quinta-feira, março 10, 2022

O que há de bom na guerra?

 Paul Krugman*, 

O Estado de S.Paulo

História moderna mostra que a vitória na guerra não significa sucesso

Foto: Valentyn Ogirenko/Reuters - 24/02/2022

Fumaça vista em Kiev, Ucrânia; invasão do

 país pela Rússia tem impacto na economia.   

O milagre ucraniano poderá durar pouco. A tentativa de Vladimir Putin de vencer rapidamente, numa boa, tomando grandes cidades com forças relativamente brandas, enfrentou grande resistência, mas os tanques e as armas mais pesadas estão a caminho. E apesar do incrível heroísmo do povo da Ucrânia, o mais provável ainda é que a bandeira russa seja eventualmente hasteada em meio aos escombros de Kiev e Kharkiv.

Mas mesmo se isso acontecer, a Federação Russa ficará mais fraca e mais pobre do que era antes da invasão. Conquistar não compensa. 

Por que não? Se olharmos para a história, veremos muitos exemplos de países que enriqueceram por meio do poderio militar. Os romanos certamente lucraram com a conquista do mundo helênico, assim como a Espanha com a conquista dos astecas e dos incas. 

Mas o mundo moderno é diferente — e por “moderno" quero dizer pelo menos a partir de um século e meio atrás. 

O autor britânico Norman Angell publicou seu famoso tratado “A grande ilusão” em 1909 argumentando que a guerra se tornara obsoleta. Seu livro foi amplamente mal interpretado, como se afirmasse que a guerra não poderia mais acontecer, hipótese que se provou horrivelmente equivocada nas duas gerações que se seguiram. Mas o que Angell afirmou, na verdade, foi que os vencedores de uma guerra não seriam mais capazes de obter nenhum lucro de seu sucesso. 

E ele certamente estava correto sobre isso. Todos agradecemos pelos Aliados terem prevalecido na 2.ª Guerra, mas o Reino Unido emergiu como uma potência diminuída, sofrendo em meio a anos de austeridade enquanto lutava contra escassez de divisas estrangeiras. Até mesmo os Estados Unidos tiveram um ajuste pós-guerra mais difícil do que muitos se dão conta, experimentando um período de aumentos de preços que ocasionaram inflação acima de 20%. 

E pelo outro lado, mesmo a derrota absoluta não evitou que Alemanha e Japão eventualmente alcançassem prosperidades sem precedentes. 

Por que e quando a conquista deixou de ser rentável? Angell argumentou que tudo mudou com a ascensão de uma “interdependência vital” entre as nações, “cortando transversalmente fronteiras internacionais”, o que ele sugeriu ser “amplamente obra dos últimos 40 anos” — começando ao redor de 1870. Pareceu um palpite razoável: foi por volta de 1870 que ferrovias, barcos a vapor e telégrafos tornaram possível a criação do que alguns economistas qualificam como a primeira economia global. 

Nessa economia global é difícil conquistar outro país sem extirpar esse país — e a si mesmo — da divisão internacional do trabalho, sem mencionar o sistema financeiro internacional, sob um grande custo. Podemos ver essa dinâmica ocorrendo em relação à Rússia neste momento.

Angell também enfatizou os limites do embargo numa economia moderna. Não podemos simplesmente confiscar ativos industriais da maneira que conquistadores pré-industriais confiscavam território, porque confiscos arbitrários destroem incentivos e o senso de segurança de que sociedades avançadas precisam para permanecer produtivas. Novamente, a história comprovou sua análise. Por um certo período, a Alemanha nazista ocupou países que possuíam antes da guerra produtos internos brutos duas vezes maiores que o seu — mas apesar da implacável exploração, os territórios ocupados parecem ter pagado por apenas cerca de 30% do esforço de guerra alemão, em parte porque muitas das economias que a Alemanha tentou explorar ruíram sob seu jugo.    

Um aparte: Não é excepcional e terrível nos encontrarmos numa situação em que os fracassos econômicos de Hitler nos dão lições úteis sobre prospectos futuros? Mas aí estamos. Obrigado, Putin. 

Eu acrescentaria outros dois fatores para explicar por que conquistar é inútil.

O primeiro é que a guerra moderna usa uma incrível quantidade de recursos. Exércitos pré-modernos dispunham de quantidades limitadas de munição e eram capazes, em certo grau, de viver da terra. Em 1864, as tropas do general no Exército da União William Tecumseh Sherman conseguiram se desligar de suas linhas de abastecimento e marchar sobre a Geórgia supridas com mantimentos suficientes apenas para 20 dias. Mas exércitos modernos requerem grandes quantidades de munição, peças de reposição e, acima de tudo, combustível para seus veículos. E de fato, as mais recentes informações de inteligência do Ministério da Defesa britânico dão conta de que o avanço russo na direção de Kiev empacou temporariamente “provavelmente como resultado de contínuas dificuldades logísticas”. O que isso significa para pretensos conquistadores é que a conquista, mesmo se bem-sucedida, é extremamente cara, o que torna mais difícil ainda    que se pague. 

O segundo é que vivemos atualmente num mundo de nacionalismos apaixonados. Camponeses da Antiguidade e da Idade Média provavelmente eram indiferentes em relação a quem os explorasse; trabalhadores modernos não são. A tentativa de Putin de tomar a Ucrânia parece ser fundamentada não apenas em sua crença de que a nação ucraniana não existe, mas também na presunção de que os próprios ucranianos podem ser persuadidos a se considerar russos. Parece muito improvável isso acontecer, então mesmo se Kiev e outras grandes cidades caírem, a Rússia levará anos tentando conter uma população hostil. 

Portanto, a conquista é uma proposta fracassada. Isso é verdadeiro pelo menos há um século e meio; isso é óbvio para qualquer um disposto a analisar os fatos ocorridos por mais de um século. Desafortunadamente, ainda existem doidos e fanáticos que se recusam a acreditar nisso — e alguns deles controlam nações e exércitos. 

/ TRADUÇÃO DE GUILHERME RUSSO

*Paul Krugman é professor do City University of New York e ganhou o Prêmio Nobel de Economia


Donos do poder

 Dora Kramer 

Revista VEJA

O próximo presidente vai encontrar um Congresso empenhado em ser cada vez mais poderoso

  Beto Barata/Agência Senado

Mesmo o PT, em sua dianteira até agora folgada, articula alianças de olho

 vivo e faro fino na execução do plano de reforço às tropas no Congresso 

Caciques dos partidos e respectivos candidatos à Câmara e ao Senado não escondem o jogo: estão mais interessados na eleição de deputados e senadores do que em investir nas candidaturas a presidente da República. Mesmo o PT, em sua dianteira até agora folgada, articula alianças de olho vivo e faro fino na execução do plano de reforço às tropas no Congresso.

Tanto é assim que as principais legendas resolveram colocar suas maiores estrelas na disputa por vagas no Parlamento. Normalmente o costume era deixar candidaturas de gente conhecida para os cargos de governador ou senador. Isso mudou quando os partidos decidiram direcionar o foco ao Legislativo, notadamente à Câmara. Governadores têm independência menor que parlamentares na relação com o Planalto.

A importância do Congresso se baseia em várias razões: o protagonismo da Casa na condução da agenda do país é uma; outra, a derrama de verbas públicas distribuídas de acordo com o tamanho das bancadas; e a terceira, a correlação de forças internas e externas, firmada a partir da fragilidade política do governo de Jair Bolsonaro. Fraqueza decorrente do erro original de visão — a ideia de que poderia contar com bancadas temáticas em detrimento das agremiações —, que o obrigou a optar pela entrega do controle da agenda do Planalto ao Poder Legislativo.

Criou-se um ambiente de desequilíbrio de poder já visto em governos cujos presidentes tiveram o mandato interrompido, mas nunca a ponto de contagiar as campanhas da eleição seguinte. E muito menos na dimensão de agora, com tanto empenho de parlamentares e dirigentes partidários em transformar a assimetria de força, antes circunstancial, em situação permanente.

O próximo Congresso se pretende tão ou mais poderoso que o atual. Dia desses o presidente da Câmara, Arthur Lira, deixou isso muito claro ao comentar medidas sugeridas por candidatos para quando, e se, chegarem ao Planalto: “Gostaria de lembrar que no meio de presidentes que estão lá e dos que estarão, há o Congresso Nacional”.

“O próximo presidente vai encontrar um Congresso empenhado em ser cada vez mais poderoso”

Os parlamentares eleitos neste ano não vão querer abrir mão da conquistada autonomia no manejo das emendas ao Orçamento nem estarão dispostos a retroceder no exercício da derrubada de vetos presidenciais, prática antes excepcional que se tornou corriqueira. Basta comparar.

A um ano de completar o mandato, Bolsonaro teve 35% de seus vetos a matérias aprovadas no Parlamento derrubados total ou parcialmente. Na Presidência de Luiz Inácio da Silva foram 0,5%, sob Dilma Rousseff, 1,5% e na gestão de Michel Temer, 16,5%.

O avanço do Legislativo sobre o Executivo é nítido. A permanência dessa condição é obviamente desejada pelos partidos que trabalham fortemente para isso. Podem até não se submeter às regras rígidas das federações que os obrigam a afinidades em nada condizentes com as práticas partidárias em vigor, mas preparam um plano B.

Para escapar de exigências praticamente inexequíveis os partidos, combinam alianças de modo a formar grupos de atuação conjunta para concorrer ou pelo menos dividir com o Centrão a influência sobre o mandatário a ser eleito ou reeleito. A ideia é que na próxima legislatura não haja um, mas vários Centrões a ditar os rumos do governo a partir do Congresso, de preferência tendo gente experiente na composição das bancadas. Agora a palavra de ordem não é a da renovação pura e simples, com a eleição de figuras novas. O esforço é pela volta de políticos de destaque: ex-ministros, ex-governadores, ex-senadores e ex-deputados que ocuparam posições importantes em governos anteriores.

Nesse cenário, seria imprescindível a manifestação dos candidatos a presidente sobre como pretendem lidar com um Congresso que faz e acontece — só cumpre decisões judiciais quando quer, estabelece a destinação de recursos em benefício próprio como bem entende, entre outras liberdades — e tenciona fazer e acontecer muito mais.

Nenhum dos candidatos disse coisa alguma a respeito dessa desarmonia entre os poderes. Mas quem for governo em 2023 ou tem coragem de enfrentar o tema da reforma de um sistema político-eleitoral caduco, com quase 100 anos de existência, ou cairá na ilusão de que em sua majestosa presença no Planalto será tudo diferente. Não será.

