domingo, julho 28, 2013

Dilma não pode ser melhor que seu governo

Rolf Kuntz  
O Estado de S.Paulo

Nenhum governante, diz o bom senso, pode ter desempenho melhor que o de seu governo. No caso do Brasil, trata-se de uma administração fracassada, com dois anos e meio de estagnação econômica, inflação alta, contas públicas em mau estado, contas externas em deterioração e resultados gerais muito inferiores aos de outros latino-americanos. Além disso, as possibilidades de melhora até o fim do mandato parecem muito escassas. Mas o senso comum dos brasileiros tem algumas peculiaridades notáveis. Parte substancial dos cidadãos considera a presidente Dilma Rousseff melhor que seu pífio governo. Enquanto só 31% avaliam o governo como ótimo ou bom, 45% aprovam o desempenho da presidente. Os dados são da última pesquisa CNI-Ibope e confirmam, de modo geral, as tendências indicadas em sondagens recentes.

Quanto à avaliação da presidente, é importante ressaltar o detalhe: a pergunta é sobre sua maneira de governar. Não se trata de sua pessoa. O entrevistado poderia considerá-la honesta, esforçada, gentilíssima, simpática e movida pelas melhores intenções, mas frustrada em seu empenho por divindades invejosas. O Olimpo é um ninho de maldades. Mas a história é outra, e aí está o dado intrigante. O modo de agir da chefe de governo é avaliado mais favoravelmente que a ação do próprio governo, embora ela seja responsável pela escolha dos ministros e, como todos sabem, centralizadora, mandona e habituada a distribuir broncas e a maltratar seus subordinados.

Essa notável dicotomia entre o presidente e a administração federal pode parecer misteriosa, mas é um velho componente da política nacional. Para milhões de brasileiros, houve sempre uma distância imensa entre a figura de Getúlio e as práticas de seus subordinados. O presidente João Figueiredo sempre foi mais popular que seu governo, embora seu período tenha sido marcado por uma recessão pavorosa, com muito desemprego, empobrecimento e fome. Nessa fase, muitas famílias só conseguiram consumir alguma proteína de origem animal, de vez em quando, porque supermercados passaram a vender separadamente asas de frango. Mas o presidente nunca foi tão mal avaliado quanto qualquer de seus ministros.

Apesar da estranha separação entre o Palácio do Planalto e os ministérios, ainda mais estranha no caso de uma presidente centralizadora, os brasileiros parecem ter noções claras de alguns dos principais defeitos da administração. A avaliação dos impostos e do uso do dinheiro público é inequívoca. Os entrevistados deveriam dizer se, em sua opinião, "o governo já arrecada muito e não precisa aumentar mais os impostos para melhorar os serviços públicos". Essa dupla afirmação foi classificada como total ou parcialmente verdadeira por 87% dos consultados. Para 82%, "a baixa qualidade dos serviços públicos deve-se mais à má utilização dos recursos públicos do que à falta deles". Para 91%, os impostos são elevados ou muito elevados.

A presidente discorda. Na quinta-feira, quando a CNI divulgou a nova pesquisa realizada pelo Ibope, o Diário Oficial registrou o veto ao projeto de extinção da multa adicional de 10% do FGTS nos casos de demissão sem justa causa. Segundo a mensagem presidencial, os parlamentares deixaram de indicar fontes para compensar a perda de cerca de R$ 3 bilhões e, além disso, a falta desse dinheiro forçaria o governo a reduzir investimentos em infraestrutura e no programa habitacional.

As duas alegações são furadas. A multa adicional, paga diretamente ao governo, foi criada para compensar o custo de esqueletos fiscais deixados pelos Planos Verão e Collor 1. Essa função, segundo informou há um ano e meio a Caixa Econômica, gestora do fundo, estaria concluída em julho do ano passado. Não tem sentido, portanto, cobrar dos congressistas a indicação de como compensar a "perda". Em segundo lugar, o governo jamais deveria ter tratado essa receita como recurso permanente.

Esse erro, uma velha tendência da administração brasileira, torna-se mais forte num governo propenso à confusão na área fiscal. A maior parte dos cidadãos acompanha muito de longe as aventuras da administração. Acaba sentindo, depois de algum tempo, os efeitos dos erros acumulados, como os problemas de saúde, segurança e educação. Nenhuma das grandes questões apontadas pelos entrevistados é nova na imprensa independente.

A comparação entre o governo atual e o do presidente Lula é outra aparente esquisitice revelada pela pesquisa. Para 46% dos entrevistados, o governo da presidente Dilma Rousseff é pior que o do antecessor. Em junho, 25% dos consultados haviam expressado essa opinião. Essa avaliação seria mantida, se as pessoas se dispusessem a pensar alguns minutos?

Afinal, o presidente Lula quase se limitou a aproveitar, durante a maior parte de seus oito anos, da herança de reformas deixada pela administração anterior e de um quadro internacional muito favorável até o fim de 2008. Elevou o salário mínimo, transferiu renda com recursos públicos e ampliou o mercado interno, sem nada ter feito para fortalecer a capacidade produtiva do País.

Sua melhor realização foi também a mais fácil. Ele jamais enfrentou para valer as tarefas mais complicadas. Além disso, rejeitou a proposta do ministro Antônio Palocci de iniciar um programa sério de equilíbrio das contas públicas. A presidente Dilma Rousseff apenas manteve o estilo de seu antecessor. Ao insistir nesse caminho, acelerou a desorganização das contas federais, alimentou a inflação e deixou a economia estagnar-se, porque as fontes internas e externas de dinamismo estavam esgotadas. "Dilma não é mais do que uma extensão da gente", disse Lula a companheiros, na terça-feira, num aparente impulso de veracidade. Não faz sentido, neste caso, avaliar a extensão sem levar em conta sua fidelidade à origem.

A paz com hora marcada

Carlos Brickmann
Brickmann & Associados Comunicação

O fim da guerra petista contra o presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Joaquim Barbosa, tem data certa para acabar: 6 de outubro. A partir deste dia, Barbosa pode comprar apartamento de quarto e sala sem que ninguém diga que é suntuoso, pode viajar em avião comercial sem que ninguém o acuse de usar jatinho, pode até mandar para a cadeia (aí com um pouco de esperneio) os réus condenados do Mensalão. Em 6 de outubro, não estando filiado a nenhum partido, Joaquim Barbosa deixa de ter condições de disputar a Presidência da República. Como não será mais ameaça a Dilma e ao PT, volta a ser bom sujeito.

Toda a campanha contra Barbosa, iniciada quando conduziu o processo do Mensalão, ganhou fôlego quando conselheiros do PT o identificaram como possível candidato à Presidência. É bobagem: Barbosa já disse que não quer, sua postura arrogante, prepotente, é um obstáculo a qualquer articulação política, o partido que resolver engoli-lo sabe que subir com ele não implica dividir o poder. Mas, por via das dúvidas, dá que ele mude de ideia e algum partido esteja disposto a tudo para chegar ao Governo, toca a acusá-lo (escândalo!) de gostar de futebol e de comer pipoca quando assiste à TV. O racismo nada velado, coisa nojenta, quase inacreditável, como o que apareceu explícito no Blog da Dilma (que não é da presidente, mas existe para apoiá-la), voltará aos disfarces de sempre. 

Surgirão, a partir daí, as campanhas contra Aécio, Eduardo Campos, Marina Silva. Teremos um ano interessante. 

Para quem gosta, um prato cheio.

O mistério dos vândalos
Rapazes com celulares, gravando manifestações, são agredidos por policiais e presos. Manifestantes até então pacíficos foram atacados por policiais quando quiseram dirigir-se a uma área não permitida. Já vândalos que atacaram lojas, destruíram sinais de trânsito, lixeiras públicas, portas de estação do Metrô e orelhões, puseram fogo em ônibus, estes agiram à vontade. 

Os fatos do Rio - a Polícia prendeu um rapaz que gravava as manifestações e o acusou mentirosamente de transportar coquetéis Molotov; um vândalo flagrado atirando coquetéis Molotov e correndo para os policiais, trocando de roupa e ficando entre eles - abre campo para uma terrível conclusão: a de que está havendo infiltração de agentes oficiais no meio das manifestações, com prática de atos que levem a opinião pública a condenar os manifestantes e apoiar o uso da força contra eles.

O fim do filme
Não é só isso: um casal de vândalos disse à Polícia que trabalhava para a Abin, Agência Brasileira de Inteligência, órgão do Governo Federal. Pode ser mentira - e esperemos que seja mentira (a Abin desmente, mas teria de desmentir em qualquer circunstância). Ações agressivas de agentes provocadores são devastadoras para a estabilidade do regime.

E no fim deste filme todos perdemos.

Acredite se quiser
Na recepção do Governo fluminense ao papa foram servidos biscoitos, água e café. Custo oficial: R$ 1.300 por pessoa. Nem que os biscoitos fossem feitos por freiras portuguesas e a água viesse de nascentes do Himalaia o custo se explicaria. Talvez seja o café. Já sabiam que o frio vai provocar alta de preços.

Legal e caro
Na semana passada, o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, como de hábito, voltou de Brasília para casa, em São Paulo, num jatinho da FAB. Com ele, a ministra de Políticas para as Mulheres, Eleonora Menicucci. 

