Adelson Elias Vasconcellos
Já expressei a estranheza com o fato de que, em todas as passeatas espalhadas pelo Brasil, poucos pobres é possível notar. A maioria, para não dizer a totalidade dos que estão participando das manifestações do “vem prá rua”, ordem de chamada da “Revolução dos Vinte Centavos”, é de classe média.
Ok. Eles querem mudar o Brasil. Eu, por sinal, queria que estas mudanças já estivessem acontecendo há muito tempo. Porém, como mudar é a grande questão que se estende à frente da classe política e, dado o aturdimento que sofrem com inesperado levante popular, nem eles tem a resposta.
Pensavam que, diante do recuo no valor das tarifas, a tendência seria de esfriamento do movimento. Deu-se o contrário, tamanha a quantidade de demandas que a população está reclamando.
Ora, numa democracia, o caminho da mudança se dá pelo voto. Pode parecer simples, e é. Quando os governantes e nossos ditos representantes não se dão conta daquilo que um povo quer, o jeito é mudar os políticos e os governantes. Uma democracia que não se renova, tende a apodrecer. Antes da chegada de Lula, já havia um grupo de oligarcas políticos degradados. Como o PT roçou o discurso em favor do país por um projeto absolutista de poder, para nele se manter, tratou de aliar-se a estes oligarcas. Logo o PT mudou sua essência por mudanças, para abraçar-se à estratégia de continuísmo.
E atenção: era justamente mandar para o inferno este continuísmo que se embalou na esteira da primeira eleição vencida por Lula em 2002.
Já na eleição de Dilma, o candidato da oposição, que nem simpático consegue ser, recebeu mais de 40 milhões de votos. E o PT já estava no poder há oito anos. Por conseguinte, se deduz facilmente que este mais de 40 milhões de votos rejeitavam Dilma e a ideia de continuísmo que ela e seu partido representavam.
Tão logo declarou-se a vitória de Dilma, disse, até como sugestão, que a oposição deveria reunir-se nos próximos 15, 30 dias, para estabelecer uma estratégia visando firmar sua posição, uma vez que a quantidade de votos recebidos, e o número de governos estaduais por ela conquistados, representavam um peso eleitoral significativo. Além disso, nos dois mandatos de Lula, sobravam deficiências que precisavam ser exploradas. Valores que estavam sendo destruídos, e que são caros para a maioria do nosso povo.
Pois bem. Mais adiante, foi o próprio ex-presidente Fernando Henrique quem aconselhou, num artigo exemplar aqui reproduzido, que as oposições precisavam se aproximar da classe média, afinar seu discurso e suas propostas aos anseios desta importante camada da população brasileira.
E o que a oposição fez? Gastou o tempo em se autodestruir. Como o governo de Dilma, logo se viu, chega a ser patético de tão ruim, e a oposição se perde em si mesma, logo a classe média se deu conta que estava ao desamparo. Não era beneficiária de bolsas e nem de privilégios. E não havia quem lhe desse ouvidos. Fica fácil perceber que o desencanto produziu o descontentamento e que agora se conflagra nas ruas.
Aí a gente entende a razão dos manifestantes rejeitarem e até repelem o oportunismo político de alguns partidos aproveitadores. Esta massa não se sente representada.
O petismo sempre se considerou o protetor das massas, mas estando há 10 anos no poder, nunca conseguiu governar PARA elas, o que é bem diferente de "governar COM elas". No fundo, e o PT sabe disto, pois foi a mesma estratégia empregada pelos militares, tratou de garantir um eleitorado cativo junto as camadas mais pobres da população. Para tanto, criou e continua criando bolsas qualquer coisa, que tenha por resultado calar, cooptar e comprar o silêncio desta camada pobre do povo. Canta em verso e prosa serem hoje cerca de 70 milhões de beneficiários. Isto tem um enorme peso num eleitorado de cerca de 130 milhões. Se adicionarmos a este grupo mais os intelectuais de esquerda, universitários radicalóides e extremistas, fora enormes nichos na imprensa, sindicatos, fundos de pensão, ong’s sustentadas com o capilé oficial, não é difícil imaginar que o PT será sempre um adversário poderoso em qualquer eleição. Esta foi a base sobre a qual se construiu a vitória de Dilma Rousseff.
E, mesmo com todo este apoio, o governo desta senhora não consegue sair do ridículo. Não se trata de insatisfação com inflação crescente como parte da imprensa tenta vender. É muito mais do que isso. Pagamos cinco meses por ano dos nossos ganhos em impostos, e o que temos em termos de serviços essenciais? Não há João Santana que consiga criar um paraíso artificial que esconda esta realidade.
