sexta-feira, maio 17, 2013

Empresas mais cautelosas nas concessões elétricas


O Estado de S.Paulo

Empresas nacionais e estrangeiras, inclusive estatais, atuaram com muita cautela no leilão de transmissão de energia promovido na semana passada pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel). Esse foi o contraste em relação aos leilões anteriores, quando os candidatos aceitavam enormes deságios para não perder as oportunidades oferecidas no setor de eletricidade. Desta vez, quatro dos dez lotes oferecidos não tiveram pretendentes.

Não houve lances de tradicionais investidores em transmissão, como as estatais Furnas, Chesf e Eletronorte, "orientadas pelo governo", segundo um diretor da Aneel, Julião Coelho. Faltaram interessados para 916 km de linhas de transmissão, localizadas em regiões prósperas do interior paulista, como as linhas Araraquara-Itatiba e Araraquara-Fernão Dias. O deságio de 11,96%, em média, foi inferior ao das licitações anteriores. Enquanto um novo leilão não for realizado, serão adiados investimentos da ordem de R$ 1 bilhão, com geração de 3 mil vagas.

A exploração de linhas de transmissão sempre foi considerada uma modalidade de aplicação com baixo risco e rentabilidade certa. Mas o governo fixou a remuneração máxima em 5% ao ano e, na prática, o custo médio do capital foi de 4,6% ao ano (calculado sobre a Receita Anual Permitida). Como afirmou ao Estado o consultor Humberto Gargiulo, da Upside Finanças Corporativas, "a remuneração não cobre o risco dos empreendimentos". O professor Nivalde Castro, da UFRJ, foi além: "O resultado pode indicar desajustes no modelo, pois os leilões de transmissão sempre foram um bom medidor de temperatura do ambiente regulatório".

Em parte, o risco se deve a dificuldades ambientais e fundiárias. Algumas linhas licitadas são necessárias para o escoamento da energia das usinas do Rio Madeira, ainda não ligadas ao Sistema Interligado Nacional (SIN) de transmissão. Só a Aneel considerou "satisfatório" o resultado do leilão. Mas apenas as espanholas Abengoa e Isolux, além da Neoenergia e de um consórcio formado pelas empresas Bimetal Indústria Metalúrgica e Engeglobal Construções, foram vencedoras.

A política de modicidade tarifária defendida por Dilma Rousseff quando era ministra da Energia e praticada agora, como presidente, afasta os investidores. É provável que, no futuro, sejam maiores as dificuldades de oferta de energia hidráulica, obrigando o País a consumir energia cara e mais poluidora, como já ocorre.

O modelo hidroelétrico está se esgotando no Brasil?


Vanessa Barbosa
Exame.com

Segundo especialistas, a fim de garantir oferta, país deve priorizar a construção de novas usinas. Mas para avançar Amazônia a dentro é preciso superar desafios, sem atropelos

Santo Antonio/Divulgação 
Usina de Santo Antonio, em construção no Rio Madeira, na Bacia Amazônica

São Paulo - Polêmicas envolvendo a construção de grandes hidrelétricas na Amazônia e seus impactos socioambientais, incluindo a questão indígena, dão a sensação de que o modelo hidroelétrico está se esgotando. Soma-se a isso a vulnerabilidade das usinas ao humor do clima. A falta de chuvas tem levado os reservatórios a níveis preocupantes, que obrigam o acionamento das termelétricas.

Para especialistas em energia, o país deve continuar priorizando a construção de novas usinas hidroelétricas. Segundo o professor Nivalde de Castro, do Gesel-UFRJ, a justificativa é simples: "Trata-se de uma fonte que temos em abundancia, barata e limpa", diz.

Atualmente, o país conta com 972 usinas, que somam 82,5GW, ou 65,7% da capacidade da matriz energética brasileira. Na prática, quase 90% da energia que consumimos vem de usinas hidrelétricas. Mas a forma como a expansão do setor está acontecendo, diz o especialista, não tem permitido construir usinas com reservatórios, como se fazia antes, por esbarrar em limites legais.
Justamente para suprir a ausência de reservatório ao longo do ano nas usinas a fio d'água, é preciso de fontes complementares. De acordo com o especialista, o país precisa investir em fontes renováveis como bioeletricidade e eólica, mas para ter segurança, também é preciso contar com termelétricas, diz. "As outras fontes são intermitentes", explica.

Mais de 100 usinas previstas para a Amazônia
Na visão de Cláudio Sales, do Instituto Acende Brasil, para aproveitar a competitividade de seus recursos naturais e desenvolver seu potencial hidroelétrico, o país tem um desafio grande: aprender a lidar sem atropelos com a questão indígena.

Na Amazônia, o potencial hidrelétrico brasileiro é de 250 mil MW. Já foram aproveitados 35% desse potencial. Mais de 100 usinas estão previstas para região. Acontece que boa parte das regiões promissoras está em áreas de reservas indígenas.

"Dos 19.673MW de potencia adicional previstos no Plano Decenal de Energia 2021, 16.089MW (82%) interferem em terras indígenas", diz. Sales destaca, entretanto, que segundo a constituição o aproveitamento dos recursos hídricos, incluídos os potenciais energéticos em terras indígenas só podem ser efetivados com autorização do Congresso Nacional, ouvidas as comunidades afetadas.

Mas o Brasil ainda não regulamentou esse processo de consulta aos povos indígenas, ressalta. "Para fazer tem que fazer direito, não de forma atropelada, como está acontecendo com Belo Monte", afirma. Mas ter que ouvir não significa que a comunidade tem poder de veto, quem vai decidir é o Congresso.

Segundo Pedro Bara, líder da Estratégia de Infraestrutura da Iniciativa Amazônia Viva do WWF, envolver a sociedade e promover o debate qualificado em torno dos interesses, necessidades e urgência de se implantar grandes projetos de infraestrutura em áreas conservadas da Amazônia é imprescindível uma vez que as consequência afetarão a todos.

"Não podemos sair fazendo projeto sem olhar o big picture, é uma Bacia só na Amazônia. Ainda não caiu a ficha do setor elétrico", critica. A realização de consultas públicas e debates é um passo importante para viabilizar a participação da sociedade na construção de um modelo sustentável para a região, defende.

Eletrobras tem prejuízo de R$ 36 milhões no 1º trimestre


O Globo
Com Agência Reuters

Resultado do período é o primeiro a refletir as novas tarifas de energia de ativos cujas concessões foram renovadas


SÃO PAULO - A Eletrobras encerrou o primeiro trimestre com um prejuízo líquido de R$ 36 milhões, revertendo o lucro de R$ 1,27 bilhão registrado um ano antes. O resultado do período é o primeiro da empresa a refletir as novas tarifas de geração e transmissão de energia de ativos cujas concessões foram renovadas.

A estatal afirmou que o balanço foi impactado negativamente por uma despesa líquida de R$ 85 milhões na conta Repasse de Itaipu, contra uma receita de R$ 706 milhões um ano antes. Também afetaram o resultado provisões para contingências de R$ 275 milhões, variação cambial — que apresentou uma perda consolidada de R$ 73 milhões —, e custo de combustível para produção de energia de R$ 557 milhões ante R$ 89 milhões no mesmo período de 2012.

A geração de caixa medida pelo lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização (Ebitda, na sigla em inglês) totalizou R$ 141 milhões no período, queda de mais de 90% sobre os R$ 2,2 bilhões um ano antes.

O recuo no Ebitda também foi influenciado pelas novas tarifas de geração e transmissão das usinas cujas concessões foram renovadas, mas também tiveram o impacto positivo de operações no mercado de energia de curto prazo da Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE), relativas à Chesf, Eletronorte e Furnas, que produziram uma receita de R$ 816 milhões de reais.

A receita operacional líquida da empresa também registrou queda na comparação com igual período de 2012, de 14,5%, totalizando R$ 5,8 bilhões. A área de transmissão apurou faturamento 77% menor, a R$ 156 milhões de reais. A dívida líquida terminou março em R$ 8,2 bilhões de reais, num salto sobre os R$ 3,7 bilhões registrados no fim de 2012.

Brasileiro é desleixado com sua aposentadoria, mostra estudo


Priscila Yazbek
Exame.com

Índice de educação financeira da Serasa mostra que 48% dos brasileiros não fazem nenhum tipo de investimento para sua aposentadoria

Stock.xchng/mommyof9 
Pesquisa mostra que brasileiro não se planeja financeiramente para o longo prazo

São Paulo - Mais um estudo divulgado nesta semana mostra como os brasileiros são negligentes quando o assunto é aposentadoria. Segundo o Indicador Serasa Experian de Educação Financeira do Consumidor, 48% dos brasileiros não fazem nenhum tipo de investimento para sua aposentadoria. 

