Alexandre Schwartsman
Blog Mão Invisível
“É incorreto afirmar que a Terra não gira em torno do Sol. Há dados concretos que desmentem as análises mais pessimistas. A informação parcial confunde a opinião pública e visa criar um ambiente de pessimismo que não interessa a nenhum de nós”. Admito que o exemplo soe um tanto extremo, mas, se ouvisse algo assim, minha reação, um tanto perplexa, seria “Ok, concordo, mas por que mesmo você está me dizendo isto”?
Foi assim que me senti quando a presidente, em discurso ao Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social, o popular “Conselhão”, um dos grandes monumentos nacionais ao desperdício de tempo e dinheiro, afirmou que a inflação estava controlada porque desaceleraria na segunda metade de 2013. Apenas se esqueceu de mencionar que não há quem tenha afirmado o contrário (basta checar o que vem dizendo a pesquisa Focus), assim como ninguém acredita que a Terra não gire ao redor do Sol. Neste aspecto, a declaração presidencial é de uma irrelevância atroz.
Por outro lado, reflete um equívoco persistente (e talvez intencional), associando o cumprimento da meta ao registro da inflação abaixo de 6,5% em dezembro de um ano qualquer. A meta, é sempre bom lembrar, ainda mais à luz de declarações como essa, é 4,5%, não 6,5%.
Ocorre que a inflação é uma variável não apenas caprichosa, mas que também reage de forma defasada às decisões de política. Alterações em taxas de juros tipicamente afetam a inflação cerca de seis trimestres à frente. Assim, ainda que o BC soubesse com precisão qual taxa de juros seria consistente com a meta e tomasse as medidas corretas para controlar a inflação, há todo tipo de eventos neste período (safras agrícolas melhores ou piores, flutuação de preços de petróleo, etc.) que poderiam afastar a inflação da meta.
Esta é a razão de ser do intervalo: acomodar eventuais desvios resultantes de eventos imprevisíveis; certamente não como justificativa para permitir que a inflação fique persistentemente próxima ao teto.
Na verdade, se levarmos em consideração tanto a questão das defasagens como a dificuldade de prever certos choques, mesmo no caso de um BC 100% comprometido com sua tarefa institucional, controlar a inflação não significa mantê-la o tempo inteiro no valor exato da meta, mas sim flutuando ao redor desta, de modo que, ao longo de vários anos, a inflação ficasse, em média, na meta.
Sob tais circunstâncias, não é necessária muita reflexão para concluir que a melhor aposta acerca da inflação futura passaria a ser a própria meta. O corolário de inflação controlada, portanto, são expectativas iguais à meta, refletindo a crença que eventuais desvios serão prontamente corrigidos.
De volta ao discurso presidencial, é claro que o exposto acima não descreve de forma alguma o que vem ocorrendo no país. Desde 2010 a inflação é (bastante) superior à meta (o desvio médio por ano foi de 1,6%), e, pior, espera-se que continue acima dela nos próximos anos: a inflação esperada entre 2014 e 2017 é, em média, 5,5% ao ano.
À luz destes desenvolvimentos, o que se espera da responsável pela política econômica não é a reafirmação do que já sabemos, mas sim o que será feito para trazer a inflação para o valor prometido à nação pelo próprio governo.
Neste aspecto a fala se encaixou bem no perfil do “Conselhão”: entre generalidades e a negação da realidade (o gasto federal, supostamente controlado, está no nível mais alto da história) nada foi dito que sinalizasse uma estratégia consistente para lidar com a inflação alta e o crescimento baixo.
Pelo contrário, incapaz de escapar das armadilhas ideológicas em que se meteu e pressionado pela queda de popularidade, a tendência é de isolamento crescente, uma espécie de “autismo econômico” em que a realidade tem que ser ignorada a todo custo. Serve para produzir discursos para o “Conselhão”; jamais para resolver um problema de verdade.