domingo, novembro 03, 2013

Um governo vale pelos resultados que produz.

Adelson Elias Vasconcellos

Já há algum tempo que venho classificando o governo Dilma de medíocre. E não é porque ele seja do PT, ou de esquerda, como alguns desavisados costumam qualificá-lo. É medíocre porque os resultados são desastrosos, principalmente na área econômica.

Tanto no Congresso, na comemoração dos 25 anos de promulgação da atual constituição, quanto na solenidade de comemoração de 10 anos do bolsa família, Lula não se vexou em classificar o governo FHC como ruim, como tendo quebrado o país, e de que a estabilidade foi conquista dele, Lula. Na mesma linha, Dilma Rousseff negou o DNA tucano no Bolsa Família.

Estas críticas e acusações levianas da dupla Lula-Dilma já as comentamos aqui várias vezes, porque elas se repetem de modo absurdo. Eles não se cansam de brigar com a História. Ambos jamais tiveram o menor compromisso com a verdade. Assim, e apostando num auditório que está ali para ouvi-los tão somente, e não para contestá-los, acham que podem dizer qualquer asneira e cretinice e que tudo bem, a imprensa, grande parte já ajoelhada no milho das subvenções federais, não fará manchetes condenando as mentiras.  Assim, entendem que sua tática canalha ainda dá para o gasto.

Contudo, não há mentiras que a dupla conte que encubra a principal característica do governo Dilma: a sua incrível mediocridade. 

Por um instante, pensemos no seguinte: Lula arrola para si os feitos da estabilidade econômica. Como o governo Dilma é mera continuação das políticas do governo Lula, tanto que boa parte dos ministros ou foram nomeados por ele, ou são até os mesmos, caso,  por exemplo, de Guido Mantega, na Fazenda, não se pode dissociar um governo do outro. Certo?

Ora, como pode o governo responsável pela estabilidade, em tão pouco tempo, jogá-la pela janela? Porque, rigorosamente, é isto que o governo Dilma vem fazendo. Vem destruindo, um a um, os pilares que garantiram e dão sustentação à estabilidade econômica do país.  Podemos destacar que o tal tripé, há muito tempo, já foi para o espaço.  Primeiro a questão cambial. Quando no primeiro mandato de Lula,  a inflação deu mostra de arrefecimento total, Lula deveria ter reduzido as metas de inflação de 4,5% ao ano, para algo próximo a 2 ou 2,5%. Com isso, e com a manutenção do superávit primário em torno de 3%, ele teria arranjado espaço para gradual redução da taxa Selic.  Ora, com uma taxa de juros menor, o Brasil não teria atraído bilhões de dólares em investimento financeiro e, por conseguinte, não teria favorecido uma exagerada e desproporcional valorização do real. Tal efeito produziu duas consequências tenebrosas para o país: de um lado, perdemos espaço no comércio mundial, restringindo  nossas exportações apenas em Itens primários, as chamadas commodities. E, de outro, não teria permitido a avalanche de produtos importados de consumo, que provocaram um grave processo de desindustrialização, cujo alto ainda estamos pagando.

Resultado desta combinação perversa de fatores: nossos saldos da balança comercial  passaram a se reduzir drasticamente e, a tal ponto, que em 2013, após uma década de crescimento, nosso saldo tem sido negativo.

Apenas nesta análise resumida de fatores, já se nota os erros de escolhas na condução da política econômica. Mas há muito mais. Durante anos observou-se um crescimento vertiginoso na arrecadação federal e, incrivelmente,  não se observou igual crescimento dos investimentos públicos. O que se viu e ainda se vê, é o crescimento impressionante dos gastos públicos, e em índices superiores ao PIB, à inflação e ao próprio crescimento  da arrecadação.   Lentamente, e a partir do governo Dilma, os investimentos públicos foram definhando ano após ano.    Com uma mobilização cada vez maior de recursos em gastos correntes,  com uma avalanche ininterrupta de subsídios que foram sendo empurrados para o Tesouro bancar, com desonerações em busca do aumento de consumo, seria inevitável que o superávit primário acabasse por  virar a rota e se transformasse em déficit. 

Todo este colossal cenário de incompetências e improvisos,  falta de visão estratégica de longo prazo, combinado com um baixo crescimento resultante destas escolhas ruins, levaram a perda de credibilidade no próprio governo que, afora sua incompetência, passou a querer manipular o mercado com uma contabilidade criativa com o propósito  de esconder seus maus resultados. 

Quando jornais e semanários estrangeiros, ingleses ou americanos,  alertam o país para o desvio de rota, por aqui o que se vê é um total desprezo a estes alertas. Ninguém lá fora está interessado em ver o Brasil afundando, pelo contrário, há muito capital produtivo americano, inglês, alemão, francês, japonês, espanhol, italiano e até chinês investido em nossa economia. Uma débâcle econômica do Brasil repercutiria também negativamente nas economias destes países. Portanto, este discurso canalha e imbecil, recheado de um nacionalismo caquético, não passa de discurso vazio, sem fundamento e sem consistência. 

Nós temos compromisso com o mundo, sim, fazemos parte de uma imensa aldeia global, onde os interesses se coincidem, são interativos e interdependentes.  Não entender esta dinâmica é um atestado de total burrice e estupidez. Apenas autoritários e protoditadores adoram espalhar esta sandice entre seus povos, do tal inimigo externo. Isto lhes dá campo para serem ainda mais autoritários, ditatoriais, como é possível observar aqui bem perto, Venezuela e Argentina . No Brasil, temos estas figurinhas patéticas espalhadas e assentadas nos partidos de esquerda e extrema esquerda. E o resultado deste pensamento obtuso é que o país anda para trás quanto mais este pensamento se difunde e encontra acolhimento entre nós. 

E se alguém, com total imparcialidade e honestidade de propósitos,  se debruçar sobre o crescimento brasileiro ocorrido entre 2003 e 2009, constatará que ele se deu por duas razões: de um lado, como resultado das reformas advindas com o Plano Real e, de outro, pelo crescimento exponencial da economia mundial durante igual período. Não houve ali nenhuma medida adotada pelo governo Lula para dar sustentação àquele crescimento,  a não ser manter os postulados herdados do governo anterior. 

Portanto, não tem a menor procedência a afirmação de Lula de que a estabilidade econômica  brasileira foi fruto de seu governo. Sua virtude foi a de dar continuidade à política econômica e programas sociais implementados  no governo anterior. E só não avançamos por covardia do próprio Lula que se apequenou diante das reformas que o país ainda precisava faze  e ele não teve nem atitude nem estatura de estadista para implementá-las. Temia que a  maionese desandasse. 

Resultado desta covardia é que a  crise de 2008 cujos  efeitos duraram até o começo deste ano,  mostrou toda a nossa fragilidade, nossas deficiências e vulnerabilidades.  

Lula e Dilma podem fazer ibope aqui dentro,  diante de uma população majoritariamente desinformada  e com pouco calibre intelectual. Porém, lá afora, sua enganação já mostrou a verdadeira face. Nenhum analista de boa fé é capaz de avalizar suas mentiras e mistificações.  Tanto é assim  que, ao olharem para o caso brasileiro, nenhum descarta o belo governo de FHC e as boas obras na economia resultantes de seu período. Claro que isto machuca o ego da dupla. Querem ser maior do que realmente são. 

O resultado divulgado, de que as contas do governo central apresentaram o pior resultado em 17 anos, não devem surpreender aqueles que olham resultados, e não se deixam encantar pelos discursos escandalosamente forjados. Representam, sim, o resultado de governos medíocres e que há onze anos vem desgovernando o país sob as bênçãos cúmplices de imprensa, empresários, intelectuais  e classe política.  E não guardem expectativas de que a coisa toda possa melhorar: o próximo presidente, seja ele quem for, se não dedicar metade do seu mandato para por a casa em ordem, e trazer racionalidade à política econômica, insistindo em dar prosseguimento aos descaminhos que Lula e Dilma teimaram em perseguir, condenará o país a atravessar as mesmas turbulências vividas na década de 80 e início de 90. 

Resultados do governo Dilma? Pois não, seguem alguns: 

maior saída de dólares para os meses de agosto em 15 anos; 
gasto recorde de compras exterior pelos brasileiros apesar da alta do dólar, a demonstrar o quanto estamos caros, muito caros em comparação com o restante do mundo; 
déficit em conta corrente até agosto já superando todo o ano de 2012, sendo também o pior em 66 anos; 
fluxo cambial negativo; 
balança comercial negativa, apresentando o pior déficit desde 1998;    
Investimento federal com crescimento menor que custeio;
Após quedas sucessivas, desigualdade de renda sobe no Nordeste em 2012;
Pior resultado para agosto desde 1996 e meta fiscal fica mais distante.
Pior déficit primário em 11 anos.

Nenhum país na história humana consegue sobreviver sem tormentas a tantas irresponsabilidades e mentiras. Um dia a conta chega e será preciso pagar. É o preço certo da má semeadura. Reafirmo, assim, que um governo vale pelos resultados que produz, e nunca pelos discursos espirituosos de  seus governantes. E é pelos resultados medíocres do governo Dilma que ele deve ser avaliado e qualificado. De certa forma, Lula anteviu este desastre e, tentando mudar de assunto, antecipou a campanha eleitoral. Porque os resultados do governo Dilma, de fato, não recomendam sua reeleição. Pode até ganhar, mas não será por mérito, e, sim, pela falta de concorrência, assim como ocorreu no “leilão” do Campo de Libra, quando teve  apenas um consórcio.   

