terça-feira, dezembro 31, 2013

O modelo é feito de botox, maquiagem e remendos

Rolf Kuntz 
O Estado de S.Paulo

Maquiagem, botox e remendos são os principais componentes do chamado modelo de crescimento em vigor há uma década, aperfeiçoado nos últimos três anos e pelo menos tão eficiente quanto a pedra filosofal procurada pelos alquimistas. Segundo se dizia, essa pedra, ou fórmula, poderia transformar em ouro metais menos valiosos. Com o tal modelo, o governo converteu um déficit primário de R$ 6,2 bilhões num superávit mensal de R$ 28,8 bilhões, um recorde. A mágica foi realizada basicamente com a inscrição de duas receitas atípicas - R$ 15 bilhões do bônus de concessão do campo de Libra, no pré-sal, e R$ 20,4 bilhões de pagamentos do novo Refis, o programa de parcelamento de impostos atrasados. Com esse resultado em novembro, a administração federal terá uma chance muito maior de fechar o ano com R$ 73 bilhões de resultado primário, o dinheiro destinado ao pagamento parcial dos juros da dívida pública.

As contas de novembro do governo central foram apresentadas pelo secretário do Tesouro, Arno Augustin, principal auxiliar do ministro da Fazenda, Guido Mantega, no setor de alquimia contábil. Mas o modelo composto principalmente de botox, maquiagem e remendo serve também para embelezar a inflação e as contas externas. Por sua aplicação variada, esse instrumento sintetiza as propriedades da pedra filosofal e do Bombril, o das mil e uma utilidades. O noticiário do dia a dia tem confirmado suas virtudes.

Neste ano o Brasil acumulou um superávit comercial de US$ 1,02 bilhão até a terceira semana de dezembro, segundo as últimas informações do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior. No fim de novembro o saldo acumulado era um déficit de US$ 93 bilhões. O resultado continuou fraquinho nas duas semanas seguintes, mas na terceira foi registrada mais uma exportação de plataforma de exploração de petróleo e gás, no valor de US$ 1,15 bilhão. Pronto. De repente, a conta comercial passou do vermelho para o azul. Mas essa plataforma, como outras exportadas neste ano e em 2012, nunca deixou o País, porque a operação é meramente contábil e seu propósito é a geração de um benefício fiscal.

Neste ano, até a terceira semana de dezembro, as exportações dessas plataformas proporcionaram receita de US$ 7,73 bilhões, 351,41% maior que a obtida com o mesmo produto um ano antes. Terá sido um surto de sucesso comercial ou uma emergência na conta de comércio exterior? Outro detalhe notável: em 2013, essas plataformas foram a maior fonte de receita com as vendas externas de manufaturados.

Automóveis de passageiros apareceram em segundo lugar, com US$ 5 bilhões, e óleos combustíveis em terceiro, com US$ 3,46 bilhões. Em seguida apareceram partes e peças para veículos e tratores (US$ 3,1 bilhões) e aviões (US$ 3,02 bilhões). Mas todos esses produtos foram para fora. Muitos brasileiros devem ter voado, no exterior, em aviões da Embraer. Muito mais difícil será encontrar uma daquelas plataformas.

Sem essa operação quase milagrosa, o saldo comercial até a terceira semana de dezembro teria sido um déficit de US$ 6,71 bilhões. O resultado teria sido menos mau, é claro, se parte das importações de petróleo e derivados tivesse sido contabilizada - corretamente - em 2012, em vez de só aparecer neste ano (esta é mais uma bizarria das contas brasileiras). Mas esses produtos de fato foram comprados e chegaram ao País. Se essas compras tivessem entrado nas contas de 2012, o saldo comercial do ano passado teria ficado abaixo dos US$ 19,4 bilhões oficialmente registrados.

Problemas da Petrobrás, incluída a necessidade de importação de óleo e derivados, também têm relação com o uso do modelo de botox, maquiagem e remendo. Preços dos combustíveis têm sido politicamente contidos, há anos, como parte do esforço para administrar os índices de inflação (coisa muito diferente de combater as pressões inflacionárias). Essa política impôs perdas à empresa, reduziu sua geração de caixa e diminuiu sua capacidade de investir com recursos próprios. Além disso, prejudicou os investimentos na produção de etanol, porque a contenção dos preços da gasolina se refletiu na formação de preços do álcool. Depois de muita pressão, os novos dirigentes da Petrobrás conseguiram autorização para elevar os preços, mas em proporção inferior à necessária. A depreciação das ações da empresa, nas bolsas, é consequência dessa e de outras interferências políticas na administração da estatal.

O modelo de enfeite foi aplicado amplamente no esforço de controle dos índices de inflação. O governo forçou a redução das tarifas de eletricidade ao impor às concessionárias um novo esquema de renovação de contratos. Também manobrou para retardar os aumentos de passagens de transporte público e para anular, no meio do ano, os ajustes concedidos.

Esse esforço produziu algum efeito imediato. Os indicadores de inflação subiram mais lentamente durante alguns meses, mas a quase mágica logo se esgotou. Os índices de preços ao consumidor voltaram a aumentar cada vez mais velozmente a partir de agosto. O IPCA-15, uma espécie de prévia do Índice de Preços ao Consumidor Amplo, a medida oficial de inflação, acumulou alta anual de 5,85% até dezembro. Se o resultado final do IPCA será igual ou inferior ao do ano passado (5,84%) só se saberá no começo de janeiro, quando conhecidos os números de todo o mês de dezembro. Mas, na melhor hipótese, a inflação será muito parecida com a do ano passado e as pressões continuarão fortes em 2014.

Nenhuma pessoa informada leva a sério o tabelamento de preços, o disfarce das contas externas e o enfeite das contas públicas. Operações atípicas podem gerar ganhos fiscais imediatos, mas corroem a credibilidade de quem governa. Com botox e maquiagem, alguns números ficam mais apresentáveis para os ingênuos. Paras os outros a cara do governo se torna cada vez mais disforme.

Dá para arrumar, mas...

Carlos Alberto Sardenberg
O Globo

Comparando com padrão europeu, 2% de crescimento parecem bem amigáveis. Mas o Brasil está abaixo da média dos emergentes

Então ficamos assim: o Brasil cresce 2% ao ano, com a inflação na casa dos 6%. Esta é a matriz Dilma, se não houver nenhuma surpresa, positiva ou negativa, em 2014, que deve sair mais ou menos como este ano.
Está bom ou ruim?

Depende de quem se toma por modelo. Comparando com o padrão europeu, nossos 2% de crescimento parecem bem amigáveis. Mas, comparando como se deve, o Brasil está abaixo da média dos emergentes e abaixo da média da própria América Latina.

Tudo somado e subtraído, pode-se dizer que algumas ideias e práticas saíram errado. Por exemplo: estimular o consumo não leva naturalmente ao aumento dos investimentos, como acreditavam (ainda acreditam?) a economista Dilma e seus seguidores. Mais consumo sem investimentos deu em inflação e déficit nas contas externas, pela via do aumento das importações.

Também não prosperou a ideia de que os juros acima de 10% decorriam basicamente da ganância dos bancos e dos rentistas. Depois de ter colocado a taxa básica em 7,25% ao ano — recorde de baixa — o governo Dilma precisou elevá-la de novo para 10% e terá que subir mais um tanto no ano que vem, se quiser mesmo segurar a inflação não na meta de 4,5%, mas abaixo do teto de 6,5%.

A política econômica caiu assim em um momento bastante desconfortável. Depois de ter alardeado a virtude de derrubar juros, volta ao pecado de elevá-los. E mais ainda: entre os emergentes importantes, é o único que está subindo juros nesse ritmo.

Outro desconforto: depois de ter anunciado a disposição de colocar o dólar numa cotação mais favorável à indústria, o governo está tomando medidas para segurar a alta da moeda americana. Tudo porque o dólar caro pressiona a inflação. Pois é, se esse processo de valorização da moeda americana e, pois, de desvalorização do real, tivesse se iniciado com uma inflação bem baixinha, abaixo da meta, digamos, o governo até poderia deixar o dólar deslizar e absorver o choque de preços — como fazem outros países. A ideia de tolerar um pouco mais de inflação deu azar — nem deu crescimento, nem juros baixos.

Mas tem algo que o governo Dilma pode fazer já, com resultados imediatos na melhora das expectativas dos investidores e na queda do risco Brasil. Ou seja, para ganhar confiança e estimular investimentos.

Seria um choque nas contas públicas, bem explícito, ao estilo do Lula do primeiro mandato. O ideal, para essa alternativa, claro, seria a presidente Dilma colocar no comando da economia um nome comprometido com a virtude fiscal e, pois, com a realização de um superávit primário forte e crível, sem truques contábeis.

O problema é que isso causaria outro desconforto pessoal. A presidente Dilma, nas lições que deu ao mundo sobre a administração da crise global, atacou duramente a prática do ajuste fiscal. Como fazer o ajuste justo agora, no momento em que os outros estão afrouxando seus cintos, depois de bons resultados do ajuste?

INDEXAÇÕES
Dia desses, a presidente Dilma rejeitou a fórmula de reajuste de preços da gasolina e diesel, proposta pela Petrobras, dizendo ser muito perigoso adotar qualquer tipo de indexação.

O comentário é injusto com a presidente da Petrobras, Graça Foster, pois ela não sugeriu uma correção automática de preços e periódica, com base na inflação passada. Isso, sim, seria indexação. Mas Graça propôs uma fórmula que fixasse preços no mercado local com base em diversos parâmetros, como preços internacionais dos combustíveis, custos locais, cotação do dólar etc... Não é indexação, pois nesse critério os preços podem subir e cair.

