segunda-feira, março 19, 2012

Um país a espera da ação do governo

Adelson Elias Vasconcellos

Na edição de hoje, praticamente, nos dedicamos a demonstrar que os problemas que afetam a indústria brasileira não estão lá fora. Estão aqui dentro, e todos derivam da falta de ação, e até se pode dizer, da total falta de projetos do governo Dilma para minimizar os efeitos da questão cambial.  O governo, que é ruim de serviço, não tem alternativas, a não aquelas que no passado já se comprovaram ineficientes. Não adianta ficar transferindo responsabilidades como tem sido hábito do governo petista. O custo Brasil passa pela inação governamental em remover as enormes barreiras criadas por ele mesmo e que roubam a competitividade das empresas nacionais. 

Temos aí desde a burocracia extremamente analfabeta, até uma inexplicável correção das tarifas de energia elétrica, a que se somam altíssima carga tributária,  a infraestrutura deficiente e o baixíssimo nível de ensino. 

Acontece que este governo, assim como o período de reinado de Lula, se converteram, no que havia de bom, apenas numa mera sequência daquilo que viera antes deles. As bases da estabilidade econômica foram semeadas e cultivadas em outro quintal, Lula apenas colheu os frutos, fossem os da área econômica, ou da social. 

Há quem exiba – Lula, principalmente – o número de empregos gerados. Já provei várias vezes que estes são frutos, não sementes. E, mesmo assim, estes frutos são de baixíssima qualidade. Nesta edição, vamos mostrar que, somente agora, os sindicatos começam a se dar conta desta realidade.  Mesmo porque, os empregos de melhor qualificação exigem formação acadêmica. Para estes não faltam vagas, faltam candidatos. E, depois de nove para dez anos, não dava para ter chegado lá? Claro que  sim, só que o petismo não quer gente qualificada. Quer vaquinhas de presépio.  Antes disso, é preciso aprofundar um pouco ainda o raciocínio. Dilma iniciou seu reinado com uma folgada maioria tanto na Câmara de Deputados quanto no Senado, Poderia, se quisesse, modificar a Constituição em qualquer de seus pontos, menos nos valores e princípios que nela imutáveis, a seu bel prazer. Poderia, se quisesse e tivesse projeto, ter reformulado a Previdência Social, as leis trabalhistas, o sistema tributária e até ter avançado na reforma política.  Mas, como disse, se tivesse projeto...

Desde 2006 o Brasil vem enfrentando problemas com o câmbio. O real sobrevalorizado não é questão nova. As dificuldades das indústrias brasileiras não são novidades para ninguém, talvez sejam apenas para os governos Lula e Dilma. Se formos pesquisar, vamos verificar que, ano após ano, o país vem perdendo espaços no comércio internacional para seus produtos manufaturados e semimanufaturados. E se a balança comercial vem apresentando resultados excepcionais isto se deve somente ao agronegócio, que é uma atividade demonizada pelos governistas e ambientalistas. Não fossem nossas commodities, incluindo aí minérios, e certamente nossa estabilidade teria ido prô brejo há muito tempo. Não fosse a necessidade imperiosa da China de importar alimentos, e o nosso colchão de segurança – leia-se reservas internacionais – não teriam chegado ao ponto em que chegaram.

Nada disso é novidade para quem se preocupa com país e procura, por conta disto, se manter razoavelmente bem informado.  

Em sua viagem recente à Alemanha, a presidente Dilma Rousseff reclamou do excesso de emissões praticados pelos bancos centrais das principais economias do mundo, dizendo tratar-se de um “tsunami monetário” e que isto desequilibrava o jogo comercial. Ou seja, os problemas de falta de competitividade da nossa indústria e as dificuldades de comercialização interna e externa se davam por razão lá de fora. Seria bom se fosse verdade.

Demonstramos aqui, recentemente, as distorções do nosso sistema tributário, seja pela alta carga que impõem às pessoas físicas como às empresas, seja pela burocracia e prazos de recolhimento que praticamente roubam do empresariado a formação de capital de giro próprio. No Brasil paga-se imposto antes da riqueza ser gerada. Incrível!!!

Hoje, vamos avançar um pouco mais nesta análise que estamos realizado sobre as razões da pouca capacidade de competição de nossas indústrias e, mais uma vez, vamos deixar claro que, se o problema cambial é uma destas causas, nem ela é a única nem tampouco poderia ser tão prejudicial quanto é, se o Brasil fosse governado guiado por um projeto de país, e não unicamente de poder.

Este oba-oba todo em torno da figura de Lula e que agora se tenta criar em torno de Dilma Rousseff, se o leitor for analisar com isenção e em profundidade, verá não passar de mera propaganda. 

Quando nos referimos, por exemplo, ao mensalão do PT, tem quem ache que o esquema acabou a partir dos fatos que vieram à público, e isto é um erro. O esquema do mensalão não envolvia apenas membros do parlamento como não se restringia aos fundos de pensão e estatais as arcas de financiamento do esquema. 

O mensalão petista, no fundo, se esparrama por todo o país, na forma de doações para ONGs, sindicatos, partidos políticos, agências de publicidade, empresas doadoras para campanha política, e órgãos de imprensa. 

O esquema não busca apenas atender a uma base de apoio político no Congresso. Engana-se quem pensa que um esquema tão refinado de corrupção e cooptação se resumiria apenas a esses limites. O mensalão é o caminho pelo qual as esquerdas tentam subverter a institucionalidade do país para seu esquema de poder. E para alcançar este objetivo, que faz parte de um alvo maior, os recursos públicos são usados de maneira intensa e sem limites. 

Mas isto já seria outro capítulo à parte. Ele apenas serve de preâmbulo para entender as razões que fazem com que, uma reforma tributária que reduzisse a carga de impostos sobre a sociedade, jamais será levada adiante pelo governo petista. É bom lembrar que Lula, muitas vezes, disse que se paga pouco imposto no Brasil. Isto dá bem a dimensão de como o país está governado e aonde esta gente pretende chegar.

Assim, retomando o fio, não se espere deste governo, nenhuma medida que venha sanar as dificuldades que estão levando a indústria nacional a definhar continuadamente. No fundo, não há interesse de que a riqueza produtiva se disperse, pelo contrário, o objetivo é fazer que apenas alguns poucos estejam liberados para geração de riquezas, concentrando-se no Estado o bolo maior. É engraçado ouvir-se “capitalismo de estado” no caso brasileiro: o que ocorre é que estamos a caminho é de uma economia de estado mesmo. É só ver quantas novas estatais o governo já criou e recriou, e o aumento indiscriminado do tamanho do próprio Estado a partir do primeiro mandato de Lula. 

E nesta trincheira a gente ainda poderia incluir os modelos de privatização que o PT vem adotando, sempre com a presença maciça do Estado na composição do capital. Só não vê quem não quer. 

Nesta altura, o leitor se perguntaria: mas se pode sair desta armadilha? Ora, é simples: eduque o povo. Dê-lhe informação de qualidade, e não a oficial, colorida e perfumada. E deixe que ele saberá escolher o caminho; Por seu espírito, o brasileiro jamais abrirá mão da própria liberdade. Não há outro caminho que não seja pela via educacional. Claro que eles sabem disto também, razão pela qual aparelharam os sindicatos dos profissionais de ensino e distribuem nas escolas livros didáticos onde o proselitismo ideológico é vergonhoso. Diria até criminoso dado o rosário de mentiras e de inversões de valores que trazem em seu conteúdo. 

Assim, nesta edição, mostramos um pouco mais sobre burocracia – o estado erguendo barreiras à produção -, também algumas estatísticas sobre a má qualidade dos empregos que vem sendo gerados, o resultado repulsivo da concentração estatal – e isto foi inaugurado pela constituição de 1988-, e comparamos alguns números do Brasil com nossos vizinhos latinos. Se em relação aos demais países do BRICS, perdemos de goleada, deveríamos ao menos não perder dentro do continente. Mas qual?, com um governo destes, nossa competitividade está sendo jogada no lixo e, o que é pior, de forma organizada,  persistente  e premeditada.  Não esperem do governo Dilma ações em favor do país. Tudo o que esta gente engendra tem um único propósito: perpetuarem-se no poder. O resto é o resto.

O simplismo da presidente

Editorial
O Estado de S.Paulo

A presidente Dilma Rousseff prometeu editar uma medida provisória por semana, se for preciso, para conter a depreciação do dólar, uma das dores de cabeça do empresariado brasileiro. Diante de um grupo de dirigentes sindicais em visita a seu gabinete, no Palácio do Planalto, ela voltou a esbravejar contra os bancos centrais do mundo rico. Ao emitir enorme volume de euros, dólares e libras, esses bancos centrais causam no mercado cambial o desastre por ela descrito como tsunami monetário, forçando a valorização do real e de outras moedas de países em desenvolvimento. A presidente e seu ministro da Fazenda, Guido Mantega, podem ter boas razões para se queixar dessa política. Mas ela simplifica perigosamente os fatos quando formula seu diagnóstico da situação brasileira: "Nosso problema é (sic) juros, câmbio e inflação".

Nem sequer no governo esse diagnóstico simplista é seguido de forma coerente. O ministro da Fazenda, Guido Mantega, reconhece outras dificuldades enfrentadas pela indústria brasileira. Por isso se dispõe a estender a mais quatro segmentos a desoneração da folha de salários. Além disso, admite, com mais de meio ano de atraso, um erro cometido nas primeiras desonerações, quando fixou em 1,5% o tributo sobre o faturamento das empresas incluídas naquela rodada. Foi logo advertido do erro: para algumas indústrias, aquele imposto pesaria mais que os encargos retirados da folha. Mas sobra um dado positivo: o reconhecimento de um problema independente da valorização cambial.

