domingo, novembro 28, 2010

O dilema do câmbio

Adelson Elias Vasconcellos

Na edição de sexta-feira, 26, em sequência, transcrevemos aqui quatro artigos do Portal Exame e sobre um assunto que muitos falam, mas falam baixo demais com medo da contestação ou do patrulhamento. Na verdade, o tema, por mais incômodo que seja, mereceria de parte de todos, governo, empresários, economista e, especialmente dos sindicatos, um barulho maior.

Desde 2006, e já comentei sobre isto, o blog se posiciona contra a política cambial brasileira. E por quê? Porque ela vai contra o interesse maior do país. Ora, com as carências e diferenças sociais gritantes que temos, o que deveria mover nossas autoridades seria um projeto de país que favorecesse a geração de emprego e renda, facilitando não apenas o acesso e financiamento de novas tecnologias, mas, sobretudo, a abertura de novas empresas, e aqui, empresas de todos os portes e gêneros.

E, neste sentido, a política cambial, tanto quanto a política industrial – e aqui especificamente me refiro às linhas de financiamento do BNDES para internacionalização das empresas nacionais - seguem em sentido contrário. De um lado, a perversa combinação de juros altos com elevada carga tributária, com as pitadas de falta de investimentos públicos na qualificação do ensino e a recuperação urgente da infraestrutura, fazem com que o país conquiste as últimas colocações no ranking dos países mais competitivos, ou de melhor cenário para novos negócios.

O problema não está nas empresas, está no governo que prefere investir em si mesmo, do que nos demais setores da sociedade. Neste sentido, o governo atual incentivou e continua incentivando seu próprio gigantismo, ou aumentando a presença das atuais estatais na economia, ou criando novas, contrariando a receita de sucesso que o país experimentou na segunda metade dos anos 90. Colaboram, também, para a criação deste cenário ruim para os negócios, a lenta e gradual desativação das agências reguladoras, hoje tornadas apenas meros cabides de emprego dos agentes do poder e seus companheiros sindicalistas. Isto gera uma insegurança jurídica, afastando ainda mais investimentos produtivos.

Ocorre que, dada as opções exercidas pelo atual governo nos últimos dois anos, adicionado ao desespero de se tentar manter no poder a qualquer custo, o equilíbrio dos gastos públicos foi para o espaço. Só não se tornou visível este desequilíbrio graças aos malabarismos cometidos pela área econômica para maquiar os resultados. Mesmo agora, quando se percebe que a inflação tende a fugir do controle, já que em curva ascendente, a solução governista é expurgar do cálculo do índice os alimentos e combustíveis, o que, convenhamos, é um absurdo. Repeteco cretino da mesma tentativa feita pelo governo argentino e que levaram seu índice de preços a um total descrédito.

Como já dissemos aqui, o cenário da economia mundial, a partir da crise financeira iniciada em 2007, mudou completamente, e para pior. E, nesta mudança, deveria o governo ter procurado corrigir seu rumo, justamente para aproveitar as oportunidades de crescimento que toda a crise oportuniza. Como em time que está ganhando não se mexe, estamos deixando escapar a chance e, o que é pior, permitindo que a crise lá de fora invada o território das finanças públicas aqui dentro e as deteriore.

A questão cambial, que Lula, Mantega & Cia. insistem em culpar os Estados Unidos em alto e bom som, mas falam manso em relação à China, não nos afetaria tanto, tivéssemos, como disse, mudado os rumos da política econômica estatizante e gastadora que estamos adotando desde a saída de Antonio Palocci do comando do Ministério da Fazenda. Falta à Guido Mantega autoridade suficiente para se impor junto à Lula para demonstrar-lhe que certas medidas ferem e comprometem a estabilidade atual.

Ora, a raiz dos nossos dilemas atuais está aí localizada: políticas gastadoras. Não se tratam de investimentos, não, são muitas porcarias em que se torra dinheiro público sem necessidade, com nenhum retorno ou benefício. Neste sentido, e dado o objetivo traçado para 2010, ano eleitoral, o governo simplesmente perdeu o freio. Resultado: gasta mais do que arrecada e ainda incentiva a sociedade a consumir sem limites. Tudo bem que de um lado mantemos a economia aquecida, gerando emprego, mas há limite prá tudo. Sabemos que a produção local não tem capacidade suficiente para absorver tanto aquecimento, tanto assim, que os quase 8% de crescimento que se prevê para este ano, de alguma forma, precisarão ser contidos em 2011. Ora, se a procura é maior do que a oferta, temos a subida dos preços como consequência.

Para que tal não ocorra, até aqui, a valorização do real, incentivou um vertiginoso crescimento das importações. Resultado: por não se ter precavido a tempo, hoje as importações estão provocando a desindustrialização interna, com empresas ou fechando as portas em definitivo, ou simplesmente, deixando de produzir, para se tornarem importadoras de produtos chineses, principalmente. Inúmeros itens da nossa tradicional pauta de exportações de manufaturados e semimanufaturados, portanto, com maior valor agregado, há muito que perderam mercado lá fora. E o que fez o governo? Ao invés de incentivar e até proteger a produção local, manteve o mercado aquecido, porém, aberto demais, e passou a abrir linhas de crédito para empresas brasileiras abrirem negócios no exterior, ou seja, elas foram incentivadas pelo próprio governo a gerarem emprego e renda...lá fora, e não aqui, como seria de se esperar.

Se analisarmos bem o quadro presente, não será apenas ajuste fiscal duro e necessário que Dilma Rousseff precisará adotar já no início de seu mandato. Pela equação proposta pelo seu antecessor, Lula, não acredito que, no curto prazo, e sem que se abandone, mesmo que brevemente, o câmbio flutuante, iremos corrigir a rota. Os gastos estão elevados, certo? Porém, esta elevação de gastos correntes, com pessoal, por exemplo, continuarão crescendo pelo menos até 2012, dado os acordos coletivos em vigor. Para o próximo ano, há previsão de novas contratações pelo setor público, e aumentará a pressão do Legislativo e Judiciário por aumentos de seu pessoal já muito bem pagos. Os sindicatos pressionam por aumento maior do salário mínimo e das aposentadorias. Além disso, há um PAC empacado, se arrastando, mas já com compromissos financeiros elevados e Dilma anuncia um outro PAC, com metas bastante ambiciosas. Junte-se aí os investimentos indispensáveis para atender aos compromissos de Copa do Mundo e Olimpíadas, e vocês poderão perceber o quanto será penoso lidar com tantos apelos numa política de contração. Se o governo, de seu lado, não consegue se equilibrar em suas contas, vai continuar gerando déficits orçamentários que precisarão ser cobertos ou com mais endividamento ou elevação da já pesada carga tributária. Como a inflação tende a se manter fora da meta proposta, não há espaço para redução dos juros. Estes, por sua vez, por estarem no nível em que se encontram, continuarão atraindo dólares para o país, aumentando ainda a valorização da nossa moeda. Resultado: salvo nossas commodities, os produtos brasileiros continuarão perdendo mercado internacional e, internamente, continuarão sendo substituídos pelos importados, mais baratos e livres do custo Brasil que os tupiniquins precisam suportar. A consequência será o aumento constante dos déficits em conta corrente – hoje em torno dos R$ 50 bilhões -, e redução gradual do ainda superávit comercial.

Não há espaços, portanto, para redução da atual carga tributária, o governo não admite perda de receita, até pelo contrário. Não há espaço para redução dos juros sob pena e risco da inflação fugir ao controle. E como não se vê nem da parte do governo federal, nem dos estaduais, a menor intenção de se controlar os gastos, o quadro de deterioração tende a se manter. Somente com uma medida de choque via câmbio, conseguiremos lograr algum êxito no sentido de se mudar o cenário e garantir a atual estabilidade. Não há outra saída. Houvesse, e por certo, o próprio governo Lula já a teria adotado. Se não fez, não é porque não queira, é porque não há outros “arranjos” capazes de sustentar a atual política sem comprometer a estabilidade, tanto é assim, que no recente capítulo de capitalização da Petrobrás, o governo se valeu de uma despesa para gerar uma receita, o que, para o mercado, soou como sinal de alerta de que há um descontrole fiscal sendo maquiado.

Claro que a autoridade econômica não admitirá nunca o que pretende fazer com o câmbio. Isto não pode ser feito com pré-avisos. Percebendo a necessidade e o momento, a ação deve ser adotada de imediato. Contudo, não vejo, nem no cenário interno nem no externo, outra saída que não seja uma desvalorização do real. Claro que o governo tentará evitar este remédio o mais que puder, porque seria uma admissão de suas culpas nos últimos anos. E, bem sabemos, o que Lula jamais admite é ter errado a mão em algum momento de seu governo, mesmo que isto seja o mais óbvio.

Mas, nesta questão, é preciso escolher entre a manutenção da estabilidade tão duramente conquistada, e a vaidade pessoal de um governante sem princípios nem respeito pelo país que governa. Mesmo que Dilma mantenha todas as linhas e programas, ministros e auxiliares de seu antecessor, mesmo que tente ser apenas a presidente laranja do atual presidente, uma espécie de terceiro mandato com testa de ferro, não acredito que, em dado instante, não tentará fazer alguma coisa por si mesma. E, neste sentido, suas opções são rasas se pretende exercer seus quatros anos de governo sem ter que enfrentar crises internas. E, de alguma forma, terá que enfrentar o duro momento de se ver diante de uma medida que desejaria não precisar adotar, que é a desvalorização da moeda. Como o cenário externo não lhe oferece nenhuma perspectiva de melhoras no curto prazo, e internamente, é visível o quadro de desajuste econômico, precisará enfrentar as resistências e partir para ação mais enérgica. Somente assim poderá dizer que governa o país realmente. E, mesmo que de imediato se crie um clima de incertezas, se souber resistir, ainda poderá dedicar parte de seu mandato a acrescentar algo de positivo ao país que encontrou.