Portanto, corretíssima a observação de Gustavo Franco; “A estabilidade não foi conseguida por Lula, mas apesar dele”. E eu acrescentaria mais: apesar dele e todo o seu partido, o PT. 

O que todos deveriam ver

J.R.Guzzo
Revista EXAME

O Brasil que existe de verdade, de carne, osso e alma, é como se fosse de celofane:  não é visto por políticos, marqueteiros e pela mídia. E não é discutido nos debates em torno das candidaturas à Presidência. 

É uma prova direta, material e indiscutível da cegueira do debate nacional, no Brasil de hoje,  o que impede seus participantes de propor qualquer solução eficaz para qualquer coisa que precise ser solucionada, a obsessão em adivinhar o secundário.  Que ideia útil poderia sair de toda essa conversa se ninguém quer olhar para o essencial? Nenhuma,  é claro. Por tudo aquilo que estão fazendo neste momento as forças políticas, de governo ou de oposição,  os grandes tomadores de decisões, os arquiduques da marquetagem eleitoral, os meios de comunicação e por aí afora, só existe um assunto de interesse possível: a situação econômica vai favorecer ou vai prejudicar a reeleição da presidente Dilma Rousseff em outubro de 2014? Vai ajudar ou não Marina Silva, Eduardo Campos ou Aécio Neves? Vai ressuscitar como candidato o ex-presidente Lula?  

O que não passa pela cabeça de ninguém é indagar o que a situação econômica do momento, com as decisões dramáticas que está a exigir, significa para o Brasil e para sai população. É para isso, e só para isso, que deveriam estar todos olhando. É para isso, justamente, que ninguém quer olhar.   

E daí que Dilma passe mais quatro anos no Palácio do Planalto antes de se aposentar – ou se aposente um tanto mais cedo, já no fim de 2014? Qual diferença isso pode fazer para os milhões de brasileiros que têm mais de 30, 40 ou 50 anos de vida pela frente, ou mais ainda  que isso?  O que interessa, a não ser para eles próprios, saber se Marina Silva é “compatível” com Eduardo Campos? Ou quem pode ser vice de quem, ou se Marina foi pobre o suficiente para poder ser comparada a Lula, ou se José Serra vai continuar  se candidatando a alguma coisa? O que muda se o governo, o PT e sua máquina de propaganda decidirem que Marina, que só foi alfabetizada às vésperas de tornar-se adulta, passou fome por anos a fio durante a infância e quase morreu de doenças criadas pela miséria, transformou-se de repente numa mulher de “direita”? E Campos: é um socialista-direitista? 

Sejam quais forem as respostas para essas perguntas todas, o Brasil continuará tendo 50 000 homicídios por ano. Continuarão sem entender direito o que leem 70% da população alfabetizada – fora, portanto, de qualquer acesso a bens como uma carreira decente, uma remuneração mais folgada ou uma existência menos precária.  A construção da ferrovia Norte-Sul, iniciada em 1987, continuará sem prazo para terminar. Nada disso porém, está dentro do debate atual. O que interessa são apenas as miseráveis questõezinhas  expostas e outras que vivem na mesma inatividade mental.  

O Brasil que existe de verdade, de carne, osso e alma, simplesmente não é discutido nestes momentos de neurastenia pretensamente ideológica e de hiperatividade política; é como se fosse feito de celofane. Mas é para ele que todos deveriam estar olhando, com propostas claras a respeito do que precisa ser feito, e precisa ser feito já. O poder efetivo de compra do real é uma desgraça: itens essenciais, como eletrodomésticos, roupas e equipamento tecnológico básico, custam 50% mais caro do que nos Estados Unidos e em outros países desenvolvidos. O peso dos impostos sobre a folha de pagamentos chega quase a 60%, dinheiro que o empregador paga, mas o empregado não recebe – e veneno em estado puro para a criação de empregos mais bem remunerados. 

A desigualdade social , consequência direta da falta de habilitação de milhões de brasileiros para o trabalho moderno, é um desastre para a produtividade do país e sua capacidade de competir. Os avanços de renda, sobretudo no salário mínimo, nem sequer arranharam  nossa indigência; o mínimo brasileiro é um sexto ou um quinto do que é pago nos países mais avançados da Europa, sem a compensação de um custo de vida menor. Mais de 100 países tem infraestrutura melhor que a do Brasil, onde o governo não investe e não deixa investir – e assim vamos. Continuaremos a ir, com 100% de certeza, enquanto a vida pública continuar cega. 


A economia segundo o modelo Costa Concordia

Rolf Kuntz  
O Estado de S.Paulo

Viciado em gastança, atolado em políticas erradas e desastrado na escolha de prioridades, o governo continua destruindo as finanças públicas e liquidando qualquer compromisso com a responsabilidade fiscal, como comprovaram mais uma vez dois relatórios divulgados na quinta-feira - o das operações do Tesouro e o das contas consolidadas do setor público, elaborado mensalmente pelo Banco Central (BC). Com essa informação, ficou em segundo plano, pelo menos por algumas horas, um desastre muito mais visível para a maior parte do público: o pedido de recuperação judicial de mais uma empresa, a OGX, festejada como campeã nacional e apontada como exemplo de audácia e de sucesso pela presidente Dilma Rousseff. Há muito em comum entre as duas notícias: a inconsequência, o voluntarismo e o baixo grau de discernimento revelados tanto no dia a dia da política econômica quanto no tratamento das questões de longo prazo. A mesma vocação para o erro é evidenciada na resistência a uma nova política de preços para a Petrobrás, mesmo depois do balanço muito ruim divulgado na semana anterior.

Voltando às contas públicas: segundo o Tesouro, o governo central teve déficit primário - sem contar os juros, portanto - de R$ 10,47 bilhões em setembro, o pior resultado da série histórica para o mês. O conjunto do setor público, formado por União, Estados, municípios e estatais, também foi deficitário e com esse tropeço ficou mais difícil atingir qualquer resultado fiscal razoável neste ano. O buraco registrado nas contas do governo central é explicável por "especificidades", disse o secretário do Tesouro, Arno Augustin. O comandante do Costa Concordia, Francesco Schettino, poderia explicar com as mesmas palavras o desastre ocorrido no ano passado, quando o navio, desviado da rota, bateu num rochedo perto da Ilha de Giglio. Seu propósito pessoal ao ordenar o desvio foi uma "especificidade", assim como a incômoda presença do rochedo num lugar tão impróprio. Talvez se pudesse atribuir este último detalhe à vontade do Criador, mas o comandante de um navio deve ter certa familiaridade com a geografia da criação.

Não há como deixar de lado as motivações e decisões equivocadas, no caso das contas públicas, na história dos apertos financeiros da Petrobrás, na escolha desastrosa de campeões nacionais ou no episódio do Costa Concordia. De janeiro a setembro a receita do governo central - Tesouro, Previdência e BC - foi 8% maior que a de um ano antes. A do Tesouro, isoladamente, foi 6,8% superior àquela obtida entre janeiro e setembro de 2012. Mas a despesa total ficou 13,5% acima da contabilizada no ano anterior. Não houve, de fato, nenhum esforço importante de contenção, embora alguns problemas fossem previstos, incluída a perda de receita causada pelas desonerações fiscais.

Apesar dessas desonerações, o crescimento da economia continuou pífio. Nem o governo projeta, neste momento, uma expansão maior que 2,5% neste ano. Os estímulos foram mal concebidos e alimentaram mais o consumo do que a produção. Os empresários da indústria, setor com crescimento de apenas 1,1% nos 12 meses até setembro, continuaram ressabiados e pouco dispostos a mais gastos para produzir. O BC continuou apontando em seus relatórios a estreita margem de capacidade da indústria, os efeitos inflacionários da demanda e os riscos associados às condições de um mercado de trabalho muito apertado.

Esse aperto ficou ainda mais evidente quando a Confederação Nacional da Indústria (CNI) divulgou seu último estudo sobre as dificuldades de obtenção de mão de obra qualificada. O problema foi apontado por 68% das empresas consultadas na pesquisa. Em outras palavras, para bem avaliar a escassez de oferta no mercado de trabalho é preciso levar em conta a qualidade do capital humano disponível.

Além disso, praticamente metade das empresas, 49%, tem dificuldade para treinar o trabalhador, por causa da baixa qualidade da educação básica. Este é um problema herdado. Durante os primeiros oito anos da administração petista, a política educacional concentrou-se em facilitar o acesso ao ensino "superior", sem levar em conta os principais focos de problemas, localizados na educação básica e no ensino médio. Apesar de algum avanço, o Brasil continua ocupando posições vergonhosas nos testes internacionais de linguagem, matemática e ciências. O equívoco na escolha da prioridade foi muito mais que um inocente erro de avaliação. Foi também, obviamente, uma decisão ditada por interesses eleitorais.

Fiel ao padrão consolidado na gestão anterior, o governo da presidente Dilma Rousseff continuou gastando dinheiro e distribuindo benefícios de forma ineficiente, como se estivesse ao mesmo tempo realizando uma política anticrise e criando condições de crescimento de longo prazo. Queimou dinheiro inutilmente, como comprovam as contas públicas, o baixo ritmo da produção e os problemas consideráveis de competitividade internacional dos produtores instalados no Brasil. A crise externa é a causa menos importante da erosão da balança comercial.

Erros acumulados em dois governos deixaram a Petrobrás com problemas de caixa e muito dinheiro encalhado em projetos mal concebidos, como o da Refinaria Abreu e Lima. Apesar disso, a empresa tem de ser operadora única de todos os campos do pré-sal, manter participação de pelo menos 30% em todos os consórcios e funcionar como instrumento de política industrial.

