quarta-feira, março 20, 2013

Desleixo com uma grande fonte de receitas cambiais


O Estado de S.Paulo

O agronegócio teve superávit comercial de US$ 10 bilhões no primeiro bimestre, confirmando sua condição atual de principal sustentáculo do balanço de pagamentos. Sem o saldo auferido pelas exportações do agronegócio, o País teria tido um déficit comercial da ordem de US$ 15 bilhões no período. Ainda assim, o tratamento que esse setor recebe do governo está muito abaixo do seu valor estratégico, pelo menos do ponto de vista logístico, como se constata com o problema do escoamento das safras, retratado em reportagens de Renée Pereira, Pablo Pereira e Luis Guilherme Gerbelli, no Estado de domingo.

A insuficiência de rodovias, ferrovias e hidrovias para permitir o deslocamento das safras do Centro-Oeste até os portos do Norte do País é fato conhecido. Em 2012, os terminais de Itaqui, no Maranhão, Itacoatiara, no Amazonas, e Santarém, no Pará - que possibilitariam exportações da produção a custos menores para os centros consumidores -, movimentaram apenas 14% do volume total de grãos exportados, segundo a Agência Nacional de Transportes Aquaviários (Antaq). A maior parte dessa produção foi escoada pelos Portos de Santos e de Paranaguá.

Mas o problema se agravou muito, estendendo-se para outras regiões produtoras, como as cidades de Luís Eduardo Magalhães, Barreiras e São Desidério, na Bahia. As rodovias respondem por 55% do transporte de soja, mas são muito precárias, com vários pontos de estrangulamento.

As empresas do agronegócio, no entanto, produzem com tanta eficiência - e a preços tão competitivos - que os custos da precariedade logística acabam absorvidos. Isso significa que aqueles preços poderiam ser ainda mais competitivos. Entre 2012 e 2013, o custo do frete de soja entre as cidades de Sinop e Sorriso, em Mato Grosso, e Paranaguá chegou a subir de 30% a 40%, segundo os produtores. Para os transportadores, a demora para o embarque é muito onerosa. Os usuários de estradas como a Cônego Domênico Rangoni, que liga a Imigrantes ao Guarujá, por exemplo, também têm sido afetados.

O Brasil produzirá, nesta safra, 185 milhões de toneladas de grãos, um novo recorde. O saldo comercial do agronegócio é estimado em US$ 83,2 bilhões neste ano, cerca de seis vezes o superávit comercial do País, reestimado em cerca de US$ 13 bilhões. O governo alardeia planos e providências, inclusive legislativas, para melhorar a infraestrutura, mas pouco do que é noticiado consegue sair do papel. Em detrimento da grande fonte de receitas cambiais.