Lá em cima falei dos sindicatos. Pois bem, acredito que eles devam fazer valer o dinheiro público que Lula lhes concedeu, de forma gratuita: ao invés de ficarem brigando por aumento real do salário mínimo acima do que o governo pretende oferecer, deveriam é brigar pela manutenção dos empregos existentes. Tem muita empresa desempregando para não fechar, e tem muitas outras fechando por falta de condições de se manter. Algumas como a Phillips, por exemplo, preferem ir para China produzir lâmpadas e as exportar para o Brasil, do que se manter aqui dentro. Entendo que os sindicatos deveriam é preocupar-se mais em defender a manutenção dos atuais postos de trabalho dos trabalhadores em geral, do que na manutenção de seus cargos de confiança no poder.

Mantega ataca de novo

O Estado de São Paulo - Editorial

SÃO PAULO - Perigo à vista: o ministro Guido Mantega teve mais uma ideia. Agora ele propõe uma trapalhada para o próximo governo - usar um índice especial de inflação para baixar os juros mais velozmente. Se essa lambança for executada, as metas oficiais serão desmoralizadas, como ocorreu na Argentina, o combate à inflação será relaxado e toda a estratégia dos próximos quatro anos poderá ser prejudicada. Convidado pela presidente eleita para permanecer no posto, o ministro deu uma entrevista coletiva e prometeu uma gestão séria, renegando implicitamente seu currículo. A mudança foi desmentida rapidamente por ele mesmo.

A ideia é adotar um IPCA sem combustíveis e sem alimentos para servir de referência para a meta de inflação e para a política de juros. Mas o Banco Central (BC), o mercado financeiro e muitas consultorias já dispõem de índices desse tipo. O expurgo do índice permite obter o chamado núcleo de inflação. A exclusão dos itens mais instáveis ou das variações extremas pode ajudar na avaliação da tendência geral dos preços.

A técnica é usada em muitos países. O BC leva em conta esse tipo de informação ao fixar os juros. Mas não se baseia só nesses dados, porque sua missão é atingir um alvo definido em termos do IPCA cheio, isto é, com todos os componentes. Pode-se corrigir qualquer erro de avaliação num prazo curto, porque a política é revista a cada 45 dias. Tem havido muito mais acertos do que erros.

No Brasil, a maior parte dos preços flutua livremente. Uma alta sazonal ou acidental é compensada num prazo razoável por uma queda. Mas é perigoso apostar, sempre, no recuo dos preços de alimentos e de combustíveis. Pode haver longos períodos de alta, não apenas em consequência de mudanças nas condições de produção e de consumo, mas também de alterações financeiras. Produtos agrícolas, petróleo e outras commodities são objetos do jogo financeiro tanto quanto ações, títulos de crédito e moedas.

Núcleos de inflação podem dar informações importantes, quando avaliados com discernimento. Mas concentrar a atenção em dados como esses pode levar a resultados desastrosos. O exemplo mais evidente é o erro cometido pelo Federal Reserve, o banco central americano, ao manter os juros muito baixos por muito tempo. Os condutores da política levaram em conta um número muito restrito de preços, quando deveriam ter dado importância à especulação nos mercados de commodities. Da mesma forma, deveriam ter estado atentos à formação da enorme bolha no setor imobiliário.

O ministro Mantega parece não ter percebido ou interpretado corretamente esses fatos. Para produzir uma boa política monetária e financeira é preciso levar em conta um número maior - e não menor - de informações. O núcleo de inflação só é útil porque é um dado a mais, isto é, porque propicia uma perspectiva adicional para o exame do índice cheio. Não é bom por apresentar menos informações, mas por enriquecer o conjunto. Além disso, as pessoas pagam os preços da inflação cheia, não da expurgada, e um persistente erro de avaliação pode causar muito mal, especialmente aos pobres.

O ministro Mantega tem um longo currículo de trapalhadas e de mágicas desastrosas. Ele tem exercido o seu talento principalmente na tentativa de maquiar as contas do governo e, de um modo especial, o endividamento público. Se cuidasse melhor da política fiscal, contendo a gastança e preservando o Tesouro de operações promíscuas de financiamento, a economia seria mais saudável e seria mais fácil baixar os juros. O caminho é esse. A presidente eleita não deve maquiar a política de preços e de juros, mas promover com urgência o expurgo das más ideias.

Também deve recomendar boas maneiras a seu pessoal. Segundo o ministro Mantega, o economista Alexandre Tombini, escolhido para presidir o BC, "não vai titubear" quando tiver de prejudicar o setor financeiro, por ser funcionário público de carreira. O atual presidente do BC, Henrique Meirelles, dirigiu um banco privado e seu desempenho no governo é muito superior ao do ministro da Fazenda. Essa diferença, reconhecida internacionalmente, talvez explique a descortesia do ministro. Mas não a justifica.

Promessas de seriedade

O Estado de São Paulo

Se as promessas tiverem algum valor, a equipe econômica do próximo governo será parcimoniosa no gasto, preocupada com a eficiência e empenhada em aumentar a poupança pública, para elevar o investimento federal e dar mais força e mais espaço à iniciativa privada. Nisto se resumem os compromissos de austeridade anunciados pelos futuros ministros da Fazenda, Guido Mantega, e do Planejamento, Miriam Belchior, na primeira entrevista depois de confirmada sua escolha pela presidente eleita, Dilma Rousseff. Na mesma ocasião, o economista Alexandre Tombini, convidado para presidir o Banco Central (BC), defendeu o regime de metas de inflação e disse haver recebido a garantia de respeito à independência operacional da instituição. Ele ainda terá de mostrar na prática se dará continuidade ao estilo de política monetária dos últimos oito anos, mas seu currículo autoriza um crédito de confiança. Uma expectativa otimista é muito mais difícil no caso dos convidados para a Fazenda e para o Planejamento.

No governo há mais de quatro anos, o ministro Guido Mantega jamais se destacou por qualquer compromisso com a austeridade e com o uso eficiente e criterioso do dinheiro público. Para cumprir suas novas promessas, terá de renegar atos e palavras bem conhecidos. Durante sua gestão, o governo só produziu algum superávit primário - o dinheiro posto de lado para o pagamento de juros - porque a arrecadação cresceu ininterruptamente. Apesar disso, recorreu a artifícios para cumprir a meta. Neste ano, o resultado global só não foi pior graças a dividendos de empresas estatais e a um malabarismo contábil para converter em receita o aporte de capital à Petrobrás.

Seu currículo inclui a criação de um fundo soberano muito peculiar, alimentado com dinheiro de um Tesouro deficitário (o governo acumula déficits nominais, ano após ano, porque o superávit primário nem dá para cobrir o serviço da dívida). A proposta inicial - usar dólares da reserva - foi logo abandonada, porque a aplicação da reserva cambial é regulada por lei. Ele, aparentemente, não sabia disso.

Em mais de quatro anos ele nada fez para conter o inchaço da folha de salários e encargos e nunca se opôs às custosas conveniências político-eleitorais do presidente e do partido. Quando surgiu a crise, concedeu facilidades fiscais a alguns setores e passou recursos do Tesouro ao Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social para um programa de estímulo ao investimento. O programa deveria ter sido interrompido após alguns meses, mas foi mantido no ano seguinte e envolveu aportes de R$ 180 bilhões. O Grupo Petrobrás foi um dos principais beneficiários. O setor privado, o mais atingido pela crise, teve acesso bem mais limitado aos empréstimos.

Os gastos de custeio continuaram crescendo na crise e a retórica oficial incluiu também essa gastança no bolo da política anticíclica. Mas ações anticíclicas têm ida e volta. Não é o caso dessas despesas, na maior parte incomprimíveis.

Neste ano, o ministro Mantega defendeu os gastos federais ainda falando em combater a crise - terminada no ano passado. Além disso, negou qualquer relação entre a expansão da despesa pública e o aumento da inflação. Terá de renegar também essa conversa, se quiser levar adiante o discurso da seriedade.

Quanto à engenheira Miriam Belchior, escolhida para o Ministério do Planejamento, participou da estruturação do Bolsa-Família, um programa em geral bem-sucedido, e trabalhou com a ministra Dilma Rousseff na Casa Civil, como coordenadora do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). Deve ter sido a babá do programa, já que a ministra, segundo o presidente Lula, foi a mãe. Tem reputação de boa administradora, mas terá de provar suas qualidades mais uma vez, porque a gestão do PAC - um dos fracassos mais visíveis do atual governo - empobrece qualquer currículo. Ainda este mês o Tribunal de Contas chamou de precários os balanços do programa e cobrou clareza.

A futura ministra defendeu uma revisão dos gastos de custeio e falou em "fazer mais com menos". Para isso, será preciso renegar os critérios do atual governo e buscar eficiência - uma preocupação condenada como reacionária pelo lulismo.

Milagre brasileiro perdeu o brilho, diz Financial Times

Diogo Max, Portal Exame

Para o jornal britânico, aumento da inflação e contas públicas no azul por conta de uma "contabilidade criativa" são os motivos da perda do brilho

Fabio Rodrigues Pozzebom/AGÊNCIA BRASIL
A dupla Mantega-Tombini não agradou os mercados, diz o Financial Times

São Paulo - A indicação de Alexandre Tombini para a Presidência do Banco Central (BC) e a decisão de manter Guido Mantega no ministério da Fazenda fizeram com o que milagre brasileiro perdesse seu brilho. Essa é a opinião do Financial Times, um dos mais importantes jornais de negócios e economia.