Como exercer esse papel sem elevar seus custos e sem prejudicar sua atividade básica, o chamado core business, é uma questão ainda sem resposta. Mas o governo parece desconhecer essa pergunta, assim como desconhece, ou menospreza, as principais causas da estagnação brasileira, a começar pelos erros da política fiscal.

Chega.

Carlos Brickmann
Brickmann & Associados Comunicação

Claro, claro. São manifestantes pacíficos, ordeiros e bem-intencionados; e daí? Daí que as grandes cidades brasileiras não podem ficar reféns de bloqueios diários de trânsito, de entraves ao trabalho e ao lazer, de protestos que, por justos que sejam, já atravancam há quase cinco meses as atividade normais dos cidadãos. E aqui não se fala de mascarados, de black-blocs, seja qual for o seu nome: quem participa de ações violentas e depredações de patrimônio público ou privado está fora da lei e seu direito é apenas a um julgamento justo.

Já houve um bloqueio em São Paulo em apoio aos portuários do Panamá, ou de Porto Rico; há bloqueios contra médicos cubanos, a favor de médicos cubanos, contra a praga que ameaça as plantações de centeio da Moldávia Exterior. Parar uma cidade, ou uma estrada, é fácil: meia dúzia de pessoas espalha meia dúzia de pneus na rua e, com meia dúzia de fósforos, incendeia-se o caminho. Falta pouco para sitiar bairros inteiros como protesto contra o gol anulado pelo juiz quando estava claro que não houve impedimento.

Manifestações existem em todo o mundo democrático. Em Londres, o Hyde Park é área preferencial de protestos, onde quase não há limites para a liberdade de expressão. Mas a cidade continua funcionando. Parar tudo também existe, mas em ocasiões específicas: Buenos Aires, por exemplo, parou para os funerais de Perón. Já parar uma cidade porque alguém tem vontade de quebrar umas vitrines é coisa nossa. 

Chega: o cidadão tem de ter no mínimo o direito de ir e vir.

A casa e a família
O prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, do PT, agiu mal: multiplicou o IPTU e chegou a demitir um secretário para que reassumisse sua cadeira de vereador e votasse favoravelmente à escorcha. Mas isso não é justificativa para manifestações em frente à sua casa: se alguém quiser protestar contra Maldadd, que o faça em frente à Prefeitura, ou em alguma solenidade - ou, melhor ainda, nas urnas, votando contra os candidatos que ele indicar. Mas não em sua casa, não envolvendo sua família, não perturbando seus vizinhos. Civilidade, enfim.

Questão de ritmo
O ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, anunciou que os serviços de informações da Polícia Federal e das polícias de São Paulo e do Rio vão investigar em conjunto os manifestantes que agem com violência. Isso significa que só agora, depois de cinco meses de quebra-quebra, Sua Excelência decidiu trabalhar? Que até agora as polícias se recusavam a colaborar umas com as outras? Já que o ritmo é este, o trabalho conjunto poderia começar por uma investigação simples: que é aquele cavalheiro, no Rio, que jogou coquetéis Molotov, correu na direção dos policiais, foi recebido, e reapareceu fardado instantes depois. Tudo foi filmado. 

Como é que ele explica seu desempenho? Quem lhe deu ordens? Por quê?

Coisas... 
Vários funcionários municipais paulistanos foram detidos por exigir e receber propina, dando aos cofres públicos, ao mesmo tempo, prejuízos que ainda estão sendo calculados, mas podem chegar a meio bilhão de reais. Todos atuaram na administração Gilberto Kassab, ex-DEM, hoje PSD; e um deles, membro de destaque do grupo, foi nomeado para um cargo de confiança pelo prefeito Fernando Haddad, PT. Haddad diz que nomeou o cavalheiro como parte de sua estratégia para evitar que a investigação fosse revelada. Ah, bom: simplesmente deixar o servidor onde estava não era suficiente. Seria preciso promovê-lo, né? Então, tá.

...estranhas... 
Os detidos, informa-se, ameaçavam cobrar impostos altíssimos de quem fazia obras na cidade. Mas, mediante boa compensação, acabavam inscrevendo as obras com impostos bem baixinhos. Mas quem foi beneficiado? Se eles foram corrompidos, quem os corrompeu? Se receberam, quem pagou? É certo que quem pagou tinha condições de fazê-lo. 

Será que denunciar quem pagou é perigoso?

...muito estranhas... 
A explicação do procurador da República Rodrigo de Grandis para não ter colaborado com as investigações pedidas pela Suíça a respeito do caso Alstom - formação de cartel e pagamento de propina em São Paulo, em obras e equipamentos do Metrô e dos trens metropolitanos - é simples: diz que o pedido suíço foi guardado numa pasta errada e por isso, nos três anos que se passaram, ninguém cuidou do caso. 

Não é bem assim: houve três ofícios das autoridades brasileiras responsáveis pela recuperação de ativos internacionais desviados, todos olimpicamente ignorados. O fato é que, depois de três anos à espera de providências, os procuradores suíços decidiram arquivar o caso. Apenas como complemento, o caso Alstom é, no fundo, o caso Siemens. Cadê as investigações? 

...estranhíssimas
Em São Paulo, o Governo tucano impede a criação de uma CPI na Assembléia. Claro: tanto o caso Alstom quanto o caso Siemens se iniciaram no Governo tucano de Mário Covas e atravessaram os governos tucanos de Alckmin e Serra. Mas a bancada federal petista anunciou há dois meses que tem assinaturas suficientes para criar uma CPI no Congresso. Até agora não a criou. Por quê?

carlos@brickmann.com.br 
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Sem complacência

Fernando Henrique Cardoso  
O Estado de S.Paulo

As notícias da semana que terminou não foram auspiciosas, nem no plano internacional nem no local. Uma decisão da Corte Suprema da Argentina, sob forte pressão do governo, sancionou uma lei que regula a concessão de meios de comunicação. Em tese, nada de extraordinário haveria em fazê-lo. No caso, entretanto, trata-se de medida tomada especificamente contra o grupo que controla o jornal El Clarín, ferrenho adversário do kirchnerismo. Cerceou um grupo de comunicação opositor ao governo sob pretexto de assegurar pluralidade nas normas de concessão. Há, contudo, tratamento privilegiado para o Estado e para as empresas amigas do governo.

Da Venezuela vem-nos uma patuscada incrível: as cidades do país apareceram cobertas de cartazes contra a "trilogia do mal", ou seja, os principais líderes opositores, aos quais se debitam as falências do governo! Seria por causa deles que há desabastecimento, falta de energia e crise de divisas, além da inflação. Tudo para incitar ódio popular aos adversários políticos do governo, apresentando-os como inimigos do povo.

O lamentável é que os governos democráticos da região assistem a tudo isso como se fosse normal e como se as eleições majoritárias, ainda que com acusações de fraudes, fossem suficientes para dar o passaporte democrático a regimes que são coveiros das liberdades.

No Brasil também há sinais preocupantes. Às manifestações espontâneas de junho se têm seguido demonstrações de violência, desconectadas dos anseios populares, que paralisam a vida de milhões de pessoas nas grandes cidades. A essas se somam às vezes atos violentos da própria polícia. Com isso se deixa de ressaltar que nem toda ação coercitiva da polícia ultrapassa as regras da democracia. Ao contrário, se nas democracias não houver autoridade legítima que coíba os abusos, estes minam a crença do povo na eficácia do regime e preparam o terreno para aventuras demagógicas de tipo autoritário.

Temos assistido ao encolhimento do Estado diante da fúria de vândalos, aos quais aderem agora facções do crime organizado. Por isso é de lamentar que o secretário-geral da Presidência se lamurie pedindo mais "diálogo" com os black blocs, como se eles ecoassem as reivindicações populares. Não: eles expressam explosões de violência anárquica desconectada de valores democráticos, uma espécie de magma de direita, ao estilo dos movimentos que existiram no passado no Japão e na Alemanha pós-nazista.

Esses atos vandálicos dão vazão de modo irracional ao mal-estar que se encontra disseminado, principalmente nas grandes cidades, como produto da insensatez da ocupação do espaço urbano com pouca ou nenhuma infraestrutura e baixa qualidade de vida para uma aglomeração de pessoas em rápido crescimento. O acesso caótico aos transportes, o abastecimento de água deficiente e a rede de serviços (educação, saúde e segurança) insuficiente não atendem às crescentes demandas da população. Sem mencionar que a corrupção escancarada irrita o povo. Não é de estranhar que, conectados aos meios de comunicação, que tudo informam, os cidadãos queiram dispor de serviços de países avançados ou de padrão Fifa, como dizem. Sendo assim, mesmo que a situação de emprego e salário não seja ruim, a qualidade de vida é insatisfatória. Quando, ainda por cima, a propaganda do governo apresenta um mundo de conto da carochinha e o cotidiano é outro, muito mais pesado, explicam-se as manifestações, mas não se justificam os vandalismos.

Menos ainda quando o crime organizado se aproveita desse clima para esparramar terror e coagir as autoridades a não fazer o que deve ser feito. Estas precisam assumir suas responsabilidades e atuar construtivamente. É necessário dialogar com as manifestações espontâneas, conectadas pela internet, e dar respostas às questões de fundo que dão motivos aos protestos. A percepção de onde o calo aperta pode sair do diálogo, mas as soluções dependem da seriedade, da competência técnica, do apoio político e da visão dos agentes públicos.

