terça-feira, outubro 05, 2010

O eterno Grande Ausente...

Adelson Elias Vasconcellos


Lula se irritou ao ver na TV, domingo à noite, a expressão de derrota de Dilma, do vice Michel Temer e do presidente do PT, José Eduardo Dutra. Mandou o ministro Alexandre Padilha tentar “passar otimismo”.

A pergunta que, na mesma hora, me fiz foi: e por que Lula não estava lá, ao lado da sua candidata, logo ele que fez mais campanha por ela do que a própria Dilma, que apareceu na tevê muito mais do que ele próprio em sua campanha de 2006? Não seria ali, justamente naquele momento importante da campanha, que sua presença, dado todos os antecedentes, se faria mais necessária? Ou seja, o grande ausente da noite, foi Lula.

E daí me peguei a relembrar os quantos momentos importantes para o país, Lula negou sua honrosa presença. As enchentes do Norte-Nordeste quando mais 700 mil brasileiros ficaram sem casas, debaixo d’água, nas enchentes de Santa Catarina, cujo prejuízos até hoje muitos não conseguiram recuperar, no desastre aéreo de um voo da Gol, que se chocou no Mato Grosso com um Legacy, cujo processo corre na justiça até hoje e que vitimou 157 brasileiros, e o mais terrível acidente aéreo da aviação brasileira, o acidente aéreo de um voo da TAM, em São Paulo, com 199 mortos, frutos da má conservação da pista, culpa do próprio governo, no auge do apagão aéreo! Houve mais, mas creio que estes já ilustram bem o quanto o senhor Lula falha nos momentos em que a solidariedade humana mais se faz necessária. Ainda mais quando se é presidente!!!

Se vocês fizerem uma pesquisa dos grandes desastres vividos em diferentes localidades do mundo todo, sempre encontrarão presentes os presidentes e altas autoridades dos países em que ocorreram, sempre presentes nos locais como uma forma de solidariedade. Nem se trata de jogo político, mas sim de sentimento de humanidade.

Um dos mais criticados presidentes americanos, George Bush, nem ele deixou de se fazer presente no caso do furacão Katrina que arrasou um estado inteiro no sul dos Estados Unidos há alguns anos atrás, muito embora as críticas pesadas que teve de enfrentar, porque demorou exatos 7 dias entre o fato e sua visita oficial.

Já falei disso tudo aqui várias vezes. Lula, diante deste tipo de acontecimento, sempre foi um covarde acima de qualquer limite. E, por mais que faça, por mais que a máquina e a propaganda o mistifiquem, por sua constante ausência em momentos de dor e de tragédia que atinge o país, jamais conseguirá ser reconhecido como estadista. Tivesse Dilma vencido no primeiro turno e, acreditem, Lula seria o primeiro a chegar no palanque armado, e o último a sair. E que se note: a corrida presidencial não foi encerrada no domingo à noite, apenas seu desfecho foi transferido para 31 de outubro próximo. Então, por que Lula não fez presente? Para não manchar seu currículo com sua presença ligada à derrota?

Esta é a chave: Lula, tanto quanto sua candidata e todo o comitê de campanha, foram responsáveis pelo segundo turno. Dilma e o comitê, por esconderem a candidata que, por ser desconhecida, deveria ter comparecido a todos os debates. A candidata, individualmente, por primeiro aprovar o aborto e depois, por estar em campanha, negar que dissera o que, em vídeo, está registrado. Estampou para todo o país sua compulsão à mentira. E, ao próprio Lula, pelo seu comportamento delinquente nas últimas semanas, agredindo adversários políticos de forma odiosa e repugnante, agredindo de forma gratuita a “imprensa golpista”, como se com toda esta truculência repulsiva ele pudesse esconder as ações criminosas acontecidas na antessala do gabinete presidencial.

Portanto, a tal cara de enterro percebida no palanque de domingo à noite se deve, sim, ao fato de não ter acontecido o tal rolo compressor para o qual Lula utilizou todos os recursos legais e ilegais de que dispunha, mas, também, porque, naquele instante, a presença de Lula em apoio à sua candidata era fundamental. Era como se Dilma, ali, precisando demonstrar otimismo, enchendo-se de esperança, se sentisse a mais solitária das criaturas. Faltou o fraternal abraço e a palavra encorajadora de Lula, o eterno grande ausente. Enviar um emissário para cobrar otimismo, chega a ser ridículo: sentimento não se transmite por procuração, até porque por mais competente que fosse seu ministro, ele não é Lula.