Os textos dos colunistas não refletem, necessariamente, a opinião de VEJA

Publicado em VEJA de 9 de março de 2022, edição nº 2779


Ah, que delícia de guerra!

 Carlos Brickmann 

Há gente morrendo, bilhões de dólares gastos para explodir vizinhos, um país resistindo ao ataque de uma superpotência nuclear, sabendo que não há vitória possível a curto prazo. Há países sufocados pelo preço do petróleo, há um país – o nosso - cuja maior atividade econômica está à beira de estrangulamento por falta de fertilizantes.

Qual a preocupação do presidente Bolsonaro, enquanto o Brasil corre riscos, enquanto gente morre? Tomar dos índios as terras em que há potássio. Só? Não. Palavras do presidente: “O Projeto de Lei 191 permite a exploração de recursos minerais, hídricos e orgânicos em terras indígenas”. Abre o jogo: “A guerra entre Rússia e Ucrânia é uma boa oportunidade para o Brasil aprovar a exploração de terras indígenas”. E é necessário assaltar os índios?

Não: a maior parte do potássio amazônico está fora das áreas indígenas e é da Petrobras. É desenvolver as minas, o que a lei permite, e ampliar a produção de potássio. Só potássio?

De novo, não: há tipos de rocha com grande teor de minerais, que moídas e acrescentadas ao solo são excelentes fertilizantes. Já são muito usadas, em especial para a agricultura familiar, desde 2013, com a lei 12.890. São bem mais baratas, “disponíveis, eficientes, sem problemas ambientais como a contaminação do ar e da água; ainda podem sequestrar carbono e guardá-lo”, ensina a geóloga e professora da UnB Suzi Hoff Theodoro. Normalmente são explorados por pequenas mineradoras. Se crescerem, é bom para todos.

Na terra dos outros

O líder do Governo na Câmara dos Deputados pediu urgência na votação do tal Projeto 191. O presidente da Câmara, Arthur Lira, disse que é preciso debater logo o projeto e não ignorar a pauta. Mas não é preciso: a Associação Brasileira de Produção Mineral informa que a questão indígena não tem atrapalhado os projetos de exploração dos fertilizantes. “É preciso que haja uma análise técnica de cada empreendimento, apenas isso”. E um projeto para não afetar a vida de quem mora lá e terá de conviver com mais poluição, ruídos e tráfego.

Se fosse apenas questão de produzir fertilizantes, não haveria problema. O problema é incomodar os indígenas.

Apertando o laço

O presidente Joe Biden informou ontem que os Estados Unidos proibirão importações de petróleo, gás e outras fontes russas de energia. Por enquanto, os EUA estão sozinhos: a Europa não os seguiu. Mas os EUA são o maior comprador mundial de petróleo. O prejuízo para a Rússia deve ser grande.

Ontem de manhã, o petróleo estava a US$ 130 o barril, preço altíssimo. A decisão americana deve levantar o preço do petróleo. O russo Putin diz que o petróleo ruma para US$ 300 o barril, o maior preço da História.

Enxugando gelo

O Governo brasileiro busca uma fórmula de conter o aumento dos preços do combustível. É difícil: o petróleo vem subindo rapidamente. Imagine que vá a US$ 200 o barril, pouco mais de 50% acima do preço atual. Como será possível segurar os preços, ou dar subsídios suficientes para que o preço de hoje se mantenha? Há quem diga que o petróleo extraído no próprio Brasil é mais barato e, combinando-se seu preço com o do importado, dará para aguentar.

Mas não dá: as ações da Petrobras são negociadas em bolsa, e se o preço for artificialmente reduzido os acionistas estarão sendo lesados. Isso dá processo – e, na Bolsa de Nova York, os processos são milionários. Há um outro problema: os membros do Conselho da Petrobras são pessoalmente responsáveis pelas medidas que aprovam, e podem ter de pagar indenizações fora de seu alcance. Uma solução seria tirar recursos do Tesouro (ou seja, de nosso dinheiro) para cobrar menos de quem tem carro ou caminhão.

Mas que haja dinheiro, porque as quantias envolvidas são monumentais.

O homem múltiplo

Parece certa a indicação do presidente do Flamengo, Eduardo Landim, para a presidência do Conselho da Petrobras. Landim tem larga experiência em petróleo: já trabalhou no setor na presidência de Lula, já trabalhou com a petroleira de Eike Baptista, agora é Bolsonaro desde criancinha. Mas não dá muita sorte aos patrões: Lula e Eike tiveram problemas com petróleo e os dois foram parar na cadeia por algum tempo.

Os amigos 1

Ronnie Von, 77, velho amigo, estreia hoje no Canal Sabor & Arte, às 23h, um programa de primeira: “Além do Vinho”, em que conversa com gente divertida, com ótimas histórias, tendo o vinho (uma das paixões de Ronnie) como tema inicial do bom papo. São 12 episódios, sempre às quartas-feiras.

Os amigos 2

Lilia Frankenthal, minha advogada, foi escolhida para a Comissão Permanente de Resgate da Memória da OAB de São Paulo. É fácil colaborar: o novo escritório Lilia Frankenthal Advocacia é na rua Afonso Braz, 473, 9º andar, SP, fone (11) 2500-5996.

Pode começar lembrando o pai, o lendário Leão dos Tribunais, Leonardo Frankenthal, que fez história.


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Quanto custa a democracia?

  Vera Magalhães

O Globo 

| Cleber Júnior/Infoglobo

Campanha em bairro no Rio de Janeiro 

O Supremo Tribunal Federal encerrou a discussão sobre o valor do fundão eleitoral nesta quinta-feira, ao julgar constitucional a decisão do Congresso que elevou o montante para R$ 4,9 bilhões nas eleições deste ano.

Com isso, depois de três campanhas com gasto inferior ao dos anos anteriores, a eleição de 2022 voltará a um patamar nominalmente igual ao da eleição de 2014, que foi a mais cara da História e custou os mesmos R$ 5 bilhões.

Paulatinamente, os congressistas deram um jeito de recompor o volume de recursos para bancar as próprias eleições, depois de duas eleições municipais e uma nacional de “vacas magras”.

O primeiro pleito depois da decisão do Supremo Tribunal Federal de considerar inconstitucionais as doações de empresas a candidaturas, o de 2016, foi espartano nos valores oficialmente declarados: R$ 650 milhões, segundo as estimativas do TSE. Um corte de nada menos que 48% em relação ao pleito municipal anterior, em 2012. Àquela altura, o fundão eleitoral ainda não tinha sido criado, e as fontes de recursos eram o fundo partidário e doações de pessoas físicas.

O fundão veio em 2017 como uma reação dos parlamentares à pindaíba. Era de R$ 1,7 bilhão em sua primeira versão, subiu para R$ 2,034 bilhões em 2020, no auge da pandemia, e agora vive sua versão “o céu é o limite”, com a perda dos pudores dos deputados e senadores de legislar em causa própria.

Dado esse histórico, de quem é a “culpa” por um valor que choca quando cotejado com outras rubricas do Orçamento? Do Congresso, em primeiro lugar. Mas também do STF, a despeito dos protestos dos ministros pelas cifras deste ano. Afinal, foi o Judiciário que, por 8 votos a 2, decidiu que a melhor maneira para dar uma resposta às denúncias de corrupção associadas a doações de campanha era proibi-las na Constituição — o que, levado ao pé da letra, tornaria todas as campanhas até ali não apenas potencialmente corruptas, mas inconstitucionais!

Uma vez suprimida a principal fonte de custeio das eleições, finalmente se instituiu o financiamento público pelo qual partidos, principalmente de esquerda, e cientistas políticos sempre haviam clamado.

O que leva à pergunta: trata-se do melhor modelo? É a prioridade do Estado despender R$ 5 bilhões para financiar campanhas que, com esse acréscimo, deverão voltar a ostentar marqueteiros pagos a peso de ouro e lauto material publicitário?

Os que agora se revoltam e recorrem ao STF entendem que não. Mas eis um tema em que não pode vigorar o vácuo. Uma vez que a mais alta Corte decidiu que doações de empresas são ilegais, as eleições, instância maior da democracia, precisam ser custeadas de forma minimamente equânime para candidatos de todos os estratos sociais, sem que a única maneira de fazer com que seus nomes cheguem ao eleitor seja bancando as próprias campanhas.

Certamente, é uma discussão que deveria ter sido feita de forma ampla para que o país decidisse o modelo com que quer custear sua democracia, não com um artifício para dar uma resposta ao clamor suscitado pela Lava-Jato na ocasião.

Mas, como muitos processos no Brasil nos últimos anos, esse também foi açodado, e se usou o expediente de evocar a Constituição para algo que poderia ser resolvido estabelecendo mecanismos de transparência e fiscalização mais modernos e eficazes nas contas de partidos e candidatos.

Agora que uma decisão tão peremptória foi dada, o financiamento público passa a ser a melhor forma de evitar que apenas os muito ricos ou os custeados pelo crime organizado se elejam.

O aspecto francamente imoral do fundão de 2022, portanto, é seu valor. A grande virtude do financiamento público até aqui tinha sido deflacionar as campanhas, terreno fértil para toda sorte de contabilidade criativa. Agora, as Excelências perderam o medo de retomar o cenário anterior, à custa do meu, do seu, do nosso.


O Brasil sem Dilma Rousseff

 Rogério Furquim Werneck

O Globo

O que teria ocorrido se, na eleição de 2010, Lula tivesse escolhido outro candidato considerado mais preparado?

Como estaria o Brasil, hoje, se Dilma Rousseff jamais tivesse sido presidente da República? O que teria ocorrido se, na eleição de 2010, Lula tivesse escolhido outro candidato, mais preparado e com melhor trânsito no Congresso e no PT, em vez de ter insistido em ungi-la como sua sucessora, para desespero da cúpula do partido?

Já seria um grande avanço se, na reflexão sobre essa indagação, se pudesse mapear o que possivelmente não teria ocorrido. Salta aos olhos, como altamente improvável, que qualquer outro candidato plausível, eleito pelo PT na disputa presidencial de 2010, viesse a ter desempenho tão desastroso como o que teve Dilma, nos cinco anos e meio em que ocupou o Palácio do Planalto.