Esta dita perda de popularidade, no fundo, já havia começado há muito tempo. E disto tratei quando chequei os números de dezembro de 2012 e março de 2013. Mostrei os diversos furos que apontavam uma aprovação muito diferente daquela que os institutos queriam indicar. TODOS os serviços submetidos a avaliação popular não iam além do regular. Como se poderia conceber que, se em todos os quesitos o governo era regular, a conceituação final pudesse apontar bom e ótimo?
Quando vejo as cenas de violência que se repetem a cada minuto nas ultimas três noites, fico a lembrar da crescente criminalidade jamais combatida pelo governo petista. Os indicadores da violência, e em números oficiais só fez crescer desde a chegada do PT ao poder. Sem dúvida, a quantidade de vândalos atacando e destruindo tudo que vê pela frente impressiona, muito embora a imprensa tente passar a ideia de que é apenas uma pequena minoria. Não é. Ela é muito maior do que narram os âncoras das redes de tevê.
É claro que o petismo está colhendo aquilo que ele sempre semeou nos governos alheios: baderna. E não esperem dele alguma ação ou medida que consiga frear a anarquia correndo solta. Creio que apenas a população, cansada de pedir paz e “sem violência” se sinta desiludida pelos rumos que as manifestações tomaram, e venham a esvaziar estes movimentos em busca da segurança de si mesma. Não que ela deixará de se sentir insatisfeita. Mas grande parte dos que estão indo às ruas, quer ação dos governantes, não anarquia em torno de si.
E os pobres, onde estão? Pois é, onde estão os pobres do país, ou será que eles não mais existem? Existem sim, e são milhões. Grande parte deles está satisfeita com o que tem, temem perder o que conseguiram sem nenhum esforço e talvez consigam até reeleger Dilma Rousseff. Qual a certeza que fica? Que estes milhões de coitados deixaram de ser cidadãos para se tornarem meros militantes do partido único.
Olhando este cenário, e ele é bem real, fica fácil perceber que o PT conseguiu o que mais queria: dividir a nação em vários segmentos conflitantes entre si, para nesta cisão, conseguir imperar absoluto. O que temo é que, se nada acontecer que altere o cenário naturalmente, ele acabe se conflagrando numa imensa revolução interna, do todos contra todos. E temos o dever de evitar que este mal aconteça, e a qualquer custo.
Quanto a imprensa, uma sugestão: a hora não é a de por mais fogo no circo. Que tal ouvir menos a voz de “especialistas”, todos radicais de esquerda, e ouvir mais a voz da razão, que é devolver o estado de ordem ao país? Quando se ultrapassa os limites da lei, só para agradar as massas, estamos flertando, perigosamente com a anarquia e o terror. E é precisamente isto que está acontecendo no país, apesar da imprensa tentar "mostrar" uma realidade que só ela vê e entende.
Agora retomo a pergunta lá do título: E onde estão os pobres neste dito “movimento popular”? Pois é, né, fica muito estranho um movimento que se diz popular não trazer um grande contingente de brasileiros pobres que são os mais prejudicados pela negligência do Estado na prestação dos serviços básicos. Creio que uma boa resposta seria o fato de que os pobres, em sua maioria, já sejam beneficiários do Bolsa Família e outras bolsas e cotas, e temem que seu envolvimento nas manifestações acabe por castigá-los com a perda do benefício. Isto já acontece até nas pesquisas “orientadas” de opinião: procuram aprovar a presidente, pela mesma razão e temor.
E isto vem de encontro ao que sempre venho afirmando: o bolsa família, até por não oferecer portas de saída e não exigir de seus beneficiários contrapartidas, jamais poderia ser chamado de programa social. A forma como é conduzido visa obter dois objetivos: um, a captura de votos em favor do PT. E dois, a perenização da pobreza, dependência eterna ao programa, garantindo os mesmos votos. Um programa só é social quando oferece portas de saídas, com melhor capacitação do indivíduo para que ele possa andar com as próprias pernas. Exige contrapartidas de seus participantes para evitar a acomodação, e busca reduzir ao mínimo o número de beneficiários. No caso do bolsa família, o que vemos é a insistência em criar caminhos para ampliar este número, nunca reduzi-los.
Eis aí uma boa explicação para ausência do povo pobre na multidão de insatisfeitos. Mas não pensem que ele não gostaria de engrossar as fileiras das passeatas. Se para a classe média saúde, educação e segurança já são uma carência inadmissível, imagine para aqueles que têm nos serviços públicos o único meio de terem educação, saúde e segurança, por mais precárias que sejam.
O que me entristece diante desta anarquia esparramada pelos quatro cantos do Brasil, é ver que todas as minhas mais terríveis previsões sobre a que ponto o petismo conduziria o país, se confirmaram. Nunca desejei tanto estar completamente enganado. Mas também nunca esta realidade pareceu tão previsível de 2003 para cá, e como agora ela se apresenta. Eis uma hora em que não sinto nenhum orgulho em ser brasileiro. Que Deus nos ilumine e abençoe.