Mas a presidente Dilma acertou no ataque à indexação. E tem uma indexação que está causando problemas sérios às contas públicas e ao custo Brasil. Trata-se da fórmula que corrige anualmente o salário mínimo pela inflação passada e acrescenta o ganho real equivalente ao crescimento da economia.

Ou seja, a inflação mais ganho real é indexação na veia, garantida em lei. Isso levou a um aumento do salário mínimo muito acima da produtividade nacional. Isso é custo para todas empresas, pois o mínimo pressiona para cima os demais salários. E aumentou pesadamente o gasto público, pois o governo federal paga salário mínimo para mais de 28 milhões de pessoas. É arrasador especialmente para as contas do INSS.

Todo mundo sério sabe que essa política é insustentável. E isso já no curto prazo. Seria outro choque, positivo, para as contas públicas, ainda mais se acrescido da aceitação da outra fórmula, a da Petrobras.

Seria outro passo para trás, mas o pessoal compreenderia, não compreenderia? Não?

As entranhas do bolsismo

Zander Navarro  
O Estado de S.Paulo

Em viagem de pesquisa visitei áreas rurais na divisa do Maranhão com o Pará. Muitos pequenos povoados com centenas de motos cruzando as estradas da região. Inúmeros sinais de continuidade do atraso histórico, mas iguais evidências, ainda embrionárias, de algum dinamismo social.

Em sua casa de barro, conversei com um jovem agricultor. Recém-casado e com um filho de 6 meses, ele cultiva uma pequena roça com mandioca, praticando a "agricultura no toco", que significa o desmate de uma área de mata original e o plantio após a queimada dos remanescentes florestais. Só vende a farinha se precisar de dinheiro, pois recebe uma bolsa do programa Mais Educação. E o que faz? "Sou professor de agroecologia", diz com certo orgulho. Ele explica que se trata de ensinar a preparação de "canteiros sustentáveis, plantar horta sem venenos", adiantando, contudo, que não foi treinado e, por isso, não sabe "ainda o que é agroecologia". Trabalha um dia por semana na escola da comunidade e recebe R$ 600 mensais.

Em outra comunidade rural, o líder que organizou o levantamento dos interessados locais no programa Minha Casa, Minha Vida afirma que serão oferecidos empréstimos de R$ 35 mil, mas cada família pagará apenas R$ 1 mil, divididos em quatro anos, indicando um subsídio de 97% nas futuras moradias. A dele é uma modesta casa de chão batido e seus olhos brilham ante a perspectiva de mudança. Fazia pouco tempo que esse agricultor assistira a uma conferência em Belém, destinada a representantes comunitários do programa, durante a qual foi escolhido para participar da conferência nacional, em Brasília. Não conhece nada além do Pará e a chance da viagem também alegra o líder da comunidade.

Já em Salvador, uma candidata a empregada doméstica foi entrevistada na casa da senhora contratante. Acertados o salário e os horários de trabalho, ela impôs uma inesperada exigência: não queria ter a Carteira de Trabalho assinada. Diante da surpresa, explicou que se for assim perderá o "auxílio-pesca" que recebe há quase dez anos. "Mas você é pescadora?" Ela riu e disse que nunca fez isso, mas em seu município de origem todos recebem o benefício federal, mesmo não sendo pescadores. Mora com o marido na capital, mas mantém o endereço anterior para continuar beneficiária. Pretendem se mudar para a cidade de Conde, pois lá ofereceriam adicionalmente uma cesta básica por mês.

No outro lado do País, diversos resultados de estudos realizados nas reservas extrativistas do Acre demonstram processos sociais similares, notavelmente adaptados ao sistema de bolsas e auxílios oferecidos pelo governo federal desde 2003. Na famosa Reserva Extrativista Chico Mendes, a principal atividade atualmente não é o extrativismo, mas a pecuária de corte, de fato proibida pelas normas do Sistema Nacional de Unidades de Conservação. Nem por isso, no entanto, muitos deixam de receber a Bolsa Verde. Aliás, por essa razão, em outra reserva, no Alto Juruá, o líder da comunidade afirma: "O que mais se produz aqui é menino, pois é o que rende mais" - em referência ao recebimento de Bolsa Família e outros benefícios, como a bolsa que a mãe poderá pleitear do Programa Brasil Carinhoso.

Finalmente, fruto de pesquisas em diversas regiões, é iluminada a preocupante associação entre a multiplicação das bolsas e a redução da atividade agrícola. Repete-se, em alguma medida, o que foi verificado na década de 1990, quando a disseminação das aposentadorias rurais após a regulamentação da Constituição permitiu a inúmeras famílias rurais pobres trocar parcialmente a incerteza da produção pelo recebimento monetário certo e mensal desse direito. Em consequência, diminuiu a oferta de produtos agrícolas, sobretudo nas regiões rurais mais empobrecidas.

São ilustrações do bolsismo. Quais os seus reais impactos na sociedade brasileira, além da simplória propaganda governamental? É um debate sinuoso e desafiador, pois facilmente polariza, de um lado, a defesa intransigente e usualmente irrefletida, quase sempre partidarizada, e, de outro lado, as opostas posições, até reacionárias, que não aceitam sequer a compaixão social pelos mais pobres. Mas é preciso aprofundar a discussão, escapando desse diálogo de surdos e examinando com mais ciência e distanciamento analítico o gigantesco sistema de auxílios, bolsas e benefícios criado e as suas implicações mais variadas.

Esgotada a meta inicial do bolsismo, que era o aumento da renda dos menos favorecidos, qual será o passo seguinte? No caso das famílias rurais pobres, por exemplo, o conservadorismo do imaginário social poderá acentuar o que julga ser a inata indolência desses grupos sociais, visão já consagrada por alguns escritores no passado. Raramente se observa, contudo, que as escolhas das famílias rurais refletem um sábio cálculo econômico que pondera a exaustão da atividade e os recursos disponíveis, uma equação que um economista agrícola russo, Alexander Chayanov, desvendou quase cem anos atrás em diversos trabalhos.

Não são aceitáveis a superficialidade e as frases de falastrões, ao chegarmos aos dez anos do Programa Bolsa Família. Também é inconcebível tudo ser feito apenas para manter a estreita correlação entre a distribuição das bolsas e o apoio político ao partido no poder. Precisamos ultrapassar esse rebaixamento de cunho eleitoreiro e analisar o sistema de proteção social brasileiro com mais transparência, refinamento e visão de nação. Trata-se de uma vasta estrutura de assistência a que quase ninguém mais se opõe, mas precisa ser aperfeiçoada e transformada numa alavanca pública para promover a prosperidade geral. Manter o sistema de bolsas, que apenas se amplia, sem nenhuma estratégia, especialmente para garantir votos, desqualifica nossos esforços para construir a emancipação cidadã e estimular o desenvolvimento social do País.

Esse vulcão chamado 2013

Percival Puggina
Zero Hora

De fato, 2013 foi inexcedível na capacidade de nos surpreender. Sua vocação apocalíptica exibiu-se em fenômenos climáticos, imensas tragédias e abruptos falecimentos. Também na política o ano se revelou um vulcão de surpresas que pareciam surgidas do éter. Sem que se soubesse como ou por quê. 

Foi assim, por exemplo, que o povo saiu às ruas. Não era carnaval, não havia trio elétrico, a seleção não estava em campo. Justin Bieber e Beyoncé andavam longe daqui. No entanto, multidões de jovens, junto com cidadãos de todas as idades, tiraram os fones do ouvido, saíram do Face, meteram pé no asfalto e soltaram a voz ao vento. Tivemos, pela primeira vez em muitas décadas mobilização popular espontânea. Não era "massa" e muito menos "de manobra". Nada semelhante, tão autônomo, tão sem patrocínio, ocorrera antes por aqui. Brasileiros saíram às ruas esticando o cordel de insatisfações até então silenciosas. E elas cobriam todo o vocabulário das mazelas políticas, institucionais e morais do país. Desabituadas ao alvoroço popular, as instituições titubearam, gaguejaram. Transpiraram frio nos decotes e nos brancos colarinhos. 

Enquanto isso acontecia, o vulcão chamado 2013 rugiu outra vez. Quatro grupos proporcionaram inédito vandalismo de rua, enfurecido e torrentoso. O primeiro grupo, dos falantes, era composto pela parcela irresponsável ou demente do mundo intelectual e acadêmico. "Pois que venha a violência!", rosnava, exibindo os dentes. O segundo, o grupo dos paus mandados do poder, cumpria a ordem de espantar da rua as incômodas demandas que o confrontavam. O terceiro, dos saqueadores, bandidos de profissão, aproveitava o caos que se estabelecia. O quarto, da mídia "politicamente correta", reagiu com a hostilidade de sempre à ação das instituições policiais. E jamais denunciou o caráter fascista, escancaradamente fascista da violência que os vândalos desencadearam para afugentar das ruas a correta manifestação dos cidadãos. 

Em julho, a mesma erupção derramou-se sobre a Câmara de Vereadores de Porto Alegre, que aceitou, no chão, de cócoras, o maior achincalhe de que se tem registro na história dos legislativos brasileiros. Militantes da violência invadiram o parlamento e ali permaneceram enquanto quiseram. Impuseram condições para sair. Comportaram-se, todo tempo, com ódio e insolência cultivados nos aparelhos comunistas, escolares e acadêmicos, onde lhes é servido o necessário à sua deformação cívica e moral: desleixo, drogas, nudismo, sexo grupal. E uma juíza, chamada aos fatos, presidiu a "negociação" com os fascistas de julho! 