Os governos petistas puseram em marcha uma estratégia de alto rendimento econômico e político imediato, mas com pernas curtas e efeitos colaterais negativos em prazo mais longo. O futuro chegou, na esteira da falta de investimento em infraestrutura, do estímulo à compra de carros, do incentivo ao consumo de gasolina, em detrimento do etanol, e do gasto das famílias via crédito fácil, empurrado pela Caixa Econômica Federal. Os reflexos aparecem nas grandes cidades pelo País afora: congestionamentos, transporte público deficiente, aumento do nível de poluição atmosférica, etc.

De repente caiu a ficha do governo: tudo pela infraestrutura, na base da improvisação e da irresponsabilidade fiscal. Primeiro o governo federal subtraiu receitas de Estados e municípios para cobrir de incentivos a produção e compra de carros. Depois, em vista do "caos urbano" e da proximidade das eleições, afagou governadores e prefeitos permitindo-lhes a contratação de novos empréstimos, sobretudo para gastos em infraestrutura. A mão que os afaga é a mesma que apedreja a Lei de Responsabilidade Fiscal, ferida gravemente pela destruição de uma de suas cláusulas pétreas: a vedação ao refinanciamento de dívidas dentro do setor público. Mais uma medida, esta especialmente funesta, que alegra o presente e compromete o futuro.

Não haverá solução isolada e pontual para os problemas que o País atravessa e as grandes cidades sentem mais do que quaisquer outras. Os problemas estão interconectados, assim como as manifestações e demandas. Não basta melhorar a infraestrutura, se o crime organizado continua a campear, nem mais hospitais e escolas, se a qualidade da saúde e da educação não melhora. As soluções terão de ser iluminadas por uma visão nova do que queremos para o Brasil. Precisamos propor um futuro não apenas materialmente mais rico, mas mais decente e de melhor qualidade humana. Quem sabe assim possamos devolver aos jovens e a todos nós causas dignas de ser aceitas, que sirvam como antídoto aos impulsos vândalos e à complacência com eles.

Eike Batista, o bilionário-celebridade

Elio Gaspari
O Globo

A quebra da OGX de Eike Batista era pedra cantada e foi a maior concordata da história do país. Em 2010, suas ações valeram R$ 23,27. Para desencanto de 52 mil acionistas e algumas dezenas de diretores da grande banca pública e privada, saíram da Bolsa a R$ 0,13. Todo mundo ganhará se disso resultar algum ceticismo em relação à exuberância irracional da cultura das celebridades poderosas. Nela, juntam-se sábios da banca que se supõem senhores do Universo e autoridades que se supõem oniscientes.

Admita-se que um vizinho propõe sociedade num empreendimento. Ele é um homem trabalhador, preparado, poliglota, esportista e bem sucedido. Apesar disso, expôs sua vida pessoal mostrando que tem um automóvel de luxo na sala de estar, comunica-se em alemão com o cachorro (o bicho chegou ao Brasil num Boeing privado, com dois treinadores). Sua mulher desfilava numa escola de samba com uma gargantilha onde escreveu o nome dele e deixou-se fotografar de baixo para cima usando lingerie transparente. Nomeou para a diretoria de uma de suas empresas um filho que declarou só ter lido um livro em toda a vida. Revelou que estava ligado em astrologia, confiando no seu signo (escorpião), e disse coisas assim: “Tenho alguma coisa com a natureza. Onde eu furo, eu acho”. Quando suas contas começaram a ter problemas, defendeu-se: “Meus ativos são à prova de idiotas”. Tem jogo?

Eike tornou-se uma celebridade, listada por oráculos da imprensa financeira como o homem mais rico do Brasil, oitavo do mundo e anunciou que disputaria o primeiro lugar. Até junho, quando as ações da OGX estavam a R$ 1,21, sentavam-se em seu conselho de administração figuras respeitáveis como o ex-ministro da Fazenda Pedro Malan e a ex-presidente do Supremo Tribunal Federal Ellen Gracie. Lula visitava seus empreendimentos. A doutora Dilma Rousseff dissera que “Eike é o nosso padrão, a nossa expectativa e, sobretudo, o orgulho do Brasil quando se trata de um empresário do setor privado”. Quem entrou nessa, micou, inclusive a doutora.

Em seus delírios, Eike Batista criou uma fantasia que pouco tem a ver com a real economia brasileira, ou com as bases dos setores de petróleo, mineração e infraestrutura. Parte do mico ficou para os gênios da banca internacional. Cada um acreditou no que quis e deu no que deu. Falta de exemplos, não foi. Para falar só de grandes empresários que já morreram, a austeridade foi a marca de empreendedores como Augusto Trajano de Azevedo Antunes, que criou a mineradora Icomi, Leon Feffer, criador da Suzano Papel, e Amador Aguiar, pai do Bradesco. Não foram celebridades. Descontando-se o fato de que “seu” Amador não usava meias, não tinham folclore.

Eike, Eduardo Paes e a Marina da Glória
Em 2009, Eike Batista comprou a concessão da Marina da Glória, uma área tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. Seu plano era transformá-la num anexo náutico do Hotel Glória, construindo um centro de convenções que jamais esteve no projeto original.

Esse patrimônio da Viúva estava nas mãos da prefeitura do Rio de Janeiro. Até maio passado, o prefeito Eduardo Paes explicitou em diversas ocasiões seu apoio ao projeto. Sua assessoria dizia que ele fora aprovado pelo IPHAN, mas era patranha. Logo depois, a Justiça suspendeu a concessão.

Eike pôs à venda o hotel e passou adiante a Marina. No dia 29 de junho, Paes criou uma comissão para definir o futuro da área:

“Queremos deixar as regras claras, criar parâmetros. Vai poder ter lojas e centro de convenções? Não vai poder?”

Caso de curiosidade tardia para quem assumiu a prefeitura em 2009.

Eike e as contas
Se o processo de recuperação judicial da OGX levar peritos a examinar saques feitos nos últimos meses no caixa de empresas do grupo, a coisa ficará feia.

Eike e os poços
Entre as lições deixadas por Eike Batista, há uma que vai em benefício dele e de todos os empresários perseguidos por maledicências.

Quando Eike criou a OGX e levou para sua equipe ex-diretores da Petrobras, a sabedoria convencional estabeleceu que capturara os segredos das pesquisas geológicas da empresa. Esta suspeita foi vocalizada até mesmo pela cúpula da Petrobras.

Era lorota. Se eles soubessem onde estava o petróleo, a OGX não teria quebrado.

Eike e os bônus
Numa das explicações que Eike Batista deu para suas dificuldades estava a queixa de que diretores de suas empresas inflavam expectativas e resultados para engordar os bônus de fim de ano.

A lição vale para todos os empresários. Basta ligar um desconfiômetro. Qual dos diretores seria capaz de sustentar projetos e iniciativas que garantem seu bônus em dezembro e quebram a empresa daqui a alguns anos, quando ele estará na praia?

Das diretorias de Eike Batista, pelo menos dez executivos saíram com mais de R$ 100 milhões no bolso. Alguns, com R$ 200 milhões.

Nenhum micou.

Eike em Hollywood
Um produtor de cinema americano veio ao Brasil para oferecer a Eike Batista o conglomerado da Playboy americana. Durante o jantar, o empresário ofereceu-lhe um negócio melhor: um filme sobre a sua vida.

Punha duas condições: o Eike jovem deveria ser Leonardo di Caprio. O maduro, George Clooney.

Eike e o poder
Recordar é viver. Em junho do ano passado, quando Eike Batista emprestou seu jatinho a um poderoso amigo para um feriadão na Bahia, respondeu às críticas dizendo o seguinte:

“Tive satisfação em ter colocado meu avião à disposição do governador Sérgio Cabral. (...) Sou livre para selecionar minhas amizades, contribuir para campanhas políticas (e) trazer a Olimpíada para o Rio.”

Tudo verdade, menos o piro das Olimpíadas.

Eike e Frick
Faz tempo, um homem de negócios chamado Henry Frick habilitou-se para um empréstimo no banco Mellon. O dinheiro saiu, mas os arquivos do banco mostram que havia uma recomendação de cautela em relação a ele, porque comprava muitas obras de arte. Frick comprou três dos 34 Vermeer conhecidos. Mais três Rembrandt, dois Goya e até um Cimabue, do século XIII.

Sua casa, projetada para ser museu, tem uma das melhores coleções do mundo. Até janeiro, quem quiser poderá ir lá para ver a Menina com o Brinco de Pérola, emprestado pela Holanda.

O banco Mellon não arriscava, nem Frick.

Eike e o elevador
Despencou mais um empresário que tem elevador privativo em sua empresa, ou bloqueia-o quando está chegando ao prédio.

Juntou-se a um grupo onde estiveram Richard Fuld, que destruiu a Lehman Brothers, Ângelo Calmon de Sá (Banco Econômico), Theodoro Quartim Barbosa (Comind) e Edemar Cid Ferreira (Banco Santos).

Eremildo, o Idiota
Eremildo magoou-se ao saber que Eike Batista disse que seus negócios eram à prova de idiotas.

Ele continua botando fé no doutor.

Nonsense

Miguel Reale Júnior  
O Estado de S.Paulo

Dilma Rousseff estava especialmente inspirada em 12 de outubro, na solenidade sobre mobilidade urbana em Porto Alegre. Fez curiosa análise sociológica do País.

