sexta-feira, junho 21, 2013

E onde estão os pobres neste dito “movimento popular”?

Adelson Elias Vasconcellos


Já expressei a estranheza com o fato de  que, em todas as passeatas espalhadas pelo Brasil, poucos pobres é possível notar. A maioria, para não dizer a totalidade dos que estão participando das manifestações do “vem prá rua”, ordem de chamada da “Revolução dos Vinte Centavos”, é de classe média.

Ok. Eles querem mudar o Brasil. Eu, por sinal, queria que estas mudanças já estivessem acontecendo há muito tempo.  Porém, como mudar é a grande questão que se estende à frente da classe política e, dado o aturdimento que sofrem com inesperado levante popular, nem eles tem a resposta. 

Pensavam que, diante do recuo no valor das tarifas, a tendência seria de esfriamento do movimento. Deu-se  o contrário, tamanha a quantidade de demandas que a população está reclamando.

Ora, numa democracia, o caminho da mudança se dá pelo voto. Pode parecer simples, e é. Quando os governantes e nossos  ditos representantes não se dão conta daquilo que um povo quer, o jeito é mudar os políticos e os governantes. Uma democracia que não se renova, tende a apodrecer. Antes da chegada de Lula, já havia um grupo de oligarcas políticos degradados. Como o PT roçou o discurso em favor do país por um projeto absolutista de poder, para nele se manter, tratou de aliar-se a estes oligarcas.  Logo o PT mudou sua essência por mudanças, para abraçar-se à estratégia de continuísmo.

E atenção: era justamente mandar para o inferno este continuísmo que se embalou na esteira da primeira eleição vencida por Lula em 2002.

Já na eleição de Dilma, o candidato da oposição, que nem simpático consegue ser, recebeu mais de 40 milhões de votos. E o PT já estava no poder há oito anos. Por conseguinte, se deduz facilmente que este mais de 40 milhões de votos rejeitavam Dilma e a ideia de continuísmo que ela e seu partido representavam.

Tão logo declarou-se a vitória de Dilma, disse, até como sugestão,  que a oposição deveria reunir-se nos próximos 15, 30 dias,  para estabelecer uma estratégia visando firmar sua posição, uma vez que a quantidade de votos recebidos, e o número de governos estaduais por ela conquistados, representavam um peso eleitoral significativo.  Além disso, nos dois mandatos de Lula, sobravam deficiências que precisavam ser exploradas. Valores que estavam sendo destruídos, e que são caros para a maioria do nosso povo. 

Pois bem. Mais adiante, foi o próprio ex-presidente Fernando Henrique quem aconselhou, num artigo exemplar aqui reproduzido, que as oposições precisavam se aproximar da classe média, afinar seu discurso e suas propostas aos anseios desta importante camada da população brasileira. 

E o que a oposição fez? Gastou o tempo em  se autodestruir. Como o governo de Dilma, logo se viu, chega a ser patético de tão ruim, e a oposição se perde em si mesma, logo a classe média se deu conta  que estava ao desamparo. Não era beneficiária de bolsas e nem de privilégios. E não havia quem lhe desse ouvidos. Fica fácil perceber que o desencanto produziu o descontentamento e que agora se conflagra nas ruas. 

Aí a gente entende a razão dos manifestantes  rejeitarem e até repelem o oportunismo político de alguns partidos aproveitadores. Esta massa não se sente representada. 

O petismo sempre se considerou o protetor das massas, mas estando há 10 anos no poder, nunca conseguiu governar PARA elas, o que é bem diferente de "governar COM  elas". No fundo, e o PT sabe disto, pois foi a mesma estratégia empregada pelos militares, tratou de garantir um eleitorado cativo junto as camadas mais pobres da população. Para tanto, criou e continua criando bolsas qualquer coisa, que tenha por resultado calar, cooptar e comprar o silêncio desta camada  pobre do povo. Canta em verso e prosa serem hoje cerca de 70 milhões de beneficiários.  Isto tem um enorme peso num eleitorado de cerca de 130 milhões. Se adicionarmos a este grupo mais os intelectuais de esquerda, universitários radicalóides e extremistas,  fora enormes nichos na imprensa,  sindicatos, fundos de pensão, ong’s sustentadas com o capilé oficial, não é difícil imaginar que o PT será sempre um adversário poderoso em qualquer eleição. Esta foi a base sobre a qual se construiu a vitória de Dilma Rousseff. 

E, mesmo com todo este apoio, o governo desta senhora não consegue sair do ridículo. Não se trata de insatisfação com inflação crescente como parte da imprensa tenta vender. É muito mais do que isso. Pagamos cinco meses por ano dos nossos ganhos em impostos, e o que temos em termos de serviços essenciais? Não há João Santana que consiga criar um paraíso artificial que esconda esta realidade. 

Esta dita perda de popularidade, no fundo, já havia começado há muito tempo. E disto tratei quando chequei os números de dezembro de 2012 e março de 2013. Mostrei os diversos furos que apontavam uma aprovação muito diferente daquela que os institutos queriam indicar. TODOS os serviços submetidos a avaliação popular não iam além do regular. Como se poderia conceber que, se em todos os quesitos o governo era regular, a conceituação final pudesse apontar bom e ótimo? 

Quando vejo as cenas de violência que se repetem a cada minuto nas ultimas três noites,  fico a lembrar da crescente criminalidade jamais combatida pelo governo petista. Os indicadores da violência, e em números oficiais só fez crescer desde a chegada do PT ao poder.  Sem dúvida, a quantidade de vândalos atacando e destruindo tudo que vê pela frente impressiona, muito embora a imprensa tente passar a ideia de que é apenas uma pequena minoria. Não é. Ela é muito maior do que narram os âncoras das redes de tevê. 

É claro que o petismo está colhendo aquilo que ele sempre semeou nos governos alheios: baderna. E não esperem dele alguma ação ou medida que consiga frear a anarquia correndo solta.   Creio que apenas a população, cansada de pedir paz e “sem violência” se sinta desiludida pelos rumos que as manifestações tomaram, e venham a esvaziar estes movimentos em busca da segurança de si mesma. Não que ela deixará de se sentir insatisfeita. Mas grande parte dos que estão indo às ruas, quer ação dos governantes, não anarquia em torno de si.   

E os pobres, onde estão? Pois é, onde estão os pobres do país, ou será que eles não mais existem? Existem sim, e são milhões. Grande parte deles está satisfeita com o que tem, temem perder o que conseguiram sem nenhum esforço e talvez consigam até reeleger Dilma Rousseff. Qual a certeza que fica? Que estes milhões de coitados deixaram de ser cidadãos para se tornarem meros militantes do partido único. 

Olhando este cenário, e ele é bem real, fica fácil perceber que o PT conseguiu o que mais queria: dividir a nação em vários segmentos conflitantes entre si, para nesta cisão, conseguir imperar absoluto. O que temo é que, se nada acontecer que altere o cenário naturalmente, ele acabe se conflagrando numa imensa revolução interna, do todos contra todos.  E temos o dever de evitar que este mal aconteça, e a qualquer custo. 

Quanto a imprensa, uma sugestão: a hora não é a de por mais fogo no circo. Que tal ouvir menos a voz de “especialistas”,  todos radicais de esquerda, e ouvir mais a voz da razão, que é devolver o estado de ordem ao país? Quando se ultrapassa os limites da lei, só para agradar as massas, estamos flertando, perigosamente com a anarquia e o terror. E é precisamente isto que está acontecendo no país, apesar da imprensa tentar "mostrar" uma realidade que só ela vê e entende. 

Agora retomo a pergunta lá do título: E onde estão os pobres neste dito “movimento popular”? Pois é, né, fica muito estranho um movimento que se diz popular não trazer um grande contingente de brasileiros pobres que são os mais prejudicados pela negligência do Estado na prestação dos serviços básicos.  Creio que uma boa resposta seria o fato de que os pobres, em sua maioria, já sejam beneficiários do Bolsa Família e outras bolsas e cotas, e temem que seu envolvimento nas manifestações acabe por castigá-los com a perda do benefício.  Isto já acontece até nas pesquisas “orientadas” de opinião: procuram aprovar a presidente, pela mesma razão e temor. 

E isto vem de encontro ao que sempre venho afirmando: o bolsa família, até por não oferecer portas de saída e não exigir de seus beneficiários contrapartidas, jamais poderia ser chamado de programa social. A forma como é conduzido visa obter dois objetivos: um, a captura de votos em favor do PT. E dois,  a perenização da pobreza, dependência eterna ao programa, garantindo os mesmos votos. Um programa só é social quando oferece portas de saídas, com melhor capacitação do indivíduo para que ele possa andar com as próprias pernas. Exige contrapartidas de seus participantes para evitar a acomodação, e busca reduzir ao mínimo o número de beneficiários. No caso do bolsa família, o que vemos é a insistência em criar caminhos para ampliar este número, nunca reduzi-los. 

Eis aí uma boa explicação para ausência do povo pobre na multidão de insatisfeitos. Mas não pensem que ele não gostaria de engrossar as fileiras das passeatas. Se para a classe média saúde, educação e segurança já são uma carência inadmissível, imagine para aqueles que têm nos serviços públicos  o único meio de terem educação, saúde e segurança, por mais precárias que sejam.