O índice inaugurado nesta semana pelo Serasa é um dos únicos indicadores do nível de educação financeira da população brasileira e o maior em termos de abrangência e nível de detalhes. Para chegar aos resultados do estudo, foram consultadas 2.002 pessoas em 142 cidades de todos os estados brasileiros e do Distrito Federal no primeiro trimestre de 2013.

A pesquisa mostrou que a contribuição à previdência social - ao Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) - é o único tipo de investimento para a aposentadoria para 42% dos entrevistados. E apenas 5% combinam a contribuição ao INSS com um plano de previdência privada. 

Uma parcela ainda menor, correspondente a 2% dos entrevistados, possui a previdência privada como única forma de acumulação de patrimônio para a aposentadoria.

Cerca de 3% dos entrevistados não souberam ou se recusaram a responder se possuem algum tipo de poupança para a aposentadoria. 

Imediatismo
Celso Matos, pesquisador responsável pelo indicador da Serasa, afirma que o desleixo do brasileiro em relação à sua aposentadoria pode ser explicado pelo imediatismo com que ele lida com suas decisões financeiras.

Segundo ele, existe uma orientação muito forte ao curto prazo, em detrimento do longo prazo. "O brasileiro pensa que a aposentadoria vai demorar a chegar e acaba priorizando tudo o que quer consumir hoje, independentemente das consequências disso no longo prazo", comenta Matos.

Os dados divulgados pelo Serasa destacam a falta de planejamento do brasileiro, questão que tem sido bastante discutida por especialistas em aposentadoria. 

E mesmo quem investe pensando no longo prazo muitas vezes planeja sua aposentadoria da forma errada. Alguns dos equívocos mais comuns são considerar que a aposentadoria durará apenas 10 ou 20 anos, acreditar que os gastos vão diminuir futuramente e investir sem calcular o real efeito da inflação.

Cinco anos perdidos


O Estado de S.Paulo

O governo pode celebrar o bom resultado obtido no leilão de blocos para exploração de petróleo e gás, um sucesso de público e de renda, mas os brasileiros têm motivos ainda mais fortes para lamentar a perda de cinco anos desde a última licitação. Com arrecadação de R$ 2,82 bilhões - recorde em termos nominais - e participação de 12 empresas nacionais e 18 estrangeiras, a rodada comprovou a disposição de grandes empresas multinacionais, como a Exxon Mobil, a BP e a Total, de investir no Brasil.

Foram arrematados em dois dias 142 dos 289 blocos licitados pela Agência Nacional do Petróleo (ANP). Com enorme atraso, o governo acabou reconhecendo, na prática, o erro cometido quando resolveu, a partir de 2009, condicionar a participação estrangeira no setor de petróleo a critérios tão míopes quanto ineficazes.

Guiado por uma desastrosa mistura de nacionalismo, estatismo e centralismo administrativo, o governo tentou atribuir à Petrobrás um papel superior às suas possibilidades na estratégia de exploração e produção de petróleo e gás. Errou de forma infantil, ao subestimar os custos desse programa. Bastaria levar em conta as dificuldades excepcionais da exploração do pré-sal para renunciar àquela pretensão.

Além disso, o Palácio do Planalto, o centro real de comando da Petrobrás, tentou impor à empresa um conjunto absurdo de obrigações. A estatal teria de contribuir para o controle da inflação, operando com preços contidos. Teria de servir às fantasias geopolíticas do presidente Luiz Inácio da Silva, participando de empreendimentos com a PDVSA do caudilho bolivariano Hugo Chávez. Deveria operar como instrumento de uma política industrial anacrônica, suportando custos excessivos para beneficiar fornecedores nacionais de insumos e equipamentos. Nenhuma dessas políticas funcionou.

Uma das consequências foi a estagnação da produção. Em 2009 a empresa produziu por dia, em média, 2,29 milhões de barris equivalentes de petróleo. Em 2011 o resultado foi apenas 3,85% maior, 2,38 milhões. Em 2012 diminuiu 2%, recuando para 2,35 milhões.

Neste ano, segundo projeção apresentada em relatório oficial, a produção dificilmente será maior que a do ano passado. No caso da extração de óleo e LGN, o retrocesso foi de 2 milhões de barris/dia em 2010 para 1,98 milhão no ano passado, número quase igual ao de 2009, 1,97 milhão.

Enquanto isso, a demanda de combustíveis e lubrificantes cresceu no mercado interno. O desequilíbrio entre oferta e procura foi acentuado pelos problemas da produção de etanol, prejudicada pela contenção dos preços da gasolina.

A Petrobrás converteu-se rapidamente em grande importadora, passando a pressionar perigosamente a balança comercial. Com a máxima discrição, o governo enrolou e escondeu a bandeira da autossuficiência, agitada com entusiasmo pela cúpula petista durante um breve período.

O plano de negócios da Petrobrás, apresentado em março deste ano, prevê investimentos de US$ 236,7 bilhões entre 2013 e 2017. O documento inclui - para repetir sua linguagem - alguns dos pressupostos da "financiabilidade" do plano: manutenção do grau de investimento da empresa, convergência com os preços internacionais de derivados e desinvestimentos no Brasil e, principalmente, no exterior.

Dirigentes da estatal comemoraram nos últimos dias a captação de US$ 11 bilhões no mercado financeiro internacional. Foi uma operação de proporções respeitáveis, mas falta muito, sem dúvida, para a cobertura das necessidades da empresa.

Enquanto a Petrobrás derrapava na execução de seus planos e perdia dinheiro para atender às fantasias, tolices ideológicas e objetivos políticos do grupo no poder, o cenário internacional mudava.

Uma das novidades mais notáveis ocorreu nos Estados Unidos, com a drástica redução dos custos de exploração do gás de xisto. Segundo alguns especialistas, pode-se falar de uma revolução no setor energético, iniciada há cerca de cinco anos. Nesse período, a política brasileira de petróleo hibernou, como se o "resto" do mundo pudesse ficar parado à espera do Brasil.

Empresas de Eike negociam entre si blocos da 11ª rodada


Exame.com
Com Agência Reuters

MPX informou que firmou acordo com OGX para aquisição de participação de 50% em quatro blocos exploratórios na bacia do Parnaíba

Divulgação 
Navio-plataforma da OGX: companhia foi uma das grandes vencedoras do leilão, 
dando lances no valor de cerca de 376 milhões de reais, adquirindo 13 blocos

São Paulo - A MPX informou nesta quinta-feira que firmou acordo com OGX para aquisição de participação de 50 por cento em quatro blocos exploratórios na bacia do Parnaíba, adquiridos pela petrolífera de Eike Batista na 11a rodada de áreas de licitação.

A empresa de geração elétrica do empresário, que já produz energia por meio de termelétricas a gás na região do Parnaíba, ficará com metade de participação nos blocos exploratórios terrestres PN-T-168, PN-T-153, PN-T-113 e PN-T-114, que foram adquiridos por 20 milhões de reais no leilão desta semana.

O valor de aquisição pago pela MPX nos blocos da bacia do Parnaíba será equivalente à metade dos bônus de assinatura e demais compromissos de exploração e desenvolvimento assumidos nas propostas apresentadas pela OGX à ANP.

A OGX, apesar da preocupação em torno de seu caixa, foi uma das grandes vencedoras da 11a rodada de áreas exploratórias de petróleo e gás, dando lances no valor de cerca de 376 milhões de reais, adquirindo 13 blocos.

A MPX projeta que suas usinas serão as principais consumidoras do gás natural produzido nos blocos terrestres de sua empresa coligada, a OGX Maranhão, empresa do grupo do empresário Eike em parceria com a Petra Energia.

PanAmericano vira Pan e comemora faxina na casa


Marcela Ayres
Exame.com

Lucro do banco subiu mais de 13 vezes e resultados operacionais vieram positivos pela primeira vez desde a compra do controle da instituição pelo BTG Pactual


Divulgação 
Segundo Pan, mudança de nome aconteceu depois de pesquisas com vários públicos

São Paulo - Desde 2011 a mudança de nome do banco PanAmericano vinha sendo estudada pelo BTG Pactual, controlador da instituição. Mas foi só depois de divulgar o resultados financeiro do primeiro trimestre - o primeiro em que o banco voltou ao azul sem a ajuda de ganhos fiscais - que o PanAmericano anunciou a novidade. Agora, a instituição será apenas Pan.