Em novembro, abriram-se as portas da Papuda para os primeiros réus do Mensalão. Neste Brasil de 2013, algo que seria natural, uma vez transitadas em julgado várias sentenças, acabou enriquecendo a lista dos feitos extraordinários. Alvoroçou-se o partido do governo, desencadeando uma campanha para transformar os réus em mártires e o juízo do STF em linchamento! A história dos fatos vem sendo repaginada, como se Genoíno não tivesse renunciado à presidência do PT por causa do Mensalão. Como se Dirceu não tivesse saído da Casa Civil por causa do Mensalão. Como se seu mandato não tivesse sido cassado pela Câmara dos Deputados (em votação secreta!) por causa do Mensalão. Como se Lula, em rede nacional, não tivesse pedido perdão ao país pelo mesmo motivo. Não, senhores! As primeiras sanções aos réus ocorreram dentro do vosso próprio governo, dentro do PT e dentro do Congresso Nacional, ainda em 2005. Mas o vulcão de 2013 quer regurgitar outra história. De novo? Que 2014 nos venha com melhores ares. 

Em 2014, ‘vem pra rua você também’

Elio Gaspari
O Globo

Renan Calheiros usou um jato da FAB para um implante de cabelos, o Brasil precisa de votos na mão e pés na rua

A repórter Andréia Sadi revelou que o presidente do Senado, doutor Renan Calheiros, preocupado com sua cabeça, requisitou um jato da FAB para voar de Brasília a Recife, onde fez um implante de dez mil fios de cabelo. Quem nestas Festas viajou com seu dinheiro deve perceber que esse tipo de coisa só acabará pela associação dos direitos de voto e de manifestação em torno de políticas públicas. Só com o voto isso não muda. Pelo voto, Renan começou sua carreira política em 1978, elegendo-se deputado estadual pelo MDB de Alagoas.

Renan Calheiros é um grão-mestre da costura política. Foi líder do governo de Fernando Collor de Mello e ministro da Justiça de Fernando Henrique Cardoso. Desde 2003 é um pilar da coligação petista no Congresso. Pertence a uma categoria imune à vontade popular. Ela pode ir para onde quiser, mas ele continuará no poder, à sua maneira. Como ministro da Justiça do tucanato, tendo seu nome exposto na Pasta Rosa dos amigos do falecido Banco Econômico, defendeu o uso do Exército para reprimir saques de famintos durante a seca de 1998. Politico da Zona da Mata alagoana, estava careca de saber que tropa não é remédio para esse tipo de situação. Nessa época, dois de seus irmãos foram acusados de terem mandado chicotear um lavrador acusado de roubar um aparelho de TV numa fazenda. Um desses irmãos elegeu-se deputado federal. Entre 1998 e 2006 teve uma variação patrimonial de 4.260%, amealhando R$ 4 milhões.

Renan teve uma filha fora do matrimônio quando ganhava R$ 12.720. A mãe da criança era ajudada por uma empreiteira amiga que lhe dava uma mesada de R$ 16.500. Por causa desse escândalo, por pouco não foi cassado, mas renunciou à presidência do Senado. Reelegeu-se e voltou à cadeira que já foi de Rui Barbosa prometendo uma agenda ética, de “transparência absoluta”. Contudo, como diz o senador Edson Lobão Filho, filho e suplente do senador Edson Lobão, ministro de Minas e Energia, “a ética é uma coisa muito subjetiva, muito abstrata”. Nesse mundo de abstrações, Renan, vendo a despensa de sua casa concretamente desabastecida, mandou abrir um pregão de R$ 98 mil para a compra de salmão, queijos, filé mignon, bacalhau e frutas. Apanhado, cancelou a compra.

Renan não é um ponto fora da curva. Ele é a própria curva. Em 2005, como presidente da Casa, deu sete cargos de R$ 10 mil a cada colega. Seu mordomo ganha R$ 18 mil. Em julho, quando ainda havia povo na rua, usou um jatinho da FAB para ir a um casamento em Trancoso. Apanhado, devolveu o dinheiro. Passados cinco meses fez o voo do implante.

Estabeleceu-se uma saudável relação de causa e efeito entre esse tipo de comensal da Viúva e a opinião pública. Eles não se corrigem, mas, uma vez denunciados, recuam. São muitos os maganos que não toleram saguão de aeroporto, despensa vazia e parente desempregado. Nessas práticas, é fácil colocá-los debaixo da luz do sol. Quando se trata da convênios, contratos de empreiteiras e grandes negócios, a conversa é outra.

Em 2014 a turma que paga as contas irá as urnas. Elas poderão ser um bom corretivo, mas a experiência deste ano que está acabando mostra que surgiu outra forma de expressão, mais direta: “Vem pra rua você também.”

Alguém se importa de US 50 bi terem sumido na Petrobras?

J.R. Guzzo
Revista EXAME

É difícil achar outra área na qual o governo tenha aproveitado tantas chances de errar quanto na Petrobras, nos últimos 11 anos infectada por todo tipo de nomeação política. Sumiram 50 bilhões de dólares? Paciência

Abr 
Os responsáveis: se a lei valer, o ministro Mantega (foto) 
e Graça Foster podem ser acionados pelas perdas da Petrobras

São Paulo - Num país onde há o hábito de respeitar as leis sobre o funcionamento das companhias que vendem ações ao público, e as regras do jogo existem para ser cumpridas, como estariam se sentindo os acionistas de uma empresa que perdeu mais de 50 bilhões de dólares de seu valor de mercado entre 2008, quando a cotação de suas ações estava no pico, e hoje?

Ou: de uma companhia que, em apenas um ano, de 2012 para cá, perdeu metade do que valia nasbolsas? O que achariam esses acionistas ao constatar, como é de conhecimento público, que as perdas pavorosas dos últimos anos se devem, não às circunstâncias e aos riscos do mercado, mas a decisões diretas de seus diretores?

Iriam considerar normal que eles gerissem a empresa levando em conta exclusivamente o interesse de umacionista, o majoritário, em detrimento claro dos interesses dos demais sócios? Ficariam olhando, passivamente, o patrimônio que têm em ações da companhia derreter dia a dia diante de seus olhos?

Não — tratariam, é óbvio, de defender na Justiça seus direitos a uma gestão racional e de responsabilizar os gestores pelos prejuízos que lhes causaram. Mas isso, como foi dito, nos tais países onde se respeitam as leis.

Já em certo grande país da América do Sul, onde existe uma megaempresa petrolífera da qual o Estado é o acionista controlador, não só podem acontecer todas as desgraças descritas acima — podem e acontecem.
Nada mais normal do que o governo, que representa os controladores e nomeia os diretores da empresa, dar ordens diretas na administração diária, como se estivesse lidando com uma repartição pública.

E se, por causa disso, há perdas para os demais acionistas (e mesmo para o sócio majoritário, que teoricamente é o povo, representado pelo governo), ninguém é culpado, principalmente quem provocou o problema. Sumiram 50 bilhões de dólares? É, sumiram. Paciência.

O país em questão é o Brasil, a companhia gigante é a Petrobras e quem está levando na cabeça é o povo brasileiro, quer o cidadão tenha ou não ações da empresa. Seria difícil encontrar outra área na qual o governo tenha aproveitado tantas oportunidades de errar como aconteceu com a Petrobras durante as administrações de Lula e de Dilma Rousseff.

Desde o início do governo petista, há 11 anos, uma empresa de classe mundial foi infectada por todo tipo de nomeações puramente políticas, enfiando-se companheiros e aliados em cargos que não tinham a menor condição de exercer.

A empresa, por ordem do governo, fez negócios ruinosos, como uma “sociedade” com a Venezuela de Hugo Chávez na construção de uma refinaria em Pernambuco — um conto do vigário no qual os venezuelanos até hoje não colocaram um único bolívar.

Mais que tudo, a Petrobras se tornou uma ferramenta de política econômica do governo, que a utilizou abertamente para conter a inflação; obrigou-a a segurar os preços dos combustíveis, o que leva a empresa ao excelente negócio de comprar petróleo no exterior e vendê-lo aqui por preço mais baixo do que gastou na compra.

A companhia precisa, com urgência, aumentar sua produção diária — mas para isso tem de arrumar dinheiro, 25 bilhões de dólares só em 2014, e os investidores não gostarão de ver parte desse dinheiro usada para segurar os preços da gasolina num ano eleitoral. Dias duros pela frente, portanto.

Mas eles podem ser ainda muito mais duros se, como acontece em países sérios, acionistas ou, eventualmente, qualquer grupo de cidadãos começarem a entrar na Justiça com processos responsabilizando pessoalmente membros do conselho de administração e da diretoria executiva pelos desmandos cometidos na Petrobras nestes últimos anos.

Processar o governo, ou a empresa, é pura perda de tempo. Mas processar individualmente o presidente do conselho, ministro Guido Mantega, ou a presidente executiva, Graça Foster, além de outros executivos, já é uma história bem diferente. No clima de exasperação que se vive hoje na Justiça brasileira, não é um bom momento para ser réu.

O humor de Dilma

José Casado
O Globo

Ela entrou na casa dos eleitores para fazer uma saudação de fim de ano. Gastou 1.400 palavras em autoelogios e se despediu semeando dúvidas sobre o futuro do país e das pessoas

Dilma Rousseff acha que seu governo está sob ameaça de uma “guerra psicológica” capaz de “inibir investimentos e retardar iniciativas”. Foi o que disse em cadeia nacional de rádio e televisão. Não explicou quem, quando, onde, como — e muito menos por que escolheu um termo cuja definição, nos manuais militares, consiste essencialmente no manejo das palavras para abalar o moral do inimigo.

Pode ser mero vício de linguagem, afinal Dilma é a última combatente da Guerra Fria com crachá de candidata na disputa presidencial de 2014. Ou talvez tenha sido um discreto desabafo, por estar “perdendo a batalha ideológica e política para o mercado financeiro”, como observou o economista Luiz Gonzaga de Mello Belluzzo em entrevista à jornalista Eleonora de Lucena.

