sexta-feira, junho 08, 2012

Queda de juros dá fôlego à economia, mas não garante expectativa do PIB


Luís Guilherme Barrucho
BBC Brasil 

Queda dos juros pode ajudar indústria, mas terá pouco impacto no PIB, dizem analistas.


A nova rodada de redução dos juros, a sétima consecutiva, anunciada nesta quarta-feira pelo Banco Central, confere dinamismo à economia brasileira, mas dificilmente garantirá um crescimento do PIB acima de 3% neste ano, segundo especialistas.

Por unanimidade, o presidente e os seis diretores do BC decidiram diminuir os juros dos atuais 9% ao ano para 8,5%, o menor patamar da história.

Foi também a primeira reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) desde a criação do órgão em 1996 em que o resultado dos votos foi divulgado nominalmente, seguindo a promulgação da Lei de Acesso à Informação.

De acordo com especialistas ouvidos pela BBC Brasil, a decisão do BC dará em um novo impulso à economia brasileira, uma vez que juros menores propiciam empréstimos a custos mais baixos, incentivando o setor produtivo e o consumo das famílias.

Na semana passada, o governo recorreu a um novo pacote de medidas, entre elas a redução do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) para automóveis, como forma de retomar a atividade econômica do país.

"Nos últimos meses, a economia brasileira tem sido afetada negativamente tanto pelo mau desempenho da indústria nacional quanto por um cenário externo desfavorável, com a crise na zona do euro e a desaceleração da China e dos Estados Unidos. Além disso, não há, por ora, risco inflacionário", disse Felipe Queiroz, economista da agência classificadora de risco Austin Rating.

Segundo dados da pesquisa Sondagem Industrial, divulgada pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), a produção industrial registrou queda em abril. Com exceção de março, houve retração da produção no setor desde agosto do ano passado.

Crescimento
Como resultado do fraco desempenho da indústria e da redução das exportações, provocado especialmente pela desaceleração da demanda global por commodities, o crescimento da economia brasileira tem sido revisado para baixo neste ano.

Segundo o último boletim Focus, divulgado pelo BC, o PIB deve crescer 2,99% em 2012, abaixo da previsão do governo, que espera alta entre 3 e 4%.

Mas os analistas afirmam que ainda que a queda da Selic traga novo fôlego, a economia brasileira não deve crescer além dos 3% neste ano, situando-se num patamar semelhante ao do ano passado, quando o PIB subiu 2,7%.

"Nos três primeiros meses de 2012, o PIB deve crescer menos de 0,5%, podendo, inclusive, chegar a zero", disse Rogério Mori, professor de economia da FGV-EESP.

O mercado aguarda os dados sobre o crescimento econômico no primeiro trimestre deste ano, que serão divulgados na próxima sexta-feira pelo IBGE.

BC pode fazer mais uma rodada de redução dos juros

"Entramos num patamar até então inexplorado dos juros, mas dificilmente essa redução da Selic permitirá um crescimento acima de 3% neste ano", acrescentou Mori.

Inflação
A queda dos juros não deve, por ora, ter um efeito nocivo sobre a inflação, que subiu 0,64% em abril, acumulando alta de 5,1% nos 12 meses anteriores, ainda acima, portanto, do centro da meta, de 4,5%, de acordo com os analistas.

"Não vejo pressão inflacionária neste momento, uma vez que a economia tem mostrado sinais de desaquecimento, com a produção doméstica em queda e uma capacidade ociosa da indústria acima da média", disse Queiroz.

Segundo as últimas previsões, a inflação deve terminar 2012 a 5,17%. Acima da meta, mas abaixo da taxa registrada em 2011, de 6,5%.

Os especialistas acreditam que, após a decisão desta quarta-feira, o BC ainda deve fazer uma última rodada de redução de juros, que terminariam este ano a um patamar de 8% ao ano, acima dos 7,5% desejados pelo governo.

Com os juros a 7,5%, o Brasil teria juros reais de 2%. Hoje, mesmo com a redução de 0,5 ponto percentual, o país ainda permanece no terceiro lugar com a maior taxa do mundo em termos reais, atrás da Rússia e da China, segundo um relatório da corretora Cruzeiro do Sul.

A verdadeira ameaça a indústria


Alexa Salomão e Luiza Dalmazo, 
Revista Exame

A combinação infernal de custos no Brasil está, sim, causando um estrago no setor industrial. Mas a resposta escolhida para lidar com o problema — o aumento do protecionismo — pode tornar a situação ainda pior

Germano Lüders/EXAME.com
Fábrica da americana International Paper: 
exportação de papel em baixa apesar de o país 
produzir a celulose mais barata do mundo

São Paulo - A cena causa estranheza, mas está se tornando recorrente. Desde o fim de março, representantes de entidades patronais de setores como eletroeletrônicos, têxteis e máquinas engrossam passeatas e circulam em carros de som ao lado de militantes da CUT e da Força Sindical.

Juntos, eles agitam bandeiras e soltam a voz num coro de palavras de ordem do tipo: “Eu já falei, vou repetir, tem de gerar emprego aqui”. Alguns manifestantes, vestidos de chineses, “agradecem” o governo brasileiro pelos empregos gerados por lá.

Eles fazem parte do movimento Grito de Alerta, uma mobilização contra a desindustrialização do Brasil, que já realizou passeatas em Porto Alegre, Florianópolis e São Paulo e planeja promover outras em Belo Horizonte, Manaus e Brasília.

O movimento assegura que, caso nada seja feito, a indústria brasileira pode ir à bancarrota, vítima de uma enxurrada descontrolada de produtos importados, com preços artificialmente reduzidos pela má-fé dos concorrentes e pelo real valorizado. Nessa visão, a indústria brasileira hoje seria como um navio prestes a afundar sob o fogo cruzado de piratas gananciosos.

Patrões e empregados uniram-se para drenar a água dos porões e armar os canhões. “Há uma guerra comercial no mundo”, diz Robson Braga de Andrade, presidente daConfederação Nacional da Indústria (CNI). “Os concorrentes querem acabar com nossas empresas e dominar nosso mercado.”

A dramaticidade adquiriu tal proporção que ecoou em Brasília. Como já vem acontecendo desde o início da crise de 2008, o governo respondeu com medidas emergenciais. Na primeira semana de abril, soltou mais uma fornada de estímulo a setores escolhidos da indústria — não por acaso, os que mais gritam.

O pacote inclui aumento do crédito subsidiado do BNDES e desonerações de impostos a setores como os de máquinas, automóveis e têxteis, entre outros. A conta pode chegar a 60 bilhões de reais. Nas palavras de um dos próprios integrantes do movimento, o presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo, Paulo Skaf, o governo fez “mais do mesmo”. Nada que resolvesse as reais dificuldades da indústria.

Montagem de vagões da espanhola CAF em Hortolândia: 
investimentos em metrôs e incentivos atraíram a produção de equipamentos

Manifestações públicas fazem parte do ambiente das democracias modernas. Aqui ou em qualquer lugar, elas frequentemente geram mais calor do que luz. Mas o cenário que motivou a insólita união de capital e trabalho diz respeito a um debate que tem atraído algumas das melhores cabeças do país — afinal, nossa indústria está em risco?

Após décadas sofrendo para montar uma base industrial importante, vamos agora perdê-la para concorrentes mais eficientes ou mais agressivos? Ou, ao contrário, trata-se do velho esporte de cobrar uma ajudinha do governo para tornar a vida mais fácil? Estardalhaço à parte, empresários e trabalhadores têm suas razões para queixas.

É fato que há no mundo práticas desleais, como o dumping (preços artificialmente baixos para ganhar mercado), em especial após a crise dos países ricos. Para punir quem trapaceia no jogo do comércio global, porém, existem as regras previstas pela Organização Mundial do Comércio — e o governo brasileiro tem recorrido a elas.

Outro motivo de clamor é o real valorizado. O câmbio, é verdade, cria um diferencial de preço — para o bem e para o mal. Tanto é assim que parte do milagre exportador chinês está ancorada em um iuane artificialmente desvalorizado pelo governo de Pequim. Mas, para usar uma analogia popular entre professores de economia, o câmbio é como a maré.