O anúncio da nova marca "simboliza a nova fase" do banco, nas palavras de seu presidente, José Luiz Acar. Em nota, o executivo acrescentou que o Pan "unificou suas estruturas conservando a especialização no atendimento de cada segmento, fortaleceu suas linhas de negócios e tem investido continuamente no atendimento aos clientes".

De janeiro a março, o banco registrou lucro líquido de 38 milhões de reais, mais de treze vezes superior ao ganho reportado em igual período de 2012. Mas foi seu resultado operacional, dissociado de impactos tributários, que mais agradou ao mercado, vindo positivo em 66,8 milhões de reais. O fato é inédito para a nova administração do banco, que assumiu as rédeas depois de um rombo de mais de 4 bilhões de reais ter sido descoberto nas contas da instituição, ainda sob a gestão do Grupo Silvio Santos.

De janeiro a março, o resultado foi impactado pelo aumento na originação de crédito, cuja média mensal dobrou em relação ao mesmo período do ano passado, chegando a 1,04 bilhão de reais. Desde que assumiu o banco, a equipe do BTG decidiu segurar parte das carteiras que tradicionalmente eram revendidas a outras instituições, aumentando a base de pagamento sustentável no longo prazo.

Em outra frente, o Pan conseguiu diminuir as despesas destinadas a cobrir perdas com inadimplentes em 9,4%, o que indica, segundo a instituição, uma melhoria na qualidade das novas safras de empréstimos concedidos.

Em relatório, Andre Riva Gargiulo e Gilberto Tonello, do GBM (Grupo Bursátil Mexicano), reconhecem que o banco resolveu os problemas de controle interno, alcançando a "memorável" marca de 3,5 bilhões de reais em originação de crédito no trimestre.

"Mas não podemos esquecer que o crescimento só foi possível decido a acordos celebrados com seus controladores", destacaram os analistas. No começo de 2011, a Caixa Econômica Federal - dona de 49% do capital social do banco - assumiu o compromisso de adquirir créditos do Pan sem coobrigação até o limite de 8 bilhões de reais.

O verde e amarelo usado pelo banco dará lugar às cores azul e laranja; 
sete endereços já abriram as portas reformados nesta quarta

Nos cálculos da equipe do GBM, o banco já teria negociado 5 bilhões de reais com o banco público até agora, sendo 1,3 bilhão de reais apenas no último trimestre. "No entanto, acreditamos que pelo fato de o acordo ser um dos principais motores de crescimento para o banco, os acionistas poderão estender esse limite", completaram Gargiulo e Tonello.

Virada
A mudança de nome do Pan acontece em um momento de euforia com as ações do banco. Do começo do ano até agora, a escalada foi de 27,7%. O Índice Financeiro, que reflete o desempenho de 13 empresas do setor, incluindo gigantes como Banco do Brasil e Itaú, avançou 4,5% nesse meio tempo.

A princípio, o Pan tinha o receio de jogar pelo ralo uma marca cujo reconhecimento foi assentado sobre a imensa popularidade de Silvio Santos. O PanAmericano integrou o conglomerado do apresentador até 2010. Silvio negociou parte da instituição com a Caixa Econômica Federal no fim de 2009. Para salvá-la, vendeu o controle ao BTG em uma operação orquestrada pelo Fundo Garantidor de Crédito (FGC) no começo do ano seguinte.

André Esteves, CEO do BTG, chegou a dizer publicamente que o peso do nome ter sido martelado por 20 anos na TV não poderia ser desconsiderado. Por outro lado, a alta cúpula do Pan também queria que o escândalo financeiro fosse enterrado de vez com a adoção de uma nova marca, estratégia que passou a fazer mais sentido depois da compra da Brazilian Finance & Real Estate, no final de 2011. A instituição tem parte de seus empréstimos imobiliários destinados à classe média-alta, um público que teria mais chances de ligar o PanAmericano ao passado nebuloso que à estima pelo dono do SBT.

Em comunicado, o Pan afirmou que a alteração foi levada a cabo depois de várias pesquisas serem realizadas com grupos de diferentes segmentos. "A opção pela marca Pan derivou da percepção favorável que o público final de produtos bancários mantém do PanAmericano", disse a instituição.

Segundo cronograma da companhia, 230 pontos de venda de um total de 300 unidades do Pan e da BM Sua Casa, bandeira de varejo da Brazilian Finance & Real Estate, serão modificados até setembro, o que deverá concluir a integração entre as duas redes.

O Pan acrescentou que iniciará um processo de qualificação dos funcionários das lojas para que haja a distribuição de todo o portfólio de produtos nas lojas do banco. Nesta quarta, sete endereços amanheceram com a nova marca, sendo quatro em São Paulo, e um nas cidades de Salvador, Rio de Janeiro e Brasília. 

Ministério da Fazenda anuncia subsídio à cana no Nordeste


Thiago Resende e Eduardo Campos
Valor


BRASÍLIA  - O Ministério da Fazenda confirmou que o governo concederá subsídio aos produtores nordestinos de cana. A subvenção será de R$ 12 por tonelada de cana. O custo da medida para o setor sucroalcooleiro é de R$ 125 milhões “e beneficiará 17 mil produtores”, informou o secretário-executivo substituto do Ministério da Fazenda, Dyogo de Oliveira, em entrevista coletiva na sede da pasta.

A região Nordeste está “passando um período de seca bastante severa e estima-se uma perda de 30% na produção”, afirmou Oliveira, justificando a medida.

O subsídio de R$ 12 por tonelada está limitado a 10 mil toneladas por produtor. “Isso corresponde a uma área de 200 hectares” plantada de cana, completou o secretário.

De acordo com Oliveira, para ter acesso ao subsídio, o pequeno produtor terá que comprovar junto à Conab a entrega do produto. “O subsídio visa manter receita do pequeno produtor rural”, destacou.

A medida será incluída como emenda em uma medida provisória já enviada ao Congresso Nacional ou então será editada uma nova medida provisória, explicou Oliveira.

Segundo Oliveira, o subsídio aos produtos do Nordeste não tem relação com o controle da inflação. A medida “é mais para atendimento da situação emergencial da seca” nos Estados. A maior parte da produção de cana de açúcar da região Nordeste é destinada à fabricação de açúcar, e não para etanol, lembrou ele.

VERGONHA: Três anos após incêndio, situação é precária no Butantã


Veja online
Com Estadão Conteúdo

Por falta de espaço, uma parte da coleção que foi resgatada do incêndio fica amontoada em uma varanda, exposta ao sol e à chuva e repleta de sujeira. Outra parte está guardada em um porão úmido e cheio de fungos

 (Estadão Conteúdo) 
Condições precárias do local onde estão sendo guardadas as milhares 
de cobras recebidas pelo Instituto Butantã nos últimos 3 anos

Três anos após o incêndio que destruiu o prédio das coleções biológicas do Instituto Butantã, os milhares de exemplares de cobras e aranhas que foram resgatados das chamas permanecem acondicionados em ambientes provisórios e, em alguns casos, inadequados, tanto para a preservação do acervo quanto para o trabalho dos pesquisadores que perderam seus laboratórios.

Um novo prédio — projetado especificamente para receber as coleções — já está pronto, mas ainda não foi inaugurado. Enquanto isso, os pesquisadores da herpetologia (ramo da ciência dedicado ao estudo dos répteis) continuam a trabalhar em uma casinha antiga, próxima ao prédio da diretoria, em condições precárias.

Por falta de espaço, uma parte da coleção que foi resgatada do incêndio fica amontoada do lado de fora da casa, em uma varanda coberta, porém exposta ao sol e à chuva e repleta de sujeira. Outra parte está guardada no canto de um porão úmido e cheio de fungos nas paredes, onde também estão estocados cerca de 6.000 animais recebidos pelo instituto e adicionados à coleção nos últimos três anos. As prateleiras estão lotadas.

"Nossas condições de alojamento são bastante precárias", diz o biólogo Francisco Franco, curador da coleção de répteis. Tanto que, até hoje, não foi feita uma triagem para saber de fato o que foi perdido e o que foi salvo no incêndio. "Assim que tivermos um espaço adequado, vamos fazer esse levantamento", promete.

Sua estimativa é de que cerca de 80% da coleção de cobras tenha sido perdida. O acervo era um dos maiores do mundo, com cerca de 85.000 exemplares de centenas de espécies coletadas ao longo dos 120 anos do instituto.

Improviso — 
A maior parte do que foi salvo do incêndio está em um outro prédio, conhecido como "fazendinha". O diretor substituto do Butantã, Marcelo de Franco, reconhece que as condições não são ideais, mas diz que elas atendem às necessidades básicas de segurança para manutenção provisória do acervo.