Alguém precisa contar ao ministro que já existem voos comerciais entre Brasília e São Paulo, a preços bem mais em conta. Ele certamente gostará de sentar-se entre os passageiros e até fazer o que em seu gabinete é difícil: conversar com gente comum.

De cama em cama
Há um escândalo rolando em Brasília (sim, mais um - mas este é diferente) e a imprensa não sabe o que fazer. Uma parlamentar importante usou a verba de gabinete para pagar o motel. Louve-se a saúde de Sua Excelência, pois muita gente de sua idade já abandonou a prática do nobre esporte; mas com dinheiro público? O problema para a imprensa é que a parlamentar é casada. 

Dizem que o marido não se importa, desde que o dinheiro não seja dele, mas como ter certeza?

É coisa nossa
Um anúncio vem sendo muito divulgado na Internet, oferecendo "diploma universitário, técnico e pós graduação, autênticos, com número de RA e publicação no D.O.U." - abreviatura que poderia referir-se ao Diário Oficial da União, mas deve ser outra coisa. Tudo rápido: "entrega expressa em apenas 10 dias". Vem a advertência: "Não se deixe enganar com falsas promessas, negocie com quem trabalha há mais de 5 anos com clientes satisfeitos em todo o Brasil." E o fecho de ouro: "Conosco você não estará comprando um diploma, estará comprando uma vida escolar". 

Alguma autoridade estará investigando esta fraude?

Pesquisa
Pesquisa realizada pelo Ibope e divulgada pela Transparência Internacional mostra que 81% dos brasileiros consideram os partidos políticos "corruptos" ou "muito corruptos". 

Os demais 19% devem ser menos bem informados.

carlos@brickmann.com.br 
www.brickmann.com.br

Cabral precisa descobrir o Brasil

Elio Gaspari
O Globo

‘Governador pode não ter entendido o que está acontecendo no país, mas não se eximirá de ser cobrado pelo que acontece no seu governo’

Sérgio Cabral foi reconduzido ao governo do Rio em 2010 com os votos de dois terços do eleitorado. Uma vitória para ninguém botar defeito. Em menos de três anos tornou-se um governador detestado. Talvez seja exagero acreditar que é o pior entre seus pares, mas pode-se ter certeza de que foi o que impôs a maior quantidade de desaforos ao seu povo. Gosta de uma viagenzinha, mas tem no colega Cid Gomes um rival. Usa o helicóptero da Viúva para levar o cão Juquinha a Mangaratiba, mas queima menos combustível que os ministros da doutora Dilma na JetFAB (1.664 solicitações em seis meses). Comparado com o comissário Alexandre Padilha, é um sedentário. O ministro da Saúde voou 110 vezes, na maioria dos casos para São Paulo. Diz bobagens, já defendeu o aborto informando que a Rocinha era “uma fábrica de produzir marginal”, mas foi um dos governadores do estado que, com ajuda federal, mais investiram em programas de recuperação dessas comunidades. É dado a breguices: “Este é o melhor Alain Ducasse”, disse, referindo-se ao restaurante onde concluíra um repasto, em Mônaco.

Desde que o “Monstro” saiu às ruas, Cabral desafiou-o. Disse que “essas manifestações estão tendo um caráter, um ar político que não é espontâneo da população”. (Na semana passada, elas tinham o apoio de 89% dessa população.) Fabricada era a passeata que seu governo organizou para apoiá-lo na disputa pelos royalties do petróleo. Tinha cercadinho VIP e pulseirinhas para celebridades.

Cabral justificou seu uso privado de helicópteros públicos dizendo que “não sou o primeiro a fazer isso no Brasil”. Esqueceu-se de dizer que não reincidirá no folguedo. Há duas semanas, um carro da sua polícia atirou numa área onde havia manifestantes. Quem foi? Pfff. O prefeito de Miguel Pereira homenageou-o num evento cuja convocação dizia o seguinte aos beneficiários do programa Renda Melhor: “O não comparecimento poderá resultar na perda do benefício. (...) Levem seus familiares.” A prefeitura disse que foi um “equívoco”. Sua assessoria esclareceu que não sabia de nada.

No seu pior momento, Cabral informou que, “nesses atos de vandalismo, tem a presença de organizações internacionais. (...) Sabemos que há organizações internacionais estimulando o vandalismo e o quebra-quebra”. Em seguida criou uma comissão para apurar os atos de violência. Havia um casal que se declarou a serviço da Abin. A polícia disse que apreendeu 20 molotovs com um preso? Cadê ele? Vinte coquetéis com uma só pessoa? O único preso, com espalhafato, nada tinha a ver com a história. Salvou-se pedindo socorro à Mídia Ninja. Graças a ela e a um vídeo da TV Globo, sua inocência ficou estabelecida. Quem criou a patranha? No meio disso tudo, a PM prendeu um pedreiro na Rocinha, e ele sumiu. A polícia diz que ele desapareceu depois de ter sido liberado. Cadê o vídeo da sua saída da UPP? A câmera enguiçara na véspera.

A conexão da polícia do Rio e das milícias com barbarizações deveria assustar Cabral. Já houve época em que o submundo das meganhas carioca e federal se meteu em coisa parecida. Num caso, em setembro de 1980, a descrição da cena da explosão de uma banca de jornais na jurisdição da 28ª DP chegou ao conhecimento do seu titular e do Palácio do Planalto. Sentaram em cima. Sete meses depois, o governo explodiu no Riocentro.

Cabral pode não ter entendido o que está acontecendo no país, mas não se eximirá de ser cobrado pelo que acontece no seu governo.

Thomas Reed era poderoso, lembra-se dele?
Na quinta-feira, havia cerca de 900 mil pessoas na Praia de Copacabana quando o Papa Francisco pediu um momento de oração pela jovem Sophie Morinière, que morreu na Guiana Francesa a caminho da Jornada Mundial da Juventude. Fez-se tal silêncio que só se podiam ouvir as ondas do mar. Essa mesma multidão silenciosa fazia um barulho estrondoso quando passava o papamóvel.

Esse homem capaz de mobilizar tanta alegria e esperança não tira sua força só da simplicidade e do sorriso. Afinal, a Igreja está cheia de padres e bispos tristes. Antes dele, tristes foram Pio XII, Paulo VI e Bento XVI. Alegres, só João XXIII, João Paulo I e, em certos momentos, João Paulo II. A força de Francisco, e de todos os Papas, vem da capacidade de acordar em todos sentimentos de solidariedade, misericórdia e, caso haja, de fé.

Muita gente vê nesses sentimentos simples banalidades que devem ser submetidas a lógicas superiores (e, aí, cada um tem a sua). Para quem acha que ele só deixou palavras, vale a pena recordar um episódio ocorrido no final do século XIX, quando um amigo entregou uma cópia de um texto do Papa Leão XIII a Thomas Reed, presidente da Câmara dos Estados Unidos. Ele era um dos mais ricos, poderosos e brilhantes políticos da época, e respondeu: “Diante da enorme desimportância disso, fico sem palavras.”

Leão XIII mudou o rosto da Igreja com a encíclica Rerum Novarum, falando dos direitos e deveres do capital. E Reed? Quem se lembra dele?

Eremildo, o idiota
Eremildo é um idiota e passava pela Rua Pinheiro Machado quando viu o Palácio Guanabara praticamente cercado pela Tropa de Choque da Polícia Militar. Por cretino, não sabia o que era aquilo e perguntou a um peregrino o que acontecia. Ele lhe disse que as altas hierarquias dos governos municipal, estadual e federal estavam lá.

O idiota foi em frente, convencido de que, com o cerco do Guanabara, o Papa Francisco fizera seu primeiro milagre.

CubaTour
Boa notícia para o comissariado em geral e para o ministro Aldo Rebelo em particular. Está na reta final a negociação para abertura de uma frequência de voos da Cubana de Aviación na rota Havana-São Paulo.

No próximo carnaval, Aldo poderá ir para a Ilha levando a família sem torrar tempo de voo dos jatinhos da FAB.

Os companheiros poderão fumar a bordo, pois a Cubana não faz parte da Iata.

Lula no Sírio
Há mais de quatro semanas, a equipe médica que acompanha a saúde de Lula marcou um checkup rotineiro para o final deste mês ou o início de agosto.

Se e quando ele ocorrer, alimentará boatos, mas isso servirá apenas para confirmar que, enquanto a verdade é coisa difícil de se obter, todo boato é verdadeiro, pois, seja qual for, reflete um desejo de quem o passa adiante.

Nosso Guia quer que todas as informações sejam divulgadas.

Cuidado
O comissariado do Itamaraty acredita que a viagem da doutora Dilma a Washington, em outubro, será um refrigério para a sua popularidade.

Se ela fizer discursos como o que leu para o Papa, podem tirar a carruagem da chuva.

Índice aponta Brasil mais rico, mas com desafios de inclusão social

Pablo Uchoa
 BBC Brasil 


Índice examinou acesso a educação e moradia entre outros

Um ranking de países latino-americanos indicou que o Brasil de hoje é uma nação mais rica, mas que ainda fica atrás dos líderes regionais quanto o assunto é a inclusão social.

A análise de 16 países, feita por um grupo de estudos com sede em Nova York, olhou para aspectos que vão além de componentes econômicos como, por exemplo, a redução da pobreza, geralmente mencionada como indicador de maior inclusão.