Também a presidente Dilma Rousseff acaba indo além do próprio diagnóstico, ao cobrar uma redução do preço da eletricidade na próxima renovação de concessões. O custo da energia elétrica é uma importante desvantagem das indústrias brasileiras. Esse problema é bem conhecido, mas o governo jamais se esforçou seriamente para resolvê-lo. Para a solução, a presidente e seus ministros terão de fazer alguma coisa em relação ao peso dos tributos e de outras taxas na formação das tarifas do setor elétrico. Esses encargos correspondem a cerca de 34% da fatura.

O item mais oneroso desse conjunto é o Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS), cobrado pelos governos estaduais. Estará o governo da União disposto a enfrentar uma negociação com os governadores? Desde 2003, as autoridades federais evitam todo esforço desse tipo. Isso explica o fracasso de suas tentativas de reforma tributária. Mas também há taxas da União embutidas naquele custo. Dessas, pelo menos, o governo central poderá cuidar, se quiser mesmo fazer sua parte.

De alguma forma, o governo federal reconhece a existência de questões muito mais complexas que aquelas apontadas pela presidente aos dirigentes sindicais. Mas falta equacionar de modo mais completo e consequente esses problemas, para desobstruir o caminho do crescimento.

Alguns desses problemas limitam a redução dos juros, embora os dirigentes do Banco Central (BC) se esforcem para atender a presidente. Sem um controle sério do gasto público, o Comitê de Política Monetária do BC não poderá ir muito mais longe no corte da taxa básica de juros. Isso não é segredo, mas, até agora, os dirigentes do BC proclamam sua fé nos bons propósitos fiscais do Executivo. Em algum momento, terão de reconhecer a realidade. Sem uma política de gastos mais contida e mais eficiente, será também difícil mexer mais amplamente nos impostos.

A presidente deve saber disso, mas fala, quase sempre, como se ignorasse ou menosprezasse essas questões. Ela também prometeu cobrar mais investimentos dos empresários. Mas eles investem mais regularmente que o governo, e investiriam mais, se as condições, a começar pela tributação, fossem mais propícias.

Em 2011, a economia brasileira cresceu bem menos que a de muitos outros países emergentes - menos, até, que a alemã, que sofre as consequências da crise do euro. Seu potencial de crescimento sem graves desequilíbrios - cerca de 4,2% no segundo mandato do presidente Lula - hoje deve estar na faixa de 3,5% a 4% ao ano, segundo a Fundação Getúlio Vargas. A redução é explicável por fatores bem mais complexos que os indicados pela presidente. Falta o governo extrair as consequências desse fato.

Governo retoma o ciclo vicioso – e letal – do protecionismo

Comentando a Notícia

O excelente texto que vocês têm a seguir, da Ana Clara Costa, para Veja online, é, talvez, o grito maior que vejo na imprensa sobre a incompetência do governo federal para destravar as barreiras que não apenas provoca a marcha da ré da indústria nacional, como, também, dar sustentabilidade ao crescimento econômico do país. 

Aliás, este alerta venho sintonizando aqui já faz algum tempo. O que temia era o governo da presidente Dilma escolher o pior dos caminhos: o protecionismo como forma de “política industrial”. 

Infelizmente as lições do passado que detonaram uma série imensa de consequências ruins para o país, parece não terem sido aprendidas nem pela presidente nem por sua equipe econômica. 

Mais uma vez, vamos insistir numa fórmula que deu errado e, novamente, vai prejudicar empresas e consumidores, além de retardar nosso desenvolvimento. Não se trata apenas de falta de projetos, a covardia de agora aponta as opções feitas em aumentar os gastos públicos sem o indispensável retorno ao país. Os investimentos que a sociedade tanto reclama, foram postos de lado, em favor de um gigantismo estatal inócuo, inoperante, com um aparelhamento da máquina pública ineficaz apenas para satisfazer um apetite ideológico-partidário inconsequente. 

A presidente Dilma tem a maioria parlamentar que nenhum outro governo democrático já teve ao longo da nossa história. Poderia, logo após sua posse, ter encaminhado uma penca de projetos ao Congresso que poderia impulsionar a economia do Brasil, dada as suas potencialidades, a um lugar de destaque no cenário internacional, além de  assegurar base melhor à atual estabilidade e garantir um processo de crescimento virtuoso. Poderia até ter escolhido o uso das medidas provisórias, para demonstrar como eram urgentes e indispensáveis seus planos para o  Brasil.  Ao optar pelo protecionismo demonstra, claramente, que não tinha mesmo, quando candidata, um projeto de desenvolvimento para o  país. Ao abrir mão de encaminhar as reformas estruturantes, confessa de maneira aberta e indiscutível  que seu partido não pensa no país, no seu desenvolvimento, no seu futuro mais justo e melhor, está mirando apenas um  retrógrado projeto de poder, em prejuízo do bem estar do povo brasileiro. Ao invés de modernidade, optou-se pelo atraso. 

A pergunta que fica é: o tal arsenal de medidas que o governo Dilma vem anunciando é só isso, protecionismo e nada mais? O governo poderia ser bem mais criativo e ousado, porque, senhores, o Brasil pode mais, muito mais!

Segue a excelente reportagem da Ana Clara Costa, para Veja online. 

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Controle de capitais, barreiras às importações e reserva de mercado dão o tom do que será a política econômica daqui para a frente: um perigoso retrocesso

(André Dusek/Agência Estado/VEJA) 
Dilma Rousseff: 
medidas de proteção à indústria nacional não devem parar 

Preocupado com a conjuntura econômica mundial, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, disse em novembro estar extremamente preocupado com a crise na Europa e cobrou uma atuação mais firme dos países da zona do euro para sanar as incertezas que pairavam sobre a região, temendo que elas alcançassem o Brasil. Ele prometeu na época que usaria todas as armas que lhe cabiam para evitar que a economia brasileira sofresse os efeitos das turbulências. Pouco tempo antes, o ministro já havia dado uma pista do que estava por vir. Anunciara em setembro o heterodoxo decreto que aumentava em 30 pontos porcentuais o Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) sobre veículos importados. Era um prenúncio do caminho arriscado que o governo estava prestes a trilhar: o do protecionismo. De lá para cá, o Planalto analisa pedidos de salvaguarda a setores diversos, como o têxtil e o vinífero; já sobretaxou os tênis de alta performance asiáticos e acaba de impor limites aos desembarques de carros mexicanos no país. A opção já se mostrou errada num passado nada distante, reservando ao Brasil ineficiências que até hoje persistem. O risco de o governo Dilma ceder a essa tentação incomoda a maioria dos especialistas no mercado e na academia, muitos dos quais testemunhas oculares do fracasso dessa opção.

Entre novembro e março, o novo presidente do Banco Central Europeu (BCE), o italiano Mario Draghi, liberou nada menos que um trilhão de euros às instituições financeiras da região para garantir que cumprissem com os níveis de capital exigidos para atravessar a crise. O montante, cuja última parte saiu dos cofres do banco no início de março, serviu para tranquilizar um mercado que questionava a real capacidade de atuação do BCE. Esse fluxo de capital europeu teve dois rumos distintos: parte voltou aos cofres do próprio banco, evidenciando o medo das instituições europeias em aplicar em qualquer outro tipo de título; e parte viaja o mundo em busca de bons retornos. Nos Estados Unidos, somente a segunda fase do chamado 'afrouxamento monetário' implicou a injeção de 600 bilhões de dólares na economia internacional.

A entrada dessa montanha de dinheiro nos países emergentes, por meio do mercado financeiro, faz com que moedas como o real se apreciem ante o dólar ou o euro. Essa dinâmica, comemorada pela classe média que viaja ao exterior, é o pesadelo do momento para o Palácio do Planalto. É por isso que, desde o ano passado, o governo adotou uma sequência de medidas para conter a entrada de moeda estrangeira no país, utilizando o Imposto de Operações Financeiras (IOF) como arma. A tributação, contudo, é vista como medida paliativa, pois não impede que o Brasil continue atrativo para o investidor estrangeiro que está disposto a navegar em mares emergentes.

Por trás desse surto de preocupação com o câmbio, há duas razões que se entrelaçam: a indústria e o emprego. Com o real valorizado, os produtos industrializados brasileiros são derrotados em qualquer tipo de comparação com seus similares estrangeiros – e a crescente onda de importações é reflexo disso. Pouco competitiva, a indústria comporta-se como criança chorona de quem o brinquedo foi tomado pelo coleguinha mais forte – e esperneia para que os pais intercedam em seu favor. O governo poderia ignorar a birra, mas aí se lembra que o setor industrial emprega mais de 8 milhões de brasileiros e financia – de norte a sul – a política nacional. Mais ainda: com uma indústria em crise aguda, possíveis demissões criariam um ambiente de pessimismo e insegurança entre a população, o que poderia afetar o consumo, o PIB (a nova vedete do Planalto) e os votos. Já os sindicatos ligados ao setor industrial representam apoio político. Sem traquejo para lidar com eles, à presidente Dilma resta a decepcionante tarefa de ceder às pressões.

A esse cenário se soma a já conhecida simpatia da velha guarda petista pelo fechamento de mercado e proteção da indústria – e Dilma, neste aspecto, nunca se mostrou tão alinhada com a tradição do partido como agora. “Vamos proteger o mercado interno” tornou-se máxima tão comum quanto a “nunca antes na história deste país” proferida à exaustão por seu antecessor.

O ponto mais importante não é esquadrinhar as reais intenções da equipe econômica ao querer aplicar barreiras de importação a diversos setores da indústria – até mesmo aos menos relevantes economicamente, como a inexplicável salvaguarda ao vinho nacional que está sendo investigada pelo Ministério do Desenvolvimento e da Indústria (MDIC). O que é relevante para o país é saber que a escola Mantega está combatendo o inimigo errado.