Um estadista verdadeiro se faz não é pelos discursos bestiais em lançamentos de pedras fundamentais de obras já inauguradas, ou assinatura de carta de boas intenções que um dia, que sabe quando será o amanhã, serão realizadas. Um estadista se faz pela sua presença solidária em momentos de consternação, onde a palavra é o que menos importa, mas a presença humana, além de indispensável, é a que realmente reconforta.

Assim, fica claro que Lula pode atingir 99,9999% de aprovação – faltará sempre o meu 0,0001%, ehehehe – mas isto não o fará ser respeitado como grande estadista. E, a causa será, justamente, a de que nos momentos mais necessários, ele sempre tem sido o eterno grande ausente...

O eleitor tem a força

Dora Kramer - O Estado de S.Paulo

A rigor não há surpresa na realização do segundo turno, bem como não haveria razão objetiva para o presidente Luiz Inácio da Silva ter saído de cena nem para Dilma Roussef e a cúpula da campanha terem entrado em cena com jeito de derrotados no pronunciamento da candidata domingo à noite.

O mais confiável dos institutos (por não trabalhar para nenhuma campanha), o Datafolha, na véspera indicava que Dilma teria entre 48% e 52% dos votos e José Serra teria entre 29% e 33%. O eleitor deu 46% para ela e 32% para ele.

O problema de quem acredita em fabulações é do crente e não da fábula.

Quanto a Lula e o PT, praticamente só colheram vitórias: transferência inédita e espetacular de todos os 47milhões de votos de Dilma; o primeiro lugar com 14 pontos porcentuais à frente da oposição; a dianteira em 18 estados da federação; maioria incontestável na Câmara e no Senado; derrota de adversários importantes (Tasso Jereissati, Artur Virgílio e Marco Maciel); eleição dos campeões de voto na coligação lulista: dos governadores com mais de 80% dos votos aos deputados Garotinho e Tiririca.

Apenas não se realizaram todos os desejos de Lula e isso foi o suficiente para que naquele momento se instalasse a frustração óbvia nos semblantes dos correligionários de Dilma e, sobretudo, para a ausência de Lula não frequenta cenário adverso.

Lula não conseguiu realizar a fantasia de ver o eleitorado fazer o cotejo entre ele e Fernando Henrique Cardoso e ainda viu a eleição surpreendente de Aluisio Nunes Ferreira ao Senado por São Paulo, o único a fazer de FH seu cabo eleitoral.

Lula não conseguiu varrer o PSDB do mapa paulista _ ao contrário, perdeu no primeiro turno no primeiro colégio eleitoral, bem como assistiu à vitória de A a Z dos tucanos no segundo colégio, com Aécio Neves tirando Fernando Pimentel e o PMDB do jogo. Tanto desgaste em Minas para nada no que tange à política estadual.

Lula não conseguiu dizimar o DEM. O partido saiu da eleição com dois governadores (RN e SC) sendo um deles eleito exatamente no estado onde o presidente há poucos dias fez o discurso convocando à extirpação.

Lula, pela quinta vez, não conseguiu ganhar no primeiro turno.

Lula não conseguiu impor sua vontade, foi obrigado a recuar do tratamento arrogante de quem se acreditou mesmo acima do bem e do mal, achando que estava realmente autorizado a dizer ou fazer qualquer barbaridade impunemente.

E por que Lula não conseguiu prevalecer sobre todo e sobre tudo? Porque de verdade só quem tem a força absoluta é o eleitorado. Este disse em bom som um alto lá ao presidente, informando-se que o poder tem limites e que os impõem não as pesquisas de véspera: são as urnas no dia D.

Como líder político influente ele induz, mas não substitui a vontade das pessoas.

Bom de briga.
Não obstante a deslealdade de alguns métodos, o PT sabe fazer uma disputa política. Por exemplo: soube formar um ambiente favorável a Dilma desde os tempos de magras intenções de votos dizendo, repetindo e sustentando com pesquisas contratadas, que ela ganharia no primeiro turno.

Na comunicação foi imbatível, porque convenceu a imprensa a repetir a "tendência" como se fora certeza absoluta.