O prédio novo, segundo ele, está pronto. "Queremos entrar lá em julho, no mais tardar", afirma. O projeto é da Secretaria de Estado da Saúde, à qual o Butantã é vinculado. Segundo o diretor da Divisão de Engenharia e Arquitetura do instituto, Mauricio Meros, o projeto já foi aprovado pelo Corpo de Bombeiros, faltando só o treinamento dos brigadistas e alguns testes de comissionamento dos sistemas anti-incêndio.

Franco, o curador, está ansioso para ocupar o prédio, que é maior e muito mais moderno do que o anterior — que era, essencialmente, um galpão improvisado. "Finalmente teremos instalações adequadas para nossas coleções", comemora. Ele lamenta, porém, a demora para a inauguração. "Prometeram entregar o prédio em um ano. Já se passaram três."

Segundo o diretor substituto, o atraso foi "por causa da licitação da parte de segurança" do prédio, que terá sistemas sofisticados de prevenção e combate a incêndios.

Futuro — 
De acordo com informações da Secretaria de Saúde, o prédio tem 1.600 metros quadrados e custou 5,5 milhões de reais, incluindo os equipamentos e sistemas de segurança. A área onde ficarão as coleções é totalmente isolada dos outros ambientes e o acervo ficará dividido em sete salas também isoladas umas das outras, para evitar uma perda total em caso de acidente.

A cana vai voltar a crescer?


Fabio Meneghin e André Nassar (*)
O Estado de SPaulo

 O setor sucroenergético voltou às manchetes com as recentes medidas anunciadas pelo governo federal. Alguma atenção tem sido dada também ao setor por causa dos déficits de caixa enfrentados pela Petrobrás, fruto da crescente importação de gasolina. Estamos no início da safra 2013/14 de cana-de-açúcar, momento ideal para se fazer um balanço do que vem pela frente esse ano.

De 2007 a 2012, 41 usinas deixaram de moer cana e produzir açúcar e etanol e mais 12 poderão parar nesta safra. A informação assusta não só leigos no assunto, mas também os analistas mais experientes do setor. Mas é preciso compreender de maneira mais clara esse problema e ver que ele é a consequência de um ciclo que se encerra.

Nas safras 2007/08 e 2008/09, o setor sucroenergético brasileiro operou com rentabilidades negativas em razão dos baixos preços do açúcar e do etanol. E já é de conhecimento geral que a crise financeira mundial, que estourou em setembro de 2008, minou o crédito dos bancos. Naquele momento boa parte do setor vinha com elevadas taxas de endividamento em função de novos investimentos, sobretudo em áreas de cana-de-açúcar e usinas novas. A combinação de margens negativas e escassez de crédito, num setor que vinha sendo custeado por crédito, levou à forte redução da taxa de renovação dos canaviais, elevando sua idade média, e dos tratos culturais. Tudo isso se refletiu nas safras seguintes, com queda da produtividade agrícola e o consequente aumento dos custos relativos.

O setor está voltando a recuperar o fôlego. Após quatro safras marcadas pela produtividade em queda e pouca competitividade do etanol, ele sobreviveu até o ano passado por causa dos preços mais elevados do açúcar. Como se não bastasse, coube ao governo federal tomar decisões que tiraram toda a atratividade para novos investimentos de um setor já bastante combalido, como a redução da mistura de etanol anidro de 25% para 20%, que vigorou entre abril de 2011 e abril de 2013, e a retirada de impostos da gasolina, que beneficiou o consumo do combustível fóssil.

Analisando as usinas que encerraram as atividades, nota-se que a maioria é composta por plantas de pequeno porte, antigas e altamente dependentes do etanol hidratado. E também que várias delas têm como vizinhos grandes grupos que nos últimos anos se tornaram mais fortes com aportes de capital de petrolíferas, tradings e até grandes construtoras. A rigor, o fechamento das usinas que financeiramente não tinham mais alternativas levou a uma transferência de cana-de-açúcar para usinas maiores e mais eficientes, num movimento natural de acomodação e consolidação do mercado.

Mesmo com o fechamento dessas unidades, a área plantada de cana-de-açúcar nunca deixou de crescer (4,8% ao ano de 2007 a 2012). O que, sim, foi ajustado na marra foi a moagem de cana, dada a queda na produtividade - mais de 10% em 2011.

O crédito começou a voltar em 2010 e os grupos mais estruturados puderam reerguer-se e consolidar outros menores. Na safra 2012/13 o setor efetivamente começou a recuperar-se do forte tombo. Linhas de crédito do BNDES para renovação dos canaviais, os elevados preços do açúcar e o mercado norte-americano de etanol aberto estimularam uma recuperação das margens, com melhor produtividade média dos canaviais, e o Brasil voltou a ser grande exportador de etanol. Embora os preços atuais do açúcar não estejam convidativos, 2012 pode ter sido o último ano do ciclo da recente crise do setor sucroenergético.

A volta da mistura de 25% de etanol anidro na gasolina pode soar como medida paliativa. Mas é essencial para elevar a demanda doméstica de etanol em 2 bilhões de litros, equivalentes a 25 milhões de toneladas de cana ou 310 mil hectares, e ainda dá um alívio no caixa da Petrobrás, reduzindo a necessidade de importação de gasolina A. Tal medida também representa um faturamento de R$ 2,43 bilhões a mais para as empresas do setor. Não deixa, no entanto, de ser paliativa porque é insuficiente para recuperar a rentabilidade do setor na safra em início.

Para estimular o etanol hidratado e reduzir as perdas da Petrobrás o governo iniciou, após oito anos, o processo de correção de preços da gasolina ao consumidor. O aumento de 6,6% concedido em fevereiro foi tímido se comparado aos 23% da defasagem internacional registrada no início do ano, mas o setor encarou-o como um bom começo.

O setor ainda carece de maior segurança para voltar a investir. Falta uma definição mais objetiva da participação do etanol na matriz energética do futuro: se ele será um mero carburante misturado à gasolina ou se abastecerá diretamente os motores de ciclo Otto. A novidade, embora tardia, é a isenção integral do PIS/Cofins (R$ 0,12/litro), que poderá auxiliar na retomada da competitividade do etanol hidratado nos principais Estados consumidores. É um alívio, vai dar fôlego à renovação dos canaviais e à expansão dos projetos já construídos, mas é claramente insuficiente para atrair investimentos em novas usinas.

Não são muitas as alternativas para criar as condições necessárias para que um novo ciclo de crescimento ocorra. Todas elas precisam ser pensadas e implementadas nesta safra, uma vez que a moagem de cana já utilizará cerca de 90% da capacidade instalada disponível. A primeira é a adoção de medidas para dar maior transparência à formação de preços da gasolina, tanto na refinaria quanto ao consumidor. Um sistema de mercado livre ou baseado em bandas ou médias móveis seria um grande avanço. A segunda é uma explícita diferenciação tributária entre o etanol e a gasolina, que garanta ao menos a diferença energética entre os dois produtos em favor do biocombustível.

(*)  Fabio Meneghin e André Nassar são consultores da Plataforma Agro

Governo retifica Medida Provisória que desonera álcool


Exame.com
Luci Ribeiro, Estadão Conteúdo

As correções abrangem trechos dos artigos 5º e 6º e alteram basicamente a redação sobre insumos do setor contemplados na desoneração de PIS/Cofins

Lia Lubambo/EXAME.com 
O governo federal publicou nesta quinta-feira, retificação na Medida Provisória nº 613,
 editada na semana passada com incentivos tributários para álcool e indústria química

Brasília - O governo federal publicou nesta quinta-feira, 16, 'Retificação' na Medida Provisória nº 613, editada na semana passada com incentivos tributários para álcool e indústria química.

As correções abrangem trechos dos artigos 5º e 6º e alteram basicamente a redação sobre insumos do setor contemplados na desoneração de PIS/Cofins.

A retificação não inclui mudanças nas alíquotas.

O novo texto, por exemplo, substitui em alguns pontos o termo 'centrais petroquímicas' por 'indústrias químicas'.

A íntegra da retificação pode ser acessada no Diário Oficial da União (DOU).

O colapso do sistema prisional


O Estado de S.Paulo

A falta de vagas no sistema prisional para o cumprimento de pena em regime semiaberto está levando os juízes a autorizar condenados a cumprir a pena em casa. Na prática, a decisão põe em liberdade o condenado que poderia trabalhar de dia, passando a noite, no entanto, num estabelecimento penal. Como essa prática pode colocar em risco a segurança pública, já que a taxa de reincidência criminal no País é alta, o Ministério Público do Rio Grande do Sul decidiu recorrer ao Supremo Tribunal Federal (STF). O caso levado à Suprema Corte do País é o de um ladrão cuja pena foi convertida em prisão domiciliar, por falta de vagas no semiaberto do sistema prisional gaúcho.

