quarta-feira, março 20, 2013

A opção petista pela mediocridade

Adelson Elias Vasconcellos

Imagine que você seja dono de um time de futebol, de porte médio. Tem bom elenco, alguns jogadores com boa técnica e uma torcida entusiasmada. 

E que por conta destas coisas do destino, seu time seja convidado a participar de dois torneios de futebol, um na Europa, outra no nordeste, por exemplo. Na Europa, seu único jogo, será contra o poderoso Barcelona. No Nordeste, será contra o Cacimbinha. 

Reflita e diga: para qual destes dois times você prefere perder, Barcelona, de Messi, Chavi e Iniesta, ou o Cacimbinha, do Zé Caroço, Minguau e Picolé?

Pois é, perder para o Barcelona seria normal, aceitável, e sua torcida jamais iria vaiar o time na volta. Porém, para o Cacimbinha, e imagina o pior, de goleada, no dia seguinte cai o técnico, o diretor de futebol, o massagista, etc. 

A política externa brasileira sob o comando do PT é mais ou menos o quadro acima: prefere enfrentar o Barcelona de igual para igual, para apanhar e levar goleada dos Cacimbinhas da vida. Alguma chance de aprender algo de útil? É claro que não, países subdesenvolvidos só nos ensinarão a ser ...subdesenvolvidos. 

Há alguns artigos no arquivo do blog em que mostramos o quanto o Brasil é mal visto no continente sul-americano. Isto não é uma conclusão de uma tese da chutometria nacional. É fato histórico. Parte das causas foram provocadas pelo próprio Brasil, mas a grande parte se origina da inveja que os países latinos sempre nutriram pelo Brasil.  Temos a ideia  que os argentinos formam um povo arrogante por excelência, colocam-se acima do homem comum. Porém, os brasileiros, em passado remoto e nem tanto,  sempre deram as costas para a América do Sul, buscando na Europa copiar modelos de desenvolvimento. Nosso “humanismo” provém de lá, não daqui. E há alguns outros países “irmãos” ou “vizinhos” que nos miram como “imperialistas”. 

Não digo que devamos menosprezar e ignorar os latinos. Nada disso. Podemos manter com eles uma convivência pacífica sem, contudo, nos “misturarmos”. Podemos ajudá-los, por certo, estender-lhes a mão em momentos difíceis, mas sem que isto represente abrir mão da nossa identidade única no continente, sem com eles formarmos alianças políticas, por termos realidade completamente distinta,  e mantendo distância dos rolos que eles próprios constroem para si.

O Brasil, por suas características culturais e histórias, deve aliar-se com quem possa aprender a se desenvolver, formar alianças com quem defende seus mesmos ideais de democracia e regime de liberdades. E, principalmente, formar alianças econômicas com quem possa trazer benefícios para o seu processo interno de desenvolvimento. Este negócio de estreitar vínculos com as ditaduras e protoditaduras do continente é um retrocesso estúpido. E não apenas com regimes ditatoriais da América, mas, de resto, o Brasil do PT tem norteado sua política externa em se aliar, politicamente, com o existe de mais retrógrado no planeta. 

Escolher  parceiros ou aliados no cenário político que só representam o que de pior, dá bem a dimensão da mentalidade pequena que tomou conta do Itamaraty. Para deixar de ser vira-lata não precisamos nos aliar aqueles que já são, nem tampouco imprimir uma política preconceituosa com quem é desenvolvido.  Pelo contrário, podemos conviver com todos de maneira amistosa, mas procurando , como nação livre, forjar parceiras construtivas, seja no plano político, econômico ou cultural. Nosso olhar tem que mirar um horizonte acima do que somos, e não voltar no tempo para copiar modelos ruins e ultrapassados. 

Assim, podemos manter relações ótimas com países como Bolívia, Venezuela e Argentina, mas jamais abrir mão da nossa história para apoiar regimes totalitários, e até, como sendo o caso, creditando-lhes recursos para serem usados como arma política, ou como tem sido praxe de parte da Argentina, para rasgar contratos e acordos comerciais voltados contra os interesses brasileiros.

Se é para copiar modelos, que nos miremos naqueles que tem algo de positivo para nos ensinar, e se for para enriquecer nossa democracia e robustecer nosso desenvolvimento, especialmente, o econômico, que as alianças se formem com países que tenham algo melhor para nos oferecer. 

Lançar um olhar universal sobre todos os países, independente  de seu estágio de desenvolvimento ou do seu regime político, não nos autoriza a escolher a escória como  modelo, tampouco aliar-se a ela para sermos humilhados como nação livre e independente,  como tem sido costumeiro enquanto o PT está no poder. 

Este grau de respeito deve ser conquistado impondo-nos diante de TODA a comunidade internacional, e não apenas levando a cabo o preconceito bucéfalo de desafiar os grandes e se ajoelhar diante dos pequenos. E, como temos afirmado seguidamente, o Brasil precisa crescer internamente como nação independente, a partir da defesas sempre e, em primeiríssimo lugar, de seus próprios interesses,e não ficar escolhendo como parceiros da primeira hora, o que existe de mais atrasado. Portanto, diante do mundo à nossa frente, nossos governantes devem priorizar sempre o BRASIL. Infelizmente, o princípio que tem balizado nossa política externa é de abrir mão do que é nosso em favor da escória. 

Por tais razões, preferível ser goleado pelos Barcelonas do planeta, porque tais derrotas nos ensinarão a ser melhores no futuro, dado o modelo mais evoluído, do que sermos humilhados, tão seguidamente,  pelos Cacimbinhas que nos ensinarão, apenas, a sermos medíocres.   Neste caso, a ideologia do atraso é o caminho mais curto para o fracasso. E o potencial brasileiro não guarda nenhum vínculo nem tampouco foi construído com tal propósito.

Promessas que desceram junto com a lama
Faz dois anos que a região serrana viu a morte de quase duas mil pessoas em decorrência das chuvas. Na época, o governo federal – diga-se Dilma Rousseff - prometeu R$ 500 milhões em verbas para prevenção,  milhares de novas moradias fora das áreas de risco. Nem metade foi liberada, e do que saiu dos cofres públicos acabaram em cofres particulares dos velhacos políticos que praticam uma extorsão criminosa contra o país. 

Agora, ao invés de prestar contas das providências tomadas e justificar o que se deixou de fazer, diante da nova desgraça Dilma, em Roma, teve a coragem de culpar as vítimas. Além de uma fala ridícula, estúpida e vigarista,  a presidente deu mais uma demonstração de quanto seu governinho é ruim de serviço. Já a propaganda...

Impossível não reconhecer que o povo brasileiro continua largado à própria sorte (ou azar, tanto faz). 

Hospedada desde domingo (17) no cinco estrelas The Westin Excelsior em Roma, para ver o Papa, Dilma e comitiva poderiam ter optado pela orientação de Francisco e economizado na ostentação dos cofres públicos, hospedando-se na magnífica embaixada do Brasil em Roma, o palácio Doria Pamphilj, do século XV. A diária na suíte mais simples, no Westin Excelsior, “hotel das celebridades”, custa cerca de R$ 6 mil.
Da embaixada na Piazza Navona ao Vaticano são 10 minutos de carro. Do hotel são 15, sem parar nas inúmeras lojas e restaurantes chiques.

A agenda também não justifica o luxo: Dilma só se encontrará com o Papa por cortesia de Sua Santidade. Assim mesmo por alguns minutos. A presidente até que poderia aprender (ao invés de querer ensinar) com o Papa Francisco que a prioridade é dar  atenção aos pobres, e que se deve descartar  instrumentalização da pobreza para fins políticos.

Até quando o descaso e a irresponsabilidade do poder público continuará matando no Brasil?

E nem pode dar certo! 


Pretendia hoje comentar as mais novas e incríveis lambanças do ENEM. Porém, como a cada dia tem surgido novas e impressionantes notícias de total desprezo pela língua-mãe, vamos esperar um pouco mais, quem sabe além de receita de miojo, hino do Palmeiras, sem contar a penca de redações com erros absurdos de ortografia e concordância, não apareçam novas redações ainda mais escandalosas, mas todas merecendo por parte do MEC notas máximas . Pobre Machado de Assis: jamais imaginou, em vida, que o idioma em que escreveu com maestria fosse se transformar em uma pocilga e, justamente, por quem deveria mais ter respeito por ele! Tristes tempos!!! Pode nem ser a única má consequência – e, de certo não é -, destas alianças com medíocres às quais o petismo tanto que se dedica em firmar. Mas de tanta mediocridade próxima e aliada, até o nosso idioma está sendo ridicularizado! 

O que enoja ainda mais é que, diante da comprovação do absurdo cometido pelos tais revisores, o MEC vem a público para, ao invés de reconhecer seu erro e se desculpar pela barbeiragem cometida, tenta justificar o injustificável.  Convenhamos,  que haja de parte dos alunos desconhecimento  em relação ao próprio idioma, vá lá, um dia todos acabam aprendendo a escrever certo. Incompreensível é a ignorância partir justamente de quem tem a obrigação de zelar pelo uso correto  dos postulados mais elementares da língua portuguesa.  É a tal geração nem-nem do MEC: NEM SABEM “E” NEM DEIXAM SABER.