Foram avaliadas algumas áreas que, acreditam os autores do indicador, explicam os protestos recentes no país e "criam critérios tangíveis" para balizar as políticas públicas.

A segunda edição do Índice de Inclusão Social pesou 21 variáveis de avanço econômico, inclusão financeira, direitos políticos e civis, acesso a educação e moradia, e avanço nas questões de gênero, raça e orientação sexual, para citar algumas facetas.

As informações foram coletadas a partir de fontes como a ONU, organizações multilaterais e pesquisas de opinião regionais.

"Nosso índice reflete o consenso emergente de que a inclusão social compreende um ambiente institucional, social, político e de atitudes que vai além da economia e da redução da pobreza e desigualdade", afirmaram os autores.

"No seu sentido mais básico, a inclusão social é uma questão de oportunidade: representa a combinação de fatores necessários para que um indivíduo desfrute de uma vida segura e produtiva como membro totalmente integrado à sociedade – independentemente de raça, etnia, gênero ou orientação social."

Desigualdade sistêmica
O Brasil liderou a América Latina em percentagem do PIB investido em programas sociais, por exemplo, uma medida importante para reverter desigualdades históricas de raça e gênero – na opinião dos analistas.

O país também foi considerado em melhor situação que outros vizinhos na existência de leis para proteção de lésbicas, gays, bissexuais e transgêneros (LGBT). O critério utilizado se baliza puramente no reconhecimento dos direitos e dá pouco peso a problemas como a homofobia e a violência contra indivíduos LGBT, o que foi apontado como uma falha no índice.

O indicador colocou o Brasil nos últimos lugares do ranking em termos de participação da sociedade civil na vida pública e nos critérios que apontam a satisfação dos cidadãos quanto à sua capacidade de influenciar os destinos da sociedade. Os dados foram coletados antes dos protestos do mês passado.

A crença dos brasileiros na reação do seu governo piorou quando foi feito o corte por raça e gênero.

"O Brasil fica para trás na região em termos da percepção pública sobre a capacidade de resposta do governo aos problemas da nação. E é muito difícil mudar isso (a percepção) do dia para a noite", disse à BBC Brasil Christopher Sabatini, diretor de Políticas da organização que criou o índice, o Conselho das Américas.

"Existe uma lacuna de tempo entre fazer isso e as percepções das pessoas mudarem."

Sabatini notou que a desigualdade econômica no Brasil diminuiu em todo o espectro da sociedade, mas a disparidade de acesso a serviços como saúde e educação de acordo com gênero, raça e etnia continua sendo um desafio persistente.

"O problema é que a ineficiência governamental é algo muito difícil de combater. O governo até agora tem se concentrado em macrorreformas em vez de trabalhar mais especificamente nas necessidades básicas como as que o índice aborda", afirma o especialista.

"Não basta simplesmente direcionar os recursos do petróleo para a educação, por exemplo. O que estamos mostrando é uma diferença real de acesso. Botar mais dinheiro em um sistema que já é desigual – seja o sistema educacional, de moradia, de Justiça ou o que for – não vai necessariamente resolver o problema."

Em construção
O indicador da inclusão social é reconhecidamente ainda um trabalho em construção, o que impede a comparação com a edição anterior do ranking – quando foram avaliados menos países e utilizados menos critérios.

Nesta edição, Venezuela e Argentina ficaram de fora. O Brasil ficou em 5º lugar, atrás de Uruguai, Chile, EUA e Costa Rica. Mas a pontuação brasileira ficou bem abaixo da dos dois primeiros, indicando que pode haver outros sinais da precariedade da inclusão social brasileira que não foram captadas neste estudo.

"Uma coisa que não captamos ainda foram as diferenças geográficas em um país imenso como o Brasil. O acesso a bens e serviços é diferente conforme raça, gênero, orientação sexual... e também localização geográfica. Isto inclui serviços do governo e empregos formais", disse Sabatini.

Durante a discussão em Washington, especialistas de várias áreas ligadas ao desenvolvimento humano fizeram sugestões para que a pesquisa passe a incorporar aspectos mantidos fora da consulta, como inclusão digital, segregação espacial, acesso a mais serviços, como transporte e justiça, e aspirações da juventude.

Durante o evento, os analistas fizeram uma comparação entre inclusão social e violência, indicando que os países menos inclusivos tendem a registrar mais altos níveis de violência.

O especialista que apresentou essas conclusões, Jason Marczak, teorizou que as sociedades mais inclusivas põem os seus atores em um "mesmo patamar" no debate público, esvaziando as justificativas para que se apele à violência.

Índice de Inclusão Social*

1 – Uruguai
2 – Chile
3 – EUA
4 – Costa Rica
5 – Brasil

*Foram analisados 16 países da América Latina.Fonte: Conselho das Américas


O fim de uma era

Tribuna da Imprensa
José Roberto Mendonça de Barros, O Estado de SPaulo  

Estamos vivendo o final de uma era. Vários fatores, externos e internos, se conjugam para isso. Vejamos os mais relevantes:

CHINA -  Fim do crescimento acelerado da China: como todos nós sabemos, a China passa por um delicado rebalanceamento de sua economia, onde a nova liderança política pretende reduzir o peso do investimento como fator líder do crescimento, em benefício da elevação do consumo. Este é relativamente baixo, pois é estimado como sendo da ordem de 35% do PIB. Existem outros aspectos importantes desta política, como um esforço para elevar o conteúdo tecnológico das exportações, mas o fato é que o melhor resultado que se pode esperar para este ano é um crescimento de 7,5%. Olhando mais adiante, o PIB irá se expandir a uma taxa ainda inferior a essa. Mesmo ressalvando que a demanda de alimentos e de petróleo continuará a crescer de forma rápida, os ganhos de renda via preços de exportação de commodities serão menores, afetando negativamente o Brasil.

JUROS BAIXOS - Fim do período de juros internacionais muito baixos: como todos sabem, o Banco Central americano vem sinalizando uma suave reversão da política monetária expansionista. Com isso, o juro de mercado dos papéis longos já subiu algo como 600 pontos. Este movimento e a volta do crescimento mais robusto em 2014 estão levando a uma valorização da moeda americana e a uma alteração nos fluxos de capitais na direção daquele país. Assim, o custo de capital para o Brasil tende a se elevar. Também nossa política comercial externa mostrará mais uma de suas fragilidades, qual seja, o fato de ter abandonado há dez anos qualquer esforço para elevar a penetração de produtos brasileiros no maior mercado do mundo, algo que é parte da explicação de porque nossas exportações estão enfraquecendo rapidamente.

DEMANDA INTERNA – Fim do crescimento rápido da nossa demanda interna: como se sabe, a partir de 2010 a demanda das famílias começou a enfraquecer, o que hoje é visível a olho nu. Não se repetirão mais a velocidade da inclusão de novas famílias no mercado de consumo (não existem outros 13 milhões de domicílios que possam receber o Bolsa Família), a bancarização acelerada de novos clientes e a existência de baixos níveis de endividamento. Ao contrário, o elevado comprometimento de renda com prestações é hoje uma limitação à expansão rápida do consumo. É por isso que todos os esforços governamentais para bombar a demanda têm tido resultados pífios.

FOLGA FISCAL -Fim da folga fiscal: a arrecadação vai se elevar muito mais lentamente, tornando mais difícil financiar novos gastos, elevações reais do salário mínimo e novas concessões de benefícios fiscais.

CRESCIMENTO DO PIB – Fim do período de crescimento rápido do PIB: no período 2011 / 2013, o crescimento do PIB será inferior a 2%. Isso não acontece por acaso. Já se discutiu à exaustão que ou as condições de oferta melhoram e, junto com elas, nossa competitividade, ou uma boa parte do modesto crescimento da demanda vai vazar para o exterior, na forma de maior importação. Pelo menos dois fatores estão se transformando num obstáculo intransponível para se atingir crescimento mais robusto. Falo aqui do custo total da mão de obra e da carga tributária. O custo do trabalho não para de aumentar (salários, encargos e outros dispêndios) e não tem qualquer ligação mais sistemática com a elevação da produtividade. E este é um processo ainda em curso, pois, como já mostrou José Pastore, a legislação trabalhista não para de criar novos gastos por todos os tipos de razão, e isto sem considerar a nova pauta sindical, onde se inclui a demanda da semana de 40 horas de trabalho, que será discutida neste semestre.

IMPOSTOS – Simultaneamente, a complexidade de nossos tributos está atingindo limites insuportáveis para as companhias. Não se trata apenas do tamanho da carga, mas da insanidade da mudança cotidiana de regras dos mais diversos tipos de impostos (PIS/Cofins e ICMS, especialmente). Se estes dois fatores não forem adequadamente encaminhados, nossos custos de produção jamais se tornarão de novo minimamente competitivos. Ao mesmo tempo, é sonho imaginar que uma megadesvalorização cambial magicamente resolve esses problemas, sem ser dissipada por uma forte inflação.

