segunda-feira, abril 09, 2018

Cobrança por sacola plástica reduz poluição marinha na Europa

 Vanessa Barbosa
Exame.com

Estudo pioneiro associa queda no uso de sacos plásticos após taxação à menor poluição marinha em torno da Grã-Bretanha

 (Tanaonte/Thinkstock)

São Paulo – Cobrar consumidores e estabelecimentos comerciais pelo uso de sacolas plásticas tem sido uma das medidas mais adotadas por cidades e países na tentativa de reduzir a poluição marinha causada pelo material de origem fóssil. Mas será que a  taxação realmente faz diferença?

A resposta é sim. Em estudo pioneiro, pesquisadores descobriram uma queda estimada de 30% no volume de sacolas plásticas encontradas nos mares ao redor da Grã-Bretanha.

O estudo, publicado na revista Science of the Total Environment, afirma que a queda na poluição das sacolas plásticas é o resultado dos impostos implementados na Europa e ilustra claramente seu poder de reduzir a geração de lixo plástico.

Irlanda e Dinamarca foram os dois primeiros países europeus a introduzir taxas sobre sacolas plásticas, nos idos de 2003. Nos anos seguintes, outras nações europeias seguiram o exemplo. A adesão mais recente à taxa foi a do Reino Unido, em 2015.

A taxa britânica de 5 centavos de libras (cerca de 25 centavos de real) por sacola plástica já reduziu a quantidade de sacolas descartáveis distribuídas pelos grandes varejistas em impressionantes 85%. Na média, o número de sacolas que uma pessoa usa por ano caiu de 140 para 25, relata o jornal The Guardian.

Todos os anos, os oceanos recebem cerca de 8 milhões de toneladas de lixo plástico, segundo estimativas da Organização das Nações Unidas (ONU). Neste ritmo, estima-se que até 2050 possa haver mais detritos plásticos do que peixes no mar.

Os resíduos plásticos dos aterros urbanos são carregados por enxurradas para o mar ou despejados diretamente nos rios pela população. E eles viajam milhares de quilômetros, sendo encontrados em ilhas e regiões marítimas remotas.

Além de não encontrar barreiras, a poluição dos oceanos por resíduos plásticos têm consequências catastróficas para a vida nesse ecossistema, já que muitos animais podem morrer por asfixia ou ingestão de fragmentos.

Ilha de plástico no Pacífico já tem quase três vezes o tamanho da França

Vanessa Barbosa
Exame.com

Novas análises revelam que a região contém muito mais plástico que o estimado anteriormente

(The Ocean Cleanup/Reprodução)
Sopa plástica: detritos recolhidos durante a expedição de pesquisa. no Pacífico. 

São Paulo – O imenso aglomerado de centenas de milhares de toneladas de detritos plásticos no oceano Pacífico, conhecido como “Great Pacific Garbage Patch”, situado entre o Havaí e a Califórnia, tem de quatro a 16 vezes mais lixo plástico do que se imaginava. Segundo uma pesquisa científica, a maior zona de acumulação de detritos plásticos do mundo tem no mínimo o tamanho de três Franças.

Atualmente, ao menos 1,8 trilhão de peças de plástico pesando 80.000 toneladas estão atualmente à deriva na área, o que equivale ao peso de 500 aeronaves Boeing 747. Os dados são de um mapeamento de três anos conduzido por uma equipe internacional de cientistas afiliados à The Ocean Cleanup Foundation, seis universidades e uma empresa de sensores aéreos.

As descobertas foram publicadas na revista Scientific Reports. Para analisar a extensão total de resíduos plásticos, a equipe realizou o mais abrangente esforço de amostragem, cruzando o campo de detritos com 30 navios simultaneamente, complementados por duas pesquisas de aeronaves.

Para aumentar a área de superfície levantada e quantificar os maiores pedaços de plástico – objetos que incluem redes de pesca descartadas com vários metros de tamanho – uma aeronave C-130 Hercules foi equipada com sensores avançados para coletar imagens multiespectrais (que garantem medições de forma muito mais precisa) e imagens 3D do lixo oceânico.

A frota coletou um total de 1,2 milhão de amostras de plástico, enquanto os sensores aéreos escanearam mais de 300 km2 da superfície do oceano.

Os resultados revelam que o depósito flutuante de lixo plástico mede 1,6 milhão de quilômetros quadrados, quase três vezes o tamanho da França. Apenas 8% da massa de detritos é formada por microplásticos, definidos como peças menores que 5 milímetros de tamanho, e os outros 92% são de detritos maiores.

Ao comparar a quantidade de microplásticos com as medições históricas, a equipe descobriu que os níveis de poluição plástica na zona têm crescido exponencialmente desde que as medições começaram na década de 1970.


Vem aí o 196º país do mundo? “Ilhas de Lixo” já possuem até moeda

Por Vanessa Barbosa
Exame.com

Nação já tem bandeira, passaporte e uma moeda chamada "escombro". Só falta reconhecimento da ONU

(Plastic Oceans/LadBible/Divulgação)
Bandeira do país "Ilhas de Lixo". 

São Paulo – Pode um país nascer do lixo? Acredite, há uma campanha em curso para a criação do primeiro país do mundo todo feito de resíduos plásticos — as “Ilhas de Lixo”, um aglomerado de centenas de milhares de toneladas de detritos plásticos do tamanho da França localizado no oceano Pacífico entre o Havaí e a Califórnia.

Em 8 de junho deste ano, os signatários da campanha apresentaram uma Declaração de Independência às Nações Unidas buscando o reconhecimento oficial das Ilhas de Lixo como país. Para pressionar a ONU, foi criada um abaixo-assinado aberto a todas as pessoas do mundo no site Change.org que busca angariar novos signatários e futuros cidadãos.

Mas por que um país de lixo? Segundo a petição, o reconhecimento da ONUgeraria um constrangimento ambiental. Explica-se: quando um país é reconhecido e se torna um membro da ONU, ele passa a ser protegido pela Carta da Terra da ONU, um conjunto de acordos sobre meio ambiente e desenvolvimento.

Diante do preceito de que “todos os membros devem cooperar em um espírito de parceria global para conservar, proteger e restaurar a saúde e integridade do ecossistema da Terra”, um país feito de lixo não poderia passar incólume e demandaria ações de todas as nações para resolução do problema do lixo plástico.

“O que em poucas palavras significa que ao nos tornarmos um país, outros países são obrigados a nos limpar”, dizem os criadores da petição. Apesar das colocações contundentes, tudo não passa de uma campanha de marketing (das mais sagazes, diga-se de passagem) coordenada pelo grupo de mídia LADbible e a Fundação Plastic Oceans.

A campanha é uma forma de atrair a atenção para a poluição do lixo plástico no meio ambiente. Estima-se que 2050, haverá mais plásticos nos oceanos que peixes. Os detritos plásticos são um perigo para muitas espécies de animais, que podem ingeri-los ou se emaranhar neles. 


Além de formar imensos bolsões de resíduos à deriva no mar, o lixo plástico já atinge as remotas praias do Ártico e as regiões mais profundas dos oceanos.