Inspiração ideológica


Editorial
O Globo

Na última década, a política externa brasileira se inclinou para o engajamento político, perdendo em pragmatismo e visão de longo prazo. O governo brasileiro fez a discutível opção pela afinidade ideológica. Daí surgiu a diplomacia companheira, eivada de saudosismo em relação ao mundo da Guerra Fria e do terceiro-mundismo, na companhia da Venezuela chavista, do Equador de Rafael Correa e da Bolívia de Evo Morales, seguidores do caudilho. Nos governos Lula, houve mesmo um arriscado flerte com o Irã nuclear e com a Líbia de Kadafi, numa pueril tentativa de afrontar os EUA.

Um dos grandes problemas da estratégia é brincar de gato e rato com a ainda maior potência e, principalmente, maior mercado consumidor do mundo. Pode-se argumentar que a China vem substituindo os EUA como grande parceiro comercial do Brasil e de grande parte dos países. Mas, em diplomacia e comércio exterior, em que um não vive sem o outro, é muito mais interessante a inclusão — ampliar áreas de interesse e mercados — que a exclusão. Em várias ocasiões — nacionalização de instalações da Petrobras na Bolívia, a difícil posição do governo brasileiro na crise de Honduras, por exemplo —, o apelo ideológico ficou à frente dos interesses nacionais.

O Brasil se opôs à ampliação do Nafta, tratado comercial entre EUA, Canadá e México, para abarcar toda a América Latina na Aliança de Livre Comércio das Américas (Alca), por considerações enviesadas. Preferiu apostar na Rodada de Doha, de abertura do comércio mundial, que se revelou infrutífera. O fracasso de Doha acelerou uma tendência que já se registrava para a assinatura de acordos comerciais bilaterais entre os países. O país não aderiu à tendência, embarcando numa linha de isolamento. Ao mesmo tempo, o Mercosul começou a fazer água, muito pelos problemas econômicos do principal do Brasil, a Argentina, cujo governo kirchnerista está intoxicado pelo chavismo. E os dois países expulsaram o Paraguai do bloco para permitir a inclusão da Venezuela de Chávez. Que sentido tem abrigar num bloco comercial uma nação inimiga do maior mercado consumidor do mundo, os EUA? A sensação de que o Brasil patina aumenta quando se vê que países em rápido desenvolvimento, como Chile, Peru, Colômbia e México, juntam forças na Aliança do Pacífico para estimular exportações. E quando os EUA, com aval do presidente Obama, e a União Europeia lançam as bases de um formidável acordo comercial. Enquanto isso, um tratado idêntico UE/Mercosul não sai do papel.

No início, o governo Dilma deu mostras de que corrigiria rumos, até se submeter ao bolivarianismo chavista. Houve agora um alento em reunião para discutir a reforma da Comissão Interamericana de Direitos Humanos da OEA. O Brasil apoiava os bolivarianos, interessados em silenciar as denúncias da CIDH sobre atentados contra a liberdade de expressão nesses países. Mas, afinal, o governo brasileiro agiu com acerto e se colocou ao lado dos que defendem o trabalho da comissão. Ainda é cedo, porém, para apostar na volta da diplomacia aos trilhos.

Em marcha batida para o abismo


Luiz Felipe Lampreia 
O Estado de SPaulo

A Argentina, segundo o comentário venenoso de um diplomata americano que conheço, é um ex-país desenvolvido. A despeito de sua acidez, a frase revela uma certa verdade: nosso vizinho do sul já foi um país rico. Hoje, porém, está sem crédito internacional por não pagar suas dívidas, praticamente sem investimentos estrangeiros por falta de segurança jurídica. Seu crescimento econômico está alavancado em subsídios ao consumo sob forma de tarifas artificialmente baratas de gás, eletricidade e transportes. Em outras palavras, o modelo não é sustentável. Para completar o quadro de arrepios às regras internacionais existe uma proteção ilegal à sua indústria, como acaba de ser evidenciado pela ação que vários dos países mais importantes do comércio mundial movem contra a Argentina na OMC. Essa proteção é danosa ao Brasil, que por causa dela perdeu muitos bilhões de dólares em exportações no ano passado. Este quadro econômico aponta implacavelmente para o retrocesso do país.

Escrevi faz algum tempo o seguinte comentário: "Há mais de vinte anos, um importante ministro argentino ensinou a um surpreso embaixador brasileiro recém-chegado a Buenos Aires que a 'Argentina é pródiga em três coisas: carne, trigo e gestos tresloucados'. A decisão de expropriar a participação majoritária da Repsol na YPF foi um desses gestos. Somada à inadimplência de dez anos da dívida externa, que representa uma grave violação da ordem jurídica internacional, e ao crescente e arbitrário protecionismo que viola todas as regras do Mercosul e da OMC, a decisão coloca a Argentina à margem da legalidade global. Como me escreveu um grande amigo argentino recentemente, o governo argentino 'busca la maximización del presente. Eso fue el peronismo de los 50, el menemismo - aunque con algunas reformas para nada despreciables - y el kirchnerismo'. E na mesma correspondência acrescentou: 'Existe también entre nosotros un desequilibrio político muy pernicioso, que agudiza el mal anterior. Entre Cristina y su segundo, Binner, hubo 37 puntos de diferencia. Lo mismo sucedió con Perón en el 51. Hoy el gobierno controla 23 distritos sobre 24, además de las dos cámaras. En Brasil, la oposición gobierna los grandes estados y eso genera una dinámica virtuosa en muchas dimensiones'.

Gestos dessa gravidade têm sempre consequências sérias, mesmo que no imediato pareçam benéficos e sejam saudados pelo povo com orgulho e alegria. A longo prazo, essas ações terminam por pôr o país à margem das principais correntes de crédito, investimentos e comércio, ou seja, de todas as atividades que geram prosperidade e oportunidades econômicas para uma nação. O mau governo orienta-se pelo valor imediato de popularidade que obtém com seus atos impulsivos e não pensa nas consequências de seus atos no futuro". A cada dia que passa fico mais convencido de que a Argentina está em marcha batida para o abismo.

Se não bastasse, a sra. Cristina Fernandez de Kirchner está aprofundando sua ofensiva contra instituições básicas como a imprensa livre e o Poder Judiciário, que são ambas os últimos bastiões da resistência democrática. A deputada Elisa Carrió, que já foi candidata à Presidência, comentou, com agudeza, que "a única coisa que Cristina deseja é sua impunidade (...) se o povo não se defender rápido nos resta pouco tempo de uma Argentina republicana". Citações assim poderiam ser apresentadas fartamente e se contrapõem a outra, desta vez de autoria da procuradora-geral da República, Alejandra Gils Carbó, que afirmou: "A Justiça atual é ilegítima, corporativa, obscurantista e lobista". Um procurador de Benito Mussolini na década de 30 subscreveria a esse fraseado com especial prazer. As manobras contra a grande imprensa são também bem conhecidas. Canais de rádio e televisão têm sido comprados por empresários cuja reputação duvidosa é ressaltada em Buenos Aires e que coincidentemente são ligados à presidente. Como disse um importante jornalista do La Nación, José Crettaz, "a Casa Rosada (sede da Presidência) aprovou uma compra de meios (de comunicação) que violou a lei e depois permitiu que um empresário que cometeu essa irregularidade saísse incólume". A guerra da sra. Kirchner contra os Grupos Clarín e La Nación prossegue e visa a calar ou pelo menos cercear as duas maiores colunas mestras da liberdade de imprensa argentina.

Como se vê, a Argentina envereda velozmente para um modelo de partido e poder únicos. O populismo desenfreado já garantiu à presidente uma votação maciça nas últimas eleições. O peronismo detém, pela mesma razão, maioria esmagadora no Congresso e em quase todos os governos provinciais. Para completar o modelo de Estado autoritário e onipotente só falta controlar o Judiciário e a imprensa livre. Quando isso ocorrer, o governo poderá tudo e as instituições democráticas e republicanas estarão subjugadas. A perspectiva de alternância no poder, que já é tênue, estará acabada. Esse filme já foi visto em diversas épocas e muitos países do mundo. E acaba mal.

E o Brasil nisso? Perdemos muito espaço em nosso principal mercado de produtos manufaturados por efeito do protecionismo arbitrário argentino, como já mencionado. Nossas empresas investidoras na Argentina padecem muitas vezes sob a interferência excessiva dos governantes e são levadas à decisão de vender e sair do país, como é o caso da Petrobrás, que desempenhava papel importante na indústria de combustíveis. Ninguém pode, entretanto, derivar daí uma postura confrontacionista de nossa parte ou subestimar a relevância de nossas relações com nosso maior vizinho. Houve muitas vezes tempos melhores, mas com a Argentina temos um casamento indissolúvel, seja como for. É por isso mesmo que devemos lamentar a destruição sistemática dos fundamentos da democracia argentina e esperar que dias melhores permitam restaurar o vigor de nossa relação econômica. É por isso também que considero que não devemos abundar em gestos e palavras de solidariedade. Os ditadores adoram afagos, mas os democratas devem abster-se de fazê-los.

