Fernando Dantas
O Estado de S.Paulo
Alta da mão de obra, desde 2003, se deu em relação aos competidores internacionais
RIO - O custo da mão de obra na indústria brasileira teve aumento de 150% em relação ao dos parceiros comerciais do País entre 2003 e 2009. Esse dado impressionante, que explica muito da crise pela qual passa a indústria nacional, consta de um trabalho recente do economista Regis Bonelli, do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre), da Fundação Getúlio Vargas (FGV) no Rio.
"A produtividade do trabalho teria de ter crescido a uma taxa cavalar para compensar o aumento do custo unitário do trabalho", explica Bonelli.
O custo unitário do trabalho é o custo salarial, em moeda internacional, por unidade de produção. De forma simplificada, é o custo do trabalhador brasileiro comparado ao de outros países. É, portanto, um dos principais componentes da competitividade internacional, especialmente em setores que empregam muita mão de obra, como a indústria.
O custo do trabalho pode ser calculado em dólares, mas Bonelli utilizou o câmbio em relação a uma cesta de moedas ponderada pela participação dos países nas exportações brasileiras - o que, evidentemente, mede melhor a competitividade externa da produção nacional.
Na economia brasileira como um todo, o custo unitário do trabalho subiu 120% entre 2003 e 2009. Na agropecuária, a alta foi de 82%, e no setor de serviços, de 114%. O último dado do economista é de 2009 porque ele teve de usar as Contas Nacionais em base anual (diferente da trimestral), que são divulgadas com quase dois anos de defasagem.
Mesmo tomando-se como ponto inicial o ano de 2000, quando o câmbio estava bem mais valorizado do que em 2003, o encarecimento de mão de obra até 2009 é impressionante: 72% para a economia como um todo, 57% para a agropecuária, 61% para os serviços, e 93% para a indústria.
O estudo de Bonelli mostra que foi de fato a valorização do câmbio real (que leva em conta a diferença entre as inflações dos países) que encareceu o custo do trabalho no Brasil nos últimos anos. O pesquisador verificou que o rendimento médio subiu apenas 0,6% ao ano acima do deflator implícito do PIB, um índice de inflação muito abrangente derivado das Contas Nacionais. Desta forma, não foram aumentos salariais acima da inflação brasileira os principais responsáveis por tornar a mão de obra nacional tão cara.
Outro problema da alta do custo do trabalho foi o mau desempenho da produtividade nos últimos anos. Se os trabalhadores estivessem ganhando mais, quando se mede o seu rendimento em moeda estrangeira, mas ao mesmo tempo estivessem produzindo muito mais, a competitividade não seria tão comprometida. Mas não foi isso que aconteceu.
Média.
A produtividade, que mede o quanto se produz por trabalhador, cresceu a uma média de apenas 0,6% entre 2000 e 2009. Mas esse desempenho geral oculta números ruins para a indústria, cuja produtividade caiu a uma média de 0,8% ao ano de 2000 a 2009.
Os serviços tiveram um aumento anual de 0,5%, próximo da economia como um todo, enquanto a agropecuária apresentou um ótimo desempenho: aumento de produtividade a um ritmo médio anual de 4,3%.
Essas divergências explicam boa parte da diferença na evolução do custo unitário do trabalho dos diversos setores. Quanto pior a produtividade, mais caro é produzir para um mesmo nível de salário.
O custo unitário do trabalho, porém, não mede a rentabilidade de cada setor. Mesmo que fique muito mais caro produzir, a rentabilidade pode não cair, ou cair menos do que se espera, se o preço dos produtos aumentar muito.
O problema, porém, é que os preços de cada setor estão submetidos a condições muito diferentes. Nos serviços, que quase não sofrem concorrência internacional, é normal repassar o aumento dos custos aos preços. Já a agropecuária, além dos ganhos de produtividade, foi beneficiada pela enorme alta da cotação das commodities na esteira da demanda asiática.
A indústria, porém, não só sofre a concorrência internacional, como viu seus preços serem comprimidos pelo crescimento da produção chinesa e a redução da demanda dos países avançados, por causa da crise.
"A rentabilidade total das exportações caiu 19% entre 2003 e 2011, mas a da indústria de transformação caiu 35%, com destaque para material eletrônico e comunicações, com queda de mais de 60%", resume Rodrigo Branco, economista da Fundação Centro de Estudos do Comércio Exterior (Funcex).