quarta-feira, março 07, 2012

Exportando jumentos para o progresso

Adelson Elias Vasconcellos

QILAI SHEN / BLOOMBERG
Chineses pretendem importar 300 mil jumentos por ano do Nordeste


Por incrível que pareça mas, finalmente, o Brasil se tornou um importante exportador mundial de jumentos. É verdade. Em reportagem do jornal O Globo, desta quarta-feira, 07, informa-se que enviaremos uma leva para a China.Há cerca de um mês, um acordo entre os dois países liberou o intercâmbio de asnos — também conhecidos como burros e jumentos, largamente utilizados na indústria de alimentos e na de cosméticos no país asiático.

Os chineses pretendem importar 300 mil jumentos por ano do Nordeste. Além de movimentar a economia local, a iniciativa vai resolver o problema de excesso de oferta de jegues na região. Com as facilidades de financiamento, houve grande crescimento do uso de motos para transporte e os jegues estão perdendo espaço.

Em junho do ano passado, um grupo de empresários chineses conversou, da Bahia ao Rio Grande do Norte, com fazendeiros e políticos. Aos políticos locais, o grupo propôs um programa de garantia de compra a preços de mercado, envolvendo até linhas de crédito, por meio de um sistema batizado de Projegue. Mas o projeto ainda não deslanchou.

A China abate 1,5 milhão de burros ao ano, criados no país, na Índia e na Zâmbia. O processo envolve tecnologia de ponta, com melhoria genética, cuidados na produção de alimentos específicos e assistência técnica.

Agora, com a importação dos jumentos brasileiros, a China resolve dois problemas. O deles e o nosso. O deles é a escassez de jumentos por lá, o nosso, o problema é de excesso. Aliás o jumento é o único produto que contraria a lei da oferta e da procura, mas esta jabuticaba é exclusividade verde-amarela. Aqui, quanto mais jumentos são lançados no mercado, após cada eleição – por coincidência é neste período que eles se reproduzem com incrível facilidade -  mais seu preço tende a subir. No governo federal, se diz, abriram 25 mil vagas para jumentos. Todos os candidatos foram admitidos,  sem nem precisar de testes de DNA, sem requisitos como pedigree ou filiação partidária, nem tampouco especialização em sua área de atuação. O governo petista criou inúmeros programas que serão desenvolvidos pela CUT e demais centrais, financiados pelo Fundo de Amparo ao Trabalhador, para especialização e treinamento de mão obra, onde se prometem qualificar os jumentos admitidos para servirem à pátria de modo altaneiro.

E foi por conta desta maneira em qualificar a vida pública nacional, que a prática chamou a atenção de chineses que veem no jumento um modo econômico de poderem conter os protestos de liberdade em seu país, sem precisar assim de tribunais de exceção e execução em praça pública, tão criticados pelas entidades de direitos humanos.

E, a continuar , por aqui, esta caça às bruxas do conhecimento, da racionalidade, do bom senso e da até do estado de direito democrático onde a Carta Magna deixou de ser magna, logo o Brasil deixará de ser taxado, pejorativamente, de país bananeiro, para se tornar em pátria dos jumentos.   Agora é a era da barbárie civilizada, onde o berreiro e bate bumbo mais barulhento guiam nossos juízes, a lei se tornou apenas mera retórica. Melhor, não se gasta mais papel, com que os ambientalistas estão até agora comemorando. Dizem que a ideia foi de Marina, mas há controvérsias.

No país em que inventaram um Machado de Assis branco em propaganda de estatal, em que se quis proibir Monteiro Lobato, onde se censura até dicionário, onde Jesus acaba de ser condenado uma segunda vez,  vinte séculos depois da primeira vez, não é de estranhar que este país se torne o maior produtor e exportador mundial de jumentos, produto beleza, safra especial, não tem prá ninguém. Podem valorizar o real o quanto quiserem, pode o governo petista aumentar o custo Brasil às alturas, contra nossos jumentos não tem competição. Ninguém os fabrica com tanto esmero, com tamanha qualidade de detalhes, com imensa criatividade que nem o maior gênio inovador será capaz de superar em precisão ao jumento nacional, made in Brazil legítimo. 

E nossos jumentos tipo exportação tem uma grande vantagem: são produtos ecologicamente corretos, só comem capim, não derrubam florestas,  não poluem rios. Talvez acabem se tornando mascotes de tantas entidades não governamentais que no Brasil só vivem de dinheiro governamental, caso único no mundo. Se a gente ouvir e ler os discursos desta gente bacana que prega o fim da agropecuária, jumento e ambientalista tem tudo a ver. Então por que eles não podem se tornar mascotes deste movimento assim tão animal, não é mesmo?  

Mas nossos jumentos, é bem provável, sofrerão um certo problema de adaptação. Não por conta do idioma, que nisto todos os jumentos se entendem perfeitamente. Mas é que na China eles querem o jumento para serem usados em larga escala na indústria de alimentos e na de cosméticos no país asiático. Ocorre que os jumentos por aqui são usados muito mais na política. Daí porque o MST promete ocupar  fazendas produtivas para implementar, com orientação do INCRA, centros de readaptação e reciclagem, o que permitirá que os lotes de jumentos exportados acabem se tornando nosso principal produto de exportação. 

E dizer que foi preciso que o PT e as esquerdas chegassem ao poder para o Brasil descobrir sua maior vocação!!!

Retirar crucifixo das repartições públicas é imoral, ou a decisão estúpida de um pedido ignóbil.

Adelson Elias Vasconcellos

Que a liga brasileira de lésbicas não siga religião alguma, é um problema de consciência contra o que ninguém deve meter o bedelho. Cada um que viva sua escala (ou falta de) de valores e responda por ela. Ponto.

Contudo, não cabe ao estado, através de qualquer uma de suas instituições, em nome de um grupo insignificante de pessoas, impor  os valores ou a falta deles à imensa maioria de uma nação. Noventa por cento dos brasileiros são cristãos, grande parte praticante,  divididos em inúmeras seitas e religiões. Toda a “humanização” da nação nasceu a partir do cristianismo, e é esta escala de valores que nos guia e nos torna melhores do que os primatas. Portanto, ignorar nossa essência, nossa raiz histórica e nossa escala de valores, para satisfazer um grupelho, é de uma estupidez sem par.

Que as instituições de estado não se guiem por orientações ou dogmas religiosos, é uma coisa. Contudo, proibir que um símbolo da nossa civilização seja afixado em paredes de repartições públicas, é uma idiotice que só representa a total falta de compromisso do próprio estado para com a sociedade que ele DEVE representar e servir. 

O fato é que o Conselho da Magistratura do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul (TJ-RS) decidiu acatar um pedido da Liga Brasileira de Lésbicas e de algumas outras entidades para que sejam retirados todos os crucifixos e outros símbolos religiosos dos espaços públicos ligados à Justiça gaúcha. 

Para a turma que “resolveu” proclamar” esta irracionalidade, pergunto: em que, a simples presença de um crucifixo na parede, é capaz de interferir no senso de julgamento de um juiz, de qualquer juiz?  Afinal, qual deve ser a orientação de qualquer corte, um crucifixo na parede ou a letra da lei?  E vou além: qual o percentual de cristãos que comparecem em tribunais comparativamente ao de lésbicas e simpatizantes? Por que a vontade de uma minoria irrelevante deve prevalecer sobre a vontade da maioria expressiva de uma sociedade? E quem mais sustenta o Estado, a sociedade cristã brasileira ou a ONG das lésbicas? 

O Estado deva preservar direitos, trata-se de uma missão constitucional, e uma das razões dele existir. Estes direitos não podem levar em conta ou privilegiar grupos, raças, credos etc. Por conta disto ele é laico. Contudo, e este é precisamente o espírito da democracia, é a vontade da maioria que prevalece na sociedade, e a ninguém é lícito chutar os valores desta sociedade, sua tradição, sua cultura, sua história, seus costumes. Alguém questionou a vontade da maioria sobre a manutenção ou retirada dos crucifixos de órgãos públicos? A ignorância deste gente só não é maior do que sua estupidez. O crucifixo que se encontram nas paredes de repartições públicas, não está representando nenhuma religião. Ele representa é a escala de valores que nos guiam, que nos direcionam enquanto sociedade. Ou seja, ele representa precisamente a sociedade brasileira, ou sua imensa maioria. Daí a decisão ser estúpida, e o pedido ignóbil e injustificado. E só para sacanear: qual dos valores cristãos (atenção: não confundir a crença e valores cristãos com a religião católica, ou evangélica, ou luterana, dentre outras) é tão ofensivo assim à comunidade de lésbicas?  Adoraria conhecer a resposta...

Portanto, até que a vontade da maioria dos brasileiros seja conhecida, a decisão é estúpida, e sequer legal ela é. Trata-se de uma ditadura de uma minoria inexpressiva desta sociedade. E este não deve ser o papel de juiz algum, seja em que tribunal for. Eis uma decisão idiota e burra, apenas para atender aos caprichos de um grupelho irrelevante, que nada representa em relação à sociedade brasileira, e que por conta de seus valores distorcidos e de baixa moral, se ofende diante da cruz que,  acima de tudo, representa e prega o amor ao próximo.  

É, de certa forma, sob este ângulo, a decisão até faz sentido quando atende a qualidade moral do grupo. A cruz deve ofendê-las justamente pelo padrão moral que representa. Mas voltarei ao tema. Há mais podridão que se esconde nesta decisão imbecil.

Isto me lembra muito  um verso de um grande sucesso de Dorival Caymi, “Samba da minha terra”:

Quem não gosta de samba 
Bom sujeito não é!
É ruim da cabeça
Ou doente do pé.

No caso de quem pediu e dos acataram o pedido, são todos doentes da alma. A hipocrisia maior desta gente é que, em dezembro, eles se põem a comemorar o Natal com o maior cinismo e, depois, ainda querem gozar do feriado da Sexta-feira Santa...  