Como estaria o país hoje não tivesse sido metido no atoleiro em que foi deixado por Dilma, na esteira de uma gestão destrambelhada da política econômica, marcada por devastação fiscal e intervenções inconsequentes na formação de preços, que redundou em queda de mais de 8% no PIB por habitante, desorganização da economia, perda irremediável de apoio do Congresso e traumático processo de impeachment?

Um presidente mais ponderado, menos voluntarista e mais capacitado a lidar com o Congresso poderia perfeitamente ter mantido a economia nos trilhos. Nos mesmos trilhos em que foi feita a difícil transição entre o segundo mandato de FHC e o primeiro mandato de Lula.

Responsabilidade fiscal, preços realistas, inflação sob controle. E em vez de recessão tão brutal, crescimento econômico sustentado, no limite do possível.

Mas falta aqui uma indagação crucial. Quão plausível é a ideia de que Lula poderia ter ungido outro candidato em 2010? A verdade é que o ex-presidente jamais levou a sério qualquer outro nome que não o de Dilma. Em parte, por que alimentava a fantasia de que, não tendo ela luz política própria, se contentaria com um único mandato e lhe cederia a vez em 2014.

 Mas em grande parte, também, porque Lula tinha, em comunhão com Dilma, a mesma visão triunfalista sobre as possibilidades das alterações de rumo que vinham sendo feitas na condução da política econômica no seu segundo mandato.

Fazendo uso do direito de autoplágio, permito-me reproduzir a seguir três parágrafos que escrevi sobre isso em artigo aqui publicado em 20/10/2017.

O descarrilamento da política econômica petista foi um longo processo, cujo início remonta a março de 2006, com a substituição do então ministro da Fazenda, Antonio Palocci, por uma figura inexpressiva que, confirmada no cargo no segundo mandato de Lula, abriria espaço para inédita preponderância da Casa Civil na condução da política econômica.

A política econômica do segundo governo Lula foi, em boa medida, a política de Dilma Rousseff. O que se presenciou, especialmente a partir de 2008, quando, afinal, a bandeira da “nova matriz econômica” pôde ser ostensivamente desfraldada, foi o inexorável desenrolar do desastre, como num grande acidente ferroviário filmado em câmera lenta.

Como bem esclareceu a própria ex-presidente Dilma, em entrevista à Folha de S. Paulo de 28/7/2013, ela e Lula eram “indissociáveis”. “Eu estou misturada com o governo dele total. Nós ficamos juntos todos os santos dias, do dia 21 de junho de 2005 (quando ela assumiu a Casa Civil) até ele sair do governo.”

Tinha tudo para ser ungida por Lula, em 2010.

Ao final do seu alarmante primeiro mandato, Dilma se recusou a ceder a vez a Lula. E foi reeleita, numa disputa acirrada, em que conseguiu esconder do eleitorado as reais proporções da brutal crise econômica que armara.

No primeiro programa de propaganda eleitoral do PT, em 2014, havia uma parte em que Lula reconhecia tacitamente que Dilma não tinha o que mostrar. E tentava convencer o eleitor a lhe dar outra chance. Seu segundo mandato seria melhor: “... eu quero falar especialmente para você, que está em dúvida se deve votar ou não na Dilma. Eu lhe peço, vote sem nenhum receio. Fique certo de que você não vai se arrepender.”

Pouco ou nada aprendeu o eleitor. Triste país. 


Aos fatos: guerra é guerra, condenação é condenação e Bolsonaro não é neutro

 Eliane Cantanhêde, 

O Estado de S.Paulo

Contorcionismos verbais mostram o peso das palavras nas relações internacionais

Na Rússia, o autocrata Vladimir Putin impõe ao povo russo que guerra não é guerra, invasão não é invasão, só há uma “operação militar especial”. Quem fala o contrário fica sujeito a prisão de 15 anos, o principal jornal de oposição foi fechado, a imprensa está censurada, há restrições ao Facebook e ao Twitter e crianças são bombardeadas com fake news.

Na ONU, Conselho de Segurança, Assembleia-Geral, assembleias emergenciais e Conselho de Direitos Humanos votam pela condenação da Rússia na guerra, mas condenação não é condenação. O texto da Assembleia-Geral não “condena”, só “deplora” a ação russa.

No Brasil, a posição do Itamaraty é a mesma desde a nota no dia da invasão e em todas as manifestações na ONU, pedindo “cessar-fogo” e “suspensão imediata das hostilidades”. Não fala em guerra, como quer a Rússia, nem em condenação, como definiram os conchavos na ONU. Aqui, guerra é “hostilidade”.

Esses contorcionismos verbais mostram o peso das palavras nas relações internacionais e a força da comunicação dos poderosos para moldar a realidade, distorcer fatos e manipular corações e mentes nos próprios países e no mundo.

Se belicamente a Ucrânia não chega aos pés da Rússia, que tem bomba atômica e é a segunda maior potência militar, o presidente Volodmir Zelensky vence na comunicação. Despojado, coloquial, ele massifica a percepção de “vítima”, “bem contra o mal”, “fraco e forte”, “rico e pobre”. De outro lado, um Putin frio, ameaçador.

Aqui no Brasil, a comunicação é confusa, desencontrada, a partir dos termos do presidente Jair Bolsonaro: “solidariedade” à Rússia, “neutralidade” e “parceria” com Putin. Na primeira versão, a simpatia com o vilão da história era por causa dos fertilizantes, agora é pela defesa de Putin à soberania do Brasil na Amazônia, amanhã, sabe-se lá qual será a justificativa, enquanto a diplomacia contém danos e mantém a racionalidade.


Essa ambiguidade remete à ida de Bolsonaro a Moscou, às vésperas da guerra lá e da eleição cá, levando não os ministros da Economia e da Agricultura, mas o especialista em fake news Carlos Bolsonaro e oito oficiais da mais alta patente. O que essa constelação de estrelas queria com Putin, estrategista de guerras e fake news em eleições alheias?

Mais um segredo que governo e Forças Armadas vão trancar por cem anos, enquanto proliferam suposições, nenhuma boa para Bolsonaro. Assim como guerra não é guerra e condenação não é condenação, fertilizante também não é fertilizante e Amazônia não é Amazônia. São disfarces, dissimulações, para esconder a verdade do mundo e do povo brasileiro.  

COMENTARISTA DA RÁDIO ELDORADO, DA RÁDIO JORNAL (PE) E DO TELEJORNAL GLOBONEWS EM PAUTA


Estilhaços globais do colapso russo

  Míriam Leitão

O Globo

 O presidente da Rússia, Vladimir Putin, enfrenta as sanções econômicas ao seu país após provocar uma Guerra contra a Ucrânia | Sputnik/Alexey Nikolsky/Kremlin

A economia russa caiu num precipício e puxa as outras economias. A globalização atou tanto milhões de fios entre os países que o terremoto que atinge uma nação é sentido por todas as outras. A ideia de que o Brasil não seria afetado pela proibição de venda de fertilizantes não faz sentido. A Rússia não conseguirá vender porque a seguradora não fará o seguro que é obrigatório em qualquer carga. Metade do gás neon do mundo é fabricado pela Ucrânia e o produto é insumo para chips e semicondutores, e isso afeta a indústria de automóveis. Os choques se espalham assim, pelos elos que se formaram em anos de cooperação.

É da natureza da economia atual que nenhum país produza tudo. Mesmo uma economia com barreiras ao comércio internacional, como a nossa, depende de inúmeros insumos, produtos e mercados para continuar funcionando. Dois erros comuns dos governantes em qualquer crise é achar que é possível se blindar contra o problema ou, pior, que será beneficiado por ser um porto seguro a 10 mil quilômetros da guerra. Não existe longe. Foi assim nos colapsos cambiais dos anos 1990, foi assim na quebra do Lehman Brothers, é assim em qualquer evento extremo.

A guerra de Putin gerou uma crise geopolítica, financeira, econômica, comercial, militar e humanitária. O mundo assiste, com pouca capacidade de reação, uma nação ser esmagada por uma potência militar, lutar uma luta perdida e desesperada pela autodeterminação. É dramático, é repulsivo, é desumano. Ao lado da dor de ver um país se esvaindo, o mundo teve que viver momentos de terror com o ataque à Zaporíjia, maior usina nuclear da Europa. Um Exército que é instruído a atacar uma usina atômica é terrorista. A palavra usada pelo presidente Volodymyr Zelensky é a única possível.

Escrevi aqui há cinco dias que o bombardeio econômico que atingiu a Rússia a levaria de volta à crise de 1998. Em relatório na sexta-feira, o JP Morgan disse que pode ser até pior do que o colapso do rublo de 1998, na esteira das crises cambiais de uma sequência de moedas. O banco disse que a recessão será de 7%, a Bloomberg Economics aposta em 9%. A verdade é que não se pode estimar porque tudo dependerá da duração da guerra e das sanções. Não há mais cenário bom para a Rússia, mas isso afetará também todas as outras economias. O primeiro choque atinge a Europa.

As sanções tinham que ser decretadas, dado que não se pode dar uma resposta militar a uma potência com 6.000 ogivas nucleares, um governante sem limites, num país em que a sociedade foi amordaçada. Mas ao congelar as reservas internacionais russas, os países ocidentais instalaram uma crise imediata de liquidez no país, que rapidamente afundou a sua economia. Tudo se agravou na avalanche de empresas que decretaram o fim das atividades na Rússia ou negócios com suas empresas. A Rússia foi sendo desligada do mundo. Nada disso se faz sem espalhar estilhaços por todas as economias.

Ao fim desta semana trágica, 70% do seu petróleo estava sem comprador, apesar de os russos estarem oferecendo o produto com desconto. A comercializadora não comprava, o banco não financiava, a transportadora se negava a transportar. Toda carga precisa de seguro. Então, mesmo que a Rússia queira vender fertilizantes, o Brasil precise comprar, e haja quem transporte, os operadores não conseguem fechar o contrato com a seguradora.

— Ficou muito arriscado, o delta de risco da Rússia subiu exponencialmente para a seguradora. O navio pode ficar retido — explicou um especialista.

Claro que o Brasil pode correr atrás do Canadá, Marrocos, Irã, China, mas todos os outros países estão fazendo o mesmo. Há vários gargalos se formando. O mundo já vivia um choque de energia, agora vive o segundo antes de resolver o primeiro. As cotações de petróleo, gás, carvão explodiram nos últimos dias. Até o carvão. O ataque à usina nuclear tornou concreto um perigo que parecia apenas um cenário de terror. A usina atômica pode virar uma arma contra a própria população em caso de agressão externa.