Quando sobe, os exportadores podem nadar de braçada. Quando desce, porém, deixa-os de roupa de banho à mostra — e quem está de calção rasgado passa vexame. Para os especialistas, esse é o caso da indústria brasilei¬ra no momento. E é melhor não ter mui¬tas ilusões: tentar segurar o câmbio nu¬ma hora em que a economia brasileira atrai montanhas de dólares é como enxugar gelo — não será daí que virá a salvação.

A queda do consumo nos paí¬ses desenvolvidos gerou excesso de capacidade no mundo e um aumento brutal da concorrência por mercados mais pujantes, como o Brasil. Com o dólar mais fraco, as empresas locais passaram a dar si¬nais de que têm dificuldade para superar os rivais em seu próprio quintal.

“A indústria brasileira vive hoje no pior dos mundos”, diz o economista Mansueto Almeida, do Instituto de Política Econômica Aplicada. “Não temos a produtividade e a capacidade de inovação da indústria alemã nem os baixos custos e a escala da chinesa.” Por isso, em um número crescente de setores, a indústria brasileira não tem sido páreo para concorrentes mais eficientes. 


Fábrica da ASVAC, em São Paulo: 
o setor de máquinas estagnou, e empresas menores 
estão perdendo por não suportar a competição

Um levantamento sobre o desempenho da indústria de transformação, rea¬lizado pela CNI a pedido de EXAME, mostra a debilidade do setor. Até 2008, ano da crise, pouco mais da metade dos setores crescia pelo menos em linha com o produto interno bruto. Desde en¬tão, 70% passaram a apresentar crescimento vegetativo, estagnação e até encolhimento.

Observando o nível de competitividade de cada um deles, percebe-se que, quanto menor a exposição à competição externa, melhor é o desempenho. Os setores de equipamentos de transporte e de veículos estão entre os que mais crescem e também entre os mais protegidos — têm preferência em licitações, desoneração de impostos, elevação de tarifas para similares importados e crédito a juros camaradas no BNDES.

Já quem bate de frente com a concorrência externa definha. De 2009 a 2011, a importação de vestuário mais que duplicou. Em contrapartida, no mesmo período, a produção local caiu 2% ao ano. O que mais preocupa é o enfraquecimento de setores nos quais o Brasil tem vantagens notórias sobre os concorrentes.

Celulose e papel é um bom exemplo. As florestas plantadas no país rendem a celulose mais barata do mundo — chega a custar a metade da dos concorrentes. Mas o preço do papel começa a refletir os custos do Brasil. Como depende de caminhões, o transporte entre uma fábrica no interior de São Paulo e o porto de Santos representa 60% dos custos logísticos de uma carga destinada à Ásia.

Se houvesse a opção de ferrovia, essa parte do trajeto corresponderia a 20% dos custos. Intensivo em energia elétrica, o setor incorporou os aumentos da conta de luz criados pela tributação. Em 2000, cerca de 13% da conta de energia eram encargos. Hoje eles são 45%.

A International Paper vinha exportando metade da produção: 25% para a América Latina, 20% para a União Europeia e 5% para a Ásia. Agora vai concentrar as vendas na região porque deixou de ser rentável ir a outros continentes.

“Sabemos que dentro de alguns anos vamos ter de construir outra fábrica para atender a América Latina”, diz Jean-Michel Ribieras, presidente da International Paper. “O ideal é que ela fique no Brasil, mas, se não conseguirmos exportar daqui, como vamos justificar um investimento de 5 bilhões de reais?”

Difícil. 
O setor produtivo no país está paralisado pela irracionalidade da estrutura nacional. Eis alguns exemplos. O transporte de um contêiner carregado de componentes da China até a Zona Franca de Manaus, passando pelo porto de Santos, custa 11 000 dólares: 3 500 dólares para atravessar metade do mundo num navio e 7 500 dólares para circular no país.

Quase metade do preço de uma barra de aço fabricada no Brasil é imposto. Na China, a tributa¬ção não chega a 20%. Resultado: o quilo de uma simples válvula, peça de aço que vai dentro de tubulações, sai por 5 dólares na China e por 23 no Brasil. Apesar de a indústria depender de profissionais com conhecimento específico, só um terço dos trabalhadores frequentou algum tipo de curso técnico, área desprestigiada no sistema público de ensino.

 “Nosso maior competidor é a estrutura que criamos para nós mesmos”, diz Alfredo Villela Filho, presidente do Itaúsa, grupo que controla o banco Itaú Unibanco, a fabricante de painéis de madei¬ra, metais e louças sanitárias Duratex, a Itautec, de eletroeletrônicos, e a empresa química Elekeiroz. Todas as empresas da área industrial do Itaúsa sentem a pressão dos custos e da concorrência externa. “Se essa estrutura não mudar, a indústria mingua”, diz Villela.

Por ora, alguns segmentos da indústria de transformação já surgem como fortes candidatos a desaparecer. Antes da crise, a indústria de transformação crescia, em média, 3,3% ao ano desde 2001. Depois de 2008, a taxa caiu para 0,8% ao ano.

A redução de sua participação no PIB, que vinha ocorrendo lentamente desde 2004, foi acelerada e a fatia agora está no menor patamar da série histórica: 14,6%. “Foi uma queda abrupta”, diz o economista Samuel Pessoa, da consultoria Tendências. “Antes da crise eu afirmava que a desindustrialização era um mito. Com esse dado novo, há fortes sinais de que alguns setores estão sofrendo muito.”

É o caso, por exemplo, do calçadista. O setor encolheu entre 2001 e 2011. A produção recuou 32%, e o número de empregados, 15%. Os salários, ao contrário, cresceram 5% ao ano. O setor é um dos mais intensivos em mão de obra, e o valor da mão de obra e dos encargos trabalhistas — que equivalem a 100% da folha — faz uma enorme diferença na composição dos custos.

O presidente de uma tradicional empresa brasileira do setor, que prefere não se identificar, diz que, enquanto um sapato feminino de padrão médio produzido no Brasil chega por 20 dólares a um distribuidor nos Estados Unidos, o mesmo tipo de calçado é oferecido pelos chineses por 10 dólares.


Produção de massas da BRF no Paraná: 
com a base da agropecuária forte, a indústria brasileira
 de alimentos é das mais competitivas do mundo

“Não há mais condições de competir no mercado externo”, diz ele. A estratégia de algumas empresas agora é transferir as fábricas para países com custos de produção e de mão de obra mais baixos. A Vulcabras fechou unidades no Rio Grande do Sul e na Bahia e investiu numa fábrica na Índia. A Paquetá encerrou sua operação gaúcha e mudou as linhas destinadas à exportação para a América Central.

Amadurecimento econômico
É pior dos mundos? Para os estudiosos do crescimento econômico, não. Um país no estágio de desenvolvimento do Brasil não deve se preocupar apenas com a quantidade de empregos que um setor pode gerar, mas também com a qualidade desse trabalho. “Não acho que seja uma tragédia para o Brasil perder indústrias de calçados se setores mais sofisticados estiverem crescendo”, diz Gary Pisano, professor da escola de negócios da Universidade Harvard.

“Eu ficaria preocupado se o país perdesse uma Embraer, que é uma empresa de classe mundial, fonte de trabalho especializado e que tem muita pesquisa associada à produção.” Pisano chama a atenção para o fato de que há uma competição global por indústrias de alto teor tecnológico e é dessa corrida que o Brasil deve participar.

Não apenas por causa dos investimentos que pode receber, mas porque negócios mais sofisticados geram inovação e exigem trabalhadores mais qualificados, o que incentiva o aperfeiçoamento da educação e aumenta o nível de vida. “Um país como o Brasil deve elevar sua indústria a padrões mais refinados”, diz Pisano. “O que pode causar mais impacto na economia local: receber uma fábrica da Apple ou uma de calçados?”

Economistas ouvidos por EXAME afirmam que o impasse instalado no setor industrial tem solução — mas esta nada tem a ver com o que o governo tem feito. A saída, no entanto, exige um atributo escasso no país: visão de longo prazo. Uma guinada essencial é abandonar a crença de que o protecionismo traz benefícios.

Segundo o americano Edward Prescott, vencedor do prêmio Nobel de economia, a maior parte da riqueza gerada nos países do bloco Bric (Brasil, Rússia, Índia e China) na última década teve como base o intercâmbio de produtos, empresas e investimentos.