Considerando a atuação desta gente, talvez fosse melhor até retirar o crucifixo, Cristo não merece presenciar tanta sordidez. Contudo, e é bom que se registre: a presença do crucifixo é a representação da verdadeira sociedade brasileira, e não de minorias sem moral alguma.

Copa do Mundo: a hora é de trabalho e não de bate-boca ordinário.

Adelson Elias Vasconcellos.


Um dos truques mais apreciados pelas esquerdas, aquelas com espírito autoritário que adoram substituir a sociedade pelo estado de partido único, é arranjar inimigos fantasmas para desviar o foco de atenção de suas arruaças, incompetência, crimes e mal feitos. Se nós lançarmos os olhos para o continente sul-americano, onde o caudilhismo ainda impera com muita força e poder, não será difícil vislumbrar os inimigos que alguns ditadores de araque adoram inventar para esconder-se atrás deles para que o povo não reclame de suas ações infelizes e destrambelhadas no governo. 

No Equador, Rafael Correa cria a imprensa inimiga. Hugo Chavez, na Venezuela, além da imprensa,  a inimiga comum a todos os ditadores,  inventou os Estados Unidos, os empresários, as oposições , o poder judiciário. A Argentina, de Cristina Kirchner além da surrada imprensa, já elegeu os produtores rurais, e mais recentemente, a Inglaterra, por conta das Malvinas que, diga-se de passagem, jamais pertenceram à Argentina. Nem o povo que vive e mora na ilha quer os argentinos por lá, a não ser como turistas. 

No Brasil, Lula sempre inventou a imprensa golpista (golpista só quando ele se tornou presidente, na oposição, Lula a considerava aliada), seus inimigos de estimação foram também FHC, sua obsessão máxima, além dos órgãos de controle, o judiciário, além de investir na divisão do país em feudos,  brancos contra negros, nordeste contra o sul, ricos contra pobres, governo e oposição . 

Agora, por conta desta esculhambação que o Brasil pretende fazer na organização da Copa do Mundo, já há um inimigo escolhido: Jérôme Valcke, secretário-geral da FIFA. E tudo porque este senhor tem a coragem de exigir que o Brasil cumpra com os compromissos assumidos para sediar. Já disse e vou repetir: NINGUÉM OBRIGOU O BRASIL A ACEITAR NADA DA FIFA. Havia um caderno de encargos aos quais os países se submetem se quiserem. Para sediar a Copa não apenas a CBF se comprometeu em aceitar ao que determinavam as condições apresentadas, mas, de sobremodo, o governo do senhor Luiz Inácio Lula da Silva que, por sinal, esteve presente no dia da escolha final. 

De todas as promessas feitas então, desde que não haveria dinheiro público na construção de estádios, até a mais clara e legítima transparência de gastos, passando pela remodelação completa da infraestrutura nas cidades que receberiam os jogos até a total reformulação, modernização e ampliação de portos e aeroportos, com tudo o governo brasileiro se comprometeu. E não apenas com a tal Lei Geral da Copa que, diga-se era para estar votada e aprovada há mais de dois anos. O governo foi empurrando com a barriga sob a desculpa porca de que não poderíamos aceitar imposições da FIFA no regramento interno do país. 

O secretário-geral da FIFA foi infeliz em sua manifestação crítica na semana passada, depois de ser comunicado de que, mais uma vez, a votação da Lei Geral da Copa fora adiada? Sim, mas não lhe tiremos a inteira razão em criticar nossa esculhambação. Como também não se justifica a reação ordinária de Marco Aurélio Top-Top Garcia ao chamar a turma da FIFA  de “vagabundos”, (estava se mirando no próprio espelho, mané?),  nem tampouco a reação infantil de Aldo Rebelo em desautorizar o senhor Jérome Valcker como legítimo representante da FIFA. Tanto que o secretário hoje se desculpou e explicou o que realmente quis dizer em seu desabafo. E vou mais longe: somente com um chute no traseiro este governo irá cumprir, uma vez ao menos, a palavra empenhada, que, aliás, é a melhor maneira de responder às críticas do senhor Valcke. 

A FIFA tem sido muito contemporizadora com o Brasil. Está visto de que sequer conseguiremos realizar metade do previsto e prometido. Veja-se um exemplo: para os dias de jogos, tendo em vista a incompetência em realizar o tanto que deveria em relação à mobilidade urbana, as escolas não terão aulas e se fala em decretar feriados nacionais. O que isto significa? Que, se o país mantivesse sua rotina normal, a ela se acrescentando a mobilização em torno dos jogos, viveria um caos e ficaria evidenciada a incompetência do governo em preparar o Brasil para sediar eventos de grande porte.

Portanto, ao invés de perder tempo com babaquices e quinquilharias, além de bate-boca pueril, inútil, melhor que se perca tempo em realizar o que nos comprometemos e que temos dado mostras de que não estamos cumprindo.

Diante de tantos maus exemplos de como o Brasil vem falhando na organização e preparação dos jogos da Copa, vou citar um que mostramos aqui na semana passada. O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apresentou no dia 28 de fevereiro de 2011 um estudo inédito (clique aqui) realizado por encomenda do Ministério do Turismo que mostra a situação do turismo brasileiro – e as grandes dificuldades que o país terá para receber os visitantes que chegarão para a Copa do Mundo de 2014 e os Jogos Olímpicos de 2016, este no Rio de Janeiro. 

Atenção para a data grifada acima: faltando pouco mais de um ano para a Copa das Confederações, é que o IBGE divulga, a pedido do Ministério do Turismo, o resultado de um estudo sobre a nossa rede hoteleira visando a Copa do Mundo e Jogos Olímpicos. Senhores, um ano e meio? Convenhamos, trata-se de um verdadeiro atestado de incompetência. Um estudo deste quilate, e sobre o mesmo tema, deveria já ter sido feito antes até do país apresentar sua candidatura, e NUNCA faltando poucos meses para as competições terem seu início. Se a rede hoteleira é insuficiente conforme o estudo comprovou, no tempo que nos resta, não será possível recuperar o atraso. Não é a toa que a Copa no Motel foi a manchete com que o estudo foi divulgado. 

E o senhor Aldo Rebelo ainda quer ficar brabinho pela crítica do pessoal da FIFA? Que vá mostrar serviço primeiro, antes de querer esbravejar. Lembro, por exemplo, a omissão do senhor Rebelo sobre o entravado contrato entre o Internacional e a construtora Andrade Gutierrez que o nosso digno ministro não teve competência para destravar e precisou ser socorrido com a intervenção presidencial para o assunto tomar jeito. E este é apenas um dos muitos pontos, verdadeiros maus exemplos que o próprio ministro tem dado. Falta dinâmica a Rebelo para se justificar no cargo, tendo a responsabilidade que tem sobre Copa das Confederações, Copa do Mundo e Jogos Olímpicos. Talvez não fosse sua melhor área de competência, mas se aceitou a missão, que trate de dar conta de suas obrigações, e não fique inventando razões para deixar de fazer.

Assim, que o ministro e demais capangas ponham o rabinho entre as pernas e parem de choramingar. Precisamos é de mais trabalho, de ação, de mais celeridade na organização que nos compete, e menos discursos infantis e ordinários, desculpas esfarrapadas e inúteis. Ou, se não querem cumprir com o compromisso, ou se sentem impotentes em dar conta do recado, digam isto às claras para a FIFA, e não através de recadinhos de baixo nível de moleques de quinta categoria. 

No mundo civilizado, senhores, compromisso assumido é coisa séria. Não se aceita estas desculpas idiotas que temos apresentado e com as quais tentamos nos justificar pelo que deixamos de fazer. Se assumir o compromisso, que então faça e cumpra. E fim de papo. 

E o que é chato, senhor ministro Aldo Rebelo, é a carta que foi enviada à FIFA  pedindo para que seu secretário geral não seja mais interlocutor daquela entidade junto ao governo brasileiro. Primeiro, que o nome do presidente da FIFA é apenas JOSEPH BLATTER. O “SEPP”, é o apelido, e não poderia ser  incluído num documento oficial. É uma descortesia indesculpável. E, por fim, pelo amor de Deus, se a carta é para à FIFA,  ela deveria ser endereçada  para ZURIQUE e não LAUSANNE, que é o endereço do Comitê Olímpico Internacional – COI. Até para emitir um documento oficial, senhor ministro, fica claro o quanto seu ministério precisa evoluir para não levar chutes no traseiro...



Sobre economia, Dilma precisa mudar o discurso

Adelson Elias Vasconcellos

Diz o dito popular que, quem não chora não mama. Só que tem choros que se mostram ridículos quando estão distantes da realidade. É precisamente isto que se dá no discurso de Dilma Rousseff sobre o tal “tsunâmi monetário”. Se de um lado, é fato que os bancos centrais da Europa e Estados Unidos inundaram a economia internacional com trilhões de dólares e euros, não menos é que esta inundação muito mais ajudaria do que prejudicaria o Brasil, conforme já expusemos em artigos anteriores. 

Ora, a troco do que a especulação faria praça no Brasil, não fosse pelos juros estratosféricos praticados aqui dentro?  Lembrando aos desavisados que os juros nossos de cada dia são estabelecidos pelo governo, e nada tem a ver com a economia internacional e suas crises. 

Sei que me torno repetitivo ao retornar à questão do câmbio, crítica que venho fazendo desde 2006. Já naquele ano, apontava para os riscos de perda de competitividade se o país mantivesse a apreciação sem uma ação mais enérgica no sentido de não permitir uma supervalorização da nossa moeda, que acabaria prejudicando nossas exportações de manufaturados e semimanufaturados. Lá atrás cheguei a fazer um cálculo de uma perda entre 10 a 15 bilhões de vendas que deixamos de realizar.  Além disto, na medida em que as importações, na outra ponta, foram se tornando mais volumosas, porque mais baratas, muitos produtos tradicionais aqui produzidos foram sendo substituídos por importados.  Assim, a indústria brasileira foi perdendo espaço lá fora e aqui dentro, e Atal ponto o problema se acentuou que, em dado instante começou a acontecer a consequência de desindustrialização e desnacionalização. 