O réu foi condenado em primeira instância a 5 anos e 8 meses de prisão em regime semiaberto. O Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul confirmou a sentença, mas determinou que a pena fosse cumprida em regime domiciliar, caso não houvesse vaga em prisão destinada ao semiaberto. Alegando que o precedente poderia se aplicar a "situações como um estuprador que ataca uma família ou um traficante que passa a traficar em sua casa", o Ministério Público recorreu aos tribunais superiores. Alegou ainda que a decisão da Justiça gaúcha dissemina insegurança jurídica, uma vez que autores de crimes semelhantes poderão receber tratamentos diferentes "se morarem em cidades que tenham ou não vagas". Se o STF confirmar a decisão da Justiça, 23 mil presos poderão pleitear o cumprimento de pena em casa.

O déficit de vagas é um problema crônico do nosso sistema prisional. Entre 1994 e 2009, o número de prisões triplicou, passando de 511 para 1.806. Mas, pelos dados do Sistema de Informações Penitenciárias, do Ministério da Justiça, as penitenciárias de segurança máxima, os presídios do regime semiaberto e as demais unidades penais estaduais e federais do País têm 310 mil vagas e abrigam 548 mil presos - um déficit de 238 mil vagas.

O recurso impetrado pelo Ministério Público gaúcho é tão importante que o STF já reconheceu a repercussão geral do caso. Introduzido na legislação processual pela Emenda Constitucional n.º 45, a repercussão geral é um instrumento jurídico que permite ao STF selecionar - de acordo com critérios de relevância social, política ou econômica - os recursos extraordinários que irá julgar. Uma vez declarada a repercussão geral de uma determinada matéria, a Corte analisa o mérito da questão e a decisão consequente tem de ser aplicada por todas as instâncias inferiores do Judiciário, em casos idênticos.

O colapso do sistema prisional mostra o irrealismo de alguns aspectos do debate sobre os meios de conter a expansão da criminalidade no País. Algumas entidades defendem o aumento no rigor das penas, esquecendo-se de que não faz sentido ampliar o tempo da condenação quando não há prisões em número suficiente para abrigar tantos presos. Outras entidades e movimentos sociais defendem a tese da "humanização da pena" e políticas de "ressocialização dos apenados", esquecendo-se, igualmente, de que o sistema prisional carece, além de condições de vida digna, de escolas profissionalizantes e atendimento individual.

Diante da gravidade do problema, há um mês o governo federal anunciou que lançaria até o final de maio um plano para descongestionar o sistema prisional, estimulando a aplicação de penas alternativas nos crimes com menor grau de violência. O governo também quer firmar um pacto com os demais Poderes, para modernizar a gestão das penitenciárias, capacitar os agentes penitenciários, melhorar as condições de vida nesses locais e inaugurar 42 mil vagas em presídios até o segundo semestre de 2014 - período que coincide com a campanha eleitoral. Mas, até agora, não há informações sobre o montante de investimentos e a fonte dos recursos. A única informação do governo é de que usará projetos já em andamento na Câmara e no Senado para implementar o pacto. O que o governo vai fazer, em outras palavras, é anunciar como novidade promessas anteriores que até hoje não foram cumpridas.

Decisão do STF pode mandar 23 mil detentos para casa


Exame.com
Elder Ogliari (*), Estadão Conteúdo

No Rio Grande do Sul, um ladrão foi mandado para casa por falta de vaga no regime semiaberto

Marcos Santos/USP Imagens 
 A falta de vagas em presídios do País para o cumprimento de pena em 
regime semiaberto tem feito juízes mandar detentos para prisão domiciliar

Porto Alegre - A falta de vagas em presídios do País para o cumprimento de pena em regime semiaberto tem feito juízes mandar detentos para prisão domiciliar.

O Supremo Tribunal Federal (STF) vai julgar recurso de processo iniciado no Rio Grande do Sul - um ladrão foi mandado para casa por falta de vaga no semiaberto. Com a decisão, os ministros vão orientar a conduta de juízes em casos semelhantes.

A repercussão geral do caso já foi reconhecida pelos ministros do STF e, se mantida a decisão favorável ao condenado, mais de 23 mil presos que hoje cumprem pena no fechado, de forma inadequada, poderão solicitar o benefício de ficar em casa.

O caso é tão complexo que, antes da decisão, será debatido em audiência pública convocada pelo relator, ministro Gilmar Mendes, nos dias 27 e 28. Devem participar entidades da advocacia, da magistratura e do Ministério Público.

A posição do STF também vai orientar juízes quando confrontados com casos semelhantes ao do recurso gaúcho, que trata de um ladrão que roubou R$ 1,3 mil e um celular, com agressão física, em dezembro de 2001.

Ele foi condenado a 5 anos e 8 meses de prisão em regime semiaberto - com execução de pena em colônia agrícola, industrial ou similar.

Depois da decisão de primeiro grau e dos recursos da defesa e do Ministério Público Estadual (MPE), o Tribunal de Justiça (TJ-RS) confirmou a decisão do juiz e determinou que a pena fosse cumprida em regime domiciliar se não houvesse vaga no semiaberto.

Mais recursos
Por entender que o benefício era inadequado, o MPE levou o caso aos tribunais superiores em 2009.

No Superior Tribunal de Justiça (STJ), foi questionada a interpretação da Lei de Execuções Penais feita pela 5.ª Câmara Criminal do TJ-RS, que, no julgamento do recurso, determinara que a pena fosse cumprida em regime domiciliar caso não houvesse vagas nos estabelecimentos prisionais destinados ao condenado ao semiaberto.

O assessor da Procuradoria de Recursos do MPE, João Pedro de Freitas Xavier, criticou a decisão e disse que não caberia ao juiz dizer, na sentença, se o cumprimento da pena, por falta de vagas no semiaberto, seria em domicílio. "É um assunto do juiz (das Varas) de Execuções", diz Xavier.

O recurso ao STF discute a individualização da pena sob as exigências do artigo 5.º da Constituição, que diz que "a pena será cumprida em estabelecimentos distintos, de acordo com a natureza do delito, a idade e o sexo do apenado".

O MPE gaúcho entende que o princípio foi violado pela condenação ou transferência para o domiciliar por falta de vaga no semiaberto.

Os promotores também se dizem preocupados com o uso generalizado do regime domiciliar por outras motivações, como o condenado passar a ficar em casa, com a obrigação de se apresentar a um juizado estabelecido na sentença. Eles acreditam que o condenado poderá se sentir livre para voltar ao crime.

"Sustentamos que a massificação não atenta para a gravidade de situações como um estuprador que atentou contra a família ou um traficante que volta a traficar em sua casa", diz Xavier. "Além disso, autores de crimes semelhantes poderão ter tratamentos diferentes se morarem em cidades que tenham e não tenham vagas."

(*) Colaborou Bruno Paes Manso

O preocupante aumento da venda de armas de fogo


Editorial
O Globo

Ao completar dez anos de vigência, o Estatuto do Desarmamento precisa de um balanço crítico, para se evitar retrocessos que gerem mais violência

A aprovação do Estatuto do Desarmamento, em 2003, e a convocação da primeira Campanha do Desarmamento, no ano seguinte, foram um marco na luta contra a violência no país. Logo em seguida à adoção da lei orgânica sobre armas de fogo, e no curso da entrega voluntária de armamentos, registraram-se notáveis quedas nos indicadores de homicídios em todo o país.

Isso evidencia que há uma ligação direta entre o número de assassinatos com a quantidade de armas em circulação. Ao longo destes dez anos em que vigoram critérios mais rígidos e restritivos para a aquisição de armamento, o Brasil logrou melhorar — ainda que se mantenha longe do nível ideal — a relação de assassinatos por grupos de cem mil habitantes, a medida adotada pela ONU para avaliar o grau de violência nos países membros. Em 2003, a proporção era de 28,9/100 mil, e hoje, ainda que com pontuais variações de patamar, gira em torno dos 20,3/100 mil — o dobro do aceitável pela ONU.

É preocupante, portanto, a constatação de que voltou a ser ascendente a curva de novas autorizações (concedidas, por determinação do Estatuto, pela Polícia Federal) para a aquisição de armas de fogo. Logo após a aprovação da lei, a média de licenças girava em torno de 7 mil por ano; desde 2007, onde se localiza o ponto de inflexão, para cima, da linha de registros de novas armas, houve um incremento de 378% de permissões da PF. Em 2012, o total de registros expedidos foi de 31,5 mil, número bem superior ao nível pré-desarmamento. Em torno de 60% dessas licenças são para civis.