Recentemente, um estudo inédito revelou que micropartículas plásticas podem estar presentes até mesmo na água potável que é servida à população em vários países do mundo.

O país Ilhas de Lixo já possui uma bandeira, um passaporte, uma moeda (chamada escombros), selos e mais de mil cidadãos – o primeiro deles foi o político norte-americano, ambientalista e Nobel da Paz Al Gore.

  
(Plastic Oceans/LadBible/Divulgação)
Passaporte das Ilhas de Lixo. 

  

(Plastic Oceans/LadBible/Divulgação)
Selos da Ilhas de Lixo 



(Plastic Oceans/LadBible/Divulgação)
"Escombro": a moeda das Ilhas de Lixo. 




(Plastic Oceans/LadBible/Divulgação)
Selos das Ilhas de Lixo. 


Há uma nova ameaça invisível na água potável — microplásticos

 Vanessa Barbosa
Exame.com

Pesquisa encontrou vestígios de fibras de plástico microscópicas em 83% das amostras testadas em várias cidades do mundo, inclusive no Brasil

 (Naumoid/Thinkstock)
São Paulo – Sinônimo de praticidade, o plástico se tornou tão útil 
na vida moderna a ponto de ser encontrado por todos os lados —
 até onde não deveria.

Evidências científicas crescentes demonstram que a onipresença do plástico em produtos cotidianos (de embalagens à cosméticos, passando por roupas e artigos domésticos) tem contribuído para uma poluição sem precedentes no meio ambiente, e que não respeita fronteiras.

A contaminação das águas dos oceanos por detritos do material é um dos efeitos mais estudados pelos cientistas. Além de formar imensos bolsões de resíduos à deriva no mar, o lixo plástico já atinge as remotas praias do Ártico e as regiões mais profundas dos oceanos.

Agora, um estudo inédito revela que micropartículas plásticas podem estar presentes até mesmo na água potável que é servida à população em vários países do mundo.

A pesquisa, divulgada nesta semana pela organização Orb Media, encontrou vestígios de fibras de plástico microscópicas em 83% das 159 amostras coletadas de várias partes do mundo.

Foram encontradas microfibras plásticas até mesmo na água engarrafada e em casas que usam filtros de osmose reversa, um dos processos mais utilizados para fazer a purificação da água.

“A contaminação desafia a geografia: o número de fibras encontradas em uma amostra de água da torneira do restaurante Trump Grill, na Trump Tower, em Manhattan, nos EUA, foi igual ao encontrado em amostras de Beirute, no Líbano”, diz o relatório da Orb.

A pesquisa feita com apoio da Escola de Saúde Pública da Universidade de Minnesota, que centralizou as análises globais, mostra que dos salões do Congresso dos EUA até as margens do Lago Victoria, em Uganda, mulheres, crianças, homens e bebês estão consumindo plástico em  cada copo de água.

Ou seja: os microplásticos não estão apenas sufocando os oceanos, mas também a água potável do mundo. Inclusive a do Brasil.

Em parceria com a Orb, o jornal Folha de S.Paulo, coletou 10 amostras extras de águas em residências da capital paulista e as enviou para análise na Escola de Saúde Pública da Universidade de Minnesota. A análise revelou que nove em cada 10 amostras continham microfibras de plástico.

A empresa de saneamento de São Paulo, Sabesp, assim como as demais empresas do setor no Brasil, não faz a filtragem desse material. Não há obrigação legal para que isso ocorra.

As empresas de tratamento de água seguem as determinações da Portaria 2914, do Ministério da Saúde, que dispõe sobre os procedimentos de controle e de vigilância da qualidade da água para consumo humano. E não há nenhuma referência na norma para controle de microplástico na água.

Na maioria das vezes, as fibras de vestuário são muito pequenas para serem filtradas nas estações de tratamento de águas residuais e acabam sendo descarregadas em córregos, rios, lagos e, eventualmente, no oceano.

“Nós acreditamos que o acesso a água limpa é um direito humano”, disse em nota Jane Patton, diretora geral do Plastic Pollution Coalition, entidade internacional que reúne representantes de Ongs, empresas e governos para combater a poluição plástica.

“Certifique-se de que o governo da sua cidade sabe que você espera que eles mantenham a água potável segura”, acrescentou Patton, recomendando que a população exija dos legisladores e governantes alguma ação sobre as micropartículas de plástico na água.

Riscos à saúde?

Os detritos plásticos são contaminantes complexos e persistentes do ponto de vista ambiental. O plástico é quase indestrutível e, no meio ambiente, só se divide em partes menores, até mesmo em partículas em escala nanométrica (um milésimo de um milésimo de milímetro). Ainda assim, a natureza é incapaz de “digeri-lo”.

Independentemente do tamanho do detrito, os plásticos muitas vezes contêm uma ampla gama de substâncias químicas usados para alterar suas propriedades ou cores e muitas delas têm características tóxicas ou de disrupção endócrina (imitam hormônios capazes de interferir no sistema endócrino). Para piorar, os plásticos também podem atrair outros poluentes, incluindo dioxinas, metais e alguns pesticidas.

“Nós temos dados suficientes, só de olhar para os impactos que o plástico está gerando sobre a vida selvagem, para se preocupar”, disse ao The Guardian, Dr. Sherri Mason, especialista em microplástico da Universidade Estadual de Nova York , que supervisionou as análises da Orb. “Se isso está impactando [a vida selvagem], então, como pensar que não vai nos afetar de alguma forma?”

Para os cientistas, o desafio é duplo: de um lado repensar os padrões de consumo e produção de plástico no mundo, incluindo aí formas de recolher e reaproveitar esses resíduos impedindo que eles contaminem o ambiente; e do outro, identificar os riscos que a ingestão de microplástico representa para os seres humanos.

A tarefa não será fácil. Como revelou estudo recente, o mundo já produziu 8,3 bilhões de toneladas de plástico desde que a produção em larga escala de materiais sintéticos começou, no início da década de 1950. É tanto plástico que equivale a cerca de 25 mil vezes o peso do Empire State Building, em Nova York. De todo esse lixo, apenas 9% foi reciclado, 12% foi incinerado e 79% está acumulado em aterros ou poluindo o ambiente natural.


A poluição plástica chegou aonde ninguém pensava que chegaria

Vanessa Barbosa
Exame.com

O Oceano Antártico é considerado uma região selvagem, quase "intocada", mas a ameaça plástica não encontra barreiras

(Claire Waluda/Divulgação)
Plásticos ameaçam vida marinha na Antártica.  

São Paulo – A poluição marinha por detritos plásticos parece não encontrar fronteiras. Nem mesmo os lugares considerados “intocados” estão a salvo. Um novo estudo divulgado por cientistas da Universidade de Hull e do Serviço Antártico Britânico (BAS, na sigla em inglês) revelou níveis de poluição por microplásticos no Oceano Antártico cinco vezes maiores do que se esperaria encontrar a partir de fontes locais, como estações de pesquisa e navios.