O que me entristece diante desta anarquia esparramada pelos quatro cantos do Brasil, é ver que todas as minhas mais terríveis previsões sobre a que ponto o petismo conduziria o país, se confirmaram. Nunca desejei tanto estar completamente enganado. Mas também nunca esta realidade pareceu tão previsível de 2003 para cá, e como agora ela se apresenta.  Eis uma hora em que não sinto nenhum orgulho em ser brasileiro. Que Deus nos ilumine e abençoe.

Com quantas minorias se vira um país do avesso?

Adelson Elias Vasconcellos


Há mais de uma semana do começo das manifestações, ouço da imprensa que apenas uma minoria pratica vandalismo. O que me impressiona é quantidade de minorias espalhadas pelo país. Se alguém puder rever o ataque feito ao Palácio do Itamaraty, na noite desta quinta feira, constatará que ali estavam não meia dúzia de baderneiros como a imprensa tentou vender este tempo todo, mas sim dezenas de vândalos, bandidos e terroristas. 

Não terá chegado a hora da imprensa, redes de tevê, principalmente, mudarem o discurso de seus âncoras, para que ele reflita a realidade do que se vê, e não aquilo que querem que vejamos?  

Sra. Rousseff, alguma coisa está acontecendo

Fernando Gabeira 
O Estado de SPaulo

Alguma coisa está acontecendo e eu não sei exatamente o que é. Antes dos conflitos de rua no Brasil, recebi o livro de Manuel Castells Redes de Indignação e Esperança. Castells é professor numa universidade da Califórnia e dedica-se ao estudo das redes e sua importância neste início do século. Examinou a Primavera Árabe, o Occupy Wall Street, o movimento dos indignados na Espanha e o caso da Islândia.

Antes mesmo desses movimentos, Castells via nas redes o caminho por meio do qual uma nova geração de ativistas buscaria mudança política fora do alcance dos métodos habituais de controle político e econômico. Segundo Castells, esses movimentos são mais voltados para explorar o sentido da vida do que para conquistar o Estado capitalista.

Essa observação é, para mim, curiosa. Nos anos 60, alguns, como eu, transitaram do existencialismo para o marxismo. Agora, o existencialismo parece estar de volta. De novo, uma parcela da juventude sai em busca do sentido: conectar as mentes, criar significados, contestar o poder é a frase que Castells utilizou para sintetizar o programa dessas redes.

Se isso é verdadeiro para o Brasil, os R$ 0,20 de aumento dos ônibus foram apenas um dos pretextos para expressar a revolta. E os grupos da esquerda clássica, apesar de seu estardalhaço, funcionam aí apenas como aquelas lavagens na pedra que dão aparência de velho ao jeans que acaba de ser fabricado.

Criar significados em política significa também colocá-los na mesa para o debate. Não posso, por exemplo, condenar o Movimento Passe Livre porque no passado apoiei a tese do fim do passaporte no mundo. Até que me deparei com a gigantesca realidade da imigração internacional. A inquietação com o transporte coletivo pode ser existencialmente resolvida com a palavra de ordem passe livre. Mas apenas ela não muda a realidade dos que usam ônibus no Brasil.

O preço é amparado no aumento da inflação, que não deveria ser a única referência. Conforto, pontualidade, respeito ao usuário, condições de trabalho dos motoristas, tudo precisa ser monitorado. Mas existe uma cumplicidade histórica de vereadores e deputados com as empresas de ônibus. No Rio de Janeiro, por anos, houve até pagamento mensal na Câmara. Mensalinho, mensalão, olha pro céu olha pro chão.

Lutar só pelo passe livre nos remete a um ônibus utópico. O que fazer com pessoas esgotadas depois de um dia de trabalho? Dizer, ano após ano, "coragem, irmão, o reino de Deus está próximo"?

A única cidade que adotou o passe livre, Porto Real, no Rio de Janeiro, o fez para atrair grandes empresas que queriam se instalar lá: Coca Cola e Citroën Peugeot. Foi um cálculo econômico e eu vou lá para estudar o caso.

Um dos aprendizados mais importantes para a geração que saiu às ruas no passado é o compromisso com a democracia, o que significa rejeitar a tese de que os fins justificam os meios. A violência derruba as melhores intenções. Ela é o inimigo interno que corrói a simpatia popular e acaba esvaziando as ruas. Em alguns lugares do mundo, governos usam provocadores infiltrados para desmoralizar o adversário.

Conselhos são vistos com desprezo num momento como este. Mas a história não começa do zero. Essa presunção é absurda e só tem validade na cabeça do PT, que acredita ter inaugurado o Brasil, em 2003.

Como as inquietações se transformam em mudanças, se a própria timoneira parece perdida? Dilma diz que está tudo maravilhoso, e tome vaia da torcida. O governo trouxe a Copa do Mundo para o Brasil por achar que isso era uma trunfo eleitoral imbatível. Todos os seus defensores afirmam que foi uma condenação da classe média alta. Como se fosse preciso examinar a renda antes de avaliar o peso de um protesto e como se as ruas de todo o País, de São Paulo a São Gonçalo, estivessem tomadas por gente da alta classe média.

É um momento duro para ela. Mas foi o PT que fez baixar o mais pesado manto de cinismo sobre a vida política brasileira. Dilma afirmou um dia que não tem perfil de candidata. Concordo com sua análise. No entanto, foi eleita num período de crescimento econômico, de esfuziantes gastos oficiais e milhões consumidos na máquina de propaganda.

Isaiah Berlin compara as habilidades de um governante às de um motorista que precisa de reflexos porque se vê, constantemente, diante de situações novas e inesperadas. De nada adiantam erudição e conhecimento histórico nem o batalhão de conselheiros. Há uma solidão inescapável no ofício do estadista.

Dilma foi embriagada pela dose de otimismo que o marketing ministrou. Afirma que são terroristas os que alertam para a inflação. Em seguida, diz que o governo vai dar a volta por cima. Segundo a própria canção, só se dá a volta por cima depois de uma queda e de sacudir a poeira.

Ela lançou uma lei de acesso a informações e proíbe os assessores de divulgar dados sobre suas viagens oficiais, hotéis, comitivas, gastos, sobretudo gastos.

Quando a maré baixa, dizem os analistas econômicos, fica evidente quem está nadando nu. Isso vale para os atores políticos nas grandes viradas históricas.

Lula diz que elegeu postes para melhor iluminar o Brasil. Referia-se a Dilma e a Fernando Haddad. É muito poético, até que se descubra a realidade úmida do poste, quando adotado pelos cachorros da vizinhança.

Para mim, o sistema de dominação que transformou a política brasileira num bordel entrou em declínio.

Na Islândia, que é muito pequena para ser um modelo, as revoltas desembocaram numa substituição do governo, numa nova maneira de gastar o dinheiro e numa Constituição moderna, que busca integrar a participação popular, potencializada pela revolução digital.

Alguma coisa está acontecendo no Brasil. Você pode ser contra, a favor ou mesmo ficar em cima do muro. Mas não pode negar a frase de Galileu Galilei: "Eppur si muove" (ainda se move).

O truque envelheceu

Dora Kramer  
O Estado de S.Paulo

A aplicação do velho lema que aconselha adesão ao inimigo que não se pode vencer é o que se evidenciou na convocação da militância petista às ruas feita - e depois negada - pelo presidente do PT, Rui Falcão.

Ousado, foi o primeiro partido a tentar marcar presença nos protestos a despeito do repúdio dos participantes a quaisquer conotações partidárias. "Não temos medo das ruas", disse Falcão.

As ruas, no entanto, não receberam bem essa tentativa do PT de posar de estilingue para se desviar das pedras atiradas nas vidraças. Não as reais, das depredações cada vez mais difíceis de serem qualificadas como atos isolados devido à constância com que têm ocorrido em praticamente todas as manifestações País afora.

As pedras que o PT quer evitar são as simbólicas, atiradas como expressão do descontentamento geral com serviços mal prestados pelo poder público e o mau comportamento de representantes do poder político.

A estratégia é clara e já estava delineada no discurso da presidente Dilma Rousseff logo após reunião de emergência para tratar dos protestos com o ex-presidente Lula, o marqueteiro João Santana, o presidente do PT e o ministro da Educação, Aloizio Mercadante, recentemente levado à condição de eminência parda.

Dilma parou de chamar críticas de "terrorismo" e tratou de demonstrar seu apreço à "mensagem direta das ruas", cuja essência, segundo ela, é "o repúdio à corrupção e ao uso indevido de dinheiro público".

Lula convocou para um encontro as centrais sindicais das quais ouviu - e segundo consta anotou - queixas contundentes aos modos da pessoa que conseguiu eleger convencendo a maioria de que seria a mais preparada para governar o Brasil. Prometeu ajeitar o meio de campo, mas ao que se sabe não defendeu sua criatura.