O periódico inglês publicou nesta sexta-feira um editorial, em que lembra que a inflação já ultrapassou a meta de 4,5% e que as contas públicas só estão no azul por conta de uma espécie de “contabilidade criativa”.

O Financial Times ainda criticou as medidas para controlar a valorização do dólar, quando o governo decidiu aumentar o imposto sobre as transações financeiras para investidores estrangeiros.

“Mantega prometeu cortes de gastos e Tombini acrescentou que o Banco Central terá plena autonomia. No entanto, os mercados não estão convencidos”, diz o Financial Times, que enxerga uma série de contradições nos “barulhos” da nova equipe econômica.

“Mantega diz que o salário mínimo não vai subir mais do que inflação, mas Dilma Rousseff anunciou que vai”, exemplifica o jornal. “Outra é a freqüência que a equipe econômica, em sua primeira entrevista coletiva, falava a frase marcante: ‘Dilma disse que’”, ironiza o jornal britânico.

O Financial Times lembra que já está na hora de a presidente eleita tomar as rédeas do seu governo. “Dado que a “política de coordenação” é novo mantra do governo dela [Dilma Rousseff], está na hora de Dilma Rousseff começar a coordena, em um modo coordenado”, conclui o jornal.

Militância digital

Dora Kramer - O Estado de São Paulo

O presidente Luiz Inácio da Silva convida quem quiser para suas entrevistas individuais ou coletivas. Do mesmo modo, vê, ouve ou lê o que é dito quem quer.

Portanto, o encontro que reuniu alguns autores de blogs para entrevistar o presidente da República não se pode dizer que tenha pecado pelo excesso de governismo. Inclusive porque ninguém é obrigado a ter senso crítico em relação a pessoas, objetos ou situações que lhe sabem bem ao paladar, à visão, ao tato e ao olfato.

O Palácio do Planalto e Lula resolveram retribuir os serviços prestados por um grupo de "blogueiros progressistas" (o pressuposto é que os demais sejam reacionários), ativistas da campanha de Dilma Rousseff e não seria de esperar outra atitude que não a da benevolência.

De todo modo, chamou atenção o entusiasmo. Na saudação ao "primeiro presidente do Brasil a receber representantes da blogosfera" - como se não fosse ele o primeiro a conviver com a modalidade -, no silêncio reverencial diante de respostas quilométricas e/ou incongruentes, nas gargalhadas cúmplices, na docilidade nas repetidas referências à "imprensa golpista" ou "velha mídia".

Nas entrevistas tradicionais, em que não há seleção ideológica, não se vê, por exemplo, o entrevistado precisar corrigir o entrevistador que estranha o fato de as indicações ao Supremo Tribunal Federal não terem deixado a Corte com "a cara do governo Lula".

"Graças a Deus o Supremo não ficou com a cara do governo", respondeu o presidente a um rapaz que se identificou como representantes de um "blog jurídico", ensinando-lhe, em seguida, algo sobre a independência dos poderes inerente à República.

Fora isso, os autodenominados "blogueiros progressistas" passaram batidos por repetidas afirmações de Lula de que não fazia ideia das realizações de seu governo em diversas áreas: comunicações, legislação trabalhista e direitos humanos.

O presidente, depois de oito anos de governo, disse que só teria a real noção de suas realizações depois que "desencarnasse" da Presidência. Pôde dizer sem ser contestado que o ex-diretor da ABIN, Paulo Lacerda, deixou o governo e a PF porque "estava na hora de sair". A ninguém ocorreu lembrar-lhe que Paulo Lacerda foi mandado para Portugal em meio ao escândalo dos grampos telefônicos ilegais, por sugestão do ministro da Defesa, Nelson Jobim.

Quando afirmou que a sociedade ao controle social da mídia, defendendo iniciativas como a Ancinav e o Conselho Nacional de Jornalismo, não precisou explicar a razão de seu governo ter recuado de todas elas. Inclusive retirando propostas semelhantes do Plano Nacional de Direito Humanos 3.

Dissertou sobre enormes resistências à reforma política sem que lhe perguntassem quais são elas. Não foi questionado sobre a razão de ter aprofundado velhas práticas contra as quais agora promete lutar ao "desencarnar" da Presidência.

Esteve à vontade para ressaltar sua altivez em reuniões internacionais (permanecer sentado, enquanto os outros chefes de Estado se levantavam para receber George W. Bush), e relatar a amargura por ligações feitas entre o desastre da TAM e a crise aérea de 2006/2007.

Tão à vontade que, ao repetir que a agressão de petistas ao então candidato José Serra foi uma "farsa" - na abertura havia provocado muitos risos ao "ameaçar" os blogueiros com "bolinhas de papel" - deu-se ao desfrute do machismo consentido. Na ocasião, contou, resolveu responder no lugar de Dilma, comparando ao adversário ao goleiro chileno Rojas, "porque ela é mulher e não entende nada de futebol".

Cada um fala com quem quer, mas respeito, inclusive aos fatos, é bom e todo mundo gosta.

Expurgo de preços

Celso Ming - O Estado de São Paulo

Confirmado no cargo, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, está empenhado agora em abrir caminho para a derrubada dos juros, projeto já anunciado pela presidente eleita, Dilma Rousseff. Ela pretende chegar aos 2% de juros reais ao ano, em quatro anos.

Mantega avisou que sua intenção é expurgar do índice oficial do custo de vida, o IPCA, as variações de preços dos alimentos e dos combustíveis. Não se trata de manipulação; trata-se de usar o conceito de núcleo de inflação para definição da política de juros. Além disso, o ministro quer que a economia se liberte dos indexadores de preços, ou seja, dos reajustes automáticos previstos em lei ou nos contratos.

Fácil entender a intenção dele. Os juros precisam subir quando a inflação tende a escapar para acima da meta; e tendem a cair quando a inflação fica abaixo. Livre de alguns dos fatores que mais pressionam os preços, o medidor de inflação concorreria para uma queda mais acentuada dos juros.

Antes de qualquer outra consideração, convém lembrar que essas ideias são, em princípio, corretas. Não faz sentido usar o medidor oficial de inflação que vem normalmente inchado com altas ou baixas de preços que nada têm a ver com o volume de dinheiro na economia ou o nível dos juros básicos. De mais a mais, se o feijão preto ou a batatinha ficaram caros demais em consequência de fortes secas ou do excesso de chuvas, o próprio consumidor se encarrega de encher a panela com outros alimentos.

Vistas essas coisas mais tecnicamente, o ministro Mantega está propondo que, para efeito de definição da política monetária, se aposente o índice cheio do custo de vida e seja adotado o conceito de núcleo de inflação (core inflation) assim expurgado, como operam alguns dos principais bancos centrais do mundo.

Três são os riscos de se adotar atabalhoadamente esse critério. O primeiro está em meter na vala comum tanto variações episódicas como crônicas de preços. Alimentos e petróleo são dois itens que tendem a encarecer dentro de alguns anos em decorrência do aumento do consumo internacional combinado com insuficiência de oferta e não de fatores conjunturais. Nessas condições, expurgar toda e qualquer variação de preços dos alimentos e combustíveis introduziria graves distorções nos índices.

O segundo risco é o de introduzir esse novo critério de maneira arbitrária, sem definir previamente uma metodologia transparente. Se for assim, ficará minada a credibilidade da condução isenta da política de juros junto aos marcadores de preços e não se poderá pretender um saudável gerenciamento das expectativas.

O terceiro risco é o de que essa mudança não passe de um truque grosseiro destinado a derrubar o juro à força de mandracarias como as que estão sendo adotadas pelo governo Lula no cálculo do superávit primário das contas públicas.

O sistema de indexação é distorção do entulho inflacionário. É o que pode ser dito da maior parte dos preços administrados, que correspondem a 30% da composição do custo de vida e evoluem de maneira automática, independentemente do tamanho dos juros ou da evolução da oferta e da procura. Não faz sentido usar o IGP-M, um índice sobrecarregado de preços do mercado atacadista, para reajustar aluguéis, tarifas e prestações de dívidas.

Se tais mudanças forem impostas arbitrariamente, tudo o que se conseguirá será a desmoralização da política de metas.

Aí está o tranco ocorrido em novembro no Índice Bovespa. É o fator

Irlanda e o drama do euro derrubando as cotações das principais ações negociadas na Bolsa de São Paulo.

Desindustrialização?
"Num país que importa US$ 125 bilhões em máquinas e equipamentos, em que o desemprego cai a 6,1% e a indústria produz a pleno vapor com resultados trimestrais apontando recordes de rentabilidade, falar em desindustrialização é um paradoxo'', afirmou ontem o ministro do Desenvolvimento, Miguel Jorge. Mais que paradoxo, é um despropósito.

FHC: 'Dilma não vai poder governar no piloto automático'

Portal Exame com informações da Agência Estado

Segundo ele, quem administrou o País "no piloto automático" foi Lula

Mark Wilson/Getty Images
"vamos ver o que ela [Dilma] vai poder fazer"

São Paulo - O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso avaliou hoje que a presidente eleita, Dilma Rousseff, não vai poder governar "no piloto automático" como pôde governar, segundo ele, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Em seminário promovido pela TV Cultura, na capital paulista, o ex-presidente afirmou que a situação econômica nacional mudou e que a presidente eleita terá de tomar medidas mais duras, que vão afetar mais interesses.

"Ela não vai poder governar no piloto automático como o presidente Lula pôde governar", disse. "Se não há vento de proa ainda, não há vento de cauda mais", metaforizou. Além da diferença de conjuntura econômica, Dilma tem, segundo FHC, condições e características distintas do presidente Lula. "Ele (Lula) tinha um predomínio maior do partido e uma capacidade de relacionamento direto com a população. Ela não tem estas características objetivamente", comparou.