Seja qual for o motivo, a presidente-candidata esqueceu-se de que brasileiro só é otimista entre o Natal e o carnaval, como dizia o falecido economista Mário Henrique Simonsen. Na noite de domingo ela entrou na casa dos eleitores para fazer uma saudação de fim de ano. Gastou 1.400 palavras em autoelogios e se despediu semeando dúvidas sobre o futuro do país e das pessoas.

É notável a mudança no humor de Dilma. Basta ver seus discursos deste ano.

Em janeiro, ela proclamava, eufórica: “O Brasil está cada vez maior e imune a ser atingido por previsões alarmistas. Por termos vencido o pessimismo e os pessimistas, estamos vivendo um dos melhores momentos da nossa história.” Em março, baixou o tom: “Devemos ter o otimismo e o dinamismo e sempre reiterar a confiança, e mantermos uma atitude contra o pessimismo e a inércia que muitas vezes atingem outras regiões.” No mês seguinte, tentou animar a arquibancada: “Não tem quem nos derrote se não acharmos que já estamos derrotados. Não tem quem nos derrote! Isso é o que garante a nossa força, é o fato de que juntos ninguém nos derrota.”

Em julho, começou a exalar preocupação com “um ambiente de pessimismo que não interessa, que não é bom para o Brasil”. Chegou a novembro nostálgica de Juscelino Kubitschek, “quando dizia ‘o otimista pode errar, pode até errar, mas o pessimista já começou errado’”.

Poderia ter recordado outro mineiro, o escritor Fernando Sabino, para quem “o otimista sofre tanto quanto o pessimista, mas pelo menos sofre só uma vez”. E, aí, talvez a oposição até retrucasse com a definição de Woody Allen sobre pessimismo: “Mais do que em qualquer outra época, a humanidade está numa encruzilhada. Um caminho leva ao desespero absoluto; o outro, à total extinção. Vamos rezar para que tenhamos a sabedoria de escolher”.

Dilma gravou seu discurso rudimentar sobre a “guerra psicológica” e viajou à Bahia, onde o tempo avança em ritmo Dorival Caymmi. O governador Jacques Wagner, seu amigo, poderia contribuir para mudar o ânimo da presidente-candidata, sugerindo a leitura da biografia de Apparicio Torelly, o Barão de Itararé (“Entre sem bater”, de Claudio Figueiredo). O Barão ensinava: “Os acontecimentos se processam com tanta rapidez que os acontecimentos acontecem antes de terem acontecido.” Pode ser uma opção refrescante a quem precisa olhar para além daquilo que vê. Na pior hipótese, ajuda a começar 2014 de bom humor, um dos fundamentos para estar de bem com a vida.

Mais fios de cabelos, menos cérebro

Aloísio De Toledo César 
 O Estado de S.Paulo

Pela vaidade de alguns fios de cabelos a mais, o senador Renan Calheiros impôs nova afronta ao Brasil e aos brasileiros. Decaído da grandeza de seu cargo de presidente do Senado e do Congresso Nacional, requisitou um jato da Força Aérea Brasileira para levá-lo ao Nordeste a fim de realizar uma cirurgia de implante de cabelos.

A julgar pelas notícias publicadas em diferentes jornais, Renan Calheiros tentou minimizar o episódio com a afirmação de que pretende devolver aos cofres públicos o valor correspondente aos gastos da viagem, como se assim agindo lograsse afastar os efeitos danosos do ato praticado.

Não é a primeira vez que o referido senador se afasta da moralidade administrativa e faz uso de bens públicos como se fossem dele. Ao assumir tal conduta, de novo viola o princípio da moralidade administrativa insculpido na Constituição federal em seu artigo 37. Esse artigo dispõe com absoluta clareza que todos os Poderes da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos municípios obedecerão, entre outros, ao princípio da moralidade. Isso significa que o senador Renan Calheiros, embora seja agente político no exercício de cargo eletivo, e se considere acima do bem e do mal, está igualmente submetido aos rigores desse princípio, podendo ser punido caso a Procuradoria-Geral da República (PGR) demonstre coragem e cumpra o seu dever.

Não é novo no sistema constitucional brasileiro o controle jurisdicional da moralidade administrativa, porém, com o advento da Constituição federal de 1988, foi consagrado ao lado de outros princípios de observância compulsória, como a legalidade, a impessoalidade, a publicidade e a eficiência.

O que vem a ser a moralidade administrativa? Embora se trate de um valor com conteúdo subjetivo, prevalece entre os doutrinadores a ideia de que moralidade significa a ética da conduta administrativa, ou seja, são os valores morais que o administrador deve observar na consecução de interesses coletivos.

Do administrador público se exige capacidade para saber distinguir o honesto do desonesto, o bem do mal, o legal e o ilegal, o justo e o injusto, o conveniente e o inconveniente. Os antigos romanos, com razão, diziam que nem tudo o que é lícito é honesto - nom omne quod licet honestum est - e disso decorre que o respeito à moralidade é imposto ao administrador para a sua conduta interna.

Em suma, o agente público, na prestação de atividade administrativa, está compulsoriamente submetido à ética e à obrigação de respeitar a moral vigente na sociedade. Quando viola esse princípio, com agressão deliberada ao direito, difunde contagiante dor moral na sociedade, sobretudo entre aqueles que não se conformam com a ausência de necessária punição.

Lamentavelmente, o sistema legal brasileiro não pune a incompetência administrativa, mas, em compensação, a Lei de Improbidade Administrativa (n.º 8.429/92) prevê com toda a clareza até mesmo a perda de função pública em tais hipóteses. Essa lei federal foi editada em função de reserva feita pelo artigo 37, parágrafo 4.º da Constituição federal, que dispõe: "Os atos de improbidade administrativa importarão a suspensão dos direitos políticos, a perda da função pública, a indisponibilidade de bens e o ressarcimento ao erário, na forma e gradação previstas em lei".

A conduta de usar bens públicos como se fossem seus, consumada pelo senador Renan Calheiros, sem dúvida alguma se afasta da necessária probidade administrativa. Dificilmente se encontrará alguém que reconheça ao senador Renan Calheiros o direito de requisitar um jato da Força Aérea Brasileira sob a alegação de necessidade de serviço e, no fim, desmentir a si próprio ao demonstrar que a viagem estava vinculada à vaidade de implantar uns fios de cabelos a mais.

No Estado de São Paulo, caso um administrador público cometa o deslize de comprar uma penca de bananas sem a licitação prevista em lei, estará sujeito a ação de improbidade proposta pelo Ministério Público. Nessas ações, diante da gravidade dos fatos, os juízes costumam liminarmente determinar o bloqueio de bens, mas a perda da função pública e a suspensão dos direitos políticos somente se efetivam com o trânsito em julgado da sentença condenatória.

O rigor do Ministério Público não é o mesmo em todas as unidades federativas e já vimos um ex-presidente da República safar-se dos rigores da lei pela circunstância de a denúncia formulada ao Judiciário, em gravíssimo caso de corrupção, haver incluído somente seus parceiros na trapaça.

A verdade é que tem havido no Brasil uma incompreensível tolerância com a conduta abertamente contrária à moral de agentes públicos investidos de mandato. A Lei da Improbidade Administrativa, em seu artigo 14, prevê que qualquer pessoa poderá representar à autoridade administrativa competente para que seja instaurada investigação destinada a apurar a prática de ato de improbidade. Mas isso raramente é feito.

Está igualmente proporcionado ao Ministério Público, diante de representação formulada, requisitar (abrir) inquérito policial ou administrativo para apurar o ilícito apontado. Quando o ilícito se torna público, como no caso do mencionado senador, em geral é mais cômodo e mais fácil fingir que nada aconteceu e que não vale a pena o esforço.

Essa tolerância faz parte das nossas coisas, coisas nossas, como Noel Rosa dizia no samba. Podemos concluir que o senador Renan Calheiros continuará rindo de nós e enriquecendo sua biografia já conhecida com fatos desse calibre. E os outros senadores, por solidariedade e espírito corporativo, não irão "queimar-se" com uma coisa assim tão sem importância.

Enfim, tudo continuará na mesma.

Governo terá de se esforçar para manter PIB de 2% em 2014

Ana Luiza Daltro e Marcelo Sakate
Veja online

Se tudo der certo, o governo Dilma vai emplacar em 2014 um crescimento de 2% na economia. Mas ainda há muito vento de proa para atrapalhar mesmo esse “pibinho”

(Ueslei Marcelino/Reuters) 
Crescimento de 2% só se repetirá em 2014 se todos os ventos soprarem a favor 

Por ter de avançar submetida a diversas forças, mantendo o rumo e a sustentação, a economia de um país pode ser comparada a um avião. Não é por outra razão que os economistas usam e abusam de metáforas aeronáuticas quando analisam desempenhos ou fazem previsões. Quando a economia tem boas taxas de crescimento, eles dizem que o país “decolou”. Se acham que o crescimento não é sustentável - ou seja, foi induzido por impulsos artificiais, como juros inadequadamente baixos ou tabelamento da taxa de câmbio -, dizem que ele não passa de um “voo de galinha”. 

Da mesma forma, se preveem que uma economia aquecida começa a dar sinais de desgaste, eles dizem que ela poderá ter um “pouso suave ou se esborrachar na pista”, dependendo das circunstâncias e da habilidade do “piloto na cabine de comando”. Se usarmos essa mesma linha de metáforas para entender as perspectivas da economia brasileira para 2014, a imagem mais realista que vem à mente é a de um avião em voo rasante que não cai e tampouco ganha altura, apesar do excruciante esforço das turbinas. É assim há três anos e vai continuar sendo assim em 2014.