Iniciou sua fala referindo à "visão dominante" sobre ser o metrô "coisa de país rico"; assim, por nos "sentirmos pobres", apenas investíamos em corredor de ônibus. Passou, então, a fazer digressão motivada por Nelson Rodrigues. "O Nelson Rodrigues seria um gênio se tivesse escrito em inglês. Agora, ele é um gênio para nós que falamos a língua portuguesa, o brasileiro, como eles dizem que a gente fala, no exterior. Porque falam assim: o brasileiro eu entendo, o português de Portugal eu não entendo, não. Então, nós que falamos e escrevemos em português, nós temos de saber que tem uma descrição sobre Copa do Mundo, do Nelson Rodrigues, que é brilhante: o complexo de vira-lata. O complexo de vira-lata que atingia o nosso país, quando a gente estava prestes a ganhar a Copa, uma porção de especialistas em futebol dizia que a gente ia perder. Esse é o complexo de vira-lata." Em face desse complexo, conclui nossa presidente, em estupenda forma lógica: "E naquela época não aceitaram que tinha de fazer metrô".

Se não bastasse esse nonsense, abalançou-se a fazer considerações sobre o Dia da Criança. A seu ver, não apenas da criança, pois "é dia da mãe, do pai e das professoras, mas também é o dia dos animais. Sempre que você olha uma criança, há sempre uma figura oculta, que é um cachorro atrás, o que é algo muito importante". Havia, portanto, um fio condutor na mente da presidente: da falta de metrô ao vira-latas de Nelson Rodrigues e deste ao cachorro oculto por detrás de cada criança, o que é, como salientou, "algo muito importante".

Mas, para ser justo, não foi apenas o Poder Executivo atingido pela onda de nonsense. O Poder Judiciário também o foi. Alguns alunos da USP decidiram que deveria o alunado determinar os destinos da universidade, não bastando ter representação no Conselho Universitário e indicar a este qual a preferência dos estudantes ante os candidatos a reitor. Impedidos de entrar em reunião do Conselho Universitário, alunos com notável "civilidade" invadiram o prédio da Reitoria, para com porretes quebrarem portas e dependências do prédio público. A USP, diante do ilícito manifesto, recorreu ao Judiciário solicitando reintegração de posse. Qual não foi a surpresa ao ver o juiz interpretar o legítimo direito de recorrer a ele, magistrado, como um ato de autoritarismo, por se pretender retirar à força (legítima, da lei) quem à força (ilegítima) invadira um próprio público e o estava a destruir.

O juiz abdicou de suas funções para fazer discurso ideológico, com digressões de ordem política, ao considerar que o reitor se recusou a "iniciar um debate democrático a respeito de diversos temas sensíveis à melhoria da qualidade da universidade" (eleição direta do reitor). Entendeu ser "de pequena monta" a depredação do patrimônio público, porque seria "próprio da luta social, para ter pressão, causar transtorno e alteração da normalidade".

Ao legitimar a violência dos invasores, em discurso anacrônico, na data em que se comemoravam 25 anos da Constituição Cidadã, considerou o juiz que a imprensa e a sociedade teriam sido "amalgamadas, por longos anos, na tradição de um pensamento autoritário". Foi além o magistrado, pois, a seu ver, a desocupação da Reitoria, com o uso da tropa de choque, ratificaria mais uma vez "a tradição marcadamente autoritária da sociedade brasileira e de suas instituições, que, não reconhecendo conflitos sociais, ao invés de resolvê-los pelo debate democrático, lançam mão da repressão".

Com esse discurso panfletário o juiz negou jurisdição, impedindo a aplicação da lei. Admitiu que a ordem de desocupação - evidentemente, a ser notificada por oficial de Justiça - seria desrespeitada, devendo recorrer à força policial. Presenteou, então, os invasores com a proposta de uma audiência de conciliação na qual o poder público deveria, sob a pressão de estar com sua sede tomada à força, ceder às pretensões de entregar a universidade aos estudantes e transformar os professores em seus subordinados.

Coerente foi o juiz em sua posição favorável ao assembleísmo e à proteção da "democrática" pressão por mudanças com recurso à violência. Incoerente, no entanto, foi a posição do desembargador ao apreciar o recurso da universidade, porque entendeu que "os ocupantes devem sair", mas não imediatamente, "pois provisoriamente a reitoria pode funcionar em outro local", razão pela qual fixou um prazo de 60 dias para o fazerem.

Contraditoriamente, reconheceu a ilicitude da ação dos ocupantes, porém legitimou a manutenção da situação ilegal e danosa por 60 dias, indiferente ao transtorno causado à administração e ao bem público. Por que o prazo de 60 dias para voltarem à legalidade? O Judiciário mostra medo de impor a lei, cuja eficácia não depende de ação da tropa de choque, a não ser excepcionalmente. Deu-se autorização judicial à violência dos alunos e se negou direito certo da universidade. No Natal os invasores devem caminhar para suas casas à espera do Papai Noel e em seguida gozar merecidas férias de verão.

No Dia do Professor, mestres, que devem ensinar o respeito à lei, deram apoio incondicional aos black blocs, mascarados cuja única forma de agir é a violência, posta como um fim em si mesmo. Como conciliar a posição de educadores da juventude com a passeata ao lado desses depredadores?

Para um desmemoriado Lula, José Sarney não levantou um único dedo para criar dificuldades aos trabalhos da Constituinte, quando é consabido ter conspirado continuamente contra a Assembleia Constituinte, para no final manobrar de todas as formas por cinco anos de mandato.

É, o nonsense tomou conta do País.

O assédio cubano

Roberto Lopes
O Globo

Oficiais lotados no Ministério da Defesa tentaram neutralizar a atuação dos civis petistas que facilitam a parceria com os cubanos na área das informações estratégicas

A inteligência militar brasileira está inquieta. Diplomatas de Cuba vêm assediando funcionários de missões diplomáticas brasileiras no exterior, em busca de informações sobre: (a) a expansão do esforço antidrogas do Brasil na América do Sul, em substituição ao papel antes desempenhado pelo governo americano — fato que ocorre, por exemplo, na Bolívia; (b) a real medida da resistência brasileira à importação de médicos cubanos; (c) os motivos que levam a maioria dos formadores de opinião do país a se entrincheirar contra o chavismo.

Tal aproximação representaria o início de um processo de infiltração da inteligência cubana no Brasil, já que, em Havana, o recrutamento de diplomatas para serviços de coleta de informações é rotineiro.

Recentemente, oficiais lotados no Ministério da Defesa tentaram neutralizar a atuação dos civis petistas que facilitam a parceria com os cubanos na área das informações estratégicas. Mas não conseguiram. Tais servidores parecem ser irremovíveis, e não porque tenham sido nomeados pela presidente Dilma Rousseff, mas porque fazem parte da cota pessoal do ex-presidente Lula na administração federal.

O pessoal do G2 — Seguridad del Estado — e da contraespionagem militar cubana teve facilidade em dominar o aparato de segurança interna e a contraespionagem venezuelanos, porque lá o chavismo exigiu a politização das Forças Armadas. Coronéis (e simples majores) castristas desfilam como se fossem divindades pelos quartéis venezuelanos. À passagem deles, diz-se, os militares locais juntam os calcanhares e adotam rígida posição de sentido.

O Brasil é, felizmente, um desafio imensamente maior para os cubanos que a Venezuela, ou a Bolívia do compañero Evo. Tanto o ex-presidente Lula quanto o assessor internacional da Presidência, Marco Aurélio Garcia, já precisaram ouvir de patentes militares que o pior que poderia acontecer no país seria a politização das Forças Armadas brasileiras. E isso porque, no Palácio do Planalto, houve quem (do alto da barba, dos óculos e da gravata borboleta) sonhasse com oficiais-generais lulistas...

Nunca existiu um partido que apoiasse tanto a renovação dos meios de Defesa no país quanto o PT (e um que frustrasse tanto as expectativas dos militares quanto o PSDB), mas o preço que os petistas cobram por seu apoio é alto.

Essa conjunção de fatores fez surgir certa expectativa em relação à dupla Eduardo Campos/Marina Silva. Ele, neto de um político no passado perseguido pelos militares; ela, a guerreira da Amazônia, que representa um potencial de problemas a certas medidas consideradas urgentes pelos militares, como a modernização da BR-319 (Manaus-Porto Velho).

A questão é que, além dos seus históricos pessoais, a dupla Eduardo/Marina também oferece um compromisso com ética e ação governamental (desenvolvimentista) mais eficiente. E isso é, verdadeiramente, novo.

Talvez eles até consigam deixar o Itamaraty esticar o pescoço por cima da linha do Equador, para enxergar que existem chances de cooperação fora do eixo Sul-Sul. E, ao afrouxar a rigidez sobre o leme, permitam que a nau gire suavemente, adotando outra proa.

Mão beijada

Dora Kramer  
O Estado de S.Paulo

Câmara e Senado prometem na semana que vem resolver a história do sigilo dos votos dos parlamentares. O voto secreto para cassação de mandatos por quebra de decoro ou em caso de condenação criminal está com os dias contados.

Não se sabe quantos, uma vez que a agenda do Congresso não é uma ciência exata nem as promessas de suas excelências absolutamente confiáveis. Mas que mais dia menos dia o sigilo acabará não resta dúvida. Situação-limite criada pelos próprios deputados e senadores que transformaram uma prerrogativa em instrumento de (auto) proteção indevida. Não tivessem abusado nem ultrapassado todos os limites, ao ponto de preservar o mandato de um presidiário, talvez o assunto não estivesse em pauta.

Mas está - e, quanto ao que o Congresso decidirá, resta em aberto a questão da ampliação da queda do sigilo para todos os tipos de votações. Pelo jeito, tudo se encaminha para a aprovação do voto aberto apenas para cassações.

Assim havia decidido a Câmara em 2006 no calor do escândalo do mensalão. Aprovou em primeiro turno e, quando o clima esfriou um pouco, deixou o assunto para lá, faltando ainda uma segunda votação.

Os deputados ressuscitaram a proposta em decorrência dos protestos de junho. Concluída a aprovação, o projeto foi ao Senado em setembro e lá está, à espera da manifestação do plenário prometida para a próxima semana.