Apesar de serem licenças para a compra de armas no mercado legal, com destinação supostamente sob controle das autoridades, a tendência de alta exponencial das autorizações é inquietante, por diversas razões. Uma delas é que a CPI das Armas mostrou, em 2005, que a maior parte do arsenal que abastece as quadrilhas do crime organizado do país provém de desvios do mercado legal. No Brasil, há 8 milhões de armas legais em circulação; estima-se que exista um número igual na clandestinidade. Ainda que nem toda arma legal vá para a criminalidade, é razoável supor que, num universo de 8 milhões, seja considerável o reforço de armamento que, por meios enviesados, saem das lojas para as mãos dos bandidos. Causa apreensão também a constatação de que o Brasil é um dos países em que mais se mata com arma de fogo. E 70% dos homicídios são cometidos desta forma.

Aos 10 anos, o Estatuto ainda é um importante instrumento contra a violência. A aparente falta de fôlego atual não se deve a uma concepção equivocada, mas à ausência de ações do poder público, como fiscalização e apoio às campanhas para entrega voluntária de armas. Uma década é tempo suficiente para uma lei como essa, que trata de um fenômeno dinâmico, passar por uma revisão crítica, nos moldes da defendida pela Comissão de Segurança Pública da Câmara. A providência é inadiável.

Ouvidoria constata degradação e abusos em prisões do Brasil

Luis Kawaguti
BBC Brasil 

"Há abuso de poder e muitos castigos desproporcionais. Já soubemos de presos que por terem levantado a cabeça - quando deveriam estar com ela abaixada – perderam o direito de receber visitas por 30 dias." - Valdirene Daufemback, ouvidora

Ouvidoria encontrou problemas estruturais em 70% das prisões inspecionadas em 2012

Relatórios da ouvidoria do Depen (Departamento Penitenciário Nacional) constataram indícios de irregularidades como degradação de instalações, abusos contra presos, superlotação, falhas no atendimento de saúde e falta de segurança em 56 inspeções realizadas em unidades prisionais brasileiras no ano de 2012.
Os problemas foram encontrados em presídios, penitenciárias, colônias agrícolas, hospitais de custódia, entre outras unidades, inspecionados nos Estados do Acre, Alagoas, Espírito Santo, Goiás, Mato Grosso, Pará, Paraíba, Piauí e Rio Grande do Sul. As unidades inspecionadas representam menos de 5% do total do país.

Em 70% delas (38), técnicos do governo federal e representantes do Judiciário constataram rachaduras e infiltrações em paredes, além de fiações aparentes, celas sem ventilação e problemais hidráulicos nos edifícios prisionais – muitos deles construídos há décadas.

Uma das irregularidades estruturais mais evidentes foi constatada pelos técnicos no Presídio Regional de Patos, na Paraíba, onde a urina produzida por presos de uma unidade masculina gotejava nas celas do pavimento inferior – onde dormiam detentas com crianças recém-nascidas.

Sobre outra unidade do mesmo Estado, o "complexo 'Serrotão'", na região do município de Campina Grande, os técnicos disseram que o local "fica ao lado de uma pedreira e, sempre que há explosões nela, as paredes das celas trincam, eis que são muito frágeis e velhas".

Em 15 das unidades, os problemas estruturais se somavam à ausência de um plano de combate a incêndios e à falta de extintores.

O problema da superlotação foi encontrado em mais da metade das instalações investigadas (30). O Depen estima que há hoje um déficit nacional de quase 240 mil vagas no sistema prisional.

Além da falta de espaço físico, os relatórios revelaram também que não há número suficiente de camas e colchões em bom estado em ao menos 33% (19) das prisões inspecionadas. Nelas, os técnicos encontraram colchões sujos e deteriorados a ponto de favorecer a proliferação de insetos e doenças.

Maus-tratos e tortura
Em cerca de 20% (11) das unidades prisionais inspecionadas foram encontrados indícios de maus-tratos ou da prática de tortura contra detentos por agentes prisionais.

Entre eles estavam hematomas nos corpos de presos, denúncias verbais feitas pelos detentos e marcas de tiros de borracha encontradas dentro das celas (munição não-letal não pode ser disparada a curta distância, e a maioria das celas não tem mais de quatro metros de comprimento).

Segundo uma denúncia coletada pela equipe, em Alagoas, uma equipe especial da Polícia Militar teria entrado em uma penitenciária do Estado e obrigado um grupo de presos a ficar nu no pátio da unidade. Lá, eles teriam sido agredidos por cerca de três horas com chutes, choque, gás de pimenta, cães, balas de borracha – além de violência psicológica.

Na mesma unidade, os técnicos encontraram detentos com diversas marcas pelo corpo. Autoridades locais negaram que os hematomas tivessem sido produzidos por seus agentes.

A ouvidora Valdirene Daufemback disse à BBC Brasil que denúncias de maus-tratos chegam ao órgão a partir de todas as regiões – não apenas das unidades inspecionadas em 2012.

"Há abuso de poder e muitos castigos desproporcionais. Já soubemos de presos que por terem levantado a cabeça - quando deveriam estar com ela abaixada – perderam o direito de receber visitas por 30 dias", disse.

Uma dessas denúncias foi recebida durante a visita à Penitenciária Doutor Romeu Gonçalves de Abrantes, na Paraíba. Dois detentos afirmaram ter sido punidos por cantarolar enquanto lavavam um banheiro – contrariando a proibição dada por um agente prisional.

Como castigo, teriam sido enviados para uma cela de isolamento, onde teriam permanecido cinco dias – saindo apenas ao iniciar uma greve de fome. "O local deste isolamento estava imundo, tantas larvas ali havia que eles podiam encher as mãos", diz um dos relatórios de visita.

Em uma unidade feminina do mesmo Estado, segundo denúncia da Pastoral Carcerária, uma detenta teria sido mantida por três dias algemada com as mãos para cima em um ambiente onde fazia forte calor. Menstruada durante esse período, ela não teria tido direito ao acesso a absorventes íntimos.

Segundo o juiz Luciano Losekann, do CNJ (Conselho Nacional de Justiça), atualmente a maior parte dos casos de maus-tratos e torturas são registrados dentro de estabelecimentos prisionais, mas eles são difíceis de se investigar.

"Muitas denúncias não vêm à tona, não chegam a juízes e promotores. Quando eles ficam sabendo já passou muito tempo e é difícil obter provas", disse.

Acesso à Justiça
Também foram encontradas nas visitas falhas de segurança ou deficit de agentes prisionais em 17 unidades.
Indícios de problemas no atendimento de saúde, como falta de médicos e instalações adequadas, foram encontrados em 25% (14) das unidades visitadas. Falta de higiene, presença de insetos e ratos ou acúmulo de lixo foram constatados em 23% (13) dos casos.

Queixas sobre lentidão da Justiça e falta de acesso a advogados ou defensores públicos – para revisão de processos ou obtenção de benefícios da progressão penitenciária – foram relatadas em 32% (18) das unidades.

Muitos detentos relataram estar presos por muitos anos sem ter direito à progressão penitenciária. No Pará, foi encontrado por exemplo o caso de um detento surdo, preso em um hospital de custódia desde 2009. Ele não foi submetido a um teste que avaliaria sua periculosidade por não haver nenhum intérprete disponível.

Os relatórios analisados pela BBC Brasil foram divulgados publicamente pelo Ministério da Justiça. Inspeções ocorridas em unidades prisionais de outros dois Estados em 2012 ainda não foram divulgados pelo governo federal.

Operação da PF combate tráfico de pessoas em obras do Minha Casa


Alana Rizzo 
O Estado de S.Paulo

Empresa aliciaria trabalhadores de Bangladesh para prestar serviços a empreiteira do programa do governo federal; quadrilha cobraria até US$ 10 mil pela imigração ilegal

Brasília - A Policia Federal deflagrou nesta quarta-feira, 15, a Operação Liberdade para coibir o tráfico de pessoas em obras do programa Minha Casa Minha Vida. Segundo as investigações, trabalhadores de Bangladesh eram recrutados por uma empresa que prestava serviços para uma das empreiteiras do programa do governo federal.

A quadrilha aliciava os trabalhadores com falsas promessas de salário US$ 1 mil a US$ 1.500 e cobravam até US$ 10 mil pela imigração ilegal.

A PF realiza buscas nas residências dos investigados e nos alojamentos dos estrangeiros. Os policiais vão cumpri 14 mandados judiciais expedidos pela Justiça Federal de Brasília.