CAMPEÕES NACIONAIS - Fim do novo experimento de campeões nacionais: este fenômeno já vinha se delineando desde o colapso dos grupos Independência e Bertin, do caso LBR e outras dificuldades. Entretanto, a derrocada do Grupo X ilustra o ponto de forma definitiva. Embora o ajuste ainda não tenha terminado, é certo que o conglomerado das seis empresas não existirá mais como tal. A empresa de energia (MPX) terá outro controlador, os dois portos, que são bons ativos, deverão ter continuidade com outra organização empresarial. É nebuloso o futuro dos ativos ligados ao petróleo.

AÇÕES EM QUEDA
Mesmo no melhor cenário, as perdas resultantes deste processo serão muito expressivas. Por exemplo, se tomarmos o preço das ações das seis empresas abertas, nas datas das respectivas operações, e colocarmos os valores em dólar e compararmos com os preços do último dia onze, chegaremos a uma perda do mercado da ordem de US$ 12 bilhões. A OGX e a OSX tinham colocado no mercado externo bônus da ordem de US$ 4,1 bilhões, sendo que o mais líquido deles está hoje sendo negociado a 16 centavos por dólar. Muitas dívidas bancárias estão sendo renegociadas, processo que está longe de seu final. Entretanto, é certo que o volume de provisão que o sistema terá de fazer será considerável. É fácil antever que o mercado de crédito ficará ainda mais seletivo. Outros credores e fornecedores também estão sendo afetados.

A forte deterioração das expectativas e o desarranjo político atual tem, em parte, a ver com a percepção dessas tendências.

Estamos realmente no final de uma era, especialmente de uma era onde o marketing é mais importante que os fatos, onde o discurso é que estamos a um passo do paraíso, enfim, do nunca antes neste País. Vai ser preciso trabalhar muito para voltar a crescer.  

A má-fé do terror oficial

Ruth De Aquino
Revista ÉPOCA

A lambança na JMJ só se compara à má-fé das versões oficiais dos protestos contra Cabral

O papa Francisco bota fé nos jovens. E você? Bota fé na PM e no governo do Rio de Janeiro? O grau de lambança na logística da Jornada Mundial da Juventude só se equipara à má-fé das versões oficiais sobre os protestos contra a corrupção e Sérgio Cabral. Faltou “inteligência” na repressão fardada e infiltrada. Uma repressão seletiva, que fere manifestantes e jornalistas, mas deixa rolar depredações e saques com total impunidade – como aconteceu naquela madrugada no Leblon, até hoje mal explicada. Quem engoliu a história do “pacto com a OAB” para não reprimir crimes comuns contra lojas e patrimônio público?

PMs sem identificação e policiais à paisana – os P2, fantasiados de manifestantes, identificados com uma pulseirinha preta – criaram no Rio um clima de intimidação física e psicológica. Há relatos de sequestro-relâmpago, ameaças de morte, armação de flagrantes, acusações montadas de formação de quadrilha. Há detenções arbitrárias “para averiguação”. Um clima que, como diz Cabral, “afronta o Estado democrático de direito”. Também afronta a democracia o decreto inconstitucional de Cabral exigindo, “em 24 horas”, das operadoras de telefone e provedores de internet, dados telefônicos e informações sobre suspeitos. Ele refraseou o decreto, mas a OAB continua a tachá-lo de ilegal. É essa “a agenda positiva” de Cabral para eleger seu vice Pezão? Cabral teve a pior avaliação entre 11 governadores, segundo o Ibope. Só 19% o apoiam hoje.

O episódio com Bruno Ferreira Teles, manifestante preso “por porte de artefato” perto do Palácio Guanabara, revelou o festival de contradições da PM. Vídeos e fotos no Facebookforam essenciais. Em liberdade condicional por habeas corpus, Bruno provavelmente ainda estaria preso se não fossem essas imagens. O procurador Eduardo Lima Neto, presidente da comissão criada pelo governo para investigar vandalismo, o denunciou por “tentativa de homicídio”.

O que mostram os vídeos e fotos? Bruno com casaco e óculos de proteção, sem mochila e sem máscara, na linha de frente da manifestação contra Cabral, junto à grade, gritando. Subitamente, um coquetel molotov é lançado por trás dele. Um policial à paisana, com camiseta e mochila pretas, tenta prender Bruno. Bruno dá uma “voadora” no P2. PMs perseguem Bruno e atiram. Ele cai desacordado. Um PM dá um choque no rapaz com a pistola Taser. Alguém o refreia: “Ele já está no chão!”. Bruno é arrastado pela rua por policiais. Recobra a consciência e é algemado. Policiais mostram o colete metálico que ele usava – como “prova de vandalismo”. Um PM grita: “Foi ele que tacou o primeiro coquetel molotov”. Bruno nega. “Ele é preso de quem?”, pergunta um oficial. “Do P2”, responde o PM. Na delegacia, o subcomandante da PM acusa Bruno formalmente de ter jogado o artefato. Ele é autuado em flagrante na presença de representantes do Ministério Público e passa a madrugada na cadeia.

Nas redes sociais, acusa-se um P2 de ter lançado o coquetel molotov. Não há prova. A PM diz ser “uma hipótese absur¬da imaginar que um policial possa cometer um ato bárbaro contra um companheiro de farda”. O assessor de direitos humanos da Anistia Internacional, o cientista político Mauricio Santoro, enxerga sinais de que policiais à paisana desestabilizem passeatas para justificar a reação da PM. Isso é muito perigoso. Já vimos esse filme antes e ele não acaba bem, não é, presidente Dilma?

A geógrafa Carla Hirt, de 28 anos, foi presa, agredida, ferida com bala de borracha e acusada de formação de quadrilha com mais seis rapazes que não se conhecem. Pagou R$ 700 de fiança “para não ser levada para (o presídio de) Bangu”. O videógrafo Rafucko foi preso e algemado – e diz que o PM encheu sua camiseta com pedras portuguesas para montar uma acusação, rejeitada pela delegada. O sociólogo Paulo Baía foi vítima de sequestro-relâmpago por encapuzados armados, quando saía para caminhar no Aterro do Flamengo. “Disseram pra eu não dar mais nenhuma entrevista falando da PM.” O estudante Rodrigo D’Olivera Graça, de 19 anos, diz ter sido colocado por quatro encapuzados “no banco de trás de um Sandeiro branco” e ameaçado caso não saísse das ruas. Aconselho a comissão de Cabral a investigar todas as denúncias graves relacionadas aos protestos, se estiver preocupada com direitos humanos.

Cinegrafistas e jornalistas passaram a ser alvos de PMs no Rio. Câmeras foram quebradas. Um policial prendeu “para averiguação” Filipe Peçanha, do Mídia Ninja, que transmite as manifestações por internet. Outro PM deu golpe de cassetete na cabeça do fotógrafo Yasuyoshi Chiba, da AFP. A versão da PM era: “Atingido por coquetel molotov lançado por manifestante”. É condenável divulgar como “verdades” os releases da PM sem investigar antes. Não bote fé. 

Vencemos para isso?

Eliane Cantanhêde
Folha de SPaulo 

BRASÍLIA - Na chegada, o carro do papa Francisco espremido entre táxis e ônibus, num baita engarrafamento na avenida Presidente Vargas, centro do Rio, enquanto na larga pista ao lado, interditada, não se via uma única bicicleta. Um vexame inexplicável.

Logo mais, no Palácio Guanabara, a presidente Dilma, em vez de um singelo discurso de boas-vindas ao papa, puxou e leu um discurso maior do que o da grande estrela do evento. Faltou "semancol".

Na mesma noite, enquanto o mundo queria saber a quantas andava o papa no Brasil, o que se via era uma guerra campal entre policiais, vândalos e infiltrados de toda ordem. Uma violência vergonhosa.

No dia seguinte, milhares de repórteres do mundo inteiro se esfalfavam para registrar os preparativos do grande evento, enquanto cariocas e não cariocas amargavam horas de pane no metrô da cidade anfitriã. Competência zero.

Ontem, com tudo vistoriado e checado, veio a grande conclusão: impossível fazer a missa de encerramento em Guaratiba, no Rio. O local virou um mar de lama às vésperas do "gran finale". A culpa é só da chuva?

Em meio a tudo isso, as notícias domésticas nos governos e na mídia são desanimadoras: rombo histórico nas contas externas, emprego desacelerando, arrecadação devagar, quase parando. Os brasileiros gastaram mais de US$ 12 bilhões lá fora no primeiro semestre, e os estrangeiros gastaram aqui menos em junho de 2013 do que em junho de 2012 --apesar da Copa das Confederações. O paraíso evapora.

Segundo o "New York Times", houve "tensão, erros e protestos (contra Sérgio Cabral)" durante a visita do papa. E o "Chicago Sun-Times", da cidade derrotada pelo Rio para a Olimpíada, indaga, provocativo: "Perdemos para isso?".

Quando dão certo, papa, Copa e Olimpíada são alavancas eleitorais poderosas. Quando dão errado, o efeito é proporcionalmente inverso.

Política com P maiúsculo

Merval Pereira
O Globo

O Papa Francisco fez ontem, na visita à favela da Varginha, seu discurso mais político, referindo-se às recentes manifestações ocorridas no país de maneira positiva, encorajando os jovens a permanecerem na sua luta contra a corrupção. Com outras palavras, retomou análises que fizera anteriormente, desde que assumiu, sobre a nobreza da ação política. Para ele, envolver-se na política é a obrigação de um cristão, pois a ação política é das formas mais altas de caridade .