O ex-presidente alegou ainda que Dilma tem carreira administrativa, mas não tem muita experiência em gestão. "Vamos ver como ela vai enfrentar estes problemas todos", disse. "Vamos ver o que ela vai poder fazer."

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso:

Pressão inflacionária e real forte desafiam nova equipe econômica, diz ‘Economist’

BBC Brasil

Decisão sobre taxa de juros testará nova equipe

A valorização do real e a expectativa do mercado de que a inflação brasileira possa ultrapassar 6,5% colocam pressão sobre a nova equipe econômica anunciada nesta quarta-feira, diz a revista Economist em sua edição mais recente.

A meta de inflação do governo para 2010 é de 4,5%, com uma tolerância de 2 pontos percentuais para cima e para baixo.

A reportagem afirma que os gastos do governo federal aumentaram 27% no ano até agora, “sob a justificativa de (serem) pró-desenvolvimento”, mas lembra que Dilma prometeu cortar impostos, controlar os gastos públicos e domar a pressão inflacionária.

“O excesso de gastos causou superaquecimento na economia, alimentando a inflação. (...) Um primeiro teste para Alexandre Tombini (escolhido pela presidente eleita Dilma Rousseff para o Banco Central) após a posse será quanto a se aumentará as taxas de juros para conter a inflação”, diz a revista.

Como Dilma declarou que almeja uma taxa real de juros menor que a atual, “fazer isso sem ultrapassar a meta de inflação vai exigir uma política fiscal muito mais apertada”, analisa a Economist.

O outro grande desafio observado pela revista é o do conter a valorização do real, “impulsionada em parte pelas altas taxas de juros” e num momento em que a política monetária é objeto de discussão internacional.

A Economist lembra que foi o próprio ministro da Fazenda, Guido Mantega, que cunhou o termo “guerra cambial” e criticou a política monetária adotada pelos Estados Unidos por “direcionar dinheiro para lugares como o Brasil” – política que tende a valorizar a moeda brasileira ainda mais.

Desconfiança
Mas a revista faz uma ressalta aos desafios brasileiros: “Como tanto a inflação quanto o real forte são causados pelo crescimento, (ambos) são o tipo de problema que muitos outros governos adorariam ter”.

A revista lembra que o mercado viu inicialmente com desconfiança a primeira eleição de Lula, em 2002, mas o presidente “acalmou os nervos” dos investidores após as nomeações de Henrique Meirelles para o Banco Central e Antonio Palocci para a Fazenda.

“Acima de tudo, (Dilma) Rousseff certamente estará consciente do exemplo de Lula, que assumiu enfrentando dúvidas muito mais sérias quanto a sua retidão fiscal – e (apesar disso) está deixando o cargo como o presidente mais popular da história do país”, diz a revista.

Panamericano afeta outros bancos

Leandro Modé, de O Estado de São Paulo

Bancos médios e pequenos sofrem com custo de captação mais alto, ações desvalorizadas e preço de títulos de dívida no exterior em queda

SÃO PAULO - Os bancos de pequeno e médio porte ainda sofrem os efeitos dos problemas no Panamericano. Custo de captação mais alto, ações desvalorizadas e preço de títulos de dívida emitidos no exterior em queda estão entre os indicadores que mostram que a confiança do investidor nesse segmento ainda não foi plenamente restaurada. Especialistas avaliam, no entanto, que a confiança será recuperada em breve. Argumentam, sobretudo, que o Panamericano foi um caso isolado.

"Sem dúvida, há uma aversão a risco maior no mercado como um todo por causa do choque do Panamericano", afirma o diretor executivo e de Relações com Investidores do Banco Daycoval, Morris Dayan, recorrendo a um jargão da área financeira que indica um momento de cautela. Segundo a mais recente estatística do Banco Central (BC), o Daycoval é o 30.º maior banco brasileiro pelo critério de ativos (R$ 8,7 bilhões em junho de 2010).

"Os preços deram uma piorada natural, mas acreditamos que, entre duas e quatro semanas, o mercado estará normalizado", completa o presidente da Associação Brasileira de Bancos (ABBC, entidade que reúne instituições de menor porte), Renato Oliva.

O impacto mais forte, até o momento, não se deu apenas no custo de captação via Certificado de Depósito Bancário (CDB), como muitos esperavam. Ocorreu também na venda de carteiras de crédito para instituições de maior porte.

Bancões.
Um banqueiro que pediu para não ser identificado explica que, antes do caso Panamericano, os bancões (como Itaú, Bradesco, Santander e Banco do Brasil) costumavam cobrar CDI (taxa de juros de referência do mercado financeiro) mais 4% ao ano para comprar carteiras de instituições de menor porte. Agora, não o fazem por menos de CDI mais 7,5% ao ano.

Não é difícil explicar por quê. As investigações do Banco Central (BC) para apurar o rombo de R$ 2,5 bilhões no Panamericano apontam para problemas na contabilização das carteiras de crédito cedidas a outras instituições. Ou seja, o negócio ficou mais arriscado. Se tem mais risco, custa mais caro.

Os ex-diretores do banco de Silvio Santos vendiam algumas dessas carteiras para outras instituições, mas não as tiravam do balanço. Continuavam computando como do Panamericano ativos que já haviam sido passados para outras instituições, inflando os resultados do banco.

No caso dos CDBs, Oliva, que também preside o Banco Cacique, diz que há uma tentativa de reajuste por parte dos investidores. Na média, afirma, os bancos menores costumavam pagar entre 105% e 107% do CDI para captar dinheiro via CDB. "Muitos investidores estão querendo levar para a casa de 110%, mas a aceitação desse valor depende da necessidade de recursos de cada tomador", observa.

Riscos.
Outro termômetro que mede a disposição dos investidores em assumir o risco de aplicar nos bancos menores é a taxa de retorno embutida em papéis vendidos por essas instituições no mercado internacional. Nesse quesito, um dos que mais sofreram até agora foi o BMG (especializado em crédito consignado em folha de pagamento).

A taxa de retorno (yield, em inglês) de papéis do banco negociados no exterior saiu de 7,4% ao ano no fim de outubro para 8,5% logo depois que o rombo do Panamericano foi anunciado, na segunda semana de novembro. Quinta-feira, estava em 8,4%. Esses porcentuais são definidos com base no preço do papel. Se o preço cai (por demanda menor), o rendimento (fixo, determinado por contrato) aumenta. Se sobe o preço, ocorre o oposto - a remuneração cai.

Por fim, as ações de bancos - não apenas dos pequenos, diga-se - ainda não se recuperaram do baque do Panamericano. Entre o início de novembro e sexta-feira, os papéis do Sofisa, por exemplo, perderam 7%. Os do Daycoval, 4,49% e os do Bicbanco, 5,77%. Em igual período, as ações do Itaú se desvalorizaram 3,59%, as do Bradesco, 2,33%, e as do Banco do Brasil, 0,67%.

O analista de instituições financeiras da Austin Rating, Luís Miguel Santacreu, pondera que os efeitos negativos foram potencializados pela piora do cenário internacional - em decorrência da crise da Irlanda e das ameaças que pairam sobre Portugal e Espanha.

Investigações.
Ainda assim, reconhece que os investidores levarão um tempo para absorver o golpe do Panamericano. A situação só ficará realmente clara, argumenta, quando o tamanho do rombo - e sua origem - forem finalmente conhecidos. O BC, o Ministério Público e a Polícia Federal investigam o caso.

Dayan, do Daycoval, vai na mesma linha. Para ele, a tensão só se dissipará de vez quando o balanço do 3.º trimestre do Panamericano for divulgado.

Os números devem revelar o tamanho exato do buraco. A nova diretoria do Panamericano promete divulgar o balanço até o próximo dia 15.

A escolha para o BC

O Estado de São Paulo

Ao convidar o economista Alexandre Tombini para presidir o Banco Central (BC), a presidente eleita, Dilma Rousseff, mandou um recado tranquilizador não só aos mercados, mas a todos os cidadãos preocupados com a estabilidade econômica e os interesses nacionais de longo prazo. Tombini é um veterano funcionário do BC e um dos formuladores do regime de metas de inflação, adotado em 1999. É diretor de Normas e Organização do Sistema Financeiro e membro do Comitê de Política Monetária (Copom), órgão responsável pela política de juros e pela estratégia de contenção dos preços. A escolha foi interpretada no mercado financeiro como um compromisso de continuidade na administração da moeda. Foi entendida, também, como reafirmação do respeito à autonomia operacional do BC.

Houve tensão no mercado antes de confirmar-se o convite a Tombini. Durante dias, o falatório sobre a escolha para o BC teve um único mote. O atual presidente, Henrique Meirelles, teria imposto, como condição para sua permanência, o respeito à autonomia da instituição, mantida, com resultados excelentes, nos últimos oito anos. O relevante não era saber se Meirelles havia imposto essa condição ou se foi mal interpretado. O mais importante era conhecer a disposição da presidente eleita. Ela pretenderia, afinal, intervir na fixação dos juros, atendendo aos próprios impulsos, às suas conveniências políticas e às pressões dos grupos mais influentes?

Haveria menos temores e dúvidas, se o governo petista houvesse apoiado o projeto de autonomia formal do BC. Essa ideia, formulada na gestão de Fernando Henrique Cardoso, foi sempre rejeitada pelo presidente Lula e por seus companheiros, incluída a ministra Dilma Rousseff. Ela manteve sua opinião na campanha eleitoral, embora prometendo, ocasionalmente, respeitar a autonomia de fato do BC. Mas nunca renegou claramente as bandeiras mais irresponsáveis de seu partido.