Como os senadores resistem à liberação total, os deputados querem votar, também na semana que vem, um texto restrito às cassações. Há bom argumento contrário: o voto não pertence ao parlamentar, mas ao público.

Mas, se olharmos com mais calma e sem voluntarismo todas as implicações, podemos também chegar à conclusão de que faz todo o sentido o contra-argumento da manutenção do sigilo para alguns casos, entre os quais as indicações para procurador-geral da República e ministros do Supremo Tribunal Federal e o exame dos vetos presidenciais.

O procurador é o titular da apresentação de denúncias contra parlamentares e aos ministros do STF cabe julgá-las se aceitas e transformadas em processos. Justifica-se, portanto, a preservação dos votos daqueles que podem vir a ser objetos dessas ações.

Quanto aos vetos, a conta é ainda mais simples: na posse do trator, o Executivo receberia (de mão beijada) mais uma arma de pressão sobre o Legislativo, aniquilando a possibilidade de se derrubarem vetos presidenciais.

Caixa três. 
O PT está preocupado com o efeito negativo das relações pouco amistosas da presidente Dilma Rousseff com o empresariado sobre as doações para a campanha eleitoral.

Se o dinheiro privado realmente escassear, queira o bom senso que isso não corresponda ao aumento da abundância no uso de recursos públicos.

Pesado e medido. 
Fosse ano de eleição municipal o prefeito Fernando Haddad teria proposto aumento do IPTU? Certamente não, por isso o fez no primeiro ano de mandato.

Haverá repercussão negativa para a reeleição de Dilma e a candidatura do PT ao governo do Estado, na maior cidade de País? Não necessariamente, por isso fazer o aumento em período relativamente distante da eleição para dar tempo à diluição do impacto.

Detalhe. 
O ex-presidente Luiz Inácio da Silva diz que a ex-senadora Marina Silva erra quando reconhece o papel do governo Fernando Henrique para a estabilidade econômica.

Não é exatamente um pormenor. Ao contrário, pois Lula seguiu a mesma linha na "Carta aos Brasileiros" e, como presidente, adotou a mesma política. Não fosse assim não seria eleito - e, se eleito, não conseguiria governar.

Emenda pior que o soneto

Regina Helena Paiva Ramos*
Brickmann & Associados Comunicação

... Não me lembro qual deles falou que "o debate faz bem, nos amadurece". Amadureceram mesmo? Só se for pra cair da árvore e se espatifar no chão. Pra amadurecer assim é bem melhor que tivessem ficado verdes...

Acabo de ver o vídeo em que Gilberto Gil, Roberto Carlos e Erasmo Carlos se defendem da acusação de censores. Deus do céu, a emenda foi muito pior do que o soneto. 

A cara de sérios e circunspectos do trio chega a incomodar. Será que se levaram a sério, mesmo, falando, falando e dizendo pouco? "Nós somos artistas", diz Gil, tentando comover a plateia. Mesmo? Ninguém sabia disso? 

E a tristeza que demonstram, compungidos, dizendo que "nunca quisemos exercer censura"? E Gil dizendo que só quiseram se defender de "ataques, insultos, excessos de aproveitadores" ? Deus criador! E os competentes biógrafos brasileiros fazem ou fizeram isso? Laurentino Gomes, Regina Echeverria, Ruy Castro, Ciro Magalhães alguma vez fizeram isso? E Paulo Cesar de Araújo, biógrafo de RC que levou quinze anos pesquisando, escrevendo e que situou Roberto no cenário musical do país, por acaso fez isso, insultou ou atacou o biografado? Li o livro, não tem ataque, não tem excessos, não tem insultos. Só história. 

Não me lembro qual deles falou que "o debate faz bem, nos amadurece". Amadureceram mesmo? Só se for pra cair da árvore e se espatifar no chão. Pra amadurecer assim é bem melhor que tivessem ficado verdes.

"Nossa vida é nossa melhor defesa". Outra frase que pode significar mil coisas. O que significou, de verdade? Sei lá! Talvez Gil quisesse dizer que foi exilado em Londres ou que foi ministro de Lula. E daí? Já Erasmo Carlos, que eu me lembre, o que teve (supostamente teve, como os jornais gostam de dizer agora) foi uma vida meio boêmia, meio de playboy, aprontando depois de shows em cidades do interior. Roberto casou três ou quatro vezes (perdi a conta!) e ninguém tem nada a ver com isso, que case quantas vezes quiser e puder, mas não negue que essa é a sua biografia. "Nossa vida é a nossa melhor defesa" é uma frase que pretende ser de efeito, mas não quer dizer nada. 

O final, "não queremos calar ninguém" é apoteótico! Não querem? Não queriam? Não vão querer? Então parem com essa lengalenga cansativa e hipócrita.

"Só queremos que nos ouçam". Já ouvimos, babies. E não gostamos. A emenda que vocês quiseram dar ao assunto foi bem pior do que o soneto. 

Regina H. Paiva Ramos - É jornalista. 

E as cotas dos loirinhos no Congresso?

Carlos Chagas
Diário do Poder

Todo mundo aplaudiu quando Jânio Quadros, naqueles tumultuados sete meses em que exerceu a presidência da República, nomeou um negro para embaixador do Brasil num país da África. Carlos Lacerda foi o único a protestar, lembrando estar vaga nossa embaixada na Suécia: “vão nomear um lourinho para Estocolmo?”

Repete-se agora a situação. A Comissão de Constituição e Justiça da Câmara acaba de aprovar a cota de um quinto das cadeiras da casa para, obrigatoriamente, serem ocupadas por deputados negros. Parece difícil que o plenário vote em favor dessa proposta de emenda constitucional, diante do risco de projetos serem apresentados para também beneficiar descendentes de japoneses, índios, cafusos, quilombolas e, em seguida, gays e até black-blocs.

Todas as categorias raciais tem direito a representação no Congresso, mas desde que amparadas pelo voto popular. A propósito, lembra-se o episódio da queixa do primeiro-ministro do Japão ao todo-poderoso interventor, general MacArthur, logo depois do fim da Segunda Guerra Mundial. O japonês queria providências para cassar o mandato de uma prostituta pouco antes eleita para a Dieta japonesa. O general indagou quantos votos a deputada havia recebido e ouviu que tinham sido mais de 200 mil. Sua decisão foi de respeitar a vontade do eleitorado, acrescentando: “clientela fiel ela possui…”

O Brasil resgatou, ainda que em parte, a dívida para com os cidadãos de cor negra, durante séculos submetidos à escravidão: foram estabelecidas cotas para eles ingressarem nas universidades. Muito mais precisará ser feito para a conquista da igualdade econômica e social. Mas levar essa preocupação ao Congresso significa agredir o livre direito do voto. Representantes do povo devem ser os mais votados, discutindo-se ainda agora o fim das coligações partidárias, responsáveis por levar à Câmara candidatos com menos votos do que outros derrotados.

A Constituição de 1934, por sinal democrática, oriunda de uma Assembleia Nacional Constituinte, estabeleceu a chamada representação classista para a Câmara dos Deputados. Entidades representativas de patrões e empregados apresentaram candidatos que não foram submetidos ao voto. Assumiram suas cadeiras. Logo veio o golpe de 1937 e não tivemos mais Congresso. De lá para cá, a ideia felizmente foi rejeitada. Acaba de dar filhotes, mesmo sob forma diferente, ainda que o resultado final venha a ser o mesmo: deputados sem representatividade.

A PALAVRA EXATA
Para o senador Pedro Simon, não há que evitar a palavra certa: os black-blocs que atormentam as principais cidades do país são, sem tirar nem pôr, terroristas. No 11 de setembro, nos Estados Unidos, os dois aviões lançados contra as torres gêmeas levavam, cada um, 30 mil litros de combustível. O resultado todo mundo viu. Pois esta semana os black-blocs apoderaram-se de um caminhão tanque, numa rodovia paulista, e por pouco não o explodiram. Qual a diferença?

Disse o representante gaúcho que em junho 90% da população brasileira apoiou as manifestações de rua contra a má qualidade de vida existente no país. Hoje, esse mesmo percentual traduz o repúdio nacional contra os vândalos que, de cabeça coberta, dedicam-se a depredações e roubos. Os black-blocs mataram o movimento democrático da juventude. Enquanto isso, a polícia só assiste a baderna. Ainda bem que na véspera o ministro da Justiça havia se reunido com os secretários de Segurança do Rio e de São Paulo para acertar providências. Mesmo com atraso, não pode haver contemporização com os mascarados, que são terroristas, disse Pedro Simon, ontem, da tribuna do Senado.

Desde o surgimento da internet todo mundo é fascista

Sandro Vaia
Blog Noblat

A observação foi feita em tom irônico pelo professor norte-americano Douglas Harper em seu dicionário etimológico, e convenientemente lembrada esta semana pelo crítico literário Sérgio Rodrigues em seu blog. Esse passou a ser o xingamento campeão nas redes sociais.

Usa-se a torto e direito, mais ainda do que reacionário e direitista, e por ironia das ironias na maioria das vezes é usado por quem não sabe que seu significado lhe serviria como uma luva. Mal comparando, seria como se o Tiririca chamasse alguém de palhaço.

Na semana passada, dois acontecimentos muito didáticos jogaram luzes sobre esse jogo de sombras onde se esconde esse crescente autoritarismo castrador que se espalha como unha-de-gato em muro chapiscado.
A Folha contratou dois novos colunistas semanais para, segundo ela, ampliar o pluralismo de opiniões em seu caderno “Poder”: Reinaldo Azevedo, que tem um blog campeão de audiência hospedado na Veja, e Demétrio Magnoli, sociólogo e geógrafo conhecido por combater a imposição de cotas raciais nas universidades brasileiras.