Nos últimos dez dias o mundo teve que pensar no impensável e viver o indescritível. Pesadelos que pareciam ter ficado no passado ou pertencer aos filmes e livros de ficção amanheceram na nossa porta. Ainda não sabemos como sair do tormento de Vladimir Putin criou para todos nós.

Com Alvaro Gribel (de São Paulo)


O Brasil e a inflação da guerra

 Editorial 

O Estado de São Paulo

Bombas e tiros na Ucrânia atingem os mercados, fazem os preços explodir e afetam quem vive a milhares de quilômetros da guerra, como a população do Brasil, já sujeita à inflação elevada e alto desemprego. A violência russa logo impactou as cotações de matérias-primas essenciais, como petróleo, trigo e milho, agravando o quadro inflacionário global. No começo do ano, quando o presidente Vladimir Putin ainda se preparava para ordenar o ataque, o custo de vida batia um recorde de três décadas num grande conjunto de países desenvolvidos e emergentes. Em janeiro, a inflação anual chegou a 7,2% na Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), formada por 39 associados. Foi a maior taxa desde fevereiro de 1991. No Brasil, a alta acumulada atingiu 10,38%.

A guerra da Rússia contra a Ucrânia complica, portanto, um quadro de preços já muito ruim no mercado internacional e no Brasil. Neste ano, a inflação brasileira deve ser menor que a do ano passado, segundo se prevê no mercado e no Ministério da Economia. Mas as projeções de entidades financeiras e de importantes consultorias têm piorado. Em quatro semanas passou de 5,38% para 5,60% o aumento estimado para a taxa oficial, medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA). As projeções são aquelas coletadas semanalmente na pesquisa Focus, do Banco Central (BC).

Mas os brasileiros devem ser afetados tanto pela inflação quanto pela política anti-inflacionária. Ainda muito elevada e agora sujeita a efeitos da guerra na Ucrânia, a inflação brasileira vem sendo combatida pelo BC com forte aperto monetário. Os juros básicos chegaram a 10,75%, devem logo passar a 11,75% e antes do fim do ano baterão em 12,25%, segundo a mediana das projeções do mercado. O quadro poderá ficar pior, naturalmente, se a insegurança ocasionada pelo presidente Vladimir Putin se prolongar.

Não há, por enquanto, perspectiva de alívio na política monetária antes do próximo ano, quando a taxa básica poderá, segundo se estima, cair para 8%, ainda superando amplamente os juros da maior parte das grandes economias. Além disso, o espaço de manobra do BC brasileiro poderá ser diminuído pela política do Federal Reserve (Fed), condutor da política monetária nos Estados Unidos.

Segundo anunciou na quarta-feira o presidente do Fed, Jerome Powell, uma alta de 0,25 ponto porcentual deverá ocorrer neste mês. Com isso, a referência passará da atual faixa de 0 a 0,25% para 0,25% a 0,50% ao ano. Nos meses seguintes poderá haver aumentos de até 0,5 ponto, acrescentou, se a inflação for resistente. Em janeiro, chegou a 7,5%, nos Estados Unidos, a alta dos preços ao consumidor acumulada em 12 meses. Foi a maior taxa em quatro décadas. Muito ruim para o consumidor americano, essa inflação é péssima para a imagem do presidente Joe Biden e um enorme desafio para os dirigentes do Fed.

Juros americanos têm grande influência internacional, afetando amplamente os mercados de crédito e de câmbio. É muito difícil abrandar a política monetária, no Brasil e em muitos outros países, ignorando as indicações fixadas nos Estados Unidos.

Brasileiros e americanos, no entanto, enfrentarão o aperto monetário deste ano a partir de condições muito diferentes. Nos Estados Unidos, o desemprego em janeiro correspondeu a 4% da força de trabalho, taxa calculada com desconto dos efeitos sazonais. No Brasil, estava em 11,1%, no trimestre encerrado em dezembro, num cenário favorecido pelas condições sazonais do fim de ano.

Em 2021 a economia americana cresceu 5,7%, compensando com ampla folga a perda de 3,4% em 2020. A economia brasileira recuou 3,9% em 2020, cresceu menos de 5% no ano seguinte, segundo estimativas preliminares, e deve avançar 0,3% em 2022, de acordo com o boletim Focus. Para os Estados Unidos estima-se expansão econômica de 3,5%. Com inflação alta e juros elevados, qualquer avanço econômico mais próximo de 1% será surpreendente. Os efeitos da guerra apenas complicam, no Brasil, um cenário já muito inquietante.


Sanções descabidas

  Merval Pereira

O Globo

Não apenas as sanções econômicas, instrumentos eficazes e necessários, atingem a Rússia, mas também as culturais, importante “soft power” do país. Essas, descabidas.  A Rússia trata muito bem seus escritores, pelo menos os mortos. Dostoiévski, Gorky, Tolstói, Tchekhov, Gogol, e, sobretudo, Alexandre Pushkin, poeta considerado o precursor da moderna novela russa,  são figuras que dominam as ruas e praças das principais cidades da Rússia, especialmente Moscou e São Petersburgo, terra de Putin. Os locais onde moraram tornaram-se quase todos museus. Mas o mundo está tratando os escritores e artistas russos, do século XIX e os atuais, de uma maneira insana, como se a invasão da Ucrânia transformasse todo artista russo, vivo ou morto, em inimigo da Humanidade, e não seu patrimônio.

As famosas “noites brancas”, que dão o título e a ambientação de um romance de Dostoiévski, tornam o meio do ano em atração turística a mais em regiões do hemisfério norte, momento em que o sol está mais próximo da Terra. Em São Petersburgo, a casa de Dostoiévski é outra atração muito visitada, mas, no momento, um dos maiores escritores russos está sendo “cancelado” em diversos pontos do planeta.

Como noticiam as agências internacionais, na Itália, a Universidade de Milão-Bicocca tentou cancelar um curso sobre sua obra, mas teve que recuar. Em Gênova, foi desmarcado um festival de música e literatura russas dedicado a Dostoiévski, por ter o patrocínio do consulado da Rússia. Uma estátua do autor de “Crime e Castigo” quase foi derrubada em Florença, mas o prefeito resistiu, alegando que apagar séculos da cultura russa não deteria a escalada de Putin.

Mas Dario Nardella fez um comentário que mostra bem que mesmo quem está do lado certo comete equívocos nessa guerra de desinformação. Disse ele: "Parece que chegamos a um nível de histeria contra cidadãos russos que não têm nenhuma culpa de ter nascido na Rússia." Melhor diria que não têm nenhuma culpa de terem Putin como presidente. Ao contrário, terem nascido na Rússia é parte intrínseca do mérito de suas obras.

A estratégia de Putin de levar novamente a Rússia ao protagonismo internacional, explícita em um discurso de 2005, quando se referiu ao fim da União Soviética, em 1991, como “a maior catástrofe geopolítica do século XX”, está indo por água abaixo. O historiador russo Dmitri Trenin, do Carnegie Moscow Center, em palestra no Cebri anos atrás, já dizia que a maior área geográfica do planeta se sentia  traída pela União Européia, que atraiu seus ex-satélites.

Para ele, a ambição original pós-comunismo era uma integração com União Européia, desde a reunificação da Alemanha em 1990. O único pleito russo, feito pelo então Ministro das Relações Exteriores da Rússia Eduard Shevardnadze a Helmut Kohl, chanceler da Alemanha, foi não ampliar o Tratado do Atlântico Norte (OTAN). O compromisso foi rompido no governo de George W. Bush, e a OTAN cresceu muito. Foram-se os tempos em que Bush e Putin dançavam ao som de músicas típicas russas, conforme um vídeo que corre pela internet.

No entanto, ao invadir a Ucrânia, como bem lembrou o ex-chanceler brasileiro Celso Lafer na Globonews, a Rússia rompeu o Memorando de Budapeste sobre Garantias de Segurança, acordo político cujos signatários originais foram a Rússia, os Estados Unidos e o Reino Unido, em dezembro de 1994. Mais tarde China e França aderiram ao tratado. Na anexação da Crimeia em 2014, os Estados Unidos já advertira a Russia de que aquele tratado estava sendo rompido.  

O acordo dava à Ucrânia garantias para que assinasse o Tratado de Não-Proliferação de Armas Nucleares, inclusive contra “ameaças ou uso da força contra a integridade territorial ou a independência política da Ucrânia”, assim como as da Bielorrússia e do Cazaquistão. Os dois últimos hoje são governados por aliados de Putin. Em contrapartida, a Ucrânia cedeu o terceiro maior arsenal de armas nucleares do mundo entre 1994 e 1996.


O roto e o rasgado

 Editorial

O Estado de São Paulo

Consta que parte considerável do mercado apoiou a eleição de Jair Bolsonaro, em 2018, na presunção de que era isso ou a volta do diabo antimercado, isto é, o lulopetismo, ao poder. Bem, se o fez, cometeu erro gravíssimo. Não porque devesse ter escolhido o diabo, mas porque ignorou que havia alternativas muito mais racionais do que um mau militar e um mau deputado cujas credenciais autoritárias não eram segredo para ninguém. E não há nada mais antimercado do que o autoritarismo, ainda mais um autoritarismo alimentado por paranoia e ignorância profundas. 

Bolsonaro, afinal, não decepcionou quem o conhecia: sabota os pilares da estabilidade fiscal, abre mão do controle do orçamento, aparelha a máquina pública com fanáticos incompetentes, isola o Brasil no mundo, arrasa o meio ambiente e cria uma atmosfera de permanente desestabilização política e institucional.

Assim, quando Bolsonaro vociferou aos operadores do mercado, como fez há alguns dias em evento promovido por um banco, enumerando os retrocessos que Lula da Silva promete promover se reconquistar a Presidência, na verdade estava falando de si mesmo. 

Como Bolsonaro não tem o que apresentar ao País como justificativa para sua recondução ao cargo – se reunidas, as realizações de seu governo não preencheriam uma brochura –, ao presidente não restou outra tática eleitoral a não ser tentar incutir nos corações e mentes dos agentes econômicos o medo de um novo desastre na condução da política econômica caso ele seja derrotado por seu maior antagonista na corrida eleitoral no momento.