Investigação põe ministro da Saúde na mira da Procuradoria


Alana Rizzo 
O Estado de S.Paulo

Gurgel analisa abertura de inquérito sobre convênios assinados por Alexandre Padilha em 2004, quando comandava a Fundação Nacional de Saúde

Brasília - O procurador-geral da República, Roberto Gurgel, avalia a abertura de um inquérito para investigar suspeitas de irregularidades na Fundação Nacional de Saúde (Funasa) que envolvem o ministro Alexandre Padilha, um dos nomes do PT cotados para disputar o governo do Estado de São Paulo nas eleições do ano que vem.

Dois convênios da Universidade de Brasília (UnB) com o Departamento de Saúde Indígena firmados em 2004 são alvo da investigação. Naquela época, Padilha comandava o órgão da Funasa e teria mantido repasses de dinheiro público para a UnB mesmo após a identificação de fraudes nos serviços.

"O atual contexto probatório dos autos indica que Alexandre Padilha possuía significativo poder de decisão sobre a política de terceirização da Funasa por via de convênios e que, efetivamente, em uma reunião ocorrida na Casa Civil da Presidência da República, foi decidida a manutenção do convênio, nada obstante as notícias de irregularidades, inclusive de falta por inexistência de serviços pelos quais houve o pagamento resultando num prejuízo de pelo menos R$ 300 mil", afirma relatório do Ministério Público no Distrito Federal.

Em novembro de 2011, quando os procuradores concluíram que havia indícios suficientes contra Padilha, o caso acabou remetido para a Procuradoria-Geral da República, pois o petista já era ministro da Saúde e tinha prerrogativa de foro.

A base da investigação é um relatório de auditoria que mostra os desvios nos convênios de saúde indígena e a terceirização dos contratos para as fundações de apoio vinculadas à UnB.

A auditoria mostra que não há comprovação da prestação dos serviços, a realização de despesas em desacordo com o contrato e gastos sem licitação.

O documento associa o agora ministro a um "complexo esquema voltado para o desvio de verbas públicas da Funasa, por intermédio de convênios e subcontratações de fundações" e que foram feitos para driblar a Lei de Licitações. O suposto esquema envolvia uma triangulação com a Fundação Universidade de Brasília (FUB), destinatária final do dinheiro.

Erenice. 
Também foram ouvidas 19 pessoas, entre elas Padilha e a ex-ministra da Casa Civil Erenice Guerra. O ministro é citado no depoimento de Paulo de Tarso Lustosa da Costa, ex-diretor da Funasa. Segundo ele, Padilha assinou relatórios de avaliação atestando as condições satisfatórias dos convênios. Lustosa também relata detalhes de uma reunião na Casa Civil em que Padilha e Erenice teriam designado a manutenção do convênio, mesmo com a comprovação das irregularidades.

Em outro depoimento, Otto Lamosa Berger, então diretor de Planejamento da Funasa, afirmou que "a pessoa ideal para explicar o sistema de terceirização da Funasa é o sr. Alexandre Padilha". Entre meados de 2004 e 2005, o Departamento de Saúde Indígena da Funasa estava sob o comando do atual ministro da Saúde. Os documentos mostram que Padilha pleiteou recursos, chancelou contas e aprovou a execução física dos contratos que, segundo a Procuradoria da República no Distrito Federal, causaram prejuízo aos cofres públicos e à saúde da população indígena.

Para o Ministério Público Federal, não havia amparo legal para a assinatura desses convênios porque não se referiam a ações de projetos de pesquisa, ensino e extensão e desenvolvimento institucional, base das atividades das fundações de apoio universitárias.

"Não é crível e foge a qualquer raciocínio lógico imaginar que a FUB, sediada nesta capital federal, teria condições técnicas e finalidade institucional para desenvolver todas as ações de saúde indígena demandadas pelas comunidades xavante e ianomâmi", afirmam os procuradores do Distrito Federal que investigaram o caso até agora. 

CFM vai entrar com representação contra Padilha, Mercadante e Patriota


André de Souza
O Globo

O objetivo do Conselho é impedir a adoção de medidas que facilitem a contratação de médicos formados no exterior

BRASÍLIA — O Conselho Federal de Medicina (CFM) vai entrar com uma representação na Procuradoria-Geral da República (PGR) contra os ministros Alexandre Padilha (Saúde), Aloizio Mercadante (Educação) e Antonio Patriota (Relações Exteriores). O objetivo do Conselho é impedir a adoção de medidas que facilitem a contratação de médicos formados no exterior para trabalharem no Brasil. A representação ainda não foi concluída, mas deverá estar pronta ainda nesta quinta-feira.

O governo federal, por meio dos três ministros, vêm defendendo, com o apoio de entidades que representam os municípios, a contratação de médicos estrangeiros. O objetivo, diz o governo, é suprir a carência desses profissionais nas regiões mais pobres do país, como o interior e a periferia das grandes cidades. O presidente do CFM, Roberto d'Ávila, quer que a Procuradoria Geral da República (PGR) busque esclarecimentos e informações sobre o que o governo realmente pretende.

- Essa é a primeira medida, porque estamos preparando outras medidas judiciais, até mesmo uma Adin (Ação Direta de Inconstitucionalidade) no futuro se efetivamente o governo federal insistir nessa sandice, nessa irresponsabilidade de trazer médicos sem diploma. Vamos até as últimas consequências, porque não aceitamos medicina de segunda - afirmou o presidente do CFM.

O CFM é contra e diz que o problema no Brasil não é o número de médicos, mas sua distribuição pelo país. Segundo o Conselho, os médicos formados no exterior também tendem a se concentrar nos grandes centros, ou seja, sua vinda ao Brasil não resolveria a questão da falta de médicos nas regiões mais pobres. O Conselho também reclama da falta de diálogo do governo para tratar da questão.

Na segunda-feira da semana passada, Patriota afirmou que o governo brasileiro poderá trazer seis mil médicos de Cuba para minimizar o déficit desses profissionais no país. O CFM reagiu e ameaçou entrar com as medidas jurídicas cabíveis.

No dia seguinte, Alexandre Padilha, descartou algumas medidas, como a revalidação automática do diploma, e a atração de médicos de países em que esses profissionais sejam mais escassos, como é o caso da Bolívia e do Paraguai. Mas voltou a defender a vinda de médicos estrangeiros ao Brasil, citando especificamente Espanha e Portugal, países que já estavam na mira do governo federal.

Na terça-feira desta semana, em audiência público no Senado, Mercadante defendeu que médicos estrangeiros trabalhem no Brasil. Mas afirmou que a medida deve ser de caráter provisório, pelo período de até três anos, como forma de suprir a falta de médicos. Ele também afirmou que o governo pode "calibrar" o Revalida, o exame pelo qual os formados no exterior precisam passar para atuar no Brasil.

As declarações de Mercadante foram criticadas pelo presidente do CFM.

— O Brasil seria o único país do mundo com um tutor para os médicos. Eles então aprenderiam medicina e português com o tutor por três anos. Depois fariam o Revalida. Mas atenderiam a população nesses três anos. Isso não aceitamos — disse o presidente do CFM, que também interpretou a intenção de calibrar o exame como uma possível diminuição da nota de corte: — Se houver qualquer tentativa de recalibrar para baixo, a gente vai à Justiça.

Em 2012, segundo dados do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep), 884 médicos formados no exterior passaram pelo Revalida. Deles, 77 foram aprovados. Dos que tentaram, a maioria — 411 —se formou na Bolívia, mas apenas 15 (3,65%) passaram. Em segundo lugar vem Cuba, com 182 formados, dos quais 20 (10,99%) obtiveram sucesso.

Por nacionalidade, mais da metade é de brasileiros — 560 — que se formaram em outros países e voltaram para cá. Em seguida vêm os bolivianos (156), peruanos (39) e colombianos (30). Entre os brasileiros, apenas 42 tiveram o diploma revalidado.

Lula, o peão das “zelite”, negocia exploração de potássio pela Vale na Argentina


Cesar Felício 
 Valor

BUENOS AIRES, ARGENTINA - O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva entrou nas negociações a respeito do destino do projeto de exploração de potássio do rio Colorado, na província argentina de Mendoza, que foi suspenso por tempo indeterminado pela mineradora Vale, em março. Lula e o governador de Mendoza, Francisco Pérez, discutiram o tema por meia hora nesta quarta-feira, logo que o ex-presidente chegou à cidade argentina, no fim da tarde. Segundo disse Pérez ao "Diario Uno" de Mendoza, Lula e a presidente Dilma Rousseff "fazem parte da mesma equipe".