A internet se encheu de gritos de maldição contra os articulistas e o jornal que os contratou, leitores anunciaram que cancelariam as suas assinaturas e, fato inusitado, a coluna de estreia de Azevedo, sobre a ação de libertação dos beagles de um instituto de pesquisas científicas, levou a ombudsman do jornal a classificar delicadamente o colunista como um “rotweiller”- o que ela explicou depois, claro, era só uma força de expressão. 

Um caso claro de intolerância ideológica, que pode ser facilmente curado por duas providências simples: ou deixar de ler o jornal ou continuar lendo o jornal mas não ler os colunistas desagradáveis. Rebater argumentos e tentar provar com fatos que os deles estão errados e que os seus estão certos nem pensar. Isso dá muito trabalho. Negar em bloco e chamar de “fascista” facilita a vida. Desqualificar sempre, debater nunca.

Mais grave do que isso foi o que aconteceu numa feira literária em Cachoeira, no interior da Bahia, quando ativistas armados apenas pelas suas bordunas de intolerância intelectual impediram, aos gritos, que se realizassem os debates entre o sociólogo Demétrio Magnoli e a cientista social Maria Hilda Baqueiro Paraíso e o filósofo Luiz Felipe Pondé e o sociólogo francês Jean -Claude Kafmann.

Magnoli e Pondé foram impedidos de falar - como Yoani Sanchez já havia sido impedida meses atrás - por pessoas que os xingavam de “fascistas”. Exemplo perfeito daquilo que os franceses chamam de “glissement semantique”- ou deslizamento de sentido das palavras.

País estranho e paradoxal onde opiniões fortes são comparadas com mordidas de rotweiller e onde fascistas em ação proíbem debates e quem é impedido de falar é que é o fascista.


Ajuste fiscal é necessário, mas dificilmente será feito

Talita Fernandes
Veja online

Economistas ouvidos pelo site de VEJA recomendam mudança nos gastos e reversão da renúncia fiscal, mas proximidade das eleições presidenciais deve dificultar melhora nas contas públicas

 (Celso Junior/Reuters) 
Para economistas, desonerações se transformaram em armadilha para o governo 

A divulgação do resultado primário do mês de setembro trouxe novas evidências de que a deterioração fiscal do país ganha amplitude. Em setembro, o país registrou déficit primário de 9,048 bilhões de reais, o pior resultado para esses meses desde o início da série histórica e muito aquém do esperado por analistas. Apesar do dado ruim, o governo insiste no otimismo de que a meta fiscal ajustada, de 2,3% do Produto Interno Bruto (PIB), será cumprida. O ministro da Fazenda, Guido Mantega, tem dito, inclusive, que o resultado primário não é um bom indicador das contas públicas — e sim a relação dívida líquida/PIB.

Para o economista Gabriel Leal Barros, do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre/FGV) da Fundação Getulio Vargas, a saída é um ajuste fiscal: uma reversão das desonerações adotadas pelo governo, o que ajudaria na arrecadação, e uma mudança do perfil dos gastos públicos. Segundo ele, o governo tem adotado uma postura imediatista. “Está tão imerso no curto prazo que não se dá conta do impacto de suas ações num prazo de seis meses”, comenta. “Essa necessidade do governo de tomar medidas para acelerar a atividade econômica criou essa armadilha, que culminou no resultado de setembro.”

Barros, assim como a maior parte dos analistas, espera para este ano um superávit primário bem abaixo das expectativas do governo: em torno de 1,7% do PIB. Mas alerta que o número pode ser revisto para baixo após a divulgação do dado de setembro. A consultoria Economist Intelligence Unit (EIU), da revista britânica The Economist, também tem uma expectativa bem menos otimista para o superávit primário deste ano do que a do governo: de 1,5% do PIB em 2013. O dado também não leva em conta o resultado primário de setembro.

É consenso entre os analistas que a desoneração fiscal pesa nas contas públicas. Segundo dados do Ibre/FGV, no auge da crise, em 2009, o governo abriu mão de 0,85% do PIB em arrecadação tributária. A perspectiva do Ibre é que a renúncia fiscal atinja 1,5% do PIB este ano. Tanto Barros quanto a EIU acreditam que uma reversão na política de desonerações seja urgente, mas pouco provável devido à proximidade da corrida eleitoral em 2014.

Para aumentar o superávit primário deste ano, o governo deve contar com receitas extraordinárias – como o bônus de 15 bilhões de reais do campo de Libra do pré-sal e o parcelamento de dívidas de empresas com o Fisco. Essas medidas são vistas pelo mercado como novas “manobras fiscais” que devem arranhar ainda mais a credibilidade do governo quanto à gestão das contas públicas. Segundo o economista Robert Wood, da EIU, apesar de o bônus de Libra dar um alívio às contas públicas, ele "não reflete um superávit verdadeiro".

Em relatório distribuído ao mercado nesta quinta-feira pelo banco Goldman Sachs, o economista Alberto Ramos, que assina o documento, comenta o resultado primário de setembro e chama a atenção também para o aumento da dívida bruta do governo, que leva em conta os gastos com juros. Em dezembro de 2011, a dívida bruta correspondia a 54,2% do PIB, passando para 58,7% do PIB em dezembro do ano passado, e para 58,8% em setembro.

Desonerações — 
Com o desenrolar da crise mundial, o governo apostou no estímulo ao consumo e abriu mão de uma série de impostos para garantir que a população continuasse comprando. A medida teve resultados positivos inicialmente e conseguiu manter a demanda aquecida. Mas, hoje, o que se vê é um elevado grau de endividamento da população e um esgotamento deste modelo, já que a economia patina e não mostra crescimento consistente.

Para Barros, da FGV, o agravante é que, recentemente, o governo passou a criar novas medidas de renúncia fiscal, agora com o objetivo também de controlar a inflação. Um exemplo citado é a redução do PIS/Cofins dos combustíveis e a desoneração da cesta básica. “O governo começou as desonerações com o objetivo de dar mais dinamismo à economia, mas adotou outras para diminuir o impacto na inflação.”

Mesmo com este cenário, o governo resiste em admitir que as desonerações têm impacto ruim nas contas públicas. Pouco após a divulgação do resultado primário, o chefe do departamento Econômico do Banco Central, Tulio Maciel, disse que os resultados fracos de setembro não mudam a visão do BC. "Em termos de dinâmica, o resultado que temos para este ano não afeta a perspectiva de neutralidade política fiscal no horizonte relevante. O resultado até agora não muda essa perspectiva (...) que depende de diversos fatores sobre como vai se desenrolar o cenário fiscal em 2014 e 2015", afirmou Maciel. 

Gastos maiores — 
Ao comentar o resultado primário divulgado nesta quinta, o secretário do Tesouro Nacional, Arno Augustin, adotou um tom otimista e disse que o déficit pode ser explicado por "algumas especificidades". Ele informou que, no mês passado, foi repassado 1,5 bilhão de reais para os municípios, movimento que não ocorrerá nos próximos meses. Citou também as transferências de 2,050 bilhões de reais para a Conta de Desenvolvimento Energético (CDE), criada para garantir o desconto na conta de luz. Augustin disse que a tendência é de que estes repasses diminuam nos próximos meses.

O secretário ainda falou que contribuiu para o resultado negativo de setembro a concentração do pagamento de abonos salariais este ano em um número menor de meses que no ano passado. "De janeiro a setembro foram pagos 11,258 bilhões reais, 2,272 bilhões de reais a mais que em 2012, quando foram pagos 8,985 bilhões de reais", justificou. Segundo ele, o pagamento do abono ocorreu em cinco meses no ano passado e foi reduzido para quatro meses este ano.

Augustin lembrou ainda que existe um fenômeno recorrente para meses de setembro, que é o pagamento pela Previdência de parte do 13º salário, elevando o déficit na Previdência neste mês. "Em dezembro terá um movimento contrário", destacou. Augustin afirmou que os meses de setembro são tradicionalmente ruins.

Entre agosto e setembro, houve também um aumento dos gastos dos ministérios da ordem de 2 bilhões de reais. Desse montante, 860 milhões de reais foram destinados ao Ministério da Saúde e, 171 milhões de reais ao Ministério de Desenvolvimento Social. As duas pastas foram as que registraram maior aumento de gastos no período. Entre janeiro e setembro deste ano, os gastos com os ministérios tiveram alta de 15,8 bilhões a mais do que em igual período de 2012. Também nesta base de comparação se destacam as pastas de Saúde (com alta de 6,3 bilhões de reais) e Desenvolvimento Social (3,3 bilhões de reais).

O desastre fiscal de Dilma

O Estado de S.Paulo

É sistemática, e vem se acentuando, a deterioração das finanças públicas ao longo do governo Dilma. A redução rápida e até agora incontida do superávit primário - necessário para o pagamento da dívida pública e para comprovar uma gestão criteriosa e responsável dos recursos do contribuinte - desde o primeiro ano do mandato da atual presidente torna risível a tentativa do secretário do Tesouro, Arno Augustin, de atribuir a "várias especificidades" os maus resultados de setembro, bem piores do que as estimativas mais pessimistas.

Se há uma especificidade real que os justifique é a irresponsável política fiscal do governo do PT, que, mesmo num quadro de dificuldades econômicas que comprimem as receitas, vem aumentando as despesas e tentando encobrir suas consequências por meio de artifícios contábeis. A contabilidade criativa tornou-se a especialidade - ou será especificidade? - da atual política fiscal.