Não apenas companhias americanas investiram em países emergentes, como empresas de emergentes, entre elas as brasileiras, investiram nos Estados Unidos. “Economias fechadas não são inovadoras”, diz Prescott. “A abertura é a chave para o Brasil se tornar um país industrializado rico.” 

Também será necessário aceitar que há um princípio darwiniano regendo a ascensão e a queda de setores da economia em nível mundial. Um país não consegue ser bom em tudo, e alguns setores tendem a desaparecer em uma parte do mundo para florescer do outro lado do planeta.

“No longo prazo, as indústrias estarão espalhadas ao redor do mundo”, diz Kamran Dadkhah, professor do departamento de economia da Universidade Northeastern, de Chicago. “Essa é uma consequência natural da globalização.” Por essa dinâmica, alguns setores vão definhar e até desaparecer no Brasil.

Nesse sentido, a história guarda algumas lições importantes. Não há, na teo¬ria econômica, uma definição acabada do que seja desindustrialização. Para alguns, ela ocorre quando o setor industrial encolhe. Para outros, o termo vale se a indústria perde participação relati¬va no PIB — ou seja, se cresce menos do que o setor de serviços.

A diminuição da fatia industrial na economia frequentemente se dá de forma natural e lenta, como parte do desenvolvimento das nações. Por isso, não costuma ser encarada como um transtorno, mas como mais uma etapa rumo ao amadurecimento econômico.

No Brasil, o conjunto de atividades reunidas sob a denominação de indústria encerrou 2011 representando 27% do PIB — a mesma fatia que tinha em 1995. Ao longo dos últimos dez anos, o setor acumulou crescimento de produção, faturamento e emprego.

No PIB industrial global, o Brasil atravessou a década na décima colocação entre os paí¬ses mais industrializados. Os problemas mais graves ocorreram nos últimos três anos.

Países que já passaram por processos de desindustrialização conseguiram preservar a pujança. O maior exemplo são os Estados Unidos. O pico da participação da indústria no PIB americano foi de 28%, em 1953. Essa contribuição caiu lenta e continuamente e hoje varia de 11% a 12%. Ao contrário do que parece, a indústria americana não deixou de crescer.

Linha da Vulcabras no Ceará: 
o setor de calçados fecha fábricas no Brasil e migra para 
outros países em busca de salários e custos mais baixos

Nos últimos 60 anos, registrou expansão de 240%, mas com taxas inferiores às do PIB, que aumentou 640% no mesmo período. O segmento que avançou mais foi o de serviços, que hoje representa 80% da economia. É interessante observar que a agropecuária americana tem participação de apenas 1% no PIB e continua a ser a mais forte do mundo. 

A transição do peso na economia de um setor para outro ocorre com o aumento da renda da população. Com mais dinheiro, as pessoas podem até sofisticar a comida que compram ou a roupa que usam — mas há um limite para o anseio de adquirir um volume maior desses produtos.

Com mais renda, o aumento mais significativo de gastos ocorre no setor de serviços: as pessoas vão mais ao cinema, viajam pelo mundo, fazem cursos. Ao longo dessa transição, parques industriais americanos migraram para outros países e, mesmo assim, os Estados Unidos se tornaram um país mais rico e mais dinâmico.

A indústria americana, a despeito de todo o avanço chinês, ainda é a maior do mundo, com participação de 23% no PIB industrial global, ante 15% dos chineses. O processo, porém, não é indolor.

No curto prazo, empresas se vão e empregos se perdem — são dramas individuais reais. No longo prazo, pelo menos até agora, o saldo americano é amplamente positivo. Um movimento parecido começa a acontecer na China, cujas indústrias menos sofisticadas migram, em busca de custos menores, para países como Viet¬nã e Indonésia.

A principal lição é que a briga de verdade não é para manter este ou aquele setor. Fundamental é modernizar a economia como um todo. Se não der prioridade à recuperação da competitividade, o Brasil não aproveitará as oportunidades que estão surgindo. Há uma reestruturação global em curso na indústria, liderada pela China.

Enquanto o Brasil cultua o nacionalismo e vai se tornando mais fechado e caro, a China espalha a produção pelo mundo para torná-la mais eficiente. Suas montadoras investem nos Estados Unidos para aproveitar a mão de obra produtiva, e tecelagens instalam-se em países como Bangladesh, com salário médio de 37 dólares.

“Com os países ricos em recuperação lenta, a China virá com tudo para cima dos emergentes”, diz Roberto Dumas Damas, professor da escola de negócios Insper. “Estamos perdendo a chance de fazer o mesmo.”

É preciso também levar em consideração o impacto futuro do pré-sal na economia. Quando começar a fluir em escala, o petróleo atrairá uma avalanche de dólares, valorizando ainda mais o real. O risco é o país padecer da doença holandesa: se não estiver fortalecida, a indústria pode minguar, e o que sobrar dela orbitará em torno do petróleo.

Tudo depende de tomar as decisões certas desde já — as que ataquem os reais problemas do país. “Não é culpa de americanos, europeus ou chineses que os juros e a carga tributária no Brasil sejam tão altos e a infraestrutura péssima”, diz o diplomata Paulo Roberto de Almeida, professor na Universidade Sorbonne, em Paris.

“Parte do enriquecimento contínuo de países como os Estados Unidos se deve a uma governança muito superior à de outros países e que inclui baixa interferência nos mercados”, diz o Nobel Prescott. Eis um ensinamento e tanto — daqueles que o Brasil insiste em não aprender. 

Brasil volta a cair em ranking de competitividade


BBC Brasil

Relatório sugere menos impostos e investimento em infraestrutura para melhorar competitividade brasileira


Pelo segundo ano consecutivo, o Brasil perdeu posições em um recém-divulgado ranking de competitividade internacional, que cita declínio do país em investimentos diretos no exterior, crescimento da economia, eficiência do governo e inflação.

O ranking de competitividade entre 59 países, feito pela escola de administração suíça IMD, é liderado por Hong Kong e pelos Estados Unidos e coloca o Brasil na 46ª posição, duas abaixo da ocupada em 2011.

O país vinha subindo no ranking entre 2007 e 2010, mas em 2011 caiu do 38º posto ao 44º. Agora, foi ultrapassado pela Hungria e a Lituânia.

A avaliação da IMD, publicada desde 1989, é feita com base em dados compilados por instituições locais - os do Brasil foram levantados pela Fundação Dom Cabral - e por entrevistas com 4.200 executivos internacionais. Seu objetivo é medir como os países gerenciam seus recursos humanos e econômicos para aumentar sua prosperidade.

Em comparação com os países do Bric, o Brasil só se sai melhor que a Rússia, em 48º lugar. A China continental foi colocada em 23º lugar do ranking, e a Índia, em 37º. Ambas perderam posições em relação ao ano anterior.

Na América Latina, três países - Chile, Peru e México - foram considerados mais competitivos que o Brasil.

"O Brasil cresceu nas exportações de commodities, mas não tanto nas exportações de valor agregado", explica à BBC Brasil o português Nuno Fernandes, professor de finanças do IMD.

Ele também diz que medidas protecionistas jogam contra a atuação das empresas brasileiras no exterior. "As empresas focaram no mercado interno e prosperaram, mas quando a economia brasileira abranda e elas tentam ir ao exterior, não têm tanta competitividade."

Altos e baixos
O relatório da IMD lista, entre as "melhorias" apresentadas pelo país, melhor controle da evasão fiscal, melhor expectativa de suprimento de energia, maior recebimento de investimentos diretos estrangeiros e crescimento nas exportações.

Em compensação, o IMD cita uma forte redução do fluxo de investimentos diretos brasileiros no exterior, a redução de ritmo da economia (o governo prevê um aumento do Produto Interno Bruto entre 3% e 4%; o mercado projeta até menos de 3%) e o aumento da inflação e do custo de vida.

O país também pontuou menos em controle das finanças públicas e da corrupção.

Para estimular a competitividade brasileira, o relatório sugere reduções de impostos, investimentos em infraestrutura, acelerar os investimentos para a Copa do Mundo e as Olimpíadas e investir em pesquisas e desenvolvimento, entre outros.

Papel dos EUA
Além de Hong Kong e EUA, o ranking é encabeçado por Suíça, Cingapura e Suécia.

E o papel dos Estados Unidos foi destacado pelo relatório como essencial para a prosperidade global.

"A competitividade dos EUA tem um impacto profundo no resto do mundo porque (o país) está interagindo de forma única com todas as demais economias, avançadas ou emergentes. Nenhum outro país pode exercitar tanto o poder de 'puxar' o mundo", disse em comunicado Stephane Garelli, diretor do Centro de Competitividade Global do IMD.

"A Europa está sob o fardo da austeridade e da liderança política fragmentada e dificilmente será um substituto crível. Enquanto isso, o bloco Sul-Sul de nações emergentes ainda é uma obra em construção. No final das contas, se os EUA competem, o mundo é bem-sucedido", opinou.

Queda nos investimentos federais afetou desempenho do PIB


Dyelle Menezes
Do Contas Abertas


O anúncio do Produto Interno Bruto (PIB) com crescimento de apenas 0,2% no primeiro trimestre deste ano acendeu a luz vermelha no governo federal, que havia feito promessas de maior dinamismo econômico em 2012. Contudo, tal fato ainda não ocorreu ao menos no que diz respeito à União. Nos primeiros cinco meses deste ano, os investimentos dos Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário atingiram a R$ 14,3 bilhões, sendo os menores dos últimos três anos, em valores constantes. 

Em 2011, os investimentos no período de janeiro a maio foram de R$ 14,7 bilhões. Em 2010, R$ 17,7 bilhões. Se considerados os valores correntes, os investimentos andaram de lado, aumentando apenas 0,8%. Convém ressaltar que na execução orçamentária as aplicações do Minha Casa, Minha Vida e do Moradia Digna são consideradas despesas correntes.

Para o professor de economia da Universidade de Brasília (UNB), Flavio Basílio, a principal explicação para o redução nos investimentos, é a mudança da primeira fase do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) para a segunda, PAC 2.  “O que ocorre é um problema operacional. A mudança institucional inclui, às vezes, mais burocracia, o que acaba sendo certo entrave para os procedimentos operacionais de um programa tão importante”.

Além disso, Basílio ressalta que o investimento público é muito importante para a dinâmica do PIB. “Normalmente, o setor privado não tem dinheiro para realizar grandes obras, e o o setor público é que  complementa e torna possível o investimento”, afirma. Assim, a relação entre o desempenho do investimento público e do privado é essencial para a expansão da economia.

Para o economista, sem dúvidas, o investimento precisa ser estimulado. “Até então, o estímulo da nossa economia tem ido muito para o lado do consumo. O governo baixou o IPI, tem baixado os juros, o que estimula a demanda. A nova necessidade é tratar dos problemas estruturais, dos investimentos públicos”, explicou.

Ao que parece, esta é a cobrança atual da presidente Dilma Rousseff. Na última segunda-feira (4), Dilma ordenou ao ministro da Fazenda, Guido Mantega, que apresente um pacote urgente com medidas efetivas para estimular os investimentos produtivos e evitar mais um resultado pífio do PIB, cuja expansão deve ficar em 2,5% neste ano.

Insatisfeita com as ações até agora anunciadas por Mantega — todas de curto prazo, com baixo impacto na atividade —, ela comandou duas reuniões no Palácio do Planalto, com o intuito de atual ritmo da economia. Dilma avisou que não quer ver o seu governo marcado pelo "voo de galinha", o qual sempre criticou quando o Executivo era comando pela oposição.

A previsão dentro do Planalto é que o pacote seja anunciado ainda nesta semana, tamanha é a ansiedade da presidente. A meta é conceder estímulos aos setores produtivos considerados estratégicos para o crescimento econômico. O governo está ciente de que muitas empresas botaram o pé no freio e suspenderam investimentos por temerem um longo período de estagnação do país.

A certeza de Dilma de que a saída para a retomada do crescimento passa por estímulos aos investimentos e não apenas ao consumo, como tem feito a Fazenda, foi reforçada no encontro dela com o rei Juan Carlos I, da Espanha. A líder brasileira disse que a ampliação das fábricas e da infraestrutura são essenciais para melhor desempenho da atividade econômica. Ela destacou que essa receita vale para o Brasil e para o mundo, que sofre com a crise na Europa e nos Estados Unidos, por ser compatível com o equilíbrio macroeconômico. Segundo a presidente, o Brasil está pronto para "colaborar da melhor forma" no cenário global.

Mas a presidente ponderou que uma ação coordenada e solidária deve envolver todos os grandes atores da economia mundial, em especial, os próprios países da Europa, e não apenas os emergentes. No pronunciamento que antecedeu o brinde em homenagem ao monarca, Dilma afirmou que, com o acirramento do processo recessivo internacional, o "Brasil está se preparando para ter uma política pró-cíclica de investimentos" e destacou o papel da Espanha, segundo maior investidor estrangeiro no país.

Paralisia no DNIT
A redução dos investimentos deve-se, principalmente, à retração do Ministério dos Transportes. As aplicações da Pasta nos primeiros 5 meses de 2012, foi de R$ 2,9 bilhões, montante inferior em aproximadamente R$ 2,1 bilhões ao valor investido em 2011, R$ 4,9 bilhões. O montante efetivamente pago, incluindo os restos a pagar pagos, representou apenas 16,4% da dotação prevista para o exercício. A ínfima execução orçamentária do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT), esta diretamente relacionada à crise política decorrente da substituição do ex-ministro. 

Diante dos indícios de corrupção descobertos à época, foi designado como Diretor Geral do DNIT o general Jorge Ernesto Pinto Fraxe, o qual cercou-se de assessores, também militares, de sua confiança. Como não era funcionário de carreira do Departamento e com receio de novas irregularidades, o Diretor Geral tem analisado minuciosamente os projetos com o seu grupo de confiança. Consequentemente, a tramitação dos projetos tornou-se mais lenta.

Segundo Basílio, o DNIT também passa pela falta de pessoal, já que há muito não realiza concurso. “Os processos tocados pelo órgão são complexos, porque envolvem a parte de liberação de obras, mas também questões ambientais”, explicou. Para o professor, é necessária uma reestruturação do DNIT, principalmente, com contratação de pessoal mais qualificado para solucionar esse problema.

No Ministério dos Transportes, em todas as fases da execução orçamentária foram observadas reduções significativas neste exercício. Em 2011, de janeiro a maio, os empenhos somaram R$ 6,0 bilhões, em valores correntes. Em 2012, nos primeiros cinco meses, foram empenhados apenas R$ 4,1 bilhões. Os valores liquidados caíram de R$ 489,5 milhões para R$ 267,1 milhões. Os valores pagos com o orçamento do exercício diminuíram de R$ 371,3 milhões em 2011, para R$ 249,9 milhões, em 2012. Até mesmo os restos a pagar pagos sofreram redução de R$ 4,4 bilhões no ano passado para R$ 2,6 bilhões neste ano. O único crescimento constatado foi nos restos a pagar a pagar, que passaram de R$ 5,8 bilhões, em 2011, para R$ 7,7 bilhões, em 2012.

Além dos Transportes, os ministérios das Cidades e da Integração Nacional também contribuíram para a queda nos investimentos da União.  A Pasta das Cidades aplicou R$ 207 milhões a menos do que em igual período do ano passado. Já a Integração Nacional investiu R$ 1,1 bilhão até maio, o montante é cerca de R$ 85,6 milhões menor do que o aplicado em 2012.

Produção industrial cai em 12 de 14 regiões


Veja online
Com informações Agência Estado

As maiores perdas foram registradas em Goiás e no Paraná. Apenas Pará e Santa Catarina tiveram avanços

(Yasuyoshi Chiba/AFP)
Linha de Produção 

A Pesquisa Industrial Mensal - Produção Física, divulgada nesta quarta-feira, mostrou queda de atividade em 12 dos 14 locais pesquisados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em abril. As maiores perdas foram registradas em Goiás (-7,6%) e no Paraná (-7,0%), que praticamente eliminaram os avanços registrados no mês anterior, em pesquisa com ajuste sazonal. 

Amazonas (-5,8%), Ceará (-4,7%), Rio de Janeiro (-2,9%) e Rio Grande do Sul (-2,4%) também apresentaram recuos bem acima da média nacional (-0,2%). Os demais resultados negativos foram verificados na região Nordeste (-0,7%), em Pernambuco (-0,6%), em São Paulo (-0,4%), na Bahia (-0,3%), no Espírito Santo (-0,2%) e em Minas Gerais (-0,1%). Os resultados foram positivos em abril apenas no Pará (4,3%) e Santa Catarina (0,3%). 

Na comparação com o mesmo mês de 2011, 10 dos 14 locais mostraram queda na produção em abril de 2012. As perdas mais intensas foram verificadas no Amazonas (-11,8%) e no Rio de Janeiro (-9,4%). Os resultados foram provocados, em grande parte, pelo comportamento negativo do segmento de bens de consumo duráveis, com destaque, no Amazonas, para a redução na produção de motos, aparelhos de ar condicionado, micro-ondas, celulares, televisores e relógios e, no Rio de Janeiro, de automóveis.

No acumulado do ano até abril, a produção industrial caui em oito das 14 localidades pesquisadas, com destaque para Rio de Janeiro (-7,5%), São Paulo (-5,1%) e Santa Catarina (-5,1%). Na média nacional, o recuo ficou em 2,8% no quadrimestre. 

Os avanços mais acentuados foram registrados em Goiás (17,9%), no Paraná (6,2%), na Bahia (5,6%) e em Pernambuco (5,2%), refletindo especialmente a maior produção de medicamentos no primeiro local, de livros e impressos didáticos no segundo, de resinas termoplásticas no terceiro, e de produtos da metalurgia básica e de minerais não metálicos no último. 

Estoque agrícola cai para 20,7 mi de toneladas, diz IBGE


Exame.com
Com informações Agência Estado

Volumes estocados de arroz e soja cresceram, respectivamente, 22,3% e 16,5% em 31 de dezembro de 2011 ante igual dia do ano anterior

(Germano Luders/Exame)
Maioria dos armazéns ativos encontrava-se na região Sul do país

O estoque de produtos agrícolas no país caiu para 20,7 milhões de toneladas em 31 de dezembro de 2011, ante 22,9 milhões de toneladas em 2010. O dado é da Pesquisa de Estoques referente ao segundo semestre de 2011, divulgada nesta quarta-feira pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Os maiores estoques registrados no final do ano passado foram os de milho em grão (5.336.253 t), trigo em grão (5.277.299 t), soja em grão (4.912.187 t), arroz em casca (3.101.131 t) e café em grão (1.023.375 t). Comparados aos de 31 de dezembro de 2010, os estoques de arroz e soja cresceram 22,3% e 16,5%, respectivamente. Já os de café, trigo e milho apresentaram quedas de 4,9%, 12,4% e de 32,3%, também respectivamente.

Os resultados da pesquisa indicam um recuo de 0,2% no número de estabelecimentos armazenadores ativos na comparação com o primeiro semestre de 2011. No fim do ano, a rede armazenadora de produtos agrícolas contava com 9.324 estabelecimentos ativos, sendo 45,3% deles na região Sul, 22,4%, na região Sudeste, 21,1%, na Centro-Oeste, 7,9%, na Nordeste e 3,3%, na região Norte.

A capacidade útil dos armazéns convencionais, estruturais e infláveis somou 73.941.768 metros cúbicos, sendo pouco mais de 70,0% concentrados nas regiões Sudeste e Sul. Os armazéns graneleiros e granelizados registraram 57.292.482 toneladas de capacidade útil, sendo que a região Centro-Oeste deteve 49,8% desta capacidade e a Sul, 32,8%. Os silos para grãos apresentaram 55.670.492 toneladas de capacidade útil total, com 56,4% na região Sul e as regiões Centro-Oeste e Sudeste com 25,0% e 13,8%, respectivamente.

Comparados aos da pesquisa do primeiro semestre de 2011, os resultados de capacidade útil mostraram queda de 4,0% na capacidade dos armazéns convencionais, estruturais e infláveis e um acréscimo de 4,4% na capacidade dos silos. Já a capacidade útil dos armazéns graneleiros e granelizados manteve-se. O total de capacidade útil instalada no país cresceu 0,3%, passando de 156,8 milhões para 157,3 milhões de toneladas.

Governo estuda elevar carga tributária de mercadorias não sustentáveis. Mais imposto, é? Então tá...


Eliane Oliveira
O Globo

Ideia é incorporar nos preços dos produtos os aspectos negativos que eles trazem para o meio ambiente e sociedade

BRASÍLIA — O empresário que não investe em sustentabilidade na produção corre o risco de pagar mais impostos do que aquele que fabrica bens com responsabilidade social, ambiental e respeito ao consumidor. Entre as medidas em estudo pela equipe econômica para estimular a economia verde está a aplicação de uma carga tributária mais elevada sobre mercadorias onde não são observados mecanismos de sustentabilidade na cadeia produtiva.

— A ideia é incorporarmos nos preços das mercadorias os aspectos negativos que elas trazem sob os pontos de vista ambiental e social. Na linguagem econômica, isso significa internalizar as externalidades — explicou ao GLOBO o secretário de Assuntos Internacionais do Ministério da Fazenda, Carlos Cosendey.

Os estudos estão apenas no começo, mas seguem o princípio de que o poluidor precisa pagar um preço pelos danos que causa. Segundo uma fonte da área econômica, dependendo da conjuntura, a tendência é a aplicação de uma sobretaxa a bens não sustentáveis. No entanto, não se descarta a possibilidade de redução de tributos, como o Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI), PIS/Cofins. Assim, os agentes econômicos, ao tomarem suas decisões, também levariam em conta essa vantagem comparativa.

Alguns países desenvolvidos, como os europeus, têm tradição mais longa de usar esse mecanismo. No Brasil, é um tema relativamente novo e, aos poucos, esse tipo de medida está sendo aplicada setorialmente. Por exemplo, no setor automotivo, a etiquetagem de eficiência é um dos requisitos para a montadora se candidatar ao regime e os produtores de biodiesel pagam menos tributos que os que oferecem no mercado combustíveis fósseis.

— A incorporação ainda é feita de forma tópica e pontual. A tendência é cada vez fazer isso de forma mais sistemática, incorporando o maior número possível de setores — disse o secretário.

Esses estudos, destacou Cozendey, mostram que a sustentabilidade é um caminho sem volta, independentemente dos resultados que saírem da Rio + 20. Ele acrescentou que o Ministério da Fazenda já vinha trabalhando no assunto, em função do Plano Nacional de Mudanças Climáticas, que previu uma série de ações setoriais e a discussão sobre mercado de carbono.

— Nesse contexto, foi criado um grupo de trabalho para tratar do mercado de carbono e o que seria necessário fazer, se o Brasil decidisse seguir essa linha. A conclusão será apresentada proximamente à comissão interministerial que acompanha o tema — informou.

Ele citou propostas, que têm à frente o Brasil e outros países, vinculadas à economia verde: compras públicas sustentáveis e protocolo verde na área financeira estão entre os exemplos. No segundo caso, os bancos se comprometeriam a fazer uma análise de sustentabilidade dos empreendimentos a serem financiados, antes de aprovar o crédito.

Na quarta-feira, o ministro da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, Mendes Ribeiro Filho, divulgou o documento oficial de sua pasta para a Rio + 20. Segundo ele, o texto apresenta a avaliação da agropecuária 20 anos após a Rio-92 e a contribuição para fomentar o aumento da produção de alimentos, conservar o meio ambiente, garantir a segurança alimentar e nutricional, além de erradicar a pobreza nos próximos 20 anos.

"Somos líderes na produção de alimentos, mas também somos líderes em áreas de preservação ambiental. Isso é possível porque estamos na dianteira da tecnologia de produção em áreas tropicais”, disse o ministro, acrescentando que, nos últimos 50 anos, a produção de grãos cresceu 290% e o rebanho de gado 250%, com o acréscimo de área de apenas 39%.