“O que os senhores acham de nós revogarmos a autonomia do Banco Central?”, perguntou Bolsonaro à plateia. “De revogarmos a reforma trabalhista, a reforma da Previdência? De retornarmos o imposto sindical, de reestatizar as empresas que foram desestatizadas, de acabar com o teto de gastos, de o governo começar a interferir nos preços da Petrobras e da energia?”, disse Bolsonaro, descrevendo o roteiro de terror que seria a volta de Lula ao poder.

De fato, Lula da Silva já anunciou que, sim, caso ele seja eleito, muitos avanços recentes serão “revistos”, como são os casos das reformas trabalhista e da Previdência. O chefão petista afirmou há pouco tempo que o Brasil nem sequer precisava dessas reformas. Lula também já prometeu que extinguirá o teto de gastos, que interferirá nos preços dos combustíveis e que não privatizará nenhuma estatal. Ou seja, o discurso destemperado de Bolsonaro não era, nem de longe, uma mentira – mas, como tudo o que envolve o presidente, era parte de um embuste.

Pois Bolsonaro já faz quase tudo o que diz que Lula da Silva vai fazer caso volte ao Palácio do Planalto. Se em 2018 Bolsonaro era a “novidade”, agora terá um passivo de, até este momento, três anos de desastres para tentar escamotear. Foi sob o governo Bolsonaro que ruiu o teto de gastos públicos; que o Orçamento da União foi franqueado por um presidente pusilânime ao apetite voraz do Centrão; que o Brasil se tornou um pária internacional por uma política externa destrambelhada e por retrocessos na proteção do meio ambiente. Foi sob Bolsonaro que o País passou a viver sob permanente tensão de uma disrupção política antidemocrática, algo que é essencialmente contra a livre iniciativa e o florescimento das atividades econômicas.

O segundo embuste do presidente da República, e neste ele está acompanhado por Lula da Silva, é vender aos empresários que a disputa presidencial já está definida entre ele e seu principal adversário. Não é verdade, pois ainda faltam oito meses para as eleições, tempo suficiente para que os eleitores conheçam todos os candidatos, e não somente Bolsonaro e Lula, que jamais desceram do palanque. Em 2018 havia alternativas responsáveis e capazes a Bolsonaro e ao preposto do então presidiário Lula da Silva, assim como certamente haverá boas alternativas a Lula e Bolsonaro neste ano.

Ou seja, compra a patranha quem quiser, seja qual for a coloração partidária.



Um incomum homem comum

  Demétrio Magnoli

O Globo

O presidente afegão, Ashraf Ghani, fugiu do país diante da aproximação das forças do Talibã. Volodymyr Zelensky, da Ucrânia, permaneceu em Kiev, recusando a oferta dos EUA de transferir seu governo para Lviv e inspirando a resistência nacional à invasão russa. Analistas distraídos tiveram, então, de reconhecer a coragem do ex-comediante, alvo fácil de suas zombarias.

Não é só coragem. Dirigindo-se ao povo russo, em língua russa, Zelensky desmontou cada uma das mentiras difundidas pelo Kremlin. O discurso precisaria ser ouvido no Brasil, onde não faltam papagaios de Putin.

A invasão destina-se a libertar a nação invadida? “A Ucrânia, nas notícias de vocês, e a Ucrânia, na realidade, são dois países completamente diferentes. O mais importante é que a nossa é real.” A Ucrânia vive sob o nazismo? “Como pode uma nação ser qualificada como nazista depois de sacrificar 8 milhões de vidas para erradicar o nazismo? Como posso ser nazista se meu avô sobreviveu à guerra integrando a infantaria soviética e morreu como coronel numa Ucrânia independente?”, perguntou o ucraniano, que é judeu.

As indagações de Zelensky contêm reflexões raras entre os estadistas políticos atuais: “Dizem a vocês que odiamos a cultura russa. Mas como uma cultura pode ser odiada? Qualquer cultura?”.

Putin alega que a Ucrânia determinou bombardeios sobre a região do Donbass. “Atirar em quem? Bombardear o quê?” Zelensky registrou que tem amigos em Artema, que torceu pela seleção nacional na Arena Donbass antes de lamentar a derrota em meio a cervejas no Parque Scherbakova, que o melhor amigo de sua mãe vive em Luhansk. E vai ao ponto: “Veja que falo em russo, mas ninguém na Rússia sabe o que significam esses nomes, ruas e eventos. Tudo isso é estrangeiro para vocês”.

Nas palavras do ucraniano, o patriotismo cívico toma o lugar do tradicional nacionalismo bélico. A pátria é o lugar em que vivemos, celebramos e choramos, não um hino, uma bandeira ou desfiles marciais. Quantos chefes de Estado entendem essa linguagem?

Zelensky disputou as eleições presidenciais de 2019 como outsider, denunciando a corrupção endêmica na elite política ucraniana. Na campanha, falou verdades simples, mas não simplórias. Disse, especialmente, que pretendia romper a cisão entre os ucranianos do oeste e os do leste, cuja primeira língua é o russo. Terminou obtendo 73% dos votos. Depois, como acontece tantas vezes, a distância entre expectativas e realidades jogou por terra seus índices de popularidade. A agressão militar russa transformou-o em herói nacional — e estadista europeu.

Sob fogo, Zelensky revelou genialidade estratégica. Nos dias iniciais da guerra, reivindicou o ingresso do país na União Europeia. Embora não pudesse explicitar, trocava a ambição constitucional ucraniana de entrar na Otan por um lugar no bloco europeu. Por essa via, sintetizou a meta nacional de pertencer à Europa democrática e, simultaneamente, abriu uma fresta de negociação da paz com a Rússia.

De uma Kiev sitiada, o presidente improvável distingue a busca pela paz do pacifismo hipócrita que, desde o “apaziguamento” de Munique, nunca saiu de moda. “O povo da Ucrânia quer paz. Não estamos falando de paz a qualquer preço. Falamos sobre paz e sobre o direito de todos de definir o próprio futuro. Nos defenderemos. Atacando-nos, vocês verão nossos rostos. Não nossas costas —nossos rostos.” Putin pode vencer a guerra, mas já perdeu a Ucrânia.

Sem a resistência desesperada dos militares e do povo ucraniano, a Alemanha não teria revertido seu paradigma de política externa, o Ocidente não se unificaria em torno das sanções à Rússia, e a Ucrânia já não teria armas para se defender. Soberania, autodeterminação, integridade territorial — Zelensky insiste nos princípios consensuais de uma ordem internacional ancorada em regras. É por isso que, com tristes exceções, entre elas o governo Bolsonaro, o mundo democrático alinhou-se à causa ucraniana.

A Ucrânia, como a Espanha dos tempos da Guerra Civil, vai se tornando uma ideia — e um divisor de águas.


Pérolas de machismo no 8 de Março

 Vera Magalhães

O Globo 

Uma das formas mais comuns nos discursos feministas para marcar que 8 de Março não é uma data para vender flores ou perfumes, e sim uma oportunidade de fomentar discussões a respeito da condição feminina e da desigualdade de gêneros no Brasil e no mundo, foi pedir aos homens que, nesse dia, não deem flores às mulheres.

Pois, em 2022, o debate público trocou rosas por pérolas, mas não aquelas que adornam lindas joias, e sim as bobagens que, na gíria, ganharam essa denominação.

Antes das 7h, ao levantar, fui surpreendida por um post da jornalista Natuza Nery republicando o anúncio de um ciclo de palestras sobre a participação feminina na política “estrelado” apenas por… homens! Jair Bolsonaro, os ministros Paulo Guedes (Economia) e Tarcísio Gomes de Freitas (Infraestrutura), o presidente da Câmara, Arthur Lira, e o vice-governador de São Paulo, Rodrigo Garcia, palestrariam, ao longo de vários dias, a respeito desse tema sobre o qual têm tanto a dizer. As mulheres? Estariam na plateia, claro, aprendendo.

Bolsonaro, vale lembrar, tem um histórico que o credencia para falar num evento sobre a valorização da mulher. Afinal, foi ele que disse que uma colega deputada não “merecia” ser estuprada por, segundo ele, ser feia demais, que confessou ter dado uma “fraquejada” ao ter uma filha depois de quatro filhos e que usaria auxílio-moradia da Câmara mesmo tendo imóvel em Brasília para “comer gente”.

Ah, mas trata-se de um passado longínquo. Seria, não fosse o presidente, em solenidade ontem mesmo, em alusão ao Dia Internacional da Mulher, dizer, em tom condescendente, que hoje elas estão “praticamente integradas” à sociedade, graças ao “auxílio” dos homens, para os quais, aliás, seriam muito importantes.

Por fim, o Senado decidiu votar projetos de iniciativa da bancada feminina, mas retirou da lista elaborada pelas senadoras justamente os mais importantes: os que estabeleciam cotas para a participação feminina em postos importantes nas direções dos partidos e nas comissões da Casa.

Esse impressionante conjunto de fatos num único dia seria apenas uma coleção de evidências anedóticas, não fosse essa a realidade cotidiana de um dos campos em que a promoção da equidade de gênero está mais atrasada: a política.

Enquanto empresas, universidades, organizações do terceiro setor e as artes avançam, ainda que a passos lentos, na tentativa de abrir espaços e garantir voz a mulheres, a sub-representação feminina no Executivo e no Legislativo é gritante, a despeito de 52% do eleitorado brasileiro ser feminino.

A simples eleição de mulheres ou sua nomeação para cargos de primeiro escalão em governos garantiria a melhoria da política? Não imediata nem necessariamente. Casos de mandatos femininos malsucedidos por diferentes conjunturas são conhecidos no Brasil e em vários países.

Mas a redução do fosso profundo em termos de representatividade é urgente até para que se possa fazer essa cobrança e cotejar resultados com mais precisão.

Que organizadores de um ciclo de palestras passem semanas, quiçá meses, fazendo convites e encomendando material de divulgação sem se dar conta de que falta um “pequeno detalhe” — a presença de alguma mulher que seja — é emblemático de como o poder é visto no país: como algo que emana dos homens e por eles deve ser exercido. A presença de mulheres aqui e ali é vista como uma concessão ou uma condição excepcional.

Este 8 de Março foi como uma sucessão de memes involuntários a comprovar que machismo e misoginia não são efeitos colaterais de quando “vaza” um áudio de um Mamãe Falei da vida, mas a condição ainda predominante no debate público nacional. Uma das muitas anomalias de uma democracia que anda um passo à frente para depois voltar dois ou três.


