Adelson Elias Vasconcellos
Já há algum tempo que venho classificando o governo Dilma de medíocre. E não é porque ele seja do PT, ou de esquerda, como alguns desavisados costumam qualificá-lo. É medíocre porque os resultados são desastrosos, principalmente na área econômica.
Tanto no Congresso, na comemoração dos 25 anos de promulgação da atual constituição, quanto na solenidade de comemoração de 10 anos do bolsa família, Lula não se vexou em classificar o governo FHC como ruim, como tendo quebrado o país, e de que a estabilidade foi conquista dele, Lula. Na mesma linha, Dilma Rousseff negou o DNA tucano no Bolsa Família.
Estas críticas e acusações levianas da dupla Lula-Dilma já as comentamos aqui várias vezes, porque elas se repetem de modo absurdo. Eles não se cansam de brigar com a História. Ambos jamais tiveram o menor compromisso com a verdade. Assim, e apostando num auditório que está ali para ouvi-los tão somente, e não para contestá-los, acham que podem dizer qualquer asneira e cretinice e que tudo bem, a imprensa, grande parte já ajoelhada no milho das subvenções federais, não fará manchetes condenando as mentiras. Assim, entendem que sua tática canalha ainda dá para o gasto.
Contudo, não há mentiras que a dupla conte que encubra a principal característica do governo Dilma: a sua incrível mediocridade.
Por um instante, pensemos no seguinte: Lula arrola para si os feitos da estabilidade econômica. Como o governo Dilma é mera continuação das políticas do governo Lula, tanto que boa parte dos ministros ou foram nomeados por ele, ou são até os mesmos, caso, por exemplo, de Guido Mantega, na Fazenda, não se pode dissociar um governo do outro. Certo?
Ora, como pode o governo responsável pela estabilidade, em tão pouco tempo, jogá-la pela janela? Porque, rigorosamente, é isto que o governo Dilma vem fazendo. Vem destruindo, um a um, os pilares que garantiram e dão sustentação à estabilidade econômica do país. Podemos destacar que o tal tripé, há muito tempo, já foi para o espaço. Primeiro a questão cambial. Quando no primeiro mandato de Lula, a inflação deu mostra de arrefecimento total, Lula deveria ter reduzido as metas de inflação de 4,5% ao ano, para algo próximo a 2 ou 2,5%. Com isso, e com a manutenção do superávit primário em torno de 3%, ele teria arranjado espaço para gradual redução da taxa Selic. Ora, com uma taxa de juros menor, o Brasil não teria atraído bilhões de dólares em investimento financeiro e, por conseguinte, não teria favorecido uma exagerada e desproporcional valorização do real. Tal efeito produziu duas consequências tenebrosas para o país: de um lado, perdemos espaço no comércio mundial, restringindo nossas exportações apenas em Itens primários, as chamadas commodities. E, de outro, não teria permitido a avalanche de produtos importados de consumo, que provocaram um grave processo de desindustrialização, cujo alto ainda estamos pagando.
Resultado desta combinação perversa de fatores: nossos saldos da balança comercial passaram a se reduzir drasticamente e, a tal ponto, que em 2013, após uma década de crescimento, nosso saldo tem sido negativo.
Apenas nesta análise resumida de fatores, já se nota os erros de escolhas na condução da política econômica. Mas há muito mais. Durante anos observou-se um crescimento vertiginoso na arrecadação federal e, incrivelmente, não se observou igual crescimento dos investimentos públicos. O que se viu e ainda se vê, é o crescimento impressionante dos gastos públicos, e em índices superiores ao PIB, à inflação e ao próprio crescimento da arrecadação. Lentamente, e a partir do governo Dilma, os investimentos públicos foram definhando ano após ano. Com uma mobilização cada vez maior de recursos em gastos correntes, com uma avalanche ininterrupta de subsídios que foram sendo empurrados para o Tesouro bancar, com desonerações em busca do aumento de consumo, seria inevitável que o superávit primário acabasse por virar a rota e se transformasse em déficit.
Todo este colossal cenário de incompetências e improvisos, falta de visão estratégica de longo prazo, combinado com um baixo crescimento resultante destas escolhas ruins, levaram a perda de credibilidade no próprio governo que, afora sua incompetência, passou a querer manipular o mercado com uma contabilidade criativa com o propósito de esconder seus maus resultados.
Quando jornais e semanários estrangeiros, ingleses ou americanos, alertam o país para o desvio de rota, por aqui o que se vê é um total desprezo a estes alertas. Ninguém lá fora está interessado em ver o Brasil afundando, pelo contrário, há muito capital produtivo americano, inglês, alemão, francês, japonês, espanhol, italiano e até chinês investido em nossa economia. Uma débâcle econômica do Brasil repercutiria também negativamente nas economias destes países. Portanto, este discurso canalha e imbecil, recheado de um nacionalismo caquético, não passa de discurso vazio, sem fundamento e sem consistência.