O Brasil da chibata


J. R. Guzzo 
Revista VEJA

Roga-se às altas autoridades brasileiras, mais uma vez, a gentileza de responderem às perguntas apresentadas a seguir. É possível que o público leitor gostasse de fazê-las diretamente, mas não pode: cede-se a ele, a título de colaboração, o espaço desta coluna.

Poderia a presidente Dilma Rousseff ter a bondade de explicar, com um mínimo de clareza, o que é “fazer o diabo”? Dilma disse há pouco que nas campanhas eleitorais é permitido fazer exatamente isso, “o diabo”, mas não deu nenhuma informação sobre os atos concretos que os candidatos, a começar por ela própria, estão autorizados a cometer. O que vale? O que não vale? Coisa do bem não deve ser. Nunca se ouviu dizer, por exemplo, que Madre Teresa de Calcutá fizesse “o diabo” em favor de suas obras de caridade. Pelo entendimento comum, fazer o diabo significa estar disposto a qualquer coisa, por pior que seja, para conseguir algo. É isso?

O presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Joaquim Barbosa, acha que tem, sim ou não, o direito de chamar um cidadão de “palhaço” e mandá-lo “chafurdar na lama”? Coragem, ministro: sim ou não? Dizer essas coisas, em público, não é crime de injúria? Ou presidentes do STF estão desobrigados de obedecer ao artigo 140 do Código Penal Brasileiro?

Colocar um fotógrafo do Instituto Lula, entidade privada, a bordo do avião presidencial que levou Dilma Rousseff (e o próprio Lula) aos funerais do coronel Hugo Chávez na Venezuela, e apresentar o rapaz como “intérprete” da comitiva, não é um delito de falsificação? Intérprete ele não é; como acaba de informar em VEJA o redator-chefe Lauro Jardim, sua ocupação é tirar fotos para a coleção pessoal do ex-presidente. Há outras dúvidas. Será que Dilma não entende nada de espanhol? Não há nenhum intérprete de verdade entre mais de 1 milhão de funcionários do governo federal? Privatizar assentos a bordo do Aerodilma, para o Instituto Lula economizar um dinheirinho, já é um ato permitido pela doutrina de “fazer o diabo”?

O que o dr. Gilberto Carvalho, que tem no seu cartão de visita o título de “ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência da República”, quer dizer quando afirma, como fez há pouco, que “o bicho vai pegar”? Que bicho é esse? Pertence ao Patrimônio da União? Ele vai pegar quem? Já foi solto, por exemplo, contra a blogueira cubana Yoani Sánchez, que bandos de delinquentes a serviço do governo atacaram em sua recente passagem pelo Brasil? Tem cabimento o ministro-chefe (a propósito: haveria algum ministro que não é chefe?) usar em público linguagem de bandido? Por que será que tanta história esquisita (a de Yoani é apenas a última de uma longa série) começa, passa ou termina na sala do dr. Gilberto?

Quais os nomes da “meia dúzia de famílias poderosas” que, segundo o presidente do PT, deputado Rui Falcão, decidem “o que o nosso povo pode ler, ouvir e assistir”? Daria para o deputado, por cortesia, informar de onde ele tirou este número, “meia dúzia”, num país que tem no momento quase 10 000 estações de rádio, mais de 500 emissoras de televisão, cerca de 5 500 revistas e 2 700 jornais? Estaria ele reprovando o fato de que há veículos com audiência e circulação muito maiores que os demais, porque o público, por sua livre e espontânea vontade, prefere ver, ouvir e ler mais uns do que outros? Que culpa têm os veículos que fazem mais sucesso, ou que ilegalidade cometem por serem os preferidos ela maioria do público?

Por que o governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral, não guardou um tostão dos bilhões de reais que seu estado recebeu em royalties de petróleo nos últimos anos? Desde 2007, quando assumiu o governo, até 2012, mais de 130 bilhões de reais foram arrecadados das empresas exploradoras de petróleo, e a parte do leão dessa montanha de dinheiro ficou com o Rio e seus municípios. Agora, com as perdas trazidas pela mudança na lei dos royalties, o governador se vinga atirando nos cidadãos do seu próprio estado: suspendeu pagamentos a fornecedores, ameaça criar mais impostos, fala em corte de serviços. Se não guardou nada do que recebeu, o que fez de útil com o dinheiro gasto?

O que há de comum entre essa gente toda é a convicção de que mandam — e quem manda não precisa explicar nada a quem está embaixo. Falam em banda larga e pré-sal, mas continuam agindo como se vivessem no Brasil dos engenhos, dos capitães do mato e da chibata. São os senhores do “Brasil para todos”

A professora de Deus


Carlos Brickmann
Brickmann & Associados Comunicação

Um dos clássicos da megalomania da imprensa, dizem os veteranos, é um editorial, num dos maiores jornais do país, com um trecho mais ou menos assim: "Caso Sua Santidade tivesse ouvido nossos conselhos (...)". Pois mantemos nossa rota: mais uma vez, no melhor estilo ufanista, o Mundo se curva ante o Brasil.

Pois a presidente Dilma Rousseff foi ao Vaticano dar conselhos ao papa. Besteira essa história de estudar Teologia, ler e estudar o Velho e o Novo testamentos, aprender várias línguas para melhor captar o real sentido dos textos sagrados no idioma em que foram escritos; inútil essa história de conviver com cardeais e bispos, pessoas cultas e escolhidas para dirigir uma instituição de mais de dois mil anos, e que estudam e praticam não apenas religião, mas também política. Bobagem essa história de comandar a maior rede hospitalar do mundo, a maior rede escolar do mundo. Dilma dixit: Dilma diz, Dilma sabe, Dilma ensina.

Dilma aconselhou o papa a não apenas defender os pobres, mas também a compreender as pessoas e suas opções diferenciadas - seja lá isso o que for. A Igreja teve fases de brutal intolerância, cometeu crimes de monta (que, aliás, reconheceu, e pelos quais se desculpou), mas não é o caso, hoje em dia, quando dialoga com muçulmanos, judeus, católicos de ritos orientais, budistas e representantes de tantas religiões. Mas Dilma sabe: sem ter tido qualquer encontro com o papa, sem ter lido suas obras, acha que ele não defenderá posições progressistas. 

Conta pra nós, Dilma: para um líder religioso, que será "posição progressista"?

O especialista
Mas a presidente não distribuiu suas recomendações ao papa sem nenhum embasamento. Em sua vasta comitiva (que, em vez de hospedar-se gratuitamente no Palácio Doria Pamphili, a magnífica sede da Embaixada brasileira, preferiu o Westin Excelsior, onde a diária mais em conta é de dois mil euros), está o ministro-chefe da Casa Civil, Gilberto Carvalho, que foi seminarista. 

Talvez seja o único do grupo a saber a diferença entre água benta e o Emérito Papa Bento.

Os mais iguais
Experimente o caro leitor ser condenado por "improbidade administrativa, corrupção passiva e exploração de prestígio". Vai direto para a cadeia, pra deixar de ser corrupto. Mas, como ensinou George Orwell no excelente A Revolução dos Bichos, todos são iguais, mas alguns são mais iguais do que os outros. O desembargador Júlio Cesar Cardoso de Brito, do Tribunal Regional Federal de Goiás, cujas relações com o bicheiro Carlinhos Cachoeira foram reveladas pela Operação Monte Carlo, foi acusado de improbidade administrativa, corrupção passiva e exploração de prestígio. Os onze desembargadores do TRF-3, por unanimidade, o consideraram culpado. E qual a terrível punição que sofreu?

Acertou: deixa de trabalhar, mas continua recebendo normalmente os vencimentos de R$ 26 mil mensais. 

Voltando à Bíblia
Esta coluna, hoje, fala muito em Bíblia - talvez porque a lei brasileira seja boazinha demais. O Brasil revogou mais um preceito bíblico, a punição divina à Humanidade pelo pecado original: "Ganharás o pão com o suor de seu rosto". 

Aqui, o figurão que cometer um crime ganha o pão e o caviar sem suor nenhum.

Pedágio sem retorno
Em qualquer estrada paulista há muitos postos de pedágio e a tarifa é alta. Há retorno: as estradas paulistas estão entre as melhores do país. Mas há concessionárias que devem explicações. Como justificar, por exemplo, as filas de caminhões que tentam chegar ao Porto de Santos? A Ecovias, que administra a Anchieta e Imigrantes, estradas que ligam São Paulo ao litoral, simplesmente assiste ao congestionamento, sem se mover para ampliar os acessos. O prejuízo dos produtores não lhe interessa? Neste ano, o congestionamento se deve, segundo as explicações, ao crescimento das safras de soja e milho. 