Representando 5,4% dos oceanos do mundo, o Oceano Antártico é considerado uma região selvagem, quase prístina, em comparação com outras regiões e, por isso, os cientistas pensavam que ele estaria relativamente livre desse tipo de poluição. Os resultados, publicados na revista científica Science of the Total Environment, levantam a possibilidade de que o plástico proveniente de fora da região seja capaz de atravessar a poderosa corrente circumpolar antártica, historicamente considerada impenetrável.

Os microplásticos são partículas com menos de 5 mm de diâmetro e estão presentes em muitos itens do dia a dia como creme dental, shampoo, gel de banho e roupas feitas de tecidos sintéticos a exemplo do poliéster. Segundo a pesquisa, uma única jaqueta de poliéster pode liberar mais de 1.900 fibras por lavagem.

(Catherine Waller/Divulgação)
Emaranhado de fibras plásticas encontrado no Oceano Antártico. 

Em geral, esses micropoluentes chegam aos oceanos através de águas residuais. Os sistemas convencionais de tratamento de esgoto simplesmente não dão conta de removê-los por completo. Eles também podem resultar da quebra de detritos plásticos maiores que flutuam pelo oceano sujeitos a degradação por radiação ultravioleta e decomposição.

Mais da metade das estações de pesquisa na Antártica não possuem sistemas de tratamento de águas residuais, conforme o estudo. Embarcações de pesca e turismo também contribuem para o problema. Estima-se que até meia tonelada de partículas microplásticas de produtos de cuidados pessoais e até 25,5 bilhões de fibras de roupas entram no Oceano Antártico por década como resultado dessas atividades combinadas.

A poluição oceânica por plástico tem consequências danosas para os animais. Muitos podem morrer asfixiados ou por ingestão de fragmentos maiores, ao passo que as micropartículas acabam se acumulando e contaminando a cadeia alimentar marinha. Os autores do estudo alertam para a necessidade de se reforçar as legislações marítimas na região e para um maior esforço internacional no monitoramento e controle da ameaça plástica nos oceanos.

Microplástico polui ambientes marinhos e de água doce no Brasil

Exame.com
Elton Alisson, da Agência FAPESP

Os ambientes aquáticos têm sido contaminados não só com garrafas PET, sacolas e embalagens de alimentos, mas também com minúsculos detritos

(Mandy Barker/Divulgação)
A fotógrafa britânica Mandy Barker decidiu alertar as pessoas 
sobre a poluição dos oceanos utilizando microplástico e 
resíduos plásticos encontrados em praias 

Além de garrafas PET, sacolas e embalagens de alimentos, entre outros objetos, os ambientes marinhos e de água doce em todo o mundo têm sido contaminados com minúsculos detritos, conhecidos como microplásticos, com tamanho menor que 5 milímetros, como fibras e pequenos resíduos gerados pela fragmentação de grandes pedaços de plástico.

Um grupo de pesquisadores do Departamento de Ciências do Mar da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), campus da Baixada Santista, em colaboração com colegas de outras universidades e instituições de pesquisa do Brasil e do exterior, constatou que esses microplásticos também estão presentes em larga escala em praias e rios no Brasil.

Os pesquisadores também observaram que algumas espécies de peixes de água doce e de pequenos organismos marinhos ingerem frequentemente esses microplásticos, e que os contaminantes liberados por esses poluentes causam efeitos tóxicos para espécies de moluscos, como os mexilhões marrons (Perna perna).

Os resultados dos estudos, coordenados por Luiz Felipe Mendes de Gusmão com apoio da FAPESP, foram publicados nas revistas Environmental Pollution e Water Research.

“Temos observado a poluição generalizada por microplásticos tanto de ecossistemas marinhos como de ambientes de água doce”, disse Gusmão, professor da Unifesp da Baixada Santista e coordenador das pesquisas, à Agência FAPESP.

De acordo com o pesquisador, enquanto resíduos de plástico grandes, como sacolas, tampinhas e garrafas PET, são relativamente fáceis de serem vistos e retirados da areia de uma praia, os microplásticos são quase impossíveis de serem removidos por serem muito pequenos e praticamente imperceptíveis a olho nu. Por isso, tem se observado um aumento do acúmulo desse tipo de poluente em praias de todo o mundo, apontou

“Os microplásticos que entram em um ambiente de água doce são transportados, via os rios, até os oceanos. E quando chegam aos oceanos esses fragmentos de plástico são transportados por correntes marinhas e tendem a ficar em suspensão na coluna d’água ou encalharem em praias”, explicou.

Uma vez que essas partículas de plástico têm sido encontradas de forma generalizada em ambientes marinhos e de água doce em todo o mundo, o pesquisador, em colaboração com colegas no Brasil e no exterior, começou a monitorar nos últimos anos a presença desses poluentes em ambientes aquáticos no país.

Os primeiros locais escolhidos foram as praias de Itaquidantuva e de Paranapuã, situadas na reserva ambiental de Xixová-Japuí, localizada entre os municípios da Praia Grande e São Vicente, na baixada santista, em São Paulo.

Durante um ano os pesquisadores coletaram semanalmente nas áreas das duas praias pellets de plástico – grânulos de plástico, com diâmetro inferior a 10 milímetros, utilizados na fabricação de produtos plásticos.

Os resultados das análises indicaram uma altíssima concentração desse tipo de microplástico. “Observamos pellets de plástico, de diferentes cores e tamanhos, se acumulando na praia de Paranapuã o ano inteiro. Em alguns momentos, as praias ficavam cheias desses microplásticos, e em outros momentos eles sumiam temporariamente em razão de fatores como a circulação oceânica, as ondas e o regime de ventos”, afirmou.

Efeitos tóxicos

De acordo com o pesquisador, algumas características que potencializam o efeito nocivo do plástico em ambientes marinhos e de água doce são que a maioria dos polímeros comuns – como o polipropileno e o poliestireno – degradam muito lentamente e são leves – o que permite serem transportados com facilidade pelas correntes oceânicas e permanecerem por muito tempo no ambiente marinho

Ao permanecerem por longo tempo no ambiente, as moléculas de contaminantes presentes em um meio aquático, como metais pesados e pesticidas, começam a aderir à superfície dos plásticos e podem atingir concentrações extremamente altas. Além disso, esses resíduos de plástico também possuem aditivos presentes na composição do material, como corantes, dispersantes e protetores contra raios ultravioleta.

Com o passar do tempo, os fragmentos de plástico tendem a liberar esses contaminantes no ambiente aquático, explicou Gusmão.

“Se os microplásticos forem ingeridos pela fauna marinha, os poluentes aderidos na sua superfície podem ser liberados no tubo digestivo do animal, o que pode causar efeitos tóxicos”, ressaltou.

A fim de avaliar a potencial toxicidade para organismos marinhos dos contaminantes liberados por microplásticos, os pesquisadores da Unifesp, em colaboração com colegas da Escola de Engenharia de São Carlos da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade Santa Cecília, realizaram experimentos em que expuseram larvas de mexilhões marrons a amostras de pellets de plástico que recolheram nas praias de Itaquidantuva e de Paranapuã e também a pellets virgens.

Os resultados das análises indicaram que os contaminantes liberados pelos pellets de plástico afetaram o desenvolvimento embrionário dos moluscos.