A oposição à independência operacional do BC foi parte da oposição à proposta mais ampla de autonomia para as agências de regulação. Mas houve uma diferença: o governo respeitou o Copom, enquanto enfraqueceu e aparelhou as agências. Essas foram desmoralizadas, enquanto o governo permitiu o livre funcionamento de um dos órgãos mais eficientes - se não o mais eficiente - da administração pública brasileira.

Isso facilitou o controle da inflação e o crescimento do salário real: os aumentos nominais foram protegidos da erosão causada pela alta de preços. A reeleição do presidente Lula em 2006 foi amplamente favorecida por esse fator.

O sucesso econômico dos últimos anos teria sido impossível sem a segurança propiciada pela política anti-inflacionária e pelo câmbio flutuante. A valorização cambial, um inconveniente para as empresas brasileiras, foi em parte uma consequência da melhora dos fundamentos econômicos. Um BC eficiente foi capaz de proporcionar um apoio precioso às empresas no começo da crise, em 2008, quando o crédito externo escasseou.

A presidente eleita só pode falar de uma herança bendita por causa da estabilidade proporcionada por um BC capaz de resistir a pressões e livre do peso do aparelhamento e do loteamento de cargos. Mas receberá, também, uma herança indesejável, produzida pela irresponsabilidade cada vez mais aberta na gestão das finanças públicas. Encontrará uma folha de salários inflada, além de uma dívida bruta aumentada por decisões irresponsáveis, como a de envolver o Tesouro no financiamento subsidiado a empresas. Se quiser ampliar essa herança nada bendita, contará com a obediência do ministro da Fazenda, recomendado pelo presidente Lula e por ela aceito sem hesitação aparente.

Se continuarem as atuais pressões inflacionárias, a autonomia do BC será testada já no primeiro ano de governo. A presidente Dilma Rousseff poderá mostrar, na prática, se aceitará um BC empenhado na missão central de combater a inflação ou se atenderá aos interesses de quem prefere uma política monetária permissiva e "desenvolvimentista". Nesta hipótese, será aplaudida pelos habituais beneficiários dos governos frouxos.

O inimigo agora é o mesmo

Guilherme Fiuza, O Globo

O governador do Rio declarou que os traficantes estão desesperados. Enquanto isso, o porta-voz da Polícia Militar orientava a população a manter a calma durante os ataques da bandidagem, explicando que é melhor perder o patrimônio do que a vida. E assim, com os bandidos em pânico e a população em paz, o Rio de Janeiro e o Brasil celebrarão mais uma vitória dos seus Napoleões de hospício contra o crime.

Foram décadas de investimento público na formação do exército de marginais. Proibição de drogas altamente rentáveis, tolerância populista aos territórios das “bocas de fumo”, polícia corrupta garantindo o ir e vir da cocaína e dos fuzis, governantes fazendo acordos tácitos com chefes de morro em nome da paz e dos votos. De repente, as autoridades resolvem melar o jogo — ou a parte mais visível dele.

A ocupação policial de favelas, enxotando traficantes, foi uma medida ousada. Só faltou combinar com a indústria da delinquência, alimentada a pão-de-ló por tanto tempo.

Para o público, que se sente vingado pelo Capitão Nascimento quando ele espanca um político na tela do cinema, está tudo OK. As coisas são simples assim. O ideal seria que Wagner Moura assumisse o lugar do secretário Beltrame e acabasse de vez com a raça dos vilões — cuja vocação é essa mesma, apanhar.

O problema é que na vida real o roteiro é diferente. Não basta dizer que o inimigo agora é outro e ensinar o pessoal a detestar as milícias enquanto come pipoca. O inimigo agora é o mesmo — exatamente aquele que o poder público cultivou carinhosamente por uns 30 anos, com a hipocrisia bilionária das drogas proibidas e da inundação das favelas com armamento de última geração (que ninguém sabe, ninguém viu por onde passou).

Uma indústria robusta, que teve até blindagem ideológica: a claque do Capitão Nascimento chegou a apontar, como vilão da violência urbana, o maconheiro do Posto Nove.

Até Michael Jackson pediu autorização ao tráfico do Morro Dona Marta para filmar seu clipe mundial. O Rio de Janeiro e o Brasil assistiram, consentiram, dançaram conforme a música. O poder marginal virou uma instituição em solo carioca.

Na dinastia Garotinho, o antropólogo Luiz Eduardo Soares tentou depurar a polícia e quebrar a espinha dessa indústria. Foi expelido. Seu pecado: atacar a cadeia de complacências jamais quebrada por qualquer governo do Rio ou de Brasília.

De repente, como no cinema, vem a ordem: vamos invadir. Um ato heroico do governador Sérgio Cabral e de seu respeitável secretário de Segurança. Apenas um ato heroico.

Quem quebrou a espinha da indústria “Drogas & Armas S.A.”? Quem asfixiou seu poder de fogo (econômico e bélico)? Quem interveio para valer nas polícias fluminenses, madrinhas e sócias da firma? Não se tem notícias. Com quantos soldados confiáveis se finca UPPs suficientes para empurrar o poder marginal sabe-se lá para onde? Melhor convocar o exército chinês.

As autoridades do Rio de Janeiro iniciaram, com amplo respaldo do eleitorado, uma guerra que não sabem como vai terminar.

Foi interessante ver alguns morros libertados do tráfico. Não foi interessante ver a proliferação de arrastões em áreas nobres e relativamente tranquilas da cidade. O que é pior?

No cardápio das escolhas de Sofia, surge a onda de atentados. Quem já foi arrancado de seu carro para não tostar junto com o patrimônio não está achando a menor graça nesse “Tropa de Elite 3”. Qual é o final possível desse filme?

O Bope vai tomar a Rocinha numa batalha sangrenta e ficar lá para sempre? O tráfico, conformado, vai desistir dos territórios e das armas e se mudar pacificamente para a internet? Mais fácil o Rio virar Bagdá.

Não se combate um sistema criminoso enraizado no Estado com um punhado de operações policiais estoicas. Na Itália, a operação Mãos Limpas parou o país. No Brasil, o governo federal sequer se envolve. No máximo, tem espasmos de solidariedade e empresta umas tropas para o teatro de operações.

A pouco mais de um mês de sua posse, a presidente eleita não dá uma palavra sobre a guerra. Parece estar preparando a transição para governar a Noruega.

Possivelmente Dilma Rousseff esteja sendo orientada por seus marqueteiros a ficar longe das chamas do Rio. É o que os especialistas chamam de “evitar o desgaste”. Desgaste mesmo é entrar num ônibus que pode virar um microondas na próxima esquina. Mas esse calor não chega até Brasília.

Os estrategistas do novo governo estão muito ocupados com temas mais urgentes, como a cota de mulheres no ministério. O show tem que continuar (com CPMF, que ninguém é de ferro).

Enquanto isso, o Rio se firma como capital nacional de um flagelo internacional, torcendo pela TV para que o Capitão Nascimento apareça no “Jornal Nacional” enxotando todos os bandidos da tela.

Quem sabe o super-homem não aparece também, com um plano nacional de segurança pública?

O preconceito é burro e emburrece

Carlos Brickmann - Do Observatório Da Imprensa

Numa história em quadrinhos clássica, internacionalmente premiada, Maurício de Souza mostra Cebolinha pintado de verde. É o mesmo Cebolinha de sempre, com a mesma roupa, o mesmo cabelo, o mesmo medo da Mônica, a mesma troca de letras nas palavras, o mesmo gosto pelo futebol, a mesma vontade de envolver o amigo Cascão em seus planos infalíveis para tornar-se o dono da rua.

Mas não era possível: quando viam Cebolinha de outra cor, seus amigos se escondiam, fugiam, não queriam jogar bola, não queriam falar de planos. Queriam apenas ver-se longe daquele ser estranho - que, de estranho, só tinha a cor diferente da habitual.

Burros, né? No entanto, o preconceito existe. Existe preconceito racial, existe preconceito social, existe preconceito de cor, existe agora preconceito geográfico (aliás, não existe, ou só existe para quem é burro: os empresários do Nordeste continuam negociando com os empresários do Sul, os banqueiros de uma região procuram expandir-se para outra; não há intelectual sulista que se preze que tenha deixado de ler Gilberto Freyre e não se delicie com Ariano Suassuna, não há um intelectual nordestino que se preze que não tenha lido de Monteiro Lobato a Fernando Henrique, passando por Sérgio Buarque de Holanda -cuja família, aliás, tem origem em Pernambuco- não há paulista, paranaense, barriga-verde ou gaúcho que não queira passar férias no Nordeste, há raros nordestinos que não têm parentes em São Paulo). O pior do preconceito, entretanto, é o apoio a ele de muitos meios de comunicação: é a tomada de posição antialguma coisa com base em discriminações partidárias, geográficas, políticas ou de comportamento.

Há, por exemplo, uma certa proteção da imprensa a jovens bem-postos que, gritando slogans homofóbicos, agridem pessoas e as ferem seriamente. No caso da avenida Paulista, em que cidadãos pacíficos foram atacados com lâmpadas fluorescentes (além de cortantes, venenosas), pontapés e socos, todos os meios de comunicação informaram que os agressores estudavam em escolas particulares da região. Qual escola, ou quais escolas? No fim, meio a fórceps, soube-se que pelo menos um deles tinha sido expulso há tempos de uma escola conhecida, exatamente por seu comportamento agressivo. Mas, neste momento, onde estaria estudando? Como serão seus colegas? Como é tratada, ali, na escola que hoje frequenta, a questão do preconceito?

