Editorial
O Globo
Mais de dez estados americanos aprovaram leis de proteção à privacidade de seus cidadãos diante do aparato de vigilância operado pelo serviço secreto.
Cada nova revelação do ex-funcionário da CIA Edward Snowden amplia a percepção mundial sobre o desmesurado aparato montado pelos serviços secretos dos EUA para espionar tudo e todos ,em qualquer lugar. Segundo o “New York Times”, “isto é parte de um esforço para dar vantagens aos EUA sobre as demais nações, aliadas ou inimigas”.
Há uma crescente indignação internacional diante das evidências trazidas à tona por Snowden, sobretudo depois que se tornou público que a Agência de Segurança Nacional americana (SNA, na sigla em inglês) ouvia tudo o que Angela Merkel, chanceler da Alemanha, a grande aliada europeia, falava ao celular. Ontem, foi a vez de a China cobrar explicações de Washington depois de o “The Sydney Morning Herald” afirmar que embaixadas australianas, inclusive a de Pequim, são usadas como base para operações de espionagem na Ásia.
Um ex-alto funcionário da CIA, ouvido pelo colunista Nicholas D. Kristof, do “New York Times”, disse que, antes do 11 de Setembro, o monitoramento de líderes estrangeiros dependia de autorização da Casa Branca. Declarada a guerra ao terror no governo Bush, a máquina de caça a jihadistas e suas conexões começou a crescer exponencialmente. A NSA parece ter desenvolvido a tal ponto a capacidade de espionar o tráfego mundial de dados em meios digitais, e de armazenar o que supostamente lhe interessa para efeito de segurança nacional, que criou uma dinâmica própria, ao largo da ética e de considerações políticas e estratégicas.
No olho do furacão, o presidente Obama ordenou uma revisão nos procedimentos de vigilância que, provavelmente, excluirá o monitoramento de líderes de países aliados — fonte de constrangimento para a Casa Branca e de enorme irritação em nações próximas aos EUA, inclusive o Brasil. Nas palavras de Obama, é preciso “garantir que aquilo que somos capazes de fazer não significa necessariamente que devemos fazê-lo”.
É o caso em que o tal esforço “para dar vantagem aos EUA sobre as demais nações, amigas ou inimigas” passa a ser contraproducente diante da quebra da confiança nos pesos e contrapesos da democracia americana e na própria noção dos EUA como um parceiro confiável. Nem mesmo os estados da federação acreditam na palavra oficial de que só americanos que tiverem ligações com suspeitos fora do país são espionados. Mais de dez estados aprovaram este ano leis para proteger seus cidadãos da bisbilhotice federal.
Washington deve reconquistar a confiança dos aliados e a credibilidade de seus líderes, o que só acontecerá com um plano convincente de que poderes paralelos foram neutralizados e que o serviço secreto seguirá um conjunto de regras claras e de conhecimento geral.