As larvas expostas aos pellets de plástico virgens apresentaram alta taxa de mortalidade, enquanto nenhuma das larvas expostas aos pellets de plástico recolhidos das duas praias conseguiu se desenvolver.

As observações sugeriram que os contaminantes aderidos à superfície dos pellets de plástico recolhidos das praias foram os responsáveis pelos efeitos tóxicos no desenvolvimento das larvas expostas aos microplásticos, enquanto a morte das larvas expostas aos pellets virgens foi devido provavelmente aos aditivos químicos do próprio material.

“Somente a exposição aos microplásticos, sem que ingerissem, fez com que as larvas morressem”, disse Gusmão.

A poluição marítima também mobiliza a ONU Meio Ambiente que lança nesta quarta-feira (07/06), no Brasil, a campanha “Mares Limpos”, que durante cinco anos terá ações para conter a maré de plásticos que invade os oceanos. O evento acontece no AquaRio, no Rio de Janeiro, como parte das comemorações do Dia Mundial do Meio Ambiente, celebrado no dia 5 de junho.

No Brasil, a campanha trabalhará na mobilização de governos, parlamentares, sociedade civil e setor privado para fortalecer ações que reduzam a contribuição do país ao problema global dos plásticos que acabam nos mares. Os esforços da campanha se concentrarão em buscar uma drástica redução no uso de plásticos descartáveis e o banimento de microesferas de plástico em cosméticos e produtos de higiene, além de apoiar a elaboração do Plano Nacional de Combate ao Lixo no Mar, capitaneado pelo Ministério do Meio Ambiente.

Ingestão

Os pesquisadores da Unifesp também avaliaram se pequenos organismos marinhos são capazes de ingerir microplásticos encontrados em seus habitats.

Em um estudo realizado em colaboração com colegas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), das Universidades Federais do Rio Grande (FURG) e do Paraná (UFPR), além da University of Copenhagen, da Dinamarca, e do Instituto de Estudos Ecossistêmicos, da Itália, eles examinaram o conteúdo intestinal da meiofauna (animais que medem menos de 1 milímetro e vivem enterrados entre grãos de areia das praias) de seis praias situadas no Brasil, na Itália e nas Ilhas Canárias, na Espanha.

As análises laboratoriais revelaram que três espécies comuns de anelídeos, do gênero Saccocirrus, tinham microfibras (fibras provenientes de cordas e fios de pesca e de tecidos de roupas, entre outras) em seus intestinos, mas sem apresentar lesões físicas aparentes.

“Constatamos que mesmo organismos marinhos desse porte podem interagir com microplásticos”, disse Gusmão.

Em outro estudo, os pesquisadores da Unifesp, em colaboração com colegas das Universidades Federais do Rio Grande do Norte (UFRN) e Rural de Pernambuco (UFRPE), avaliaram a ingestão de microplásticos por um peixe de água doce comum e muito consumido em regiões semiáridas na América do Sul: o caborja (Hoplosternum littorale).

Para realizar o estudo, eles analisaram o intestino de espécimes do peixe de um rio intermitente que passa pela cidade de Serra Talhada, no interior de Pernambuco, capturadas por pescadores da região.

Os resultados das análises indicaram que 83% dos peixes tinham detritos plásticos em seus intestinos – a maior proporção relatada para uma espécie de peixe de água doce no mundo até o momento.

A maioria dos detritos plásticos (88,6%) extraídos do estômago dos peixes era microplásticos com tamanho de até 5 milímetros, e as fibras foram o tipo de microplástico mais frequente (46,6%) ingerido pelos animais.

Os pesquisadores também observaram que os peixes consumiam mais microplásticos nas regiões mais urbanizadas do rio.

“Hoje tem sido muito discutido como diminuir os impactos causados por resíduos de plásticos grandes em ambientes e organismos marinhos e de água doce, mas a poluição por microplásticos também representa um problema muito sério”, disse Gusmão.

“É preciso repensar a cadeia de produção do plástico, que é um produto importante para a sociedade, de modo a reduzir a chance dele chegar ao ambiente”, avaliou.

Este conteúdo foi publicado originalmente no site da Fapesp.

O Ártico está virando um “aterro marinho” de lixo plástico

 Vanessa Barbosa
Exame.com

Estudo demonstra a escala global que a poluição por detritos plásticos alcançou

(Andrés Cózar/Reprodução)
Não se engane: esta colagem "artística" é feita
 de detritos plásticos encontrados no Oceano Ártico. 

São Paulo – Nem os lugares mais remotos do Planeta estão a salvo da poluição. Um novo estudo surpreendente encontrou altas concentrações de lixo plástico nos mares do Ártico.

Segundo uma nova pesquisa, publicada na revista Science Advance, a região está virando uma espécie de “aterro marinho” para centenas de toneladas de detritos envelhecidos, que incluem linhas de pesca, filmes plásticos e fragmentos.

Os detritos viajam longas distâncias — possivelmente, desde as costas do noroeste da Europa, do Reino Unido e da costa leste dos Estados Unidos — e se acumulam nos mares da Groenlândia e de Barents, considerados pelos cientistas “becos sem saída” para o lixo.

Toda essa poluição chega lá através da chamada “circulação termohalina no Atlântico Norte”, uma corrente que transporta partículas plásticas para área.

A carga total de plástico flutuante na águas livres de gelo do Oceano Ártico foi estimada em torno de 1200 toneladas, sendo 400 toneladas compostas de cerca de 300 bilhões de itens de plástico, segundo uma estimativa de médio alcance feita pelo estudo.

  Mapa mostra a distribuição de lixo plástico nos mares do Ártico. As áreas com maior concentração aparecem em vermelho escuro.

(ANDRES COZAR/Reprodução)

Mapa mostra a distribuição de lixo plástico nos mares do Ártico 

As descobertas “enfatizam a importância de gerenciar corretamente o lixo plástico na sua fonte, porque uma vez que ele entra no oceano, seu destino pode ser imprevisível”, destacam os cientistas.

Por ora, os detritos no Ártico representam menos de três por cento do total global, mas essa taxa pode aumentar nos próximos anos, expondo a região a novas ameaças.

Segundo o estudo, a singularidade do ecossistema do Ártico levanta preocupações a respeito das implicações ecológicas potenciais da exposição a detritos plásticos.

“O crescente nível de atividade humana em um Ártico cada vez mais quente e isento de gelo, com áreas abertas mais amplas disponíveis para a propagação de microplásticos, sugere que altas cargas de poluição plástica marinha podem se tornar prevalentes no Ártico no futuro”, alerta a pesquisa.

Ilha no Pacífico é lugar mais poluído por lixo plástico no mundo

Vanessa Barbosa
Exame.com

Estima-se que 17,6 toneladas de detritos acumulam-se atualmente na ilha deserta de Henderson Island, que é considerada Patrimônio da Humanidade


 (Jennifer Lavers/ Universidade da Tasmânia/Reprodução)


São Paulo – Há uma ilha solitária no Oceano Pacífico que não tem habitantes humanos, mas está completamente tomada por lixo. As praias de Henderson Island, nomeada Patrimônio da Humanidade pela Unesco em 1988 por sua rara ecologia, têm a maior densidade de detritos plásticos relatados em qualquer lugar do Planeta, revela um estudo publicado na prestigiada revista científica americana Proceedings da National Academy of Sciences.