A realidade não confere? Culpa das pesquisas.

Marina.
A candidata do PV saiu-se muitíssimo bem no crescimento da reta final até a conquista de quase 20 milhões de votos.

Mas daí a classificá-la como uma "nova força política" para além da fronteira do ambiente eleitoral, vai uma distância de léguas a percorrer antes de chegar lá.

O eleitorado teve variadas razões para votar em Marina _ a menor delas a causa do meio-ambiente _ e é, por isso, disperso, desarticulado e circunstancial.

Para efeitos eleitorais caberá às campanhas em disputa seduzir esses eleitores que não têm dono e apoiarão quem melhor lhes parecer.

Sobre “verdades irrelevantes” e “mentiras relevantes”. Ou: a força-tarefa para preservar Dilma de si mesma chega à imprensa

Reinaldo Azevedo

Prepara-se uma verdadeira força-tarefa — que pretende, acreditem!, ser, antes de tudo, ética!!! — para tentar preservar a petista Dilma Rousseff de si mesma e de suas próprias opiniões. E a imprensa, especialmente a escrita, será o principal campo de operações — e, dali, para a Internet. O grito de guerra já foi dado pelo colunista Elio Gaspari numa notinha curta no domingo. Já chego lá. Ontem, nas suas aparições na TV, a candidata do PT à Presidência fez questão de declarar que é a favor da vida, o que, convenham, é, em sim, uma afirmação estupenda. O contrário, por óbvio, corresponderia a alinhar-se com a morte.

Todos entenderam por que ela fez isso. O PT está convicto de que uma parcela do eleitorado, ao saber, primeiro pela Internet, o que Dilma realmente pensava sobre o aborto, desembarcou de sua candidatura. A informação, de fato, circulou antes na rede, embora as suas declarações mais enfáticas em favor da descriminação e da legalização do aborto tenham sido dadas a um jornal — a Folha — e a uma revista, a Marie Claire. Gaspari, evocando pruridos éticos e apelando até à memória de Ruth Cardoso, chamou esse debate de baixaria. É? Coisa do andar de cima moral é fazer dossiê contra a mulher de um ex-presidente que era um exemplo de correção, não é mesmo?

Ao falar em Ruth, o colunista está atribuindo a “operação” ao PSDB, o que é falso como nota de R$ 3. Ele é o “Nosso Guia” de muitos epígonos na profissão; outros o seguirão na ladainha, acusando o debate de ser “conservador”, “reacionário”, “baixaria”, “irrelevante”. Digamos que estivéssemos mesmo diante de uma irrelevância (para mim e para outros cristãos, não é!!!), cabe a pergunta: quer dizer que esses setores da imprensa pretendem censurar uma VERDADE IRRELEVANTE sobre Dilma, mas jamais censuraram as MENTIRAS RELEVANTES que os petistas contam sobre o governo FHC, por exemplo? Que diabo de critério ético é esse?

Quando a campanha do PT diz que Lula assumiu o governo “com a inflação fora do controle”, o que é uma mentira estúpida, qual a reação? “Ah, política é assim mesmo; o PSDB que responda!” Algum pito na companheira quando sugere que o Brasil vivia um verdadeiro caos social na gestão tucana, que não se importaria com os pobres? Nada! Silêncio sepulcral. Alguém deu algum pito em Aloizio Mercadante por causa de sua campanha bucéfala contra a suposta “aprovação automática” em São Paulo? NADA!!!

ATENÇÃO PARA AS FRASES: PARA ESSA GENTE, AS VERDADES DITAS SOBRE DILMA SÃO REACIONÁRIAS; JÁ AS MENTIRAS DITAS SOBRE OS TUCANOS SÃO PROGRESSISTAS.

E, agora, em nome da ética, esses decorosos vêm acusar “baixaria” e cobrar “debate elevado”? Que tipo de sublime elevação pode haver numa máquina de propaganda que constrói todo o seu edifício retórico numa mentira, a saber: “O Brasil vivia nas trevas e de lá foi resgatado pelo PT, ignorando a óbvia continuidade do governo”. NEM MESMO A IDÉIA DE UNIFICAR OS PROGRAMAS SOCIAIS É DE LULA! ELE PRÓPRIO ADMITE EM VÍDEO QUE A IDÉIA LHE FOI DADA POR UM GOVERNADOR TUCANO (ver posts abaixo).