Quem quiser consultar o arquivo do blog, por certo encontrará muitos avisos de que o fenômeno ruim vem acontecendo, apesar das negativas do governo petista.

Nossas autoridades, nestes últimos meses, vem ainda cometendo outro grave erro de avaliação.  Consideram que a estagnação industrial brasileira se deve mais a fenômenos externos que acabam influenciando o nível de consumo interno. Primeiro, que o consumo interno não se reduziu tanto como se propaga. E segundo, porque muitos brasileiros estão comprando lá fora, em volumes cada vez mais crescentes, o que deixam de comprar aqui no país. E compram lá fora porque apesar de terem, na chegada, que pagar algum tributo, a diferença entre os preços praticados no país comparados com os similares externos são brutais, compensando o investimento.

Ora, nossa competitividade não depende exclusivamente do câmbio. São inúmeras as causas, e todas, eu disse TODAS elas tem suas raízes aqui dentro mesmo, o que já não é nenhuma novidade para ninguém, muito embora o governo ainda tente negar. Ora, insistir no discurso torto de que o volume expressivo de emissão de moedas pelos países atingidos pela recente crise,  é fechar os olhos para a realidade. Dilma insiste também em falar em equilíbrio fiscal com ênfase em investimentos para aquecer as economias em crise. Ocorre que o volume de moeda emitida deve destinar-se primeiro, a apagar os incêndios das dívidas impagáveis dos países como Grécia, Itália, Espanha, Portugal, estes os mais expressivos. É preciso equilibrar o setor financeiro para que possam haver investimentos em favor do consumo. Inverter a lógica é apostar no desastre. 

Tivesse dona Dilma o mínimo cuidado de analisar as reformas implementadas no Plano Real, ao invés de tomar para si políticas e programas que seu partido obstaculizou o quanto pode, com verdadeiros boicotes à modernização da economia e do próprio Estado, perceberia que o que lá fora está sendo feito, é exatamente o mesmo que fizemos aqui.  O excesso de gastos que levaram aqueles países todos a viverem as crises turbulentas do presente, está muito mais na excessiva distribuição de privilégios do que qualquer outra coisa. Ou seja, distribuiu-se dividendos de uma economia  que só dava prejuízos. Assim, é preciso desmanchar aquele cipoal de privilégios, retomar as realidades de cada país, calcadas na capacidade de suas economias na geração de riquezas, para se retomar algum equilíbrio que permita, mais adiante, apostar em investimentos.  Ou seja, é preciso dar um passo de cada vez.

Além disso, se o remédio pode ser amargo para o Brasil, especialmente, mas o gosto ruim reverbera para todos os países emergentes em geral, é preciso guardar esperanças de recuperação daquelas economias porque disto resultará mercados para os produtos nacionais, desde que o governo faça a sua parte. E que parte seria esta? Deixar de criar obstáculos à competitividade das nossas indústrias. Por exemplo, que tal redução de impostos em geral e não apenas para alguns como tem procedido o governo? Outra, que tal o governo Dilma aumentar o nível de investimentos na recuperação da infraestrutura do país?  Que tal um bom plano de desburocratização para tornar mais ágeis nossas exportações? E se a gente adicionar o alongamento dos prazos de recolhimento de tributos que hoje, em grande parte, são pagos de forma antecipada à geração de riqueza? 

Portanto, seria conveniente o governo Dilma fazer uma autorreflexão com urgência para dar-se conta de, os males que provocavam problemas à indústria tem muito mais impacto por problemas internos do que externos. Fazendo isto, a presidente não precisaria se expor ao ridículo internacional de discursos feitos muito mais ao sabor da desinformação do que  alguma razão relacionada ao câmbio.

Além disto, Dilma precisa saber que governo soberano algum está obrigado a consultas internacionais sobre como praticar suas políticas cambial e monetária. 

A política de redução de juros que o Banco Central vem aplicando, pode no curto prazo provocar algum benefício. A tributação do capital especulativo quando de seu ingresso também é um bom caminho. Pode, também, exercer mais controle na entrada de capitais, aumento de tarifas aduaneiras ou – como vem fazendo a Argentina – imposição de travas burocráticas às importações. Contudo, tem sido graças às importações que o governo brasileiro vem mantendo controle sobre a inflação. E, isto de certa forma, tem permitido reduzir os juros SELIC, muito embora, como sabemos, seja uma política de curto prazo. 

Contudo, outra medida adotada com sucesso pelo Chile já há muito anos, é descartada por nossas autoridades, que seria  aplicar uma quarentena o que inibiria, em boa parte, muito capital especulativo em busca de rendimentos mais altos em razão dos juros que praticamos. 

Além disto, é preciso reconhecer que muito desta “especulação” que Dilma tanto reclama, como também o fazia seu antecessor, Lula da Silva, é aproveitada pelo próprio governo para cobrir seus rombos orçamentários. Ou por que outra razão a dívida pública se multiplicou em três vezes sob o governo petista? 

O governo pode, como se vê, se valer de inúmeras medidas para neutralizar os impactos que as políticas monetárias expansionistas dos países europeus vem praticando e que afetam, sobremodo, a indústria brasileira. Mas não pode é perder de vista que muitas das razões que afetam nossa competitividade no mercado externo, têm suas raízes em problemas internos e para o qual o governo Dilma insiste em ignorar.   

As exportações brasileiras em 2010, por exemplo, tiveram a seguinte composição:: produtos primários (45%), manufaturados (39%), semimanufaturados (14%) e outros (2%). Ou seja, a principal pauta de exportações brasileiras continua sendo matérias-primas, e isto graças ao crescimento de emergentes como Índia e China, cujo consumo interno tem sustentado os preços das commodities no alto e, em consequência, nos permitido obter saldos positivos na balança comercial. Porém, se por qualquer razão houver redução brusca ou significativa neste consumo, estes preços tendem a despencar, e aí nossas contas externas poderão ser penalizadas. 

O economista Raul Velloso, no artigo “O desafio é a competitividade“, que aqui transcrevemos, apontou que a queda da industrialização do país acontece desde os anos 1980 por diversas razões, tais como: “baixa qualidade da educação, a rigidez da legislação trabalhista, a altíssima carga tributária — que esconde gastos públicos correntes muito elevados —, as elevadas taxas de juros, a cara e insuficiente infraestrutura, e o baixo desenvolvimento tecnológico”. Outros fatores, segundo o especialista, são a emergência da China como potência industrial e a posição do Brasil como seu maior supridor de bens primários.

Conclusão: se a guerra cambial eleva os preços dos manufaturados brasileiros fazendo com que eles percam mercados, por outro lado, a competitividade destes produtos poderia ser muito melhor se o governo ajudasse a reduzir o custo Brasil, além de, por medidas várias, neutralizar muitos dos efeitos negativos da expansão monetária excessiva mas necessárias, praticadas na Europa. 

Portanto, está na hora do governo Dilma chorar e reclamar menos e agir mais. Porque uma coisa é certa: ninguém virá aqui fazer por nós, o que somente a nós compete fazer. Até porque, senhores, este governo não tem contra si, a oposição xiita que o PT fazia enquanto esteve fora do poder, a ponto de boicotar o próprio desenvolvimento do país por apostar no quanto pior, melhor. Assim, as reformas básicas que há tempo se reclama, poderiam transitar com muito mais tranquilidade no Congresso. A omissão, neste caso, é indesculpável!

E para encerrar: a partir do anúncio da China de que reduzirá seu ritmo de crescimento, e nem cabe aqui comentar as razões, o que importa agora é medir o quanto o simples anúncio provocará em consequências sobre os preços das commodities. Estes preços vêm se mantendo no alto graças justamente à enorme demanda do mercado interno do dragão asiático. Se, como apregoam alguns analistas, este anúncio impactar nos preços de matérias primas, o Brasil deverá traçar, imediatamente, um plano B para a sua economia. Porque, conforme o IBGE vem destacando nos últimos anos, tem sido graças a excelência da agropecuária que o nosso país tem mantido o nível de crescimento de seu PIB, afora a sustentação dos superávits da balança de comércio exterior.  Se os preços internacionais das commodities despencarem, teremos problemas muitos sérios para enfrentar. A se lamentar que, neste precioso tempo de crescimentos e estabilidade, não tenhamos aproveitado para acelerar as reformas estruturantes de que tanto precisamos para um crescimento sustentável. Dirá virá em que lamentaremos esta injustificável perda de tempo e de desperdício de oportunidades. Entre a sustentabilidade e o projeto de poder, o governo petista priorizou o último. Terá que responder por isso. E não terá sido por falta de aviso. 

Tudo culpa deles

Carlos Alberto Sardenberg,  O Estado de S. Paulo

Quem é o culpado pelos juros baixos lá fora? E pelos juros altos aqui?

Há um tsunami monetário. Seu tamanho: US$ 4,6 trilhões. Esse é o espantoso volume de dinheiro colocado na praça mundial, nos últimos três anos, pelos quatro principais bancos centrais do mundo rico (EUA, Zona do Euro, Inglaterra e Japão). Esse dinheiro foi emprestado para bancos ou utilizado na compra maciça de papéis – muitos podres – que vinham sendo carregados por bancos e grandes empresas. E, ainda por cima, a taxas de juros variando de 0 a 1% ao ano. Como a inflação deles tem corrido acima disso, os juros são negativos em várias aplicações. 

Por que fazem isso? 