A expansão média da economia no triênio da presidente Dilma Rousseff é de 2% ao ano, abaixo do ritmo mundial, de 3,3%. Em 2014, a economia brasileira vai encontrar pela frente uma circunstância externa predominante que influenciará fortemente todas as demais variáveis. Essa força maior é a decisão do governo dos Estados Unidos de retirar os estímulos monetários bilionários que vinha dando à economia desde a crise de 2008. Quem vai manejar a retirada é a economista Janet Yellen, a nova presidente do Fed, o banco central americano, cargo que ela assume em substituição a Ben Bernanke. Nenhum país - nem o Brasil, apesar da retórica ufanista oficial - ficará imune às grandes mudanças de rumo da economia americana. Enquanto duraram os estímulos bilionários, os juros americanos foram mantidos próximo de zero e não valia a pena investir nos papéis emitidos pelos Estados Unidos. 

A rentabilidade estava em países emergentes. O Brasil tornou-se um destino preferencial de investimentos mundiais. Com a mudança de curso, os juros americanos vão subir e remunerar bem melhor os investimentos. Juros mais altos vão se combinar de novo com a segurança oferecida pelos papéis americanos (os Estados Unidos nunca declararam uma moratória em sua história), e não vai ser fácil competir com eles por investimentos. Esse será o cenário dominante em 2014, e as aeronaves econômicas vão ter de se adequar a essas condições atmosféricas.

Para o Brasil será desastroso se o Fed agir de forma abrupta. As reservas em dólares se evaporarão em pouco tempo. Mas o país tem 375 bilhões de dólares em reservas e ainda assim está fragilizado? Sem dúvida. Mesmo antes do anúncio do fim dos estímulos pelo Fed, o Brasil torrou o equivalente a parte substancial das reservas (cerca de 100 bilhões) na tentativa de não deixar o preço do dólar disparar em relação ao real. “As mudanças na política monetária americana terão o efeito de um gatilho - e não de causa primária - de mais problemas na economia brasileira”, diz Sergio Vale, economista-chefe da consultoria MB Associados. Temos de torcer para que a retirada dos estímulos à economia americana seja o mais gradual possível. Nesse cenário mais ameno, em condições de atuar sem estar em uma emergência cambial, o Brasil poderá até fazer do limão uma limonada. 

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Há sinais claros de retomada de ritmo das economias dos Estados Unidos e dos países europeus. Esse reaquecimento combinado dos dois lados do Atlântico é uma boa notícia para os exportadores brasileiros. Nesse cenário, a inevitável depreciação do real acaba sendo um fator favorável de competitividade para os exportadores brasileiros. Dessa forma, a mudança de rumos da poderosa economia americana teria sobre o avião brasileiro um efeito neutro. Isso é bom.

Seria ainda melhor se o Brasil estivesse mais equilibrado internamente. Não está. A deterioração das contas públicas, um movimento contínuo desde 2011, deve se acentuar em 2014, como ocorre em todo ano eleitoral. “Existem medidas já tomadas, de desoneração fiscal e de aumento de gastos, que impedem que o governo ponha em prática o discurso de uma política fiscal menos expansionista”, diz Ilan Goldfajn, economista-chefe do Itaú Unibanco. O voo rasante se explica pelo peso do Estado na economia. As turbinas de quem trabalha e paga impostos não suportam mais tanta carga tributária. Nessa situação, o Brasil cresce pouco e, portanto, mesmo com impostos excessivos, a arrecadação tende a baixar. A expectativa é que a diferença entre as receitas e as despesas antes de serem pagos os juros da dívida (o superávit primário) seja de apenas 1,3% do PIB, abaixo do 1,8% de 2013. São os dois piores resultados em uma década - e insuficientes para impedir que a dívida total em relação ao PIB volte a subir. 

Nosso avião, que já resfolega para se manter no ar, pode começar a preocupar os investidores, que, assim, cobrariam uma taxa de risco maior, encarecendo os empréstimos para o governo e as empresas brasileiras. “O maior desafio do governo será reverter a crise de confiança que afeta as decisões de empresas e consumidores”, diz o economista Carlos Langoni, ex-pre¬sidente do Banco Central, da Projeta Consultoria. A fragilização dos fundamentos reduz o espaço para a melhora das expectativas. “Um novo plano de ação é necessário para que o Brasil volte a crescer acima de 3% ao ano. Isso envolve não só um comprometimento fiscal e monetário como político para que reformas sejam votadas e aprovadas”, diz Will Landers, gestor em investimentos para a América Latina da BlackRock, a maior empresa de administração de recursos do mundo.

Para passageiros que já sofreram com essas fragilidades no passado, a economia brasileira parece ainda mais arriscada. Crises de confiança se instalam rapidamente. Custa caro e é demorado reverter as expectativas. A boa vontade com o Brasil é imensa. Somos um país pacífico, unificado pelo idioma, sem disputas étnicas ou religiosas, com uma população que começa a ter oportunidades iguais de educação e ascensão social. É quase tudo de que um investidor precisa para se convencer a colocar aqui suas economias. 

O governo tem de fazer a sua parte - como o fez em 2013, com o sucesso da privatização de alguns aeroportos e estradas. Por essa razão, mesmo em ano eleitoral, o Brasil pode sinalizar para o mundo que podemos empinar o nariz do nosso avião e subir para patamares bem mais altos. Diz Monica Baumgarten de Bolle, diretora do Instituto de Estudos de Política Econômica - Casa das Garças e sócia da Galanto Consultoria: “Se as políticas econômicas erráticas forem corrigidas e a agenda de reformas retomada, o Brasil poderá voar mais alto”.

‘Esqueleto’ de fundos é ameaça às finanças públicas

Editorial
O Globo

O governo federal estima que o déficit potencial do regime próprio de previdência de estados e municípios possa atingir o valor de R$ 78 bilhões

A Lei de Responsabilidade Fiscal estabeleceu limites para as despesas de pessoal de todos os entes federativos. Foi uma decisão necessária, pois entre as causas do descontrole das contas públicas (um dos principais “combustíveis” da superinflação que atazanou a economia brasileira por décadas) estava o comprometimento da arrecadação tributária com a folha de pagamentos. Não raro estados e municípios destinavam a quase totalidade de suas receitas disponíveis para despesas de pessoal.

Tais regras envolveram também o pagamento dos servidores inativos, em face do aumento progressivo da participação dessas despesas no total da folha. Reformas aprovadas nos governos Fernando Henrique Cardoso e Lula ajudaram os entes federativos a promover ajustes em suas despesas de pessoal. Mais recentemente, o governo Dilma finalmente pôs em prática o fundo de previdência suplementar dos servidores federais, que, no futuro, deverá complementar os vencimentos dos inativos que ultrapassarem o teto do regime geral de previdência (INSS). Os estados do Rio de Janeiro e de São Paulo aderiram igualmente a esse modelo.

A questão da aposentadoria dos novos servidores públicos tende a ser bem equacionada financeiramente. Mas em relação aos antigos servidores há desafios não superados. Para atender às determinações da Lei de Responsabilidade Fiscal, estados e municípios com regimes próprios de previdência tiveram de criar fundos destinados a custear especificamente o pagamento de seus servidores inativos e de pensionistas. Com baixa capacidade de poupança, os entes federativos têm dificuldades para capitalizar esses fundos. Quando possuem algum patrimônio imobiliário, transferem a propriedade para os fundos. No entanto, grande parte dos recursos dos fundos é proveniente ainda da arrecadação durante o exercício fiscal. Na tentativa de capitalizá-los, os fundos previdenciários são autorizados a aplicar no mercado financeiro parte os recursos que recebem dos tesouros estaduais e municipais. E aí é que começaram a surgir problemas.

Como O GLOBO publicou nas edições de domingo e segunda-feira, a desorganização, a má gestão e as fraudes no sistema de previdência dos servidores públicos são significativas e representam ameaça ao equilíbrio das contas públicas. O déficit atuarial estimado pelo governo em 2.000 RPPs (regime próprio de previdência) é de R$ 78 bilhões. Trata-se de um novo “esqueleto”, em vigoroso crescimento, no armário das contas da União — responsável constitucional, em última análise, pelos passivos previdenciários. É preciso ação firme, urgente e unificada, de governo, Congresso, estados e prefeituras para evitar uma “quebradeira, em breve”, como diagnostica, com razão, o Ministério da Previdência.

Sem trégua na inflação

Clarice Spitz 
O Globo

Após pressões em alimentos e serviços este ano, 2014 será de alta nos administrados

Fabio Rossi / Agência O Globo 
Boa parte dos economistas 
acredita em novo reajuste dos combustíveis no ano que vem 

RIO - Sem respeitar classe social, a inflação incomodou os brasileiros em 2013. A alta de preços foi mais sentida em produtos com muita relevância no cotidiano de consumidores, como os alimentos, que pesaram mais no bolso dos brasileiros de baixa renda. O tomate foi um dos vilões. Os serviços, que têm peso maior no orçamento das famílias mais ricas, também subiram com força. Serviços de beleza, empregada doméstica e aluguel ficaram mais caros. Boa parte das consultorias espera que, este ano, o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA, usado nas metas de inflação do governo) fique pouco abaixo dos 5,8% registrados em 2012. Mas, para especialistas, não há o que comemorar. Será o quarto ano seguido que o IPCA ficará acima do centro da meta, que é 4,5% (há uma margem de tolerância de dois pontos percentuais para baixo ou para cima). E os analistas veem uma piora no perfil da inflação e pressões mais fortes vindas dos preços administrados em 2014.