A resolução da ONU além do que os olhos podem ver

 Lucas Carlos Lima

O Estado de São Paulo

Na diplomacia e nas relações jurídicas internacionais, há certos atos que guardam significados para além do que um mero perpassar de olhos pode sugerir. A Resolução da Assembleia-Geral das Nações Unidas adotada no dia 2 de março de 2022 por 141 votos favoráveis, 5 contrários e 35 abstenções é um desses atos. Não obrigatória por natureza, exortatória por definição, ainda assim a resolução é eloquente. Nos detalhes, diz muito, e num conflito de argumentos jurídicos pesa a balança para um dos lados da narrativa.

A longeva e bem definida técnica dominada por juristas internacionalistas sugere que não basta que a natureza não vinculante da resolução do órgão democrático da ONU não encerre os debates: o texto, o contexto e os precedentes são significativos. Quanto aos precedentes, trata-se de uma resolução invocando a vetusta resolução Unindo para a Paz de 1950. Nas raras vezes em que deu o ar da graça para acomodar crises internacionais, tal resolução fazia com que se lesse, mutatis mutandis, que “o balanço de competências da ONU se altera, a Assembleia vai agir com poderes do Conselho, que está emperrado”.

Quanto ao texto, a escolha de verbos é loquaz e noticia-se que o Brasil foi jogador importante no exercício de encontrar termos capazes de impedir confrontação demasiada. O voto brasileiro veio acompanhado de uma explicação que pode ser traduzida por “não é o texto que queríamos, mas, dadas as circunstâncias, não se pode votar contra”. Tal posição pode ser lida sob diferentes ângulos. Por um lado, serviria de aceno ao diálogo com Moscou; mantém-se a porta aberta. Por outro lado, alinha-se à posição majoritária, engrossando o coro sobre o descabimento dos argumentos que ressoam do lado de lá do muro.

Isso porque o texto da resolução é contundente e significativamente mais severo do que o adotado em relação à anexação da Crimeia em 2014, por exemplo. Não é todo dia que se lê num documento da ONU que um de seus órgãos “lamenta, nos termos mais fortes, a agressão da Federação Russa contra a Ucrânia em violação ao Artigo 2.4 da Carta”. Nesse sentido, a alta adesão de 141 Estados é ainda mais significativa: construiu-se consenso na maioria em torno de um texto austero que tem implicações do ponto de vista legal.

A resolução reafirma seu compromisso com a soberania, a independência, a unidade e a integridade territorial (também marítima) ucraniana. Para a Rússia, a resolução deplora, em vez de condenar, e demanda a retirada de tropas e o fim das violações, recordando que existem princípios obrigatórios que norteiam a vida e a amizade dos Estados.

O texto não se esquece da Bielorrússia, cujo uso ilícito da força também é lastimado.

Em abstrato, a resolução condena violações ao direito humanitário e pede o respeito aos princípios básicos do Direito Internacional. Eis a premissa básica da resolução: as normas reconhecidas devem ser respeitadas e não se pode retroceder naquilo que foi estabelecido.

Não é a força dos verbos escolhidos, mas as informações que a resolução avança que a transformam num instrumento poderoso. O documento torna indisputáveis certos fatos: 1) houve uma agressão, isto é, no linguajar jurídico, o mais severo uso da força prenunciado na Carta da ONU e em resoluções anteriores; 2) a Carta foi violada em relação à proibição do uso da força; 3) o uso da força foi ilícito, de modo que as escusas apresentadas até então pela Rússia foram rechaçadas; 4) a declaração sobre o status de Donetsk e Luhansk pela Rússia é ilícita; 5) voltam à baila os acordos de Minsk, responsáveis por apaziguar a crise russo-ucraniana de 2014.

Duas consequências podem ser depreendidas e merecem atenção. Uma, dentro da arquitetura jurídica que estrutura o sistema ONU: está-se diante de sérias violações, até mesmo das assim chamadas regras peremptórias do Direito Internacional. Duas: diante de violações às regras e princípios cardinais do sistema, algumas consequências especiais podem ser elencadas.

A primeira é que os Estados violadores têm de cessar seus atos ilegais. Além disso, todo membro da comunidade internacional está sob o dever de não reconhecimento desses atos ilícitos. E terceira, se há violações a regras, os atos tomados pelos membros da comunidade para que os violadores voltem a honrar suas obrigações – mesmo que em desacordo com o Direito – são legitimáveis. Um manto de legalidade – com limites de proporcionalidade e necessidade – recobre as sanções impostas.

Em suma, os 141 Estados que votaram a favor da resolução de 2 de março avançaram estrategicamente para além do texto e prepararam o terreno para as batalhas diplomáticas, políticas e jurídicas que se seguirão. Não obrigatória? Sim. Eloquente? Também. Uma vitória de Pirro? Os próximos passos do conflito responderão. Será invocada no futuro? Certamente.

*

PROFESSOR DE DIREITO INTERNACIONAL DA UFMG, MEMBRO DA DIRETORIA DA ILA-BRASIL, É COORDENADOR DO GRUPO DE PESQUISA SOBRE CORTES E TRIBUNAIS INTERNACIONAIS CNPQ/UFMG


Contra o jogo

  Carlos Andreazza

O Globo

Está no Senado o projeto que legaliza o jogo no Brasil — inclusive o do bicho, hoje inconfundível com a exploração de máquinas caça-níqueis. Um disparate, obra do tipo de ganância que desconhece a realidade do chão, o campo minado, em que se quer dar as cartas.

Pergunto: o businessman a fim de entrar na parada estará disposto a concorrer com os mafiosos?

Nem precisa rolar os dados. Costuma dar em sangue. Ou em sociedade. Conhecemos a história. Outro dia mesmo, o Supremo trancou processo em que um bicheiro respondia por homicídio. A ideia, então, é formalizar o jogo ora explorado por criminosos perfeitamente livres para explorá-lo criminosamente?

O problema é criminal. Produto de meio século da experiência que desaguou no escritório do crime miliciano. Penso num cassino na Zona Sul do Rio de Janeiro. O investidor pedirá licença a Bernardo Bello, dono do jogo na região, réu pelo assassinato de Alcebíades Garcia, fulminado — o filho do notório Miro — por tentar reaver território familiar perdido após a morte do irmão Maninho, também assassinado?

Recomendo aos senadores que leiam a reportagem de Rafael Soares, publicada no último domingo, neste GLOBO. Está tudo lá. O título nos lembra que o mundo real sempre se impõe: “Dinâmica do jogo do bicho é obstáculo para aplicação da lei”. Reproduzo dois trechos:

— No final de 2017, o policial militar reformado Anderson Cláudio da Silva recebeu uma ordem: juntar um grupo de comparsas, invadir a Vila Vintém, na Zona Oeste do Rio, e destruir as máquinas caça-níqueis instaladas nos bares da favela. O responsável pela determinação foi o bicheiro Fernando Iggnácio, genro e um dos herdeiros do espólio criminoso de Castor de Andrade, capo do jogo do bicho do Rio morto em 1997. (...) Com o quebra-quebra, Iggnácio queria mandar um recado para seu maior rival, Rogério Andrade, sobrinho de Castor e dono das máquinas destruídas: Vila Vintém era seu reduto, e ele não toleraria a provocação do desafeto. Seis meses depois, o policial que coordenou o ataque foi executado a tiros. Já em novembro de 2020, Iggnácio também foi assassinado numa emboscada.

Vou além do que propõe a manchete. A cultura do jogo do bicho não será apenas barreira à viabilidade da lei. A lógica operacional do bicho será mesmo a garantia de que a nova lei, se afinal estabelecida, teria como efeito ampliar a superfície de atuação para essa máfia.

O bicheiro não tem a perder. A natureza de sua atividade, que intimida — que intimidará — a execução da (nova) lei, é a mesma que lhe garantirá o domínio sobre o jogo uma vez formalizado, sem que a porção ilegal seja desmobilizada.

Não sei sob que lobby a Câmara aprovou o troço. Sei quem seriam, na prática, os beneficiários do advento: os mafiosos; os mesmos cuja territorialidade, à margem do Estado e, ao mesmo tempo, com o aval do Estado, transfere-se por testamento. O domínio territorial — a guerra entre facções armadas por assegurar o monopólio sobre verdadeiras capitanias hereditárias — é a própria afirmação de que uma empresa desprovida de ligações com os chefões do bicho jamais conseguirá explorar o negócio do jogo nas principais áreas turísticas brasileiras. Vacilam os que pensam ser problema somente do Rio.

Jogo, no Brasil, é atividade do crime organizado. Se crime organizado há, e se à vontade está, sendo o jogo por fora ou por dentro, do crime organizado ser-lhe-á o controle. Legalizar o jogo sem criminalizar os criminosos que o dirigem é lhes ampliar o poder econômico; o poder que os mantém soltinhos na pista.

Estude-se a modelagem do projeto apadrinhado por Arthur Lira. Talvez pudesse prosperar num Brasil que se fundasse agora. No país que temos, em que a exploração do jogo tem mapa próprio, as restrições propostas, ingênuas, não apenas não tocarão no universo paralelo, como oferecerão aos senhores do marginal a gestão — por meio de laranjas — do oficial.

Ou alguém acredita que empresário sério — investidor responsável — se meterá a concorrer com gente que manda matar parentes?

Não há ingênuos.

É fácil prever esse futuro: o jogo clandestino continuaria normalmente, mantida a territorialidade que dá proprietários a bairros e mesmo cidades, enquanto a faixa legalizada serviria a que os criminosos lavassem o dinheiro sujo. Há empresários não sérios.

Fala-se que haveria grupos internacionais interessados em desenvolver a coisa legalmente. Viriam para ser operadores independentes. Avento se conhecem a trajetória — e os métodos — dos que controlam o jogo aqui. No Brasil de verdade, abrir um cassino hoje só será factível, seguro, em parceria com os donos do pedaço, para esquentá-los. O resto é fantasia.

Recordo-me de quando a prefeitura do Rio abriu edital para que se licitasse a gestão do Sambódromo, de baita potencial lucrativo, o que a tiraria da liga das escolas de samba. Ninguém apareceu para disputar.