A política com P maiúsculo, como definiu em outra ocasião, visa ao bem comum, e nós cristãos não podemos nos fingir de Pilatos e lavar as mãos . Ontem, ele se referiu especialmente aos jovens que possuem uma sensibilidade especial frente às injustiças, mas muitas vezes se desiludem com notícias que falam de corrupção, com pessoas que, em vez de buscar o bem comum, procuram o seu próprio benefício .

Mas o Papa instou a que nunca desanimem, não percam a confiança , insistindo em que a ação política pode mudar a realidade, o homem pode mudar . Em palestras anteriores na Itália, logo depois de ser eleito Papa, ele falou mais diretamente sobre a atividade política, ao ser perguntado por um estudante jesuíta qual seria a atitude evangélica correta nos dias de hoje.

Depois de afirmar que atuar na política é um dever de cristão, Francisco comentou: A política é muito suja, mas pergunto: por que é assim? Por que os cristãos não fazem política com o espírito evangélico? É fácil dizer que a culpa é do outro, mas o que eu faço? É um dever de um cristão trabalhar pelo bem comum .

Na favela da Varginha, o Papa Francisco fez um apelo para que a população não se deixe acostumar ao mal, mas a vencê-lo , e se colocou ao lado daqueles que lutam: Vocês não estão sozinhos, a Igreja está com vocês, o Papa está com vocês .

Numa referência crítica à política do governo do Rio, reforçada pela utilização da palavra pacificação , o Papa disse que nenhum esforço nesse sentido será duradouro, não haverá harmonia e felicidade para uma sociedade que ignora, que deixa à margem, que abandona na periferia parte de si mesma .

Em outra passagem, de apoio às políticas sociais, Francisco encorajou os esforços que a sociedade brasileira tem feito para integrar todas as partes do seu corpo, incluindo as mais sofridas e necessitadas, através do combate à fome e à miséria .

O Papa insistiu, por fim, na necessidade de uma educação de qualidade e calcada em valores, e não apenas uma simples transmissão de informações com o fim de gerar lucros . A atuação política com base em valores nas sociedades democráticas é uma preocupação recorrente do Papa Francisco, revelada em outras ocasiões.

Na sua avaliação, algo aconteceu com nossa política, ficou defasada em relação às ideias, às propostas... As ideias saíram das plataformas políticas para a estética. Hoje, importa mais a imagem que o que se propõe. (...) Saímos do essencial para o estético, endeusamos a estatística e o marketing (...) .

Ele contou um dia que, como sacerdote, diante de uma eleição, mandava ler as plataformas para que os fiéis escolham. No púlpito, tomo bastante cuidado, limito-me a pedir que busquem os valores, nada mais.(...) Participar da vida política é uma maneira de honrar a democracia.(...) Seria necessário distinguir entre a Política com P maiúsculo e a política com P minúsculo .

O Papa Francisco considera que a religião não pode impor caminhos na política aos cidadãos, mas, se concebo o poder de uma maneira antropológica, como um serviço à comunidade, é outra coisa. A religião tem um patrimônio e o põe a serviço do povo, mas, se começa a se misturar com politicagem e a impor coisas por baixo do pano, transforma-se em um mau agente de poder.

O povo separa

Carlos Alberto Sardenberg
O Globo

William deve ter percebido que o povo inglês quer monarcas mais — como dizer? — gente comum. Francisco percebeu que a Igreja precisa de um guia mais ligado ao povo do que à Cúria Romana

Os ingleses parecem sinceramente felizes com o bebê real. Pode-se medir ao menos parte desse sentimento. Pesquisas mostram, por exemplo, que a maioria aprova a monarquia e considera correto que George venha um dia a ser o rei da Inglaterra. Mas as pesquisas indicam também que os ingleses gostariam que o príncipe tivesse uma profissão e trabalhasse antes de assumir o trono.

Parece que o príncipe William está atento a esses sinais. Mais do que os jornalistas especializados na cobertura da família real - sim, existe essa categoria na imprensa inglesa. Esses colegas manifestaram surpresa quando William saiu da maternidade carregando o berço com seu filho. Enquanto Kate se acomodava no banco de trás, o príncipe encaixou o bercinho no outro lado do banco, prendeu-o no cinto de segurança, assumiu o volante e partiu. "Oh! ele está dirigindo!" - pode-se ouvir o comentário de repórteres na cobertura ao vivo da CNN.

Já o papa Francisco não dirigiu seu carro aqui no Brasil. Mas pediu um modelo simples, não blindado, não preto - e esse seu gesto foi bem entendido, especialmente no momento em que autoridades brasileiras variadas são pegas em jatinhos, carrões e helicópteros.

William saiu de Land Rover, é verdade, mas dirigindo. O papa foi de passageiro, mas numa minivan Idea. E circulou num papamóvel aberto, fazendo-o parar várias vezes para falar com as pessoas, beijar crianças. Como os ingleses com seu bebê, essa multidão de brasileiros também parece sinceramente feliz com a visita desse Francisco, uma simpatia.

Agora, fica por isso mesmo ou esses momentos de boas sensações coletivas têm efeitos políticos? Direto ao ponto: o bebê ajuda o governo de David Cameron na Inglaterra? A visita do papa alivia as pressões sobre a presidente Dilma?

Ou seria o contrário? A fraqueza, a mediocridade de governantes e políticos sendo realçada pelo brilho alheio?

Quando João Paulo II veio ao Brasil pela primeira vez, em junho e julho de 1980, foi um tremendo sucesso popular. O país vivia ainda sob o regime militar, mas que já dava sinais de esgotamento. O papa foi recebido pelo presidente João Figueiredo e muita gente pensou - ou temeu - que o êxito da visita pudesse dar algum fôlego ao regime.

Pois uma charge de Chico Caruso captou o sentido da situação: mostrava Figueiredo chegando ao seu gabinete, com seus principais ministros, todos desenhados bem pequenininhos, reduzidos.

David Cameron apareceu diante dos repórteres para comemorar o nascimento do bebê. Parecia alegre. A presidente Dilma aproveitou a recepção ao papa, com sua imensa cobertura, para um discurso de campanha. Talvez Cameron tenha sido mais esperto. Uma breve fala e até logo. Já a longa fala de Dilma foi mais do mesmo para os aliados e um aborrecimento para os outros. Se o objetivo era ganhar espaço no esforço de recuperação de sua popularidade, foi ineficiente.

A verdade é que o povo de algum modo sabe separar as coisas. De fato sente-se feliz diante de certos eventos, mas distribui os méritos com boa percepção. Em vez de tentar pegar carona nesses bons momentos, os políticos espertos e bem intencionados sabem interpretar os sentimentos. E atuam em seguida respeitando esses sentimentos.

William deve ter percebido que o povo inglês quer monarcas mais - como dizer? - gente comum, mais austera, mesmo nascendo rei. Francisco certamente percebeu que a Igreja precisa de um guia mais ligado ao povo do que à Cúria Romana, tão rica, tão fechada em si mesma e tentando esconder seus escândalos. E ele é esse guia.

A politica e a economia dependem da confiança de eleitores , consumidores, investidores, executivos, empresários. A ciência econômica sabe como medir esse sentimento. Pergunta-se às pessoas: como avaliam sua situação econômica, boa, ruim, neutra? E seu trabalho? Sua condução? Como acham que estarão daqui a seis meses, melhor, pior? Planejam comprar um carro? Sua empresa planeja contratar ou demitir? Investir? E assim vai. Depois as respostas são tabuladas e transformadas em números numa escala. Da metade para baixo, pessimismo, para cima, otimismo.

Há uma clara correlação entre otimismo, mais consumo e mais investimento - e aprovação do governo. E inversamente, claro.

Há também pesquisas que pedem avaliações subjetivas, do tipo: gostou do bebê? gostou da viagem do papa? e a vitória da Seleção?

Mostram pessoas mais ou menos animadas, mas sem correlação expressiva com comportamentos econômicos e políticos.

Especialmente quando os políticos estão em baixa, certas comparações só os diminuem mais ainda.

Leis e costumes ultrapassados?

Carlos Chagas
Tribuna da Imprensa

Quando, numa sociedade, a maioria de suas categorias sentem-se prejudicadas pelas leis e pelos costumes vigentes, apelam dos costumes para a razão e das leis para a natureza, afirmava Voltaire, morto antes da queda da Bastilha e sem imaginar o que aconteceria nas estepes, mais de um século depois. É assim que  eclodem as revoluções sociais, como na França em 1789 e na  Rússia em 1917. Depois, a vida segue seu curso imprevisível e desemboca em situações completamente inusitadas, como as que geraram Napoleão e Stalin. O importante nos movimentos sociais, no entanto, é atentar para o  ponto de ebulição lá no começo do processo, quando o passado se desfaz em mil pedaços e o futuro não pode ser imaginado.

Estaríamos chegando ao  prenúncio da ruptura  promovida pelos diversos  segmentos  oprimidos e tornados  insurgentes,  diante da opressão não mais tolerada da   ordem política e social  anterior? Pode ser, na dependência de as manifestações de rua das últimas semanas terem sido apenas o   soluço  de um organismo maltratado  ou, no reverso da medalha, o sinal do início de uma reviravolta profunda nos costumes e  nas leis   até então vigentes?

