Editorial
O Globo
Israel e palestinos jogam baldes de água fria nos esforços americanos para retomar
Há algo no ar no Oriente Médio além do avião do secretário de Estado dos EUA, John Kerry, que já fez seis viagens à região. Ele disse, há alguns dias, que negociadores israelenses e palestinos estariam em Washington, “em uma semana ou pouco mais”, para reiniciar conversações sobre a criação de um Estado palestino, interrompidas em 2010. Fontes israelenses e palestinas disseram, sob condição de anonimato, que o processo começaria terça-feira.
Kerry anda cercado de descrença por todos os lados. Não sem razão. Palestinos e israelenses se apressaram em jogar água fria: os primeiros dizem que não haverá discussão se Israel não admitir que qualquer acordo tem de se basear nas fronteiras pré-1967, isto é: antes de Israel ocupar a parte oriental de Jerusalém e a Cisjordânia, partes vitais de um Estado palestino; Israel alegou que o premier Benjamin Netanyahu depende da aprovação de seu dividido Gabinete, que se reúne domingo, para começar a conversar.
Mas o “New York Times” citou, em editorial, movimentos de bastidores. A Liga Árabe deu cobertura política aos palestinos ao endossar os esforços de Kerry e modificar sua Iniciativa Árabe de Paz,para ficar mais palatável aos EUA e Israel. A comunidade internacional prometeu aos palestinos um pacote econômico de ajuda de US$ 4 bilhões se as conversações avançarem. Já o Estado judeu revelou que libertará 82 prisioneiros palestinos condenados depois dos acordos de Oslo, em 1993. E, ainda segundo o “New York Times”, Israel reduziu o ritmo da expansão dos assentamentos em território ocupado. Os palestinos, por sua vez, teriam se comprometido a não solicitar à ONU a elevação de seu status enquanto durarem as negociações, numa concessão a Israel.
A União Europeia tem feito movimentos aparentemente à margem da tentativa americana de retomar o processo de paz. Dizendo-se frustrada com a expansão das colônias judaicas, ela determinou a suspensão da ajuda a toda e qualquer entidade israelense que funcione nos territórios ocupados. Israel respondeu proibindo a UE de fornecer ajuda a dezenas de milhares de palestinos na Cisjordânia. Mas a UE também decidiu incluir o braço armado do Hezbollah entre as organizações que ela classifica como terroristas. O Hezbollah, aliado do Irã e baseado no Líbano, é um dos maiores inimigos de Israel.
Os céticos, como se sabe, estão carregados de argumentos quando se trata de um acordo com Israel para criação de um Estado palestino. Uma coisa é fazer um representante (ou vários) de cada lado se sentar em torno de uma mesa, em Washington. Outra é traçar as fronteiras do novo Estado e Israel aceitar as garantias de segurança. Ou definir o futuro de Jerusalém e o destino dos refugiados palestinos. Mas também é verdade que, sem reiniciar as conversas, tudo ficará como está, ou seja, no pior dos mundos.