Educação em frangalhos

 Editorial

O Estado de São Paulo 

O recém-publicado resultado das provas do Sistema de Avaliação de Rendimento Escolar do Estado de São Paulo (Saresp), aplicadas em dezembro de 2021, revelou um panorama sombrio. Os alunos do 3.º ano do ensino médio da rede estadual obtiveram as piores notas em Matemática de toda a série histórica da avaliação feita pelo governo paulista, iniciada em 2010. A maioria dos alunos (58,7%) do último ano do ensino médio saiu da escola sem conhecer noções elementares da disciplina. O desempenho na prova de Língua Portuguesa foi igualmente sofrível.

Em 2021, os estudantes obtiveram nota 264,2 em Matemática. Até então, o pior resultado fora registrado em 2013, e mesmo assim acima do atual (268,7). Em Língua Portuguesa, a nota média obtida no fim do ano passado despencou em relação a 2019, aproximando-se do resultado de 2013. Note-se que não se está falando de conhecimentos altamente especializados, mas do manejo básico do idioma pátrio e das operações matemáticas. Sem isso, o que esperar do futuro dessa massa de jovens? Resgatá-los, em grande medida, é resgatar o País.

O Brasil estará condenado a ser um país medíocre caso o desastre causado pela pandemia de covid-19 na área de educação não seja revertido por políticas públicas bem planejadas e executadas desde já por Estados e municípios e, a partir do início de 2023, pelo governo federal. É quando se espera que o Ministério da Educação (MEC) – que se fez presente apenas pela irracionalidade de seus titulares nos últimos três anos – tenha, enfim, a chance de ser reerguido por um presidente da República digno do cargo após a razia promovida na pasta por Jair Bolsonaro.

A educação brasileira, particularmente nos níveis fundamental e médio, a rigor já não ia bem antes da eclosão da pandemia. Casos pontuais de boas políticas educacionais foram registrados em alguns municípios, mas os indicadores nacionais e regionais de desempenho dos alunos em conhecimentos básicos, como Língua Portuguesa e Matemática, já oscilavam abaixo dos padrões internacionais há algum tempo.

A disseminação do novo coronavírus, somada à inoperância de um presidente que enxerga o poder como mero exercício de mando e escudo contra a responsabilização por suas ações e omissões, impôs novos desafios à aprendizagem e agravou problemas antigos. De um dia para o outro, por exemplo, a pandemia obrigou professores e alunos que jamais haviam experimentado o ensino remoto a se adaptarem a uma nova forma de interação.

O necessário fechamento das escolas nos primeiros meses da pandemia foi seguido por políticas erráticas e desastrosas dos governos subnacionais em relação à reabertura – mais um reflexo da ausência do MEC. O que se viu foi o crescimento brutal da desigualdade entre alunos por classificações de renda e cor e um notável aumento do déficit de aprendizagem, que apenas no Estado de São Paulo, o mais rico e desenvolvido do País, chega a seis anos.

É evidente que o resultado pífio obtido pelos estudantes paulistas no Saresp 2021 é parte de uma miséria cognitiva que se reproduz Brasil afora, fruto da tibieza dos governos, em todas as esferas da administração, ao lidar com a educação no curso da pandemia. O fechamento das escolas era uma medida necessária no início da pandemia, mas o ensino remoto, sem a estrutura necessária, provou-se um fracasso, sobretudo entre os mais pobres. Em seguida, criou-se um modelo híbrido, que também não se mostrou eficaz. E, nessa política de tentativa e erro, prevaleceu o erro e o resultado aí está.

Já se sabe o que precisa ser feito para reverter esse quadro trevoso. Há organizações da sociedade civil muito sérias que, diligentemente, têm feito diagnósticos e apontado caminhos. No Congresso, há uma dedicada bancada de deputados e senadores a serviço da educação trabalhando para tirar o País do atraso. Alguns secretários estaduais e municipais de Educação, por sua vez, têm conseguido êxitos locais que servem de exemplo para todo o País.

A importância da educação para o futuro do Brasil precisa deixar de ser o truísmo das campanhas eleitorais e se tornar a realidade percebida por milhões de alunos, pais e professores. O que falta é ação.


Brasil rural precisa de educação e ciência

 João Guilherme Sabino Ometto

O Estado de São Paulo 

A ONU e a Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) instituíram 2022 como o Ano Internacional das Ciências Básicas para o Desenvolvimento Sustentável. O propósito é colocar de maneira mais eficaz a Biologia, a Química, a Física e a Matemática a serviço do cumprimento da Agenda 2030, cujos principais objetivos são a erradicação da miséria, a inclusão socioeconômica, o desenvolvimento sustentável, a educação, o trabalho digno, a saúde e a segurança alimentar.

As ciências básicas, que devem impulsionar cada vez mais as políticas públicas, são as que permitiram, por exemplo, progressos extraordinários na medicina, na farmacologia, na engenharia, na infraestrutura, na produção das vacinas contra a covid-19, no fornecimento de água potável encanada, nas reuniões online, na inteligência artificial, no advento do 5G, que está chegando ao Brasil, além de tantos outros avanços determinantes para a qualidade da vida. Tudo isso tem em comum o algoritmo do conhecimento, crucial para viabilizar soluções inovadoras em resposta aos riscos sociais, climáticos, alimentares e energéticos.

Tão importante quanto sua aplicação pelos organismos governamentais e multilaterais e os setores produtivos é o acesso cada vez mais amplo às ciências pelas novas gerações, por meio da educação. Nesse sentido, infelizmente, o Brasil está bastante defasado, não apenas no tocante à qualidade sofrível do ensino público, mas também quanto ao desequilíbrio de seu alcance.

O descompasso é demonstrado em estudo recentemente publicado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), de baixíssima visibilidade na mídia, mas de elevada relevância para o enfrentamento do problema.

O trabalho, que aborda as “diferenças entre a educação rural e a urbana”, revela que, apesar de políticas públicas implementadas nos últimos 20 anos, a condição da escola no campo segue precária em relação à da cidade, apresentando carências básicas de bibliotecas, computadores e internet.

De acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (Pnad), o Brasil tinha 200 milhões de habitantes em 2015, sendo 84,6% no meio urbano e 15,4% no meio rural. Em 2019, registraram-se 47,8 milhões de matrículas em todo o País, uma redução de 8,9% em relação a 2009. Na década, a diminuição foi mais acentuada no campo, com queda de 20%, conforme o Censo Escolar de 2019. As cidades abrigavam 88,9% dos estudantes brasileiros naquele ano e o campo, 11,1%.

A população nacional em idade escolar (de 4 anos a 17 anos) em 2015, segundo a Pnad, foi inferior a 44 milhões de habitantes, sendo 80% urbanos e 20% rurais. Observe-se que, no campo, o contingente em idade escolar é superior ao número de estudantes matriculados. Ou seja, há crianças e jovens fora da escola. Existem casos, também, de alunos buscando instituições com melhores condições nas cidades, apesar da distância e da dificuldade de transporte.

Por fim, há diferenças regionais. Enquanto 92% das escolas rurais da Região Sul dispõem de microcomputadores, estes existem em apenas 27,9% das escolas localizadas no Norte. Não há defasagem regional relevante nos estabelecimentos urbanos. Com relação ao acesso à internet, ela está disponível em 86,8% das escolas rurais do Sul, mas apenas em 16,9% das nortistas e em 40,3% das nordestinas.

Cabe alertar que a realidade realçada pelo relatório do Ipea teve consequências graves para os alunos do meio rural durante a pandemia, aponta o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep): no total nacional, 40% das escolas do campo não conseguiram prover aulas online. O problema confirma estatísticas do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), de que 49% das famílias nas áreas rurais não têm acesso à internet. Nas cidades, o índice é de 25%.

Importante reconhecer o esforço de prefeitos, professores e empresários na criação, manutenção e no apoio às escolas rurais. Bem como a contribuição do Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar) na formação de técnicos para o trabalho no campo.


Vacinação completa um ano com avanços, apesar de Bolsonaro

Laís Modelli

Deutsche Welle

Cerca de 70% da população foi vacinada. Segundo epidemiologista, percentual já poderia ter sido atingido em julho se o país tivesse contado com vacinas suficientes. Um ano depois, Bolsonaro ainda tenta sabotar campanha. 

A epidemiologista Carla Domingues, ex-coordenadora do Programa Nacional de Imunizações (PNI), afirma que o Brasil poderia ter alcançado a marca atual de cobertura vacinal em julho do ano passado. Ou seja, em cinco meses, e não um ano.

"O SUS [Sistema Único de Saúde] tem uma estrutura pronta para vacinar a população que é facilmente acionada pelo Ministério da Saúde. Se o Brasil tivesse vacina suficiente quando se iniciou a vacinação, facilmente teríamos alcançado esse percentual em julho", afirma Domingues.

A ex-coordenadora explica que o SUS tem capacidade de vacinar 3 milhões de pessoas por dia, mas a capacidade diária nunca foi alcançada ao longo da pandemia por falta de vacina. "A vacinação demorou muito para avançar no Brasil”, afirma.

Os dados de vacinação do Ministério da Saúde mostram que, até 30 de junho, o Brasil tinha completado o esquema vacinal de apenas 12,4% da população. Cerca de 1,3 milhões de doses foram aplicadas por dia no período. Um mês depois, a imunização completa ainda não alcançava nem 20% da população.

A evolução dos dados mostra que o Plano Nacional de Imunização contra a covid começou a ganhar força somente a partir de agosto, sete meses após o início da vacinação no país:

31 de março: 2,4% totalmente imunizados

30 de abril: 3,4% totalmente imunizados

30 de maio: 10,4% totalmente imunizados

30 de junho: 12,4% totalmente imunizados

31 de julho: 19,4% totalmente imunizados

31 de agosto: 29,3% totalmente imunizados

30 de setembro: 42,8% totalmente imunizados

31 de outubro: 54,2% totalmente imunizados

30 de novembro: 62,7% totalmente imunizados

31 de dezembro: 67% totalmente imunizados* (Ministério da Saúde teve um apagão de dados após um ataque cibernético)

População confia nas vacinas

As vacinas contra a covid também demoraram para serem adquiridas pelo governo federal e a campanha nacional de imunização começou com um atraso de mais de um mês em relação à Europa e Estados Unidos.

Porém, a pediatra infectologista Flavia Bravo, membro da Comissão Técnica para Revisão dos Calendários Vacinais da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), afirma que os dados mostram que o brasileiro confia nas vacinas e aderiu à campanha nacional de vacinação.

"A campanha de vacinação contra a covid é resultado de um trabalho primoroso que o PNI construiu ao longo de 48 anos de existência. O Programa criou uma confiança na população. A vacina faz parte da vida do brasileiro e a população gosta de vacina”, diz Bravo.

