, Fernando Rocha, afirmou que a autoridade monetária projeta dívida líquida em 34,3% do PIB em julho, ante 34,5% em junho. O BC também projeta dívida bruta em 59,3% do PIB em julho, mesmo valor de junho. As estimativas consideram um câmbio de R$ 2,24 no fechamento do mês. 

Estados
O resultado dos governos regionais no mês passado foi um ponto fora da curva, segundo Fernando Rocha.O superávit primário de R$ 3,4 bilhões dos governos estaduais em junho é o maior resultado para este mês do ano da série histórica disponível no site do Banco Central, retroativa a 1998. Os Estados responderam pela maior parte do primário de R$ 5,4 bilhões registrado no mês passado por todo o setor público, que inclui ainda governo central, municípios e empresas estatais. O resultado do setor público consolidado no mês superou as estimativas dos analistas do mercado financeiro ouvidos pelo AE Projeções, que iam de R$ 1,1 bilhão a R$ 4,7 bilhões.

Prazo para investigação de direitos antidumping é reduzido para 10 meses

Martha Beck 
O Globo

Fixado em 120 dias período para o Decom decidir sobre aplicação de direitos antidumping provisórios
Medidas passam a valer a partir do dia 1º de outubro

BRASÍLIA - Dois anos depois de ser incluída no programa Brasil Maior, a reforma do processo de investigação de direitos antidumping no país ficou pronta. A partir do dia 1º de outubro, as empresas que procurarem o governo para pedir proteção contra a concorrência desleal de produtos importados que ingressam no mercado brasileiro com preços artificialmente baixos (prática conhecida como dumping) terão o processo concluído em até 10 meses. Atualmente, a investigação leva cerca de 15 meses.

Outra novidade é que o período entre o momento em que uma empresa apresenta uma petição ao Departamento de Proteção Comercial do Ministério do Desenvolvimento (Decom) e o início de uma investigação formal será de 120 dias. Anteriormente, não havia prazo, o que tornava ainda mais demorada a conclusão do processo. Também foi fixado em 120 dias o prazo para que o Decom decida se é necessário aplicar direitos antidumping provisórios, que vigoram enquanto a investigação não é concluída. Isso levava 240 dias.

As novas regras estão no decreto 8.058/2013, publicado nesta segunda-feira no “Diário Oficial”. Segundo o diretor do Decom, Felipe Hees, elas darão mais agilidade à defesa da indústria contra práticas anticoncorrenciais usadas por outros países. Ele lembrou que essa rapidez é importante num momento em que o comércio internacional está fraco e as economias querem mais espaço para seus produtos.

— Diante da situação do comércio internacional, 15 meses era muito tempo para fazer a análise. Em alguns casos, 15 meses podiam inviabilizar uma indústria — afirmou Hees.

Ele explicou que a demora do governo em fixar os novos prazos ocorreu porque o tema é complexo e envolve diversos ministérios além do Desenvolvimento, como Fazenda, Casa Civil e Itamarary. A agilidade também dependia da realização de concurso público para investigadores do Decom. Essa seleção só terminou agora, quando foram empossados 48 novos técnicos. A equipe do departamento conta agora com 65 investigadores.

— É algo complexo, não é algo que possa ser resolvido em uma semana — disse Hees, justificando a demora em colocar as mudanças em prática.

O Decom tem hoje 90 medidas antidumping aplicadas. Além disso, há 78 investigações em curso e 35 petições em análise. Segundo o diretor, o Brasil é o país que mais iniciou investigações antidumping nos últimos dois anos. Quando o Decom decide punir a prática de dumping, as importações do país-alvo para o Brasil pagam uma sobretaxa. Pelas regras da Organização Mundial do Comércio (OMC), essa cobrança pode ser feita por até cinco anos.

A Confederação Nacional da Indústria (CNI) comemorou a mudança. “O Brasil passa a frente dos Estados Unidos, que levam 227 dias, e da União Europeia, que precisa de 273 dias para dar sua análise, e se iguala ao Canadá”, afirma a entidade, em nota.

A CNI destaca que a nova regulamentação também altera os prazos e a documentação que as empresas devem apresentar, para a abertura de uma ação, e anuncia que vai distribuir entre as indústrias uma cartilha para facilitar a ação do setor contra as práticas de dumping. Nos últimos dez anos, os setores que mais solicitaram medidas antidumping foram têxteis (21,1%), plásticos (16,7), papel e cartão (13,3%) e químico (11,1%), segundo dados da CNI.

