quarta-feira, março 07, 2012

Bate-boca tira foco dos problemas da Copa

Gabriel Castro e Luciana Marques, Veja online

Embora grosseiro, o secretário-geral da Fifa está certo. Discussão camufla os reais obstáculos da organização, como atrasos e falta de transparência

 (Reprodução/Fifa)
Jérôme Valcke é secretário geral da Fifa 

O embate entre o secretário-geral da Fifa, Jérôme Valcke, e o governo brasileiro vai dificultar ainda mais a preparação para a Copa do Mundo de 2014. Não só porque o ministro do Esporte, Aldo Rebelo, formalizou nesta segunda-feira  o pedido por um novo interlocutor à Federação Internacional de Futebol. Valcke até pediu desculpas, mas o incidente deve atrapalhar os preparativos para o torneio. A guerra de declarações desvia os holofotes daquilo que realmente interessa: o atraso nas obras essenciais e a falta de transparência na aplicação dos bilionários recursos públicos destinados à organização do torneio esportivo. Em outras palavras, embora tenha sido grosseiro, o francês está certo de cobrar o governo pela falta de empenho em acelerar os preparativos para o torneio.

Do lado do governo, as afirmações foram de revolta à postura de Valcke, para quem o Brasil precisa de "um pontapé no traseiro". "Aqui não há nada imposto, muito menos por uma entidade de fora do Brasil", reclamou nesta segunda-feira o presidente da Câmara, Marco Maia (PT-RS). Presidente da Comissão Especial da Lei Geral da Copa, o deputado Renan Filho (PMDB-AL) emitiu uma nota condenando a postura de Valcke: "É inadmissível que o secretário-geral faça uso de expressões inconsequentes, deselegantes e de linguajar chulo, sem considerar as responsabilidades que essa relação e seu cargo exigem", afirmou o parlamentar.

O Planalto, por enquanto, limita-se a dizer que a postura do ministro Aldo Rebelo é sustentada pela presidente Dilma Rousseff. 

O presidente do Senado, José Sarney, apelou para o patriotismo barato. "Eu acho que o ministro Aldo Rebelo não falou somente em seu nome e nem do ministério e do governo brasileiro. Ele falou em nome de todo o povo brasileiro, do nosso sentimento dessa intromissão indevida", afirmou, em tom populista. 

Para o líder do PSDB no Senado, Alvaro Dias (PR), Valcke errou apenas ao usar uma expressão chula para criticar o governo brasileiro: "Ele tem razão total", diz o parlamentar. Ele afirma que o embate verbal serve também para que o governo desvie o foco do reais problemas envolvendo a organização do torneio esportivo, como o superfaturamento nas obras: "Na organização da Copa, é impossível ter mais problemas do que já temos", critica.

Votação - Apesar do protesto de Renan Filho, a votação da Lei Geral da Copa na comissão está confirmada para  a manhã desta terça-feira. Na semana passada, o texto-base do projeto chegou a ser aprovado. Mas o descumprimento de uma norma regimental sobre o horário de funcionamento das comissões tornou necessária uma nova apreciação da proposta. Depois disso, ainda restarão destaques ao texto, que precisam de votação separada. Entre eles, o que trata da liberação da venda de bebidas alcoólicas nos estádios.

A etapa seguinte será a discussão em plenário, o que não ocorrerá em menos de duas semanas. Nem só por causa das controvérias em torno do texto, mas também pela carregada pauta de votações da Câmara. A demora na apreciação da Lei da Copa (que ainda depende do aval do Senado) é uma das razões pela qual a Fifa tem intensificado as críticas ao governo brasileiro. A proposta dá garantias comerciais à federão de futebol e a patrocinadores do evento, além de harmonizar a legislação nacional às exigências da entidade.

O possível impasse entre governo e Fifa sobre a substituição de Valcke pode atrasar a definição do texto final da Lei Geral da Copa. Mas o  líder do governo na Câmara, Cândido Vaccarezza (PT-SP), diz que o risco não é real: "Não atrapalha em nada. Nós não vamos mudar a produção legislativa do Brasil porque fulano disse alguma coisa", garante o parlamentar. 

***** COMENTANDO A NOTÍCIA:
Sobre este enrosco a gente comenta mais adiante. Mas queria destacar da notícia o trecho em que Vaccarezza afirma que o bate-boca não vai atrasar a definição do texto final da Lei Geral. “...Não atrapalha em nada. Nós não vamos mudar a produção legislativa do Brasil porque fulano disse alguma coisa...”.

Atrasar a lei geral que deveria ter sido aprovada há dois anos atrás? E outra. “Produção legislativa do Brasil”, deputado, convenhamos, chega a ser até engraçada. Coisa que mais falta ao Congresso Nacional é justamente produção legislativa útil ao Brasil. O Congresso precisa recuperar sua independência, transformado que foi em mero despachante dos caprichos do Executivo.