Respondam os sociólogos, os marqueteiros e até  os videntes de sempre, mas a verdade é de podermos  ter chegado ao limiar de mudanças profundas.  Ao esgotamento de ser o país dominado por uma classe política  corrupta, por um sistema econômico conduzido pela ânsia do lucro a qualquer custo, por instituições  incapazes de produzir justiça, equidade, serviços e felicidade geral. Esses componentes deteriorados se esgotaram, ainda que se ignore como e pelo que serão substituídos ou sucedidos. É um fato a  falência dos valores e das regras  até então impostas ao cidadão comum, não apenas no Brasil, mas no planeta inteiro.

O brado “basta!”, de “chega!”, ecoa do Hemisfério Norte antes rico até o Hemisfério Sul, pretensamente em desenvolvimento. Lá e cá o povo se insurge, verificando perigosamente como é fácil  intimidar os responsáveis pelos privilégios e a   opressão que a todos assola. Não se reivindica mais liberdade, pelo menos no Brasil, porque ela acaba de ser conquistada nas ruas. O recuo dos donos do poder é flagrante  quando se mostram incapazes de conter os protestos generalizados, tentando  absorve-los e travesti-los, apresentando-os  como  democráticos,  através da mentira de   evidenciarem   o acerto de suas políticas.

Não é nada disso. As manifestações se fazem contra eles, governantes, parlamentares, empresários, especuladores, patrões, esbirros, dirigentes, donos da terra, reitores e quantos outros exercem funções de controle sobre a massa. Todos recebem  a rejeição por conta de tantas décadas de submissão imposta à sociedade como um todo, assim como  a cada uma das suas principais categorias, isoladamente.

Vale repetir, os dias atuais podem exprimir apenas um soluço, mais uma dessas costumeiras reações que não progridem,   esgotam-se e se desfazem como bolhas de sabão. Mas se não for assim? Se estivermos na ante-sala de surpresas imprevistas e inusitadas, amargas ou felizes? Fica para as próximas gerações verificar se redundarão em Napoleão ou Stalin, se é que estamos  mesmo assistindo a mais uma dessas mutações que apenas a Humanidade pode produzir…

Mudar o rumo

Cristovam Buarque
O Globo

Deixaremos de formar 30.400 cientistas e tecnólogos

Nada indica mais a pobreza da política brasileira do que a proposta de pacto para mudar algumas regras no sistema eleitoral, quando precisamos de união para uma mudança de rumo.Anos atrás fui à Irlanda investigar por que um dos países mais atrasados em educação havia se transformado em exemplo mundial nesta área. Quis visitar a cidade de Kork, onde, nos anos 70, as lideranças políticas do país haviam decidido uma união para priorizar a educação nos anos seguintes. O embaixador do Brasil, Stelio Amarante, disse que não havia tempo porque as estradas eram ruins. Perguntei como um país tão bom em educação tinha suas estradas ruins. Ele respondeu: “Por isso mesmo! Gastaram o dinheiro em educação e não em estradas. Agora o país vai modernizá-las.”

Os líderes irlandeses olharam o futuro e fizeram as contas para definir prioridades. Nós estamos acostumados a olhar para o imediato e a não fazer as contas. Esta é uma das razões da insatisfação que leva às manifestações do povo, especialmente da juventude que está querendo reorientar os recursos para mudar o rumo do país.

Há seis anos o Brasil se dedica à construção de estádios para a Copa do Mundo de 2014, sem olhar a educação e o ano 2030. O Distrito Federal não tem times que atraiam torcedores, mas fez estádio para 72 mil espectadores ao custo de R$ 1,6 bilhão.

Uma conta mostra que apenas com os recursos deste estádio seria possível financiar a formação de pelo menos 6.800 engenheiros de excelência, desde a primeira série do ensino fundamental, em superescolas com padrão internacional até a formatura em cursos similares ao do Instituto Tecnológico da Aeronáutica (ITA), um número maior do que a soma de todos os engenheiros formados no Instituto em seus 64 anos.

Se considerarmos que cada um desses profissionais vai contribuir para o desenvolvimento do país e gerar uma renda igual ao salário deles, algo em torno de R$ 20 mil por mês, ao longo de 35 anos de trabalho o montante resultaria em cerca de R$ 63,6 bilhões, valor equivalente a 40 estádios similares ao novo Mané Garrincha.

Se considerarmos o custo dos 12 estádios da Copa, deixaremos de formar pelo menos cerca de 30.400 cientistas e tecnólogos da mais alta qualidade. Estes profissionais serviriam de base para o desenvolvimento científico e tecnológico do Brasil, desde que os líderes brasileiros olhassem para o futuro e fizessem as contas.

Neste caso, talvez no futuro, alguém pergunte: “Como é possível que um país com a excelente qualidade na educação, uma das melhores do mundo, não tenha na sua capital um estádio para 72 mil pessoas?” E alguém diria: “Por isso mesmo, preferiram formar 6.800 engenheiros de máxima qualidade. Agora vão fazer o estádio.”

O Brasil tem muitos problemas. Um dos mais graves é não fazer contas, nem olhar o futuro. Felizmente, o povo e especialmente os jovens começaram a fazer as contas e a irem às ruas usando a guerrilha cibernética para forçar uma unidade brasileira pela mudança de rumo nas nossas prioridades.

Guaratiba, campo da fé, mar da tristeza

Cecília Ritto
Veja online

Operários e moradores que suaram para fazer o Campus Fidei não verão o papa nem os peregrinos. Terreno repleto de lama é o retrato da desolação

VEJA 
Um dia depois de ser definida a mudança de lugar da vigília 
e da missa final para Copacabana, Campus Fidei está enlameado  

Quando veio a chuva, voltaram as poças. E o manto d’água sobre o barro avermelhado criou pequenos espelhos que ainda refletem fragmentos do imenso altar preparado para receber Francisco. O papa não vem, nem virão os peregrinos e suas bandeiras coloridas. Os funcionários que acompanharam o lamaçal em Guaratiba nos últimos meses já sabiam que só por milagre o terreno suportaria o evento programado para sábado e domingo. Mas ainda assim a notícia de que nem o pontífice nem os quase dois milhões de fiéis veriam a obra pronta foi uma decepção. “Chorei a noite inteira. Não gosto nem de falar que me dá vontade de chorar de novo. A gente se entregou de corpo e alma. Para mim, foi maravilhoso trabalhar pela vinda do papa”, disse André Luiz Ruela, de 39 anos, que trabalhava na obra de Guaratiba dirigindo caminhão para abastecer os lotes com água potável – um desafio para a estrutura temporária de Guaratiba. Eram 12 veículos nesse trabalho. No dia da missa final, seis ficariam na parte interna do campo, e André tinha negociado para ser um dos motoristas a ver o papa de perto. “Agora, não tenho esperança de ver o papa”, admitiu.

O Campus Fidei foi entregue para o evento no domingo, depois de seis meses de uma batalha contra as poças d’água que se formavam a cada chuva. Foram 500.000 viagens de caminhões carregando terra para nivelar a área e um mês de jornadas de 24 horas de trabalho ininterrupto, divididas em dois turnos. Na segunda-feira, uma forte chuva atingiu o Rio, e o terreno não suportou. Um trator já havia sido engolido pela lama durante as obras, e um caminhão atolou ao fazer uma entrega na manhã de quarta-feira.


A Defesa Civil foi ao terreno e comunicou que não seria mais possível realizar o evento. “Era um clima de morte”, resumia um dos funcionários, que na sexta-feira já desmontava o Campus Fidei. Os operários estão desanimados. Durante os meses de trabalho, acharam que estavam participando de uma obra histórica. Com o tempo, fizeram amizade – entre eles e com a vizinhança. “Não queria participar da desmontagem. Estou aqui há três meses e, durante a semana, durmo no carro. Aqui, um ajudava o outro. É triste, mas não tinha como ser aqui. Se não chovesse, o povo ia comer poeira. Se chovesse, faria lama”, disse Paulo Roberto Costa, de 49 anos.

Alguns peregrinos anteciparam-se e mudaram-se para Guaratiba. Um grupo de 25 jovens, acompanhado do padre Clesio Ribeiro dos Santos, de 34 anos, chegou de Belo Horizonte na madrugada desta sexta-feira. Desembarcaram na casa alugada por 5.000 reais, a 500 metros do Campus Fidei. “Alugamos a casa há sete meses para ficar bem perto do lugar onde o papa rezaria a missa. Agora, corremos o risco de não participar da Jornada. Não tem mesmo jeito. Pelo que vi, o terreno é só terra. Parece Serra Pelada”, disse o padre.

O comércio também terá perdas. Fábio Azevedo, dono de uma loja de conveniência, e Patricia Marques, proprietária de um mercado, se juntaram para montar um esquema de venda de comida e bebida para os peregrinos. Investiram 300.000 reais em produtos, alugaram duas casas há dois meses para fazer a estocagem e a venda ao lado do Campus Fidei. Souberam na quinta que não haveria evento em Guaratiba. “É um descaso com quem está aqui. Desanimador”, reclamou Patricia, que colocou um carro de som nas ruas chamando as pessoas para o mercado, onde ela revenderá as comidas e bebidas. Fábio ficou com a outra parte dos produtos. “Mesmo revendendo mercadoria, a gente perde uns 100.000 reais”, explicou.