Boa parte dos economistas acredita em novo reajuste dos combustíveis no ano que vem. Seria uma tentativa de dar fôlego aos investimentos da Petrobras. Em 30 de novembro, a estatal reajustou em 4% a gasolina e em 8% o diesel nas refinarias, mas, segundo os analistas, a alta foi aquém das necessidades da empresa.

‘Efeito Copa’ nos preços
Outros especialistas veem ainda, em 2014, um “efeito Copa” de alta dos preços de passagens aéreas e hotéis. Já alimentos e serviços deverão sair de cena. O calendário eleitoral deve coincidir com a alta dos preços. O IPCA acumulado em 12 meses deverá subir a partir de maio do ano que vem e chegar ao pico em setembro, ou seja, às vésperas do primeiro turno das eleições.

A Tendências Consultoria aposta que a taxa deverá chegar em setembro com alta de 6,13% em 12 meses e desacelerar para fechar o ano em 6%. Isso sem reajuste de gasolina, nem reajuste de tarifa de ônibus em grandes capitais. Em 2013, aliás, a suspensão dos aumentos de ônibus em várias capitais, após as manifestações populares de junho, ajudou a evitar uma alta maior da inflação. Sem a atuação do governo em várias frentes — com redução da tarifa de energia, desoneração da cesta básica, manutenção das tarifas de transporte público e controle dos preços da gasolina — o IPCA ficaria em 7,3% em 2013, segundo a Tendências.

Para o ano que vem, o que pode complicar o cenário, na visão da Tendências, é um eventual rebaixamento da nota de crédito do Brasil por agências de classificação de risco. Isso levaria o dólar para R$ 2,55, e o IPCA encerraria o ano em 6,2%.

O economista Luis Otávio Leal, economista chefe do banco ABC Brasil, acha que os preços administrados são a principal fonte de preocupação para 2014.

— Este ano, teremos os preços administrados abaixo de 1%. Ano que vem, deverão ficar em 4,5%. A grande pressão virá deles, que têm peso de 25% no índice. A estrutura da inflação está pior. Não fosse isso, o Banco Central não elevaria os juros. O governo tem usado a Petrobras para combater a inflação, mas, como boa parte dos investimentos que se esperam para os próximos anos vêm da estatal, achamos que não há como não fazer novo reajuste — afirma Leal.

A Copa do Mundo também deverá ser outro foco de pressões inflacionárias. Segundo Milton Pignatari Filho, professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie, preços de passagens aéreas e de diárias mais altas e toda uma gama de serviços de turismo e vestuário, que devem ter reajustes ao longo do primeiro semestre em razão do Mundial, devem deixar a inflação mais complicada no ano que vem. Só o “efeito Copa” pode significar um ponto percentual na inflação de 2014, segundo seus cálculos.

— As altas deverão afetar também quem viaja a trabalho. O repasse desse tipo de aumento é imediato. Vimos isso com o reajuste da gasolina. Nem bem tinha saído a decisão, os postos já tinham subido os preços — afirma.

Leite longa vida subiu 23% este ano
A LCA faz a mesma avaliação. Para o próximo ano, estima uma inflação com mais pressão de transportes, com destaque para passagens aéreas. A estimativa da consultoria é de que o preço das passagens suba 22% em 2014, depois de uma alta projetada em 6,5% em 2013. Segundo a consultoria, o último reajuste dos combustíveis, de 30 de novembro, deve gerar impactos ainda na inflação do primeiro semestre de 2014, principalmente com reflexo no custo do diesel no frete. A consultoria espera um IPCA de 5,9% no ano que vem.

— Esperamos alguma desaceleração na alta de alimentos na esteira dos preços de commodities. Nossa estimativa é de inflação de alimentos de 7,4% em 2014, contra 8,1% em 2013. Já o grupo transportes deve vir com alta mais forte, puxada por passagens aéreas, por causa da Copa — afirma o economista da LCA Consultores Fabio Romão.

A alta dos juros básicos, que voltaram a ficar acima de dois dígitos (a Taxa Selic está em 10% ano desde 27 de novembro), e o reajuste do salário mínimo menor em 2014, por outro lado, devem ajudar a conter a alta dos preços livres. Até novembro, os itens com mais impacto no IPCA são os serviços: o aluguel aparece em primeiro (11,17%), seguido por refeição fora de casa (8,23%), empregado doméstico (10,31%), plano de saúde (7,95%), cursos regulares (8,22%), remédios (4,67%) e higiene pessoal (5,97%). Apesar da fama do tomate, o leite longa vida teve grande destaque entre os alimentos, devido a uma restrição na oferta internacional e subiu 23,02% até novembro. O lanche teve alta de 10,95% e o pão francês, de 14,22%.

— Este ano, o aumento do leite, alimento básico, com peso importante no orçamento das famílias, foi muito grande. Aliás, neste ano, o pão, o leite e o lanche em geral ficaram mais caros — lembra Eulina Nunes dos Santos, coordenadora de Índices de Preços do IBGE.

Pressões do salário mínimo

Celso Ming  
O Estado de S.Paulo

Os reajustes do salário mínimo acima da inflação ajudaram a aumentar o poder aquisitivo do consumidor, mas abriram rombos nas contas do setor público que têm de ser cobertos por arrecadação de impostos que, por sua vez, tirarão renda do consumidor.

Pela regra definida em 2011, o salário mínimo de 2012 a 2015 (inclusive), é corrigido pela variação do Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC) acrescido do avanço do PIB apurado dois anos antes. Assim; o salário mínimo de 2013 foi calculado com base no avanço do PIB de 2011 e o de 2014 será com base no PIB de 2012.

Até o final de 2014, o governo federal deverá encaminhar ao Congresso projeto de lei que definirá as novas regras que vigorarão a partir de 2016.

Pelos cálculos do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (Ibre/FGV), entre dezembro de 2012 e dezembro de 2013, o salário mínimo teve uma correção real (acima da inflação) de 81,4%, o que dá um avanço médio de 5,6%, substancialmente superior ao crescimento do PIB no período.

O principal impacto desse ajuste não foi no poder aquisitivo dos trabalhadores do setor privado (formal ou informal), mas no setor público. Nada menos que 20,6 milhões de pessoas recebem ao menos um salário mínimo mensal da Previdência Social, como aposentadoria ou benefício social regulado pela Lei Orgânica da Assistência Social. Só no INSS, 67% dos beneficiários recebem salário mínimo e, portanto, têm sua renda reajustada de acordo com esse critério. Também estão vinculadas ao salário mínimo as despesas com seguro-desemprego. Em novembro, o ministro Guido Mantega se mostrou espantado com o déficit (R$ 47 bilhões) nas contas do seguro-desemprego, num ano em que a desocupação atinge 4,6% da força de trabalho (dados de novembro). Em parte, isso ocorreu em consequência das atuais regras para o reajuste do salário mínimo.

Além da massa de beneficiários remunerada pelo governo federal, há ainda a fatia enorme de funcionários públicos estaduais e municipais, cuja renda também está atrelada ao salário mínimo. Enfim, o impacto do reajuste sobre as contas públicas é enorme.

O governo terá de negociar num ano eleitoral ou a extensão das atuais regras ou novas regras que entrarão em vigor em 2016 e deverão ser observadas até 2019, inclusive. A FGV calcula que, se os atuais critérios de reajuste do salário mínimo se mantiverem, as transferências de recursos do governo federal para as áreas da previdência e da assistência social subirão de 9,6% do PIB em 2013 para 10,7% do PIB em 2019.

Do ponto de vista político, se for reconduzida para um segundo mandato, a presidente Dilma terá motivos para um empenho maior em conter o salário mínimo, porque sabe o efeito de um reajuste mais generoso para a administração federal. Mas, para isso, terá de enfrentar a campanha dos sindicatos, que começará bem antes de outubro, com o calendário eleitoral como instrumento de pressão.

O risco da volta a 2003

Editorial
O Globo

Superávit primário e a política fiscal

Os quase 16 anos deste ciclo do PT no Palácio do Planalto começaram de uma forma, na condução da política econômica, e entram no último ano de mandato de Dilma Rousseff de outra maneira. Uma das diferenças marcantes — pelo menos até agora — ocorre na condução da política fiscal.

Em 2003, quando o partido e aliados subiram a rampa do Palacio do Planalto com Lula de faixa presidencial, a política de gastos públicos seguiu os manuais clássicos. Foi uma administração atenta, contra abusos, restritiva, coerente com a necessidade daquele momento.A inflação, atiçada pela subida do dólar em função do “risco-PT”, chegou aos píncaros dos dois dígitos e precisou ser debelada por uma política de contenção de despesas governamentais conjugada com a elevação dos juros básicos (política monetária).

Deu certo, como previsto, e o IPCA se aproximou da meta dos 4,5%, estabelecida com dois pontos de margem para cima ou para baixo. A partir do final do segundo governo Lula, o respeito à política do tripé — cumprimento das metas de inflação, do superávit primário e câmbio flutuante —, mantida, com êxito da Era tucana, foi, digamos, flexibilizado.

Sob inspiração da ideologia “desenvolvimentista”, lastreada no intervencionismo estatal, lançou-se a política do “novo marco macroeconômico”, consubstanciada em câmbio desvalorizado, juros baixos e nenhuma maior preocupação com os gastos — para ativar a demanda — e inflação.Neste aspecto, dentro da ideia equivocada, e tantas vezes comprovada como míope, de que vale a pena “um pouco de inflação, para se obter um crescimento maior”.Ora, a inflação corrói o crescimento. Como mais uma vez o país testemunha.