Se considerarmos o discurso da presidente Dilma, trata-se de uma guerra cambial, hostil especialmente aos países emergentes, entre os quais o Brasil. A lógica: despejando ondas de dinheiro barato pelo mundo, aqueles bancos centrais desvalorizam suas moedas e, assim, valorizam as demais. Bancos, empresas, fundos, especuladores ou não, em busca de boas aplicações e bons negócios na economia real, levam esses dólares para os países emergentes, provocando choques financeiros. Dada a abundância de moeda americana, esta se desvaloriza e, em compensação, leva à valorização excessiva das moedas locais. Com isso, cai a competitividade das produções nacionais dos emergentes e melhora a dos outros, a deles, os ricos. 

Guerra, pois. 

Mas aqueles quatro BCs têm objetivos locais que fazem sentido. Ao emprestar US$ 1,3 trilhão para os bancos europeus, por três anos, a juros ridículos, o presidente do Banco Central Europeu, Mario Draghi, foi globalmente aplaudido. Super-Mario salvou a Europa, se diz, ao dar liquidez aos bancos e garantir que o sistema financeiro não entrará em colapso. 

O Federal Reserve, Fed, o BC dos EUA, sustenta que é preciso irrigar a economia para que os bancos financiem, barato, os investimentos das empresas e o consumo dos americanos, de modo a returbinar a economia. E a economia americana está voltando. 

A presidente Dilma acha, porém, que eles deveriam fazer diferente. Deveriam parar de colocar dinheiro barato na praça e, em vez disso, estimular o crescimento via investimentos e subsídios do governo. Como ela diz, fazer política fiscal (de gastos públicos) pró-crescimento. 

Mas como fariam isso governos que já estão enterrados em dívidas até o pescoço? Como diria “La” Merkel, os europeus precisam antes arrumar a casa, fazer reformas. 

Tudo considerado, o discurso da presidente Dilma ganha um contorno político. Seu governo toma medidas para segurar a entrada de dólares e para barrar importações, com o objetivo de desvalorizar o real. Mas isso é impopular – por exemplo, o aumento de impostos de carros importados – e, no geral, encarece o consumo local. 

E a culpa é deles, dos ricos – pelo que a presidente recupera a linha de política externa de Lula, pelo lado econômico. Emergentes contra ricos imperialistas. 

É verdade que todos os emergentes estão se queixando da valorização de suas moedas e todos estão tentando meios de segurar o tsunami. 

Mas por que a moeda brasileira valoriza mais que as outras? Entre outros motivos, um, essencial, é a nossa taxa de juros, muito mais alta que a dos demais emergentes. 

Ora, nossa taxa de juros é alta por ... culpa nossa. O custo Brasil é caro por culpa nossa. Como é difícil admitir isso e, mais difícil ainda, resolver, escolhe-se o caminho tortuoso: em vez de baixar os juros locais, elevar lá fora. Em vez de reduzir o custo Brasil, elevar o custo mundo. 

Vamos acabar perdendo essa guerra. 

Pescarias 
Há duas grandes questões em debate no mundo: primeira, a pesca tem sido excessiva e não controlada em diversos lugares, o que leva a uma severa queda dos estoques segunda, o desenvolvimento dos processos de criação de peixes, especialmente os de alto mar. Grandes empresas de pesca estão entrando no negócio de criação – e isso é um sinal claro, pois elas sabem mais do que ninguém o que fazem pelos mares e rios. 

Se, quando pensou em suas novas funções, o ministro Marcelo Crivella lembrou-se de vara e anzol, então, mesmo de brincadeira, ele está mais por fora do que parece. 

Por exemplo, há uma corrida tecnológica, neste momento, envolvendo universidades e empresas privadas, mundo afora, para ver quem consegue produzir comercialmente o atum, em jaulas instaladas em alto mar. O Brasil, de novo por fora. Na verdade, nem temos uma boa pesca, nem sequer cogitamos da criação. 

Já o Ministério da Pesca vai bem. Criado em 1999, depois de seis anos como Secretaria Especial, já tem cerca de 600 funcionários, com um orçamento para este ano de R$ 160 milhões. Os cargos de direção – chefe de gabinete, assessores, diretores e coordenadores – são nada menos que 57, todos de livre nomeação do senhor ministro. 

Reportagem de O Globo da última sexta mostrou que, de 2003 a 2009, a produção brasileira de pescado cresceu apenas 25%. As exportações, já pequenas, caíram para menos da metade. Pessoal do setor diz que faltam políticas públicas para o setor. Depois de dez anos de secretaria e ministério. 

Merkel 
Pode-se não gostar da política comandada pela chanceler alemã Angela Merkel na crise europeia. Mas é preciso admitir que age com extrema coerência e coragem. 

Na semana passada, um dia antes do Parlamento alemão votar o novo pacote de ajuda à Grécia (no qual a Alemanha coloca a maior parte do dinheiro) saiu uma pesquisa mostrando que 62% dos eleitores eram contra esse projeto. 62%! 

Pois Merkel foi ao Parlamento, disse que entendia a oposição e a desconfiança dos cidadãos alemães, mas defendeu a ajuda como essencial para a Europa, mesmo que isso não fosse imediatamente percebido. Ganhou a votação com ampla maioria, agregando inclusive parte da oposição. 

Com atitudes assim, Merkel inclui-se entre os políticos de alto nível, os estadistas, aqueles que apontam a direção e tocam o barco. Bem diferente daqueles que morrem de medo de dizer algo que as pessoas possam não gostar. Ela não fica apenas lendo pesquisa, procura persuadir e convencer. 


A desindustrialização é uma ameaça séria ao Brasil

João A. de Godoy, Tribuna da Imprensa

O carro nacional, mesmo com esse preço absurdo, teria algum sentido se a produção fosse inteiramente realizada no país. O consumidor, tendo um pouco de boa vontade, poderia pensar: o preço é caro, mas a causa é nobre, pois o carro produzido no Brasil gera emprego e renda para toda a cadeia produtiva. Certo?
Errado! Agora estão sendo importados muitos itens, desde projeto, ferramental até as autopeças. E para se ter uma ideia, só a cadeia produtiva de ferramentaria da indústria automobilística emprega cerca de 423 mil trabalhadores. Estes postos de trabalho estão ameaçados pelas importações de ferramentas, principalmente da China.

Se não bastasse a importação de ferramentas novas, há também a importação de ferramentas usadas. Detalhe: essa importação de ferramentas e moldes desestimula o desenvolvimento tecnológico da indústria nacional, especialmente porque nossa indústria tem hoje condições de fabricar estes itens com tecnologia de ponta.

Segundo a Associação Brasileira de Fundição (Abifa), em decorrência do crescimento das importações, o setor de fundição deixou de produzir cerca de um milhão de toneladas, apenas três anos.

É a desindustrialização que se avizinha, como um fantasma assustador.

Petróleo: onde está a autossuficiência?

Humberto Viana Guimarães (*), Jornal do Brasil

Anunciada com muita festa em 2007, a autossuficiência do setor petrolífero como um todo continua sendo um sonho muito distante. Não adianta ser um grande produtor e exportador de petróleo bruto e, por falta de investimentos em refinarias, ser um grande importador de derivados, que têm maior valor agregado. A conta não fecha, e o déficit torna-se bilionário. O Brasil tem que deixar de lado a sua política de mero exportador de matérias-primas e agregar valor aos seus produtos.

Nesse quesito estamos exatamente como o Irã que, mesmo sendo o segundo maior produtor da Opep (média de 3,617 mbd em 2011), gasta bilhões de dólares por ano na importação de derivados por falta de capacidade de refino. No caso do Brasil, não obstante os esforços da Petrobras na ampliação e reforma das refinarias existentes, desde 2006 o volume e os gastos na importação de derivados aumentaram de forma assustadora (www.anp.gov.br).

Para que se tenha uma ideia, entre 2011 e 2010 houve um aumento de 10,69% no volume de importação: 90,673 milhões barris ano (mba) e 172,256 mba, respectivamente. Mas, para tal foi desembolsado o montante de US$ 19,403 bilhões em 2011 e US$ 12,987 bilhões em 2010, um aumento de 49,40%.

Em todo o ano de 2011, tivemos uma receita de US$ 9,479 bilhões com exportação de derivados, mas, em compensação, gastamos US$ 19,403 bilhões com importações, o que provocou o histórico déficit de US$ 9,923 bilhões! É muito, muito dinheiro.

Para que se possa dimensionar a grandeza desse rombo, entre 1999 e 2011, o déficit da conta-derivados alcançou US$ 14,410 bilhões (o custo de uma refinaria), ou seja, só o valor de 2011 representou 68,86% desse total. E esse déficit continuará aumentando cada vez mais, pois a frota veicular cresce ano a ano e as novas refinarias – as duas em construção(Nordeste, PE, e Comperj, RJ) estão com os cronogramas atrasados – e duas nem saíram do papel (Premium I, MA, e a Premium II, CE). 

A situação da conta-petróleo só não foi mais desastrosa para o equilíbrio das contas nacionais em 2011, em razão de dois fatores: 1º) O bom desempenho entre a exportação e a importação de petróleo, US$ 21,785 bilhões e US$ 14,135 bilhões, respectivamente, o que resultou num superávit de US$ 7,650 bilhões; e 2º) A contribuição do etanol. Não obstante, a produção (e venda) desse energético ter tido uma performance muito abaixo do previsto, o mesmo contribuiu sobremaneira para o setor energético.

Façamos os cálculos. Somando os volumes do etanol anidro (que é misturado à gasolina A e passa a chamar-se gasolina C) e hidratado (que sai diretamente das bombas para os tanques dos veículos) vendidos durante o ano passado, 52,725 milhões de barris (mb) e 67,415 mb, respectivamente, e considerando o custo médio do barril do derivado importado – US$ 100,19 – tivemos uma economia na importação de derivados de combustível fóssil de US$ 12,036 bilhões. Mesmo com os problemas observados no setor sucroalcooleiro nestes últimos anos, notadamente por falta de investimentos em novas usinas e nas plantações, a sua contribuição para o país continua sendo fundamental. 