Cientistas da Universidade da Tasmânia descobriram que as praias da ilha estão poluídas com cerca de 670 pedaços de lixo por metro quadrado, a maior densidade já registrada. A região é território britânico no sul do Oceano Pacífico e, apesar de localizada a mais de 5.000 quilômetros de um centro populacional, estima-se que acumule 37,7 milhões de detritos, pesando um total de 17,6 toneladas. 

Apesar de isolada, a ilha situa-se perto do centro da corrente da “Grande Mancha de Lixo do Pacífico”, um aglomerado de detritos flutuantes que tem quase o tamanho do estado americano do Texas, o que torna a região um ponto focal para os detritos transportados da América do Sul ou descartados por barcos.

. (Jennifer Lavers/ Universidade da Tasmânia/Reprodução)
Um caranguejo que agora faz sua casa com detritos de plásticos

“O que aconteceu na ilha de Henderson mostra que não há como escapar da poluição plástica, mesmo nas partes mais distantes de nossos oceanos”, diz Jennifer Lavers, principal autora do estudo e pesquisadora do Instituto de Pesquisas Marinhas e Antárticas (IMAS).

Na expedição científica à ilha, liderada pela organização britânica de conservação da natureza RSPB, a cientista captou em vídeo o cenário perturbador:


Os detritos plásticos são um perigo para muitas espécies de animais, que podem ingeri-los ou se emaranhar neles. Tartarugas marinhas, caranguejos e aves  costumam ser vítimas fáceis dessa poluição.

“A pesquisa mostrou que mais de 200 espécies estão em risco de comer plástico, e 55 por cento das aves marinhas do mundo, incluindo duas espécies encontradas em Henderson Island, estão em risco diante dos detritos marinhos”, disse Lavers.

Converter plástico em petróleo pode gerar lucro e salvar oceanos

Exame.com
Anna Hirtenstein, da Bloomberg

O processo leva menos de um segundo e o combustível resultante, chamado Plaxx, pode ser usado para produzir plástico novamente

(Rich Press/Bloomberg)
Petróleo: “Esta tecnologia pode ser um verdadeiro divisor de águas”,
 disse Patricia Vangheluwe, diretora de relações com o 
consumidor e o meio ambiente da PlasticsEurope 

Londres – Em um depósito de lixo a cerca de 130 quilômetros a oeste de Londres, Adrian Griffiths está testando uma invenção que, acredita ele, salvará os oceanos do mundo, sufocados pelos resíduos plásticos. E também renderá alguns milhões a ele.

A máquina, que tem aproximadamente o tamanho de uma quadra de tênis, processa todos os tipos de produtos à base de petróleo — plástico filme, roupas de poliéster, carpetes, eletrônicos –, transformando-os novamente em petróleo.

O processo leva menos de um segundo e o combustível resultante, chamado Plaxx, pode ser usado para produzir plástico novamente ou para alimentar motores de navios.

“Queremos mudar a história do plástico no mundo”, disse Griffiths, CEO da Recycling Technologies em Swindon, cidade na região sudoeste da Inglaterra onde 2,4 toneladas de resíduos plásticos podem ser transformados dessa forma diariamente como parte de um projeto piloto.

Para os apoiadores financeiros, entre eles o governo do Reino Unido e mais de 100 investidores privados, a tecnologia marcaria uma inovação em relação à forma como o plástico é gerenciado globalmente.

A máquina utiliza uma técnica de reciclagem de matéria-prima desenvolvida na Universidade de Warwick para processar resíduos plásticos sem a necessidade de classificação, um grande obstáculo que tem impedido uma reciclagem economicamente viável em grande escala.

O projeto de Griffiths é único porque não está voltado a um tipo específico de plástico e, em vez disso, busca encontrar uma solução para a chamada “sopa plástica” que inunda os oceanos do mundo. Em 2050, haverá mais plástico que peixes nos oceanos, segundo um estudo apresentado no Fórum Econômico Mundial neste ano pela Ellen MacArthur Foundation.

“Esta tecnologia pode ser um verdadeiro divisor de águas”, disse Patricia Vangheluwe, diretora de relações com o consumidor e o meio ambiente da PlasticsEurope, associação que representa mais de 100 produtoras de polímero, incluindo BASF e Dow Chemical.

“Esta é uma excelente maneira de levar plásticos que você não conseguiria reciclar com a tecnologia atual, nem fazê-lo de forma econômica, de volta à economia circular.”

No momento, apenas 10 por cento do plástico é reprocessado porque é mais barato extrair mais petróleo para conseguir matéria-prima petroquímica, especialmente após o colapso dos preços do petróleo bruto nos últimos anos.

O restante é incinerado, disposto em aterros ou descartado nos oceanos, liberando elementos químicos tóxicos que afetam os recifes de corais e sendo engolido pela vida marinha que alimenta os seres humanos.

Muitos projetos fracassam porque não oferecem uma margem grande o bastante para que sejam viáveis, segundo Nick Cliffe, diretor de inovação encarregado do setor de eficiência de recursos da Innovate U.K., uma das duas agências do governo que forneceram 2,6 milhões de libras (US$ 3,4 milhões) em subvenções à Recycling Technologies.

Embora sejam movidos pelo desejo de proteger os oceanos, Griffiths e sua equipe de 22 pessoas reconhecem que, com a projeção de que o consumo de plástico vá duplicar nos próximos 20 anos, a reciclagem precisa ser lucrativa para fazer a diferença. A próxima meta de Griffiths é construir uma unidade de fabricação.

“Não sou de abraçar árvores”, disse ele. “Não acho que seja possível mudar realmente a situação, do ponto de vista ambiental, sem gerar lucro.”

Nem as criaturas do mar profundo escapam da poluição plástica

Vanessa Barbosa
Exame.com

Cientistas encontraram microplásticos em 48% das amostras de animais invertebrados que vivem a mais de 20 mil metros de profundidade

 (SAMS/Reprodução)
São Paulo – Tema de crescente preocupação, a poluição do meio ambiente
 por detritos plásticos ganha a cada dia dimensões mais dramáticas.

Nesta semana, pesquisadores da Associação Escocesa de Ciências Marinhas (SAMS, na sigla em inglês) encontraram vestígios de microplásticos em 48% das amostras de animais invertebrados que vivem a mais de 2 mil metros de profundidade.

As análises foram realizadas numa região chamada Rockall Trough, no nordeste da Escócia, e revelaram a presença de resíduos plásticos em estrelas-marinhas e caracóis do mar.

Embora os cientistas já tenham encontrado vastas evidências de poluição por plásticos em várias áreas dos oceanos, a SAMS disse que sua pesquisa é a primeira a dimensionar a ingestão desses materiais por invertebrados de águas profundas. Os resultados foram publicados na revista Environmental Pollution.

