quarta-feira, julho 31, 2013

O caribe bolivariano

Vittorio Medioli
O Tempo

O que deveria ser uma viagem ao paraíso do Caribe, entre encantadoras ilhas que servem de refúgio e santuário da flora e da fauna, trouxe de volta a Belo Horizonte uma surpresa inquietante. A equipe da redação de O TEMPO, chefiada por Carla Kreefft, decolou da Pampulha numa tarde de domingo, com roteiro marcado entre exóticas ilhas, como Barbados e Granada, além de três outras republiquetas do mesmo arquipélago cujo nome se associa historicamente e ainda entre praias ensolaradas. Ilhas de beleza estonteante que ainda lembram as aventuras de Robinson Crusoé, o mais famoso dos náufragos, mais ainda de piratas e “bucaneros” como Francis Drake, inspirador até hoje de contos e filmes para crianças do mundo inteiro.

As enviadas especiais de O TEMPO, depois das primeiras abordagens realizadas nas representações diplomáticas do Brasil, depararam-se com discursos sem muito sentido, a não ser entendidos como peças de um plano abismal, que se faz conhecer como bolivarianismo, chavismo, castrismo e outras práticas reconhecidas como atrasadas, fracassadas, autoritárias. Claro que nem todos pensam assim, tem alguém que acredita que social/comunismo, sepultado pelos escombros do Muro de Berlim, deveria ter continuado. Ruiu. Deixando pouca saudade. Hoje, os movimentos daquela época “fria” se mantêm acanhados e isolados. Para quem estava lá na Europa de 1989, a marcha silenciosa de leste a oeste marcou um divisor, uma condenação maior que aquela que o nazismo levou na Corte de Haia.

Apenas a Cuba comunista, do bloco soviético, ficou sobrevivendo no meio do Caribe e não pereceu, depois de 89, pela ação de Hugo Chávez, que a adotou, no ápice do sucesso petroleiro da Venezuela. E continua sendo mantida com contribuições de BNDES e outras do Brasil.

Pois é, os enviados especiais de O TEMPO, no avançar da viagem, depararam-se com uma diplomacia aloprada, envergonhada de muito gastar e nada produzir, sem conseguir explicar o que eles lá fazem em nome e por conta do Brasil. Embaixadas abertas nos últimos dez anos com critérios até então inconciliáveis com interesses econômicos, comerciais e sociais, já que até a falta total de brasileiros se registra nesses territórios. Seriam apenas cabides de empregos remunerados entre um mínimo de R$ 34 mil até R$ 47 mil. E mais, valendo para fins de aposentadoria três anos a cada um vivido no “paraíso”.

O Itamaraty em dez anos multiplicou por seis vezes seu orçamento, o mergulhou na escuridão e no cipoal de centenas de embaixadas inúteis, caras, prejudiciais. Essas do Caribe, visitadas pela reportagem, atendem apenas um plano de “invasão” de republiquetas que devem sua autonomia e independência aos colonizadores espanhóis, franceses e ingleses. Servem escassamente como paradas de navios de cruzeiro, oferecendo aos turistas um mergulho entre águas cristalinas e peixes de todas as cores.

Embaixadas brasileiras das bananas para quê?

Os dados levantados in loco e no Itamaraty, as entrevistas aos cinco embaixadores, as opiniões de diplomatas e de quem estuda as relações exteriores, o silêncio esclarecedor do Itamaraty fazem dessa reportagem um abrangente relato de valor histórico. Apresenta de forma inédita aspectos mantidos propositadamente ocultos, até então, da mais recente política brasileira, marcada pela avalanche do lulopetismo. Uma diplomacia agressiva, intervencionista, com finalidade mal camuflada, com pressupostos, manifestados pelos embaixadores, ideológicos, estranhos aos ditados da Constituição, lei maior, e nem referendado pelo Congresso Nacional. Esses diplomatas representam meramente o interesse de um partido e remetem ao compromisso de Lula no âmbito do Foro de São Paulo, que presidiu de 1990 até 2002.

Nesse desenho do Itamaraty emergem figuras como Marco Aurélio Garcia e esse que se senta hoje no Ministério da Defesa, contestado desabridamente por expressivo contingente da reserva. Aliás, pode se entender Celso Amorim uma das peças principais da diplomacia bolivariana adotada pelo Brasil lulopetista e que embrenhou o país em pântanos fora da rota e lhe tiraram a possibilidade de acesso ao Conselho de Segurança da ONU. O Brasil abdicou da Alca, que lhe daria vida e trânsito nos maiores mercados, sem por isso perder sua autonomia de relações privilegiadas no hemisfério Sul.

Amorim é peça fulcral na estratégia de Lula; transferido do Itamaraty ao Ministério da Defesa, ele leva a mesma roupa e atribuição.

Essas embaixadas em ilhotas com apenas 50 mil habitantes plantam os pressupostos para o Brasil poder intervir numa intromissão bolivariana em seu território, coisa que Hugo Chávez e Fidel Castro sempre sonharam. O golpe poderia se dar dependendo das oportunidades e das marés, mas o Brasil nessa convulsão poderia se envolver, apesar de não ter um cristão na área, nem relações históricas e afinidades culturais com a região.

Como já disponibilizou para o bolivariano Manuel Zelaia a embaixada de Honduras para refúgio ao longo de semanas, numa tentativa fracassada de golpe. Embaixadores e embaixadas estão nessa área como quartéis e pontos estratégicos do bolivarianismo.

O discurso dos embaixadores do Brasil deixa claro o cômpito que eles executam de apoiar movimento ideologicamente do agrado de Cuba?

Pois é. Isso seria o de menos. Foro de São Paulo, bolivarianismo e castrismo, mais que barulho, pouco conseguem realizar. O grave é que decisões são tomadas desrespeitando o princípio democrático de consultar o Congresso Nacional. Confunde-se partido com governo, como se o Brasil fosse uma dessas republiquetas. Parabéns à editoria de O TEMPO, que produziu, em seus 16 anos de vida, uma reportagem que atesta sua maturidade e mostra uma razão a mais para as crescentes preferências dos leitores de Minas.