O partido e o governo fizeram questão de deixar patente a insatisfação com o comportamento do prefeito Fernando Haddad, atribuindo a ele o desgaste por não ter percebido a real dimensão dos movimentos e atuado politicamente no sentido de obter dividendos. Como se qualquer outra autoridade tivesse notado e estivesse preparada para reagir à altura sem prejuízos políticos. Haddad virou o bode expiatório dos companheiros.

Juntem-se esses movimentos e o que se obtém é o desenho de uma manobra na qual o PT é mestre: a transformação do malefício em benefício mediante a manipulação de fatos e falas.

Fez isso diversas vezes ao longo dos últimos dez anos (para não falar da época em que foi oposição na posse da bandeira ética chamada de "udenismo" quando levantada pelos adversários), com destaque para o escândalo do mensalão que conseguiu disfarçar como "defeito do sistema" até o Supremo Tribunal Federal rasgar essa fantasia.

Tentou agora de novo. Em sua nota convocatória, Falcão faz referências à identidade do partido com os "movimentos populares" e diz que a participação do PT impede que a "mídia conservadora" e a "direita" influenciem a pauta das manifestações.

Seria engraçado não fosse mais um exemplo da desfaçatez de um partido que governa o Brasil há dez anos e agora tenta capitalizar insatisfações que ele mesmo transformou em panela de pressão ao obstruir todos os canais de expressão do contraditório mediante o uso abusivo dos instrumentos de poder.

A julgar pela reação das tão queridas ruas, a manipulação encontrou um limite e o velho truque envelheceu.
Que dúvida... O mundo político insiste em dizer que desconhece as causas dos protestos. Recorrendo ao de Nelson Rodrigues: se quem protesta não sabe exatamente no que bate, seus alvos sabem perfeitamente por que apanham.

Ou governo devolve a ordem ao país, ou a situação fugirá ao controle.

Adelson Elias Vasconcellos

Creio que o povo brasileiro já deu seu recado à classe política de seu inconformismo com o Brasil atual. As demandas são muitas, mas são justas. Tratam-se de direitos que foram usurpados ao longo de anos de negligência e incompetência.

Ok, acho que os últimos acontecimentos destas últimas três noites são suficientes para revelar que, ou o governo põe na rua as tropas de segurança para recuperar o estado de lei e ordem, ou ainda haveremos de lamentar  vítimas fatais, fruto da baderna, do vandalismo, do banditismo que já não se concentram apenas por meia dúzia, mas por verdadeiras gangues de bandidos que tentam impor terror no país.

Volto a repetir o que venho dizendo nestes dias todos: democracia não combina com depredação, saques, invasão de prédios públicos e privados, ataques à carros de reportagens da imprensa, a linchamento de policiais, destruição, quebra-quebra, saques. 

Creio que, e as imagens da noite não desmentem, que a situação já fugiu ao controle.

Em qualquer país civilizado, passeatas e protestos tem data marcada, hora para começo e fim, e inclusive lugares definidos. E isto se faz para que a manifestação de insatisfação de alguns, independentes das causas que defendem, atrapalhe e prejudique dos demais cidadãos que querem levar sua vida normalmente, e não são culpados  não causadores destes descontentamentos. 

Escrevi nesta semana um artigo demonstrando que as pessoas no Brasil, lamentavelmente, confundem democracia com anarquia. Acham que, pelo fato de viverem num regime de liberdades, que estas liberdades sejam absolutas, que não impõem a ninguém regras e responsabilidades. Qualquer um pode exercer seu direito de manifestar sua inconformidade com os governantes, porém ninguém lhe outorgou o direito de invadir a seara alheia para perturbar. A cada direito corresponde um dever. Isto é básico em qualquer democracia, em qualquer país civilizado. 

O que estamos assistindo é que, para se exercer o direito de manifestação,  o direito de ir e vir está sendo ultrajado.  Nesta semana, tivemos a destruição pelo fogo de um carro de reportagem da Rede Record. Hoje, a Rede do SBT foi a vítima da vez. Ou seja, justamente a imprensa, que desde o início se colocou ao lado dos manifestantes, às vezes até tentando mascarar os abusos provocados por eles, agora está sendo vítima deste pacto surdo.  Por que? Por que os radicalóides não querem ver exibidos suas ações de terror.    
Quando a própria presidente da República se vê refugiada no Palácio do Planalto, precisando  cercar a sede do Executivo Federal com centenas de policiais;

Quando prédios públicos são atacados, pichados, depredados em seguidas tentativas de invasão;

Quando prédios comerciais são destruídos e saqueados;

Quando nem o Palácio do Itamaraty escapou do ataque  não de meia dúzia, mas de dezenas de delinquentes ensandecidos;

Lamento informar que a situação está fugindo ao controle. Dezenas de feridos de parte a parte já se contam por todo o país. E rezemos para que não tenhamos ou não venhamos a lamentar por vítimas fatais.

Portanto, o que está em jogo é a estabilidade institucional do país. Assim, não só as forças policias mas também as Forças Armadas precisam, rapidamente sair às ruas para que se restabeleça com urgência a lei e a ordem. 

Chega de contemporização. Basta de tolerância com quem é intolerante à ordem. Quanta mais contemplativa se comportar as forças de segurança cujo missão principal é garantir a lei e a ordem, mais se alimentará o banditismo, mais estaremos colocando incentivo ao terror. E isto é inadmissível. 

Urge, portanto, que as autoridades venham a público declarar estarem cientes das demandas que se ouvem e que, na medida do possível, trataram de atender os anseios da população. Dizer às pessoas que elas são livres para a manifestação, o protesto, a passeata. Porém, é preciso dar um tempo para que o país retome sua vida normal, porque tais ações estão prejudicando a vida das pessoas, e alimentando o banditismo. 

Ou o país trata de assegurar a segurança de todos, ou conviremos tristemente uma convulsão social, o que ninguém deseja, porque ninguém se beneficia do caos instalado. 

E se seria oportuno que a imprensa passasse a apenas informar, sem tentar glamourizar estas manifestações.    Isto está retroalimentando a ação das gangues e da bandidagem.  Há momentos para avançar, como há momentos para recuar. Este é o momento de recuar. Se os governantes recuaram quanto ao valor das tarifas, e sabem e como as motivações de tanto descontentamento, vamos dar-lhes tempo para ver se nossas demandas começarão a ser atendidas. Radicalizar agora, só servirá para tornar o movimento menor, e não isso o que se deseja. Estamos no limite de um convulsão social. 

O tiro que saiu pela culatra petista

Adelson Elias Vasconcellos

 Vocês lembram da afirmação (irresponsável) de Gilberto Carvalho, secretário da Presidência da República, de que em 2013 o bicho ia pegar? 

Pois então, havia uma armadilha – dentre tantas outras já articuladas – para descer o sarrafo em Geraldo Alckmin. A história das passagens visava atacar o governo do tucano, fazendo estragos em seu projeto de reeleição, do mesmo modo como já se fizera com Gilberto Kassab, para  viabilizar a candidatura de Fernando Haddad, que acabou vitoriosa. 

Gilberto Carvalho sabia do que estava falando. Fora um dos mentores do plano de guerra urdida para abrir caminho ao Palácio dos Bandeirantes para algum poste do PT.   

O plano envolvia a ação de militantes, sindicatos, ong’s (a do Passe Livre, por exemplo). Só não contavam que estavam dando um tiro no próprio pé. O movimento pega-Alckmin atingiu as ruas e trouxe consigo uma multidão de insatisfeitos justamente com o governo petista de Dilma, e acabou  pegando no pé de toda a classe política. 

Agora o bicho está pegando sim, para todos os políticos e governantes de plantão. 

Na tática de guerra de Gilberto Carvalho, participariam as seguintes entidades e grupos:

1 - Coletivos autônomos:
*Movimento Passe livre – organizadores dos protestos
*Igreja Punk do Fim de Semana – a igreja recebe ateus e gays. o líder é conhecido como Bispo Chinês, guitarrista da banda punk rock Excomungados
*Corrente Proletária Estudantil – movimento de estudante da USP
*Anarquistas
*Espaço Socialista – entidade marxista não ligada a partidos
*Fanfarra do Mal (Movimento Autônomo Libertário) – banda que acompanha protestos
*Levante Popular da Juventude – organização de jovens militantes
*Anonymous – grupo de ativistas hackers
*Território Livre – movimento contra a violência policial
*Movimento Hip Hop

 2 – Sindicatos – metroviários, ferroviários, professores da rede estadual e da saúde

 3 – Partidos ou coletivos ligados a partido
* Juventude do PT (diretório estadual)
*Assembleia Nacional de Estudantes – Livre (ANEL) – entidade estudantil ligada ao PSTU
*Todos Juntos por um Futuro – movimento estudantil ligado ao PSOL
*Liga estratégia Revolucionária – Quarta Internacional(LER-QI) – organização trotskista
*União da Juventude e Rebelião – movimento ligado ao Partido Comunista Revolucionário
*União da Juventude Comunista (UJC) – entidade ligada ao PCB

 4 – “Tropa de Choque” – Black Blocks anarquistas que praticam vandalismo

Assim, convido os leitores a não deixarem de ler e refletir a matéria publicada pelo Estadão, aqui reproduzido na íntegra. Portanto, na ponta ruim das manifestações,  que o vandalismo, vocês encontrarão nítidas as digitais. Este é o método deles fazerem política quando estão na oposição. 