As contas do governo central (calculadas com base nas receitas e despesas do Tesouro Nacional, do Banco Central e do INSS) registraram em setembro um déficit de R$ 10,473 bilhões, o pior resultado desde dezembro de 2008. É também o pior resultado para o mês de setembro nos últimos 17 anos. Note-se que o resultado de agosto já tinha sido o pior para o mês em toda a série histórica de resultados do governo central.

O superávit primário do governo central nos nove primeiros meses do ano alcançou R$ 27,9 bilhões, 49% menos do que o resultado do período janeiro-setembro de 2012, que foi de R$ 54,8 bilhões. Recorde-se que, de janeiro a setembro de 2010 (último ano do governo Lula), havia sido de R$ 75,2 bilhões. Ou seja, o superávit primário nos primeiros nove meses do ano encolheu 63% entre 2010 e 2013. Como porcentagem do PIB, caiu de 2,51% para 0,80%. Circunstâncias específicas observadas apenas no mês de setembro de 2013 seguramente não explicam essa notável degradação dos resultados ao longo do governo Dilma.

Baseado em outra metodologia - a variação da dívida líquida total -, e computando também os resultados de Estados, municípios e empresas estatais, o resultado consolidado do setor público calculado pelo Banco Central igualmente revelou a contínua piora da situação financeira do setor público, especialmente do governo federal.

Em setembro, o setor público registrou déficit primário de R$ 9,048 bilhões, o pior resultado para o mês em 12 anos. No acumulado do ano, o resultado primário - que exclui os gastos com a dívida pública - é de R$ 44,965 bilhões, o menor para o período janeiro-setembro desde 2009, ano em que a economia brasileira foi mais afetada pela crise mundial.

A meta do superávit primário para 2013, estabelecida no ano passado pelo governo Dilma, é de R$ 155,9 bilhões, o que corresponde a 3,1% do PIB previsto para o ano. Se ela tivesse sido mantida, para alcançá-la o setor público teria de gerar um superávit primário de R$ 110,9 bilhões até dezembro. Ou seja, em três meses teria de produzir o equivalente a 2,5 vezes de tudo que conseguiu em nove.

Já sabendo da dificuldade para atingir a meta sem cortar os gastos excessivos, o governo utilizou brechas legais para reduzi-la, retirando das despesas os investimentos no Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), entre outros itens. A nova meta passou para o equivalente a 2,3% do PIB, ou cerca de R$ 82 bilhões. Desse total, o Tesouro será responsável por R$ 73 bilhões. Como acumulou R$ 27,9 bilhões nos nove primeiros meses, terá de gerar um superávit primário de R$ 45,1 bilhões em apenas três.

O secretário Arno Augustin garantiu que o governo continua perseguindo a meta de superávit primário para este ano. Deve acreditar no que disse.

Para melhorar o resultado primário do ano, o governo conta com receitas extraordinárias até dezembro, entre as quais o bônus de R$ 15 bilhões a ser pago pelo consórcio vencedor do leilão do Campo de Libra e o recolhimento de R$ 7 bilhões a R$ 12 bilhões pelas empresas que aderirem aos novos programas de renegociação de débitos tributários. Mesmo assim, quem examinar friamente os números acima verá que a meta, até mesmo a reduzida, está cada vez mais distante.

Déficit recorde obriga esforço nas finanças públicas

Editorial
O Globo

Para melhorar os resultados ainda este ano o governo conta apenas com receitas extraordinárias, como os R$ 15 bilhões do bônus de assinatura do leilão de Libra

No discurso, o governo se convenceu que um desequilíbrio nas finanças públicas é fonte de muitos dos problemas que a economia brasileira passou a enfrentar. Antes, já durante o segundo mandato do presidente Lula e nos três primeiros anos da administração da presidente Dilma, as autoridades achavam que pondo o pé no acelerador dos gastos governamentais o Brasil passaria quase incólume pela crise internacional, pois o consumo doméstico seria capaz de sustentar um ritmo de crescimento acelerado. Não foi o que ocorreu. Os percentuais de expansão do Produto Interno Bruto (PIB) minguaram para patamares insatisfatórios, que poderão até mesmo comprometer avanços sociais que o governo se vangloria de ser o único responsável. Ao lado do baixo crescimento, a inflação voltar a causar preocupação.

Mas, se no discurso a “autocrítica” pareceu sincera, na prática não se observa mudanças substanciais na política fiscal. Em setembro, últimos dados disponíveis, o setor público registrou déficit primário recorde (R$ 9 bilhões). Não é mais o encolhimento dos superávits primários que está em questão, pois agora o déficit se faz de novo presente nas finanças governamentais. E recorde! Ou seja, o setor público deixou de economizar recursos não apenas para o pagamento de juros, mas também para suas despesas correntes.

Ao menos a chamada “contabilidade criativa” deixou de ser usada para se fazer uma conta de chegar para um ilusório equilíbrio nas finanças públicas. Agora, o governo espera se aproximar do resultado prometido com a ajuda das receitas extraordinárias, incluindo os R$ 15 bilhões do bônus de assinatura que serão desembolsados pelo consórcio vencedor do leilão do campo de petróleo de Libra (o que reforça o argumento dos que suspeitam que razões fiscais pesaram na decisão de se realizar a licitação agora). Seja como for, as receitas salvadoras reforçarão os cofres do Tesouro quase no apagar das luzes do exercício. Mas, óbvio, não se repetirão.

É natural que em alguns meses os resultados da política fiscal possam ser melhores que em outros. Mas se forem ruins em praticamente todo o exercício para só melhorarem em um curto período, em termos macroeconômicos os efeitos desejados não são alcançados. Para combater a inflação, o Banco Central é obrigado a elevar as taxas de juros substancialmente, por exemplo.

O Brasil teve a oportunidade de passar pela crise internacional com um quadro fiscal mais benigno. Outras fontes de financiamento da economia brasileira estiveram disponíveis por um tempo razoável. Agora as economias mais desenvolvidas estão começando a se recuperar, e a disputa por essas fontes de financiamento será mais acirrada. Daqui para a frente, o ajuste das finanças públicas exigirá esforço redobrado.

Caiu um pedaço de reboco

Celso Ming
O Estado de São Paulo

Uma casa não cai de um dia para o outro. Vai dando sinais. É um pedaço de reboco que repentinamente despenca lá de cima, uma rachadura na parede do banheiro, a instalação elétrica que derruba disjuntores, uma inclinação no piso observada quando a água escorre só para um lado.

Os últimos dez dias foram abundantes em sinais assim. O rombo das contas externas se alarga mês a mês e, nesta sexta-feira, os números pouco animadores da balança comercial também foram nessa direção (veja o Confira).



As contas públicas divulgadas quinta-feira revelam rachaduras perigosas. Mesmo através de suas lentes sempre tão róseas, o ministro Guido Mantega já começa a enxergar o rombo preocupante nas contas públicas. Ele passou a admitir que não há saída senão cortar despesas em áreas onde, até outro dia, entendia impossível cortar.

Seu diagnóstico também inspira cuidados porque só agora identifica paradoxal vazamento de R$ 47 bilhões (0,9% do PIB) no seguro-desemprego, num ano de pleno-emprego. Não seria, por si só, um grande sinistro se uma seguradora tivesse de pagar indenizações recordes, num ano sem grandes sinistros para sua carteira de coberturas?

A inflação não dá tréguas. Caiu temporariamente alguns centímetros abaixo dos 6% ao ano, mas prepara novos avanços, que apenas a política de juros não consegue impedir.

Os números divulgados nesta sexta pelo IBGE sobre o desempenho da indústria ficaram aquém do esperado. A produção do setor cresceu 0,7% em setembro (sobre o mês anterior), mas no trimestre acusou recuo de 0,6%. É nova indicação de mais um fiasco do PIB, desta vez no terceiro trimestre do ano.

Como até mesmo os mais compulsivamente otimistas do governo federal começam a admitir problemas, a presidente Dilma não pode retomar o mantra de que é o catastrofismo corrosivo dos analistas da economia que contamina o ambiente dos investimentos.

Não são apenas as opções de política do governo que são improvisadas, parciais, incompletas, como a transposição do Rio São Francisco, que não termina nunca, e a desoneração da folha de pagamentos da indústria que levou R$ 50 bilhões da arrecadação embora essa meia-entrada só tenha sido concedida aos mais chegados. O modelo adotado pela presidente Dilma, a tal “Nova Matriz Macroeconômica”, baseada na turbinagem do consumo, na derrubada inexorável dos juros e na flexibilização do resto, deu errado, apesar das profissões de fé em contrário.

Ainda não é o desastre, o que tem o lado bom de permitir conserto, desde que providenciado a tempo. Mas a disposição do governo não é essa. É empurrar as coisas com a barriga até as eleições, para ver depois como fica. Falta saber se a casa se mantém em pé até lá.

A presidente Dilma precisaria de uma Carta ao Povo Brasileiro, a proclamação de 2002 que conquistou confiança das classes médias e garantiu a eleição do então candidato Lula à Presidência da República. Mas não é o estilo dela.

CONFIRA:



O gráfico mostra os resultados da balança comercial brasileira nos últimos 13 meses.

Consumo demais. 
Os números de outubro são piores do que parecem. O déficit comercial (exportações menos importações), de US$ 2 bilhões, só não foi maior graças à exportação de uma plataforma de petróleo, por US$ 1,9 bilhão, que não se repetirá. No período de 12 meses terminado em outubro, as importações cresceram 7,5%, enquanto as exportações recuaram 1,9%. É uma indicação de que o País está consumindo mais do que pode.