Há certo encorajamento, especialmente por jornalistas que perderam posições nas empresas e se dedicaram à Internet, ao preconceito contra elites e contra São Paulo; esse encorajamento se repete em veículos impressos, como o que se refere àquela idiota, que divulgou em seu twitter ataques a nordestinos, como "a paulista". E não houve qualquer pressão da imprensa sobre a Polícia para que investigasse quem é que, também em mensagens pelo twitter, propunha que um atirador de elite alvejasse a cabeça de um candidato à Presidência da República.

O papel dos meios de comunicação é, sem dúvida, relatar os fatos - mas sem maximizá-los, sem incentivá-los. E, se é para tomar posição, que seja a posição do bem, de luta contra os preconceitos em geral. Caso o veículo seja favorável ao mal, aos preconceitos, está protegido pela liberdade de imprensa; mas todos saberão o que é que realmente defende. O que não se pode é tolerar que, fingindo combater preconceitos, órgãos de comunicação incentivem os preconceituosos de seu lado enquanto condenam apenas os adversários. Como disse certa vez John dos Passos, que não o convidassem para condenar meia guerra; que se unissem a ele para condenar a guerra inteira.

O Rio em polvorosa — e Lula quietinho

Ricardo Setti, Veja online

30 pessoas mortas, veículos incendiados, arrastões: Lula silenciou sobre a baderna criminosa no Rio de Janeiro durante cinco longos dias



O presidente Lula passou os últimos 8 anos fazendo pelo menos um discurso por dia.

Ele falou e fala sobre todos os assuntos que lhe vêm à cabeça, entenda o não do riscado.

Pois bem, o Rio de Janeiro, segunda maior cidade e cartão postal do Brasil, está imerso numa onda de baderna criminosa desde domingo.

E o presidente, até agora há pouco, não havia dito uma só palavra sobre o assunto. Nem mesmo aos “blogueiros progressistas” que o entrevistaram na quarta, 25. Aliás, nenhum deles perguntou nada ao presidente sobre o assunto.

Hoje, em Ribeirão Preto (SP), a uma segura distância dos acontecimentos, o presidente contou que tem conversado com o governador Sérgio Cabral e que o governo federal fará “o necessário” para que “as pessoas de bem derrotem aqueles que querem viver na marginalidade”.

Depois de quatro dias em silêncio e de lançar essas palavras ao vento — onde estão os discursos candentes, onde está a determinação férrea de combater os criminosos? — Lula continua devendo aos cariocas, se não uma visita de solidariedade, pelo menos uma palavrinha de alento.

Poderia ser, por exemplo, um discurso assegurando aos cariocas e ao mundo que o Rio está, sim, em perfeitas condições de segurança para a Copa do Mundo de 2014.

Individualismo, sim; sociopatia, não!

Rodrigo Constantino, Instituto Millenium

Cada indivíduo deve ser um fim em si mesmo. Nas palavras de Kant, “ninguém poderá obrigar-me a ser feliz à sua maneira”. Esta tem sido a máxima dos liberais desde então, em contraposição aos coletivistas, que colocam algum coletivo qualquer, seja raça, nação, ou classe, como a finalidade nobre, transformando indivíduos em simples meios sacrificáveis.

Uma das grandes defensoras do individualismo foi Ayn Rand, cuja novela “A Revolta de Atlas” apresenta seu arquétipo de super-homem, John Galt. A frase em destaque no rancho de Galt resume bem sua filosofia: “Juro pela minha vida e meu amor por ela que nunca vou viver em função de outro homem, nem pedir a outro homem que viva em minha função”. Sem dúvida, trata-se de um individualismo exacerbado, mas compreensível como antídoto de uma individualista radical que fora vítima da mais nefasta experiência coletivista: a União Soviética.

Na novela anterior, “A Nascente”, Rand já esboçara este perfil de herói por meio de Howard Roark. Em determinada passagem, o vilão Ellsworth Toohey, um coletivista invejoso, quer saber o que Roark pensa dele, após um de seus golpes bem-sucedidos contra Roark. Este se limita a responder: “Eu não penso em você”. A mais completa indiferença frente ao mal existente na humanidade. Eis uma meta interessante. Mas digna somente dos deuses. Tanto que a própria Ayn Rand, de carne e osso, não conseguia ser indiferente, tendo que atacar seus inimigos através de suas novelas. Na fantasia, ela fugiu para seu paraíso, um lugar onde somente os melhores – todos com os mesmos valores e crenças – viviam. Narciso acha feio o que não é espelho.

A verdade é que Aristóteles já havia percebido que o homem é um “animal social”. Quem não é impelido a estar com outros homens, dizia ele, “ou é um deus ou um bruto”. Como nenhum ser humano é perfeito, então aquele que se mostra totalmente indiferente aos homens, mesmo aos piores, só pode ser um bruto. No fundo, todos nós necessitamos do convívio social, ainda que a sociedade seja vista como uma espécie de “baile de máscaras”, com seus ritos hipócritas e regras bobas de civilidade. O equilíbrio entre o puro individualismo, que escuta somente o chamado de potência de que falava Nietzsche, e a vida gregária, parece ser o grande desafio de todos.

Como organizar a sociedade de forma a preservar o máximo possível da liberdade individual, sem matar a própria comunidade? Esta é a questão que atormenta todos os pensadores individualistas desde sempre. Para Freud, estamos fadados a experimentar o “mal-estar na cultura”, pois o homem tem que abrir mão de parte de sua liberdade para viver em sociedade. As possibilidades de satisfação individual são reduzidas neste convívio, mas a alternativa é ainda pior. Renunciar a certos impulsos, ou sublimá-los, passa a ser questão de sobrevivência do próprio indivíduo na cultura.

Freud diz: “Portanto, o ímpeto libertário se dirige contra determinadas formas e exigências da cultura ou contra a cultura em geral. Não parece que se possa levar o homem, através de algum tipo de influência, a transformar a sua natureza na de um cupim; é provável que ele sempre defenda sua pretensão à liberdade individual contra a vontade da massa”. Encontrar um equilíbrio conveniente tem sido a luta da humanidade. O individualista estará sempre fadado à frustração na sociedade. Afinal, ele não é um inseto gregário como o cupim.

Antecipando Freud em mais de um século, Adam Smith já tinha notado que mesmo o “altruísmo” tinha uma natureza egoísta. A primeira frase de seu “Teoria dos Sentimentos Morais” é: “Por mais egoísta que se suponha o homem, evidentemente há alguns princípios em sua natureza que o fazem interessar-se pela sorte de outros, e considerar a felicidade deles necessária para si mesmo, embora nada extraia disso senão o prazer de assistir a ela”.

Mas, independente da causa original do sentimento de empatia, o fato é que os seres humanos, à exceção dos psicopatas, estão inclinados a olhar para o próximo sem indiferença. Por projeção ou não, o sofrimento alheio incomoda, a felicidade pode contagiar, e a banalidade do mal choca. Humanos de carne e osso não ficam indiferentes aos Tooheys da vida, mas sim revoltados. Levar os outros em consideração, ligar para o que se passa em volta, estar preocupado com o destino de outras pessoas, nada disso é necessariamente coletivismo. O individualista pode perfeitamente demonstrar traços “altruístas”. A diferença é que seu altruísmo estará voltado para indivíduos, e não abstrações coletivas.

“É fácil amar a humanidade”, dizia Nelson Rodrigues, completando que “o difícil é amar o próximo”. O individualista rejeita o amor por abstrações coletivas, não por outros indivíduos. Para Karl Popper, a associação que Platão fez entre individualismo e egoísmo, em seu sentido pejorativo, tinha como estratégia manchar a imagem do primeiro, de forma a defender seu coletivismo. Mesmo o Cristianismo, lembra Popper, recomenda amar “teu próximo”, não “tua tribo”. Mas a visão distorcida platônica prevaleceu, e até hoje os individualistas são erroneamente confundidos com egoístas insensíveis, ou pior, sociopatas.

Quem tratou de forma clara deste tema foi Mário Vargas Llosa, escrevendo sobre o livro “O Estrangeiro”, de Albert Camus. Seu personagem principal, Meursault, não aceita “jogar o jogo” da sociedade, repleta de hipocrisias e máscaras. Ele se recusa a ser um ator no teatro da vida. Mas, conforme lembra Vargas Llosa, “não existe sociedade, quer dizer, convivência, sem um consenso dos seres que a integram, de respeito a certos ritos ou formas que devem ser respeitadas por todos”. Sem isso, haveria apenas uma “selva de bípedes libérrimos onde somente sobrevivem os mais fortes”. Meursalt pode não saber, mas ele também interpreta um papel: o de “ser livre ao extremo, indiferente às formas entronizadas da sociabilidade”.

Mário Vargas Llosa acredita que “no fundo de todos nós existe um escravo nostálgico, um prisioneiro que queria ser tão espontâneo, franco e anti-social” como o personagem de Camus. Mas mesmo os espíritos mais livres reconhecem que há um preço a se pagar pela cultura, qual seja, o de renúncia à soberania absoluta, aos impulsos que poderiam colocar em risco a vida em sociedade. Se todos fossem puro instinto, até a instituição da família estaria em perigo, e com ela os próprios indivíduos.

O parecer de Vargas Llosa não é favorável ao tipo “libertário” representado por Meursault. Em sua opinião, o estrangeiro de Camus vive num mundo desumanizado, e mostra a “imagem deprimente de um homem a quem a liberdade não engrandece moral ou culturalmente; talvez, destrua sua espiritualidade e o prive de solidariedade, de entusiasmo, de ambição, e o torne passivo, rotineiro e instintivo, num grau pouco menos que animal”. Em suma, um bruto no sentido aristotélico.