Traduzindo, para que as concessionárias não tenham de cumprir suas funções - e funções que custam caro a quem quer que use as estradas - aquilo que deveria ser bom passa a ser ruim.

Verbas naufragadas
Em 2011, uma tragédia na região serrana do Rio de Janeiro, especialmente em Petrópolis: quase mil mortes causadas por chuvas, deslizamentos e inundações. Jorraram promessas e verbas. Verbas? Bom, já houve prefeitos cassados por enfiar a mão no dinheiro destinado aos desabrigados. Promessas? Em Petrópolis, até hoje, dois anos depois, não foram construídas as casas prometidas pelos Governos estadual e federal. O número de mortos pelas chuvas deste ano ainda não é conhecido. A tragédia é: quem perdeu bens, parentes, amigos, animais de estimação nas chuvas de 2011 continua abandonado, mais frágil diante do temporal.

Palavra infeliz
Esta coluna começou com Dilma, termina com ela. Em Roma, disse que parte da culpa pela tragédia se deve às vítimas, que muitas vezes não querem sair dos lugares perigosos onde vivem. Claro: sair para onde, cara-pálida? Deixar as regiões de risco, os barracos inseguros - que pelo menos têm um teto - para ficar ao ar livre, ao sol e à chuva?

Senhora presidente: a culpa não é das vítimas.

carlos@brickmann.com.br 
www.brickmann.com.br

Que elites, que esquerda?


João Ubaldo Ribeiro
O Globo

Que imprensa golpista? Que editorial ou comentário pediu golpe? Comportamento golpista é o de quem se diz vítima de linchamento, quando foi condenado em processo legítimo e incontestável

A cada instante e cada vez mais, somos alvejados por milhares de informações de todos os tipos, muitas delas procurando, como consequência final, alterar nosso comportamento, seja para pormos fé nas lorotas pseudoestatísticas e conceituais que nos pregam os fabricantes de remédios, pastas de dentes e produtos de farmácia em geral, seja para acreditarmos que determinado partido político, ao pedir com fervor nossa adesão, realmente tem alguma identidade que não seja a que lhes emprestam seus tão frequentemente volúveis caciques. Aparentemente, nossos cérebros se defendem de ser entulhados com essa tralha e grande parte dela é esquecida.

Mas em algum lugar da mente ela permanece e afeta talvez até nossa maneira de ver o mundo. Se prestarmos atenção aos comerciais de tevê e fizermos um esforçozinho de abstração, veremos que temos plena ciência de que quase todos eles, ou mesmo todos, se apoiam em pelo menos uma mentira ou distorção. O xampu não produz cabelos como aqueles, a empresa não dá o atendimento ao cliente que apregoa, o plano de saúde falha na hora da necessidade, a velocidade da banda larga não chega nem à metade do que contrata, o sistema de saúde que descrevem como o nosso parece gozação com o pessoal que estrebucha em macas no hospital, o banco professa carinho e oferece gravações telefônicas diabólicas, o lançamento imobiliário mente sobre as vantagens do bairro e a segurança da construtora, a moça não é bonita como aparece, o sinal da operadora não é confiável, a prestação sem juros é enganação, a garantia do carro não vale nada para a concessionária. Tudo, praticamente, é mentira e sabemos disso. Mas, mistérios desta vida, agimos como se não soubéssemos, numa postura acrítica e já meio abestalhada.

Em relação à política, talvez nossa situação possa ser até descrita em termos mais drásticos. As afirmações mais estapafúrdias são divulgadas e ninguém se preocupa em examiná-las. Não me refiro a chutes que prostituem a estatística e fazem dela, como já se disse, a arte de mentir com precisão. Os números nos intimidam desde a escola primária e qualquer embusteiro se aproveita disso para declarar que 8.36% (quanto mais decimais, melhor) de alguma coisa são isso ou aquilo e ver esta assertiva ser recebida reverentemente, como se não fosse possível desconfiar de tudo, da coleta dos dados, às categorias empregadas e os cálculos feitos. Média, então, é uma festa e eu sempre penso em convidar o dr. Bill Gates para morar em Itaparica e me transformar em nativo do município de maior renda média do Brasil, cuíca do mundo.

Não, não me refiro a números, mas a alegações estranhas. Por exemplo, esse negócio de o governo ser de esquerda. Só se querem dizer que a maior parte do nosso cada vez mais populoso bando ministerial é constituído de canhotos. O presidente Lula, que não quis ser presidente emérito e prefere continuar sendo presidente perpétuo mesmo, já disse — e creio que com sinceridade — que não é, nem nunca foi, de esquerda e que não usa mais nem a palavra “burguesia”. E que é que o governo fez que caracterize uma posição de esquerda? Apoiar Chavez com beijos e abraços, ao tempo em que respalda os bilhões de dólares de negócios brasileiros na Venezuela? Manter boas relações com Cuba, o que não quer dizer nada em matéria de objetivo político? Ser da antiga turma que combatia o governo, no regime militar? E já perguntei aqui, mas pergunto de novo: o PMDB é de esquerda? Quem é esquerda, nesse balaio todo? Furtar, desviar, subornar, corromper são de esquerda? Zelar por valores éticos e morais é de direita?

É gritaria da direita reclamar (e pouca gente reclama) do descalabro inacreditável em que se tornaram as trombeteadas obras do rio São Francisco, hoje uma vasta extensão de ruínas e destroços, tudo abandonado ao deus-dará, em pior estado do que cidades bombardeadas na Segunda Guerra? Ou o que está acontecendo com a Petrobras, que, da segunda posição entre as petrolíferas, despencou para a oitava e pode despencar mais, acrescida a circunstância de que ninguém explica direito qual é mesmo a situação do hoje já não tão radioso pré-sal? E combater a miséria nunca foi de esquerda ou direita. Ter altos índices de popularidade tampouco.

Também se diz que as elites dominantes querem derrubar o governo. Que elites dominantes? A elite política, que se saiba, é a que exerce o poder político. O Poder Executivo é exercido pelo governo que está aí e que, presumivelmente, não atua contra si mesmo. O Poder Legislativo está sob o controle da base do governo. E o Judiciário, por mais que isso seja desagradável aos outros governantes, não pode associar-se à ação política no sentido estrito. Já as elites econômicas não parecem empenhadas em subverter uma situação em que os bancos têm lucros nunca vistos, conforme o próprio presidente perpétuo já frisou, e as empreiteiras estão muito felizes e, convocadas pela presidente adjunta, prometeram fazer novos investimentos. Qual é a elite conservadora que está descontente e faz oposição ao governo? É justamente o contrário.

Finalmente, temos a imprensa golpista. Que imprensa golpista? Que editorial ou comentário pediu golpe? Comportamento golpista é o de quem acusa o Judiciário de ser agente de armações politiqueiras, quem chega a esboçar desobediência a ordens judiciais, quem se diz vítima de linchamento, quando foi condenado em processo legítimo e incontestável. A imprensa sempre se manifesta contra o desrespeito à Constituição e a desmoralização das instituições democráticas e tem denunciado um rosário sem fim de ações lesivas ao interesse público. Golpista é quem busca silenciá-la ou controlá-la, não importa que explicações se fabriquem e que eufemismos inventem.

O social e o societário no petismo


Percival Puggina

Não sei se já contei isto. Acho que já contei, sim, mas conto de novo porque a situação perdura. Eu havia estacionado em um posto de gasolina e quando me dirigia para o inevitável cafezinho, um rapaz, maltrapilho e maltratado como diria o Chico, se aproximou de mim, declarando-se com fome, e me pediu um cachorro-quente. A frase – “Estou com fome” – não admite qualquer contestação. “Claro que sim, vem comigo”.

Suponhamos que eu parasse naquele posto diariamente e que, também diariamente, o rapaz estivesse ali, reiterando-me seu apelo. Ao cabo de um mês eu teria despendido uma boa quantia com ele sem elevá-lo um centímetro na escala social. Ao contrário, eu o teria degradado à condição de dependente. Agora, ampliemos a cena. No meu lugar, coloque o governo federal, substitua o rapaz com fome por 22 milhões de famílias e o lanche por uma ajuda de custo para completar, em cada núcleo familiar, por pessoa, uma receita mínima de R$ 70 (o governo chama isso de renda…).

O leitor pode estar pensando – “Será que o Percival Puggina prefere que as pessoas passem fome?”. Não, claro que não. Eu não sou contra o Bolsa- Família. O Lula é que era contra o Bolsa-Escola, no tempo do FHC. Escrevo motivado pela recentíssima divulgação pela ONU dos novos Índices de Desenvolvimento Humano. Eles situam o Brasil na 85ª posição do ranking mundial, com uma visível estagnação nos últimos anos. Como é possível? Com 22 milhões de famílias recebendo do governo um complemento de “renda” mensal?