Porém, não contavam com a reação popular voltada contra eles mesmos. Hoje, nas manifestações, não foram os cartazes pedindo para Dilma sair. Aliás, corre na internet uma listagem com mais de 100 mil assinaturas neste sentido.  

Estamos recordando para uns, e informando para outros, parte deste roteiro que muitos “especialistas”não conseguem entender ou até tentam construir uma rede fantasiosa de motivações, para que os eleitores despejem nas urnas em 2014 toda a sua insatisfação e revolta com este Brasil que eles vem construindo há mais de dez anos, mas que está anos luz de distância do verdadeiro que todos sonhamos viver. Gente, nada de anular voto. Vamos mudar tudo a começar por não reeleger nenhum político. Talvez alguns até descubram que existe uma coisa chamada trabalho, jeito honesto de ganhar a vida. 

Até agora o governo da senhora Dilma tem feito o possível e o impossível para não intervir contra os baderneiros. São seus aliados, companheiros e cúmplices de Gilberto Carvalho. Há medo de que qualquer ação que coíba a ação dos marginais requisitados, possa ter algum língua frouxa disposto a desmascarar  a estratégia do grupo. 

A tentativa de alguns petistas de se infiltrarem nas manifestações visava convencer a companheirada  ligada aos grupos acima, a se acalmar e não radicalizar. Gilberto Carvalho voltou a Brasília sem que alguém se comprometesse em não vandalizar. Deverá na reunião convocada por Dilma expor a tentativa infrutífera de sua rápida visita a São Paulo. Os tais militantes enviados como mensageiros, tiveram que desistir da empreitada, dada a rejeição que sofreram do povo nas ruas. 

Assim, caberá à Dilma decidir o que fazer para repor a ordem e a paz num país conflagrado pela revolta e descontentamento contra tudo e contra todos, inclusive com ela própria. Será uma decisão difícil que pode até comprometer, conforme a opção que escolher, com seu projeto de reeleição. 

Mas creio que não fazer seria a pior dentre todas as alternativas. A instabilidade já foi longe demais para se ficar de braços cruzados. O momento exige pronta ação da autoridade maior do país.  Talvez, dentre os anéis e os dedos, se escolha um caminho onde se abra mão de um dos projetos prioritários que são o governo paulista e a permanência no poder federal. Creio que os dois juntos é sonhar com muito para ficar com nada. 

É bom que a população sadia do Brasil seja informada de certos fatos. Há especialistas convidados pela Globo News,  por exemplo, a opinar sobre as manifestações e que só apontar uma arma em direção à polícia e impor a ela a culpa pelo vandalismo. Será que estes tontos sugerem que a polícia fique impassível diante da tentativa de invasão de um prédio público, e que os policiais permaneçam inertes contras as pedradas e foguetes e rojões lançados contra si, e que resultaram em muitos policiais feridos? Se há abusos de um lado, também os há de outro. Um manifestante qualquer, vendo um pelotão de choque postado à sua frente, e que decide investir contra os policiais com pedras, paus, coquetéis molotov  espera o quê, ser recebido com beijinhos na testa? 

Se há jornalistas feridos, não se venham de maneira absolutamente leviana e irresponsável atribuir as agressões apenas a policiais. Ou quem tacou fogo nos carros de reportagem da Record e SBT, foram as bombas de borracha, por acaso? Não, foram muitos bandidos (e não um pequeno grupo) infiltrados  e que querem ter rostos revelados no cometimento de seus crimes. 

Portanto, e antes que algum desinformado saia por aí fazendo acusações injustas,  recomendamos a leitura das matérias cujos links disponibilizamos a seguir.

EM TEMPO: Hoje, a turma do "Passe Livre" anunciou que, apesar de ter outras bandeiras, não vai mais convocar protestos.  É o primeiro resultado prático da missão de Gilberto Carvalho: desarmar as bombas. 

SAIBA MAIS: 


AS FACES DO MOVIMENTO DAS RUAS 


Acorda, Maria Antonieta, nem que seja para comer brioches. Fala, Dilma!!!

Reinaldo Azevedo 


Já que os petistas parecem não saber o que dizer à presidente, então que ela ouça alguém, como eu, que torce para que ela perca a eleição de 2014 — a menos que tenha como adversário (a) no segundo turno alguém ainda pior.

E o meu conselho é este: “Acorda, Maria Antonieta! Nem que seja para comer brioches!”. Aí, dê uma olhadinha ao que se passa lá fora e faça um pronunciamento à nação.

Se aceitar o meu conselho, presidente, cuidado com o que falar! Vossa Excelência já puxou o saco de manifestantes. Seus ministros, inclusive este inacreditável José Eduardo Cardoso, o “desministro” da Justiça, já demonizou a Polícia de São Paulo. Agora é hora de pedir ordem, excelência! Agora é hora de pedir ordem democrática!

Eu sei que estou sendo injusto com a Maria Antonieta, que não era aquela sonsa que passou para a história, coitada!

Só um pronunciamento, agora, governanta, é decente e legítimo! Assegurar que a ordem será mantida e que aqueles que desrespeitarem as leis irão para a cadeia.

Todo o bem que a senhora fez à humanidade, nós já conhecemos. Como se nota, ele não está sendo suficiente para levar a paz às ruas.

Mocidade independente

Nelson Motta 
O Globo

Os jovens gritam contra os privilégios dos políticos. E eles fingem que não é com eles

Discursando para um auditório lotado de políticos, empresários, lobistas e funcionários, a presidente Dilma advertiu que “esta mensagem direta das ruas é de repúdio à corrupção e ao uso indevido do dinheiro público” e foi aplaudida entusiasticamente pelos presentes, como se ninguém ali tivesse nada a ver com isso.
A democracia representativa foi desmoralizada pelos políticos, que a usaram para representar apenas os seus próprios interesses e de seus partidos, e agora os jovens gritam nas ruas “o povo unido/sem sigla e sem partido”, e são aplaudidos pela população. Para não ser vencido, o povo unido precisa estar representado no poder.

O governo e o Congresso não enfrentam uma urgente e fundamental reforma politica porque os políticos não querem se mostrar como são: incapazes de chegar a qualquer acordo no interesse do país — porque só sabem defender seus próprios interesses e de seus partidos, como uma corporação que se apossou do Estado e o usa em seu beneficio. Por isso os jovens gritam contra os privilégios dos políticos. E eles fingem que não é com eles.

Hoje as ruas gritam contra os gastos e roubalheiras da Copa do Mundo, que vai consumir bilhões de reais e o povo vai ver pela televisão, enquanto os velhos políticos e as novas elites da era Lula estarão lado a lado na tribuna dos privilegiados.

Contrastando com o Brasil Maravilha que o embriagador marketing oficial mostra na TV, pago com dinheiro público, o Brasil real está nas ruas.

As antigas militâncias apaixonadas, hoje amestradas e pagas, babam de inveja diante da TV, velhos partidos tentam pegar carona no movimento e são escorraçados. A maioria absoluta dos manifestantes despreza os atuais partidos — mas exige ser representada, ter voz e direitos respeitados. Novas formas de pressão e de expressão estão nas praças e no ar.

As cenas que vemos são uma representação dramática da insatisfação dos jovens com o futuro que os espera, se continuarmos representados pelo que o Brasil tem de pior, de saqueadores de verbas públicas a vândalos predadores.

No momento, quem me representa é meu neto de 17 anos.

Vontade de falar

O Estado de S.Paulo

Das dezenas de frases de participantes e entusiastas das manifestações da segunda-feira em 12 capitais brasileiras, citadas pela imprensa para dar uma ideia do espírito dos protestos, provavelmente a mais expressiva tenha sido a da ex-voleibolista Ana Beatriz Moser. "O importante é esse coro, essa vontade de falar. Os governantes têm de ouvir."

Em um País onde a última vez em que centenas de milhares de pessoas saíram de casa para se fazer ouvir pelos governantes foi em 1992, com o coro "Fora Collor", não é fácil de explicar a presumível acomodação da juventude, em contraste com o histórico de proliferação de atos públicos de massa no exterior (contra alvos diversos como a globalização, os transgênicos, a invasão do Iraque, o poder de Wall Street, as políticas recessivas na Europa, as tiranias árabes e, agora, o autoritarismo do governo livremente eleito na Turquia).

Pode-se argumentar que, desde o Plano Real no governo Itamar Franco, que assumiu no lugar de Collor, o Brasil amealhou mais notícias boas do que más - embora não raras entre essas tenham se tornado péssimas, a exemplo da criminalidade. O ciclo virtuoso de 18 anos - das administrações Fernando Henrique e Lula à primeira metade do mandato da presidente Dilma Rousseff - promoveu o crescimento e generalizados aumentos de renda real, principalmente entre os mais pobres. O consumo explodiu e só não atordoou os grupos engajados nas causas chamadas "pós-materialistas", como a defesa do meio ambiente, a proteção das comunidades indígenas, os direitos dos negros, mulheres e minorias sexuais. É tentador, mas arriscado, estabelecer uma relação direta e exclusiva entre a volta da inflação e os pibinhos, de um lado, e a eclosão do descontentamento, de outro. Mas seria míope negar qualquer nexo entre a economia em baixa e a insatisfação em alta.

