Chávez: "meia-volta, volver"
Eliane Cantanhêde, Folha de São Paulo
O coronel da reserva Hugo Chávez, que toma posse para um novo mandato hoje, está promovendo uma nova reviravolta na Venezuela. Uma "meia-volta, volver", bem ao estilo militar, para rever contratos, reestatizar e nacionalizar empresas privatizadas nos anos 90, tirar a autonomia do Banco Central e intervir em canais de TV hostis a seu regime.
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Há, aí, um risco econômico e um risco político. O econômico já se faz sentir, pois a onda de nacionalização e a insegurança jurídica puxadas pela Venezuela e pela Bolívia de Evo Morales significaram o seguinte: segundo a Unctad (órgão da ONU para desenvolvimento), a América Latina foi a única região do mundo que perdeu investimento estrangeiro direto em 2006. É o medo.O risco político é o de fechamento econômico e endurecimento político do regime, à la Fidel Castro. Entre as possibilidades, a Venezuela aponta para o fim da alternância do poder, com a reeleição infinita de Chávez, e da liberdade de imprensa. A renovação da concessão da RCTV, uma espécie de Rede Globo venezuelana, por exemplo, não saiu.
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O "fenômeno Chávez" teve todo o sentido no final dos anos 90, marcados pelo "neoliberalismo" que concentrou o poder internacional nos EUA e a renda local na América Latina, com medidas fortemente técnicas e nenhuma sensibilidade social. Além, evidentemente, de um descalabro ético que atravessou os poderes venezuelanos durante décadas. O país escapou da praga das ditaduras militares que varreu no continente. Mas não da praga da corrupção.
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Sabemos todos, pois, porque Chávez chegou ao poder. Mas, se havia dúvidas sobre aonde ele quer chegar, elas estão se dirimindo uma a uma. Ele próprio anunciou apoio à (sua...) reeleição sem limites e, agora, a intenção de produzir a "República Socialista do século 21" --um socialismo experimental, sem precedentes, voluntarista e fortemente concentrado no rei, ou no ditador ou seja lá no que for em que Chávez esteja se transformando. A diferença é que ele tem legitimidade. Foi eleito sucessivamente por voto popular, é um mito entre a gente pobre venezuelana.
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E no Brasil? Como o governo Lula reage às investidas de Chávez contra contratos, liberalidade econômica e liberdade política? Lavando as mãos.
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Do ponto de vista político, há uma questão ideológica. Por mais que façam um governo "comportado", Lula e os seus torcem para que os avanços socialistas de Chávez dêem certo e se alastrem por Bolívia, Equador ou mesmo Argentina, onde Néstor Kirchner tem se mostrado um bom aliado da Venezuela. Desde que... isso não prejudique os interesses brasileiros nem embace a liderança natural do Brasil no continente.
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Do ponto de vista econômico, Chávez é o parceiro que o Brasil pediu a Deus. Hoje, o Brasil exporta US$ 1 bilhão a mais para a Venezuela do que para a França e também para o Reino Unido, dois dos principais parceiros comerciais do país. De janeiro a novembro de 2006, foram US$ 3,3 bilhões. Não é pouco. A Venezuela com Chávez virou uma espécie de paraíso para produtos, serviços e empreiteiras brasileiras.
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Então, ficamos assim: enquanto Chávez apronta das suas dentro da Venezuela, a gente deixa pra lá e vai lucrando com a política "bolivariana" que vira as costas para os EUA e de frente para o sul do continente. E "virar de frente para o sul" significa virar de frente para o Brasil, que tem, grosso modo, metade da superfície, da população e do PIB da América do Sul. Ou seja: Chávez é meio esquisitão, mas é excelente para a economia brasileira. Enquanto, claro, não acaba com investimentos internacionais na América Latina e, por tabela, no Brasil.
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PS - A reunião de cúpula do Mercosul, nos dias 18 e 19, no Rio, vai ser um furor. E não apenas por causa da guerra civil do Estado...
Enquanto isso...
Pego de surpresa, governo Lula se cala
Valor Econômico
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Foi recebido como uma delicadíssima questão política no Palácio do Planalto o anúncio de que Hugo Chávez pedirá mais poderes para avançar com o socialismo na Venezuela. Os ministros foram orientados pelo Planalto a calar-se sobre o tema. "O governo não vai se pronunciar", disse o ministro de Relações Institucionais, Tarso Genro, único a comentar o caso. "O importante é que qualquer decisão seja tomada dentro dos princípios constitucionais do país".
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"É assunto interno", limitou-se a dizer o assessor internacional da Presidência, Marco Aurélio Garcia, surpreendido, como o restante do governo, pelas declarações de Chávez. Tanto o presidente Luiz Inácio Lula da Silva quanto o ministro de Relações Exteriores, Celso Amorim, estão de férias. Ambos terão de se preparar rapidamente, porém, para as repercussões da atitude de Chávez sobre o Mercosul, que terá sua reunião de cúpula na próxima semana, com direito a voz para o presidente venezuelano, o mais novo membro do bloco.
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As declarações de Chávez, que deve ser uma das estrelas da reunião, provocam constrangimentos ao governo, mas, para os mais otimistas, consolidam a posição do Brasil como um dos mercados mais estáveis e atraentes para o capital estrangeiro na região.
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Antes de Chávez, o presidente da Argentina, Néstor Kirchner, já havia revisto privatizações, retomando para o Estado as concessões dos Correios e de serviços de saneamento, além de adotar decisões antimercado. Das três maiores economias do Mercosul, portanto, só o Brasil tem mantido intocáveis as privatizações.
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Há simpatia no governo com aspectos do projeto socialista de Chávez, mas Lula e assessores têm insistido com o venezuelano para a necessidade de aparar as arestas com a oposição, dar espaço a vozes discordantes e cumprir estritamente as normas constitucionais.
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As declarações de Chávez contra a liberdade de mercado podem criar problemas, porém, nas negociações do Mercosul com parceiros internacionais, para atração de investimentos. Na última reunião para um acordo comercial entre União Européia e Mercosul, os europeus manifestaram preocupações com entrada da Venezuela.