Está em curso uma operação para blindar Dilma Rousseff. O PT tem todo o direito de tentar. E alguns colunistas têm o direito, claro!,de entrar na corrente de propaganda. E eu tenho o direito de chamá-los por seus respectivos nomes. Não foi o PSDB que levou Dilma Rousseff a dar aquelas entrevistas. Ela o fez porque quis e porque considerava, até abril do ano passado, que aquilo era o certo. Demonstrou-o, diga-se, em atos, quando sua pasta deu o “ok” ao decreto que continha o Programa Nacional dos Direitos Humanos, em que o aborto aparece como um “direito humano”, o que certamente assombraria o mundo.

Dilma, agora, se diz “a favor da vida”. Muito bem! Só pode estar se referindo ao aborto. Em sua afirmação, pois, está contida a idéia de que defender a descriminação é estar contra a vida — de onde se deduz, e estou num exercício puramente lógico, que ela era contra a vida ao menos até abril de 2009, quando falou à revista Marie Claire.

De súbito, vejo alguns coleguinhas muito preocupados com “propostas”. E dizem: “Ah, esse negócio de aborto não tem importância. Por que não discutimos o Brasil?” Muito bem! Comecemos, então, por não mentir sobre o Brasil que o PT herdou e que deixará como herança. Eu topo deixar de lado essa suposta “verdade irrelevante” se os petistas pararem com suas “mentiras relevantes”. Vejam que é uma troca que evidencia a minha generosidade: com ironia, digo que eu até abriria mão do direito de dizer essa verdade sobre eles se eles cumprissem a obrigação de não dizer mentiras sobre os outros.

A escalada da pobreza (de espírito)

Guilherme Fiuza, O Globo

O último debate entre os presidenciáveis na TV, com seu clima de chá de senhoras na Confeitaria Colombo, produziu uma única certeza: a opinião pública está morrendo.

Os candidatos não falam com ninguém.

Falam com as pesquisas. E como as pesquisas são cada vez mais imunes ao que acontece na vida real, o debate na TV Globo foi uma espécie de horário eleitoral gratuito coletivo. Perguntas, réplicas e tréplicas compuseram uma animada conversa de surdos.

Cada um com seu monólogo ensaiado, falando diretamente ao coração do seu marqueteiro, olho no olho.

Foi assim, nessa conjunção de mundos límpidos e sem conflitos, que sumiu na paisagem a grande ausente do debate.

Erenice não deu as caras. E dessa vez não foi culpa dela. A fiel escudeira de Dilma Rousseff fez tudo certo para protagonizar a reta final da campanha.

Empenhou seus familiares e simpatizantes, em diferentes graus de parentesco, para exibir por completo a doutrina petista de privatização do Estado. Com sua coleção de indícios de tráfico de influência, manteve o lema revolucionário de endurecer sem perder a prepotência jamais, chamando o candidato adversário de “aético” e “derrotado” em nota oficial. Mas o Brasil é magnânimo.

Já começou a esquecer que teve uma Erenice na chefia da Casa Civil.

Se Erenice Guerra, a breve, fosse só um acidente na República dos companheiros, melhor mesmo seria deixá-la despontar para o esquecimento.

O problema é o quanto o estilo Erenice diz sobre Dilma – essa desconhecida com cerca de 50% das intenções de voto.

A ministra que Lula teve que “suicidar” a menos de um mês das eleições seria, por assim dizer, o homem forte do governo Dilma. Com o escândalo já cheirando mal a céu aberto, a candidata petista ainda tentou salvar sua protegida, classificando de “factoide” a revelação das peripécias de Erenice na penumbra do Planalto. O factoide custou a cabeça da ministra, mas Dilma continuou firme: “Não vi nenhuma ação inidônea da ex-ministra Erenice.” Quanto desse tipo de idoneidade tomará posse junto com Dilma Rousseff, se eleita? O Brasil não quer falar sobre isso agora. Prefere esperar pelo futuro tomando seu chá na Confeitaria Colombo.