De fato, foi o aumento das passagens de ônibus em São Paulo, na esteira dos de Porto Alegre e outras cidades, que fez o trânsito parar de vez. Na capital paulista, a brutalidade policial que se seguiu aos atos de vandalismo registrados na primeira passeata, no começo da semana passada, acirrou a indignação, deu nova motivação para a ida às ruas e remeteu a segundo plano (mas sem eliminar) as reclamações contra o preço dos bilhetes.

Esse é o dado crucial da onda de protestos que juntou anteontem mais de 230 mil pessoas do Pará ao Rio Grande do Sul - só no Rio foram cerca de 100 mil, com a Avenida Rio Branco tomada por compacta multidão fazendo lembrar as marchas pelas Diretas Já em 1984.

Deu uma vontade de falar que não se sabe como, quando ou se será aplacada: contra os padecimentos que o Estado impõe ao povo com os seus serviços de terceira e indiferença de primeira, a começar da saúde e educação públicas; contra os políticos e autoridades em geral que só cuidam dos seus interesses e são tidos como corruptos por definição; contra a selvageria do cotidiano por toda parte; contra a truculência das PMs; contra a lambança dos gastos com a Copa, que pegou de surpresa a cartolagem e seus parceiros no governo federal - e tudo o mais que se queira denunciar. Afinal, os jovens não se sentem representados por nenhuma instituição e desconfiam de todas. Tampouco a imprensa lhes merece crédito. Consideram-se mais bem informados pelos seus pares das redes sociais do que pela mídia. É também na internet que encontram argumentos para as suas críticas, colhem e se prestam solidariedade, cimentando a coesão grupal.

Entre a quarta-feira passada e a noite da última segunda, 79 milhões de mensagens sobre as marchas foram trocadas pelos internautas. O senso de autocongratulação - "a juventude acordou" - e a natureza difusa de suas queixas combinam-se para dificultar a discussão de pautas específicas de mudança em eventuais encontros com agentes públicos. Como se diz, faz parte: o protesto precede à proposta. O lado bom das jornadas dos últimos dias, além do caráter em geral pacífico das manifestações, foi a preocupação com o País. "Parem de falar que é pela passagem", comentou um jovem. "É por um Brasil melhor."

Corrupção é o foco

Merval Pereira 
O Globo

Mesmo que as reivindicações sejam várias e muitos cartazes exibam anseios mal explicados ou utopias inalcançáveis, há um ponto comum nessas manifestações dos últimos dias: a luta contra a corrupção.

A vontade de que o dinheiro público seja gasto com transparência e que as prioridades dos governos sejam questões que afetam o dia a dia do cidadão, como saúde, educação, transportes, está revelada em cada palavra de ordem, até mesmo nas que parecem nada ter a ver com o fulcro das reivindicações, como no protesto contra a PEC 37.

Nele está contido o receio da sociedade de que, com o Ministério Público impedido de investigar, o combate à corrupção seja prejudicado. Todas as questões giram em torno do dinheiro público gasto sem controle, como nos estádios da Copa do Mundo, todos com acusações de superfaturamento.

O dinheiro que sobra para construção de “elefantes brancos” falta na construção de hospitais ou sistemas de transportes que realmente facilitem a vida do cidadão.

O mundo político está de cabeça para baixo tentando digerir as mensagens que chegam da voz rouca das ruas, como dizia Ulysses Guimarães, que dizia também que “a única coisa que mete medo em político é o povo na rua”.

Ninguém entende, por exemplo, por que houve esse verdadeiro estouro da boiada agora, e não há um mês ou mesmo há um ano.

Tenho um palpite: assim como as manifestações na Tunísia, as primeiras da Primavera Árabe, começaram com o suicídio de Mohamed Bouazizi, de 26 anos, vendedor ambulante que ateou fogo ao corpo depois de proibido de trabalhar nas ruas por não ter documentos nem dinheiro para pagar propinas aos fiscais, as manifestações aqui foram grandemente impulsionadas pela reação violenta da polícia em SP semana passada.

O movimento contra o aumento das passagens de ônibus poderia não ter a amplitude que ganhou se não houvesse uma reação nas redes sociais à atitude da polícia, como se todos sentissem a opressão do Estado na sua pele, e de repente liberassem os diversos pleitos que estavam latentes na sociedade.

Creio que foi a partir do entendimento de que uma reivindicação justa como a da redução das tarifas de ônibus estava sendo tratada simplesmente como um pretexto para arruaças e vandalismos que a sociedade passou a se mobilizar para ampliar suas reivindicações.

Isso nada tem a ver com comparações entre as mobilizações que ganham as principais cidades do país e a Primavera Árabe, pois estamos em uma democracia e não se trata de derrubar governos, mas de mudar a maneira de geri-los, política e administrativamente.

E também não é possível considerar que os abusos de um dia impedem as polícias de reprimir a parte radicalizada das manifestações, que vandaliza cidades ou tenta invadir prédios públicos ou residências das autoridades.

Creio mesmo que no Rio e em São Paulo as autoridades ficaram paralisadas diante da violência de parte dos manifestantes e não agiram com o rigor devido nessas ocasiões. O que demonstra falta de bom senso.

Um detalhe que define bem a divisão desses movimentos foi o grupo de jovens que foi ao Centro do Rio ontem tentar limpar e consertar em parte o que os vândalos fizeram no dia anterior.

E em São Paulo, em frente ao Palácio dos Bandeirantes, enquanto um grupo tentava derrubar o portão de entrada, outros o recolocavam no lugar.

O ambiente econômico também deve ter contribuído para quebrar aquela falsa sensação de bem-estar. E é impressionante que o imenso aparato de informações de que cada governo dispõe, especialmente a Presidência da República, e as pesquisas de opinião não detectaram a indignação que explodiu nas ruas.

O dono de um desses institutos de opinião que vende seus serviços para o PT, e acrescenta a eles, como um bônus, comentários em revistas chapas-brancas, chegou a ironizar as oposições e analistas que criticavam o governo, afirmando que viviam em uma realidade paralela, que nada tinha a ver com a vida do cidadão comum, que estava muito satisfeito. Segundo ele, não havia sinal de mudança de ventos que suas pesquisas pudessem captar.

Também o ministro Gilberto Carvalho, da Secretaria Geral da Presidência, que anunciou que “o bicho vai pegar”, parece estar atordoado com o bicho novo que está pegando sem que ele ou o PT dominem a situação.

A prestação de contas

Carlos Chagas
Tribuna da Imprensa

Os primeiros dias da realização da Copa das Confederações demonstra ter sido o povão  expulso dos estádios de futebol nas capitais onde os jogos se realizam.O elevado preço das entradas levou à exclusão das classes menos favorecidas da possibilidade de ocupar  as arquibancadas. De Brasília ao Rio, Recife e Fortaleza, quem pode pagar 300 reais por uma cadeira? Ainda mais se enfrentar os cambistas de sempre, que na capital federal, por exemplo, vendiam seus bilhetes a mil reais!

O operário que recebe o salário mínimo, o filho da lavadeira, o escriturário, o faxineiro e o biscateiro ficaram de fora, obrigados a assistir os espetáculos nos poucos telões armados em praças públicas ou nas frestas abertas nas vitrinas de lojas comerciais. Explica-se até porque a presidente Dilma levou monumental vaia do público  aglomerado no Estádios Mané Garrincha,de Brasília.Lá só estavam a classe média alta e, com alguma concessão, quantos conseguiram amealhar recursos retirados de suas despesas diárias. O povão, mesmo,  não conseguiu entrar nos elefantes brancos erigidos para fazer a festa das empreiteiras e de autoridades corruptas que aceitaram e até propuseram reajustar custos para obras orçadas em centenas de milhões de reais e concluídas por  mais de um  bilhão,como em Brasília.  Multiplique-se   esses efeitos pelas demais cidades onde esse certame elitista se realiza. Conclui-se, vale repetir,  pela exclusão do cidadão de segunda classe, aquele iludido pela fantasia de haver sido  elevado de categoria social. Aquele que mais torce pela seleção brasileira...

Só que não fica nisso a discriminação dos excluídos. Reparou o leitor que de alguns meses para cá o trabalhador também se vê proibido de freqüentar os supermercados que povoavam seus sonhos? A cada passagem pelas galerias de produtos variados, comprova-se a elevação de preços em progressão geométrica, apesar dos reajustes salariais nem subirem em progressão aritmética. O reflexo pode ir para a conta bancária de alguns, capazes de suportar as elevações, mas com toda certeza vai para a mesa de muitos, obrigados a restringir refeições. A alta do custo de vida tornou-se rotina nesse falso paraíso que o financiamento de fogões e geladeiras pouco afetará a maioria. Se não há dinheiro para o arroz, o feijão e a carne, por que haverá para a aquisição de fornos de micro-ondas? Pesquisa daquelas que o governo esconde revelariam com toda certeza haver  o povão voltado  às feiras livres, em especial depois do meio-dia, quando certos produtos passam a ser vendidos abaixo das tabelas.