O poliéster foi o plástico mais abundante identificado, principalmente sob a forma de fibras microscópicas, e, embora não seja possível conhecer definitivamente sua origem, esta substância é amplamente utilizada em roupas e pode chegar ao mar em águas residuais de máquinas de lavar. Dentro dos animais, também foram encontrados resíduos de polietileno, presente em sacolas de plástico, por exemplo.

 (SAMS/Reprodução)
Um pequeno fiapo de plástico encontrado dentro dos invertebrados analisados.

“Os microplásticos se encontram generalizados no ambiente natural e apresentam inúmeras ameaças ecológicas, como a inibição da capacidade reprodutiva dos animais, o bloqueio dos tratos digestivos e a transferência de poluentes orgânicos para organismos que os comem”, disse em nota à imprensa Winnie Courtene-Jones, principal autora da pesquisa.

Segundo a cientista, há indícios de que mais de 660 espécies marinhas em todo o mundo são afetadas por plásticos. Os detritos plásticos maiores são um perigo para muitos animais, que podem ingeri-los ou se emaranhar neles. Tartarugas marinhas, caranguejos e aves  costumam ser vítimas fáceis dessa poluição.

“Há muitas evidências de microplásticos nas águas costeiras, mas pouco se sabe sobre a extensão dessa poluição no oceano mais profundo. Estamos tentando estabelecer não só o quão generalizada ela é, mas também como e onde ela se acumula e o impacto que ela podem ter sobre a saúde dos animais e seres humanos”.

Isto é o quanto de plástico o mundo já produziu (e não é bonito)

Vanessa Barbosa
Exame.com

Pela primeira vez, cientistas calcularam a quantidade desse material já produzida na história, revelando urgência de se pensar uma nova economia do plástico

 (Press Digital/Thinkstock)
Montanha de lixo plástico se acumulando na natureza. 

São Paulo – Pela primeira vez, cientistas calcularam a quantidade de plásticos já produzidos na história da humanidade. E o resultado é um tanto quanto assustador: foram 8,3 bilhões de toneladas desde que a produção em larga escala de materiais sintéticos começou, no início da década de 1950. É tanto plástico que  equivale a cerca de 25 mil vezes o peso do Empire State Building, em Nova York.

A parte assustadora é que a maioria de todo esse material tem como destino aterros sanitários ou, mais grave, o próprio ambiente natural, de acordo com o estudo publicado na revista Science Advances. Se as tendências atuais continuarem, cerca de 12 bilhões de toneladas de resíduos plásticos terão o mesmo destino impróprio até 2050.

O estudo é fruto do trabalho conjunto de cientistas da Universidade da Geórgia, da Universidade da Califórnia, Santa Barbara e Sea Education Association. Na ponta do lápis, os pesquisadores descobriram que das 8,3 bilhões de toneladas de plásticos geradas até 2015, 6,3 bilhões já se tornaram resíduos, ou seja, foram descartadas.

Desse total, apenas 9% foram recicladas, 12% foram incineradas e 79% se acumularam em aterros sanitários ou simplesmente ficaram pelo caminho poluindo o meio ambiente.

O que preocupa é que a maioria dos plásticos não se biodegrada na natureza de forma significativa, de modo que os descarte incorreto no presente se torna um problema que perdura por centenas e até milhares de anos.

Com o levantamento, os cientistas esperam chamar atenção para a necessidade de pensar sobre o uso que fazemos desse material e as práticas de gerenciamento de resíduos. É essencial, portanto, desenvolver uma nova economia do plástico, que seja mais responsável e sustentável.

Para o estudo, eles compilaram estatísticas da produção de resinas, fibras e aditivos de várias fontes da indústria e sintetizaram-nas de acordo com o tipo de setor e consumo.

Entre 1950 e 2015, a produção global de plásticos aumentou de 2 milhões de toneladas para mais de 400 milhões de toneladas, de acordo com o estudo, superando a maioria dos outros materiais artificiais. Exceções são alguns materiais amplamente utilizados no setor de construção, como aço e cimento.

Mas enquanto o aço e o cimento são usados principalmente na construção, o mercado de plásticos é majoritariamente voltado para a produção de embalagens, que em geral são usadas apenas uma vez e descartadas. “Metade de todos os plásticos se tornam resíduos após quatro ou menos anos de uso”, diz Roland Geyer, principal autor do estudo.

Os pesquisadores alertam, porém, que não se deve buscar a remoção total de plástico do mercado, mas sim repensar o uso que fazemos desse material. “Existem áreas onde os plásticos são indispensáveis, como a indústria médica”, disse a coautora Kara Lavender Law. “Mas eu acho que precisamos examinar cuidadosamente o uso de plásticos em algumas situações e perguntar se ele faz sentido”. 

A mesma equipe de pesquisadores liderou um estudo publicado em 2015 na revista Science que calculou a quantidade de resíduos plásticos no oceano. Eles estimaram que 8 milhões de toneladas de resíduos plásticos entraram nos oceanos em 2010.

1 milhão de garrafas plásticas são vendidas a cada minuto

 Vanessa Barbosa
Exame.com

Novas estatísticas divulgadas pelo The Guardian revelam o quão assombroso o problema se tornou

(China Photos / Stringer/Getty Images)
Garrafas de plástico se acumulam em uma fábrica de reciclagem na China. 

São Paulo – Versáteis e econômicos, os plásticos facilitaram muitos avanços da sociedade ao longo do século passado. No entanto, alguns de seus usos atuais atingem números que beiram o insustentável.

A demanda global por garrafas de plástico, estimulada pela indústria de bebidas, é exemplo disso: a cada minuto, um milhão de garrafas plásticas são vendidas em todo o mundo; por ano, consumimos cerca de 500 bilhões delas. Os dados são de um levantamento da Euromonitor feito a pedido do jornal britânico The Guardian.

Embora seja verdade que muitas dessas embalagens poderiam e deveriam serrecicladas, está cada vez mais difícil acompanhar o grande volume de resíduo plástico produzido. O que acontece quando a equação não fecha? Grande parte do lixo indigesto acaba poluindo o meio ambiente, onde demora centenas de ano para se decompor.

Em 2016, o mundo comprou mais de 480 bilhões de garrafas plásticas de água. Menos da metade disso foi coletado e enviado para reciclagem. E apenas 7% delas encontraram uma segunda vida como garrafas novas. O resto ou seguiu para lixões e aterros sanitários ou foi poluir terra e mar.

Não faltam estudos recentes sobre a poluição dos oceanos por lixo plástico e seus efeitos nocivos sobre a vida marinha. O aumento da utilização de plásticos é de tal forma significativo que, em 2050, os oceanos terão mais detritos desse material do que peixes, alertou um relatório da Fundação Ellen MacArthur no Fórum Econômico Mundial no ano passado.

Em 2021, segundo estimativas da Euromonitor, o uso de garrafas plásticas de água aumentará para 583,5 bilhões de unidades. “Este aumento está sendo impulsionado por uma maior urbanização”, disse Rosemary Downey, chefe de embalagem da Euromonitor ao  jornal. Em 2015, os consumidores na China, que puxam essa alta, compraram 68,4 bilhões de garrafas de água e em 2016 essa taxa aumentou para 73,8 bilhões.