Medidas de curto prazo para controlar o câmbio ocupam o lugar das merecidas – e há muito tempo esperadas – reformas tributária, trabalhista e política. Em vez de restringir a entrada de produtos estrangeiros, a opção de desonerar a indústria ainda é tratada com timidez por um governo que não pode se permitir um pouco de renúncia fiscal. Rever acordos bilaterais quando estes deixam de ser rentáveis, como ocorre com o caso do México, mostra as faces de um Brasil disposto a mudar as regras do jogo quando elas já não são mais úteis.

Contudo, a própria história econômica do país aponta que o protecionismo sempre foi uma escolha péssima. Dele herdou-se uma indústria automotiva sucateada até os anos 1990 (quando iniciou-se a abertura de mercado), o atraso tecnológico acarretado pela Política Nacional de Informática dos anos 1970 e um passado de hiperinflação que ainda permanece na memória da população adulta, e não foi completamente superado.

A década perdida de 1980, época em que o Brasil declarou moratória, também foi marcada pelo protecionismo. Para financiar os subsídios ao mercado fechado, o governo endividou-se no exterior ao longo de mais de três décadas para depois ver-se acuado, sem meios para pagar os juros de seu endividamento e sem uma indústria eficiente. Nas duas décadas seguintes, o país conseguiu uma segunda chance para se levantar. Pode não haver uma terceira.

O que dizem os economistas sobre o protecionismo

Maílson da Nóbrega, ex-ministro da Fazenda
"Líderes da indústria deveriam fazer coro para que o governo ataque as causas estruturais da falta de competitividade. Em vez disso, resolveram fazer coro junto aos que pedem queda de juros, desvalorização cambial e reserva de mercado. Mas eles irão se decepcionar com os efeitos desse protecionismo. No curto prazo, veremos o encarecimento dos produtos, o aumento das pressões inflacionárias e a redução do ambiente competitivo. No médio e longo prazo, o Brasil está retrocedendo aos padrões do passado, da época do general (Ernesto) Geisel, em que a proteção do estado conduz à acomodação e inibe a busca de eficiência da indústria. Além disso, ela também limita o ganho em produtividade e conspira contra o crescimento do país"

Gustavo Franco, ex-presidente do Banco Central
"O recurso ao protecionismo é lamentável. Não apenas não se justifica como também é inconsistente. A solução para uma bonança cambial é gastar os dólares excedentes da maneira mais útil. Este é o pior momento possível para políticas de substituição de importações por meio da elevação de conteúdo nacional, por exemplo. Isso faria sentido, ainda que com restrições, em quadros de restrições de divisas. A situação que temos hoje é exatamente oposta. Não existe nenhuma guerra, nem crise cambial, nem nada disso. Existe o contrário: abundância de divisas, problema diferente que requer estratégias diferentes com as quais, ao que tudo indica, as autoridades não estão familiarizadas ou não têm simpatia".

Kenneth Rogoff, ex-economista-chefe do FMI e professor de Harvard
"Na próxima década o mundo poderá testemunhar um aumento considerável no protecionismo financeiro. O endividamento público e privado nas economias desenvolvidas estão em níveis recordes e, assim que as taxas de juros se normalizarem (pois estão próximas de 1% ao ano há muito tempo), os países terão dificuldades em financiá-las. Desta forma, o fluxo de dinheiro dos países desenvolvidos em busca de retornos maiores nos mercados emergentes irá aumentar, e certamente as medidas de controle de capital irão continuar. Mas é preciso esclarecer que nada disso é resultado das ações do BCE ou do Fed. E sim de efeitos acumulados de anos de déficit orçamentário e empréstimos insustentáveis junto ao setor privado".

Vera Thorstensen, ex-assessora da Missão do Brasil e professora da FGV
"O Brasil tem todo o direito de proteger seu câmbio. Existe na Organização Mundial do Comércio (OMC) o artigo 15 do GATT (Acordo Geral de Tarifas e Comércio) que prevê que um país pode se proteger de desalinhamentos cambiais. O problema é que esse é um tema novo e nenhum país ainda está familizado com ele. O governo está tentando. Mas é claro que o problema por trás da situação do país é o câmbio somado ao custo Brasil, juros altos e alta carga tributária. Por enquanto, o país está atacando apenas juros e câmbio".

Samuel Pessoa, sócio da Tendências Consultoria
"Há duas coisas que podem ser feitas sem desarrumar a arquitetura macroeconômica que o Brasil tem. O governo pode salvar ou não salvar a indústria. Se ele não salvar, o câmbio se mantém e o real irá se valorizar. Com isso, o país irá se especializar em bens primários e pode virar uma grande Austrália com a economia voltada para serviços. A outra alternativa é salvar a indústria por meio de medidas microeconômicas. O país então poderá criar novos impostos para outros setores da economia e dar um enorme subsídio à indústria. Esse subsídio pode ser amarrado a metas de desempenho exportador. Trata-se de uma alternativa para desenvolver a indústria. E é uma decisão política que custará dinheiro. A sociedade irá querer arcar com isso?"

Roberto Rigobon, professor da Sloan School of Management, do MIT
"O Brasil não pode usar apenas a política monetária para controlar o câmbio, pois, se um país imprime muito dinheiro, terá um aumento enorme de inflação imediatamente. Se retiram dinheiro da economia, os juros sobem e atraem mais capital estrangeiro, o que faz com que o real se valorize. As duas consequências são ruins e é por isso que o país está usando controle de capital – e também é por isso que o Fundo Monetário Internacional (FMI) concorda com isso. Contudo, controle de capital gera distorções e produz custos para a economia. Então, aqueles que pensam que essa política não terá ônus, estão bebendo a caipirinha errada. A forma de lidar com isso seria seguir o exemplo de países como Chile, Noruega e Cingapura: fazendo um enorme superávit fiscal de 8% a 9% do PIB."

Luiz Carlos Bresser Pereira, ex-ministro da Fazenda
"Os países ricos, que estão em grandes dificuldades, estão certos em emitir moeda e em procurar desvalorizar suas moedas. Errados estamos nós que reagimos a essas medidas de maneira tímida, apenas com um pequeno IOF. Precisávamos de IOF maior e de estabelecer um imposto variável sobre as commodities que o Brasil exporta e que são a fonte da doença holandesa (jargão econômico para explicar a exploração de recursos naturais em detrimento da indústria)."

José Marcio Camargo, professor da PUC-Rio
"A história econômica do Brasil mostra que, quando se adotam medidas protecionistas, o resultado de longo prazo tende a ser muito negativo em termos de ganho de produtividade, custo dos bens produzidos e bem-estar da população. No curto prazo, pode haver alívio, pois você diminui a concorrência, cria monopólio e dá incentivo. Depois, o consumidor tem de arcar com aumento de preços. A solução para essa questão é ter políticas que gerem ganho de produtividade. E isso exige mais abertura de mercado, e não o fechamento, como estamos vendo. É preciso investir em educação da mão de obra e mudar a legislação trabalhista para desestimular a rotatividade e a informalidade que vemos hoje. É preciso direcionar esforços para a criação de um sistema educacional mais eficiente e criar incentivos para a incorporação de tecnologia moderna, em vez de barrar essa tecnologia, como o governo pretende fazer ao aumentar o protecionismo".

Mas parece uma vaca

Carlos Alberto Sardenberg
O Estado de S. Paulo

O Banco Central vê muitas coisas. Mas onde está vaca?

Diz que um psicólogo americano, tentando provar sua tese segundo a qual a gente vê imagens separadas e compõe o “conceito” na cabeça, resolveu entrevistar um vaqueiro, ao lado de seus alunos. Foi mais ou menos assim: 

-- O que o senhor está vendo ali na frente? – pergunta o psicólogo 

-- Uma vaca, responde o vaqueiro. 

-- Mas olhando bem, prestando atenção na imagem, o que parece? 

-- Uma vaca e ela está de lado para nós. 

-- Mas o senhor não está vendo antes um amplo plano azul e outro verde? 

-- Sim, o céu e o pasto. 

-- Bom, quanto ao objeto ali no meio ... 

-- A vaca... 

-- Na verdade, o senhor não estaria vendo planos e cores brancas e negras? 

-- É ... 

-- Planos inclinados e tons diferentes, certo? 

-- Olha doutor, vista deste lado, parece uma vaca. 

Podem-se ver muitas análises e planos isolados na última ata do Comitê de Política Monetária do Banco Central, na qual se anunciou que a taxa básica de juros vai parar nos 9% ao ano. Mas parece que o Copom enxergou mesmo foi uma bela vaca, a caderneta de poupança. 

O bicho já estava no pasto. Dentro do governo e fora dele, e especialmente nos meios políticos, crescia a discussão sobre como mudar a regra de correção da poupança. Mudança tida como obrigatória. 

A poupança, pagando 0,5% ao mês, mais a TR, deu uma remuneração de 7,4% no ano passado. O poupador não recolhe imposto de renda, não paga taxa de administração, pode sacar a qualquer momento e tem garantia do governo. 

Assim, se a taxa básica de juros fixada pelo BC – que remunera títulos do governo, base dos fundos de investimentos, e é piso do custo do dinheiro – cair para a casa dos 8%, a poupança surge como aplicação imbatível. Em um fundo, em títulos de renda fixa, o investidor paga IR (de 15% a 25%) e mais taxa de administração. 

E qual o problema de a poupança tornar-se preferencial? 

Começa que o Tesouro, o governo, terá dificuldades para financiar seus gastos e a rolagem da dívida. Por que o investidor compraria quotas de um fundo ou papéis no Tesouro Direto, numa operação mais complicada e menos acessível aos pequenos, se tem a simplicidade da poupança, pagando praticamente a mesma coisa? 

