Mary Anastasia O'Grady, Instituto Millenium (*)
Hugo Chávez gosta de dizer que a Venezuela é uma democracia e que uma maioria do eleitorado o apoia, bem como a seu “socialismo do século XXI”. Ou pelo menos costumava dizer. Na semana passada, o presidente venezuelano abandonou suas tentativas de manter uma imagem democrática.
Em relação aos protestos civis em todo o país — liderados por estudantes universitários — Chávez advertiu ao país na quinta-feira que se estes se “intensificarem”, está pronto para tomar “medidas radicais”.
Dado que o governo que Chávez já expropria propriedades ao seu bel prazer, encarcera oponentes políticas, controla os preços e o câmbio de moeda estrangeira, ocupa empresas de meio de comunicação e dispara balas de borracha e gás lacrimogênio contra manifestantes, sua ameaça de se radicalizar provoca calafrios. Os venezueanos têm razões para temer a lei marcial.
A economia venezuelana está em queda livre, e Chávez está tentando controlar os danos. Uma das coisas que não se pode permitir é deixar que os venezuelanos se queixem em voz alta sem pagar pelas consequências. Os ditadores bem sucedidos, como Fidel Castro, transforma a dissidência em uma proposta perigosa, e se Chávez quer sobreviver, sabe que deve fazer o mesmo. Seu plano começa com cenouras e termina com um garrote.
Para usar cenouras, Chávez precisa de dinheiro, e por isso anunciou em 8 de janeiro uma megadesvalorização do bolívar, fixando uma taxa oficial de 4,3 bolívares por dólares, em vez da anterior de 2,15. Os importadores de bens de primeira necessidade (alguns alimentos e medicamentos) poderiam no entanto comprar dólares a 2,60, mas para os outros produtos importados, o dólar custará agora o dobro da taxa anterior. O efeito líquido é que os preços das “importações” não essenciais dobrarão da noite para o dia.
À primeira vista parece um mau negócio, mas não para o aspirante a ditador. Chávez tem dólares porque o monopólio estatal petroleiro PdVSA é exportador. Agora, quando vender esses dólares, obterá o dobro de bolívares que antes. Imagine-se o que poderá fazer com essa torrente de dinheiro antes das eleições legislativas de 26 de setembro. E segundo Chávez, tampouco há necessidade de se preocupar com a inflação. As empresas que surpreender subindo os preços serão expropriadas e entregues aos trabalhadores.
Os estudantes do chavismo aceitarão que isso não é nenhuma novidade. A revolução se cimenta com transferências para as classes baixas que lutam por sobreviver, criando assim a ilusão entre os pobres de que o messias bolivariano vai tirá-los da pobreza.
Mas essa máquina em perpétuo movimento está perdendo força. “É possível”, me disse um analista venezuelano, “ver os números e concluir que a Classe ‘E’ (o maior e mais pobre segmento da sociedade) aumentou sua renda em bolívares. Mas sua qualidade de vida se deteriorou consideravelmente.”
A prova número um é a taxa de crimes violentos, a maior do hemisfério. Os pobres estão sofrendo muito mais do que os ricos com esta epidemia, pois não se podem dar ao luxo de comprar segurança pessoal. O transporte público também está fazendo falta à classe trabalhadora.
A Venezuela não deveria precisar se preocupar com o fornecimento de energia, graças à presença de gás natural e seus recursos hidrológicos e termais. No entanto, onze anos depois da “revolução” de Chávez, agora há racionamentos. Somente Caracas se livrou dos apagões do mês passado, talvez não por muito tempo.
Os especialistas afirmam que a principal causa do problema é o mau preparo para os baixos níveis de água e a falta de manutenção da represa de Guri, que gera a maior parte da eletricidade do país. Na frente sanitária, o próprio presidente declaro no ano passado que os hospitais se encontram em estado de emergência e que foram abandonadas muitas das pequenas clínicas de que o governo construiu e encheu de médicos cubanos.
A base de apoio de Chávez está desiludida, e agora o presidente está tratando de compensá-los com mais bolívares desvalorizados. Mas com a taxa no mercado negro constantemente acima de seis bolívares por dólar, está claro que o governo não pode suprir o mercado a uma taxa de 4,3.
Em outras palavras, a moeda está até mais baixa do que reflete a nova taxa oficial. Isso significa que não se está perto de frear a taxa oficial de inflação de 25%.
Somente duas coisas podem salvar Hugo. Uma seria uma nova entrada em massa de dinheiro procedente da renda do petróleo. Essa é a razão pela qual na semana passada levou a cabo leilões de concesões com petroleiras estrangeras, apesar de ter criticado essas mesmas empresas no passado. Caso isso não ocorra, Chávez está dando os últimos retoques em seu estado policial. Na semana passada, fechou a cadeia de TV a cabo independente Radio Caracas Televisión, e outros cinco canas.
Essa decisão provocou as marchas estudantis, às quais os soldados da Guarda Nacional reagiram com escudos, balas de borracha e gás lacrimogênio. Agora, Chávez afirma que as manifestações são parte de uma tentativa de derrubá-lo e que está pronto para se radicalizar.
Com Castro como seu modelo, não é difícil imaginar aonde está indo, com ou sem petróleo. Também está cada vez mais claro que as eleições de setembro, dirigidas por um conselho eleitoral controlado por Chávez, não oferecerão aos venezuelanos uma possibilidade de votar pela mudança.
(*) Publicado originalmente no Wall Street Journal e OrdemLivre.org)