Como foi possível a Dilma entrar e sair do debate na Globo sem ouvir o nome de Erenice? Como foi possível à candidata de Lula desfilar na TV para milhões de brasileiros sem dar uma única explicação sobre a propensão fisiológica, autoritária e conspiratória de seu projeto político, flagrada no caso Erenice? É simples. Os bem-pensantes estão convencidos de que o povo não sabe o que é Casa Civil. Não adianta falar de tráfico de influência, porque o povo também não entende. Aliás, o povo também não sabe o que é violação de sigilo fiscal. Será que o povo sabe o que é falcatrua? Possivelmente sim, mas não liga o nome à pessoa. Ligar Erenice a Dilma, então, nem pensar.

Segundo essa doutrina, para ser ouvido pelos brasileiros, o candidato de oposição José Serra, por exemplo, tem que se apresentar como Zé, filho de feirante. No Brasil emergente da era Lula, a pobreza é quase um diploma.

E a ignorância enseja carinho e condescendência. Independentemente de seus atos, o presidente sociólogo desperta antipatia; o presidente operário desperta orgulho. E assim o país vai reduzindo suas desigualdades: orgulhando-se de falar a língua inteligível pelos que não sabem falar, substituindo brilhantismo por bom-mocismo.

Estudiosos formados nas melhores escolas do Rio e de São Paulo produzem estudos confirmando um novo Brasil descoberto em 2003. O proselitismo lulista envaidece a elite envergonhada.

Na FGV, no Ipea, na USP, na Unicamp proliferam os papers deslumbrados com a nova classe C que não lê jornal e vai ao shopping.

De que vale saber quem fundou a estabilidade econômica, ou o que é Casa Civil? Essas coisas não cabem na fábula do filho do Brasil, com seus mais de 80% de audiência. O freguês tem sempre razão. Rumo ao Oscar.

O presidente operário está tirando o Brasil da pobreza, e legará sua obra social à primeira presidenta do país.

Soa bonito, melhor não contrariar.

Ainda assim, sem querer ofender o arrastão do bem, caberia perguntar: um país que perde discernimento, que compactua com a falta de esclarecimento, que não fala o que os emergentes da classe C supostamente não vão entender, que faz debate de mentirinha para não perturbar o sono da opinião pública, está saindo da pobreza para onde? A indiferença nacional com o caso Erenice é um indicador seguro de elevação da pobreza – pobreza moral, cultural, cívica. A imprensa flagrou a pobreza de espírito dos que chegam ao poder para “se servir”, como disse o próprio Lula sobre Erenice. Mas, como alertou o Verissimo, foi tudo uma tentativa de impedir a vitória da Dilma.

É o velho Fla-Flu ideológico – a face mais pobre do Brasil. E aí não há Bolsa Democracia que dê jeito.

O súbito encanto de Marina Silva

Arnaldo Jabor - O Estado de S.Paulo

Não, o Palácio de Inverno de São Petersburgo da Rússia em 1917 ainda não será tomado pela onda vermelha.

Não. Agora, o PT vai ter de encarar: estamos num país democrático, cultural e empresarialmente complexo, em que os golpes de marketing, os palanques de mentiras, os ataques violentos à imprensa não bastam para vencer eleições... (Por decência, não posso mostrar aqui os emails de xingamentos e ameaças que recebo por criticar o governo). O Lula vai ter de descobrir que até mesmo seu populismo terá de se modernizar. O povo está muito mais informado, mais online, mais além dos pobres homens do Bolsa-Família, e não bastam charminhos e carismas fáceis, nem paz e amor nem punhos indignados para a população votar. Já sabemos que enquanto não desatracarmos os corpos públicos e privados, que enquanto não acabarem as regras políticas vigentes, nada vai se resolver. Já sabemos que mais de R$ 5 bilhões por ano são pilhados das escolas, hospitais, estradas e nenhum carisma esconde isso para sempre. Já sabemos que administração é mais importante que utopias.

A campanha à que assistimos foi uma campanha de bonecos de si mesmos, em que cada gesto, cada palavra era vetada ou liberada pelos donos da "verdade" midiática. Ninguém acreditava nos sentimentos expressos pelos candidatos. Fernando Barros e Silva disse na Folha uma frase boa: "Dilma parece uma personagem de ficção e Serra a ficção de uma personagem." Na mosca.

Serra. Os erros da campanha do Serra foram inúmeros: a adesão falsa ao Lula, que acabou rindo dele: "O Serra finge que me ama"...