Pois essa é a consequência do problema que muitos, entre os quais eu mesmo, já cansaram de advertir. O Bolsa-Família é um programa necessário, sim. FHC, aliás, já o havia instituído com o nome de Bolsa-Escola, sob severas críticas de Lula e do PT. É um programa que cria dependência em proporções que tornam desnecessário prová-la. Mas, isoladamente, nada faz que se possa denominar promoção social ou desenvolvimento humano. Em nada contribui para que as famílias em situação de miséria disponham, um dia, das condições necessárias para cuidar bem de si mesmas.

Esse “cuidar bem de si mesmos” é o que fazem as pessoas nos países situados no topo da tabela da ONU. Na maior parte desses casos, não é o Estado que cuida bem das pessoas, mas as pessoas que têm habilitações que lhes permitem uma renda suficiente para fazê-lo.

A pergunta que dirijo ao PT, ao seu parceiro PMDB, e aos demais membros dessa organização societária estabelecida no Brasil, é esta: – Quando é que vocês vão levar a sério o problema da Educação? Os indicadores sociais já mostram que estamos praticamente estagnados! Menos gente passa fome no Brasil e isso é muito bom. Mas cai nos ombros dos senhores, após uma década no poder, o peso dos anos perdidos e o desastre social que os números estão a apontar.

Reconheço que o PT descobriu o Brasil em 2003. Reconheço que, assim como Cabral cravou uma cruz nas areias de Porto Seguro, Lula plantou uma estrela vermelha nos jardins do Palácio da Alvorada. Reconheço, também, que o PT realizou isso após haver inventado a roda, a roldana, o avião e a suíte presidencial a bordo do avião.

Mas o fato é que nos setores fundamentais do bem estar social – Educação, Saúde e Segurança – as coisas vão de mal a pior. A síndrome da dependência em que se afundou parcela significativa da população brasileira tornou-se elemento fundamental da organização societária que (vou usar um neologismo que a esquerda adora) se empoderou no Brasil.

O mito da presidente workaholic


Marco Antonio Villa

Ao longo dos últimos dois anos, os propagandistas de Dilma Rousseff construíram vários figurinos, todos fracassados pela dura realidade dos fatos.

O último foi o da presidente workaholic. Trabalharia diuturnamente, seria superexigente, realizaria constantes reuniões com os ministros, analisaria detidamente os projetos e cobraria impiedosamente resultados.

Porém, os dados oficias da sua agenda, disponibilizados na internet, provam justamente o contrário.

Em agosto despachou com 17 ministros. Um terço deles, apenas uma vez (como Aldo Rebelo e Celso Amorim). Deu preferência a Paulo Sérgio Passos, Gleisi Hoffman e especialmente para Guido Mantega, recebido 9 vezes.

Se a a maioria deles não teve um minuto de atenção da presidente, o mesmo não se aplica a Rui Falcão, presidente do PT, e até ao presidente da UNE, Daniel Iliescu, que foram ouvidos a 9 e 22 de agosto, respectivamente.

Dilma pouco se deslocou de Brasília. Numa delas foi a São Paulo, no dia 6. Saiu às 11h30m direto para o escritório da Presidência da República na capital paulista, à época ainda sob a responsabilidade de Rosemary Noronha.

Dilma foi se encontrar com Lula. Passaram horas discutindo política. Às 18h40m, retornou a Brasília. Foi a única atividade do dia.

Em setembro recebeu 14 ministros. Os mais assíduos foram os que despacham no Palácio do Planalto (Miriam Belchior, Gleisi Hoffman e Ideli Salvatti; as duas últimas, quatro vezes, e a primeira, três) e Aldo Rebelo (Esportes), três vezes.

Uma sequência de 12 dias com pouquíssima atividade chama a atenção. No dia 5 recebeu um ministro (Edison Lobão) às 9h e não há mais qualquer registro. No dia seguinte trabalhou das 10h às 12h. E só. No feriado compareceu ao tradicional desfile. Na segunda-feira, dia 10, só registrou duas audiências, uma às 10h e outra às 15h.

Dois dias depois, foi uma espécie de “quarta maluca”. A presidente teve apenas dois compromissos e nenhum administrativo: às 15h, recebeu o presidente do PCdoB, “o partido do socialismo”, Renato Rabelo, e uma hora depois, mostrando o amplo arco de apoio do governo — e haja arco! —, o megaempresário Jorge Gerdau. E mais nada.

No dia seguinte compareceu à posse de um ministro e ao lançamento de um programa de incentivo do esporte de alto rendimento. Na sexta-feira (14), anotou na agenda às 10h um despacho interno e rumou, no início da tarde, para Porto Alegre, onde permaneceu o fim de semana e a segunda-feira — neste dia visitando dois estaleiros.

Nada mudou em outubro. Despachou com 19 ministros. Fez uma breve viagem ao Peru, visitou São Luís e São Paulo (duas vezes: uma delas novamente ao escritório da Presidência da República e para mais um encontro com Lula).

Se muitos ministros, em três meses, não foram recebidos pela presidente, o mesmo não ocorreu com Renato Rabelo. O presidente do PCdoB teve mais uma audiência, a segunda em dois meses. Dilma teve tempo para ouvir Fernando Haddad, prefeito eleito de São Paulo, no dia 29, e, dois dias depois, o de Goiânia. Ambos do PT. Curiosamente a agenda não registrou — caso único — onde a presidente esteve nos dias 27 e 28, fim de semana.

Dilma manteve em novembro sua estranha rotina de trabalho. Recebeu 15 ministros. Dois pela primeira vez, nos últimos 4 meses: Paulo Bernardo e Antonio Patriota.

Concedeu duas audiências a prefeitos eleitos: de Niterói, Rodrigo Neves, do PT; e Curitiba, Gustavo Fruet, do PDT e apoiado pelo PT. Fez uma longa viagem à Espanha e uma breve à Argentina. Mas três dias se destacam pelas curiosas prioridades: 21, 22 e 23. Na quarta-feira (21), a presidente não recebeu nenhum ministro e não efetuou qualquer despacho administrativo. Dedicou o dia a José Sarney, Gim Argello, Eduardo Braga e ao seu vice-presidente, Michel Temer.

Como ninguém é de ferro, à noite assistiu o filme “O palhaço”. No dia seguinte, a agenda registrou três compromissos, um só com ministro (o dos Portos), a posse do presidente e vice-presidente do STF e um encontro com a apresentadora Regina Casé. E na sexta-feira? Somente duas audiências e no período da tarde.

Dilma incorporou o péssimo hábito de que o mês de dezembro é “de festas”. Fez duas viagens ao exterior (França e Rússia) e despachou com apenas 9 ministros. Antecipou o réveillon para o dia 28, suspendendo as atividades por 13 dias, até 9 de janeiro.

Iniciou o novo ano com a mesma disposição do anterior: pouquíssimos despachos, audiências ou reuniões de trabalho. Em janeiro, despachou com 11 ministros. Lobão foi o recordista: quatro vezes. E, por incrível que pareça, e sempre de acordo com a agenda oficial, concedeu pela primeira vez em um semestre uma audiência para o ministro da Saúde, Alexandre Padilha. Melhor sorte teve o ex-jornalista Franklin Martins: esteve duas vezes, em apenas quatro meses, com Dilma.

Nesse semestre (agosto de 2012/janeiro de 2013), nove ministros — cerca de um quarto do ministério — nunca foram recebidos pela presidente: Marcelo Crivella, Aguinaldo Ribeiro, Garibaldi Alves Filho, Brizola Neto, Gastão Vieira, Maria do Rosário, Eleonora Menicucci, José Elito e Alexandre Tombini (presidente do Banco Central, mas com status de ministro).

Outros não mais que uma vez. Uma reunião entre a presidente e alguns ministros de áreas correlatas nunca foi realizada. Em alguns dias (como a 16 de janeiro), não concedeu nenhuma audiência e nem efetuou despachos internos. Pior ocorreu duas semanas depois, a 30 de janeiro, uma quarta-feira: está sem nenhum compromisso. É uma agenda de uma workahloic?

É o fundo do poço, é o fim do caminho


Fernando Gabeira 
O Estado de SPaulo

Ventos insuportáveis sopram de Brasília. Renan Calheiros é presidente do Senado. O deputado João Magalhães, que tem as contas bancárias bloqueadas, foi eleito presidente da Comissão de Finanças. E para completar, o pastor Marco Feliciano, acusado de racismo e homofobia, mas antes de tudo um perfeito cafajeste, foi escolhido presidente da Comissão de Direitos Humanos.

Às vezes é preciso mergulhar no passado para respirar. Pastores picaretas na literatura são bem mais interessantes. Em 1960, Burt Lancaster fez um cafajeste genial que vendia a religião no filme Elmer Gantry. Ganhou o Oscar de melhor ator e Richard Brooks, o de melhor roteirista. No filme, Burt Lancaster é um pregador brilhante que seduzia com o som das palavras: estrela matutina, estrela vespertina...

