domingo, novembro 28, 2010

Expurgo da inflação não é positivo, diz FHC

Gustavo Uribe, da Agência Estado

Para o ex-presidente, retirar alimentos e energia dos índices de inflação pode gerar manipulação e interferências do governo


SÃO PAULO - O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso considerou nesta sexta-feira, 26, não ser positiva a ideia manifestada na véspera pelo ministro da Fazenda, Guido Mantega, de criar um índice de inflação que exclua preços mais voláteis, como os relativos a alimentos e energia. De acordo com o ex-presidente, a modificação cria a suspeita de que o indicador de inflação não a mede, de fato. "Eu acho que aí começa a complicar as coisas", disse. "Aí, fica a suspeita de que o índice de inflação não mede inflação, que há manipulação, que o governo vai interferir. Isso eu não acho positivo." FHC considerou ainda que, quanto mais simples é um indicador, melhor.

Na quinta-feira, 25, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, anunciou que quer esvaziar o índice de inflação na tentativa de reduzir a taxa de juros mais rapidamente no governo Dilma Rousseff. A ideia, segundo apurou o Estado, é retirar todos os alimentos e combustíveis do novo índice, diferente do que faz o BC brasileiro hoje e como faz o Federal Reserve (Fed, o BC dos Estados Unidos).

O novo índice traz naturalmente à tona a discussão em torno de uma mudança na meta de inflação, fixada em 4,5% para 2011 e 2012. Enquanto o IPCA acumulado em 12 meses até outubro está em 5,20%, cálculo de um grande banco mostra que o índice com o expurgo de alimentos e combustíveis no mesmo período é de 4,16%.

Franklin Martins
FHC ainda considerou "um tanto pretensiosa" a declaração dada pelo ministro da Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República, Franklin Martins, de que o Ministério das Comunicações precisa ser "refundado" no Brasil. Antes de falar no Seminário Cultura/Liberdade de Imprensa, promovido pela TV Cultura, em São Paulo, Fernando Henrique afirmou que governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem "mania de refundar tudo". "É mania, de refundar tudo. Lula não começou o Brasil de novo?", ironizou. "Agora, todo mundo quer refundar. Isso é conversa, precisa melhorar, precisa aperfeiçoar. Agora, a expressão de refundar é um tanto pretensiosa", afirmou.

O ex-presidente disse ainda que as declarações de Martins foram "um pouco impositivas". "Recentemente, eu li declarações do ministro Franklin Martins um pouco impositivas. Vai na marra? Não, não vai na marra, não. Tem de discutir", disse, referindo-se à proposta do ministro sobre a pasta das Comunicações.

(Com Adriana Fernandes e Fabio Graner, de O Estado de S. Paulo)