Serra errou muito por autossuficiência (seu defeito principal), demorando muito para se declarar candidato, deixando todo mundo carente e zonzo, como num coito interrompido; Serra demorou para escolher um vice-presidente (com a gafe de dizer que vice bom é o que não aporrinha), fez acusações ligando as Farc à Dilma, esculachou o governo da Bolívia ainda no início, avisou que pode mexer no Banco Central e, quando sentiu que não estava agradando, fez anúncios populistas tardios sobre salário mínimo e aposentados. Nunca vi uma campanha tão desagregada, uma campanha antiga, analógica numa época digital, enlouquecendo cabos eleitorais e amigos, todos de bocas abertas, escancaradas, diante do óbvio que Serra ignorou. Serra não mudou um milímetro os erros de sua campanha de 2002. Como os Bourbon, "não esqueceu nada e não aprendeu nada".

A campanha do primeiro turno resumiu-se a dois narcisismos em luta.

Dilma. Enquanto o Serra surfava em sua autoconfiança suicida, a Dilma, fabricada dos pés ao cabelo, desfilava na certeza de sua vitória, abençoada pelo "Padim Ciço" Lula.

Seus erros foram difíceis de catalogar racionalmente, mas os eleitores perceberam sutilezas na má interpretação da personagem, como atrizes ruins em filmes.

O sorriso sem ânimo, riso esforçado, a busca de uma simpatia que escondesse o nítido temperamento autoritário, suas palavras sem a chama da convicção, ocultando uma outra Dilma que não sabemos quem é, sua postura de vencedora, falando em púlpitos para jornalistas, sua arrogância que só o salto alto permite: ser pelo aborto e depois desmentir, sua união de ateia com evangélicos, a voracidade de militante - tarefeira, para quem tudo vale a pena contra os "burgueses de direita" que são os adversários, os esqueletos da Casa Civil, desde os dossiês contra FHC, passando pela Receita Federal (com Lina Vieira e depois com os invasores de sigilos), sua tentativa de ocultar o grande hipopótamo do Planalto que foi seu braço direito e resolveu montar uma quadrilha familiar. Além disso, os jovens contemporâneos, mesmo aqueles cooptados pelo maniqueísmo lulista, não conseguem votar naquela ostentada simpatia, pois veem com clareza uma careta querendo ser cool.

Marina. Os erros dos dois favoritos acabaram sendo o grande impulso para Marina. No meio de uma programação mecânica de marketing, apareceu um ser vivo: Marina. Isso.

Uma das razões para o segundo turno foi a verdade da verde Marina. Sua voz calma, sua expressão sincera, o visível amor que ela tem pelo povo da floresta e da cidade, tudo isso desconstruiu a imagem de uma candidata fabricada e de um candidato aferrado em certezas de um frio marqueteiro.

Marina tem origem semelhante à do Lula, mas não perdeu a doçura e a fé de vencer pelo bem. Isso passa nas imperceptíveis expressões e gestos, que o público capta.

Agora teremos um segundo turno e talvez vejamos um PSDB fortalecido pela súbita e inesperada virada. Desta vez, o partido terá de ser oposição, se defendendo e não desagregado como foi no primeiro turno, onde se esconderam todos os grandes feitos do próprio PSDB, durante o governo de FHC.

Desde 2002, convencionou-se (Quem? Por quê?) que o Lula não podia ser atacado e que o FHC não poderia ser mencionado. Diante dessa atitude, vimos o Lula, sua clone e seus militantes se apropriarem descaradamente de todas as reformas essenciais que o governo anterior fez e que possibilitaram o sucesso econômico do governo Lula, que cantou de galo até no Financial Times, assumindo a estabilização de nossa economia. E os gringos, desinformados, acreditam.

Além disso, com "medinho" de desagradar aos "bolsistas da família", ninguém podia expor mentiras e falsos dados que os petistas exibiam gostosamente, com o descaro de revolucionários "puros". Na minha opinião, só chegamos ao segundo turno por conta dos deuses da Sorte. Isso - foi sorte para o Serra e azar para a Dilma.

Ou melhor, duas sortes:

O grande estrago causado pela súbita riqueza da filharada de Erenice, ali, tudo exibido na cara do povo, e o reconhecimento popular do encanto sincero de Marina.

