sexta-feira, junho 21, 2013

O lado oculto do transporte público

Carlos Eduardo Frickmann Young e Camilla Aguiar

A recente onda de protestos contra reajustes de tarifas de ônibus em diversas cidades brasileiras tem despertado um interessante debate sobre as causas desse fenômeno.

Diversas explicações têm sido apresentadas, desde aspectos mais conjunturais, como a insatisfação com o retorno da inflação, até questões bem mais complexas, incluindo novas formas de organização dos movimentos populares e vácuo político entre a classe política e as reais necessidades da população.

Sem excluir a importância desses argumentos, gostaríamos de chamar a atenção para um aspecto não menos relevante: a baixa qualidade dos serviços de transporte público nas metrópoles brasileiras, e os custos ocultos, que vão muito além do preço da passagem.

De fato, o preço da tarifa de ônibus e outras formas populares de transporte (trem, metrô) tem peso significativo no orçamento das famílias de baixa renda.

O estudo “Mobilidade urbana e pobreza no Rio de Janeiro”, de Valéria Pero e Vitor Mihessen, demonstra que a população a Região Metropolitana do Rio de Janeiro (RMRJ) tem gasto médio com transporte público na ordem de 4,0% do orçamento familiar e, quando se excluiu a população da capital, esse valor atinge 6,8% (como comparação, o gasto médio equivalente na periferia de São Paulo é 3,3% do orçamento).

Mas a perda econômica vai muito além da tarifa: a Região Metropolitana do Rio de Janeiro apresenta os piores indicadores de mobilidade no Brasil.

Usando dados do Censo Demográfico de 2010, resultados preliminares do estudo em andamento “Sinal fechado: custo econômico do tempo de deslocamento para o trabalho no Estado do Rio de Janeiro”, de nossa elaboração, estimam que na RMRJ gastam-se em média 100 minutos diários no deslocamento para o trabalho.

Se esse tempo desperdiçado fosse valorado conservadoramente como apenas 70% do rendimento médio por hora, as perdas alcançariam R$ 10,4 bilhões anuais, ou cerca de 3,8% do PIB da RMRJ (se contabilizado pelo valor integral da hora média de trabalho, os valores alcançariam R$ 14,8 bilhões, ou 5,4% da RMRJ).

Em termos municipais, o desperdício de horas trabalhadas é ainda pior: usando o redutor de 70% do valor médio da hora de trabalho, 11 municípios teriam perdas superiores a 5% do PIB: São Gonçalo (7,2% do PIB municipal), Belford Roxo (6,9%), Nilópolis (6,5%), Maricá (6,2%), Japeri (6,1%), São João de Meriti (6,0%), Nova Iguaçu (5,9%), Itaboraí (5,7%), Magé (5,6%), Niterói (5,6%) e Queimados (5,1%).

Se o custo da hora perdida for estimado pelo valor integral do rendimento médio, todos os municípios da RMRJ, com exceção de Itaguaí, fariam parte dessa lista. Em contraste, nos municípios fluminenses fora da RMRJ, onde a média diária de deslocamento é de 56 minutos, as perdas são bem menores, de 1,3% a 1,8% do PIB.

Deve-se ressaltar que só se considera a perda de tempo das pessoas ocupadas: estudantes, por exemplo, não são considerados na estatística.

Pior: quanto menor o nível de educação formal, maior o tempo gasto em deslocamento, criando um ciclo vicioso, pois esse trabalhador tem menos tempo para retornar aos estudos. Além disso, a perda está subestimada por não considerar outros aspectos relacionados ao desconforto e perda de qualidade de vida (contaminação do ar, doenças cardiorrespiratórias, riscos de acidentes).

Embora esses custos não sejam diretamente computados, eles acabam percebidos pela população que sofre cotidianamente desses problemas. Por isso, é bastante provável que a revolta popular seja também contra a péssima qualidade do transporte público e, infelizmente no Rio de Janeiro, há razões de sobra para queixas.

 (*) Carlos Eduardo Frickmann Young e Camilla Aguiar são pesquisadores do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro.