Editorial
O Globo
Investir contra o acordo com o México é não entender o mundo atual
O Brasil tem hoje um considerável mercado de consumo, chegando a estar entre os três primeiros em diversos segmentos, como o de cosméticos e computadores, por exemplo. Essa demanda doméstica é um atrativo para a indústria local, porque a proximidade com o consumidor ajuda a conhecê-lo melhor. Além disso, a economia brasileira está inserida em um mercado regional que se estende além das nossas fronteiras, o que é uma vantagem adicional.
A amplitude do território brasileiro também possibilita a realocação de indústrias em busca de áreas que lhes sejam mais favoráveis, pelo acesso à infraestrutura, oferta de mão de obra, benefícios fiscais, vizinhança a centros de pesquisa e desenvolvimento tecnológico, localização de fornecedores, etc.
O país é quase autossuficiente em recursos naturais e tem uma produção agropecuária invejável, em condições de ser transformada.
Por tudo isso, o Brasil deveria ser um terreno fértil para a expansão da indústria. E não tem sido — ao menos no seu pleno potencial — porque não é possível se pensar em produzir como se ainda estivéssemos em um ambiente fechado.
A questão é menos índice de nacionalização e mais qualidade e preço, para se ganhar competitividade em escala mundial. O mundo se transformou, passou a ser competitivo, e mesmo os que estão muito distantes são capazes de enxergar e aproveitar oportunidades nos quatro cantos do planeta.
Mas a Brasília atual tem a cabeça nas décadas de 70 e 80. Prova é a ameaça de romper o acordo automotivo com o México, porque a balança comercial, de superavitária, inverteu o sinal. Burocratas brasileiros exigiram que os mexicanos aumentassem a proporção de autopeças latino-americanas nos veículos que montam e exportam para cá.
Delírio anacrônico. O resultado foi um acordo em torno de cotas e do aumento da nacionalização, por etapas, em alguns anos. Pesou a importância do mercado brasileiro.
Mas a postura brasileira desconhece que, há tempos, a indústria mundial opera em cadeias globais de suprimento. Foi por isso que o terremoto e tsunami japoneses criaram dificuldades em linhas de montagem na indústria automobilística e de produtos eletrônicos ao redor do planeta.
Como país retardatário, a indústria brasileira nasceu protegida, em um modelo de substituição de importações calcado em barreiras quase intransponíveis (que chegava à proibição pura e simples de importar, o que não é mais admitido pelos acordos internacionais dos quais o Brasil se tornou signatário).
A produção local continua sendo favorecida pela proximidade do mercado e por tarifas que oneram as importações, ainda necessárias para compensar fatores que compõem o chamado custo Brasil, sobre os quais os produtores não têm qualquer ingerência.
O ciclo do protecionismo como política industrial, marca do Século XX, esfumaçou-se.
O México deu a volta por cima, na desindustrialização causada pelo surgimento da China como potência econômica de baixos custos de produção, com a economia aberta: segundo a Organização Mundial do Comércio (OMC), a tarifa média de importação mexicana é de 5,56%, contra 10,47% da brasileira, dados citados pela revista inglesa “The Economist”.
O câmbio é um problema, porém ele é efeito de várias causas. A solução efetiva está no aprimoramento das condições de competição brasileiras. Menos impostos, legislação trabalhista moderna, melhor infraestrutura, menos burocracia, mão de obra mais bem adestrada.