Isso salvou a campanha errática e autossuficiente do José Serra, que apesar de ser um homem sério, competentíssimo, patriota, que conheço e respeito desde a UNE, mas que é das pessoas mais teimosas do mundo.

Duas mulheres pariram o segundo turno. Se ouvir seus pares e amigos, poderá ser o próximo presidente. Se não...

Lula não aparece e não comenta resultado do primeiro turno das eleições presidenciais

Demétrio Weber, O Globo

BRASÍLIA - Depois de fazer, no primeiro turno, mais comícios e discursos para Dilma Rousseff do que para ele próprio na campanha de 2006, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva não apareceu em público após a confirmação de sua candidata ao Planalto não conseguiu vencer no primeiro turno. Desde que votou em São Bernardo do Campo, no ABC Paulista, no domingo de manhã, Lula manteve-se em silêncio sobre o resultado das eleições.

Nem mesmo no pronunciamento que Dilma fez no domingo à noite, para comentar o resultado ao lado do comando de sua campanha e aliados, Lula apareceu. Se Dilma tivesse ganhado no primeiro turno, como esperavam os petistas até a semana passada, porém, o PT e o Planalto já preparavam uma festa em Brasília.

Na segunda-feira, o presidente passou o dia no Palácio do Planalto, em encontros com ministros e políticos aliados. À tarde, recebeu o governador reeleito do Rio, Sérgio Cabral (PMDB).

O ministro de Relações Institucionais, Alexandre Padilha, após reunir-se com Lula e o ministro de Comunicação de Governo, Franklin Martins, disse que Lula está satisfeito, e não cogita se licenciar do cargo durante a campanha.

- O presidente está muito feliz com o resultado da candidata Dilma no primeiro turno: ela alcançou o mesmo patamar histórico que o presidente, em 2002 e 2006, que o levou para o 2 turno em que foi vitorioso - disse Padilha.

Padilha disse que caberá à coordenação da campanha de Dilma buscar o apoio da candidata Marina Silva, e aproveitou para elogiar a campanha de Marina no primeiro turno:

- Certamente a candidata Marina Silva, e a própria ministra Dilma citou a Marina Silva ontem, trouxe para a campanha alguns temas que são importantes - afirmou o ministro. - O segundo turno é um momento, por um lado, de se estabelecer uma discussão sobre dois projetos para o país e, segundo, buscar compor aliados em torno de um projeto de país que é o projeto que nós defendemos. E nós vamos atrás de todos aqueles que podem ser aliados desse projeto, tanto os candidatos que tiveram participação importante no primeiro turno, como também a sociedade.

A implosão do plebiscito

O Estado de S.Paulo

"Não é fácil obter 50% de votos do povo brasileiro no primeiro turno." Foi como se defendeu o presidente Luís Inácio Lula da Silva, percebendo para que lado sopravam os ventos, já na manhã da jornada eleitoral de domingo. E defender-se ele precisava porque não só nos palanques a céu aberto, mas nas inumeráveis reuniões a portas fechadas com o comando da candidatura Dilma Rousseff, fartou-se de vangloriar-se da vitória no primeiro turno.

Ofuscado por essa certeza, produzida pela euforia que o inebriou desde que a sua escolhida desbancou o tucano José Serra da liderança nas pesquisas, Lula subestimou o grau de autonomia de uma fatia expressiva do eleitorado que se guia pelo senso crítico. Foi quando passou a ocupar o centro das atenções, em detrimento da própria candidata, exibindo a incontinência verbal que lhe é peculiar quando lhe pisam os calos. Na sua fúria contra a imprensa, por ter ela revelado os escândalos das violações de sigilos fiscais na Receita e a esbórnia na Casa Civil de Erenice Guerra, ele se esqueceu de que o "Lulinha, paz e amor" foi o que o conduziu ao Palácio do Planalto.

Ao expor ao eleitorado o lado feral de sua personalidade política, ele evocou antagonismos que viriam a ser um dos fatores cruciais para remeter a disputa a 31 de outubro. O papel de Lula, portanto, foi decisivo, até aqui, de duas maneiras contraditórias. De um lado, mostrou-se capaz de carrear 47 milhões de votos para uma noviça desprovida de carisma, de quem a esmagadora maioria da população nunca tinha ouvido falar até pouco tempo atrás. Mas, de outro, por se achar invulnerável, acabou contribuindo para privá-la de um consagrador triunfo imediato.