O individualista deve sim colocar sua própria felicidade no topo da hierarquia de valores, e não deve levar tanto em conta o que os outros pensam o tempo todo dele. Ele tem o direito de existir para a própria felicidade. Aquele que vive sempre preocupado com tudo que dizem ou pensam dele não passa de um escravo. Mas isso não é sinônimo de total aversão à vida em comunidade, ainda que esta exija, em contrapartida, o convívio com suas infindáveis imperfeições e limites à própria liberdade plena.

O testamento de Fidel

Demétrio Magnoli (*) - O Estado de São Paulo

"Queima o que adoraste e adora o que queimaste!" A senha papal da conversão dos reis bárbaros ao cristianismo deveria ser usada como epígrafe do informe do VI Congresso do Partido Comunista Cubano (PCC), convocado para abril. Por baixo de uma espessa camada de linguagem orwelliana, o documento anuncia a substituição do sistema econômico estatal por uma economia mista. Seria um "modelo vietnamita", no eufemismo criativo de um regime que, anos atrás, crismou o "modelo chinês" como restauração do capitalismo e hoje teme a assombração de seus próprios epítetos. No texto de 13.295 palavras, "liberdade" não aparece nenhuma vez. O informe, contudo, gira sem cessar em torno do problema da liberdade.

O plano oficial restaura a liberdade, mas apenas um tipo de liberdade. O capital estrangeiro terá liberdade para operar em Cuba. Os cubanos ganharão a liberdade de empreender e de empregar assalariados. Também poderão, livremente, vender a sua força de trabalho, empregando-se em negócios privados de outros cubanos. Porém os domínios da liberdade não ultrapassarão a esfera econômica. Não serão reconhecidos os direitos dos trabalhadores de constituir sindicatos livres ou declarar greve, pois as liberdades "capitalistas" são intoleráveis na sociedade socialista.

No lugar da senha papal, o texto usa como epígrafes uma definição de "Revolução" e um chamado à "batalha econômica". A primeira é assinada por Fidel Castro Ruz, simplesmente; o segundo, pelo "General de Exército Raúl Castro Ruz". Fidel dispensa títulos: ele é o corpo terreno da "Revolução". Raúl omite o título de presidente da República para utilizar outro, que indica a fonte última de seu poder. As primeiras reformas radicais são a demissão de 500 mil trabalhadores do setor estatal e a supressão da "libreta", cartela de racionamento que assegura uma cesta básica subsidiada à maioria dos cubanos sem acesso à moeda forte (o peso convertible). Não há como fazer isso sem, antes, aterrorizar os cidadãos e erguer a lâmina de uma espada sobre os militantes do "partido dirigente".

A espada já desceu sobre Esteban Morales, um alto quadro do PCC, diretor do Centro de Estudos sobre os EUA na Universidade de Havana, que publicou um artigo de alerta no site da União dos Escritores e Artistas (Uneac). "A contrarrevolução", escreveu, "toma posições em certos níveis do Estado e do governo." Ela é representada pelas autoridades que "se preparam financeiramente para quando a Revolução desabar" - o momento da "transferência de patrimônios do Estado para mãos privadas, como ocorreu na antiga URSS". Ato contínuo, o artigo desapareceu da página da Uneac e seu autor foi expelido do PCC. No sistema totalitário, a crítica "de esquerda" não é menos interditada que a crítica "de direita". Ao sugerir que Castro & Castro comandam uma restauração capitalista, o comunista Morales descobre-se tão carente de liberdade de expressão quanto os dissidentes que contestam o sistema de economia planificada.

Morales talvez venha a se encontrar com os outros dissidentes na prisão ou no exílio. Por ora ainda escreve, mas não mais num órgão oficial. Seu artigo seguinte, um apelo às bases do PCC, denuncia o controle do partido pela cúpula, uma "deformação pela qual se pagou caro na URSS". Não há, porém, "deformação", mas norma. Só os intelectuais hipnotizados pelos dogmas leninistas fogem de uma conhecida evidência histórica: em todos os lugares, quando se instala um regime de partido único, a direção partidária asfixia a expressão das bases e um núcleo dirigente, às vezes composto apenas pelo Líder, sufoca a liberdade do restante da direção. A mais recente comprovação da norma é o informe cubano, um verdadeiro testamento de Fidel Castro.

O Estado castrista repousa sobre um contrato implícito de intercâmbio entre liberdade e segurança social. O Estado fica com a liberdade só para si, pagando-a pela distribuição de bens essenciais subsidiados: empregos, alimentos básicos, serviços de saúde e educação. Dentro e fora de Cuba, o contrato da "ditadura benigna" encontra-se na raiz da justificação ideológica do regime. No Brasil, ele é celebrado na escritura "humanista" de Frei Betto, saudado na prosa precária de Lula, cantado no verso lírico de Chico Buarque. Agora, contudo, Castro & Castro proclamam a decisão de suprimir um dos polos do intercâmbio: o Estado desiste da função de fornecer segurança social, mas reitera seu monopólio sobre a liberdade.

O totalitarismo requer uma presunção de infalibilidade do Partido - isto é, do Líder. Fidel prometeu que o "modelo soviético" conduziria os cubanos à redenção comunista. A quebra do contrato equivale ao reconhecimento da falência da promessa. As implicações lógicas seriam a renúncia à prerrogativa de infalibilidade e a convocação dos cubanos a um debate irrestrito sobre o futuro da nação. Mas, desafiando a lógica, o testamento de Fidel não proclama a liberdade de organização partidária nem convida o país a preparar eleições livres. Ao contrário, reivindica a presunção desmoralizada para emitir um decreto de substituição do "modelo soviético" pelo "modelo vietnamita". Eis por que a palavra "liberdade" não faz parte de seu testamento.

Fidel Castro planeja introduzir a liberdade para os capitalistas. Esteban Morales almeja a liberdade para os militantes do PCC e um sistema econômico planificado sob controle dos trabalhadores. Segundo relata a blogueira Yoani Sánchez, numa praça de Havana um jovem confessou-lhe suas ambições. "Ter meu pedacinho: uma casa, um salário decente, permissão para viajar." A liberdade como privilégio, fragmentada em liberdades especiais, nunca dará uma chance ao "desejo maldito, que poderia valer-lhe o escárnio público", do interlocutor anônimo de Yoani. O testamento de Fidel constitui a prova negativa de que liberdade é um bem indivisível.

(*) Sociólogo, é Doutor em Geografia Humana pela USP.

Cúpula da Unasul traz à tona a questão: para que serve o bloco?

Comunicação Millenium

Reunião é a última do presidente Lula, que apostou em uma organização inócua



A realização, nesta sexta-feira, da última cúpula da União das Nações Sul-Americanas (Unasul) durante o governo do presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva, um dos grandes entusiastas do bloco, traz à tona a inevitável questão: para que serve a aliança? Conhecida – ou desconhecida – por não ter serventia alguma, a Unasul, se mostrou mais uma aposta equivocada do segundo mandato de Lula. A organização foi idealizada pelo megalomaníaco presidente venezuelano Hugo Chávez para ampliar a antiga Comunidade Sul-Americana de Nações (Casa) – aliança criada em 2004, que funcionava como um foro de debates – e foi apoiada principalmente pelo Brasil e pela Argentina.

O tratado de criação da Unasul foi assinado em 2008, em Brasília, com o objetivo de propiciar a integração entre os países da América do Sul. Porém, desde então, muito pouco foi feito a partir das repetidas reuniões entre os representantes da aliança. Os doze países integrantes – Brasil, Argentina, Bolívia, Venezuela, Equador, Colômbia, Chile, Peru, Paraguai, Uruguai, Guiana e Suriname – são tudo, menos integrados.

As discrepâncias econômicas e políticas, principalmente, atrapalham qualquer negociação. “Os países que compõem a aliança têm visões e aspirações muito diferentes”, pontua a cientista política Maria Lúcia Victor Barbosa, especialista do Instituto Milenium, organização sem fins lucrativos que busca promover o desenvolvimento humano.

A maioria das tentativas de se chegar a um acordo diplomático – entre as discordantes Colômbia e Venezuela ou sobre a polêmica que se instaurou após a deposição do presidente Manuel Zelaya em Honduras, por exemplo – fracassou. O posicionamento da Unasul, sempre baseado na visão bolivariana de Hugo Chávez, Evo Morales e Rafael Correa, provoca desconfiança inclusive em estados membros mais ponderados, como Chile, Peru e Colômbia.

Esforços – Uma tentativa desesperada de provar a importância da Unasul ocorreu no fim de setembro, após o motim de policiais descontentes com um projeto de lei no Equador. Chamando o incidente de “ensaio golpista”, a aliança se posicionou, de forma previsível, em favor do presidente Rafael Correa e exigiu que os responsáveis fossem julgados e condenados. Os integrantes do bloco anunciaram aos quatro cantos o “exemplo relevante da participação do organismo em situações de ruptura da ordem constitucional”.

Quanto à economia, o desafio intransponível é superar as enormes assimetrias. Para se ter uma ideia, enquanto o Brasil tem um PIB de quase 2 trilhões de dólares e 185 milhões de habitantes, a Guiana conta com um PIB muito mais modesto, de 1,4 bilhões de dólares, e com 750.000 habitantes.

Ilusão – Quando a Unasul foi criada, o hiperbólico presidente Lula falava que “uma América do Sul unida mexeria com o tabuleiro do poder no mundo”. Depois desses dois anos, o diplomata Rubens Barbosa, ex-embaixador brasileiro em Washington, acha graça da fala prepotente do mandatário. “A América do Sul não está unida, e, mesmo se estivesse, não poderia mexer com equilíbrio mundial. O centro do poder está se deslocando, sim, mas do Atlântico para o Pacifico. Está indo em direção à Ásia, não para a América do Sul.”