Além disso, obviamente os grandes aplicadores, que têm facilidade para movimentar seu dinheiro, correriam para a poupança. (Na época da inflação alta e crônica, havia determinados momentos em que a poupança rendia bem acima dos índices de preços. Os próprios banqueiros, direta ou indiretamente, corriam a depositar seu caixa na velha caderneta). 

Por outro lado, a poupança financia a construção civil. Com os juros do BC lá embaixo, aumentariam os recursos disponíveis para a casa própria, mas em proporção certamente superior à capacidade do setor. Nem haveria famílias para tomar todo esse financiamento, nem construtoras para atender a demanda. 

Assim, sobrariam recursos em um lado e faltariam de outro, com um desequilíbrio grave do sistema financeiro. 

É, portanto, conclusão unânime. Para que os juros caiam no Brasil, é preciso mudar o sistema da poupança, com um objetivo explícito: reduzir a remuneração, pagar menos. Caso contrário, a regra da poupança impõe um piso para a taxa básica de juros, ali nas cercanias dos 8%. 

Exatamente por isso, quando a taxa caiu a 8,75% em 2009, o governo Lula preparou e divulgou uma proposta para mudar a poupança. O debate esquentava, o governo já estava meio arrependido, e aí, com a volta da inflação, os juros subiram de novo e o problema desapareceu. 

Mas voltou. Como a presidente Dilma, o ministro Mantega e o presidente do BC, Alexandre Tombini, diziam abertamente que estava em curso um processo de redução estrutural da taxa de juros e como o Copom começou a derrubar a taxa antes e mais depressa do que o mercado esperava, a discussão sobre a poupança entrou no cenário. 

O governo não oficializou nada, mas todo mundo sabia que os estudos estavam em andamento. Já se pensava até em campanhas de esclarecimento. Mas a coisa rolou também na política. 

Poupança é sagrada, é o dinheiro do povo. Fazer uma maldade aí em pleno ano eleitoral? De seu lado, a oposição, de maneira tão oportunista quanto irresponsável, já esfregava as mãos: o governo confiscando o dinheiro da poupança – e, por falar nisso, Collor não está mesmo na base de Dilma? 

Logo, faz todo sentido a reação do governo: não se fala mais nisto pelo menos neste ano. E a queda dos juros? A taxa do BC para nos 9% até o final deste ano. 

A ata do Copom não diz isso, nem o governo. A ata traz um longo arrazoado técnico para explicar a decisão. Mas vamos falar francamente: estatísticas bem torturadas confessam muita coisa, cenários sobre o futuro, então... Não que seja uma prática comum e recomendável, mas não é difícil tomar uma decisão e depois buscar os argumentos para apoiá-la. 

O BC tem apresentado frequentes surpresas, pequenas e grandes. Entre estas, foram duas mudanças súbitas de curso: a primeira, no ano passado, no sentido da ousadia, da heterodoxia, quando o Copom deu uma guinada para iniciar forte redução de juros, a segunda agora, numa direção que se diria conservadora. quando anuncia a interrupção do processo de queda, em um ponto mais alto do que sugeria ainda há poucos dias. 

Os analistas, tanto os que apoiavam quanto os que criticavam o BC, entenderam que o Copom da era Dima/Tombini era diferente, se preocupava com crescimento, além da inflação, e marchava para testar juros mais baixos. De repente, parou. 

Pode-se dizer: mas é por pouco tempo, no ano que vem se retoma o processo. Não é bem assim. Se estava certo o raciocínio do BC antes da última mudança, o momento atual oferecia uma janela de oportunidade para acelerar a derrubada dos juros. Ano que vem, volta a inflação e a situação se complica. 

Não é normal um BC surpreender o mercado tantas vezes seguidas. Nem o mercado nem o BC gostam disso. Desorganiza planejamentos de empresas e pessoas. Por isso, os analistas se esforçam para entrar na cabeça do BC e enxergar os mesmos horizontes. Mas está difícil. 

Olhando o horizonte, o BC apontou vários cenários – planos inclinados e cores. Em nenhum deles, aparece a restrição da poupança. Mas pode olhar bem - é o que parece....a vaca está lá. 

Desindustrialização: Dois em cada 10 produtos industriais vendidos são importados

Maeli Prado
Folha online

Quase 20% dos produtos industriais vendidos no Brasil no ano passado foram importados, mostra pesquisa divulgada pela CNI (Confederação Nacional da Indústria) nesta segunda-feira.

Entre 2010 e 2011, o aumento no percentual foi de dois pontos percentuais, para 19,8%, o maior valor desde 1996, quando começa a série histórica.

Os maiores crescimentos de venda de produtos importados foram nos setores de informática, eletrônicos e produtos ópticos, cujo coeficiente aumentou de 45,4% para 51%, derivados de petróleo e biocombustíveis, de 17,8% para 23,3% e máquinas e equipamentos, de 32,5% para 36,8%.

"Cada vez mais o consumo pertence aos importados. Isso mostra que o setor industrial vai contribuir cada vez menos para a economia brasileira", aponta o economista Flavio Castello Branco, da CNI.

A participação de insumos importados na produção industrial brasileira alcançou 21,7% no ano passado, o maior valor da história, segundo a entidade empresarial.

Em quatro setores a participação dos insumos superou os 40%: informática, eletrônicos e ópticos, metalurgia, farmoquímicos e farmacêuticos e químicos.

MENOS PARTICIPAÇÃO
Reportagem da Folha em 09 de março mostrou que a participação da indústria no PIB (Produto Interno Bruto) brasileiro recuou aos níveis de 1956. Foi o ano em que o presidente Juscelino Kubitschek (1902-1976) deu impulso à industrialização do país ao lançar seu Plano de Metas, que prometia fazer o Brasil avançar "50 anos em 5".

No ano passado, a indústria de transformação --que compreende a longa cadeia industrial que transforma matéria-prima em bens de consumo ou em itens usados por outras indústrias-- representou apenas 14,6% do PIB. O patamar foi menor só em 1956, quando a indústria respondeu por 13,8% do PIB.

Abatida pelos efeitos da inflação alta e da crise externa, a economia brasileira cresceu apenas 2,7% no ano passado, conforme divulgou o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) na última terça-feira (6).

Produzir no País custa mais que nos EUA

Raquel Landim
O Estado de S.Paulo

Além do câmbio, mão de obra ficou mais cara: em 5 anos, custo do trabalho na indústria aumentou 46% no Brasil e 3,6% nos Estados Unidos

SÃO PAULO - Está mais barato produzir bens industriais nos Estados Unidos do que no Brasil. A afirmação parece um contrassenso, mas se tornou realidade. A crise provocou uma reviravolta na estrutura de custos das empresas, encarecendo uma nação emergente como o Brasil e tornando os EUA um país de baixo custo.

"As empresas relatam que hoje existem condições mais favoráveis para a produção industrial nos Estados Unidos do que no Brasil", conta Gabriel Rico, CEO da Câmara Americana de Comércio (Amcham-Brasil), que reúne as multinacionais americanas instaladas no País.

O câmbio é o principal vilão por causa do enfraquecimento do dólar, especialmente diante do real, mas não é o único. Levantamento da MB Associados, feito a pedido do Estado, aponta que despesas importantes, como energia e mão de obra, subiram muito mais no Brasil do que nos Estados Unidos.

Nos últimos cinco anos, o custo do trabalho em dólar na indústria aumentou 46% no Brasil e apenas 3,6% nos Estados Unidos. Segundo Aluizio Byrro, presidente do conselho da Nokia Siemens na América Latina, a mão de obra no Brasil está entre as mais caras do mundo. "Um gerente de nível médio chega a ganhar 20% menos nos EUA do que aqui."

No Brasil, os encargos trabalhistas são pesados e a variação cambial encareceu os salários em reais. Além disso, o crescimento da economia e a baixa escolaridade da população provocou uma forte escassez de mão de obra qualificada.

Nos Estados Unidos, trabalhadores não têm direitos como décimo terceiro salário ou licença-maternidade. Com a crise, as empresas ganharam poder de barganha e conseguiram até redução de salários.

"No setor automotivo americano, por exemplo, tudo foi repensado para salvar empresas que estavam à beira da falência", diz Marcelo Cioffi, sócio da consultoria PwC. "Já o Brasil é um dos países mais onerosos do mundo para produzir carros. Não só pelo câmbio, mas também pela falta de escala, excesso de impostos, mão de obra e matéria-prima mais caras."

De acordo com Sérgio Vale, economista-chefe da MB Associados, além da logística ruim e da carga tributária, o setor industrial brasileiro sofreu com a inflação mais alta que nos EUA, o que encareceu os custos em geral.

"Nos EUA, a crise foi essencial para a tornar a indústria mais competitiva, porque provocou demissões em massa e reduziu os custos, aumentando a produtividade", diz Vale. Nos últimos cinco anos, a produtividade industrial americana avançou 9%, ante apenas 1,1% no Brasil.

Déficit. 
A balança comercial entre os dois países já reflete a mudança na competitividade. Em 2005, o Brasil tinha um superávit de US$ 9,9 bilhões com os americanos. No ano passado, esse resultado foi revertido em um déficit de US$ 8 bilhões.

Em 8 anos, energia sobe 246% no País e 35,3% nos EUA

Raquel Landim
O Estado de S.Paulo

Levantamento da MB Associados também mostra que gás natural custa US$ 15 por milhão de BTU, ante US$ 2,5 nos Estados Unidos 

SÃO PAULO - Os preços pagos na indústria pela energia elétrica subiram espantosos 246% no Brasil entre 2003 e 2011, enquanto a alta nos Estados Unidos foi de 35,3%, aponta levantamento da MB Associados.

