quarta-feira, março 07, 2012

Copa do Mundo: a hora é de trabalho e não de bate-boca ordinário.

Adelson Elias Vasconcellos.


Um dos truques mais apreciados pelas esquerdas, aquelas com espírito autoritário que adoram substituir a sociedade pelo estado de partido único, é arranjar inimigos fantasmas para desviar o foco de atenção de suas arruaças, incompetência, crimes e mal feitos. Se nós lançarmos os olhos para o continente sul-americano, onde o caudilhismo ainda impera com muita força e poder, não será difícil vislumbrar os inimigos que alguns ditadores de araque adoram inventar para esconder-se atrás deles para que o povo não reclame de suas ações infelizes e destrambelhadas no governo. 

No Equador, Rafael Correa cria a imprensa inimiga. Hugo Chavez, na Venezuela, além da imprensa,  a inimiga comum a todos os ditadores,  inventou os Estados Unidos, os empresários, as oposições , o poder judiciário. A Argentina, de Cristina Kirchner além da surrada imprensa, já elegeu os produtores rurais, e mais recentemente, a Inglaterra, por conta das Malvinas que, diga-se de passagem, jamais pertenceram à Argentina. Nem o povo que vive e mora na ilha quer os argentinos por lá, a não ser como turistas. 

No Brasil, Lula sempre inventou a imprensa golpista (golpista só quando ele se tornou presidente, na oposição, Lula a considerava aliada), seus inimigos de estimação foram também FHC, sua obsessão máxima, além dos órgãos de controle, o judiciário, além de investir na divisão do país em feudos,  brancos contra negros, nordeste contra o sul, ricos contra pobres, governo e oposição . 

Agora, por conta desta esculhambação que o Brasil pretende fazer na organização da Copa do Mundo, já há um inimigo escolhido: Jérôme Valcke, secretário-geral da FIFA. E tudo porque este senhor tem a coragem de exigir que o Brasil cumpra com os compromissos assumidos para sediar. Já disse e vou repetir: NINGUÉM OBRIGOU O BRASIL A ACEITAR NADA DA FIFA. Havia um caderno de encargos aos quais os países se submetem se quiserem. Para sediar a Copa não apenas a CBF se comprometeu em aceitar ao que determinavam as condições apresentadas, mas, de sobremodo, o governo do senhor Luiz Inácio Lula da Silva que, por sinal, esteve presente no dia da escolha final. 

De todas as promessas feitas então, desde que não haveria dinheiro público na construção de estádios, até a mais clara e legítima transparência de gastos, passando pela remodelação completa da infraestrutura nas cidades que receberiam os jogos até a total reformulação, modernização e ampliação de portos e aeroportos, com tudo o governo brasileiro se comprometeu. E não apenas com a tal Lei Geral da Copa que, diga-se era para estar votada e aprovada há mais de dois anos. O governo foi empurrando com a barriga sob a desculpa porca de que não poderíamos aceitar imposições da FIFA no regramento interno do país. 

O secretário-geral da FIFA foi infeliz em sua manifestação crítica na semana passada, depois de ser comunicado de que, mais uma vez, a votação da Lei Geral da Copa fora adiada? Sim, mas não lhe tiremos a inteira razão em criticar nossa esculhambação. Como também não se justifica a reação ordinária de Marco Aurélio Top-Top Garcia ao chamar a turma da FIFA  de “vagabundos”, (estava se mirando no próprio espelho, mané?),  nem tampouco a reação infantil de Aldo Rebelo em desautorizar o senhor Jérome Valcker como legítimo representante da FIFA. Tanto que o secretário hoje se desculpou e explicou o que realmente quis dizer em seu desabafo. E vou mais longe: somente com um chute no traseiro este governo irá cumprir, uma vez ao menos, a palavra empenhada, que, aliás, é a melhor maneira de responder às críticas do senhor Valcke. 

A FIFA tem sido muito contemporizadora com o Brasil. Está visto de que sequer conseguiremos realizar metade do previsto e prometido. Veja-se um exemplo: para os dias de jogos, tendo em vista a incompetência em realizar o tanto que deveria em relação à mobilidade urbana, as escolas não terão aulas e se fala em decretar feriados nacionais. O que isto significa? Que, se o país mantivesse sua rotina normal, a ela se acrescentando a mobilização em torno dos jogos, viveria um caos e ficaria evidenciada a incompetência do governo em preparar o Brasil para sediar eventos de grande porte.