Só isso?  Nem pensar. Outro setor que o assalariado  abandonou, ou do qual  foi abandonado, ficando do lado de fora, são  as farmácias.  Poucas vezes se viu tamanho abuso quanto no aumento dos  remédios. A farsa do controle de seus preços não  engana mais uma simples criança. O poder publico deixou de fiscalizar a utilização das diabólicas maquininhas que todos os dias corrigem e  enriquecem os laboratórios e destroem a saúde de todos nós,   pela impossibilidade de arcarmos  com despesas imprescindíveis mas impossíveis de ser enfrentadas. As farmácias constituem mais um santuário onde o brasileiro se  encontra proibido de entrar, caso não  pertença à elite privilegiada que o governo supõe ampla.

Mas tem mais. Por uma dessas voltas que o destino dá, a juventude veio para as ruas protestando contra o aumento nas passagens dos transportes coletivos.Fala-se do exagero de manifestações contra o reajuste de 20 centavos nas tarifas. É a simbologia que explodiu. Poderia ter sido diante da ganância da Fifa em lucrar com o futebol. Ou na elevação do  quilo  do tomate. Quem sabe na impossibilidade de um pai  comprar um antibiótico para o filho.  O raio caiu nas tarifas dos ônibus. Tanto faz, mas a verdade é que esgotou-se o  modelo da exploração das massas. Pouco importa se a reação acontece por obra e graça de uma administração dita do trabalhador. É falsa a afirmação, como falsos são  os paliativos e os engodos.  O governo do PT, com Dilma ou com o Lula, revela-se um instrumento submetido aos mesmos de sempre, aqueles que um dia, ou agora mesmo, terão que prestar contas.

O Poder ausente

O Estado de S.Paulo

Ao rejeitar as novas regras de distribuição do Fundo de Participação dos Estados (FPE) aprovadas pelo Senado, os deputados federais deram mais uma mostra da pouca conta que têm pela instituição a que pertencem.

Trata-se de uma questão que os congressistas deveriam ter resolvido até o fim do ano de 1991, mas, por comodismo ou por incapacidade de decidir sobre questões polêmicas envolvendo interesses dos Estados, continua sem solução. Depois de vários de seus dirigentes e líderes partidários terem criticado duramente decisões do Poder Judiciário que, a seu ver, interferiam em questões privativas do Legislativo, neste caso é o próprio Congresso que, por não tomar a tempo decisões de sua exclusiva competência, poderá se ver obrigado a pedir socorro ao Supremo Tribunal Federal (STF), para evitar o caos financeiro nos Estados.

Em 2010, ao julgar uma Ação Direta de Inconstitucionalidade proposta por governos de Estados que se sentiam prejudicados pela omissão dos parlamentares, o Supremo Tribunal Federal determinou que novas regras de distribuição dos recursos do Fundo de Participação dos Estados fossem aprovadas pelo Congresso até 31 de dezembro de 2012, para vigorarem a partir de 2013. No entanto, mesmo dispondo de mais de um ano e meio para decidir, os parlamentares nada fizeram.

No início do ano, para evitar a suspensão dos repasses dos recursos do Fundo de Participação dos Estados - formado por 21,5% da arrecadação do Imposto sobre Produtos Industrializados e do Imposto de Renda -, que forçaria a paralisação dos serviços públicos em alguns Estados e imporia dificuldades financeiras a todos, o STF concedeu novo prazo ao Congresso, que se esgota no dia 23 de junho. Embora um grupo de senadores ainda tente aprovar às pressas um novo projeto, é pouco provável que, em seguida, também a Câmara o faça antes de se esgotar o prazo concedido pelo STF.

"O que lamento é o Legislativo não ter cumprido o seu papel e não ter tomado uma decisão", disse o presidente da Câmara, deputado Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN), após concluída a votação, a toque de caixa. Com 218 votos a favor e 115 contra, o projeto não alcançou o número mínimo de votos (257) exigido para sua aprovação, por se tratar de projeto de lei complementar.

Lamentável foi o comportamento das lideranças das principais bancadas da base governista, que não conseguiram convencer seus liderados a aprovar as novas regras, como era intenção do governo. Formalmente, a inexistência de novos critérios para a distribuição do dinheiro do FPE impede o governo federal de repassar esses recursos aos Estados.

Isso pode gerar o caos administrativo e financeiro em diversos Estados. Neste ano, prevê-se que os recursos do FPE somarão R$ 62 bilhões. Pelas regras atuais, 85% desse dinheiro é repassado para os Estados do Norte, Nordeste e Centro-Oeste e 15% para os do Sul e do Sudeste. Estados com renda per capita menor têm direito a fatias maiores do Fundo. Em alguns deles, o repasse do dinheiro do FPE representa mais de 70% do orçamento estadual.

O projeto rejeitado pela Câmara previa um período de transição até 2015, durante o qual seriam mantidos os critérios atuais. Em 2016 e 2017, seria assegurado a todos os Estados o recebimento de pelo menos o valor transferido até 2015, corrigido pela inflação e por metade do crescimento do PIB. O excedente, se houvesse, seria distribuído de maneira diretamente proporcional à população e inversamente proporcional à renda per capita.

Sem acordo entre representantes dos Estados mais pobres e dos considerados mais ricos, o projeto acabou sendo rejeitado.

Para os Estados, esse é o pior do mundos: uma regra ruim asseguraria o repasse dos recursos e poderia ser revista no futuro; a inexistência de regras impede a distribuição do FPE, a não ser que, mais uma vez, o STF abra prazo para o Congresso aprovar a nova forma de partilha.

"A Casa fica o tempo todo falando de judicialização e se 'autojudicializa' ao deixar decisões como essa para o Supremo", resumiu o líder do PT, deputado José Guimarães (CE).

Decifrar as mensagens da rua

Editorial
O Globo

Estas manifestações já são dos mais importantes fatos políticos e sociais ocorridos desde o início da redemocratização, há 28 anos

A estimativa de que cerca de 240 mil pessoas estavam nas ruas, no início da noite de terça-feira, em 11 capitais, para protestar já é algo significativo. Mais do que isso, são as imagens e o sentido do que aconteceu anteontem neste país, que colocam a data de 17 de junho de 2013 no calendário dos grandes acontecimentos políticos e sociais dos últimos 28 anos, desde o início da redemocratização, em 1985, com a posse de José Sarney na Presidência.

As cenas de violência e vandalismo — ocorridas principalmente no Rio, na tentativa de invasão da Assembleia Legislativa, e na não menos criminosa depredação de bancos e estabelecimentos comerciais na área, além da pichação do Paço, patrimônio nacional — não conseguem reduzir o peso das mensagens que as ruas têm transmitido nestes últimos dias a governos, políticos e partidos da situação e oposição.

A partir da descontrolada ação da PM paulista, na quinta-feira da semana passada, o movimento pelo “passe livre” no transporte público, deflagrado com o último aumento de tarifas, recebeu maciças adesões em escala nacional e passou a ganhar outra dimensão.

Não que a chamada (i)mobilidade urbana já não criasse imensas dificuldades para as pessoas, principalmente as de renda mais baixa, a grande maioria. E não só em função do custo, mas pelo crescente sacrifício físico que milhões de pessoas passam diariamente nas capitais brasileiras para se locomover. É que o movimento, deflagrado e organizado por meio das redes sociais, tem a questão do transporte público apenas como uma chave que destampa e coloca nas ruas a insatisfação acumulada nos últimos anos com uma sucessão de distorções. É a tal sensação difusa de desconforto com “tudo isso que está aí”.

A mobilização política ressurge no Brasil de um movimento subterrâneo, surdo, invisível, mas bastante ativo, a partir da rede mundial de computadores. O fenômeno não é novo, acontece em escala planetária. Mas há peculiaridades regionais. Onde existe liberdade, redes sociais facilitam a organização de grupos na defesa de pautas específicas. Em ditaduras, ajudam a driblar censores, a repressão política.

No Brasil, país democrático, vivia-se um longo período de inércia política. A situação, confortável no poder, e a oposição, também passiva, incapaz de metabolizar a fermentação das insatisfações que há tempos trafegam nas redes. As ruas acabam de atropelar ambos — má notícia para a democracia representativa, ruim para a estabilidade institucional.

É míope a tentativa de capitalização político-eleitoral desta espécie de erupção vulcânica. A questão é tão mais ampla quanto profunda. Devem ser entendidos por suas excelências do Executivo e Legislativo gestos de manifestantes contra cartazes e bandeiras de partidos nas passeatas, mesmo os identificados com a extrema-esquerda. O representante da juventude do PT em Brasília foi escorraçado na tentativa de participar do comando da manifestação à frente do Congresso.