Além dos benefícios ambientais e da geração de empregos diretos e indiretos, a sua participação no setor energético é estratégica. No entanto, em função de uma política econômica absolutamente equivocada, o governo não dá a devida importância a esse fato e prefere manter o preço da gasolina artificialmente congelado, o que prejudica sobremaneira o etanol e o resultado financeiro da Petrobras.

Seria de bom tom que as autoridades do setor energético se dessem conta de que, desde 2008, a ANP não realiza nenhum leilão de novos campos para produção e que, não obstante a milionária propaganda governamental, a produção de petróleo vem caindo de forma preocupante. Cresceu 7,33% em 2009, 5,35% em 2010 e somente 2,47% em 2011. Entre 2000 e 2011, a produção teve um incremento de 70,53%, média de 5,88%/ano.

Analisando os números previstos no Plano de Negócios (PN) da Petrobras 2011-2015, observamos que os volumes previstos estão cada vez mais distantes. Para atingir o volume de produção previsto de 3,070 milhões de barris dia (mbd) em 2015, seria necessário que a produção crescesse numa média anual de 11,45%. Para 2020, o panorama fica ainda mais complicado, visto que, para atingir a meta de 4,910 mbd, a média anual de produção teria que ser 14,80%.

Do jeito que está o panorama, não será surpresa se, num futuro não muito distante, voltarmos a importar petróleo como em décadas passadas.

(*) Humberto Viana Guimarães, engenheiro civil e consultor, é formado pela Fundação Mineira de Educação e Cultura, com especialização em materiais explosivos, estruturas de concreto, geração de energia e saneamento 

Esta conta também é sua

Percival Puggina

Você lembra de já ter assistido a algum filme estrangeiro cuja projeção fosse antecedida pela apresentação de uma lista de patrocinadores? Eu não. O que se vê são os nomes de uma ou mais empresas produtoras que uniram esforços e recursos para fazê-lo. Filmes são concebidos como investimentos de cuja comercialização é esperado um ganho financeiro. Quando dá certo os produtores ganham dinheiro. Quando dá errado, têm prejuízo. Se os espectadores gostam, patrocinam o lucro na proporção dos ingressos que adquirem. Quando não gostam, o prejuízo fica com quem avaliou mal o negócio ou não o conduziu bem. 

No Brasil não é assim. Aqui, qualquer coisa com som é música, qualquer texto é literatura, qualquer lixo filmado é cultura e tudo cabe sob o guarda-chuva das leis que incentivam atividades culturais. Se por escrever isto eu for acusado de discricionário e preconceituoso, que o seja. O padrão cultural do povo brasileiro rampa abaixo e nós gastando dinheiro escasso para financiar coisas como "Lula, o filho do Brasil"? Cultura? Fala sério! 

Pois bem, essas leis permitem a captação de recursos junto a contribuintes que se disponham a orientar para tais atividades uma fração dos tributos que deveriam recolher. A produção cinematográfica - embora voltada dominantemente para o lazer - está abrangida por essa possibilidade. A maior parte dos filmes vira, então, um negócio sem risco, assumidos os custos, no todo ou em parte, pela sociedade pagadora de impostos. É o melhor dos mundos. Os mais reverenciados patrocinadores de eventos culturais são as poderosas empresas estatais cujas marcas frequentam as salas de projeção posando de mecenas com o dinheiro do povo. E não requer muito esforço intuir sobre a natureza dos alinhamentos e comprometimentos que presidem as concessões de tais incentivos. Andando por esses critérios e caminhos, o dinheiro do contribuinte é deslocado para aplicações que ele jamais autorizaria. Seus critérios convergiriam para prioridades situadas vários degraus acima da indústria do lazer. 

Mas a coisa vai além. Nos anos 90, surgiram no cenário nacional as agências reguladoras. São pessoas jurídicas de direito público, geralmente em forma de autarquias, concebidas para regular a atividade de setores estratégicos da economia que, ou são totalmente atribuídos à iniciativa privada, ou dela têm forte participação. No dia de sua criação, dormem assim, sobre o travesseiro das melhores intenções. Mas já na manhã seguinte acordam como objeto de disputas partidárias, transformadas em moeda de troca no balcão dos apoios políticos. Algumas dessas agências reúnem representações do poder público, das empresas envolvidas na atividade regulada e dos consumidores. Mas não me ocorre uma só onde os interesses deste último, pagador de todas as contas, tenha a devida relevância. 

A Agência Nacional do Cinema (Ancine) é uma agência reguladora. Desde 2001, convergem para ela a regulamentação e o controle das proteções que regem a produção e exibição de filmes nacionais no Brasil. Entre as providências adotadas pela Ancine - com amparo legal, diga-se de passagem - está a exigência de um determinado percentual de projeções destinado a filmes brasileiros nos cinemas e na televisão, inclusive nas tevês a cabo. Ou seja, já não basta usar recursos do contribuinte para financiar o que dá lucro e indenizar o que dá prejuízo. Em nome da proteção à "cultura" nacional, regulamenta-se a atividade de um modo que obriga o exibidor a abdicar de uma parte de seu empreendimento. É imposta a ele a tarefa de tentar vender o que poucos querem comprar, porque se houvesse público interessado, maior ainda seria o interesse do exibidor em comercializar o produto. E dá-lhe pornochanchada na tevê a cabo. 

Não sou dos que creem que o mercado resolve tudo. Mas isso que pretendem para os filmes brasileiros é o mesmo que obrigar todas as lojas de roupas no Rio Grande do Sul, por exemplo, a reservar um espaço das vitrinas e prateleiras para exibir bombachas, guaiacas e apetrechos do gênero. 

Por quê?

Alexandre Schwartsman - Folha de S. Paulo

Qual é o problema de termos inflação acima da meta fixada pelo BC? E qual é a vantagem?

Meus 18 leitores sabem que sou obsessivo, característica que uso (obsessivamente, é claro) para justificar a insistência sobre certos temas. Um deles é a leniência com respeito à inflação, que parece ter dominado os responsáveis pela política econômica.

Ocorre que, durante uma das minhas diatribes habituais sobre o tema, um amigo jornalista me fez a seguinte pergunta que, acredito, está na mente de imensa maioria das pessoas: “E qual é o problema de termos a inflação acima da meta?”.

Na hora, minha herança judaica falou mais alto e não resisti a responder a pergunta com outra: “E qual é a vantagem de termos a inflação acima da meta?”.

Acredito que essas perguntas são o melhor ponto de partida para explicar essa obsessão.

De fato, ao conversar com interlocutores que não são economistas e às vezes com economistas também, parece haver uma noção de troca entre inflação e crescimento, ou seja, que a redução da inflação é custosa do ponto de vista do crescimento. Note-se que, logicamente, essa noção implica também que a inflação mais alta seria favorável ao crescimento.

O problema, contudo, é que a tese não encontra amparo na evidência disponível. À parte inflação muito elevada, que, por motivos vários, reduz o potencial de crescimento da economia, e episódios de deflação ao estilo japonês, taxas, digamos, “moderadas” de inflação não têm quaisquer efeitos sobre o crescimento de médio e longo prazo. Concretamente, a capacidade de crescimento de um país independe da inflação ser de 4,5%% ou de 6,5%.

Isso dito, não creio haver dúvida, particularmente para a parcela mais pobre da população, que uma taxa de inflação de 4,5% é preferível a uma de 6,5%. Assim sendo, respondendo à minha própria pergunta, não há vantagem alguma de termos a inflação acima da meta.

Por outro lado, cabe reconhecer que, ao menos no curto prazo, quando a inflação se encontra além da meta, o esforço de redução requer, durante algum tempo, que a economia opere abaixo do seu potencial, de modo a reduzir as pressões que surgem, em geral, no mercado de trabalho.

Por mais cruel que isso possa soar, o desemprego deve subir além do nível compatível com a inflação estável para moderar as demandas salariais (ou, de forma equivalente, a capacidade ociosa das empresas deve subir para reduzir seu poder de elevação de preços). Há, portanto, algum custo para desinflacionar a economia.

Por conta disso, BCs podem, dependendo da magnitude do desvio da inflação, escolher uma trajetória de convergência mais suave (por exemplo, como o BC fez em 2004/5), para evitar um custo que poderia ser considerado excessivo.

No entanto, convergência, mesmo mais suave, significa retorno à trajetória de metas e não a aceitação da inflação persistentemente acima dela. No primeiro caso, se o período de retorno não for demasiadamente longo, as expectativas se mantêm ancoradas e a desinflação ocorre com menor custo.

No segundo, que é um caso extremo de convergência muito lenta à meta, as expectativas tipicamente se descolarão desta, o que implica custos maiores para reduzir a inflação.

Entretanto, quando os custos de desinflação se elevam, BCs menos determinados acabam por abandonar seus esforços de convergência. Com isso, se tornam prisioneiros de um equilíbrio perverso: não reduzem a inflação porque o custo é alto e os agentes, sabendo disso, mantêm as expectativas acima da meta, elevando o custo de convergência. O que parecia ser um problema de curto prazo torna-se de longo prazo.

Voltamos assim à discussão inicial: temos apenas inflação mais alta, sem benefícios no que tange a crescimento.

Respondendo, pois, à pergunta que me foi feita, o custo da inflação acima da meta não se limita ao curto prazo, mas se estende ao risco, sempre presente, de terminarmos amarrados ao equilíbrio perverso, possibilidade que cortejamos com ardor crescente.

