Nas eleições presidenciais de 1989, a primeira das cinco de que Lula participou, seu adversário maior era Fernando Collor. Sim, aquele mesmo. No debate da Globo, que antecedeu o segundo turno, Collor trouxe a público uma baixaria sórdida, envolvendo a mãe e a filha Lurian de Lula, atitude que serviu como ducha fria ao candidato petista. Lula, portanto, sabe bem como alguém se sente quando, candidato a cargo público, é atropelado por um adversário de baixo nível moral, do tipo mau caráter e sem escrúpulos, verndo sua família ser envolvida de forma tão vil. Fernando Collor acabou pagando um preço muito caro pela sua sordidez.
Portanto, tivesse Lula um pingo de dignidade e, certamente, na qualidade de presidente do país, se solidarizaria à agressão feita à Serra, pela violação criminosa do sigilo fiscal de Verônica Serra, sua filha. Mas, vejam bem, isto SE Lula tivesse um pingo de dignidade. Como não tem, e como o prejuízo está todo do outro lado do balcão, o que Lula fez? Simplesmente reagiu da forma mais destemperada e desequilibrada possível, ao ser perguntado por jornalistas, se Serra, conforme o próprio ex-governador lembrara pela manhã, o avisara, em janeiro passado, sobre a violação de sigilo fiscal de sua filha. Eis a declaração de alguém que esqueceu todos os limites do respeito e do decoro:
“Nosso adversário deveria procurar um novo argumento. Não é possível que possa pedir que eu censure a internet. Não posso fazê-lo. Ele não me alertou. Ele se queixou.”
“Sempre achei que a internet livre tem coisa extraordinariamente séria e coisa extraordinariamente leviana. Não tem nada demais o que a internet publicou sobre a filha de Serra. Há insinuações como há contra o presidente Lula, contra a família do presidente Lula, contra vocês jornalistas individualmente. Se escrevem alguma coisa que o internauta não gosta, tomam cacete o dia inteiro”.
“O Serra precisa saber uma coisa: eleição a gente ganha convencendo os eleitores a votar na gente. Não é tentando convencer a Justiça Eleitoral a impugnar a adversária. Isso já aconteceu em outros tempos, na ditadura militar. Na democracia, o senhor Serra que vá para rua, que melhore a qualidade de seu programa [de TV]”
“E eu não vou permitir que nenhuma futrica menor, porque não tem nenhuma acusação grave contra o Serra, tem aquelas coisas de internet, atrapalhe. O presidente da República tem coisa mais séria para cuidar do que as dores de cotovelo do Serra”.
Vamos por partes? Em primeiríssimo lugar José Serra não é adversário de Lula coisíssima nenhuma. Ele é adversário de Dilma Rousseff, que é a candidata governista que concorre com Serra à sucessão do próprio Lula.
Em segundo lugar, em sendo presidente da república, responsável, portanto, pela credibilidade e equilibrio das instituições do Estado brasileiro, em recebendo uma queixa, alerta, aviso, seja lá o nome que se queira dar, feito por parte do governandor da mais importante unidade federativa do país, de que dados fiscais de sua família estavam vazando para a internet, o mínimo que deveria ter feito seria , primeiro, desculpar-se pelo ocorrido, segundo, informar que tomaria providências para verificar o que de fato estaria ocorrendo, e terceiro, pediria ao governador discrição até que ele próprio, Lula, tivesse uma resposta para dar como retorno.
Isto é o que um presidente responsável, honesto, de bons princípios teria feito. Como Lula se considera dono do Brasil, e acha que nesta condição está acima de tudo, inclusive das leis, entende que, se está ruim para um adversário político, mesmo que este adversário represente o estado mais importante, culturalmente e economicamente, então que se DANE Futebol Clube!
Assim temos que, Serra, achando que lidava com um ser humano íntegro, que como presidente da república agiria da forma mais republicana possível, viu-se traído pela sua própria ilusão. Para Lula, estas coisas de honra, integridade, decência, não se ajustam nem ao seu comportamento tampouco ao seu vocabulário. Razão porque, o seu destempero, grosseria e baixaria, revelam bem o mau caráter de alguém cujo passado deveria torná-lo ao menos mais humano e condescente no exercício da função. Ou seja, como Collor o garroteou no pássado, e agora Lula o abraça como fiel aliado - maior indecência, impossível! - acha por bem aplicar sua vindita em quem sempre o respeitou como ser humano, e lhe fez as reverências a que Lula tem direito na qualidade de presidente da república.
Claro que a claque lambedora de botas, capachos ensaboados da lama mais degradante a que um ser humano pode se por, deve ter adorado, batido palmas e até festejado a "bravata do chefe". E de mais a mais, Serra ao queixar-se e alertá-lo sobre o que se passava, não pediu censura a quem quer que fosse. Simplesmente, como é de praxe, comunicou ao chefe da nação, um desvio de conduta em um dos órgãos da administração sob o comando do então presidente.
Quando Lula se lançou como líder sindical, não tinha em mente que, um dia no futuro, se tornaria presidente da república. E hoje, da mesma forma, não pode descortinar o que o futuro lhe reserva. Se todos colhemos o que plantamos, acho que a colheita de Lula vai minguar de vez, cedo ou tarde.
É indamissível a atitude e, principalmente, os termos com que Lula se dirigiu a Serra e ao episódio envolvendo a filha deste. É indecoroso um chefe da Nação dirigir-se naqueles termos a um cidadão brasileiro que, conforme atestam todos os dossiês criminosos costurados pelo susbmundo petista, tem a ficha e a cara limpas. Portanto, nada deve à sociedade, e a ela dedica sua vida para cumprir uma missão pública que Lula, ao menos, deveria respeitar. Na agressão a Serra, seja na forma seja nos termos em que se pronunciou, Lula esbofeteou o próprio povo paulistano que, no passado, soube acolher Lula e sua família, emigrados do Nordeste famélico, sem jamais faltar-lhe com respeito.
E, a considerar o destempero desproporcional, mais fica nítida a sensação de que, sim, há o dedo criminoso do Planalto nesta operação sórdida de violação de sigilos. E Deus queira, porque crime perfeito não há, que não se vá, mais adiante, ver esta tese triunfar. No passado recente, foi um simples Fiat Elba o estopim da queda de Fernando Collor. Mais recente ainda, foi um simples caseiro quem empurrou Antonio Palocci para fora do governo. Que Lula não brinque de Deus: pode ainda ter que pagar muito caro pelo desafio arrogante!