“Existe um desejo de vida saudável e há preocupações contínuas sobre a contaminação das águas subterrâneas e a qualidade da água da torneira, que contribuem para o aumento do uso de água na garrafa”, disse ela.  Índia e Indonésia também estimulam esse crescimento.

Inevitavelmente, o enfrentamento do problema das garrafas plásticas também exigirá melhorias na gestão hídrica no mundo, o que não reduz a importância de se repensar hábitos de consumo e produção envolvidos.

A maioria das garrafas de plástico usadas para refrigerantes e água são feitas de tereftalato de polietileno (Pet), que é altamente reciclável. Nos últimos anos, ativistas ambientais têm pressionado as empresas produtoras a usarem Pet reciclado para confeccionar novas garrafas, mas segundo a reportagem do The Guardian, há uma grande resistência à ideia por questões estéticas — garrafas recicladas não são tão transparentes quanto as produzidas com matéria-prima virgem.

Cientistas veem entrada de plástico na cadeia alimentar terrestre

Exame.com
Com Agência EFE

Apesar de há anos existirem estudos sobre a entrada do plástico na cadeia alimentar marinha, este seria o 1º a documentar o fenômeno no entorno terrestre

(foto/Getty Images)
Plástico: a pesquisadora indicou que as minhocas, ao digerirem o plástico,
 ajudam também a fracioná-lo e essa substância depois passa às galinhas que se alimentam delas 

Viena – Uma equipe de cientistas mexicanos e holandeses documentou pela primeira vez a entrada de microplásticos na cadeia alimentar terrestre, graças a um estudo de campo desenvolvido na reserva da biosfera de Los Petenes (México).

Apesar de há anos existirem estudos sobre a entrada do plástico na cadeia alimentar marinha, este seria o primeiro a documentar o fenômeno no entorno terrestre, segundo explicou nesta terça-feira à Agência Efe a cientista mexicana Esperanza Huerta.

Huerta, do centro de pesquisa El Colégio da Fronteira Sul, em Campeche, apresentou hoje em Viena na reunião da União Europeia de Geociências o resultado do estudo desenvolvido junto à Universidade de Wageningen, de Holanda.

A pesquisadora expôs que devido à falta de recolhimento e gestão dos plásticos, os habitantes da zona de Los Petenes os queimam e enterram no chão de suas hortas, o que aumenta o risco de microfragmentação.

Para avaliar a situação, os pesquisadores analisaram em setembro o solo, as minhocas, bem como as fezes e as moelas de galinhas domésticas de dez hortas nessa reserva mexicana.

Assim, foi possível documentar a presença de plásticos de diminuto tamanho na terra, dentro das minhocas e nas fezes e moelas das galinhas analisadas, o que pode supor um risco para a saúde humana.

“Este é o primeiro trabalho feito em sistemas terrestres que mostra como o plástico entra na cadeia alimentar”, explicou Huerta.

“Não sei por que não foi feito antes, acredito que talvez não houve consciência para fazê-lo”, acrescentou a pesquisadora, que considerou que as pessoas não sabiam de seu potencial perigo.

Huerta indicou que as minhocas, ao digerirem o plástico, ajudam também a fracioná-lo e essa substância depois passa às galinhas que se alimentam delas.

As galinhas se contaminam diretamente porque beliscam plásticos que estão aderidos restos de comida, segundo expôs.

Huerta assegurou que, dado que Los Petenes é uma reserva da biosfera e seus habitantes recebem educação ambiental, é possível que em outros entornos a situação seja inclusive pior.

O grande problema para a pesquisadora é o costume de queimar os plásticos, o que agrava a contaminação.

“Pensam que ao queimá-lo resolveram o problema. Mas a situação é que então é acessível aos invertebrados do chão e se for acessível para eles, é também para o resto da cadeia alimentar. Para as galinhas, por exemplo. E as pessoas comem galinhas”, resumiu.

Huerta indicou que nas moelas de galinha analisadas encontraram concentrações de microplásticos e que esse órgão é utilizado em diferentes pratos mexicanos.

A pesquisadora apontou que as pessoas com as quais falou confessaram não limpar as moelas por dentro, que somente as lavavam por fora e depois as coziam, uma prática que tem efeito preocupante.

Sobre o possível efeito do consumo de plástico que entrou na cadeia alimentar na saúde humana, a pesquisadora indicou que são necessários mais estudos a respeito, mas o considerou um “grande risco”.

Huerta, que é especialista no estudo de minhocas, expôs que, dependendo da concentração e do tempo de exposição ao plástico, a mortalidade desses invertebrados aumenta de forma clara e sua fertilidade se reduz.

A pesquisadora concluiu sublinhando que, embora o acesso ao plástico melhorou a vida das pessoas, sua escassa degradação é um grande problema e deveria haver algum tipo de regulamento internacional para evitar doenças.

Clima extremo pode gerar 140 milhões de migrantes climáticos até 2050

Vanessa Barbosa
Exame,com

Segundo relatório do Banco Mundial, secas, perdas de safra agrícola, aumento do nível do mar e fortes tempestades vão causar deslocamentos em massa

(Aclimah Cabugatan Disumala/Reuters)
Enchentes nas Filipinas, em 22/12/2017 

São Paulo – Todos os anos, secas, enchentes e furacões obrigam milhares de pessoas a abandonarem suas casas e seus países de origem em busca de um recomeço. Essas pessoas fazem parte de um grupo crescente, os chamados “refugiados climáticos”. Mas os eventos extremos também criam “migrantes climáticos”, grupos deslocados nos próprios países afetados.

Segundo um relatório do Banco Mundial, até 2050, os impactos das mudanças do clima podem levar 140 milhões de pessoas a migrarem dentro das fronteiras de seus países, criando uma crise humana que pode ameaçar o processo de desenvolvimento nesses países.

Divulgado neste mês, o estudo é o primeiro do tipo a avaliar os efeitos de deslocamento populacional potencial de eventos extremos em três áreas em desenvolvimento: a África Subsaariana, Sul da Ásia e América Latina.

As principais causas para a migração interna associadas a eventos climáticos incluem escassez de água, perdas de safra agrícola, secas, aumento do nível do mar e fortes tempestades.

Ser obrigado a mudar de região traz graves implicações de ordem psicológica. Estudo da Associação Americana de Psicologia divulgado no ano passado mostrou que a “perda do lugar” de vida  pode levar à perda de identidade pessoal e profissional, perda de estruturas de apoio social, perda do senso de controle e autonomia, além de alimentar sentimentos de desamparo, medo e fatalismo. 

Esses milhares de “migrantes climáticos” se somariam às milhares de pessoas que já se deslocam em seus países por razões econômicas, sociais e políticas, alerta o relatório.

No pior cenário, as mudanças climáticas poderiam gerar 86 milhões de migrantes na África Subsaariana, 40 milhões no Sul da Ásia e 17 milhões na América Latina.

Mas com ações enérgicas – incluindo esforços globais para reduzir as emissões de gases de efeito estufa e planejamento robusto de desenvolvimento em nível nacional – este pior cenário de mais de 140 milhões de afetados poderia ser drasticamente reduzido em até 80%, poupando mais de 100 milhões de pessoas.