O abandono do “tripé” ficou bastante visível na “perna” fiscal. O recurso constante a subterfúgios para se abater a meta de superávit primário foi, aos poucos e implacavelmente, abalando a credibilidade da política fiscal, ponto-chave para investidores no país e credores do Tesouro. Pois se trata de saber sobre a capacidade que o Estado brasileiro possui de pagar as suas dívidas.

Não há qualquer risco de desastre na esquina. Mas a tendência de aumento constante das despesas em custeio, acima da arrecadação, faz o mercado precificar o futuro.Ele passa, por exemplo, a exigir rendimentos mais elevados em títulos do Tesouro com taxas prefixadas. Aumenta o custo do Estado para a sociedade. E isto já acontece.

Com o advento da “contabilidade criativa”, capaz de gerar receita primária, por exemplo, por meio de dividendos de bancos públicos pagos na verdade com dinheiro de dívida do Tesouro, o quadro piorou para o país.

A meta de 3,1% do PIB de superávit primário foi reduzida para 2,1%, mas deverá ser abaixo disso. Há sinais de que o Planalto percebeu o erro do sepultamento do “tripé”. Tem 2014, ano eleitoral, para tentar consertar os estragos. Se não, 2015 pode repetir 2003.

Mantendo a marcha lenta

O Estado de S.Paulo

Poderá haver uma novidade na economia brasileira em 2014. Os investimentos deverão impulsionar o crescimento bem mais do que fizeram nos últimos anos. Até agora sustentada pelo consumo - que foi muito estimulado com a generosa concessão de créditos e a redução da tributação de itens de grande vendagem, mas se retrai -, a atividade econômica dependerá cada vez mais daquilo que o poder público e as empresas privadas aplicarem na produção e na infraestrutura.

Isso não significará, porém, a retomada do crescimento rápido. Em razão do desânimo de boa parte dos empresários, os investimentos deverão se concentrar não em máquinas, mas em obras de infraestrutura, cuja expansão depende da limitada competência do governo para retirar do papel seus muitos projetos. Assim, de 2013 para 2014 o ritmo da atividade econômica não deverá oscilar muito. Poderá até diminuir.

Esses são pontos comuns de análises do desempenho da economia brasileira em 2013 e das perspectivas para 2014 feitas pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e pela Fundação Getúlio Vargas (FGV).

Embora tenha sido melhor do que o do ano anterior, o desempenho da economia em 2013 foi bastante modesto. A CNI estima que, neste ano, o PIB deve ter crescido 2,3%, mais do que o aumento de 1% observado em 2012. Mas, com base nos dados já conhecidos e nas expectativas do empresariado, ela prevê uma desaceleração em 2014, quando o PIB brasileiro poderá crescer 2,1%.

Vinculado à Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República, o Ipea tem previsões um pouco mais otimistas para o crescimento da economia em 2013 - ano em que o desempenho foi considerado fraco e volátil - e 2014, mas, como a CNI, não prevê grandes mudanças na atividade econômica de um ano para outro.

As limitações financeiras decorrentes da fragilidade da política fiscal levaram o governo a apelar para a participação da iniciativa privada no seu plano de induzir o crescimento por meio dos investimentos. "Por isso a urgência que temos visto para as concessões de infraestrutura", observou o coordenador de Estudos e Políticas Macroeconômicas do Ipea, Fernando Ribeiro. Para 2014, Ribeiro prevê o aumento da participação das obras de infraestrutura na composição dos investimentos, em detrimento da compra de máquinas e de bens de capital.

Também a CNI projeta menores investimentos em máquinas em 2014, em razão do aumento previsto para a taxa dos juros e da baixa confiança dos empresários. A previsão do Ipea e da CNI é, de certa forma, sustentada pelas pesquisas da FGV sobre a confiança da indústria, que apontam para a existência, ainda, de estoques volumosos. Embora menores do que nos meses anteriores, os estoques ainda inibem a confiança dos empresários, o que limita sua disposição de investir.

Embora as transferências do governo por meio de programas como Bolsa Família e a boa situação do mercado de trabalho - com índices muito baixos de desemprego - tendam a sustentar o consumo, surgem fatores que podem reduzi-lo. Os ganhos reais de salários estão se estreitando, o crédito às pessoas físicas se desacelera, enquanto sobem as taxas de juros médias dos empréstimos e continua alto o nível de endividamento das famílias.

Assim, diz o Ipea, "a desejada aceleração do crescimento depende diretamente da expansão dos investimentos". E, para assegurar o crescimento no futuro, é preciso que esses investimentos resultem em ganhos de produtividade, que possam sustentar ganhos reais de renda sem pressionar a inflação.

O cenário mais provável, no entanto, é de que "a economia permaneça por mais algum tempo na atual trajetória, sem grandes riscos de deterioração, mas também sem grandes possibilidades de dinamização no curto prazo", como prevê o Ipea. Ou, como diz a CNI, "a expectativa é de que a economia brasileira siga com dificuldade de acelerar o ritmo de crescimento, uma vez que a maior parte dos entraves a essa aceleração está fundamentada em questões estruturais, que dificilmente serão solucionadas no curto prazo".

OAB prepara ofensiva para reduzir cobrança de imposto sobre salários

Bianca Pinto Lima 
 O Estado de S. Paulo

Ordem dos Advogados do Brasil vai questionar no Supremo a defasagem de mais de 60% da tabela do Imposto de Renda em relação à inflação 

SÃO PAULO - A Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) prepara uma ofensiva contra a defasagem de mais de 60% da tabela do Imposto de Renda (IR) em relação à inflação. A entidade quer levar a questão ao Supremo Tribunal Federal (STF) para exigir a correção total das faixas de cobrança de acordo com o índice de preços oficial, o IPCA. "O cidadão fica desprotegido diante da máquina tributária e tem o seu patrimônio confiscado indevidamente", afirmou ao Estado o presidente nacional da OAB, Marcus Vinicius Furtado Coêlho.


Pelo 18º ano seguido, a tabela será corrigida abaixo do IPCA, fazendo com que o Fisco chegue ao bolso de cada vez mais brasileiros, consumindo seus novos rendimentos. O objetivo da Ordem é ingressar em fevereiro com uma Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) para tentar reverter esse quadro. "Pediremos que haja uma liminar pelo plenário do Supremo para a nova correção já valer em 2014. Se não for possível, solicitaremos rito célere à tramitação e uma resposta à sociedade o mais rapidamente possível", diz Coêlho.

A OAB promete colocar a ADI em pauta na primeira sessão de 2014, em 11 de fevereiro, quando ela será debatida pelos conselheiros federais. Mas Coêlho já vê a aprovação como certa. "Percebo uma forte tendência para que o conselho acolha o parecer (favorável à ADI). Essa será a minha defesa. O valor da correção não pode ser algo discricionário, mas sim que reponha o valor da moeda."

Cofres públicos. 
Questionado sobre o efeito da correção total da tabela sobre os cofres públicos, Coêlho diz que o Supremo poderá decidir por uma reposição gradual. A proposta do Sindicato Nacional dos Auditores Fiscais da Receita Federal (Sindifisco) - que pede uma devolução ao longo de dez anos - pode ser uma referência, afirma a OAB.

A ideia do Sindifisco é reduzir gradativamente a discrepância a partir de 2015. A cada ano haveria, portanto, a correção pela inflação e mais um porcentual adicional, até que a defasagem fosse extinta.

Além da correção da tabela, o projeto do Sindifisco estabelece a taxação de lucros e dividendos a partir de R$ 60 mil por ano. Desde 1995, esses valores são isentos de IR no País. Essa nova tributação, de acordo com os auditores, financiaria as perdas com o reajuste e ainda haveria uma sobra.

Salário mínimo X IR. 
A defasagem da tabela, que deverá fechar esse ano próxima de 66%, ainda se soma ao aumento do salário mínimo, também superior à correção do IR. No próximo ano, o mínimo será elevado para R$ 724, uma alta de 6,78% ante os R$ 678 atuais. A tendência pode ser observada desde 1996, quando houve o congelamento das faixas de cobrança, que durou até 2001. Nos anos seguinte, todos os reajustes foram inferiores ao IPCA.

O resultado disso é o aumento da tributação sobre o assalariado. Em 1996, a isenção do imposto beneficiava quem recebia até 6,55 salários mínimos, segundo levantamento da consultoria Ernst & Young. Em 2014, essa relação despencará para 2,47. Assim, brasileiros antes isentos por causa da baixa renda vão paulatinamente ingressando na condição de contribuintes.

Novos valores. 
A última correção automática da tabela do IR entra em vigor a partir de janeiro e elevará em 4,5% as faixas de cobrança - contra uma inflação de 5,85% em 2013, pelo IPCA-15. O porcentual de 4,5% é o centro da meta de inflação definida pelo governo, mas o avanço dos preços no País segue bem acima desse patamar desde 2010.

As novas faixas já serão deduzidas na folha de pagamento em 2014 e valerão para a declaração do IR de 2015. Pela nova tabela, passam a ser dispensados do pagamento do imposto os empregados que recebem até R$ 1.787,77. Atualmente, o tributo não é cobrado de quem ganha até R$ 1.710,78.

A alíquota de 7,5% passa a ser aplicada para quem receber entre R$ 1.787,78 e R$ 2.679,29. Já o desconto de 15% passa a ser aplicado sobre a faixa salarial de R$ 2.679,30 até R$ 3.572,43. A alíquota de 22,5% valerá em 2014 para quem recebe salários entre R$ 3.572,44 e 4.463,81. Por fim, a alíquota máxima, de 27,5%, vai incidir sobre vencimentos superiores a R$ 4.463,81.