Conforme o documento, a produção de alimentos deve estar focada na adoção de práticas sustentáveis. O setor agropecuário deve utilizar métodos de irrigação que diminuam o desperdício de água, além de reforçar a gestão agroclimática de culturas, produzir sementes e mudas melhoradas, ampliar investimentos para desenvolver tecnologias aplicáveis à biomassa (fonte renovável de energia que utiliza organismos vivos) e priorizar a diversificação de culturas.

Governo estuda desonerar energia e unir PIS e Cofins, diz Tombini


Maeli Prado
Folha de São Paulo

O presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, confirmou nesta terça-feira (5) que está em estudo no governo uma forma de desonerar a energia elétrica.

"Hoje há duas medidas em estudo. Uma é a desoneração da energia elétrica, que é um custo importante da economia real. Se for possível desonerar [a energia], certamente haverá um impacto importante para ajudar a competitividade do Brasil".

A segunda medida em estudo, de acordo com ele, é a unificação do do PIS e da Cofins, com o objetivo de simplificar o pagamento dos impostos.

Ele afirmou ainda que a economia brasileira deve se acelerar a partir do segundo semestre deste ano. "Hoje, já percebemos um ritmo de atividade maior no segundo trimestre do que no primeiro trimestre", exemplificou.

O presidente do BC participa de audiência pública na Comissão Mista de Orçamento da Câmara dos Deputados.

Tombini argumentou que um maior crescimento a partir de julho será possível por conta dos bons fundamentos da economia brasileira.

O presidente do BC disse ainda que a turbulência na economia internacional, gera um cenário desinflacionário sobre as commodities, o que ajuda a controlar a alta de preços no mercado interno.

Além disso, destacou que o dólar ficou cerca de 6% mais caro em relação ao real em maio, movimento considerado "moderado" por ele se comparado ao que ocorreu em outros países.

SPREAD
O presidente do BC afirmou ainda que o spread bancário (diferença entre a taxa de captação paga pelos bancos para obter recursos e a cobrado dos consumidores e empresas) teve uma "pequena redução" no mês passado.

Tombini atribuiu a redução à queda nos juros básicos da economia (taxa Selic) desde agosto do ano passado.

INADIMPLÊNCIA
Tombini também disse que a tendência é que a inadimplência se reduza no segundo semestre deste ano.
De acordo com ele, isso deve ocorrer porque o calote atual reflete empréstimos antigos, em especial no caso de veículos. Concessões feitas a partir de agosto de 2011 apresentariam nível menor de atrasos, disse o presidente do BC.

A própria aceleração da economia esperada a partir do segundo semestre, com geração de novos postos de trabalho e renda em alta, declarou, já deve contribuir para uma queda na inadimplência.

O protecionismo brasileiro


O Estado de S.Paulo

Indústrias instaladas na Zona Franca de Manaus (ZFM) vinham reivindicando há algum tempo uma proteção para produtos ali fabricados, sob o pretexto de que uma "invasão" de similares importados poderia levar a um desemprego em massa na região. O lobby foi suficientemente forte para que o governo federal baixasse o Decreto 7.741, em 31 de maio, elevando para 35% as alíquotas do IPI sobre motocicletas, aparelhos de micro-ondas e de ar-condicionado importados e nacionais, com exceção dos produzidos na ZFM, onde se concentram 90% da produção brasileira desses itens. Ou seja, produtos similares aos da lista, que forem fabricados em São Paulo ou no Rio Grande do Sul, receberão o tratamento tributário dado a produtos chineses ou tailandeses - e isso para "proteger" as ineficiências produtivas da Zona Franca de Manaus.

Medidas tomadas para defender a indústria instalada no País da concorrência externa dificilmente ficam limitadas a um setor ou a poucos setores. O aumento da alíquota do IPI em benefício da ZFM toma como precedente a elevação, em setembro do ano passado, de 30 pontos porcentuais da alíquota desse tributo sobre automóveis que não tivessem um conteúdo nacional de 65%, englobando todos os carros importados, com exceção daqueles produzidos em países com os quais o Brasil mantém acordos automotivos. O objetivo era declaradamente proteger toda uma cadeia produtiva, favorecendo a produção de componentes, partes e peças de veículos no País.

Acontece, porém, que os insumos destinados à industrialização na ZFM são beneficiados por uma redução de 88% do imposto de importação. Ou seja, a taxação sobre produtos acabados, agora concedida, não tem nada a ver com os materiais que os compõem.

E, pior, age em detrimento de produtores de outras regiões do País. Além do subsídio da tarifa alfandegária, restituição de impostos estaduais, variando de 55% a 100%, isenção do IPTU e taxas de serviços municipais, as indústrias instaladas na ZFM podem gozar de redução de 75% do Imposto de Renda Pessoa Jurídica, inclusive adicionais de empreendimento considerados como prioritários para o desenvolvimento regional, calculado sobre o Lucro de Exploração até 2013 e isenção de PIS/Pasep e da Cofins nas operações internas. Os produtos montados naquela área estão também isentos do IPI. Isso contradiz a informação, que chegou a ser divulgada na semana passada, de que as motos, micro-ondas e aparelhos de ar-condicionado originários da ZFM "continuariam" pagando o imposto à razão de 20%.

Seja como for, este não parece ser um problema de difícil solução. Depois de ter taxado a importação de automóveis, o governo ainda há pouco isentou ou reduziu substancialmente o IPI para carros novos produzidos no País até o fim de agosto deste ano, como forma de estimular a demanda e "puxar" o crescimento econômico. O mesmo pode ser feito para motos, micro-ondas e aparelhos de ar-condicionado, para acelerar o ritmo de atividade pela via do consumo.

Como contrapeso a essas desonerações, o governo decidiu, igualmente em 31 de maio, corrigir para cima a tabela de incidência do IPI sobre as chamadas bebidas frias, como cerveja, refrigerantes e água. Esta seria uma forma de compensar os cortes de impostos por meio do Plano Brasil Maior, declaradamente destinado a estimular a competitividade da indústria nacional.

As coisas não vão parar por aí. Como O Globo noticiou, o secretário do Tesouro Nacional, Arno Augustin, declarou nessa quarta-feira (dia 30), que o resultado das contas do governo, de janeiro a abril, possibilita a continuidade da política que vem sendo adotada. "O que estamos procurando fazer é manter o (superávit) primário e ativar a economia da melhor forma possível, atacando os principais gargalos", disse ele.

Os resultados são duvidosos, mas uma coisa é certa: a barafunda tributária só tem aumentado no País, que se credencia para conquistar novamente o campeonato mundial do número de horas exigidas para pagar imposto. No ano passado, o País ficou em 1.º lugar no ranking, com 2.600 horas gastas para as empresas cumprirem suas obrigações com o Fisco. Já basta, segundo a ONU, a OMC e a OCDE, o recorde de protecionismo.

Não está fácil ‘levantar’ o PIB do Brasil


Thais Herédia
Portal G1


A economia brasileira anda devagar, muito mais lenta do que se esperava. O resultado do PIB do primeiro trimestre deste ano, divulgado nesta sexta-feira (1) pelo IBGE, surpreendeu pela sua fraqueza. As expectativas variavam entre 0,2% e 0,8% de crescimento nesse período. Mas até os pessimistas consideravam a mais baixa, pessimista até demais.

O resultado revela e sinaliza algumas coisas importantes sobre a nossa economia.  A primeira delas é que o país está sendo bastante atingido pela crise internacional. A grande contribuição não tem vindo diretamente da Europa, dona do abacaxi, e sim da China. Os chineses estão vivenciando uma forte redução de sua força motriz: as exportações para o mundo “rico”. Se a China exporta menos, produz menos e, consequentemente, demanda menos o que não tem, como ferro, soja, entre outras commodities.

Os últimos dados vindos de lá, divulgados nesta sexta-feira, também foram uma surpresa para os mercados porque vieram mais fracos do que esperavam. O índice de atividade industrial está no limite de baixa, prenunciando que a economia chinesa pode não conseguir crescer 8% em 2012, o que jogaria um balde de gelo na economia mundial.

No Brasil, o setor que mais sofreu neste primeiro trimestre, foi exatamente o da agropecuária, com queda de 7,3%. Os nossos dados de exportações também não são nada animadores. Temos vendido menos, tanto porque os preços das commodities caíram no mercado internacional, como também pela quantidade de produtos exportados, que está menor.