O gás natural - outro importante insumo para a produção industrial - custa hoje US$ 15 por milhão de BTU (British Thermal Unit - medida padrão do setor) em Camaçari, na Bahia.

Em Henry Hub, na Louisiana, o gás natural está cotado a US$ 2,50 por milhão de BTU. Essa é a região usada para balizar os preços dos contratos futuros de gás na Bolsa de Nova York.

De acordo com Sérgio Vale, economista-chefe da MB Associados, os preços do gás natural devem se manter baixos nos Estados Unidos por causa do início da exploração das imensas jazidas de gás de xisto do país.

"Com insumos e mão de obra mais baratos, os Estados Unidos estão se tornando novamente atrativos para a produção industrial", disse Vale.

China. 
Não é só em relação ao Brasil que o remédio amargo da crise fortaleceu a indústria dos Estados Unidos. Estudo do Boston Consulting Group (BCG) prevê que em apenas cinco anos os custos de produção dos EUA e da China estarão praticamente equiparados.

O levantamento projeta um aumento de 15% a 20% para o salário médio na China por ano até 2015. Os chineses ainda vão receber menos que os americanos, mas a diferença não vai compensar gastos com transporte, aluguéis ou tarifas de importação.

A expectativa é que as unidades instaladas na China se voltem para o mercado local, que promete crescer à medida que o governo estimula o consumo.

Já os EUA começariam a recuperar parte do parque industrial que perderam para o gigante asiático. "A realocação industrial está em fase inicial e vai variar de setor para o setor, mas os EUA estão se tornando um país de baixo custo", diz o BCG. "Carolina do Sul, Tennessee e Alabama vão se transformar em alguns dos lugares de menor custo de produção do mundo."

Cresce participação de importações e exportações na indústria

Veja online
Com Agência Estado e Reuters

Percentual de produtos estrangeiros no mercado doméstico é de 19,8%, mesmo valor da proporção das exportações na produção fabril brasileira

 (Fotos: AFP e Imagine China) 
Setor de informática, eletrônicos e ópticos: 
forte presença de importados

Enquanto o governo brasileiro flerta com o protecionismo, a indústria nacional se internacionaliza cada vez mais. Tanto a participação dos importados no consumo de produtos industrializados no Brasil, como o uso de insumos de outros países na produção industrial doméstica cresceram acima de dois dígitos no ano passado em relação a 2010. Expansão semelhante foi apurada ainda na importância das exportações para o setor industrial.

Praticamente um em cada cinco produtos industriais vendidos no Brasil em 2011 foi fabricado em outro país e mais de um quinto dos insumos utilizados na indústria nacional são importados, aponta levantamento da Confederação Nacional da Indústria (CNI) divulgado nesta segunda-feira.

O porcentual de industrializados de outros países alcançou nível recorde de 19,8% no mercado brasileiro em 2011, com crescimento de 11,8% em relação aos 17,8% registrados em 2010. Já a participação de insumos importados na indústria subiu 13,6% no ano passado ante 2010, de 19,1% para 21,7%.

Os números, apesar de, à primeira vista, servirem de argumento para o clamor de alguns segmentos por barreiras e salvaguardas, revelam uma economia que lentamente ganha competitividade. Em resumo, os importados que oferecerem concorrência direta na economia, forçando os produtores nacionais a baixarem preços e melhorarem os produtos, são os mesmos que auxiliam os industriais a reduzirem custos.

Adicionalmente, se parte da indústria vê dificuldades crescentes para colocar produtos no exterior, outra parcela parece não ter do que reclamar. A participação das exportações na produção industrial brasileira aumentou 11,2% de 2010 para 2011, de 17,8% para 19,8%. A despeito do avanço, o coeficiente de exportação segue abaixo do recorde de 22,9% alcançado em 2004.

Setores – 
Entre os setores que aumentaram o peso da exportação em sua produção, os destaques foram a metalurgia, que saltou 29,6% – saindo de 23,3% em 2010 para 30,2% em 2011 –; máquinas e equipamentos, que teve alta de 22,8% – de 16,2% para 19,9% – e têxteis, que avançou 37,3% – de 9,9% para 13,6%.

Em termos de penetração das importações no mercado doméstico, os que observaram maior crescimento foram os setores de derivados de petróleo e combustíveis, com alta de 30,9% entre 2010 e 2011, de 17,8% para 23,3%; informática, eletrônicos e ópticos, que registrou crescimento de 12,3%, de 45,4% para 51%; e máquinas e equipamentos, com acréscimo de 13,2%, de 32,5% para 36,8%. Os números, além de revelarem o gargalo na capacidade de refino por parte da Petrobras, sinalizam que o país tem investido em sua capacidade produtiva, pois o uso intensivo dos equipamentos tende a provocar ganhos de eficiência na economia.

Apesar de ter avançado em suas relações com o exterior, o país ainda pode ser considerado protecionista. Pesquisa da Global Trade Alert (GTA), divulgada na semana passada, colocava o Brasil entre os 10 países mais protecionistas do mundo por ter anunciado 84 medidas de proteção desde novembro de 2008. A Argentina é a primeira colocada do ranking.

Sapato chinês desmontado escapa de taxação

Lino Rodrigues (*)
O Globo

Importação de componentes de calçados mais que triplicou desde 2009

JOÃO KOCHEMBORG
Trabalhadores na linha de produção da fábrica SS Shoes, 
em Candelária, no Rio Grande do Sul: 
empresa tem subsídio da prefeitura

SÃO PAULO. Os chineses mudaram de tática para colocar seus calçados no mercado brasileiro. Depois da sobretaxa de US$ 13,85 por par (válida desde março de 2010) e do fim das licenças automáticas para sapatos vindos de países asiáticos (outubro de 2011), empresas que operam no país (muitas delas comandadas por chineses) estão trazendo o produto desmontado da China para serem montados no Brasil. Os componentes e peças chegam principalmente pelos portos de Paranaguá, no Paraná, e de Itajaí, em Santa Catarina, e de lá seguem para pequenas empresas no interior do Rio Grande do Sul onde são montados e “nacionalizados”.

A prática não é ilegal, mas está sendo usada como forma de escapar da tarifa antidumping, segundo a Associação Brasileira da Indústria de Calçados (Abicalçados), que começou a se preocupar com o problema depois que a importação de cabedal (a parte de cima dos sapatos) saltou de 3,4 milhões de pares, em 2009, para 18,2 milhões em 2010 e 16,4 milhões de pares no ano passado. Além da China, os sapatos desmontados são trazidos do Paraguai, Vietnã, Indonésia e Alemanha, o que sugere que os chineses estão fazendo a chamada triangulação entre países para ludibriar a alfândega brasileira. Só em janeiro, o número de cabedais importados está próximo a 1 milhão de pares. Outras partes, que são os solados e outros componentes, somaram mais de 193 mil quilos.

Grandes empresas serão ouvidas em audiência
A denúncia de prática de elisão feita pela Abicalçados está sendo investigada pelo Departamento de Defesa Comercial (Decom), do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, desde agosto do ano passado. Amanhã, acontece a primeira audiência pública com importadores, empresas brasileiras e entidades do setor calçadista que prestarão esclarecimentos sobre a questão. Entre os convocados, estão companhias do porte da Alpargatas e os maiores fabricantes mundiais de material esportivo (Nike, Adidas, Puma, Reebook, Asics, Cambuci, New Balance e SkecchersSkechers), ligados ao Movimento para Livre Escolha (Move).

Em ofício, com data de 17 de fevereiro, o Decom convoca os envolvidos e questiona o aumento das importações de partes e componentes de calçados vindos de países sem tradição de exportação para o Brasil. Quer explicações também sobre a lógica econômica e comercial em desembarcar solas e cabedais em portos distintos do país, sendo que ambos são destinados à montagem do mesmo modelo e, normalmente, no mesmo local. É o que acontece nas importações da Fluxo Confecção, empresa com sede no bairro do Tatuapé, em São Paulo, que traz solado chinês pelo porto de Paranaguá e cabedal por Itajaí. A empresa, que tem como sócios dois chineses e usa as marcas Mooncity, Dafany, Fushida e Aclamado em seus sapatos e botas, também utiliza a Capital Trade, de Itajaí e com filiais em Paranaguá (PR) e Barueri (SP), como sua importadora de cabedal.

— Eles usam vários portos para evitar e escapar da fiscalização — diz Milton Cardoso, presidente da Abicalçados e da Vulcabrás, outra gigante do setor.

Segundo Cardoso, as importações de partes e componentes da China não é mais exclusividade de pequenos importadores comandados por chineses, mas de grandes empresas nacionais que estão utilizando as mesmas práticas para concorrer com o sapato chinês mais barato.

Imposto de importação também é menor
Sem citar nomes, Cardoso afirma que essas empresas, além de burlar a sobretaxa de US$ 23,83 por par, estão pagando menos imposto de importação: nos calçados montados a tarifa é de 35%, e, nos desmontados, 18%. Pelos cálculos da Abicalçados, cerca de 24 milhões de pares de calçados ganharam o mercado brasileiro nos últimos meses.

— Além de pagar menos impostos, muitas empresas que estão montado esses sapatos nas cidades gaúchas recebem subsídios das prefeituras — aponta Cardoso.

É o caso da SS Shoes, de Candelária, no Rio Grande do Sul. Operando desde janeiro, com subsídios da prefeitura local, a empresa monta 2,3 mil botas da marca Mooncity, que são embarcadas diariamente. O caminhão descarrega a mercadoria no centro de distribuição da Fluxo Confecção em São José dos Pinhais, na região metropolitana de Curitiba. Com 106 trabalhadores, o diretor de produção da SS Shoes, Irênio Segatto, espera aumentar o número de funcionários e o volume de produção nos próximos meses.

— Nossa expectativa é ter mais funcionários e aumentar a produção — disse ele, que confirmou que a origem dos produtos é a China.