O filme é baseado no livro de Sinclair Lewis, escrito no meio da década de 20. A construção do personagem foi resultado de um longo trabalho do escritor, que entrevistava religiosos e, às vezes, ouvia três sermões diferentes por dia. Criticado em todos os púlpitos, Lewis enfrentou forte reação religiosa: um pastor chegou a pedir cinco anos de prisão para o romancista. Sinclair Lewis, em seu tempo, jamais poderia colher frases como a do pastor brasileiro Marco Feliciano: "Desculpe se vou agredir os seus ouvidos, mas o reto não foi feito para ser penetrado".

Quase um século se passou, com inegáveis avanços democráticos e uma grande dose de vulgaridade. No fundo, tanto o personagem vivido por Burt Lancaster, com seu brilho e sua veia poética, como o pastor Marco Feliciano se batem pela mesma causa: o dinheiro dos fiéis. O que torna Feliciano singular é sua aterrissagem na Comissão de Direitos Humanos.

Não foi um relâmpago em céu azul, mas resultado de um longo processo de degradação que transformou o Congresso desenhado por Niemeyer numa espécie de caverna sombria, com lógica oposta à da sociedade, que a mantém. Ao longo desses anos a comissão sempre foi dirigida pela esquerda. Partidos de outros matizes não se interessam por ela, associando, erradamente, direitos humanos à esquerda. A longa hegemonia de um setor acabou enfraquecendo o tema, uma vez que o viés ideológico tende a enxergar humanidade apenas no seu campo político.

Um grande mérito dos direitos humanos é sua universalidade. São direitos de um indivíduo, não importa a que partido pertença, em que país tenha nascido ou viva. Quando Lula comparou os presos políticos de Cuba aos traficantes do PCC, o movimento não reclamou. Quando comparou os opositores em luta no Irã a torcidas de futebol, novo silêncio. Há pouca solidariedade com as populações que vivem sob o controle armado do tráfico. E uma tendência histórica é ver o policial apenas como um transgressor dos direitos humanos, ignorando até os que morrem em atos de bravura.

Abandonada pelos grandes partidos, a comissão foi, finalmente, rejeitada pelo PT. A esquerda não compreendeu integralmente o conceito de universalidade e a direita, ao ignorar os direitos humanos, joga fora o bebê com a água de banho.

Não foram nossos erros no movimento de direitos humanos que trouxeram Feliciano ao centro da cena. Ele não chegou ao topo à frente de um onda racista e anti-homossexuais, apesar de suas declarações bombásticas. Ele triunfou porque é cafajeste, e essa condição hoje é indispensável para o ascender no Congresso. Expressa um longo processo de degradação impulsionado pelo PT.

Cada um certamente terá sua maneira de elaborar o caminho pelo qual se produziu tal aberração. Convém à boa consciência considerar Feliciano um acidente de percurso. Ou, então, contestá-la com a clássica frase: mas não se pode negar que as pessoas aumentaram seu nível de consumo. No mundo onde o consumo é a única medida, o discurso da presidente Dilma aos brasileiros parece anúncio de supermercado: o arroz, o feijão, o óleo, a pasta de dente, olhe a pasta de dente, que no passado não entrava na cesta básica. Por que só agora, se a porta sempre esteve aberta, como no Castelo de Kafka? Por que vetou o projeto de um oposicionista que isentava a cesta básica de impostos federais? O arroz, o feijão e a pasta de dente, olha a pasta de dente.

O pastor Marco Feliciano é um personagem que recebeu um cartão de crédito de um fiel e o advertiu porque se esqueceu de mandar a senha: "Depois vai reclamar quando Deus não fizer o milagre". Da mesma forma, o Congresso se comportou com o pré-sal. Diante da complexidade e riqueza da exploração dessas jazidas profundas, limitou-se a discutir apaixonadamente a divisão do dinheiro. Recebeu o cartão de crédito e logo usou a senha para detoná-lo.

A irracionalidade da condução do pré-sal foi marcada por um tom nacionalista. A Petrobrás, diziam, deve ter participação em todos os contratos. Mas não seria melhor para a Petrobrás ter a preferência e participar apenas dos contratos que lhe interessassem? Mas eles são muy amigos, querem que a empresa entre em todas as explorações, até nas canoas furadas.

Apesar do Congresso, os direitos humanos continuam sendo uma causa digna de por ela se bater. Apesar da desagregadora condução parlamentar no episódio do pré-sal, as pessoas não perderam a sensação da unidade do País. Pesquisa do Ibope mostra que 75% dos entrevistados quer a renúncia de Renan Calheiros. O único ser humano que Feliciano poderia ter ajudado ao assumir a comissão é o próprio Calheiros, que ganhou companhia no circo de horrores de Brasília.

Vivemos numa época em que número maior de pessoas consegue se informar melhor sobre o que se passa no País e no mundo. Elas certamente farão um contraponto à altura. Mas o problema continua em aberto. Por mais extensa e bem informada que seja uma rede, ela não substitui instituições nacionais.

O horizonte do País fica mais estreito sem um espaço que possa chamar de Congresso. Como reconstruir essa ruína? É o tipo de pergunta que daria um cartão de crédito para responder com acerto. Infelizmente, ainda não tenho a senha.

Não vem, Sean Penn


Guilherme Fiúza
O Globo

Dilma anunciou a redução de impostos sobre a cesta básica. Depois, a cesta básica ficou mais cara — por causa da escalada da inflação, que é obra do governo popular e perdulário

Evo Morales, o presidente da Bolívia, disse estar “quase convencido” de que Hugo Chávez morreu envenenado. O brado do cocaleiro lembrou o do mensaleiro: “Estou cada vez mais convencido da minha inocência”, declarou quase convicto José Dirceu, antes do julgamento do mensalão. Assim a mística bolivariana vai avançando no continente, enchendo seus bufões de votos, cargos e dinheiro. O envenenamento de Chávez só não é mais bizarro que o da opinião pública, estranhamente convertida a esse messianismo terceiro-mundista.

Uma das primeiras personalidades a se manifestar após a morte de Chávez foi Sean Penn. O ator americano disse que os pobres do mundo “perderam um campeão”. A esquerda festiva sempre foi ridícula em qualquer lugar, mas a de Hollywood é imbatível. Campeã. Sean Penn é um artista formidável, o que torna o quadro ainda mais patético. O consagrado diretor Oliver Stone veio junto, declarando estar de luto “por um grande herói”. Americanos posando contra o império americano — a velha receita politicamente correta que transforma, instantaneamente, dois ídolos “conscientes” em dois panfletários infantis. Que bom se fossem só eles.

Hugo Chávez barbarizou a democracia da pior forma — fingindo-se soldado dela. Derrubou o equilíbrio de poderes usando o populismo para se eternizar no governo legalmente. Analistas supostamente isentos (e críticos desse autoritarismo) ressalvam que o chavismo reduziu a pobreza com o dinheiro do petróleo. Esses são tão tolos quanto Sean Penn e Oliver Stone.

Num futuro muito próximo, a heroica bolsa-petróleo terá sido devidamente solapada pela baderna econômica criada pelo mesmo benfeitor. Como acreditar que um governo que paralisou os investimentos, detonou as instituições, gastou o que não tinha, semeou a inflação alta e trabalhou para encobrir isso tudo numa batalha sórdida contra a imprensa — como acreditar que um projeto desses deixará um país melhor para os pobres? Ou é preguiça de pensar, ou é sociedade com a malandragem populista.

As autoridades brasileiras estão no segundo caso. Chávez foi saudado pelo ministro da Secretaria-Geral da Presidência e chefe de gabinete vitalício do petismo, Gilberto Carvalho, como o homem que fez “uma revolução” na Venezuela. É mais do que compreensível essa admiração pelo chavismo. Gilberto Carvalho é o braço armado de Dilma contra a mídia, o escalado para espalhar nos congressos e seminários do PT a artilharia contra a “imprensa burguesa”, dizendo que o país precisa de uma nova mídia e o governo será um agente estimulador disso, entre outras doces barbaridades. Como se vê, o Brasil só não é a Venezuela ainda porque a “imprensa burguesa” por aqui é mais difícil de amordaçar.

Enquanto isso, o governo dos amigos do revolucionário envenenado vai montando suas verdades e entregando-as a domicílio. Para tanto, nada melhor do que uma cadeia obrigatória de rádio e TV — brinquedo preferido de Dilma Rousseff, no que se refere a só ler o script e caprichar no penteado. E nesses tempos em que Hugo Chávez vira bibelô da bondade para astros de Hollywood, nada mais providencial do que um Dia Internacional da Mulher para decorar o presépio do oprimido — e ensejar mais um pronunciamento à nação da “presidenta”, profissão mulher.