Consultoria vê "contas correntes fora da curva" em junho

Exame.com
Renan Carreira, Estadão Conteúdo

A Rosenberg espera que o saldo negativo fique em US$ 80 bilhões até o fim do ano

REUTERS/Andres Stapff 
O resultado menor divulgado pelo BC ocorreu, segundo Bistafa, 
porque a balança comercial registrou forte superávit em junho, de US$ 2,3 bilhões

São Paulo - O economista da Rosenberg & Associados Rafael Bistafa disse nesta terça-feira, 23, que, apesar da redução do déficit em contas correntes em junho, o resultado é um "ponto fora da curva" em relação à tendência que se observa desde novembro. Ele citou que o déficit acumulado em 12 meses girava em torno de US$ 52 bilhões em novembro do ano passado e atingiu US$ 72,465 bilhões em junho.

"A conta aumentou US$ 20 bilhões em questão de um semestre. A melhora em junho não inverte a tendência de aprofundamento do déficit em transações correntes e de leve estabilidade do Investimento Estrangeiro Direto (IED) em nível elevado, mas já não suficiente para cobrir todo o déficit em transações correntes", disse Bistafa. A Rosenberg espera que o saldo negativo fique em US$ 80 bilhões até o fim do ano.

O Banco Central (BC) divulgou mais cedo que o déficit em transações correntes do país somou US$ 3,953 bilhões em junho. O resultado ficou abaixo do intervalo previsto, segundo levantamento do AE Projeções, que apontava déficit entre US$ 4,2 bilhões e US$ 6,1 bilhões.

A estimativa da Rosenberg era de que o déficit em transações correntes ficasse em US$ 4,7 bilhões. O resultado menor divulgado pelo BC ocorreu, segundo Bistafa, porque a balança comercial registrou forte superávit em junho, de US$ 2,3 bilhões. "Para se ter ideia, em junho de 2012 o superávit havia sido de US$ 800 milhões."

O economista afirmou que o saldo de US$ 2,3 bilhões da balança comercial foi inflado pela exportação de uma plataforma de petróleo no valor de US$ 1,6 bilhão. "Além disso, houve queda de 37,9% em junho, ante junho de 2012, nas importações de combustíveis e lubrificantes, principal item da pauta de importação brasileira."

Como pontos negativos, Bistafa destacou a forte queda na despesa de aluguel de equipamentos, dentro da conta de serviços. A baixa foi de 33% em junho ante o mesmo mês do ano passado. "Não é um bom indicativo para o investimento doméstico nem para a perspectiva de crescimento econômico."

Ele afirmou que, apesar de junho ter apresentado volatilidade expressiva nos mercados internacionais, com depreciação do câmbio, a rubrica viagens internacionais manteve o comportamento e registrou aumento de 21% em junho frente junho de 2012. "Para o próximo semestre, o dólar mais apreciado tende a diminuir o ímpeto de o pessoal viajar, mas junho ainda foi bastante forte."

Bistafa também destacou como ponto negativo a taxa de 71% de rolagem das dívidas de empresas públicas e privadas. "Desde abril de 2012, a taxa não caía abaixo de 100%", salientou. Segundo ele, o resultado está ligado à volatilidade do cenário internacional. "É preciso acompanhar para ver se a taxa de rolagem vai ficar abaixo de 100% nas próximas leituras. Se continuar, acende o sinal amarelo nas perspectivas de financiamento do balanço de pagamentos." No entanto, o economista acredita que a taxa tende ultrapassar 100% à medida que os mercados se acalmem.

IED
De acordo com o BC, o IED somou US$ 7,170 bilhões em junho, resultado acima dos US$ 5,822 bilhões no mesmo período do ano passado. Os aportes externos voltados ao investimento produtivo ficaram acima das estimativas do mercado financeiro colhidas pelo AE Projeções, que iam de US$ 2 bilhões a US$ 6 bilhões.

Bistafa disse que a "surpresa positiva" ocorreu porque houve uma operação única de US$ 1,3 bilhão com recursos vindos do Chile para o setor de transporte. "Fora isso, a entrada de investimento continua estável em relação ao mesmo período do ano passado, mas em nível elevado." Ele frisou que a entrada de IED foi bastante dispersa entre os países que investem no Brasil. "Além disso, não teve nenhum setor específico que recebeu um maior investimento."