A segunda revelação do resultado divulgado pelo IBGE é de que todas as medidas que o governo adotou até agora para tentar estimular a economia ainda não foram suficientes. O nosso “levantador de PIB”, o ministro da Fazenda Guido Mantega, é persistente ao afirmar que a “caixa de ferramentas” do governo ainda está cheia.

O melhor mesmo seria ter mais dinheiro em caixa para gastar. Mas as contas estão apertadas e, para fazer isso, o governo teria que reduzir a economia que se comprometeu a fazer para pagar os juros da dívida pública, o chamado superávit primário. Há economistas defendendo essa hipótese como instrumento “anticíclico”, desde que o governo seja parcimonioso. Contas públicas e credibilidade estão mais unidas do que nunca nos dias de hoje.

Quem tem dinheiro no cofre é o BNDES, nosso banco de desenvolvimento, mas não recebe cliente. A taxa de investimento caiu nesse início de ano, -1,8% segundo o IBGE. Um desempenho muito ruim para quem precisa crescer mais. A indústria, potencial cliente do BNDES, não cresce e por isso não quer se endividar para investir.

O Banco Central está fazendo sua parte, pelo menos para ajudar o PIB. O Copom baixou os juros para 8,5% deixando a porta bem aberta para mais reduções. No mercado de juros, que negocia taxas num futuro que vai de poucos meses a um ou dois anos, já tem investidor apostando em juros de 7,50% e “olhe lá”! Se a coisa não melhorar, ou piorar, pode ser até menos.

Cálculos e mais cálculos serão feitos agora para saber de onde tirar e para onde mandar os maiores esforços para “levantar” a nossa economia. Como dizia o sucesso da cantora Katia, nos anos 80, “não está sendo fácil, não está sendo fácil”.

Política de retaliações prejudica Mercosul


Ógui
Especial para o Terra

Brasil e Argentina restringem importação de produtos

Foto: Everystockphoto

As relações comerciais estão estremecidas no cone sul da América Latina. As medidas protecionistas impostas pela Argentina, principalmente à importação de carne suína e produtos manufaturados brasileiros, provocaram a discórdia. Já o Brasil, em resposta, burocratiza a comercialização do vinho, da maçã, da cebola e da farinha de trigo argentinos. Essa política pode gerar aumento de inflação e desequilibrar a balança comercial dos dois países.

Segundo Roberto Simonard, professor de economia da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM-RJ), essa rixa econômica é antiga. Ela teve início em 1999, no começo do segundo governo de Fernando Henrique Cardoso, quando o câmbio brasileiro deixou de ser fixo para tornar-se flutuante, como é até hoje. “Com o câmbio flutuante, o saldo de exportações de produtos brasileiros para a Argentina tornou-se favorável ao nosso país e ruim aos argentinos. Para tentar criar barreiras para impedir a balança comercial desfavorável, a Argentina restringe a importação de produtos brasileiros”, diz o professor.

Quem perde com isso são os consumidores dos dois países líderes do Mercosul. Isso porque há o encarecimento e até a falta de produtos importados disponíveis no mercado. Para se desvencilhar da crise, o consumidor pode deixar de consumir o produto ou substituí-lo por outro. Entretanto, as políticas protecionistas de ação imediata da Argentina, em longo prazo, geram piora na economia. “É um efeito bola de neve: com a redução das importações, o custo de produção interno aumenta, inviabilizando a exportação dos produtos, ou seja, o objetivo argentino de aumentar as reservas internacionais não é atingido”, explica Jobson Souza, professor de economia internacional da FECAP.

Inflação
Se a prática de retaliações não for interrompida em breve, outro efeito esperado é o aumento da pressão inflacionária dentro dos países. “Quando os preços aumentam internamente, há o aumento também da inflação do país”, afirma Souza. Para o governo argentino essa consequência iria contra os planos de aceleração do crescimento desejados para o país, uma vez que os índices de inflação já são altos por lá. “Se a integração entre as duas economias for prejudicada, quem tem mais a perder é a economia menor, que, agora, é a da Argentina”, acrescenta Simonard.


Tentativa de conciliação
Para tentar encerrar a crise, representantes dos dois países se reunirão no próximo dia seis de junho, na Argentina. Simonard e Souza concordam que a melhor saída para a economia de ambos é mesmo tentar um acordo. “Ao invés de retaliar os produtos do outro país, o que deve ser feito é uma negociação entre eles. Como o Brasil se encontra em uma situação econômica diferente da argentina, ele poderia ajudá-la”, completa Souza. 

Calçado brasileiro 'aniversaria' à espera das licenças para entrar na Argentina


Felipe Bächtold
Folha online

Calçados brasileiros vendidos para a Argentina fizeram "aniversário" neste mês aguardando licença para entrar no país vizinho.

Cerca de 12 mil pares permanecem estocados em depósitos pelo Rio Grande do Sul desde junho de 2011, segundo a Abicalçados (Associação Brasileira das Indústrias de Calçados).

No total, 1,7 milhão de pares vendidos a comerciantes argentinos espera para sair do Brasil, diz a entidade.

A indústria afirma que a situação se agravou com as regras adotadas pelo governo de Cristina Kirchner em fevereiro, exigindo mais papéis dos importadores argentinos.

A venda de calçados e componentes à Argentina caiu 55% de janeiro a maio, em comparação com o mesmo período de 2011, segundo o Ministério do Desenvolvimento. A indústria fala em perdas de US$ 41 milhões.

Segundo a Abicalçados, o prejuízo acaba dividido entre exportadores brasileiros e comerciantes argentinos.

O diretor-executivo da Abicalçados, Heitor Klein, diz que já há reflexos no nível de emprego do setor. A produção encolheu 6,6% só no Rio Grande do Sul em 2011.

"Agora são dois documentos concedidos de maneira independente. Tem empresa que tinha um e ficou sem outro. É um caos montado de propósito para frustrar negócios brasileiros", diz Klein.

Pelas regras da OMC (Organização Mundial do Comércio), as licenças não automáticas deveriam levar 60 dias para serem concedidas.

A fabricante de calçados masculinos Pegada, de Dois Irmãos (RS), por exemplo, decidiu desativar a equipe de vendas em Buenos Aires em dezembro após problemas com a liberação de produtos.

A mercadoria antes destinada ao comércio argentino agora é vendida no Brasil. "É melhor não vender e deixar quieto", afirma o diretor, Astor Ranft.

No fim da década passada, algumas empresas brasileiras decidiram abrir fábricas na Argentina para fugir das restrições.

O Ministério do Desenvolvimento disse que trabalha para remover as barreiras e que uma reunião com autoridades argentinas amanhã vai abordar o problema enfrentado por exportadores.

No mês passado, o governo federal retaliou e criou barreiras na entrada de vinhos e frutas importadas.
A Folha procurou a Embaixada da Argentina, mas não conseguiu respostas.

Editoria de arte/Folhapress



O governo que anexou os pobres à classe média acaba de inventar o mendigo rico


Augusto Nunes
Veja online

Com a entrada em cena de Wellington Moreira Franco, o interminável espetáculo do cinismo descambou para o terreno da galhofa. Único integrante do primeiro escalão que jamais conseguiu uma conversa a dois com Dilma Rousseff, o (segundo o cartão de visitas) Ministro-Chefe da Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República resolveu chamar a atenção da chefe com uma vigarice estatística de deixar ruborizado até dono de instituto de pesquisa. Graças ao ministro do Nada, foram extintos os pobres que restavam no Brasil Maravilha.

Neste 29 de maio, Moreira Franco revelou que, a partir de agora, pertencem à classe média todos os brasileiros cujos rendimentos individuais alcancem de R$ 250 a R$ 850. São 48% ─ quase metade ─ da população. Como explicar a proeza assombrosa? O ministro se dispôs a decifrar o enigma em dilmês castiço: “A classe média foi delimitada ainda de acordo com o grau de vulnerabilidade, ou seja, a probabilidade de retorno à condição de pobreza, definido como o percentual de pessoas que vivem em locais cuja renda per capita caiu abaixo da linha de pobreza em algum momento em cinco anos”, complicou Moreira Franco.

