Adelson Elias Vasconcellos
São Paulo: recorde histórico em volume de chuvas
Não vivo nem moro em São Paulo. E, pelo que vem acontecendo com a capital paulista, posso dizer que “ainda bem”. E digo aliviado porque não há cidade no mundo, que, por melhor administrada que tenha sido nos últimos cinquenta anos, por exemplo, consiga sobreviver sem caos há mais de 40 dias de chuvas e temporais diários, ininterruptos. Ou, a não ser na famosa Arca de Noé, me demonstre onde no planeta isto seria possível.
Agora considerem que tamanha catástrofe ocorra numa metrópole com mais de 10 milhões de pessoas !
Pois bem, considerando-se as estatísticas oficiais, não aquelas que o governo Lula tem o péssimo hábito de fabricar e manipular, e levando-se em conta apenas o mes de janeiro, a cidade de São Paulo não via tanta água assim há pelo menos 70 anos!!! E, considerando-se o período que a chuva não dá trégua, não nunca antes na história da cidade, choveu tanto!
Claro que o PT, sendo este um ano de eleição, no desespero de reconquistarem o poder municipal perdido por Marta Suplicy, a que “relaxa e goza diante das tragédias”, eles não perderiam a oportunidade que a tragédia lhes oferece gratuitamente, para defenestrar o prefeito Gilberto Kassab, nem tampouco deixarem que a porcaria não chegasse em José Serra que, além de tucano, é, por enquanto, o candidato ao lugar de Lula melhor colocado nas pesquisas.
Assim, gente humanista e compreensiva como esta turma do petê, resolveu que o partido apresente denúncia ao Ministério Público contra José Serra. Decidiram levar as águas que caem sobre São Paulo há mais de 40 dias à ante-sala da sucessão presidencial. A bancada do partido de Lula na Assembleia Legislativa de São Paulo protocolou no Ministério Público uma representação contra José Serra.
Na petição, o petismo pede que seja apurada a “suspeita de ilegalidade, inconstitucionalidade e improbidade”. Serra é acusado de passar a tesoura na rubrica do orçamento de São Paulo destinada à prevenção e ao combate às enchentes.
Segundo o PT, o Estado destinara R$ 252 milhões às despesas anti-cheias no ano de 2009. Em 2010, 20% a menos: cerca de R$ 200 milhões.
Em suas declarações públicas, Serra tem atribuído o flagelo que infelicita São Paulo ao excesso de chuvas. Vive-se, no dizer do governador, um “ano atípico”. E, convenhamos, ninguém poderá contestá-lo.
Em nota, o líder do PT na Assembleia, Rui Falcão, ironiza: “Não se trata de obra ou castigo de Deus...”
Não se trata “...de efeitos do aquecimento global ou de resultado de inversões climáticas...”
“Trata-se de má gestão e de omissão criminosa praticadas pelo governador José Serra”.
Desejava o quê o senhor Rui Falcão, que Serra mandasse, por decreto, suspender o aguaceiro que despenca sob a cidade sem parar há mais de 42 dias, e não uma chuvinha qualquer, verdadeiras tempestades que não respeitam árvores, postes ou qualquer outro obstáculo? Ou que dizer das represas em todo o estado que estão chegando à sua máxima capacidade de reter tanta água em seus lagos?
É preciso ser cretino demais para mover uma ação destas. Mas não pensem vocês que Rui Falcão nasceu para lidar com respeito e bom senso. Muito menos decência.
Aliás, já prevendo isto, no dia 7 de janeiro, publicamos um artigo sob o título “ Tragédias 1- O governo Lula precisa sair do discurso”, clique aqui, através do qual comentamos a disposição manifestada pelo governo federal ao anunciar que não faltariam recursos para atender as tragédias provocadas pelas chuvas que, naqueles dias, atingiam tanto o Rio de Janeiro quanto São Paulo, Minas Gerais e Rio Grande do Sul. Neste mesmo artigo, criticamos a atuação do Ministro das Cidades, Márcio Fortes, que se preocupara apenas em visitar o Rio de Janeiro, não demonstrando o menor interesse em fazer igual visita às cidades paulistas e gaúchas, atingidas por igual calamidade da havida no Rio Janeiro.
E mais: afirmamos naquele artigo que, de forma alguma, poderia faltar dinheiro ao governo federal para atender a população atingida pelas chuvas, conforme demonstrava relatório do Contas Abertas, e que publicamos no dia anterior, clique aqui, relatório que demonstrava haver o governo de Lula, portanto, do chefão de Ruy Falcão, gasto em 2009, apenas 21% do total previsto no orçamento para prevenção de desastres, sendo que deste montante ridículo, mais de 40% haviam sido destinados para o governador Jacques Wagner, da Bahia, não por coincidência pertencente ao Petê. Para minimizar os transtornos decorrentes dos desastres ambientais, em 2009 o governo federal destinou R$ 646,6 milhões para ações preventivas como contenção de encostas, canalização de rios e capacitação de agentes da Defesa Civil. No entanto, gastou apenas R$ 138,2 milhões.