Procurada, a Alpargatas disse, por meio de sua assessoria, que não pratica a triangulação e que todas as suas importações seguem a legislação. A empresa ressalta ainda que a decisão de usar vários portos está “associada a diversos fatores operacionais e de inteligência logística” e que jamais desembarcou cabedal por um porto e solado por outro. Já o Move, que representa os fabricantes de material esportivo, disse que as empresas estão “100% seguras” em relação a suas importações e que o governo não irá encontrar nenhuma irregularidade em suas operações de importação.

— As empresas assinaram um documento público se comprometendo com a legalidade de suas operações — disse Gumercindo Moraes Neto, diretor executivo do Move.

(*) COLABOROU Tatiana Farah

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Setor têxtil vive extremos da indústria nacional
Folha de São Paulo

 
O polo têxtil de Americana (SP), o maior da América Latina, reflete a crise no setor causada pelo aumento das importações, com queda da produção e corte de pessoal. A exceção está em Araraquara, na Lupo, que opera com 100% da capacidade e até criou vagas.

Apesar da exceção, retrato do setor é de demissões e ociosidade, informa reportagem de Tatiana Freitas e Leandro Martins, publicada na Folha deste domingo.

Para o economista Robson Gonçalves, consultor e professor da FGV, a indústria têxtil brasileira está em "final de ciclo" e deve ser substituída por outras atividades.

Custo do trabalho na indústria sobe 150%

Fernando Dantas
O Estado de S.Paulo

Alta da mão de obra, desde 2003, se deu em relação aos competidores internacionais 

RIO - O custo da mão de obra na indústria brasileira teve aumento de 150% em relação ao dos parceiros comerciais do País entre 2003 e 2009. Esse dado impressionante, que explica muito da crise pela qual passa a indústria nacional, consta de um trabalho recente do economista Regis Bonelli, do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre), da Fundação Getúlio Vargas (FGV) no Rio.

"A produtividade do trabalho teria de ter crescido a uma taxa cavalar para compensar o aumento do custo unitário do trabalho", explica Bonelli.

O custo unitário do trabalho é o custo salarial, em moeda internacional, por unidade de produção. De forma simplificada, é o custo do trabalhador brasileiro comparado ao de outros países. É, portanto, um dos principais componentes da competitividade internacional, especialmente em setores que empregam muita mão de obra, como a indústria.

O custo do trabalho pode ser calculado em dólares, mas Bonelli utilizou o câmbio em relação a uma cesta de moedas ponderada pela participação dos países nas exportações brasileiras - o que, evidentemente, mede melhor a competitividade externa da produção nacional.

Na economia brasileira como um todo, o custo unitário do trabalho subiu 120% entre 2003 e 2009. Na agropecuária, a alta foi de 82%, e no setor de serviços, de 114%. O último dado do economista é de 2009 porque ele teve de usar as Contas Nacionais em base anual (diferente da trimestral), que são divulgadas com quase dois anos de defasagem.

Mesmo tomando-se como ponto inicial o ano de 2000, quando o câmbio estava bem mais valorizado do que em 2003, o encarecimento de mão de obra até 2009 é impressionante: 72% para a economia como um todo, 57% para a agropecuária, 61% para os serviços, e 93% para a indústria.

O estudo de Bonelli mostra que foi de fato a valorização do câmbio real (que leva em conta a diferença entre as inflações dos países) que encareceu o custo do trabalho no Brasil nos últimos anos. O pesquisador verificou que o rendimento médio subiu apenas 0,6% ao ano acima do deflator implícito do PIB, um índice de inflação muito abrangente derivado das Contas Nacionais. Desta forma, não foram aumentos salariais acima da inflação brasileira os principais responsáveis por tornar a mão de obra nacional tão cara.

Outro problema da alta do custo do trabalho foi o mau desempenho da produtividade nos últimos anos. Se os trabalhadores estivessem ganhando mais, quando se mede o seu rendimento em moeda estrangeira, mas ao mesmo tempo estivessem produzindo muito mais, a competitividade não seria tão comprometida. Mas não foi isso que aconteceu.

Média. 
A produtividade, que mede o quanto se produz por trabalhador, cresceu a uma média de apenas 0,6% entre 2000 e 2009. Mas esse desempenho geral oculta números ruins para a indústria, cuja produtividade caiu a uma média de 0,8% ao ano de 2000 a 2009.

Os serviços tiveram um aumento anual de 0,5%, próximo da economia como um todo, enquanto a agropecuária apresentou um ótimo desempenho: aumento de produtividade a um ritmo médio anual de 4,3%.

Essas divergências explicam boa parte da diferença na evolução do custo unitário do trabalho dos diversos setores. Quanto pior a produtividade, mais caro é produzir para um mesmo nível de salário.

O custo unitário do trabalho, porém, não mede a rentabilidade de cada setor. Mesmo que fique muito mais caro produzir, a rentabilidade pode não cair, ou cair menos do que se espera, se o preço dos produtos aumentar muito.

O problema, porém, é que os preços de cada setor estão submetidos a condições muito diferentes. Nos serviços, que quase não sofrem concorrência internacional, é normal repassar o aumento dos custos aos preços. Já a agropecuária, além dos ganhos de produtividade, foi beneficiada pela enorme alta da cotação das commodities na esteira da demanda asiática.

A indústria, porém, não só sofre a concorrência internacional, como viu seus preços serem comprimidos pelo crescimento da produção chinesa e a redução da demanda dos países avançados, por causa da crise.

"A rentabilidade total das exportações caiu 19% entre 2003 e 2011, mas a da indústria de transformação caiu 35%, com destaque para material eletrônico e comunicações, com queda de mais de 60%", resume Rodrigo Branco, economista da Fundação Centro de Estudos do Comércio Exterior (Funcex).

Protecionismo não é saída para indústria

Editorial
O Globo

Investir contra o acordo com o México é não entender o mundo atual

O Brasil tem hoje um considerável mercado de consumo, chegando a estar entre os três primeiros em diversos segmentos, como o de cosméticos e computadores, por exemplo. Essa demanda doméstica é um atrativo para a indústria local, porque a proximidade com o consumidor ajuda a conhecê-lo melhor. Além disso, a economia brasileira está inserida em um mercado regional que se estende além das nossas fronteiras, o que é uma vantagem adicional.

A amplitude do território brasileiro também possibilita a realocação de indústrias em busca de áreas que lhes sejam mais favoráveis, pelo acesso à infraestrutura, oferta de mão de obra, benefícios fiscais, vizinhança a centros de pesquisa e desenvolvimento tecnológico, localização de fornecedores, etc.

O país é quase autossuficiente em recursos naturais e tem uma produção agropecuária invejável, em condições de ser transformada.

Por tudo isso, o Brasil deveria ser um terreno fértil para a expansão da indústria. E não tem sido — ao menos no seu pleno potencial — porque não é possível se pensar em produzir como se ainda estivéssemos em um ambiente fechado.

A questão é menos índice de nacionalização e mais qualidade e preço, para se ganhar competitividade em escala mundial. O mundo se transformou, passou a ser competitivo, e mesmo os que estão muito distantes são capazes de enxergar e aproveitar oportunidades nos quatro cantos do planeta.

Mas a Brasília atual tem a cabeça nas décadas de 70 e 80. Prova é a ameaça de romper o acordo automotivo com o México, porque a balança comercial, de superavitária, inverteu o sinal. Burocratas brasileiros exigiram que os mexicanos aumentassem a proporção de autopeças latino-americanas nos veículos que montam e exportam para cá.

Delírio anacrônico. O resultado foi um acordo em torno de cotas e do aumento da nacionalização, por etapas, em alguns anos. Pesou a importância do mercado brasileiro.

Mas a postura brasileira desconhece que, há tempos, a indústria mundial opera em cadeias globais de suprimento. Foi por isso que o terremoto e tsunami japoneses criaram dificuldades em linhas de montagem na indústria automobilística e de produtos eletrônicos ao redor do planeta.

Como país retardatário, a indústria brasileira nasceu protegida, em um modelo de substituição de importações calcado em barreiras quase intransponíveis (que chegava à proibição pura e simples de importar, o que não é mais admitido pelos acordos internacionais dos quais o Brasil se tornou signatário).
A produção local continua sendo favorecida pela proximidade do mercado e por tarifas que oneram as importações, ainda necessárias para compensar fatores que compõem o chamado custo Brasil, sobre os quais os produtores não têm qualquer ingerência.

O ciclo do protecionismo como política industrial, marca do Século XX, esfumaçou-se.

O México deu a volta por cima, na desindustrialização causada pelo surgimento da China como potência econômica de baixos custos de produção, com a economia aberta: segundo a Organização Mundial do Comércio (OMC), a tarifa média de importação mexicana é de 5,56%, contra 10,47% da brasileira, dados citados pela revista inglesa “The Economist”.

O câmbio é um problema, porém ele é efeito de várias causas. A solução efetiva está no aprimoramento das condições de competição brasileiras. Menos impostos, legislação trabalhista moderna, melhor infraestrutura, menos burocracia, mão de obra mais bem adestrada.

Pedi, e não recebereis

Celso Ming  
O Estado de S.Paulo

Dá para entender a impaciência dos dirigentes da indústria com as soluções tipo "meia-boca" apresentadas pelo governo, destinadas a conter o esvaziamento do setor. Mas eles também são responsáveis por essa mediocridade de políticas. Aceitam e aplaudem esse jogo.

Esses dirigentes criticam todos os dias o tratamento à base de cosméticos proporcionados pelo governo, mas, quando vêm, as acabam aceitando sob o argumento de que, afinal, é melhor isso do que nada.