Em 2007, o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada pareceu ter alcançado o limite da audácia malandra ao descobrir como se faz para mudar de categoria sócio-econômica sem sair do lugar. De um dia para outro, as famílias cuja renda mensal superava a marca dos R$1.063 souberam que haviam sido transferidas para a classe média. Como registra o post reproduzido na seção Vale Reprise, o governo Lula inventou o pobre que sobe na vida sem deixar a pobreza.

Ainda mais ousado que os alquimistas do IPEA, Moreira Franco também prometeu criar um “instrumento de pesquisa” chamado Vozes da Classe Média.  “Queremos saber quais são as aspirações e os desejos desse novo universo”, explicou o milagreiro de araque. A pesquisa é dispensável: 100% dos entrevistados dirão que tudo o que querem é viver como vive gente da classe média de verdade.

Estudos recentes atestam que os mendigos que esmolam nas esquinas de São Paulo ganham, em oito horas de expediente, entre R$35 e R$40 . Em 25 dias, embolsam de R$875 a R$1.000. Os pedintes das ruas, portanto, não têm nada a pedir ao governo Dilma Rousseff. Ganham mais que a classe média do Brasil Maravilha. São mendigos ricos.

Código Florestal – chega de quiproquó* !


Paulo Costa
Exame.com

Senhores congressistas deste nosso imenso Brasil, posso fazer um apelo? Se não puder vou fazer assim mesmo! Por favor, vamos acabar com este quiproquó que envolve há anos as discussões em torno do Código Florestal? O Senado Federal havia conseguido o verdadeiro milagre de produzir um texto, que – obviamente – não agradou a todos (não há texto sobre este tema que jamais vá agradar a todos os envolvidos) mas foi aceito pela maioria dos interessados. A Câmara dos Deputados, no entanto, fez o grande favor de, literalmente, deformá-lo, descaracterizando-o a ponto de ficar pior do que já tinha sido antes de ir para o Senado. Isto foi feito por conta de absurdas desavenças político-partidárias. Para não dizer que é uma opinião minha, está aberta a lista de votação mostrando ruralistas votando em maioria a favor de temas que interessariam a ambientalistas e vice-versa.

Este resultado, verdadeiro “Dr. Jekyll and Mr. Hyde”, foi para sanção da Presidenta Dilma e gerou enormes manifestações, inclusive populares. “Veta Dilma” foi para os “trend topics” das redes sociais e para as ruas. E a Presidente, que estava satisfeita com o texto do Senado, fez o que tinha que fazer. Reuniu todos os ministros envolvidos com o tema, desde Agricultura até Meio Ambiente, e produziu 12 vetos bastante pertinentes. Em seguida emitiu Medida Provisória para suprir as lacunas deixadas com tais vetos. Por poucos momentos parecia que tinhamos atingido o que todos esperam: que entre em vigência um novo Código Florestal, para trazer um mínimo de segurança jurídica ao campo. Com a aplicação e fiscalização do mesmo vão se encontrando as falhas de ordem prática e vai se ajustando a legislação até que se chegue ao melhor texto possível. Assim é com toda e qualquer legislação, inclusive a nossa Constituição com suas Emendas que a atualizam.

Mas que nada! De volta ao legislativo, para sua votação, já com as críticas de primeira hora de figuras emblemáticas como a ex-Ministra Marina Silva, que chamou o documento de “Código Agrário”, estamos frente à seguinte situação: 1. A Medida Provisória recebeu mais de 600 emendas, a serem analisadas por uma comissão mista (já estamos mais do que fartos desta palavra – se  comissão já faz subentender o protelamento de uma decisão, comissão mista, então…) do Congresso Nacional . O relator do projeto será o senador Luiz Henrique (PMDB-SC); 2. deputados federais da bancada ruralista acabam de acionar (6/6/2012) o Supremo Tribunal Federal para tentar derrubar, por meio de um Mandado de Segurança, a referida Medida Provisória editada pela presidente Dilma Rousseff. O principal argumento é que a presidente não poderia ter editado uma MP sobre o que foi vetado do projeto do novo código florestal, uma vez que os seus vetos ainda podem ser derrubados pelo Congresso Nacional.

Creio que não preciso dizer mais nada. Saio para o feriado buscando repouso em minha terra natal, na Serra da Mantiqueira, onde ainda conseguimos arquivar alguns trechos da maravilhosa paz de nossa Mata Atlântica. E vou com uma promessa a meus leitores: só volto a falar de Código Florestal (eu ou algum descendente…) quando tivermos uma legislação em vigor.

(*) Quid pro quo é uma expressão latina que significa “tomar uma coisa por outra”. Refere, no uso português e de todas as línguas latinas, uma confusão ou engano. Pensei no título “Chega de mimimi” mas um filho mais atento, que leu meu rascunho, alertou-me que “mimimi” é uma expressão usada em referência às reclamações no universo virtual. Temeroso de ofender a nossos nobres representantes no Congresso Federal, achei por bem ficar com a expressão latina.

Graça diz que combustível será competitivo no Brasil


Veja online
Com informações da Reuters 

Com redução dos preços do petróleo no mercado internacional, perdem a força os planos da executiva de reajustar a gasolina no Brasil

 (Henrique Sfeir/Agência Petrobras)
Graça Foster:
defesa da política de conteúdo nacional continua

A queda da cotação do petróleo no mercado internacional tem feito com que os preços dos combustíveis no Brasil retomem a competitividade internacional, disse nesta terça-feira a presidente da Petrobras, Maria das Graças Foster, durante evento em São Paulo.

A redução do preço do barril indica uma mudança na tendência do valor da commodity esperada pela Petrobras neste ano. Em meio à crise global, a reviravolta nas cotações arrefece as pressões para um reajuste dos combustíveis no mercado brasileiro. "A volatilidade é grande, mas com muito pouco a gente volta a ter aqui (no Brasil) combustíveis com paridade de preço internacional", disse Graça Foster, como a presidente da Petrobras é conhecida.

A estatal sofreu, no balanço do primeiro trimestre, com a alta dos custos de importação de combustíveis combinada à manutenção de preços no Brasil, sem reajuste na bomba há anos. Acreditava-se em abril que o petróleo Brent se sustentaria em um nível perto de 120 dólares o barril até o final do ano (um novo patamar), segundo chegou a afirmar a presidente da estatal. E isso levaria a um reajuste de preço dos combustíveis no país ainda neste ano, ela disse. "Durante anos seguidos tivemos na Petrobras ganhos por conta dessa diferença entre o preço lá fora e o interno. Isso é razoável", afirmou a executiva.

Novo plano – 
Graça Foster declarou que, dentro de semanas, será apresentado o novo plano de negócios da Petrobras para o período de 2012 a 2016, que atualmente está em revisão. O plano anterior, ainda em vigência, prevê investimentos de 224,7 bilhões de dólares entre 2011 e 2015. A maior parte está destinada à área de exploração e produção de petróleo, com 57% do total (ou 127,5 bilhões de dólares).

Conteúdo nacional –
A estatal vem encontrando dificuldade em acelerar os investimentos na exploração devido a atrasos de fornecedores de equipamentos, em especial plataformas. A exigência de conteúdo brasileiro nos equipamentos contratados, que varia entre 55% e 75%, tem dificultado o cumprimento dos prazos, já que a indústria nacional ainda se organiza para atender à demanda que se formou.

Segundo Graça, a Petrobras não discute a possibilidade de diminuição de exigência de conteúdo nacional em seus projetos. "O que a companhia tem feito é monitorar sistematicamente, para criar um banco de dados que mostre de forma quantitativa e real a capacidade da indústria nacional de bens e serviços", disse a executiva.

Argentina – 
Sobre o processo de retomada dos ativos na Argentina, a presidente a Petrobras limitou-se a dizer que continua em conversações com as autoridades do país vizinho para tratar o assunto. No início de abril, o governo da província de Neuquén – maior produtora de gás natural do país vizinho – suspendeu concessão de uma área operada pela companhia brasileira argumentando que ela não fez investimentos suficientes para aumentar a produção. "Países como Argentina, Peru, Colômbia, Bolívia e Venezuela são igualmente importantes para a Petrobras e estão no plano de negócios da empresa", disse nesta terça-feira, em evento no qual foram apresentados a empresários os resultados do programa de financiamentos Progredir.