Guerra comercial entre EUA e China abre espaço para a soja brasileira

Exame.com
Com informações Estadão Conteúdo

O país asiático é o maior importador mundial de soja. No ano passado, comprou 95,5 milhões de toneladas - aproximadamente US$ 40 bilhões

(Germano Lüders/EXAME)
Soja: Em 2012, o Brasil superou os americanos
 e passou a ser o maior exportador do produto para o mercado chinês 

A guerra comercial entre China e EUA ganhou mais um capítulo, nessa quarta-feira, 4, com o governo chinês impondo novas tarifas contra produtos americanos.

Em resposta ao protecionismo de Donald Trump, a China elevou as tarifas sobre a soja produzida nos EUA, abrindo mais espaço para outros países produtores, principalmente o Brasil.

A China é o maior importador mundial de soja. No ano passado, comprou 95,5 milhões de toneladas – aproximadamente US$ 40 bilhões.

Cerca de 30% da soja cultivada nos EUA é exportada para a China, onde o grão é transformado em óleo e a sobra de farelo de soja é usada como ração para suínos, frangos, gado e peixes.

Com a nova tarifa de 25%, a previsão do Ministério do Comércio da China é de que esse mercado seja ainda mais ocupado pelo produto brasileiro – que já tem uma participação relevante no país asiático. Em 2012, o País superou os americanos e passou a ser o maior exportador do produto para o mercado chinês.

Em 2017, as vendas brasileiras atingiram um recorde para a China, com o embarque de 53,7 milhões de toneladas. Isso representou quase 55% das importações de Pequim. Os americanos exportaram 33 milhões de toneladas, 34% do mercado chinês e o menor volume desde 2006.

A decisão da China coincide com o momento em que o Brasil está em plena colheita de uma safra recorde, diz o analista Aedson Pereira, da consultoria IEG FNP. “Já se acreditava que a exportação do Brasil seria recorde, porque a produção foi muito boa, mas a China vai potencializar isso.”

Ele pondera, no entanto, que o País não tem como substituir as cerca de 30 milhões de toneladas que seriam adquiridas dos EUA. O Brasil não tem esse volume adicional e a Argentina tem problemas com sua safra neste ano. “A China não tem a quem recorrer. Pode ser um tiro no pé.”

A retaliação já teve reflexos no preço internacional da soja. Nessa quarta-feira, na Bolsa de Chicago, o valor dos contratos de maio caiu 2,19%. Ao mesmo tempo, os investidores elevaram o prêmio pago pela soja brasileira em relação ao preço internacional. Essa diferença ficou em torno de US$ 1,20 por bushel ontem. Há duas semanas, era de US$ 0,56 por bushel.

“Há semanas, os chineses vêm pagando um prêmio pela soja brasileira”, disse o sócio da consultoria MD Commodities, Pedro Dejneka. Segundo ele, a China já estava reforçando suas compras de soja do Brasil – sinal de que o país asiático vinha retaliando a soja americana de forma “indireta”.


Críticas

Diante das medidas anunciadas na quarta-feira, os produtores americanos não economizaram críticas ao governo Trump. Em um comunicado, a Associação Americana de Soja pediu que a Casa Branca “reconsidere” as tarifas aplicadas sobre a China. “Centenas de milhares de pessoas no campo serão afetadas. O impacto será devastador”, disse John Heisdorffer, presidente da entidade.

A decisão chinesa é uma resposta à iniciativa da Casa Branca de impor barreiras à China sob alegação de violação de propriedade intelectual. Trump prometeu sobretaxar 1,3 mil produtos avaliados em US$ 50 bilhões. Em troca, o governo de Pequim anunciou que adotará novas tarifas para 106 produtos dos EUA. Além da soja, estão na lista algodão, carnes bovina e suína.

No curto prazo, segundo o presidente da Aliança Agro Brasil-Ásia, Marcos Jank, o Brasil pode se beneficiar com a retaliação, mas num prazo mais longo pode sair prejudicado.

“No curtíssimo prazo claramente há oportunidade para aumentar os embarques de alguns produtos brasileiros, mas o que a China está fazendo é retaliar para negociar e, em uma negociação com os EUA, ela pode adotar medidas que beneficiem os americanos e prejudiquem o Brasil”, disse ao Broadcast Agro. A Aliança Agro promove o agronegócio brasileiro na Ásia.

Embora haja potencial para ganhos de curto prazo, a batalha comercial entre EUA e China é vista pelo governo brasileiro como algo prejudicial a todos os envolvidos.

A aplicação unilateral de sobretaxas, como fazem as duas potências, enfraquece um sistema de comércio internacional que vem sendo estruturado desde a Segunda Guerra, aumenta a insegurança jurídica e converte o mercado mundial em um espaço onde prevalece a lei do mais forte, segundo avaliou fonte do Executivo. 

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

Trump ordena envio da Guarda Nacional para fronteira com o México

Da redação
Veja online

Presidente americano quer proteger país da entrada clandestina de imigrantes com tropas

(John Moore/Getty Images)
A fronteira internacional entre Estados Unidos e México 

O presidente americano, Donald Trump, determinou nesta quarta-feira (4) a mobilização da Guarda Nacional para ajudar a proteger a fronteira dos Estados Unidos com o México, anunciou a Secretária de Segurança Interna, Kirstjen Nielsen.

A porta-voz acrescentou que “o Departamento de Defesa e o Departamento de Segurança Interna foram orientados a trabalhar junto com nossos governadores para mobilizar a Guarda Nacional para nossa fronteira sudoeste, para ajudar a patrulha fronteiriça”.

Nielsen disse que os planos “estão sendo finalizados”, e acrescentou que “levará tempo para que o deslocamento ocorra, mas estamos nos movendo rapidamente”
.
Entre os detalhes que estão sendo definidos, disse Nielsen, se destacam o “como, quem, onde e quando”.

Na véspera, Trump havia sugerido a utilização de tropas para custodiar a fronteira ante a aproximação desde o México de uma caravana de imigrantes em direção à fronteira entre os dois países.

Em resposta, a chancelaria mexicana informou que o governo do México havia solicitado aos Estados Unidos “pelos canais oficiais que esclareça o anúncio sobre o uso do exército na fronteira”.

Nielsen disse que esteve “em contato com seus pares no México” e garantiu que esses interlocutores “entendem o desejo de nossa administração, assim como a deles, para controlar a entrada ilegal no país”.

As autoridades mexicanas “entendem e respeitam nossa soberania nacional”, assegurou. O chanceler do México, Luis Videgaray, se encontra nesta quarta em Washington para conversas relativas às negociações do Tratado de Livre-Comércio da América do Norte (Nafta).

Nielsen disse ainda que a Casa Branca voltará a pedir ao Congresso que proporcione “autoridade legal e recursos” ao poder executivo para atender à “crise em nossas fronteiras”.

“Não vamos permitir que níveis anteriores de imigração ilegal se tornem a norma”, afirmou, acrescentando que “mais de 1.000 pessoas por dia, 300.000 ano” violam a soberania do país ao entrar clandestinamente.

(Com informações Agência  AFP)