Ao reduzir, em São Paulo, em 20% o total destinado no orçamento para 2010, os recursos destinados às ações anti-cheias, quem poderia imaginar o volume de água jamais vista na história paulista e que despencou neste início de ano? E um detalhe: a questão não é o montante que se destina em orçamento, e sim quanto do orçamento é de fato investido na rubrica para o qual foi destinado. E, neste quesito, não há dúvidas de que o governo Lula praticou omissão criminosa e má gestão, porquanto todo o início de ano, em algum ponto do país, a tragédia se repete, principalmente Rio, Bahia e São Paulo. Por que então o governo federal não executou o que no orçamento se comprometera, e do montante que executou, ridículos 21%, por que a Bahia mereceu quase metade da verba?
Ora, com que moral vem agora esta gente querer acionar o governador Serra por razões que ficam muito além de suas possibilidades em relação à verdadeira calamidade que atinge São Paulo? Muito mais omisso, bem mais criminoso foi o governo federal que, além de executar a quinta parte do que se comprometera em realizar, sequer enviou ministros a São Paulo para se solidarizar com a população daquele estado e se colocar à disposição para atender no que fosse possível.
Mas petista cretino, que chega até ser redundante, todo ele nunca deixa de ser. E, claro, o maior de todos, não poderia deixar escapar uma oportunidade para tirar sua fatia eleitoral da desgraça alheia, muito embora esta desgraça caia do céu, e independa, deste modo, da vontade dos humanos.
Em mais uma referência às enchentes que têm provocado destruição e mortes em São Paulo e no Rio de Janeiro, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse hoje que sua gestão faz "um processo de reparação na irresponsabilidade dos que governaram há vinte, trinta anos e deixaram que o povo ocupasse encostas de morro". O presidente ressaltou que a irresponsabilidade foi de partidos "de direita, de centro, de esquerda" e cobrou dos prefeitos "coragem" para não permitir ocupação irregular.
Lula procurou citar casos de transtornos causados pelas chuvas em cidades administradas tanto por aliados quanto por adversários. "Enchente está dando em qualquer lugar", declarou.
"É preciso parar com a hipocrisia de tratar o povo dessa forma. O prefeito tem que ter coragem de ir lá e não deixar ocupar. Quando morre alguém, de quem é a culpa? Vemos o que aconteceu em São Paulo, em Angra dos Reis, em Belo Horizonte. É o acúmulo de 50 anos", discursou, durante inauguração de um gasoduto da Petrobras.
O presidente destacou que a segunda etapa do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC-2) vai promover uma "grande reforma nos grandes centros urbanos, como o Rio de Janeiro e São Paulo". O presidente disse esperar que "daqui a vinte anos o povo tenha orgulho de morar em São Paulo, no Rio de Janeiro, em Belo Horizonte e não viver apinhado com a família em um espaço de três metros quadrados".
Muito bem, só não explicou porque também o seu governo não fez o que se propunha a fazer! Além disto, se o problema existe, não são discursos cretinos que o resolverão, e sim ações públicas e, neste sentido, Lula sequer tem moral para se manifestar, já que, conforme vimos, quando poderia fazer parte da solução, resolver se alinhar com a parte do problema existencial.
Volto a afirmar o dito em 07 de janeiro: discursos não resolvem o problema dos atingidos por calamidades, muito menos picaretagem sórdida e absoluta má fé como o cretinismo explícito de Ruy Falcão. O que resolve são ações públicas que ataquem não apenas o sofrimento decorrente das chuvas anuais de verão. Mas sim que possa, pouco a pouco, ir diminuindo ao máximo possível o número de vítimas. Não é deixando o dinheiro parado no caixa do Tesouro que se chegará lá. Lula anuncia que o PAC 2 irá nesta direção. Muito embora o PAC 1 seja o mais empacado dos programas federais, além de se constituir em sua essência em pura vigarice, vamos torcer para a versão 2, destinado a promover uma "grande reforma nos grandes centros urbanos, como o Rio de Janeiro e São Paulo”, se realize de fato, muito embora, é preciso destacar que, a questão de PAC 1 ou 2, não são passes de mágica que porão fim aos problemas de moradias em áreas de risco. Sequer precisam haver programas para se fazer o que é preciso. O caso do governo Lula é bem sintomático neste sentido: tendo destinado R$ 646, milhões para ações preventivas como contenção de encostas, canalização de rios e capacitação de agentes da Defesa Civil, mal realizou R$ 138,2 milhões. Convenhamos que o discurso de Lula não condiz com a realidade do que o seu próprio governo fez e, principalmente, deixou de fazer.
Subir em palanques para descer a lenha em governantes do passado, e até dos atuais, para criticá-los, seria saudável se, abandonando a leviandade e o mau-caratismo, assumisse seus próprios erros e omissões. Isto faria um bem enorme ao país. Lula, mesmo estando há sete anos no poder, parece não abandonar a velha mania de ser oposição. Esquece que ele é o seu próprio governo. Assim, como não faz aquilo que, sistematicamente, condena em outros, acaba condenando a si mesmo, mesmo que não se aperceba disto. Nestas horas se vê que a humildade jamais fará parte de sua personalidade. Ficou cego com tanta arrogância.