Os dirigentes da indústria têxtil, por exemplo, aplaudiram a desoneração das contribuições sociais. E, semanas depois, reclamaram de que foi pouco. Agora cobram contribuições extras dos seus associados, de R$ 600 milhões neste ano, declaradamente para financiar consultorias e iniciativas de defesa comercial. Sabem que nada disso melhorará sua competitividade perdedora nem acrescentará um dólar sequer nas exportações. No entanto, insistem nessas iniciativas, que dão impressão de que "estão fazendo alguma coisa". Não centralizam esforços no que poderia melhorar de fato suas condições de negócio: reforma tributária; investimento em infraestrutura; derrubada de custos financeiros.

Na semana passada, o ministro de Minas e Energia, Edison Lobão, avisou que a renegociação das concessões das hidrelétricas, que estão para vencer, não contribuirá para baratear a tarifa - a quarta mais cara do mundo. Surpreendentemente, nenhum dirigente industrial mostra indignação contra essa passividade.

Toda a chamada política industrial está funcionando à base de improvisações, paliativos e "cala-bocas", em geral distribuídos para quem grita mais alto. Nada vem que, de fato, enfrente o problema principal: incapacidade da indústria brasileira de tirar proveito de um mercado consumidor interno que cresce quase o dobro do PIB, num ambiente inédito de pleno emprego e abundância nunca vista de crédito externo a juros rastejantes.

O governo alardeia que passou a exigir conteúdo nacional nos fornecimentos da Petrobrás, política que deveria priorizar interesses dos produtores. No entanto, o mesmo governo impõe política de preços dos combustíveis às custas do caixa da Petrobrás que, de cambulhada, também arrebenta o setor do etanol, até há pouco entendido como altamente competitivo.

A indústria acha que sabe fazer lobby e pressionar o governo, mas se limita quase sempre a pedir mais câmbio e mais isenções tributárias, mesmo sabendo que não há condições práticas de que o governo possa ir fundo nessas concessões.

A que câmbio, por exemplo, a indústria recobraria sua competitividade? O ex-ministro Luiz Carlos Bresser-Pereira, tem opinião formada sobre isso. Ele diz que, "no atual estado da arte", abaixo de R$ 2,50 por dólar não se garante futuro para a indústria. E, no entanto, um câmbio à altura dos R$ 1,90 já parece impraticável para a economia do Brasil. Não é por faltar câmbio que o moderno grupo Coteminas está fechando fábricas no Nordeste.

Se pressões por mais câmbio não têm futuro, então é preciso voltar ao ataque às questões de fundo, que constituem o chamado custo Brasil. Mas o empresário prefere aplicações de doses de morfina a enfrentar o doloroso processo da quimioterapia que salvaria seu negócio.

Trabalho no Brasil está na lanterna

Fabiana Ribeiro
O Globo

Brasileiro fica no 15º lugar em ranking de produtividade da AL, emperrando crescimento


RIO - O crescimento econômico do Brasil está em xeque. Produtividade baixa, investimento insuficiente, falta de mão de obra qualificada e gargalos estruturais (de portos a aeroportos) freiam a expansão da sexta economia do planeta, dizem especialistas. Levantamento com 17 países da América Latina mostra que a produtividade do trabalhador brasileiro — medida pelo quociente entre Produto Interno Bruto (PIB, conjunto de bens e serviços produzidos no país) e pessoal ocupado — está entre as mais baixas: na 15 colocação, à frente só de Bolívia e Equador, segundo dados da instituição de pesquisa americana The Conference Board. Perde para países como Argentina (produtividade de US$ 37.589 por trabalhador), Chile (US$ 35.864), Colômbia (US$ 23.208), México (US$ 35.579), Venezuela (US$ 31.054) e Peru (US$ 24.054).

Com uma produtividade de US$ 19.764 por trabalhador no ano passado, o Brasil vai ficando para trás: de um ano para o outro, é estimado um avanço de 1,4% — abaixo da média da América Latina (2,1%) e aquém da mundial (2,5%). Projeta-se para a China uma produtividade de US$ 16,7 mil em 2011 — menor do que a do Brasil, mas é um salto de quase 9% em um ano. Na Índia, o indicador sobe 5,2% e na Rússia, 4,4%. Nos países ricos, a produtividade alcança US$ 105 mil nos EUA e US$ 78 mil na Alemanha.

— Esse indicador é a síntese da baixa qualificação do trabalhador brasileiro, dos gargalos estruturais e do baixo investimento. Também está refletido nesses números o modelo econômico do país, calcado na produção decommodities. Não investimos em produtos de maior valor agregado. Nessas condições, não há como crescer 4%, 4,5% de forma sustentada — analisou Marco Tulio Zanini, professor da Fundação Getulio Vargas (FGV).

Os dados do The Conference Board apontam também que a produtividade média do brasileiro é quase 20% (18,7%) da do trabalhador americano.Grosso modo, é como se o o trabalhador daqui demorasse quase cinco dias para produzir o mesmo do que quem está nos EUA.

— A produtividade se ressente da defasagem de investimento e da educação da população. E, em tempos de crise no mundo, isso faz com que o país perca competitividade global — disse Flávio Castelo Branco, gerente de Políticas Econômicas da Confederação Nacional da Indústria (CNI), acrescentando que o ambiente institucional do país traz atrasos. — Reformas estruturais, apesar de serem nomes desgastados, são fundamentais para a produtividade.

Com economia fortemente baseada nas commodities, o Brasil observa, contudo, um crescimento dos serviços — que já responde por mais de 60% do PIB. Entretanto, esse tipo de setor se expande de uma forma diferente do que se observou nos países desenvolvidos. E, assim, o segmento pouco contribui para ampliar a produtividade do trabalho.

— É um setor que, para atender à demanda das classes emergentes, cresceu nos serviços simples voltados para as famílias e no comércio. Atividades que não exigem grandes especializações e empregam muita mão de obra — explicou José Ronaldo Souza Junior, economista do Ipea.

— Ao contrário de países como a China, nosso crescimento recai para serviços de baixo valor. A China se voltou também para tecnologia da informação, que requer grandes investimentos em formação. Para se ter ideia, a qualidade dos serviços brasileiros é ruim. Pedir uma simples pizza pode mostrar como essa qualidade é péssima. E isso também tem a ver com produtividade — disse Zanini.

O economista Naércio Aquino Menezes Filho, professor do Instituto de Ensino e Pesquisa, ressalta que a produtividade do trabalho é afetada pela escassez da mão de obra, que faz com que os salários de determinadas funções subam acima da própria produtividade. Salários elevados afetam os preços do produto final — tiro direto na produtividade, cuja máxima é produzir mais com menos.

— O Brasil cresce a partir da força de seus trabalhadores. Mas não há mais como crescer empregando mais gente. Com a taxa de desemprego perto do pleno emprego, vai faltar gente para fazer o país crescer. Se o consumo continuar crescendo, pode ser preciso importar profissionais para vários segmentos. Ou seja: não se nota somente a falta de pessoal qualificado. O problema se agrava com a falta de pessoal.

Saída é mais ensino e menos burocracia
Um dos caminhos, segundo Menezes Filho, para ampliar a produtividade vai além da política de juros ou dólar. É preciso pensar no país a longo prazo, o que inclui investimento na qualidade do ensino público — não somente sua universalização —, menos burocracia no ambiente empresarial, reformas trabalhistas e tributárias, investimentos em infraestrutura e mais inovação:

— Parcela grande de funcionários das empresas está resolvendo problemas: é gente que não produz, mas resolve questões jurídicas, trabalhistas... Apenas 5% das empresas brasileiras gastam em pesquisa. É muito pouco. Assim como são poucas as que empregam mestres e doutores. Saltos de crescimento atingem países que inovam.

Para compensar a falta de qualificação, há empresas que investem nos funcionários. São exceções, frisa Menezes Filho. Caso da Chemtech que tem uma universidade interna. Além de treinamentos para projetos, oferece especializações e mestrados. Em 2011, foram 5.500 vagas em treinamentos para seus 1.300 funcionários.

— Um engenheiro quando se forma, mesmo sendo elétrico ou mecânico, tende a ser generalista. Ele não traz conhecimentos específicos para atuar numa área específica. Atentos a isso, a companhia investe na qualificação, em cursos específicos. O investimento em educação é de 1,6% do faturamento. Ganhamos em produtividade e qualidade — concluiu Cristina Maretti, coordenadora de RH da Chemtech.

Um setor que não aceita mais remendos

Roberto Luis Troster
Valor Econômico

Alguns números insinuam que há espaço para aprimoramentos na gestão da economia brasileira. O Brasil está em último lugar no crescimento observado e no estimado para este ano para os seis maiores países de América Latina, de acordo com a revista “The Economist”. A indústria brasileira vive uma situação mais grave, as projeções do Banco Central (BC) apontam que vai continuar perdendo participação no Produto Interno Bruto (PIB), nos próximos anos. Dois fatores, o custo do crédito e o preço do dinheiro, são os maiores responsáveis e sua origem está no imediatismo.

O setor do crédito apresenta sinais dissonantes. Por um lado é sofisticado, implantou o cadastro positivo – que melhora sua capacidade de emprestar-, é sólido, tem uma tecnologia de ponta e uma rede de abrangência nacional que está se expandindo; no ano que passou, apenas um banco abriu mais de mil novas agências. Por outro, apresenta uma oferta de financiamento instável – os volumes, as taxas e a composição variam consideravelmente, e ineficiente – e as margens praticadas são as segundas mais altas do mundo. Em janeiro, mesmo com a queda da Selic e da diminuição do desemprego, o crédito ficou escasso, mais caro e a inadimplência cresceu.