Outros investiram menos, como Jaqueline de Paula, de 35 anos, que pegou um empréstimo de 300 reais para comprar massa para fazer salgados. “Vou tentar vender de dia e de noite para o pessoal daqui mesmo. Fazer o que?”, disse Jaqueline. Na quinta, ela estava no ônibus quando soube que não haveria celebração em Guaratiba. Só teve tempo de ligar para o fornecedor e avisou que não queria mais os oito engradados de refrigerante. No outro lado da rua, Cesar da Cruz, dono de um bar, não se conforma com a perda e com a vergonha. “Decepção para nós. Vergonha para o país”, afirmou.

'The New York Times’ diz que visita do papa é marcada por 'tensões e erros'

O Estado de S. Paulo

Em reportagem publicada nesta quinta-feira, jornal relata equívocos e manifestação violenta

O jornal The New York Times publicou na edição desta quinta-feira, 25, reportagem afirmando que a visita do papa Francisco ao Brasil para a Jornada Mundial da Juventude tem sido marcada por "tensões e erros cometidos pelos organizadores brasileiros (da visita)” e protestos contra o governador do Rio, Sérgio Cabral. Intitulada "Erros por parte do Brasil prejudicam visita do papa", o artigo lembra que os problemas em relação à estadia do pontífice no País começaram desde a sua chegada ao Rio, na segunda-feira, 22, quando Francisco ficou preso em um engarrafamento no centro, "expondo o papa a uma multidão de pessoas".

Reprodução

Matéria ouviu manifestantes que criticaram o governador Sérgio Cabral

Além de relatar a agenda do papa na quarta-feira, quando passou por Aparecida (SP) e visitou a ala de dependentes químicos de um hospital do Rio, a reportagem lembra a falha no sistema metroviário na terça-feira, que parou trens por duas horas, e dá destaque a protesto que acabou em confronto entre manifestantes e policiais no Largo do Machado, com troca de acusações dos dois lados em relação a quem começou o ataque.

O artigo do NYT traz o depoimento de um advogado criticando Cabral e questionando se o Rio de Janeiro tem condições de receber um evento de grande porte, além de afirmar que "há uma torneira de dinheiro entrando (no município), mas ele é mal administrado”.

Um manifestante ouvido pelo jornal comparou o papa com quem foi às ruas protestar contra Cabral. "Ele é revolucionário como nós". O NYT também ouviu o prefeito do Rio, Eduardo Paes, que disse que "qualquer explicação (quanto a erros) parece desnecessária e inútil neste momento”. “O que precisamos fazer é pedir desculpas", salientou, afirmando a intenção de fazer a visita "o mais tranquila possível".

O Calvário dos peregrinos no Rio: erros na organização prejudicam a Jornada Mundial da Juventude

João Marcello Erthal e Pâmela Oliveira
Veja online

Chuva na cidade cria lamaçal no Campus Fidei e cancela vigília e peregrinação da Jornada Mundial da Juventude. Segurança e transporte também falharam

Heitor Feitosa 
Papa acena para fiéis durante passagem por Copacabana  

Ministério Público alertou, no início do ano, para o risco de alagamento no terreno em Guaratiba

Os organizadores da Jornada Mundial da Juventude estavam certos em um ponto: o público pacífico e ordeiro ajudaria a fazer do evento uma festa sem grandes problemas. Os acertos da prefeitura, da Igreja Católica e principalmente da empresa Dream Factory, contratada para organizar a JMJ, acabam aí. Todos os planejamentos de transporte, segurança e saúde do evento estão sendo refeitos neste momento, para serem apresentados oficialmente na manhã desta sexta-feira, às 11h. Depois de meses de planejamento e gastos da ordem de 300 milhões de reais, grande parte do que foi preparado até agora foi levado pelas chuvas. E o que foi anunciado – como a segurança em Guaratiba feita pelo Exército, a peregrinação de 13 quilômetros e as orientações sobre transporte – não vale mais. Em uma coletiva de imprensa na tarde desta quinta-feira, os representantes dos órgãos envolvidos se negaram a dizer quanto foi gasto só em Guaratiba.

“Não vamos transformar isso num jogo de números”, pediu o prefeito Eduardo Paes, anfitrião da festa, preservando os visitantes de um constrangimento maior. Ele, Paes, o orçamento e os moradores do Rio, vão ficar com a conta da mudança. Ao lado do prefeito estavam, à mesa, o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo; dom Paulo Cezar Costa, vice-presidente do Comitê Organizador Local (COL) da jornada; e o secretário-geral da Presidência, Gilberto Carvalho.

O desastre da organização de Guaratiba não pode ser considerado surpreendente. Como mostrou reportagem do site de VEJA, o Ministério Público do Estado do Rio alertou para uma série de problemas na organização, concentrados principalmente em Guaratiba. Para citar apenas um deles: o risco de alagamento do terreno, caso o período de chuvas coincidisse com a maré cheia, o que eleva o nível dos rios da região e dificulta o escoamento da água. A maré desta quinta-feira é considerada “muito alta” – com altura estimada em 1,3 metro.

O descarte da área de 3,5 milhões de metros quadrados na Zona Oeste, onde só havia mato e foi criado um gigantesco descampado, é o exemplo extremo e indiscutível de que o evento foi mal planejado. A mudança de local da vigília e da missa de encerramento, comandada pelo papa Francisco, vai muito além da troca de endereço: empresas contratadas e forças de segurança envolvidas precisam deslocar toda a estrutura para a Zona Sul da cidade, causando mais dois dias de interdições e transtornos inesperados – algo que enerva os moradores do bairro que mais recebe eventos na cidade, onde é realizado o réveillon mais famoso do Brasil e uma infinidade de shows ao longo do ano.

Reprodução 

A JMJ no 'New York Times': críticas à organização do evento

Na coletiva desta tarde, o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, não deu detalhes de como será a segurança em Copacabana. “Vou ter reunião com (José Mariano, secretário de Segurança) Beltrame para ver como será feita a segurança. O governo federal vai dar todo apoio para a segurança pública”, disse. Em Guaratiba, a preocupação era com manifestações e pequenos furtos. Em Copacabana, os fiéis ficam expostos aos problemas comuns da insegurança urbana em uma grande cidade. E, claro, facilita-se a vida dos manifestantes, que poderão se deslocar com mais facilidade.

Problemas – 
A festa é de fato singular em sua diversidade, alegria e caráter pacífico. Desde a segunda-feira, jovens de todos os cantos do mundo circulam exibindo orgulhosos os símbolos da Jornada e as bandeiras de seus países. Diferentemente dos eventos esportivos, o desfile de símbolos nacionais se dá de forma fraternal, não competitiva – e até portadores de flâmulas do Brasil e da Argentina se abraçam, algo impossível em uma Copa do Mundo.

Mas é inegável que os percalços arranharam a festa, pelo que se viu até esta quinta-feira. O primeiro problema – superado pela personalidade do papa e pelo perfil pacífico da multidão – foi o erro no deslocamento do pontífice até o centro da cidade. O veículo em que viajava Francisco foi cercado pela multidão e acabou preso em um engarrafamento na Avenida Presidente Vargas. Na terça-feira, o metrô, transporte recomendado para a chegada dos peregrinos a Copacabana, para a cerimônia de abertura da JMJ, parou por duas horas devido a uma pane – o que complicou a volta dos cariocas para casa e impediu a chegada de fiéis à festa. Na quarta-feira, houve nova pane, de menor porte.



Peregrinação – 
A mudança de local da missa final desvirtua o que havia sido planejado para o evento. Toda Jornada Mundial da Juventude tem uma peregrinação. No caso do Rio, o objetivo era levar o evento a uma área menos favorecida, e a escolhida foi Guaratiba. Para resgatar o espírito de peregrinação, a prefeitura do Rio avaliou fazer o bloqueio de vias de forma a obrigar os peregrinos a andar mais que o normal. A ideia foi descartada e, por volta das 18h, o Comitê Organizador Local (COL) informou que a vigília e a peregrinação estavam cancelados em função do clima.

Os transtornos da organização da JMJ, somados aos protestos que se repetem há um mês na cidade fizeram a visibilidade internacional do Rio funcionar ao contrário. O jornal New York Times publicou, nesta quinta-feira, uma reportagem apontando problemas na organização. Em Chicago, o Chicago Sun-Times trouxe como manchete, na quarta-feira, uma pergunta: “Perdemos para isso?”, dizia o título, com uma foto de um grupo de manifestantes.

O recado está dado aos organizadores da Olimpíada de 2016 e da Copa do Mundo, que acontece daqui a menos de um ano.


A lama de Guaratiba, vexame internacional

Heron Guimarães
Tribuna da Imprensa


Quando Lula anunciou a Copa do Mundo e as Olimpíadas no Brasil e Dilma Rousseff confirmou a Jornada da Juventude para o Rio de Janeiro, o que se esperava era a consagração dos dois governantes. Aliado aos programas sociais, o pacote estava completo: pão e circo “à la vonté”.

As duas estrelas do “lulismo” não imaginavam que os megaeventos pudessem contribuir para uma reviravolta na popularidade de um projeto de governo que chegou a contar com mais de 80% de apoio popular.