Tabela do IR corta poder aquisitivo do assalariado

O Estado de S.Paulo

Dia 1.º entra em vigor a nova tabela de Imposto de Renda (IR) na Fonte, corrigida em 4,5% em relação à tabela que vigorou neste ano. Comparativamente a dezembro, o desconto na fonte do IR será menor, o que apenas parece, mas não é uma vantagem para os contribuintes. Afinal, a inflação deste ano superou muito os 4,5% (até novembro, em 12 meses, foi de 5,77%) e a maioria dos reajustes salariais foi igual ou superior à inflação.

Base de cálculo mensal (R$)
Alíquota (%)
Parcela a deduzir do imposto (R$)
 Até 1.787,77
 --------
 ----------
 De 1.787,78 até 2.679,29
 7,5
 134,08
 De 2.679,30 até 3.572,43
 15
 335,03
 De 3.572,44 até 4.463,81
 22,5
 602,96
 Acima de 4.463,81
 27,5
 826,15

Nos últimos 18 anos, o governo corrigiu a tabela do IR por índices inferiores à inflação. Acumulou-se, assim, uma diferença entre a correção que deveria ter sido aplicada e a que realmente foi aplicada na tabela. No período, a defasagem atingiu 66%, o que dá uma ideia da dimensão do erro. Proporcionalmente, os contribuintes pagarão em 2014 mais do que em 2013. E já foi pior: até 1996 a tabela não era corrigida.

Neste ano, ficaram isentos do IR na fonte os contribuintes que perceberam até R$ 1.710,78 por mês, valor que passará a R$ 1.787,87 mensais em 2014.

O Sindicato Nacional dos Auditores Fiscais da Receita Federal (Sindifisco) lançou uma campanha para apresentar um projeto de lei destinado a reduzir a discrepância entre a correção aplicada e a inflação, nos últimos dez anos. Um levantamento da consultoria Ernst & Young mostrou que a isenção beneficiava, em 1996, contribuintes que percebiam o equivalente a 6,55 salários mínimos. Em 2014, com a elevação do salário mínimo de R$ 678,00 para R$ 724,00, serão beneficiados os que percebem até 2,47 salários mínimos, apenas.

E haverá mais contribuintes que recolhem na fonte tendo de fazer declaração de rendimentos, um complicador a mais na vida deles. Se for preciso pagar um profissional para preencher a declaração, o prejuízo será maior.

A correção da tabela do IR em porcentual inferior ao dos índices de preços significa que a inflação - cuja maior responsabilidade é do governo, dado o desequilíbrio fiscal - acaba servindo como instrumento de aumento da carga tributária. Ajuda, portanto, a explicar por que a carga tributária no Brasil já representa, segundo o Fisco, cerca de 35,85% do Produto Interno Bruto (PIB), uma das mais elevadas do mundo.

É mais do que hora de rever a correção da tabela do IR. A correção de 4,5% baseou-se na ilusão de que a inflação ficaria no centro da meta. Mas o governo Dilma não conseguiu isso em três anos nem se espera que consiga em 2014

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"Presentinho" de Natal

TV Estadão 

Como faz há 18 anos, a Receita Federal entregou, mais uma vez, na virada do calendário, um “presentinho” de Natal aos contribuintes, sob a forma de correção das alíquotas do Imposto de Renda abaixo da inflação, elevando assim a carga tributária direta especialmente sobre as remunerações mais baixas.



4 mancadas de Dilma Rousseff em 2013

Beatriz Souza e Marina Pinhoni
Exame.com

Todo governo tem erros e acertos. Da condução da economia à resposta aos protestos, essas foram as mancadas de Dilma Rousseff no ano

REUTERS/Ueslei Marcelino 
Dilma Rousseff: a presidente apareceu mais em público neste ano
 na tentativa de recuperar sua popularidade para as eleições de 2014

São Paulo - Não dá pra dizer que 2013 termina melhor do que começou para Dilma Rousseff. A presidente ainda não recuperou a popularidade que tinha antes dos protestos de junho, e vê o Brasil ter um crescimento fraco sob mais um ano de seu governo, com desconfiança do setor privado para realizar investimentos.

Veja abaixo 4 pisadas na bola da mandatária do país. Na próxima semana, EXAME.com publicará também os acertos do governo em 2013.

1 Tropeços na economia
Em setembro, a presidente Dilma Rousseff se reuniu com investidores internacionais em Nova York para tentar atrair investimentos para a área de infraestrutura.

Em seu discurso, a presidente fez questão de afirmar que não há risco jurídico no Brasil. "Se existe um país no mundo que respeita contratos, esse país é o Brasil”, disse.

Como bem atestou a oposição na época, só o fato dela ter de vir a público dizer isso não é bom sinal. O fato é que o setor privado está com um pé atrás em relação ao governo. 

"Apesar de o governo entrar de cabeça nesse processo de parceria com capital privado, o fato é que há uma quebra de confiança. Os empresários só ficaram do lado da Dilma se, no ano que vem, a oposição não conseguir se consolidar", afirma o cientista político Leonardo Barreto.

A atuação do ministro da Fazenda, Guido Mantega, também não tem ajudado no restabelecimento dessa ligação. 

"Mantega não tem primado pela confiabliadade, a maquiagem nos gastos (a chamada “contabilidade criativa” para alcançar o suoerávit primário) é um exemplo. Se você fosse um investidor pensaria duas vezes antes de investir no país", diz Roberto Romano, professor de filosofia da Unicamp.

O baixo crescimento do PIB e a deterioração das contas públicas também pressionam o governo Dilma. Em junho, a agência S&P revisou a perspectiva do Brasil de estável para negativa, destacando o fraco crescimento econômico e a política fiscal expansionista.

A cada dia, aumenta a expectativa do mercado que 2014 seja um ano parecido com 2013. 

2 Reação aos protestos
Os protestos que tomaram as ruas das principais cidades brasileiras em junho foram uma das maiores provas enfrentadas por Dilma desde que assumiu o mandato. Milhões de pessoas foram às ruas pedir por melhores serviços públicos e pelo fim da corrupção na política.

E o que se viu foi um governo perdido, que demorou para se manifestar, e quando o fez, foi mais para confundir.

Entre as propostas apresentadas por Dilma Rousseff nos hoje já famosos cinco pactos, estava a de um plebiscito para convocar uma Constituinte exclusiva para reforma política.

A sugestão da mandatária não durou 24 horas e foi torpedeada por ministros do STF, juristas, OAB e parlamentares. Em seguida, o governo insistiu em um plebiscito para a reforma política, em que os brasileiros iriam às urnas para decidir sobre os complexos temas eleitorais.

A tentativa de fazer a consulta popular prosperar tinha desde o início pouquíssima chance de propserar no Congresso, mas Dilma a manteve como uma questão de honra para recuperar a popularidade, que caiu de 57% para 30% logo após as manifestações.

O parlamentares foram deixando o tema de lado e 2013 acaba, como muitos anteriores, sem a desejada reforma.

Na opinião de Roberto Romano, Dilma errou ao tentar se aproveitar das manifestações. "Ela foi muito apressada no sentido de estabelecer esse diálogo. Errou completamente quando tentou tomar uma carona nos protestos com propostas absolutamentes intempestivas e inconstitucionais", afirma. 

Já para Leonardo Barreto, os protestos serviram para Dilma entender que não é possível governar sem construir bases de sustentação para seu governo, tanto no Congresso quando na população mesmo. "Surgiu muita gente que estava fora do radar do governo e que mostrou um poder de mobilização imenso", diz. 

3 Dilma candidata
Apesar de ter afirmado em entrevista ao Ratinho que,antes de ser candidata, ela seria presidente até dezembro de 2014, o ano de 2013 ficou marcado como o ano em que Dilma assumiu uma postura mais agressiva com foco nas eleições.  

A presidente, que nos dois anos anteriores era mais conhecida por ser menos afeita à politicagem que o antecessor - o que chegou a ser benéfico para sua imagem -, neste ano passou a se aproximar novamente das centrais sindicais.

Dilma também apareceu mais, inaugurando mais obras e fez muitos mais discursos que nos anos anteriores:
Segundo um levantamento feito pelo R7, entre agosto e outubro, a presidente fez 23 viagens pelo Brasil - quase três vezes mais que no mesmo período do ano passado.

Dilma se focou principalmente nos três estados onde seus prováveis adversários nas eleições são mais fortes: São Paulo, Minas Gerais e Rio Grande do Sul. 

Discursos em rede nacional de rádio e televisão, como o usado para enaltecer a aprovação da PEC das Domésticas, também serviram de palanque.

Segundo o cientista político e professor do Insper Humberto Dantas, nunca se usou tanto pronunciamento em rede nacional em absoluto tom de propaganda quanto este ano. 

"A máquina de um governo pesa muito na mão de quem a detém. A máquina pesa favoravelmente num discurso unilateral. O pronunciamento oficial, em rede nacional, de um presidente jamais poderia carregar pessoalidade", critica o professor.

Com foco em 2014, Dilma também retornou às redes sociais, em particular ao Twitter, com uma bem sucedida ação coordenada com a personagem de humor Dilma Bolada. 

4 Fracasso no leilão do pré-sal
O leilão do Campo de Libra, maior reserva de pré-sal do país, teve resultado longe do alardeado pelo governo, que chegou a falar na participação de mais de 40 empresas.

O tão esperado leilão teve apenas um consórcio participante, que ofereceu o mínimo possível de 41,65% em óleo excedente para a União e confirmou os temores de que o modelo de partilha desenhado pelo governo não é tão interessante para as gigantes do petróleo.

Dias antes, BP, Exxon Mobil e outras grande do setor já haviam anunciado que não participariam.

O temor de que só empresas chinesas se interessassem, é verdade, não se concretizou, a presença da Shell, entre as 5 maiores petrolíferas do mundo, injetou confiança no grupo que irá explorar o filé mignon do pré-sal brasileiro.