 Foto: Marcelo Chello/Zuma/dpa/picture alliance

Largada da vacinação teve início em São Paulo, 

graças aos esforços do governo local

Ataques contra as vacinas

Apesar do percentual da cobertura vacinal brasileira não corresponder com a capacidade do SUS em vacinar a população, os 70% alcançados até o momento são maiores que nos Estados Unidos. O país americano começou a vacinar um mês antes do Brasil, mas apenas 63% da população tomou as duas doses, de acordo com o Our World in Data, da Universidade de Oxford.

Para Domingues, contudo, não há comparação da campanha nacional com a de outros países, uma vez que as taxas de vacinação em algumas nações europeias e nos EUA não foram influenciadas negativamente pela falta de vacina não adquirida a tempo pelos governos, mas pelo comportamento de parte da população.

"A maioria dos países desenvolvidos que está com a vacinação estagnada é por causa do movimento antivacina. Já no Brasil, os antivacinas não impediram que as pessoas procurassem a vacina contra a covid. O que demorou o avanço da vacinação no Brasil foi não termos quantidade suficiente de doses", diz a ex-coordenadora do PNI.

Para Bravo, os negacionistas da pandemia e os antivacinas "fazem muito barulho, mas não são muitos, são sempre as mesmas pessoas".

"A verdade é que a maior parte da nossa população confia em vacinas e sempre se vacinou", diz a infectologista da SBIm.

As especialistas também lembram que nenhuma campanha nacional de imunização teve ataques de antivacinas como a da covid-19.

"Até 2015, o Brasil tinha números invejáveis de cobertura vacinal em torno de 90 a 95% nas crianças. Ninguém antes se questionava: tem que vacinar ou não? No Brasil, já tomamos duas vacinas ao nascer", afirma Bravo.

Domingues dá como exemplo a campanha de vacinação contra a epidemia de febre amarela, ocorrida entre 2017 e 2018.

"A vacina contra a febre amarela é muito mais reativa do que as vacinas da covid, ela realmente tem o risco de ocorrência de eventos adversos, mas não vimos nenhuma mobilização de grupos contra vacina na época. Muito pelo contrário, a população buscou desesperadamente a vacina até nas regiões onde não estava ocorrendo o surto", lembra Domingues.

A ex-coordenadora do PNI atribui à confiança da população nas vacinas o avanço da imunização contra a covid neste primeiro ano, apesar dos desestímulos do próprio presidente Jair Bolsonaro, que afirma não ter sido vacinado com nenhuma dose.

"O Brasil tem um programa nacional de imunização universal, gratuito e com uma longa história de credibilidade. Toda vez que o Ministério da Saúde convoca a população para se vacinar, ela comparece. Apesar de o governo federal não fazer o seu papel de protagonismo e liderança desta vez com a covid, os governos estaduais, os prefeitos e a sociedade científica substituíram esse papel", diz Domingues.

 Foto: Jefferson Rudy/Agência Senado

O ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello ignorou ofertas da Pfizer 

ao mesmo tempo em que sua pasta abria as portas para empresas de fachada

Tentativas de boicote à vacinação infantil

A vacinação de adolescentes de 12 a 17 anos e de crianças entre 5 e 11 anos são outros capítulos polêmicos. 

Apesar de a Anvisa ter aprovado o uso da vacina da Pfizer em crianças no dia 16 de dezembro, o Ministério da Saúde abriu uma consulta pública em dezembro perguntando à população se deveria ser necessário receita médica para imunização dessa faixa etária.

A aprovação da pasta para a inclusão das crianças no PNI foi dada somente no dia 5 de janeiro, quase vinte dias após a autorização da Anvisa.

Em uma live nas redes sociais no dia 6, Bolsonaro criticou a vacinação infantil e afirmou que não irá vacinar sua filha de 11 anos. Depois, em uma entrevista à uma rádio, chamou de "tarados por vacinas" quem defende a vacinação em crianças e acusou a Anvisa de "interesses” por trás da aprovação.

Além disso, um dia após o aval da Anvisa, Bolsonaro pediu que fossem divulgados os nomes dos técnicos que aprovaram a vacina da Pfizer pediátrica.

"Eu pedi, extraoficialmente, o nome das pessoas que aprovaram a vacina para crianças a partir de 5 anos, queremos divulgar o nome dessas pessoas para que todo mundo tome conhecimento quem são essas pessoas e obviamente forme seu juízo", disse Bolsonaro em uma live, no que foi encarada como uma tentativa de intimidação contra os técnicos da agência, que logo passaram a relatar ameaças.

A Anvisa rebateu as declarações do presidente e pediu que Bolsonaro apresentasse provas das acusações, ou que se retratasse. Nem as provas nem os pedidos de desculpas foram apresentados.

O primeiro lote das vacinas pediátricas da Pfizer chegou ao país somente no dia 14 de janeiro. A vacinação começou em alguns estados no domingo (16/01).

"O ideal seria que o Ministério da Saúde tivesse agilizado a negociação dessas vacinas pediátricas para que a gente conseguisse vacinar com pelo menos uma dose todas as crianças antes do início das aulas, em fevereiro", comenta Bravo.

Em setembro, o Ministério da Saúde já havia tentado travar a vacinação em adolescentes de 12 a 17 anos aprovada pela Anvisa em junho. Após liberar a vacinação para a faixa etária, a pasta voltou atrás da decisão e colocou em xeque a segurança da vacina. Poucos dias depois, a decisão foi revertida.

"Já é complicado levar adolescentes para tomarem vacina, isso com qualquer vacina. A melhor maneira de aumentar a cobertura vacinal desse público é levando a vacina até eles, como promover a vacinação na escola, por exemplo. Isso não aconteceu com a campanha de imunização da covid", diz Bravo.

 Foto: Adriano Machado/REUTERS

CPI da Pandemia relevou negócios suspeitos do Ministério da Saúde 

e expôs má vontade do governo para compra de vacinas

Desafios da vacinação em 2022

Domingues alerta que, principalmente por causa do tamanho do país, a cobertura vacinal contra a covid não é homogênea.

"Apesar de termos tido avanços, ainda temos debilidades. Temos ainda municípios que não têm coberturas elevadas”, orienta a ex-coordenadora do PNI.

"Está na hora de passarmos um pente fino no que foi feito, identificarmos as zonas com baixa cobertura vacinal para que o país tenha uma cobertura homogênea em todo o território”, afirma Domingues.

A DW Brasil procurou o Ministério da Saúde sobre a operacionalização da campanha nacional de imunização em 2022, mas não teve retorno.

Outro desafio para este ano é a chegada da nova variante do coronavírus, a ômicron.

Para impedir que a ômicron ou qualquer outra variante escape da ação das vacinas, é preciso que o governo complete o esquema vacinal de todos os brasileiros o quanto antes.

"Precisamos vacinar de maneira uniforme e rápida para que não haja chance de surgimento de novas variantes", diz a infectologista Bravo.

Os escândalos no governo

O primeiro ano da campanha de imunização contra a covid também foi marcado por acusações contra o governo federal de corrupção e propina em contratos de compra de vacinas que eram promovidas por empresas de fechada, além de rejeição de três ofertas de 70 milhões de vacinas da Pfizer, cujas primeiras doses poderiam ter sido entregues em dezembro de 2020.

Em outubro, o relatório final da CPI da Pandemia, criada no Senado para investigar a condução do governo da pandemia, pediu o indiciamento de 80 pessoas e empresas, entre elas, Bolsonaro.

Entre os nove crimes que a CPI atribui ao presidente, está o de prevaricação, por não pedir que fosse investigada a suspeita de corrupção na compra de vacinas, além dos crimes de responsabilidade e crimes contra a humanidade pela condução da pandemia.

Mesmo assim, Bolsonaro fez uma live nas redes sociais em outubro e afirmou que pessoas totalmente vacinadas contra a covid poderiam desenvolver aids "muito mais rápido que o previsto". A informação é totalmente falsa e a mentira rendeu ao presidente mais um inquérito no Supremo Tribunal Federal (STF) em dezembro.


Mundo atinge 6 milhões de mortes por Covid

 Folha de São Paulo 

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O mundo atingiu nesta segunda-feira (7) a marca de 6 milhões de mortes confirmadas pela Covid-19, doença que continua a fazer vítimas mais de dois anos após o primeiro caso ser registrado em Wuhan, na China. A contagem é da Universidade Johns Hopkins. O marco anterior, de 5 milhões, foi alcançado em 1º de novembro de 2021.

Já o número de casos de coronavírus registrados desde o início da pandemia ultrapassa 446 milhões. Devido à subnotificação de infecções e óbitos, o número real de vítimas da doença pode ser ainda maior. Uma análise feita por uma equipe da revista The Economist no final do ano passado estima que a cifra mais próxima da realidade esteja entre 14,1 milhões e 23,8 milhões.

O Brasil é o segundo país com mais mortes por coronavírus --são mais de 652 mil óbitos, segundo a Johns Hopkins. Neste domingo (6), o país registrou 219 mortes por Covid e 15.810 casos. Além disso, 80,55% da população recebeu ao menos a primeira dose da vacina contra o coronavírus, e 72,5% completou o primeiro ciclo vacinal. Os que receberam a dose de reforço somam 30,76%.

Os Estados Unidos continuam na liderança do ranking dos países com o maior número de mortes. Ao todo, o país registrou mais de 958 mil óbitos.

Depois do Brasil, na terceira posição, ocupam a lista das dez nações com mais mortes causadas pela Covid-19, em números absolutos: Índia (515,1 mil), Rússia (349,2 mil), México (319,9 mil), Peru (210,9 mil), Reino Unido (162,1 mil), Itália (155,9 mil), Indonésia (150,2 mil) e França (139 mil).

O avanço da vacinação contra a Covid freou a mortandade pela doença no mundo nos últimos meses, mas a variante ômicron, aliada à distribuição desigual de imunizantes e à atuação de movimentos antivacina têm prejudicado os esforços para combater a pandemia em diversos países.

Segundo a plataforma Our World in Data, mais de 10,8 bilhões de doses foram aplicadas em todo o mundo. 63,27% da população mundial já recebeu ao menos uma injeção, enquanto os que completaram o primeiro ciclo vacinal são 56,05% e os que receberam a dose de reforço são pouco mais de 18%.