A Copa das Confederações, apesar de não ter sido o gatilho para a insatisfação – muitos atribuem isso à economia –, foi o cenário ideal para o grito de “basta” de multidões pelo Brasil afora.

Os custos elevados para se entrar nos estádios, impraticáveis pela grande maioria dos eleitores do PT, as obras inacabadas e a desorganização do torneio funcionaram como tempero para o sentimento de revolta que se alastrou pela nação.

Nessa semana, a visita do papa Francisco voltou a colocar a dupla Lula e Dilma em xeque. O que era para ser notícia positiva por todo o mundo e ter funcionado como efeito anestésico para os insurgentes transformou-se em novo palco de constrangimentos.

O presidente do STF, Joaquim Barbosa, por descuido ou mágoa, não cumprimentou a presidente após receber a bênção do papa. Erro, gafe ou rancor? De qualquer forma, mais um agravante para a relação entre Executivo e Judiciário.

CABRAL, O PIOR
O governador fluminense, Sérgio Cabral, tido como o queridinho de Lula e Dilma, passa pelo pior momento de sua carreira política e de sua vida pessoal. Considerado o pior governador pela mais recente pesquisa do Ibope, ele, que já esteve no topo do ranking dos políticos mais bem-avaliados do país, nem sequer tem condições de sair de casa, sendo hostilizado por sua população e jogado às covas dos leões. Ao que tudo indica, o projeto de lançar seu vice como sucessor está comprometido.

Ao mesmo tempo em que Cabral é detonado no Rio, o vexame do país parece não ter fim, espalhando-se pelas capas de jornais internacionais, com Francisco tendo que enfrentar congestionamentos. Até o local de encerramento da visita papal teve que ser transferido.

A lama que tomou conta de Guaratiba mostra mais do que terra fofa e água suja. Mostra falta de planejamento, o dinheiro público sendo jogado fora e a incapacidade política de se fazer a coisa certa.

A lama que impede o papa de rezar em um local reservado há meses e com milhões em investimento é a mesma que impede uma saúde melhor, transporte de qualidade e uma vida menos sofrida para a imensa maioria dos brasileiros. A popularidade de Dilma, em vertiginosa queda, é o menor dos males. 

(transcrito de O Tempo)

Ação orquestrada

Dora Kramer  
O Estado de S.Paulo

Um movimento de natureza regional, com alcance nacional. Assim pode ser definida a troca de comando do PSB em Minas Gerais, com a saída de Walfrido dos Mares Guia e a escolha do deputado Júlio Delgado para a presidência.

É o primeiro indicativo nítido a olho nu de que o governador de Pernambuco, Eduardo Campos, será mesmo candidato a presidente em 2014. "Mostra o jogo sendo jogado", diz um aliado de Campos.

A substituição de Mares Guia - foi ministro de Luiz Inácio da Silva, é amigo do PT e defende apoio do PSB à reeleição de Dilma Rousseff - por Delgado, que teve no senador Aécio Neves um empenhado cabo eleitoral quando se candidatou à presidência da Câmara contra Henrique Alves, pode ser vista também como parte de uma ação conjunta de Campos e Aécio, no jogo da sucessão.

O projeto, ainda em fase de esboço, é formar palanques comuns em vários Estados e, se possível, firmar um acordo de apoio recíproco no segundo turno da eleição presidencial. Se o pernambucano for finalista, o candidato do PSDB o apoia e vice-versa, caso Aécio passe para a segunda etapa.

Uma das possibilidades de aliança regional é justamente em Minas, onde se trabalha com a ideia de formação de chapa única entre os dois partidos, um com a candidatura a governador outro na vice. Em São Paulo encaminha-se acordo semelhante para a disputa pela reeleição de Geraldo Alckmin, bem como no Paraná e em Pernambuco.

Entre os Estados de maior densidade eleitoral, o Rio de Janeiro é um problema para os dois partidos devido à falta de nomes viáveis. O PSDB faz tentativas com Fernando Gabeira que, no entanto, prefere atuar na política apenas como jornalista. O PSB aguardava a saída do senador Lindbergh Farias do PT se a direção nacional o obrigasse a desistir de concorrer, mas, com o declínio do governador Sérgio Cabral, a candidatura petista se fortaleceu.

A hipótese de o governador de Pernambuco ser candidato a vice de Lula se for ele o candidato do PT em 2014 é considerada fora de cogitação. Por vários motivos, sendo o primeiro deles a posição de Eduardo Campos que a cada dia renova a validade de frase dita meses atrás: "Não tenho temperamento para vice".

Em segundo lugar, o PSB não quer ser plano B de ninguém. Em terceiro, avalia que não há chance de o ex-presidente se dispor a disputar a eleição no caso de Dilma não recuperar a popularidade, porque não teria como se dissociar do fracasso.

Além disso, na interpretação do partido, Lula perdeu a oportunidade de "segurar" Eduardo Campos quando não quis apoiar a candidatura do PSB à presidência da Câmara como forma de impedir o PMDB de tomar conta do comando do Congresso.

AI-6. 
O governador Sérgio Cabral parece mesmo decidido a aprofundar o buraco por onde já escorreram 30 pontos porcentuais na avaliação positiva de sua administração.

Depois de várias peripécias nacionalmente conhecidas, Cabral resolveu fazer do Rio de Janeiro uma espécie de enclave absolutista na república democrática do Brasil. É o que sugere o decreto que confere poder à Comissão Especial de Investigação de Atos de Vandalismo em Manifestações Públicas para "praticar quaisquer atos necessários à instrução de procedimentos".

Entre esses atos está o de pedir quebras de sigilos às operadoras de telefonia e provedores de internet "no prazo máximo de 24 horas". O governador dá de ombros ao Estado de Direito e usa como molde o Ato Institucional n.º 5, por intermédio do qual a ditadura exerceu plenos poderes no Brasil de 1968 a 1978.

Serventia. 
Do ex-presidente Lula acerca do "zum-zum-zum na imprensa" sobre propostas de redução do número de ministérios: "Não tem que diminuir ou aumentar, tem que saber para que serve".
De fato.

Lewandowski ataca outra vez: STF nega pedido de liminar contra o 'Mais Médicos'

Felipe Recondo  
O Estado de S. Paulo

Lewandowski ressaltou que paralisar o programa neste momento, impedindo a contratação de médicos, geraria prejuízo para a população

BRASÍLIA - O presidente em exercício do Supremo Tribunal Federal, Ricardo Lewandowski, negou o pedido de liminar da Associação Médica Brasileira (AMB) contra o programa Mais Médicos. Ao contrário do que defendem os médicos, Lewandowski ressaltou que paralisar o programa neste momento, impedindo a contratação de médicos, provocaria prejuízo para a população. 

“O ato impugnado (o programa Mais Médicos) configura uma política pública da maior importância social, sobretudo ante a comprovada carência de recursos humanos na área médica no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS)”, afirmou o ministro na decisão. “O cenário indica, ao contrário do sugerido na inicial, a existência de periculum in mora inverso, ou seja, o perigo na demora de fato existe, porém milita em favor da população.” Com base em dados do Ministério da Saúde, Lewandowski argumentou que o número de médicos formados pelas faculdades brasileiras é insuficiente para suprir as vagas abertas nos hospitais. Além disso, a proporção entre médicos e habitantes no Brasil, abaixo da registrada em outros países, seria mais um argumento em favor do programa, conforme julgou o ministro. 

“O Brasil possui apenas 1,8 médicos para cada mil habitantes, desigualmente distribuídos por suas regiões, ao contrário de outros países como Argentina (3,2), Uruguai (3,7), Portugal (3,9), Espanha (4), Austrália (3), Itália (3,5), Alemanha (3,6) ou Reino Unido (2,7)”, afirmou Lewandowski. 

Do ponto de vista processual, o ministro argumentou que o mandado de segurança movido pela AMB pedia, na verdade, a declaração de inconstitucionalidade da medida provisória que criou o programa. Para ele, não cabe ao STF julgar se havia urgência e relevância para a edição da medida provisória. Essa avaliação caberia ao Executivo, ao editar a medida, e ao Legislativo, ao votá-la. 

No processo, a associação contestou a possibilidade de médicos estrangeiros atuarem no Brasil e a obrigatoriedade de estudantes de medicina prestarem serviço obrigatório aos hospitais públicos antes de se formarem.

AGU. 
Em outro processo contra o programa, que tramita na Justiça Federal, a Advocacia Geral da União defendeu a legalidade da medida provisória. 

Nas informações que prestou à Justiça, a AGU argumentou que os médicos brasileiros serão contratados preferencialmente, que os estrangeiros não terão os diplomas revalidados imediatamente ao chegarem ao Brasil e acrescentou que as universidades farão a avaliação dos interessados de prestarem serviço no Brasil. 

Esta ação civil pública é movida pelo Conselho Federal de Medicina e tramita na 22ª Vara Federal do Distrito Federal. Neste caso, um pedido de liminar ainda precisa ser julgado. Nessa sexta-feira, a AMB entrou com nova ação contra o programa. Desta vez, uma ação civil pública também na Justiça Federal em Brasília. Foi a quinta ação judicial protocolada contra o programa do governo federal.