Nós temos compromisso com o mundo, sim, fazemos parte de uma imensa aldeia global, onde os interesses se coincidem, são interativos e interdependentes. Não entender esta dinâmica é um atestado de total burrice e estupidez. Apenas autoritários e protoditadores adoram espalhar esta sandice entre seus povos, do tal inimigo externo. Isto lhes dá campo para serem ainda mais autoritários, ditatoriais, como é possível observar aqui bem perto, Venezuela e Argentina . No Brasil, temos estas figurinhas patéticas espalhadas e assentadas nos partidos de esquerda e extrema esquerda. E o resultado deste pensamento obtuso é que o país anda para trás quanto mais este pensamento se difunde e encontra acolhimento entre nós.
E se alguém, com total imparcialidade e honestidade de propósitos, se debruçar sobre o crescimento brasileiro ocorrido entre 2003 e 2009, constatará que ele se deu por duas razões: de um lado, como resultado das reformas advindas com o Plano Real e, de outro, pelo crescimento exponencial da economia mundial durante igual período. Não houve ali nenhuma medida adotada pelo governo Lula para dar sustentação àquele crescimento, a não ser manter os postulados herdados do governo anterior.
Portanto, não tem a menor procedência a afirmação de Lula de que a estabilidade econômica brasileira foi fruto de seu governo. Sua virtude foi a de dar continuidade à política econômica e programas sociais implementados no governo anterior. E só não avançamos por covardia do próprio Lula que se apequenou diante das reformas que o país ainda precisava faze e ele não teve nem atitude nem estatura de estadista para implementá-las. Temia que a maionese desandasse.
Resultado desta covardia é que a crise de 2008 cujos efeitos duraram até o começo deste ano, mostrou toda a nossa fragilidade, nossas deficiências e vulnerabilidades.
Lula e Dilma podem fazer ibope aqui dentro, diante de uma população majoritariamente desinformada e com pouco calibre intelectual. Porém, lá afora, sua enganação já mostrou a verdadeira face. Nenhum analista de boa fé é capaz de avalizar suas mentiras e mistificações. Tanto é assim que, ao olharem para o caso brasileiro, nenhum descarta o belo governo de FHC e as boas obras na economia resultantes de seu período. Claro que isto machuca o ego da dupla. Querem ser maior do que realmente são.
O resultado divulgado, de que as contas do governo central apresentaram o pior resultado em 17 anos, não devem surpreender aqueles que olham resultados, e não se deixam encantar pelos discursos escandalosamente forjados. Representam, sim, o resultado de governos medíocres e que há onze anos vem desgovernando o país sob as bênçãos cúmplices de imprensa, empresários, intelectuais e classe política. E não guardem expectativas de que a coisa toda possa melhorar: o próximo presidente, seja ele quem for, se não dedicar metade do seu mandato para por a casa em ordem, e trazer racionalidade à política econômica, insistindo em dar prosseguimento aos descaminhos que Lula e Dilma teimaram em perseguir, condenará o país a atravessar as mesmas turbulências vividas na década de 80 e início de 90.
Resultados do governo Dilma? Pois não, seguem alguns:
• maior saída de dólares para os meses de agosto em 15 anos;
• gasto recorde de compras exterior pelos brasileiros apesar da alta do dólar, a demonstrar o quanto estamos caros, muito caros em comparação com o restante do mundo;
• déficit em conta corrente até agosto já superando todo o ano de 2012, sendo também o pior em 66 anos;
• fluxo cambial negativo;
• balança comercial negativa, apresentando o pior déficit desde 1998;
• Investimento federal com crescimento menor que custeio;
• Após quedas sucessivas, desigualdade de renda sobe no Nordeste em 2012;
• Pior resultado para agosto desde 1996 e meta fiscal fica mais distante.
• Pior déficit primário em 11 anos.
Nenhum país na história humana consegue sobreviver sem tormentas a tantas irresponsabilidades e mentiras. Um dia a conta chega e será preciso pagar. É o preço certo da má semeadura. Reafirmo, assim, que um governo vale pelos resultados que produz, e nunca pelos discursos espirituosos de seus governantes. E é pelos resultados medíocres do governo Dilma que ele deve ser avaliado e qualificado. De certa forma, Lula anteviu este desastre e, tentando mudar de assunto, antecipou a campanha eleitoral. Porque os resultados do governo Dilma, de fato, não recomendam sua reeleição. Pode até ganhar, mas não será por mérito, e, sim, pela falta de concorrência, assim como ocorreu no “leilão” do Campo de Libra, quando teve apenas um consórcio.
Portanto, corretíssima a observação de Gustavo Franco; “A estabilidade não foi conseguida por Lula, mas apesar dele”. E eu acrescentaria mais: apesar dele e todo o seu partido, o PT.