O projeto do rio Colorado era o maior empreendimento privado da Argentina, com um orçamento inicial de US$ 6 bilhões. Alegando aumento de custos, a Vale suspendeu o empreendimento, provocando grande irritação no governo argentino. O assunto foi discutido por Dilma e pela presidente Cristina Kirchner na visita que a brasileira fez a Buenos Aires, no último dia 25. Na ocasião, segundo afirmou posteriormente o assessor internacional da presidência, Marco Aurélio Garcia, Cristina expôs a Dilma uma proposta formal que teria feito à Vale para que o empreendimento fosse retomado. No mesmo dia, porém, a empresa sinalizou que não tem interesse em prosseguir com a empreitada.

Lula deu na noite de quarta-feira uma palestra fechada para cerca de 500 executivos na bodega Los Toneles, paga pela empresa Telefónica. De acordo com o portal "Mendoza On Line", o ex-presidente teria recebido 180 mil euros pela sua participação no evento.

O ex-presidente estará nesta quinta-feira em Buenos Aires, para a inauguração de uma universidade criada por sindicatos, em um evento que terá a participação de Cristina. Depois do evento, Lula vai jantar com a presidente argentina na Casa Rosada. O governador de Mendoza disse que também viajará a Buenos Aires para tratar da Vale com Cristina.

Nesta sexta-feira, Lula vai ao Congresso da Argentina para receber títulos de doutor "honoris causa" de diversas universidades do país.

Brasil fará campanha para mostrar aos haitianos os riscos da imigração ilegal


Marcelo Brandão
Agência Brasil


Brasília - Em reunião realizada nesta quarta-feira (15), em Brasília, Brasil e Haiti se comprometeram a realizar campanhas de esclarecimento aos haitianos sobre os riscos da imigração ilegal. Nas campanhas,  serão destacados os benefícios das vias legais de imigração. Representantes da Bolívia, Colômbia, do Equador, Peru e da República Dominicana também estiveram na reunião e concordaram em cooperar com a medida, uma vez que as rotas alternativas passam por esses países.

Para estimular o uso de rotas legais de imigração, a campanha lembrará os custos e riscos de entrar no Brasil ilegalmente. Também será mencionado o fim do limite anual para emissão de vistos a haitianos que desejam entrar no Brasil, conforme Resolução Normativa 102/2013 do Conselho Nacional de Imigração.

Os países participantes também concordaram em trocar informações sobre as rotas alternativas utilizadas por redes criminosas de imigração. O Ministério da Justiça, a Polícia Federal e a Agência Brasileira de Inteligência estiveram presentes para discutir a questão. Nenhum acordo, no entanto, foi assinado no encontro.

Edição: José Romildo

Indústria brasileira perde espaço na Europa


Valor online
Com Estadão Conteúdo

Exportações de produtos industrializados para região tiveram queda de mais de 20% no primeiro trimestre deste ano

(Germano Luders) 
Produtos manufaturados foram os que mais pesaram na queda 
de 11,5% das exportações nos três primeiros meses de 2013 

Dados compilados pela Comissão Europeia e pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior mostram que a indústria brasileira perde cada vez mais espaço na Europa. No primeiro trimestre, a exportação de produtos manufaturados para a região sofreu queda de quase 20%, redução que só se equipara à queda de 22% em 2009, o pior ano do comércio global em 70 anos.  Já as exportações de produtos básicos tiveram uma redução de 9%. No total, a venda para Europa teve uma retração 11,5%, ante igual período de 2012, acentuando o movimento de queda, que no ano passado foi de 7,7%.

O ápice da exportação brasileira para a Europa foi registrada em 2011, com vendas de 52 bilhões de dólares, valor cinco vezes superior ao registrado em 1990. Mas grande parte dessa expansão ocorreu graças ao aumento dos preços de commodities. Pelos números da Comissão Europeia e do Ministério, o déficit comercial do Brasil com os europeus chegou a 1,8 bilhão de dólares no primeiro trimestre. Se a tendência for mantida no restante do ano, 2013 deve reverter 14 anos de balança comercial positiva. O ano ainda caminha, além disso, para acumular o pior déficit comercial brasileiro com o seu maior parceiro desde que os dados começaram a ser compilados, em 1989. A recessão no mercado europeu, a decisão de governos e empresas de fecharem as torneiras e não investir e a queda acentuada no consumo de famílias foram fatores que acabaram contaminando o Brasil.

Receio — 
O que mais preocupa autoridades no Brasil é que o déficit não é registrado apenas com países em crise. Com a Alemanha, maior economia do bloco, por exemplo, exportações brasileiras caíram 20%, enquanto as vendas alemãs ao Brasil se mantiveram estáveis no início do ano. O resultado é um déficit para o Brasil que já acumula 2 bilhões de dólares.

As exportações para a segunda maior economia da Europa, a França, caíram 5%. No trimestre, o buraco já é de 747 milhões de dólares. Com a terceira maior economia da zona do euro, a Itália, a queda nas vendas nacionais foi de 3%, somando um déficit de 500 milhões de dólares. Se as exportações brasileiras para a Europa sofrem, empresas do Velho Continente continuam expandindo as vendas no mercado brasileiro. Nos três primeiros meses do ano, as exportações da Europa para o Brasil aumentaram 2,4%. Em 2012, elas haviam tido uma alta de 2,6%.

O resultado dessa combinação de fatores é um cenário radicalmente diferente da relação comercial entre Brasil e Europa dos últimos anos. 2013 ainda marcará um forte contraste em relação a 2007, quando o Brasil registrou um superávit comercial com a Europa de 13 bilhões de dólares. Em 25 anos, o maior déficit brasileiro com a Europa ocorreu em 1998, quando o ano terminou com um buraco de 1,9 bilhão de dólares, praticamente o mesmo nível que o Brasil já tem em 2013 com a Europa.

Paradeira na Europa


Celso Ming 
O Estado de S.Paulo

As estatísticas não revelaram nada de muito diferente do que já se esperava, mas o reconhecimento oficial de que a área do euro vive a maior recessão de sua ainda curta história (14 anos) tem tudo para ser suficiente para exasperar os ânimos que já estavam à beira da exasperação.

O conceito de recessão envolve certo grau de arbitrariedade, mas não há melhor. Os economistas estabeleceram a convenção de que um país ou região entra em recessão quando a atividade econômica (PIB) se contrai (crescimento negativo) por três trimestres consecutivos. Na média dos seus 17 países, o euro está em recessão há 6 trimestres.

A gritaria deve crescer. Há enorme cansaço físico e político provocado pelo prolongado aperto de cintos. Dirigentes políticos da área batalham para reduzir o ritmo do ajuste combinado no bloco, que implica contração das despesas públicas, sacrifício e desemprego. E, nesse jogo de pressões, o maior foco de críticas é a Alemanha, da chanceler Angela Merkel, campeã das exigências por mais austeridade.

Uma recessão tão prolongada como esta traz efeitos perversos. A redução da atividade econômica diminui a arrecadação dos tesouros públicos, porque os impostos são cobrados sobre produção e vendas. Ao mesmo tempo, aumenta as despesas públicas, porque o fechamento de postos de trabalho amplia as despesas do Estado com seguro-desemprego, especialmente altas na Europa, onde os níveis de proteção social são elevados.

Quando uma economia está excessivamente endividada, é preciso cortar salários para baixar custos de produção e estimular o setor produtivo. O corte de salários se obtém por meio da recessão, que esfria o mercado de trabalho e cria desemprego. Se cada país tivesse sua própria moeda, o ajuste seria menos notado e menos doloroso. Bastaria desvalorizar a moeda nacional, os salários cairiam e a produção ficaria mais barata em moeda estrangeira, as exportações aumentariam e, em princípio, a economia se recuperaria. Como o bloco tem uma moeda comum, não dá para recorrer à desvalorização cambial.

As queixas contra a recessão e o desemprego não resolvem o problema de fundo, que é a cobertura das dívidas. Sempre chega, como já chegou, o momento em que o credor desiste de financiar os rombos orçamentários e passa a cobrar juros mais altos, que agravam o endividamento.

A paradeira europeia castiga não só europeus. Ela derruba as encomendas ao resto do mundo. Mas a falta de perspectiva de ajuste castiga ainda mais, por adiar indefinidamente a recuperação.

Os níveis de desemprego seguem altos, como mostra o Confira. Esses números escondem algo ainda mais terrível: a falta de perspectiva profissional para os recém-formados. Na Espanha, por exemplo, um em cada dois jovens não consegue trabalho.

Se fosse somente econômico, o problema teria soluções técnicas relativamente fáceis. O diabo é que é também político, numa situação em que os políticos não têm proposta melhor do que a distribuição de sacrifícios em doses cada vez mais insuportáveis.