Dilma anunciou a seu povo a redução de impostos sobre itens da cesta básica. Uma semana depois, viria a notícia de que a cesta básica ficou mais cara apesar da bondade do governo popular e revolucionário — por causa da escalada da inflação, que é obra do governo popular e perdulário. Mas não tem problema. Como ensinou o mártir bolivariano, as más notícias que a imprensa burguesa traz são puro golpismo. A verdade que vale é a que sai da boca dos heróis da pobreza, como mostram seus fantásticos índices de aprovação.

A presidenta mulher atacou também a violência doméstica dos maridos, e fez um alerta incrível: aos homens que não entendessem por bem que não devem agredir suas esposas, que se lembrassem então que quem manda neste país é uma mulher. Ou seja: em cadeia nacional, Dilma resolveu ameaçar os barbados com seu cargo. Só faltou o rolo de pastel na mão. Um show de feminilidade sem precedentes.

Assim são o chavismo e seus derivados: esconda-se atrás de um símbolo social (a mulher, o operário, a vítima da ditadura) e navegue à vontade no proselitismo. Pode mentir numa boa, pode afundar as empresas de energia para forjar uma conta de luz barata, pode ludibriar o contribuinte para adular o consumidor, pode maquiar as contas públicas para esconder a gastança eleitoreira, pode vampirizar a Petrobras e depois usá-la para soltar panfletos de “capacitação da mulher”, pode tudo isso que enche os olhos dos astros abobalhados de Hollywood.

Para a minoria cada vez mais exígua que deplora esse tipo de heróis e campeões, resta pedir, com todo respeito: não vem, Sean Penn.

O lugar do Brasil no mundo


O Estado de S.Paulo

O governo não gostou de ver o Brasil marcando passo em 2012 no Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) da ONU, que mede a qualidade de vida no mundo conforme a saúde, a educação e a renda das populações dos 187 países que dispõem de informações a respeito. Apesar de um ligeiro avanço na pontuação, de 0,728 para 0,730 numa escala que vai de 0 a 1, o Brasil foi mantido no 85.º lugar de 2011. O ranking é liderado pela Noruega, com 0,955 pontos. O Níger, com 0,304, fecha a raia. O ministro da Educação, Aloizio Mercadante, e a sua colega do Desenvolvimento Social, Tereza Campello, consideraram "incorretos" os números e "injusta" a avaliação.

Isso porque o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud), responsável pela construção do IDH, ano a ano, usou dados de 2005 para a educação no País. Deixou de contabilizar, assim, cerca de 4,6 milhões de novas matrículas na pré-escola e nas classes de alfabetização. A omissão, por sua vez, excluiu do cômputo avanços recentes na taxa média de escolarização dos brasileiros, medida pelo IBGE, e na tendência desse indicador. O Pnud admite o problema. Alega que se limitou a usar números superados, no caso do Brasil e eventualmente de outros países, para poder comparar o seu desempenho em anos iguais. A metodologia é discutível.

Nas tabelas que comparam os países por variáveis econômicas, como nível de emprego, taxas de inflação e nível de investimentos, os organismos internacionais que as produzem trabalham sempre com os últimos dados disponíveis e assinalam com asteriscos os países cujos números estão atrasados. Além do mais, o desenvolvimento de um país também deve ser julgado pela sua capacidade de produzir estatísticas nacionais sistemáticas, confiáveis e atualizadas. Um país não deveria ser prejudicado pelo atraso alheio. Mas o próprio Pnud fez uma simulação reveladora. Se, no quesito educação, tivesse utilizado os números de que o governo sente falta, a diferença não seria da água para o vinho.

O IDH do Brasil passaria de 0,730 para 0,754 e o País avançaria 16 casas, saindo da 85.ª posição, ao lado da Jamaica, para a 69.ª, emparelhando com o Casaquistão e ainda no segundo pelotão do ranking, o das nações de alto, mas não muito alto, IDH. Nessa primeira liga de 47 países, a América Latina está representada pelo Chile (em 40.º lugar com o índice 0,819) e pela Argentina (em 45.º com 0,811). Pior ainda para os brios de Brasília, mesmo se o País estivesse no lugar que o governo consideraria correto e justo, continuaria atrás, de baixo para cima, de Trinidad e Tobago, Antígua e Barbuda, Granada, Costa Rica, México, Panamá, Cuba e Uruguai. Para não falar da Rússia, o único dos Brics à nossa frente. (A China está em 101.º lugar; a África do Sul, em 121.º; e a Índia, em 136.º.)

Já dizia o prussiano Bismarck que os números são como as baionetas. Pode-se fazer tudo com eles, menos sentar em cima. Os do IDH tanto podem servir para comprovar, ainda uma vez, que a caminhada do Brasil seria outra sem as botas de chumbo do passado - o "passivo histórico", dizem os técnicos do Pnud - como para ressaltar as distâncias já percorridas ainda assim. A crônica desigualdade social é decisiva para o Brasil ainda ter um IDH abaixo da média na região. Em contrapartida, a contar de 1990, quando o índice começou a ser calculado, o País subiu 24 pontos porcentuais no ranking mundial da ONU. É uma das 15 nações que mais rapidamente conseguiram reduzir o seu "déficit" - a diferença entre o índice apurado e a meta ideal de IDH.

Devido aos ganhos relativos alcançados em matéria de expectativa de vida da população, matrículas escolares e renda per capita, o Brasil foi citado nada menos de 137 vezes na atual edição do Relatório de Desenvolvimento Humano, intitulado A Ascensão do Sul - progresso humano em um mundo diverso. O documento assinala que, graças a modelos que combinam "Estado desenvolvimentista proativo, aproveitamento dos mercados mundiais e inovações em políticas sociais", nunca antes as condições de vida e as perspectivas de futuro nos países emergentes mudaram tanto e tão depressa. Nos últimos 12 anos, o seu IDH cresceu quase o dobro da média mundial.

IDH e os limites do Bolsa Família


Editorial
O Globo

Estabilidade no índice de desenvolvimento humano e no BF reforça a ideia de que , mais do que nunca, a hora é de se priorizar a qualificação da população

O ranking de 2012 do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) levou o Brasil a contestar sua posição. Em vez do 85º lugar, entre 187 países, o governo revindica o 69º, pois o Programa ds Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud), responsável pelo IDH, não usou nos cálculos estatísticas atualizadas. Do ponto de vista formal, o Planalto tem forte argumento, pois, de fato, se forem utilizados os números mais recentes sobre a extensão da vida escolar e matrículas no pré-escolar, o IDH brasileiro sobe de 0,730 para 0,754.

Mas, na prática, isso de nada adianta, além de inspirar marqueteiros colocados de plantão devido à antecipação da campanha eleitoral de 2014. Para ter validade efetiva a subida no ranking, todos os demais índices teriam de ser calculados sob os mesmos critérios de aferição.

A questão, portanto, é desimportante. Interessa é observar a evolução do índice no longo prazo. E, desde 1980, o IDH do país ostenta um avanço consistente. De 90 em diante, inclusive, o Brasil é um dos 15 com melhor evolução.

Mas, de 2010 em diante, o IDH revela alguma estabilidade. É preciso entender as causas. Os processos de melhoria costumam, em geral, ser mais lentos à medida que progridem. Há, também, limitações objetivas para programas sociais; a principal delas, a disponibilidade de recursos.

Existe, ainda, a possibilidade de os programas conseguirem cobrir toda a população a que se propõem atender. O Bolsa Família, por exemplo, parece ter chegado a um limite: cerca de 14 milhões de famílias, para as quais, este ano, serão canalizados R$ 24 bilhões. Sempre é possível, a depender da disponibilidade fiscal, destinar mais dinheiro ao BF. Mas, a não ser que se mudem parâmetros de abrangência do programa, há no Ministério de Desenvolvimento Social a percepção de que o Bolsa Família atingiu um patamar e deverá estacionar nele.

A estabilização do IDH reforça a tese de que a hora, mais do que nunca, é de investimentos na Educação e qualificação da mão de obra. Este é o caminho para um país cujos gastos sociais são enormes (algo como R$ 60 bilhões anuais, um dos mais pesados itens do Orçamento) e que acumula sérias carências de investimentos públicos em infraestrutura.

O BF, ao contrário do seu início, tem levado a sério a questão das contrapartidas ao benefício, principalmente na educação de crianças e jovens (já são 16 milhões de matriculados). Cresce, também, o treinamento para a qualificação de adultos: são 316,3 mil matriculados no Sistema S (Senai), e será, se a meta for atingida, um milhão no ano que vem. Começam, afinal, a ser abertas as “portas de saída” para bolsistas viverem exclusivamente da renda do próprio trabalho.

Os sinais de esgotamento do assistencialismo empurram os governos para qualificar a população. Se isso for levado a sério, o país mudará de patamar de desenvolvimento, social ou sob qualquer outro critério.