Toda esta mobilização conseguiu atravessar fronteiras geracionais, etárias e sociais. Pode ser que lá na origem de tudo tenham atuado grupos politizados, sem identificação com o estado de coisas na política brasileira. Não importa. Quando casais com filhos pequenos vão às ruas, ao lado de idosos, gente de toda idade, é porque apareceu algo novo no radar da sociedade. Maurício Matheus, a mulher, Thaís, com o filho João, de um ano e meio, foram entrevistados pelo GLOBO, em São Paulo. Preso ao macacão de João, o cartaz: “Não é por 0,20, é por direitos”. Explicou o pai: “É um grito de socorro, precisamos de união e força para vetar os abusos ao povo”. E existem diversas formas de abusos. No desprezo de políticos e governantes pela ética, por exemplo.

Se era urgente, diante do ronco das ruas tornou-se emergencial retomar a reforma da moralização do degradado quadro político-partidário. A Lei da Ficha Limpa foi vitória histórica, conquistada por grande mobilização, também pela internet, em torno de um projeto de origem popular. A vigilância continua necessária, agora para a sua aplicação correta.

É hora de voltar a atacar a pulverização partidária. Por erro técnico de encaminhamento — não pode ser por projeto de lei simples, mas emenda constitucional —, o Supremo rejeitou cláusula de barreira a legendas de rarefeito apoio entre os eleitores, mecanismo usado em democracias maduras. A fórmula elaborada é boa, basta resgatá-la das gavetas: para ter representação no Congresso, toda legenda necessita de, no mínimo, 5% dos votos nacionais e 2% em pelo menos nove estados.

Acabada a pulverização partidária, facilita-se a formação de alianças e reduz-se a margem para o uso de meios espúrios para a obtenção de maiorias. Um antídoto contra mensalões. Outra medida, também disponível nos escaninhos do Congresso — basta vontade política para resgatá-la —, é o fim da coligação em eleições proporcionais, pela qual o eleitor pode ser vítima de uma fraude, por ter o voto contabilizado para quem ele não conhece e em quem talvez não voltasse. A conjugação dessas duas reformas ajudará a restabelecer uma seriedade mínima no jogo partidário. Se vigorassem há algum tempo, o político não teria sido transformado no Judas predileto de manifestantes.

O ministro Gilberto Carvalho, da Secretaria-Geral da Presidência, setorista de “movimentos sociais”, confessou, na manhã de ontem, ainda não compreender o que acontece. Foi honesto. Seu mundo é o das organizações formais, em que há líderes visíveis, conversáveis e cooptáveis. A presidente Dilma Rousseff, ex-militante, presa política, não poderia ter outra reação: o governo “está ouvindo essas vozes pela mudança”. E entre as vozes, a presidente identificou o “repúdio à corrupção e ao uso indevido do dinheiro público”. Parece na pista certa a presidente.

Ao se investir contra a Copa das Confederações, ensaio para a Copa do Mundo, no ano que vem, com suas amplas e modernas “arenas”, critica-se a incapacidade de o governo federal colocar os bilhões que arrecada de um contribuinte cada vez mais sobrecarregado de impostos naquilo que atenda às necessidades diretas da população: educação, saúde, transporte urbano, segurança.

Em vez disso, o poder público não para de ampliar os gastos em custeio, sem privilegiar os investimentos. E, quando investe, escolhe, por exemplo, projetos faraônicos como o do trem-bala entre Rio e São Paulo, dinheiro que poderia vir a ser aplicado na malha de transporte sobre trilhos nas grandes regiões metropolitanas, para promover de fato a mobilidade urbana.

As mensagens são várias. A torcida é para que os políticos, no poder e fora dele, as decifrem de maneira correta. A estabilidade institucional, em alguma medida, dependerá disso.

'Brasileiros parecem ter encontrado sua voz', diz texto do Conselho Editorial do NYT

Folha de SPaulo

O jornal "The New York Times" dedicou seu editorial desta quinta-feira (20) aos protestos ocorridos no Brasil nesta semana e destacou os problemas que o país enfrenta como "gastos distorcidos e falhas em educação e outros serviços sociais". Apenas ontem, mais de 1 milhão de pessoas saíram às ruas em 25 capitais brasileiras.

"Não é de admirar que o reajuste do transporte público tenha causado indignação entre os pobres e a classe média, que estão sobrecarregados por um sistema tributário asfixiante", afirmou a publicação.

O jornal afirma ainda que "o Banco Mundial apresenta o Brasil como a sétima maior economia do mundo, mas coloca-o entre os 10% com pior igualdade de renda" e aponta o descontentamento com "casos de políticos implicados em esquemas de corrupção".

Muitas cidades decidiram reduzir tarifas do transporte público, mas o NYT aponta que a presidente Dilma Rousseff, que concorrerá à reeleição no próximo ano, terá que enfrentar novas demandas.


Eduardo Knapp/Folhapress
Grupo de manifestantes caminham na avenida 23 de Maio durante o ato em São Paulo


Grupo nacionalista queima bandeiras de militantes de partidos políticos

Manifestantes tentam invadir pista de acesso ao Planalto

Exame.com
Eduardo Bresciani e Ricardo Della Coletta, Estadão Conteúdo

Os policiais que fazem a segurança do local, no entanto, impediram o avanço dos manifestantes

REUTERS/Ueslei Marcelino 
Na segunda-feira, 17, manifestantes conseguiram invadir o Congresso Nacional

Brasília - Os manifestantes que ocupam a Esplanada dos Ministérios neste momento tentaram furar o bloqueio policial para descer pela pista de acesso ao Palácio do Planalto. Os policiais que fazem a segurança do local, no entanto, impediram o avanço dos manifestantes. A via está protegida pelo Batalhão de Polícia Montada e por veículos blindados.

Concentrados em frente ao Congresso Nacional, muitos manifestantes já invadiram o espelho d'água, que é o limite negociado com a polícia para o protesto. Existe amplo efetivo policial, no momento, garantindo a segurança dos prédios públicos na Esplanada.

Dilma convoca reunião de emergência nesta sexta. Nem catedral de Brasília é poupada de vandalismo

Folha de São Paulo

Depois de tentarem invadir o Itamaraty, manifestantes promovem um rastro de depredação na Esplanada dos Ministérios nesta quinta-feira (20). Nem mesmo a Catedral de Brasília, um dos principais cartões postais da capital federal reformada recentemente, foi poupada dos ataques.

Manifestantes jogaram pedras na Catedral trincando uma dos vitrais coloridos, picharam ministérios e placas, atearam fogo em diferentes pontos do gramado central e quebram vidros do Banco Central e do Itamaraty. Também enfrentaram a Polícia Militar com rojões. Os policiais reagiram com spray de pimenta, balas de borracha e bombas de gás.

Em Brasília cerca de 40 pessoas foram atendidas pelo SAMU (Serviço de Atendimento Móvel de Urgência) entre manifestantes e policiais. Onze pessoas foram levadas para diferentes hospitais. Três estão em estado grave.

A Secretaria de Saúde do DF, em coletiva de imprensa, informou que um homem morreu. Ele caiu de um viaduto próximo à rodoviária central de Brasília. O homem exalava álcool, mas ele não estava na manifestação, segundo o secretário-adjunto de Saúde do DF, Elias Fernando.

***** COMENTANDO A NOTÍCIA:
Quando a capital federal é praticamente sitiada, coma presidente recorrendo a policiamento ostensivo inclusive com soldados do Exército, o que resta concluir? Que a autoridade maior do país faliu.  Perdeu-se no vento que carregou para longe suas grosserias com auxiliares , assessores e ministros.  Quando sua instituição é tão aviltada, a ponto de ter uma Brasília depredada, onde sequer a Catedral de Brasília escapou à ação criminosa dos marginais do ”bem”, vê-se que as instituições do país estão, frágeis.  Podem os ministros e a própria Dilma tentara ignorar que o país vive uma instabilidade institucional grave. Mas olhando-se para a nenhuma ação adotada nestes últimos dias, em que a passividade tomou conta da autoridade, vemos que o Brasil opera em regime de UTI. Se nada for feito, e muito rapidamente, corre-se o perigo da falência múltipla. 

É neste ambiente que criam as condições propícias ao arbítrio, ao autoritarismo e à repressão.  País rico, presidente, é país de governantes competentes, sérios, sinceros, responsáveis, e onde mora a democracia que jamais compactuará com a anarquia que vai tomando conta do Brasil.  

Nada justifica um imbecil vandalizar o Teatro Municipal de São Paulo!

Ricardo Setti
Veja online

MANIFESTAÇÕES: O Theatro Municipal de São Paulo é uma preciosidade, uma joia arquitetônica que orgulha a cidade. Como entender que seja vandalizado? Em nome de quê? O que pensa um vândalo imbecil desses?

(Foto: Evelson de Freitas / Estadão)
A pichação num tesouro da cidade de São Paulo: 
o que vai pela cabeça de quem fez isso?