Igualdade sem orçamento é papo sem fundamento

Ana Cláudia Pereira e Guacira César (*), Jornal do Brasil

Há mais de uma década o orçamento público vem sendo monitorado pelo movimento feminista, que fundamenta esse esforço na convicção de que os recursos orçamentários devem priorizar o enfrentamento de desigualdades. Buscamos identificar recursos voltados para a melhoria das condições de vida de mulheres na sua pluralidade —  lésbicas, negras, quilombolas, indígenas, do campo, da cidade etc —  levando em conta os compromissos governamentais com o II Plano Nacional de Política para Mulheres (PNPM). Este acompanhamento permite-nos concluir em que medida os governos federal, estaduais e municipais têm implementado políticas que promovam os direitos das mulheres.

Nossa experiência mostra que não só o valor destinado pelo governo federal a esta finalidade é insuficiente para atingir o objetivo de eliminar as desigualdades como, também, mostra que a execução destes recursos é, para grande parte das ações, pífia. Em uma análise baseada nos dados divulgados até 1 de dezembro passado, pelo Siafi/ Siga Brasil, constatamos que esta tem sido a tendência nos últimos três anos (análise disponível em www.cfemea.org.br).

Em 2009, as ações orçamentárias que financiavam as seis prioridades do Plano na área de enfrentamento à violência contra as mulheres chegaram ao final do ano com uma execução orçamentária acima de 80%. Já em 2010, apenas uma das prioridades alcançou esse patamar. Agora em 2011, a situação está bem pior: o volume de recursos empenhados em três prioridades, até o dia 1º de dezembro, estava abaixo de 40%. Outras duas ficaram na faixa entre 44 e 48% de empenho. E em apenas um caso o percentual de recursos empenhados chegou à marca de 95%.

Em relação à saúde das mulheres, o quadro é semelhante. Aproximadamente 1.500 mulheres entre 15 e 49 anos de idade morrem, anualmente, durante a gravidez, por aborto, no parto ou no puerpério. Se houvesse um atendimento de saúde adequado, com acesso garantido em todas as portas de entrada do sistema de saúde, 92% dessas mortes seriam evitáveis, segundo a Organização Mundial de Saúde. Apesar de o Brasil ter assumido compromissos nacionais e internacionais para diminuir estes números, o problema não só persiste como se estima que possa ter piorado.

Entretanto, ao longo dos últimos três anos, a execução orçamentária das ações do Plano relacionadas ao eixo de saúde da mulheres, direitos sexuais e direitos reprodutivos é tragicamente coincidente com essa realidade. Em 2011, temos o pior cenário: só em duas prioridades se alcançou um grau de empenho superior a 80% do orçamento,  até 1º de dezembro; outras seis ficaram entre 41% e 68%;  e uma prioridade só empenhou 31% do autorizado pela Lei Orçamentária.

Também é digna de nota a redução do orçamento da Secretaria de Políticas para as Mulheres e da Secretaria de Promoção de Políticas para a Igualdade Racial. Estes dois órgãos têm por missão transversalizar os temas de raça e gênero em todo o governo federal e, para tanto, precisam estar munidos de recursos materiais e políticos. Ainda assim, o projeto de lei orçamentária para 2012 enviado pelo Poder Executivo ao Congresso, quando comparado ao Orçamento de 2011, diminuiu em 31,3% os recursos da SPM e em 67% os recursos da Seppir.

Outros fatores têm cerceado a atuação da SPM. Neste ano, 43% do orçamento autorizado para a Secretaria foram contingenciados, o que justifica parcialmente o baixo desempenho até agora. No mais, a suspensão dos convênios do governo com ONGs e com vários estados (uma vez que a legislação proíbe repasses para as unidades federativas inadimplentes com a União) tem constituído entraves para o desenvolvimento de programas existentes.

A falta de recursos para políticas que promovem os direitos das mulheres não pode ser explicada pela crise econômica internacional, uma vez que a arrecadação fiscal do governo não diminuiu. Tampouco houve redução do montante destinado a produzir superávit primário, que prejudica diretamente o gasto social.

Frente a este cenário, avaliamos que o governo não conferiu real prioridade à implementação do Plano Nacional de Políticas para as Mulheres. Não ofereceu as condições necessárias para que a SPM e a Seppir pudessem cumprir com a missão que lhes cabe. Não assegurou a estrutura e os mecanismos necessários, e, no final das contas, quem está sendo penalizado por essa situação são as mulheres brasileiras, todas nós.Reivindicamos uma coordenação fortalecida para a Política Nacional para as Mulheres, a SPM e a Seppir, prioridade e mais recursos para enfrentar as desigualdades, compromisso real com o que foi assumido nos espaços de participação social, enfrentamento da miséria com as mulheres —  não às nossas custas. É essa a resposta que esperamos da primeira mulher na Presidência da República. Não menos.

(*) Ana Cláudia Pereira e Guacira César pertencem ao Centro Feminista de Estudos e Assessoria

São Paulo, a última fronteira

Guilherme Fiuza, Revista Época

A capital paulista é o último reduto que falta para os companheiros. Desta vez, Lula resolveu não brincar

As eleições na capital paulista não serão municipais. A política nacional está se mudando de malas e bagagens para a cidade de São Paulo. O debate dos problemas locais será o pretexto para o próximo capítulo da disputa pelo poder no Brasil – se é que ainda se pode chamá-la de disputa, com o arrastão dos oprimidos profissionais aproximando-se da hegemonia.

São Paulo é o último reduto a ser conquistado pelos companheiros. Minas Gerais ainda está sob governo inimigo, mas não chega a ser um problema tático: Belo Horizonte já é dos amigos do consultor Fernando Pimentel, que mata o tempo no ministério de sua comadre enquanto näo vira governador. O Rio de Janeiro já estava anexado, o Rio Grande do Sul com Tarso Genro é praticamente a nossa Cuba e o Nordeste é todo do filho do Brasil. Falta São Paulo.

E, desta vez, Lula resolveu não brincar. Pediu licença a Martas e Mercadantes, consultou o oráculo (Dirceu) e preparou a bomba: Dilma. Não aquela que está no Palácio do Planalto, claro. O ex-presidente arranjou outra Dilma. Esta se chama Fernando Haddad, mas o nome não importa. Ou melhor, importa: tem de ser inexpressivo. Assim, o padrinho poderá dar vida a seu Pinóquio, embalá-lo para presente, e os súditos acreditarão no que vier escrito na caixa.

Se a alquimia funcionou com Dilma, não pode ter erro. Na semana passada mesmo o país assistiu a mais um showroom do produto. Após o incêndio na base brasileira da Antártica, a presidente saiu de trás dos discursos escritos e dos teleprompters e alçou voo com suas próprias palavras. Foi comovente. Dilma tentava completar cada frase com bravura, fazia pausas olhando para o nada, persistia em sua obsessão de fazer sentido e, mesmo não tendo completado um raciocínio, embaralhada em sua própria mensagem sobre prejuízos materiais e humanos, mostrou que é brasileira e não desiste nunca.

As pesquisas não mentem (ou não mentem muito): essa brasileira tenaz, que ainda há de brindar o país com uma ideia própria, tem índice recorde de aprovação como estadista. E quem tira uma presidente da cartola haverá de tirar um prefeito.

Na largada de sua campanha, Fernando Haddad já mostrou que também é bom de improviso. Com a debandada do prefeito Gilberto Kassab – o curinga de aluguel da política brasileira – para a candidatura recém-anunciada de José Serra, o ex-ministro da Educação disse o seguinte: “Fico mais tranquilo, porque vou representar melhor as ideias em que acredito. Está mais adequado o candidato ao discurso”. Tradução: eu ia fazer um discurso favorável à situação, mas, como o atual prefeito deixou de ser meu aliado eleitoral, vou poder fazer um discurso de mudança.

Depois dessa declaração, podem acusar Haddad de qualquer coisa, menos de inibição. Nunca se viu um político assumir com tanta franqueza: eu quero o poder, o discurso eu vejo na hora.

Desinibido e coerente. Da mesma maneira que é secundário o que Haddad pretende fazer em São Paulo, também era secundário o que ele fazia no MEC. Todos viram o Enem infernizando os estudantes brasileiros com vazamentos e erros primários de impressão, enquanto o ministro Haddad pulava de palanque em palanque para eleger Dilma Rousseff. Um missionário.

Depois sobreveio o tricampeonato do caos no Enem, refletindo a profunda dedicação do ministro Haddad a seu trabalho: montar a candidatura a prefeito de São Paulo. Cuidar direito do Enem não dá notoriedade a ninguém. Haddad foi à luta do eleitorado gay, lançando uma cartilha escolar sobre homossexualismo. Infelizmente, essa revolução pedagógica não resistiu à patrulha evangélica, que também é filha de Deus (e como adversária eleitoral é o diabo).

Se educar não dá ibope, Haddad teve uma sacada genial no MEC: deseducar. Foi a público defender livros didáticos com erros de português, dizendo ao povo que não aceitasse a discriminação linguística. Viva a revolução.

Mas tudo isso é detalhe diante de um momento verdadeiramente histórico. Na despedida de Haddad do ministério, Lula aparece de chapéu, para tirá-lo em seguida, exibindo o visual transformado pela quimioterapia. Abraça seu candidato, enquanto Dilma chora. É a perfeição.

Que outro candidato terá uma plataforma dessas para administrar São Paulo?

Importação de carros do México sobe 250%; Brasil nega protecionismo com novo acordo

Maeli Prado, Folha de São Paulo

O secretário executivo do Mdic (Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio), Alessandro Teixeira, negou nesta quinta-feira que a renegociação da acordo automotivo com o México, pedida pelo governo brasileiro, seja uma medida protecionista.

Em janeiro e fevereiro, o Brasil importou 38,6 mil veículos do México, número 250% superior ao registrado no mesmo período do ano passado, segundo dados do Mdic. Desde o começo do mês passado, os governos brasileiro e mexicano negociam a revisão do acordo automotivo. Em valores (US$ 578,4 bilhões no primeiro bimestre), a alta é de 227%.