A concentração é apontada como a responsável pela situação, mas não é o caso. Há dezenas de sistemas bancários mais concentrados que operam com taxas bem mais baixas. Se eles podem, por que não pode o Brasil? Apesar de alguns abusos localizados, o que explica, após a solicitação de sua redução para “aumentar a concorrência” do setor, que a Caixa Econômica Federal cobre 150% ao ano em média pelo cheque especial e o Banco do Brasil 172%, mais ainda? Não querem? Ou não conseguem emprestar por menos? Parece ser esse o problema.

Enquanto o crédito caro e instável limita o potencial da economia, o preço do dinheiro elevado o encolhe e reduz os horizontes do país. A dinâmica é simples: as taxas elevadas atraem recursos do resto do mundo, que apreciam o real, recebem juros pagos pelo contribuinte brasileiro e vão embora ao primeiro sinal de perigo sem deixar benefícios. O que agrava mais é que o câmbio valorizado tira competitividade da indústria local e com isso o país acaba importando o que anteriormente exportava, com consequências danosas. Resumindo, perdem-se empregos e impostos sem nada em troca.

As políticas monetárias americana e europeia, o “tsunami financeiro”, agravam mais o quadro. É fato, a Selic foi reduzida para 9,75%, mas apenas para operações de um dia, a taxa longa, apesar das boas intenções, continua no mesmo patamar de 11% desde o começo do governo Dilma. Só vai cair quando aumentar a consistência intertemporal das ações do governo com uma política adequada para o setor. Existem outros países com indicadores macroeconômicos semelhantes que conseguem juros e inflação mais baixos, por que não o Brasil? Insiste-se aqui, numa solução que só agrava mais a situação.

As consequências do crédito caro e do preço do dinheiro elevado são graves e os dois problemas estão inter-relacionados. As distorções na estrutura do crédito (pouco sensível a risco, volatilidade, instabilidade e indexação) diminuem a potência da atuação do Banco Central elevando a taxa de juros neutra da economia. Uma oferta de crédito mais estável e eficiente permitiria reduzir o patamar do preço do dinheiro e expandir o volume de financiamentos sem pressionar a inflação.

Para resolver o quadro acima o governo anunciou algumas medidas (leia-se mais remendos). Essa é justamente a causa dos problemas vividos, a miopia. Falta uma estratégia rigorosa e consistente, uma política para o setor financeiro. Vive-se um quadro que guarda semelhanças com o fim do governo JK, em que a dinâmica do crescimento estava exaurindo-se. A solução proposta então foi de um novo quadro institucional para a moeda. O mesmo acabou sendo implantado só em 1964, mas sua origem é de seis anos antes. Com o novo marco, o crédito se expandiu, a inflação caiu e o crescimento aconteceu. Os bancos e o país ganharam com isso, e muito.

Com o passar dos anos, o modelo de 1964 se esgotou e a Constituição de 1988 determinou uma nova lei para o sistema financeiro nacional. Houve um debate intenso e depois de alguns anos, a necessidade de uma nova estrutura normativa foi eliminada da Carta Magna brasileira. A consequência é que o quadro institucional financeiro, que tem quase meio século, com alguns ajustes no período da hiperinflação, é inadequado para o país. Teve sua serventia para preservar a poupança pública e a moeda nacional, numa época em que solidez era fundamental. Não é mais o caso.

Os bancos no país, além de solvência e rentabilidade, necessitam também estabilidade e eficiência. Para tanto, é urgente uma mudança no paradigma financeiro, um que agregue mais valor. É hora de reinventar o crédito. Uma oferta de financiamentos estável e eficiente demanda um quadro institucional adequado a uma economia aberta e sofisticada que atenda os interesses do país. Reformar, como foi idealizado por JK, está na ordem do dia.

Algumas ações preliminares poderiam ser adotadas, como por exemplo, dar mais transparência ao crédito. Atualmente, a taxa média calculada é feita para o custo de dinheiro sobre o estoque de crédito e não sobre o volume de concessões e não inclui o financiamento do cartão, o que subestima o tamanho das dificuldades. Usa-se também a taxa mês para o custo do crédito e anual para o custo do dinheiro. Dessa forma, a percepção das distorções fica mais prejudicada ainda. Um maior conhecimento dos problemas leva a soluções melhores.

O potencial do Brasil é fato insofismável. Todavia, a condução da economia incompatível com a realidade, foca-se demais no PIB de 2012 e em ajustes pontuais e esquece-se de que o relevante é a velocidade de cruzeiro da economia nos próximos anos. Há a necessidade de uma agenda abrangente e ambiciosa, de uma gestão pública estratégica, rigorosa e consistente, que inclua, entre outras coisas, uma política financeira, que propicie lucros consistentes aos bancos e desenvolvimento ao país. O Brasil pode mais!

Pedras no caminho

Míriam Leitão
O Globo 

Não há tarefas fáceis na política econômica. Conter o tsunami de dólares usando regras, impostos, pedágios, quarentenas ou a compra da moeda americana no mercado é muito difícil. Uma forma de reduzir a atratividade de capitais de curto prazo seria a queda forte dos juros, e isso é o que se busca, mas devagar e a médio e longo prazos para não realimentar a inflação. Além disso, está ainda sem resolver o dilema da remuneração da poupança.

O Ministério da Fazenda está estudando como enfrentar o limite de queda dos juros produzido pela remuneração fixa da poupança, que é atrelada à Taxa de Referência (TR) mais 6% ao ano. É um rendimento pequeno, mas levando-se em conta que a caderneta de poupança não tem imposto, acaba representando um pouco mais. Qualquer mudança nesse ponto, no entanto, esbarra em vários problemas. Um deles é que esta é a forma de poupança que mais atrai o pequeno aplicador, o que não tem outras opções ou maiores informações. O segundo é que esse investidor sofreu um golpe que deixou um trauma difícil de superar quando teve seu dinheiro preso no Plano Collor. Hoje, qualquer decisão que possa ser entendida como “mexer na poupança” é vista como uma heresia. Em 2009, quando os juros chegaram no nível mais baixo dos últimos anos, 8,75%, o Ministério da Fazenda chegou a lançar uma proposta de baixar um imposto sobre as maiores aplicações. Deu muita crítica e o assunto foi arquivado. Agora, com luvas de pelica, voltam a estudar o tema. Que não tomem nenhuma medida apressada.

Mas, mesmo que caia bastante, a taxa de juros que está hoje em 10,5% continuará alta demais num mundo de juros zero. O Brasil fica sendo, com esses juros, um local irresistível para investimento. Representa um risco muito menor de calote do que está expresso na nota imprecisa que recebe das agências, e remunera o capital estrangeiro com uma das maiores taxas do mundo. Para instituições aqui sediadas, tomar empréstimo no exterior para reemprestá-lo no Brasil é uma tentação irresistível. O Banco do Brasil acabou de fazer uma captação assim para oferecer crédito para pessoas e empresas internamente. Mesmo com o IOF incidindo sobre toda operação de empréstimos externos com menos de três anos, vale a pena pelas altas taxas cobradas em qualquer modalidade de crédito no Brasil.

O tsunami se forma não apenas pela montanha de dólares e euros emitidos pelos bancos centrais dos Estados Unidos e Europa. Acontece por outros desequilíbrios da economia brasileira, como o custo de capital, que abre possibilidades de inúmeras operações lucrativas para bancos e grandes empresas, sejam nacionais ou estrangeiras.

Se dinheiro tivesse carimbo e destino conhecido, seria mais fácil. O governo poderia estabelecer que se ele fosse especulativo não poderia entrar; se fosse para o setor produtivo poderia. Mas como definir um dinheiro captado por um banco comercial — como o fez o BB — para reduzir o custo de oferta de empréstimos no mercado brasileiro? Isso será mais dólares entrando no país, ajudando a apreciar a moeda brasileira, mas ao mesmo tempo alimenta o consumo que tem mantido a economia com algum crescimento no meio da crise externa.

Um dos principais problemas da política econômica brasileira hoje é como evitar a desvalorização do dólar, mas isso está fora da nossa jurisdição. Há inúmeros fatores que o Brasil não controla e que afetam o preço da moeda americana. Tudo o que se pode fazer tem sido feito, mas o dólar sobe e desce puxado ou empurrado por eventos sobre os quais o governo brasileiro não tem qualquer influência. Uma onda de pânico faz com que toda essa massa de liquidez que anda pelo mundo corra para títulos do Tesouro americano, e aí o dólar sobe abruptamente provocando desequilíbrios; uma onda de otimismo faz com que os capitais procurem outros mercados, diminua a aversão ao risco, como se diz no mercado, e isso faz o real se apreciar fortemente.

Além de impostos e outras barreiras normativas, o que mais o país pode fazer no curto prazo? De vez em quando as autoridades fazem declarações ameaçadoras do tipo: “não assistiremos impassíveis” ou “temos arsenal e o usaremos”. Isso produz alguma pequena ondulação, para logo depois tudo voltar para a tendência indesejada. No “Financial Times” de sexta-feira, uma das matérias era sobre a decisão do Brasil de travar “uma guerra” contra a “guerra cambial”. Mas a munição pode ser mais do mesmo protecionismo com que o Brasil enfrentou em sua história, recorrentemente, qualquer ameaça sobre a indústria.

As soluções são de mais longo prazo e conhecidas — aumentar a taxa de poupança, reduzir o custo Brasil, diminuir os juros de equilíbrio, derrubar o déficit. Tudo faz parte daquela lista de tarefas que o Brasil vem adiando.

Neste momento, o que acontece é que quando o mar de liquidez sobe o barquinho da moeda brasileira também sobe. Como o país teve de fato avanços o real se apreciaria mesmo, mas parte da alta é efeito da grande onda que se formou. E não podemos deter a onda. Surfá-la não será fácil. Os dilemas da política econômica hoje são complexos e o arsenal do governo é de armas obsoletas ou muito óbvias.