Trata-se de um incidente pequeno, insignificante, mesmo, diante de outros muito mais graves ocorridos durante as manifestações que há dias tomam conta do país — como os de hoje em Fortaleza, no entorno do estádio Castelão, palco da partida entre as seleções do Brasil e do México pela Copa das Confederações.
Mas a pichação em uma das venerandas colunas do Theatro Municipal de São Paulo (sim, o glorioso teatro mantém a grafia antiga no nome oficial) por algum imbecil que protestava contra o novo preço das passagens de ônibus na cidade carrega, em minha opinião, um grande simbolismo. Além de ser daquelas coisas que jamais conseguirei entender — por mais que, infelizmente, todos estejamos acostumados ao vandalismo nos bens públicos.

(Foto: Agência Estado)
A fachada principal do Theatro Municipal, com sua iluminação especial

O camarada responsável por isso, obviamente, não tem qualquer apreço, para não dizer amor, pela cidade. Não tem a menor ideia do que é importante e do que não é — na cidade, na convivência urbana, na vida. E certamente imagina que tudo é permitido para fazer valer sua opinião.

Não exagero, não. Não considero um ato como esse como “molecagem”, “coisa de jovens”, nada disso.

O desrespeito a uma joia arquitetônica que sobrevive, esplendorosa, no centro ainda deteriorado — apesar dos esforços de sucessivos governos para reverter este quadro — da maior cidade do país, fala por si mesmo.

O Theatro começou a ser construído há 120 anos, em 1903, diante do fato de que o principal palco de manifestações artísticas da cidade, o Teatro São José, havia sofrido um incêndio. É um projeto do grande arquiteto brasileiro Ramos de Azevedo, que deixou marca indelével em edifícios e monumentos que sobreviveram à brutal modernização de São Paulo, com colaboração dos confrades italianos Cláudio Rossi e Domiziano Rossi.

(Foto: Agência Estado)
O interior do Municipal, lotado: construção iniciada em 1903

Foi inaugurado só oito anos depois, em 1911, e a partir daí serviu de palco para espetáculos e acontecimentos transcendentais. Do maior tenor de todos os tempos, Enrico Caruso, a Tom Jobim, de Maria Callas a míticos bailarinos como Isadora Duncan e Nijinsky, de maestros mundialmente consagrados aos maiores nomes do jazz e às mais célebres companhias de teatro, o Municipal viu desfilar ante suas plateias o que de melhor a cultura produziu em mais de um século.

Seria também palco de um acontecimento cultural e político que chacoalhou o Brasil — a Semana de Arte Moderna de 1922, tendo à frente um dos maiores gênios da cultura brasileira desde Cabral, Mário de Andrade.

Seu valor, portanto, é arquitetônico, cultural, urbanístico, simbólico — um baluarte da bela São Paulo de tons europeus dos anos 20 que desapareceu engolida pelo crescimento vertiginoso e descontrolado.

É, ainda hoje, um motivo de orgulho para os paulistanos que pensam.

Mas alguém foi lá e achou genial pichar. Se gente como esse pichador chegar ao poder um dia, estaremos vivendo em uma Coreia do Norte.

Era só o que faltava: sindicatos também querem pegar carona no movimento das ruas.FORA PELEGADA!

Carlos Newton
Tribuna da Imprensa

Sob a alegação de que está “acostumado a ocupar ruas e espaços públicos, em seus protestos”, o movimento sindical anuncia que passará a se integrar aos grandes atos em São Paulo e outras cidades.

Nesta sexta (21), o Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo (filiado à Força Sindical) realiza manifestação com trabalhadores de várias metalúrgicas da capital, em solidariedade ao movimento “Passe Livre”. Será a partir das 8 horas, na Avenida Arno, 146, na Mooca.

A direção do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo e Região alega que foi “procurada por um jovem líder das manifestações”,  e então também decidiu “participar de atos no ABC, levando para as mobilizações palavras de ordem sindicaleiras, como fim do Fator Previdenciário e jornada de 40 horas”.

Miguel Torres, líder dos Metalúrgicos de São Paulo, argumenta que “os trabalhadores também reivindicam transporte de qualidade, redução da tarifa e melhoria da mobilidade na cidade”.

O próprio presidente da Confederação Nacional dos Metalúrgicos (CNM/CUT), Paulo Cayres, informa haver orientado as entidades filiadas a se integrar às mobilizações. Ele diz: “Acho que o povo está certo. Numa democracia tem de ser assim. Só não gosto da falta de liderança”.

É claro que isso não vai dar certo. Da mesma forma que aconteceu esta quinta-feira, com o repúdio dos manifestantes e os desentendimentos com militantes do PT e da CUT que se infiltraram nas manifestações, os líderes sindicais também serão repelidos, podem apostar.

E o Sindicato de Lula, em São Bernardo? Dizer que a direção da entidade foi “procurada por um jovem líder das manifestações” deve ser considerado a piada do ano.

Sobre protestar contra tudo isso que está aí

Percival Puggina

Os cinegrafistas cujas imagens iam ao ar pareciam empenhados em tornar ilegíveis os conteúdos dos cartazes carregados pelos manifestantes. Não os exibiam com clareza. Pretendiam apenas mostrar a massa e não o que a motivava. Mesmo assim, o que consegui ler evidenciava absoluta falta de objetivos. Opor-se a tudo é o mesmo que opor-se a nada. Ser contra o que está aí e não apontar o dedo para Lula, Dilma, Dirceu, Sarney, Renan é excesso de cortesia. Não responsabilizar nem com a ponta do mindinho o partido que nos governa a 12,5 anos com o voto de muitos dos que ali estavam é inútil dispêndio de energia.

Erguer cartazes contra a corrupção sem indicar um único corrupto ou corruptor chega a ser patético. Ser contra o absurdo dispêndio de recursos públicos nas obras da Copa (enquanto a oferta dos serviços públicos vai para o ralo da falta de dinheiro) é pegar o trem com sete anos de atraso. Manifestar descontentamento agora só vai aumentar o prejuízo porque certamente vai afetar a vinda de turistas.

Em política, mobilizações contra algo são bem menos produtivas do que manifestações contra alguém. Por exemplo: ser contra a corrupção é como ser contra o câncer. Todo mundo é. A mobilização deve ser contra a corrupção do governo tal ou qual.

'Revolução dos 20 centavos' mostra que 'fantasia acabou', diz 'Financial Times'

BBC Brasil

Para FT, modelo brasileiro chegou ao limite


Um editorial publicado nesta quinta-feira no diário britânico Financial Times diz que os maiores protestos de rua vividos no Brasil nos últimos 20 anos mostram que os brasileiros se deram conta de que o "glorioso novo país" propagado pelo governo seria uma "fantasia".

"A revolução dos 20 centavos mostra que a fantasia acabou" diz o jornal, citando que "espetaculares 10 anos de crescimento" tiraram "cerca de 30 milhões de pessoas da pobreza" com novas demandas que não foram atendidas.

A chamada nova classe média, diz o jornal, "pode consumir como nunca", mas "as mudanças sociais em outros setores não acompanharam as demandas desta nova classe, ainda precária".

O editorial cita que "não há problema" em cultivar a imagem global do Brasil com investimentos de US$ 12 bilhões em estádios de futebol, mas "não quando a vida é tão dura para a maioria".

"Eles pagam impostos iguais aos de primeiro mundo e recebem em troca serviços públicos de má qualidade de países em desenvolvimento".

"Ônibus lotados e tráfego pesado tornam as viagens diárias caras e um desperdício de tempo. A corrupção do governo prevalece."

Para o FT, os brasileiros tentam se posicionar "entre o Brasil 'velho' que teriam deixado para trás e o glorioso Brasil 'novo' que o governo diz ser o país em que vivem".

"Isso talvez esteja em sintonia com uma tendência que corre entre os investidores: a de que o modelo brasileiro chegou ao seu limite".

"Em toda América do Sul, cidadãos estão fartos de ouvir como as coisas são boas", diz o FT, acrescentando que os protestos no Brasil vão causar preocupações nos mercados financeiros a respeito dos mercados emergentes como um todo e podem indicar que a "salada política dos velhos dias e o dinheiro fácil do passado podem estar chegando ao fim".

Daily Telegraph
Em um artigo de opinião, intitulado "Apesar do boom das commodities, o Brasil está perto de entrar em ebulição", o jornal britânico Daily Telegraph diz que a frustração que desencadeou os protestos no país se explica pelo fato de as pessoas "terem perdido fé no processo político", a exemplo do que ocorreu em outros países da região.

O texto, assinado por Daniel Hannanfaz, faz uma retrospectiva dos acontecimentos políticos nos países da América do Sul, que, nas últimas três décadas saíram de ditaduras militares, passaram por governos neoliberais que "desperdiçaram suas chances e, em desespero, optaram pela esquerda populista".

"Hugo Chávez na Venezuela, Evo Morales na Bolívia, Rafael Correa no Equador, Cristina Kirchner na Argentina e Luiz Inácio Lula da Silva, padrinho carismático de Dilma Rousseff, no Brasil".

Segundo o texto, este modelo funcionou durante um tempo.

"As pessoas preferiam eleger os populistas simplesmente pelo fato de que não eram da velha oligarquia. Mas mais cedo ou mais tarde, como acontece com muitos governos socialistas, o dinheiro acaba".

"Esse momento chegou para o Brasil e os brasileiros sentem isso".