"Estamos em negociação com o México. O que queremos que fique claro é que não é protecionismo ", afirmou ele durante a divulgação da balança comercial de fevereiro. "Se não a discussão não seria apenas sobre veículos. O tema aqui é o aumento da produção nacional e do fortalecimento desse setor", completou.
Nesta semana, delegações dos dois países se reuniram em Brasília para discutir formas de equilibrar a balança comercial bilateral de veículos, que foi negativa para o Brasil em quase US$ 2 bilhões no ano passado.

De acordo com Teixeira, o Brasil quer que o México eleve o percentual de peças nacionais dos seus veículos. "Os mexicanos vieram porque queremos discutir agregação de conteúdo local", afirmou. Hoje, o índice para que um carro seja considerado mexicano é de somente 30%. No Brasil esse índice é de 65%.

NACIONALIZAÇÃO
O estabelecimento de um índice de nacionalização comum aos dois países é considerado crucial pelo governo brasileiro, já que desde dezembro o Brasil cobra 30 pontos percentuais a mais de IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados) de carros que não sejam fabricados no país, no Mercosul ou no México.

O raciocínio é: de que adianta barrar a entrada de importados, com o objetivo de estimular investimentos das montadoras na produção em território brasileiro, se os mexicanos, que não estão sujeitos à alta do imposto, exigem um percentual muito menor do que o Brasil?

"Seria fácil as montadoras mandarem para cá, sem bancarem o IPI maior, veículos em tese produzidos no México, mas com alto percentual de peças produzidas, por exemplo, na China", observou à Folha uma fonte brasileira próxima às negociações entre os dois países, que preferiu não se identificar.

CÁLCULO MAIS RÍGIDO
A dificuldade de se estabelecer um índice comum é o fato de o México usar um cálculo distinto do brasileiro para se chegar ao percentual.

Além disso, o Brasil planeja tornar mais rígida sua própria forma de calcular o índice. Hoje, a conta é feita em cima da formação do preço do carro, que abrange itens tão diferentes quanto gastos com marketing, produção e até o lucro da montadora.

O governo quer que o índice passe a ser calculado, a partir de 2013, exclusivamente em cima da produção industrial, o que exigiria investimentos mais pesados por parte das montadoras.

COTAS FLEXÍVEIS
Uma das principais propostas na mesa para limitar as importações de veículos mexicanos é a adoção do chamado regime "flex", em que quanto menos um país importa do outro, menos pode exportar. Outra opção é o estabelecimento de cotas fixas.

O Brasil também quer a inclusão de veículos pesados no acordo de livre comércio.

Procurado pela reportagem, o Ministério do Desenvolvimento informou apenas que as negociações continuam. A Embaixada do México no Brasil não se pronunciou sobre a revisão do acordo.

Campanha pela internet denuncia impostos abusivos e propõe boicote ao carro zero quilômetro

Hildeberto Aleluia, Tribuna da Imprensa

Circula pela internet uma instigante campanha pela redução dos impostos cobrados no Brasil à indústria automobilística e que na verdade são pagos pelo consumidor final, e não pelas montadoras. Para se ter uma ideia do absurdo, nos Estados Unidos um Corolla é vendido por R$ 27,8 mil, enquanto no Brasil sai Por R$ 86 mil. É uma exploração. Já a camionete Tucson custa nos EUA o equivalente a R$ 33,3 mil e aqui no Brasil este carro está por R$ 100 mil.

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BOICOTE – AGORA É A HORA!

Face ao “nefasto” aumento de IPI para carros importados (de qualidade muito superior, diga-se), é a hora de darmos um basta na farra das montadoras no Brasil. Somos o único (SIM, O ÚNICO), país do mundo, que fabrica carros 1.0. Somos o único país do mundo, que fabrica carros com rodas Aro 14, sem direção hidráulica.

Além disso, somos o Único País Tropical do mundo, que fabrica carros sem Ar Condicionado Somos o único país do mundo, que ainda tem carros saindo de fábrica sem Airbag e Freios ABS! Somos o único país do mundo que tem investimento zero (eu disse zero) para carros movidos a energia elétrica!

E somos o único país do mundo que ainda tem como padrão o cambio manual (afinal, conforto de cambio automático é coisa de rico… meu Deus, quanta ignorância). Somos o único país do mundo, em que um Celta custa o mesmo que um Honda City nos EUA ou México!

Somos o único país do mundo, em que um Gol G5 (com volante torto) custa a mesma coisa que um Civic nos EUA ou na Europa! Somos o único país do mundo cujos compradores de carros novos se contentam com verdadeiras ‘carroças’, sem opcionais básicos!

Por isso, você, brasileiro idiota (assim como eu), que está acostumado a pagar preços exorbitantes, por qualidade zero, faça um exercício mental e espiritual e diga:

NÃO VOU COMPRAR CARRO NACIONAL 0 KM, ATÉ TER PADRÃO DE QUALIDADE INTERNACIONAL, E PREÇO JUSTO!

As montadoras culpam demasiadamente o governo pelos altos impostos (que de fato são), porém, elas mesmas sustentam um cartel monstruoso, que visa ter o maior lucro do planeta! Sim, o maior lucro da Volkswagen no mundo está aqui. Ford, Fiat e GM idem! E o pior, oferecendo carros de baixíssima qualidade!

Portanto, agora que você, consumidor, já sabe da realidade, faça um pacto com seu colega de trabalho, deixe de impressionar seu vizinho, e de ser aparecido com carro 1.0, e passe 1 ano sem trocar de carro!

Precisamos de apenas 1 ano (sim 1 ano, passa rápido), para mudar o jogo. Estas medidas sim, fazem um país mudar! Ou você acha que os americanos, japoneses e alemães andam de carro 1.0 sem direção elétrica/hidráulica e ar condicionado? A GM que tente vender um Celta nos EUA…. seria o fim da marca.

É Hora do Basta! Encaminhe este e-mail para todos que você conhece. Caso contrário, uma maldição cairá sobre você, e estará condenado a andar na Imigrantes, em janeiro, num sol de 35 graus, num Ford Ka sem Ar condicionado!

Já pensou o que estes caras farão para nos ter de volta, comprando carros???

Acorda Brasil!!!

Juros em queda, mas não tanto

Gustavo Loyola (*), Valor Econômico

Pesquisa sobre taxa real neutra parece corroborar ideia de que o BC vem aceitando um risco maior de inflação

A taxa real de juros "neutra" continua em queda no Brasil, avaliam os participantes da oportuna pesquisa realizada pelo Banco Central (BC) entre os agentes de mercado. Em relação à pesquisa anterior - realizada em outubro de 2010 - a média da taxa reportada pelos respondentes caiu de 6,55% para 5,43% ao ano, com 88% dos participantes acreditando que esta taxa caiu nos últimos dois anos, o que sugere que, gradualmente, a taxa de juros de equilíbrio doméstica está convergindo para padrões internacionais.

Contudo, essa boa notícia pode indicar que o BC vem sinalizando uma política excessivamente expansionista para os próximos meses, o que dificultaria o cumprimento da meta inflacionária em 2012 e 2013.

A taxa real de juros "neutra" pode ser conceituada como aquela em que o hiato do produto converge para zero, ou seja, em que o Produto Interno Bruto (PIB) observado se iguala ao PIB potencial que é consistente com a manutenção da estabilidade da inflação ao longo do tempo.

A taxa neutra é influenciada por vários fatores macroeconômicos e não se mantém constante no médio e longo prazo. Entre esses fatores, podem ser citados os choques de demanda e de oferta que tenham certa duração, além de mudanças nos fundamentos econômicos de longo prazo. Adicionalmente, numa pequena economia aberta com liberdade de fluxos de capitais, a taxa neutra é influenciada pelas condições macroeconômicas internacionais.

O economista Alan Blinder, em seu conhecido livro "Central Banking in Theory and Practice", desaconselha o uso da taxa real neutra como base para uma regra mecânica de política de juros pelos bancos centrais, preferindo que ela seja vista mais como um conceito teórico útil para a reflexão sobre política monetária. Isto porque se trata de uma taxa não observável e cujo valor não pode ser estimado com precisão. Ainda assim, sua estimativa é importante para os bancos centrais, auxiliando-os a avaliar, a cada momento do tempo, se a política monetária está sendo contracionista ou expansionista.

No momento em que escrevo este artigo, a taxa de juros real projetada pelo mercado para os próximos 12 meses é de aproximadamente 3,7%, considerando a expectativa de inflação de 5,28% divulgada pelo Boletim Focus. Esse número parece indicar que a política monetária é neste momento francamente expansionista, considerando que é muito inferior à média das opiniões sobre o nível da taxa "neutra" no Brasil (5,43%).

Considerando que o BC brasileiro opera no regime de metas para inflação, há que se indagar o porquê dessa aparente política expansionista, numa conjuntura em que as expectativas de inflação se mantêm acima da meta de 4,5%.

Há pelo menos três hipóteses, não mutuamente exclusivas, a considerar: a) o mercado superestima a taxa real de juros "neutra", que se situaria abaixo dos 5,43% indicados na pesquisa; b) por alguma razão, as expectativas de inflação dos agentes de mercado para os próximos meses estão "infladas"; c) o BC trabalha com uma convergência mais lenta para o centro da meta, o que significa tolerar uma inflação ao redor de 5% em 2012.

A primeira hipótese - superestimativa do nível da taxa de juros real neutra - não pode ser descartada, tendo em vista a já mencionada impossibilidade de estimação de seu valor exato. De toda sorte, os dados da pesquisa realizada pelo BC permitem concluir que apenas um número muito pequeno de participantes estima a taxa neutra abaixo dos 4%.

Esse fato sugere que a possibilidade de o BC não estar, no momento, com uma política monetária expansionista é relativamente baixa, a julgar pela comparação entre os juros observados no mercado e a taxa neutra estimada. Dito de outra forma, os dados podem sugerir que a estimativa própria do BC sobre a taxa neutra situa-se em patamar significativamente inferior à dos agentes de mercado.