Argentina faz Brasil provar veneno protecionista


Naiara Infante Bertão
Veja online

Governo Cristina recorre à velha cartilha petista para revisar regras de acordo comercial entre os países e, assim, beneficiar indústria local. Ponto central das discussões é o comércio de autopeças

 (Leo La Valle/EFE)
Cristina Kirchner e Dilma Rousseff: 
parceria comercial entre Brasil e Argentina está em perigo

A poucos meses do vencimento da primeira fase do acordo automotivo estabelecido em 2008 entre Brasil e Argentina, o país vizinho quer rever as regras. O governo Kirchner lançou mão da cartilha protecionista do PT para reproduzir o que as autoridades brasileiras fizeram no ano passado em relação ao México, quando a presidente Dilma Rousseff determinou a criação de cotas de importação de carros mexicanos, num momento em que os países discutiam um tratado de livre-comércio. O plano argentino ampliou a tensão comercial entre os dois países, cujas relações, pelo menos no âmbito do comércio exterior, não têm sido das mais amigáveis.

No acordo vigente ainda hoje, assinado nos termos da Associação Latino-americana de Integração (Aladi) em 2006 - e não do Mercosul -, consta um dispositivo que tornaria o acordo bilateral neste setor livre de qualquer barreira tarifária a partir de 1º de julho de 2013, como são os outros contratos estabelecidos no âmbito do Mercosul.

Contudo, na avaliação argentina, a perda de validade de tal documento poderia implicar numa queda de arrecadação que o país não está disposto a aceitar. O acordo atual prevê que o comércio de veículos entre os vizinhos se baseie no chamado índice flex: um coeficiente de proporção das exportações e importações que significa que, para cada 100 dólares importados, cada país tem direito de exportar 195 dólares sem qualquer imposto. Com o livre-comércio, a Argentina teme acabar importando muito mais do Brasil do que o contrário.

Assim, o governo Kirchner decidiu fazer mais uma de suas usuais intervenções: acionou o brasileiro, dizendo que vai apresentar uma nova proposta que não prejudique tanto sua balança comercial. Novamente, o kirchnerismo utiliza uma ferramenta da qual o governo brasileiro tem se valido muito para proteger a indústria nacional e encarecer as importações.

A história se repete - 
O Brasil pediu a revisão do acordo automotivo com o México depois que a importação de carros fabricados em território do parceiro latino subiu 70% em 2011. A alegação, à época, foi de que os fabricantes brasileiros eram prejudicados pelo câmbio (o real é mais valorizado que o peso mexicano em relação ao dólar), o Custo Brasil e os salários mais altos que no México. Depois de discussões, o acordo foi revisado e novas cotas de volume comercializado foram estabelecidas até janeiro de 2015. O Brasil também impôs um aumento no índice de conteúdo nacional nos carros que o México produz até 2016.

Procurado, o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (Mdic) respondeu apenas que as negociações com a Argentina já foram abertas e que o Brasil aguarda o país vizinho apresentar uma nova proposta a ser avaliada. “O Brasil deve ceder à Argentina nessa questão porque nosso vizinho é o principal comprador da indústria automobilística brasileira. O fim do acordo não é interessante nem para o governo nem para os empresários”, diz Mauro Laviola, vice-presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB).

O setor automotivo (veículos, autopeças, máquinas agrícolas e chassis) representa aproximadamente metade da corrente de comércio entre os dois países, o que dimensiona a importância de se manter um bom relacionamento bilateral. Em 2012, a Argentina acumulou déficit de 1 bilhão de dólares com o Brasil no que se refere ao setor automotivo. Os brasileiros venderam 9,1 bilhões de dólares e compraram 8,1 bilhões de dólares do país vizinho.

Segundo Laviola, esse desequilíbrio já foi pior: em 2011, o déficit argentino foi de 3,075 bilhões de dólares. Ele lembra, ainda, que a responsável por essa conta negativa é a cadeia de suprimentos de componentes para as fábricas de veículos instaladas na Argentina, que produzem modelos com grande quantidade de itens importados do Brasil. Em 2011, fabricantes brasileiros venderam 4,64 bilhões de dólares neste segmento para os portenhos. As compras, contudo, ficaram em 1,37 bilhão de dólares.

Diante desse desequilíbrio, que está longe de ser mortal para a indústria portenha, o governo de Cristina Kirchner quer resolvê-lo de forma tão célere quanto os passos de uma milonga. A ideia da governante é fazer com que o Brasil compre mais peças fabricadas na Argentina para serem usadas na produção dos veículos locais. A importação de autopeças argentinas representou, em 2011, apenas 8,14% das compras totais do Brasil neste segmento, enquanto em autoveículos essa participação subiu para 41,75%. “A Argentina reclama porque, hoje, o Brasil prefere comprar peças da Índia, China e Leste Europeu, que têm não só preços melhores como qualidade superior, com maior nível tecnológico de produção”, diz a professora da Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo (FEA-USP) Adriana Marotti de Melo.

Fora do tom -
 O comitê de monitoramento do acordo que avaliará a nova proposta argentina é formado por pessoas do Mdic, da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) e do Sindicato Nacional da Indústria de Componentes para Veículos Automotores (Sindipeças). Segundo uma fonte que acompanha as negociações, as autoridades brasileiras surpreenderam-se com o tom usado pelo governo argentino para pedir a mudança dos termos do acordo. “Foi um tom exagerado, como se fosse uma imposição. A tendência é que o Brasil faça uma contraproposta e ceda em partes”, diz a fonte, que preferiu não ter seu nome revelado.

O protecionismo do qual o Brasil será vítima, caso a decisão argentina se concretize, tem se tornado lugar-comum entre governantes da América Latina, na avaliação de Eduardo Correia de Souza, professor de economia do Insper. “O problema é que eles tendem a mudar as regras do jogo para atender, de maneira populista, essas reclamações pontuais. Ou seja, têm dificuldades em fazer acordos de longo prazo prosperarem”, diz Souza. Ele lembra que esta não é a primeira vez que o Brasil e a Argentina se estranham nas relações comerciais: houve a questão da salvaguarda dos vinhos; a implementação de licenças não automáticas para a importação de produtos; e as barreiras à importação de geladeiras fabricadas no Brasil. “A Cristina (Kirchner) ainda é mais sensível a reivindicações sociais do que a Dilma”, observa o professor. Recentemente, a Argentina estabeleceu a política do ‘uno por uno’: a empresa que quer importar, tem de exportar o mesmo montante em dólar.

Para Economist, Brasil tem democracia, mas "com falhas”


Marco Prates
Exame.com

Ranking coloca Brasil como o 44º país mais democrático do mundo, mas na categoria dos regimes “com falhas”. Falta de cultura política da população contribui para desempenho

REUTERS/Ueslei Marcelino
Congresso Nacional: Brasil desce em ranking de democracia por causa da
 baixa cultura política dos cidadãos e a efetiva participação destes nas decisões nacionais

São Paulo – Os brasileiros vivem no 44ª país mais democrático do mundo, segundo pesquisa divulgada hoje pela Economist intelligence Unit (EIU). O país integra o que o grupo inglês chama de “democracias com falhas”. A Noruega conquistou o primeiro lugar (veja lista completa).

Segundo o levantamento, o Brasil falha em dois dos cinco aspectos considerados: participação e cultura política, cujas notas representam metade das conquistadas pelo país nórdico. Os números detalhados estão abaixo.

No grupo de democracias com falhas a que pertence o Brasil, diz o estudo, embora haja eleições livres, “há deficiências significativas em outros aspectos, incluindo problemas de governança, uma cultura política subdesenvolvida e baixos níveis de participação política”.

Critérios
O índice de participação política mede, por exemplo, a presença de mulheres e minorias no parlamento, a filiação dos cidadãos a partidos políticos, o nível de interesse das pessoas pelo assunto política e o acompanhamento das notícias, entre outras características.

Já o de cultura política questiona, por exemplo, a proporção da população que prefere um presidente forte em meio a um congresso fraco, quantos acreditam que a democracia traz ganhos econômicos e que é a melhor forma de governo, dentre outros.

A EIU compila no total 60 indicadores nas 5 categorias para chegar à nota final, que vai de 0 a 10.

Embora metade dos 165 países do mundo sejam considerados democráticos, apenas 25 estão na parte de democracias completas, segundo o estudo. Da América do Sul, apenas o Uruguai.

“Eleições livres e justas e liberdades civis são condições necessárias para a democracia, mas provavelmente não serão suficientes para uma democracia plena e consolidada se desacompanhadas de transparência e um governo minimamente eficiente, com participação política suficiente e uma cultura política de apoio”, diz o estudo.

É justamente na parte final da frase acima que o Brasil tem mais espaço para evoluir - e subir no ranking.


Posição
Pontuação Final
I     Processo eleitoral e pluralismo
II Funcionamento do governo
III Participação política
IV Cultura política
V Liberdades civis
Brasil
44ª
7,12
9,58
7,5
5
4,38
9,12
Noruega
9,93
10
9,64
10
10
10