Barbosa explica que a Unasul, criada para excluir a Organização dos Estados Americanos (OEA) e especialmente os EUA das discussões sobre os problemas sul-americanos, acabou levando a uma duplicação que esvaziou o Mercosul. “O Brasil perdeu sua capacidade de liderança lá dentro. Tudo por conta de uma concessão por afinidade ideológica”, lamenta. “A Unasul está dividida. Não está funcionando, nem nunca vai funcionar”.

Para Maria Lucia, a Unasul não passa de mais um organismo sem muita serventia. “É mais uma entidade marcada por um antiamericanismo que não passa de uma dor de cotovelo, levada pelo sentimento estranho de altivez e inferioridade dos países sul-americanos, na ânsia de se libertarem das raízes do passado. A verdade é que não conseguimos entender nossas próprias mazelas”, aponta.

Segundo a cientista política, autora do livro América Latina – Em Busca do Paraíso Perdido (1995), há uma dose embutida de lazer em marcar reuniões que só servem para marcar outras reuniões. “É um turismo político às custas dos impostos dos seus povos.”

Confira a matéria no site da VEJA

Governo já estuda corte de R$ 45 bi em 2011

Cristiane Jungblut e Martha Beck, O Globo

Para fechar as contas ano que vem, aperto precisará ser maior do que os R$ 20 bilhões admitidos por Mantega



O governo de Dilma Rousseff terá que apertar muito o cinto se quiser pôr em prática o discurso de austeridade fiscal pregado por sua equipe econômica.

Embora o ministro da Fazenda, Guido Mantega, já fale publicamente em cortar R$ 20 bilhões no Orçamento, os cálculos dos técnicos indicam que esse valor terá que ser muito maior — pelo menos R$ 45 bilhões — para que o governo feche as contas em 2011.

Essa meta, de um esforço fiscal de cerca de R$ 45 bilhões, foi discutida ontem, em reunião da atual e futura equipes com representantes do Congresso responsáveis pela elaboração do Orçamento.

A primeira medida será promover um chamado "corte virtual" na proposta do Orçamento da União para 2011, em discussão no Congresso, com propostas de novas despesas que chegam a R$ 20 bilhões.

Esse "corte virtual" consiste, na verdade, em impedir que sejam aprovados esses projetos, com reajuste de grande impacto financeiro. Entre eles está o aumento para os servidores do Poder Judiciário, que aumentaria os gastos em R$ 7 bilhões.

No caso do salário mínimo, a equipe econômica avisou que aceita, como teto, R$ 550, com impacto de R$ 3,4 bilhões além do já previsto no Orçamento (R$ 538).

O governo aceitara anteriormente um aumento para R$ 560. Os R$ 580 reivindicados pelas centrais sindicais representariam uma receita extra de R$ 12 bilhões.

Ao deter as pressões sobre o valor do mínimo, o governo também reduz o rombo provocado pelo reajuste que será dado aos aposentados que ganham acima do piso. A proposta é que seja dado a eles 80% do que for dado ao mínimo.

O governo também recuou na ideia de já garantir no Orçamento um reajuste para o Bolsa Família, como pedira Dilma. A ideia, segundo interlocutores do governo, é conceder um reajuste ao longo de 2011, mas não agora.

Assim, não seria autorizada agora a verba extra de R$ 1 bilhão que já havia sido reservada para a ampliação do programa.

Duas caixas do “Avião do Faustão” tumultuam o trânsito do Rio em plena guerra com criminosos. Veículos das Organizações Globo noticiam — sem citar a promoção

Ricardo Setti, Veja online


Na quarta-feira, 24, em meio à justificada paranoia de que foram tomados os cariocas, duas enormes caixas de madeira, tipo baú, amanheceram, como se tivessem sido abandonadas, em duas praças de Ipanema — Nossa Senhora da Paz e General Osório (Veja a foto publicada no Extra Online).

Tratava-se de uma promoção do “Avião do Faustão”, um dos blocos do Domingão do Faustão, fato que foi noticiado por todos os jornais e sites da web.

Pois bem: temerosos de que as caixas pudessem conter explosivos das facções criminosas que estavam — e continuam — barbarizando a cidade, moradores da região chamaram a polícia.

Um esquadrão antibombas do Batalhão de Operações Especiais, o famoso Bope, interditou todas as ruas da região até que especialistas e cães farejadores de explosivos se assegurassem de que não havia nenhuma bomba nos caixotes.

Resultado: o engarrafamento provocado pela interdição das principais vias de ligação entre a Zona Sul e o Centro — num momento em que a circulação era vital também para a polícia, diante dos fatos — só terminou às três da tarde, criando problemas para a vida da cidade.

Como os demais órgãos da imprensa, todos os veículos das Organizações Globo – o Jornal Nacional, os noticiários da TV paga GloboNews, o jornal O Globo – publicaram a notícia.

Nenhum deles, porém, informou que as caixas eram do programa de Fausto Silva. O Globo dedicou duas páginas apenas a esse incidente e disse tratar-se de uma promoção “de uma agência de eventos”. O jornal chegou a ouvir um funcionário dessa agência, sem, em nenhum momento, dizer que a empresa era executora da promoção do Domingão.

Capitão Nascimento

Merval Pereira, O Globo

Ontem foi dia de a realidade imitar a arte. Foi dia de torcer pelo Capitão Nascimento de Tropa de Elite, que todos nós vimos em ação, ao vivo e a cores, nas reportagens das emissoras de televisão. Que o personagem de Wagner Moura tenha se tornado o novo herói nacional é um sinal dos tempos, não necessariamente um bom sinal.

Ontem entraram em ação centenas de capitães Nascimento encarnados em cada um dos soldados do BOPE, que o personagem do filme de José Padilha se orgulha de ter transformado em “uma máquina de guerra”.

E quando essa máquina de guerra conseguiu colocar em disparada várias dezenas de bandidos em fuga pela mata, em direção ao Morro do Alemão, houve comemoração do cidadão comum que assistia à TV Globo como se acompanhasse um filme de aventura em que os mocinhos eram os policiais.

Ou como se aquelas imagens em tempo real fizessem parte de um game em que o telespectador poderia interferir manejando os comandos.

Mas foi também dia de a população como um todo tomar consciência da gravidade da situação, que muitas vezes só é sentida na carne pelas comunidades mais carentes.

A ação de terrorismo distribuída por toda a cidade, que já vinha sendo revelada com os arrastões na Zona Sul nos últimos dias, evidenciou que essas facções criminosas continuam ativas e bem armadas, com capacidade de levar o pânico a qualquer ponto.

O ponto positivo foi ver a reação policial, que deu a sensação de ter sido bem coordenada e comandada com extrema cautela para não colocar em risco a população. E mesmo assim eficiente.

É claro que a realidade lá fora mostrava uma cidade apavorada, quase deserta, com as pessoas escondidas dentro de casa.

Nas localidades envolvidas diretamente na guerra, era possível ver vez por outra lençóis brancos sendo acenados em pedidos desesperados de paz, enquanto as ações de guerrilha continuavam na Vila Cruzeiro, que acabou sendo dominada pelas forças públicas.

Essa verdadeira operação de guerra que se desenvolveu durante todo o dia na região da Penha mostrou uma grande ofensiva policial feita por 150 policiais do Batalhão de Operações Especiais (Bope) e 30 fuzileiros navais com rostos pintados, colocando várias dezenas de bandidos em fuga, permitindo que a polícia ocupasse o alto da Vila Cruzeiro, aonde não conseguiam chegar há anos.

E tudo mostrado ao vivo pelos helicópteros das televisões, que deixaram os telespectadores espantados com o poder de fogo dos bandidos, e a quantidade de pessoas envolvidas nessa guerra.

Foi um reality show em tempo real que, ao mesmo tempo em que colocou em cada um de nós um sentimento de horror com a constatação da dimensão do problema que a cidade enfrenta, deu-nos também a certeza de que é preciso apoiar a ação do governo, que não há mais volta nesse combate contra o tráfico de drogas.

O fato de que pela primeira vez no combate aos traficantes foram usados Urutus da Marinha de Guerra. É “histórico”, como definiu o secretário de segurança José Mariano Beltrame, ao mesmo tempo em que todos ficamos espantados com a insinuação do secretário de que o Exército não parece disposto a colaborar.

A participação dos Urutus da Marinha e de Fuzileiros Navais na operação foi mais um elemento emocional positivo para a ação da polícia.

A cada barreira que um Urutu ultrapassava parecia uma vitória da sociedade sobre a bandidagem.

Mesmo que a Secretaria de Segurança não planejasse a ocupação da Vila Cruzeiro, ela se tornou inevitável depois que a TV Globo mostrou aquelas imagens, na quarta-feira, de bandidos chegando aos magotes de tudo quanto é lado, para se esconderem na favela que se transformou no bunker da direção da maior facção criminosa do Rio, que comanda as ações terroristas dos últimos dias.

A sensação dos especialistas é de que os policiais montaram uma operação dentro da lógica antiga de responder com uma ação direta no núcleo da bandidagem, para mostrar força, mas para entrar e sair da favela.

E a reação política da sociedade está mostrando que o avanço da polícia foi sentido de maneira tão positiva pela população que vale mais pelo lado intangível do sentimento de vitória do que propriamente pela ação em si.

As forças públicas não poderão sair tão cedo da Vila Cruzeiro, mesmo que não venha a ser instalada lá pelo momento uma Unidade de Polícia Pacificadora (UPP), como chegou a ser anunciado.

Essas unidades pacificadoras estão se revelando um ativo político importantíssimo , com ampla aceitação pela população, mesmo que falte a essa política uma imprescindível ação de planejamento para combater as consequências da retirada dos bandidos dos territórios que dominavam.