Quanto às estimativas da inflação futura, obviamente existe também a possibilidade de que elas estejam superestimadas, vis-à-vis as expectativas do próprio BC. Embora o mercado antecipe a queda das taxas mensais de inflação nos próximos meses, a convergência para a meta de 4,5% não é esperada pela maioria dos respondentes da pesquisa Focus, valendo notar que tanto a curva de juros de mercado como a própria Focus antecipam a necessidade de retomada da alta da taxa Selic no final deste ano ou no início de 2013 para evitar a alta da inflação no próximo ano.

Finalmente, há a possibilidade de o BC estar aceitando uma convergência mais lenta para o centro da meta, seja para evitar uma queda mais forte no crescimento da economia, seja para criar um "colchão" para absorver um choque negativo, na hipótese de agravamento da crise de endividamento na zona do euro.

De todo modo, os resultados da pesquisa sobre a taxa real de juros neutra parecem corroborar a ideia de que o BC vem aceitando um risco maior de a inflação se situar acima do centro da meta, pelo menos nos próximos dois anos.

(*) Gustavo Loyola, doutor em economia pela EPGE/FGV, foi presidente do Banco Central e é sócio-diretor da Tendências Consultoria Integrada, em São Paulo.

O Brasil precisa deixar de ser um tijolo voador

 Ricardo Setti, Veja online


O tijolo voador

Conhecidos os indicadores que fecharam o ano de 2011, mais uma vez é um alívio observar que, mesmo com crescimento menor (2,9%) e inflação mais alta (6,5%) do que as expectativas, a economia brasileira adquiriu solidez, com predomínio, ano após ano, do vetor do progresso sobre o somatório de forças negativas, tanto as internas quanto as externas.

É um bálsamo ver que avançamos na segunda década de um novo século com o superávit primário acima dos 3% do PIB, fator essencial na manutenção da dívida pública em níveis administráveis – em flagrante contraste com a irresponsabilidade que afundou as economias europeias em 2011.

Conforta também ver o triunfo da política econômica, conduzida com base em avaliações criteriosas da realidade e um profissionalismo apontado como padrão a ser seguido por bancos centrais de outras nações.

Mas, ao mesmo tempo, é quase desanimador constatar que resistem teimosa e burramente alguns dos antigos entraves que tanto atrapalharam o desenvolvimento de nossos processos produtivos no passado.

Os números mostram que o Brasil ainda é um tijolo voador, expressão consagrada entre os economistas para descrever uma economia que, a despeito de um desenho tosco e disfuncional, persevera na sua caminhada para a frente em razão de rara combinação de circunstâncias favoráveis.

Dependemos da procura externa por poucos produtos primários
No caso específico do Brasil, o tijolo voa impulsionado pela valorização internacional dos produtos de exportação, em especial o minério de ferro, a soja e a carne, dádivas da natureza que o engenho pátrio soube transformar em riqueza, mas que denotam uma indesejável dependência da demanda externa por alguns poucos itens primários.

Voa pela atração de investimentos produtivos estrangeiros, que bateram em 65 bilhões de dólares no ano passado, parte disso glória da nossa conquista da estabilidade, parte consequência do tropeço das economias avançadas. Enfim, a economia brasileira mantém-se no ar menos por suas virtudes aerodinâmicas e mais pelo superavitário front externo, que produziu um saldo de 30 bilhões de dólares em 2011.

Nossas distorções paralisantes continuam na legislação tributária selvagem; nos desperdícios do setor público, que gasta muito, gasta mal e quando faz cortes economiza em investimentos sem diminuir o tamanho da máquina burocrática; na legislação trabalhista, que engessa e encarece a criação de empregos; e na educação universalizada, mas ainda de péssimo nível.

Essas mazelas precisam ser fortemente atacadas em 2012, para que o Brasil possa crescer em um ritmo que permita dobrar a renda per capita em pouco mais de uma década.

Isso significa crescer cerca de 6% ao ano, consistentemente, nesse período, para podermos nos sentar ao lado de Portugal e da Coreia do Sul no último vagão do comboio dos países com alta qualidade de vida.

Para tanto, temos de deixar de ser um tijolo voador e adquirir os contornos leves, eficientes e modernos das economias sustentáveis e dinâmicas.

(Trecho da Carta ao Leitor de VEJA da edição de 11 de janeiro de 2012 que, como se pode ver, está atualíssimo).

Com uma miséria de governo, não há como acabar com a miséria no Brasil

Comentando a Notícia

É impressionante como estes anos em que o PT está no poder, o gerenciamento racional de recursos públicos definhou. Não se vê um único canto do governo federal onde não haja “esquemas de corrupção”. Não é possível encontrar um único serviço público em que podemos qualificar de razoável ao menos.  O aparelhamento da máquina pública, o esfacelamento do Estado em pequenos feudos partidários, consomem tempo, recursos, pessoal, qualidade que acabam prejudicando exatamente as classes que mais precisam de um Estado minimamente competente.

As poucas que funcionavam e outras que começavam a funcionar, entraram chão adentro. O Congresso que já não era lá um primor, acabou tornando-se um mero despachante servil aos caprichos do Executivo. 

Os órgãos de controle e fiscalização, quando autorizados a bisbilhotar os meandros do poder, mal conseguem apurar a quantidade de irregularidades existentes. 

Não, o governo não funciona em favor da sociedade que o sustenta não é por falta de recursos, é por falta de governo mesmo. E, quando se inaugura um programa com belas intenções em favor do país, ele acaba ou ficando pela metade ou simplesmente parando de vez. 

Dilma assumiu sob o espectro de um imenso leque de promessas. As que conseguiram sair do papel, acabam virando caso de polícia como a gente lê no texto a seguir do Celso Calheiros, para o Portal Terra. 

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PE: cisternas do 'Brasil sem Miséria' chegam com defeito no sertão

O primeiro lote de cisternas feitas de plástico entregues pelo programa Água para Todos - braço do Brasil sem Miséria, principal iniciativa social do governo federal - tem peças com defeito. A Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba (Codevasf) classificou o problema em duas peças de "defeitos de fabricação" em nota oficial divulgada na segunda-feira e já providenciou a troca dos reservatórios de água.

A Codevasf faz parte do Ministério da Integração e é responsável pelo programa. A assessoria do Ministério da Integração respondeu que, das 3 mil cisternas de plástico (polietileno) que estão sendo entregues, apenas duas apresentaram problemas. Elas foram entregues em Cedro, município de Pernambuco que fica no Sertão do Araripe, a 480 km da capital, e que faz limite com o Estado do Ceará.

As cisternas são fundamentais para quem vive em localidades rurais no semiárido em períodos de grande estiagem. Elas armazenam a água da chuva coletada por um sistema de calhas ao redor das casas. Com parte da estrutura enterrada, mantêm a água potável e fria. Embora o semiárido seja seco na maior parte do ano, em três meses do ano a chuva é abundante.

Os reservatórios de plástico foram entregues com defeito na sexta-feira e substituídos no mesmo dia, de acordo com a nota oficial da Codevasf. As peças apresentaram um afundamento na parte superior e foram devolvidas ao fabricante, a empresa mexicana Acqualimp. A Codevasf afirmou que a origem do defeito está sendo analisada. A Acqualimp foi procurada e não respondeu as perguntas enviadas.

Desde o fim de 2011, o Ministério da Integração é alvo de denúncias e desconfianças. A principal delas colocaram o ministro Fernando Bezerra (PSB) sob suspeição por ter beneficiado seu Estado de origem, Pernambuco, com a maior parcela de recursos oficiais. Ele também foi acusado de privilegiar o deputado Fernando Filho (PSB), seu filho, no empenho das emendas parlamentares.

As revelações não foram suficientes para promover modificações no topo do ministério, mas a presidente da Repúbica, Dilma Rousseff, mexeu no segundo escalão. Ela é apontada como dona da decisão de mudar todas as diretorias das principais empresas vinculadas à pasta, como a própria Codevasf e o Departamento de Obras contra as Secas (DNOCS). O último diretor do DNOCS a sair deixou o ministério antes do Carnaval.

O programa Água para Todos tem como meta entregar 300 mil cisternas de plástico e 450 mil de placas de cimento. A primeira licitação foi feita no ano passado, e a Acqualimp foi a vencedora do certame para a fabricação e entrega de 60 mil reservatórios. O diretor comercial da empresa, Amaury Ramos, disse para a revista Carta Capital que se interessava muito pelo mercado. "É o maior programa de compra de sistemas de abastecimento de água no mundo."

A Acqualimp também anunciou a instalação de novas fábricas em Penedo (AL), Teresina (PI), Montes Claros (MG) e em Petrolina (PE), a cidade do ministro Fernando Bezerra (PSB), que tem como pré-candidato a prefeito o deputado Fernando Filho (PSB).

A decisão do governo de investir em reservatório de plástico criou um mal-estar entre as ONGs com tradição de atendimento de famílias do semiárido, sob a coordenação da Articulação pelo Semi-Árido (ASA). A principal atividade da ASA é a execução do Programa 1 milhão de Cisternas, que já entregou 372 mil depósitos de água em todo o semiárido.

A ASA possui uma metodologia que obedece alguns preceitos. Antes da instalação de uma cisterna sua, a comunidade se reúne e escolhe a casa que receberá o equipamento. Todos envolvidos são capacitados para a construção, e são os próprios beneficiados constroem a cisterna.

As críticas dos militantes da ASA vão além da durabilidade da cisterna de plástico, que o Ministério da Integração afirma ser de 20 anos - e a ASA contesta, apontando as primeiras que deformaram antes mesmo de serem usadas. Eles destacam o custo unitário superior a R$ 3 mil, enquanto os reservatórios em placas de cimento custam em torno de R$ 2 mil e têm como subproduto a organização comunitária e a capacitação dos agricultores na construção da estrutura.