Portanto, ao invés de perder tempo com babaquices e quinquilharias, além de bate-boca pueril, inútil, melhor que se perca tempo em realizar o que nos comprometemos e que temos dado mostras de que não estamos cumprindo.

Diante de tantos maus exemplos de como o Brasil vem falhando na organização e preparação dos jogos da Copa, vou citar um que mostramos aqui na semana passada. O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apresentou no dia 28 de fevereiro de 2011 um estudo inédito (clique aqui) realizado por encomenda do Ministério do Turismo que mostra a situação do turismo brasileiro – e as grandes dificuldades que o país terá para receber os visitantes que chegarão para a Copa do Mundo de 2014 e os Jogos Olímpicos de 2016, este no Rio de Janeiro. 

Atenção para a data grifada acima: faltando pouco mais de um ano para a Copa das Confederações, é que o IBGE divulga, a pedido do Ministério do Turismo, o resultado de um estudo sobre a nossa rede hoteleira visando a Copa do Mundo e Jogos Olímpicos. Senhores, um ano e meio? Convenhamos, trata-se de um verdadeiro atestado de incompetência. Um estudo deste quilate, e sobre o mesmo tema, deveria já ter sido feito antes até do país apresentar sua candidatura, e NUNCA faltando poucos meses para as competições terem seu início. Se a rede hoteleira é insuficiente conforme o estudo comprovou, no tempo que nos resta, não será possível recuperar o atraso. Não é a toa que a Copa no Motel foi a manchete com que o estudo foi divulgado. 

E o senhor Aldo Rebelo ainda quer ficar brabinho pela crítica do pessoal da FIFA? Que vá mostrar serviço primeiro, antes de querer esbravejar. Lembro, por exemplo, a omissão do senhor Rebelo sobre o entravado contrato entre o Internacional e a construtora Andrade Gutierrez que o nosso digno ministro não teve competência para destravar e precisou ser socorrido com a intervenção presidencial para o assunto tomar jeito. E este é apenas um dos muitos pontos, verdadeiros maus exemplos que o próprio ministro tem dado. Falta dinâmica a Rebelo para se justificar no cargo, tendo a responsabilidade que tem sobre Copa das Confederações, Copa do Mundo e Jogos Olímpicos. Talvez não fosse sua melhor área de competência, mas se aceitou a missão, que trate de dar conta de suas obrigações, e não fique inventando razões para deixar de fazer.

Assim, que o ministro e demais capangas ponham o rabinho entre as pernas e parem de choramingar. Precisamos é de mais trabalho, de ação, de mais celeridade na organização que nos compete, e menos discursos infantis e ordinários, desculpas esfarrapadas e inúteis. Ou, se não querem cumprir com o compromisso, ou se sentem impotentes em dar conta do recado, digam isto às claras para a FIFA, e não através de recadinhos de baixo nível de moleques de quinta categoria. 

No mundo civilizado, senhores, compromisso assumido é coisa séria. Não se aceita estas desculpas idiotas que temos apresentado e com as quais tentamos nos justificar pelo que deixamos de fazer. Se assumir o compromisso, que então faça e cumpra. E fim de papo. 

E o que é chato, senhor ministro Aldo Rebelo, é a carta que foi enviada à FIFA  pedindo para que seu secretário geral não seja mais interlocutor daquela entidade junto ao governo brasileiro. Primeiro, que o nome do presidente da FIFA é apenas JOSEPH BLATTER. O “SEPP”, é o apelido, e não poderia ser  incluído num documento oficial. É uma descortesia indesculpável. E, por fim, pelo amor de Deus, se a carta é para à FIFA,  ela deveria ser endereçada  para ZURIQUE e não LAUSANNE, que é o endereço do Comitê Olímpico Internacional – COI. Até para emitir um documento oficial, senhor ministro, fica claro o quanto seu ministério precisa evoluir para não levar chutes no traseiro...