De novo por se achar acima do bem e do mal, tardou a lançar ao mar o fardo Erenice. Quando o fez, a imagem de Dilma já tinha sido atingida pelos estilhaços da festança familiar da sua sucessora na Casa Civil, dando início a um movimento de migração de votos - principalmente para a verde Marina Silva. Serra, que terminou com cerca de 33% dos votos válidos - mais perto que os adversários daquilo que previam as sondagens -, se beneficiou por tabela, recuperando a vantagem que perdera no Estado de São Paulo.

Foi a presença do tema corrupção no noticiário que alimentou a onda verde. A começar dos jovens, crescentes setores do eleitorado passaram a se interessar por Marina como portadora da utopia do século 21: a defesa de uma causa nobre - a luta contra o aquecimento global e pelo progresso social - encarnada numa figura de excepcional integridade, com uma história de superação pessoal ainda mais comovedora que a de Lula. Ironicamente, na candidata identificada com o futuro que as novas gerações desistiram de esperar da política dos negócios, como sempre desaguaram também os votos do eleitorado conservador.

Nesse contingente de não pouca monta, sobretudo entre as mulheres e na chamada nova classe C - que melhorou de vida e se modernizou no plano material, mas continuou fiel a valores religiosos na esfera dos costumes -, a evangélica Marina ficou com os votos que seriam de Dilma antes que se propagasse na internet a acusação de que, além de ateia, ela era favorável ao aborto. Um retrospecto de declarações ambíguas, devidamente explorado por seus detratores, se mostrou mais forte que as cenas de religiosidade explícita protagonizadas pela candidata na reta final da campanha.

Mas, qualquer que tenha sido a importância do voto religioso para dar a Marina perto de 20 milhões de sufrágios (e outro tanto em porcentagem), ela foi a vencedora política do pleito. Não apenas por ter levado a sucessão a um novo teste, mas também pela proeza que está por trás disso: a implosão do projeto plebiscitário de Lula, que trabalhou noite e dia por uma disputa entre "nós e eles, pão, pão, queijo, queijo". "Nós", o lulismo, "eles", a oposição. Ao decidir participar, "com uma dorzinha no coração", do que o ex-companheiro desejava restringir a uma revanche com Fernando Henrique, Marina fez história.

"Não vamos aceitar o veredicto do plebiscito", prometeu em junho, na convenção do PV. E previu: "Ele vai ser revogado pelo povo."

Aécio pede mudança de tom para apoiar Serra

Christiane Samarco - O Estado de S.Paulo

Tucanato mineiro quer que presidenciável adote o figurino e o discurso de candidato da oposição

Embalado pela conquista de um lugar no segundo turno, o presidenciável tucano José Serra desembarcou ontem no segundo maior colégio eleitoral do Brasil para virar tributário do sucesso que o PSDB desfruta em Minas Gerais. Uma operação política recebida com uma contraproposta pelo tucanato mineiro: o compromisso de lançar o senador eleito Aécio Neves ao Planalto em 2014 e acabar com o fator previdenciário no cálculo das aposentadorias do INSS, instituído no governo FHC.

O que era, portanto, para ser apenas uma visita de pêsames ao recém-eleito senador, que acabara de perder o pai e ex-deputado Aécio Cunha, teve outra serventia e abriu espaço aos tucanos para falar do segundo turno da disputa presidencial e apresentar a conta política de Minas Gerais para virar o jogo favorável à adversária petista Dilma Rousseff.

Assim, além de preservar o projeto de poder de Minas, com Aécio Neves candidato à Presidência em 2014, o tucanato local quer que Serra mude a campanha e adote o figurino e o discurso de candidato da oposição. E mais: pedem ousadia na apresentação de propostas para mudar a vida do eleitor, a começar pelo fim do fator previdenciário.

Foi neste clima que o deputado estadual Domingos Sávio (PSDB-MG), no embalo das urnas que na véspera o promoveram a deputado federal, tomou o braço de Serra pela mão e desceu as escadas da Assembleia Legislativa de Minas, onde ocorria o velório de Aécio Cunha, e cochichou sua proposta: "O senhor tem de ir para a televisão e anunciar o fim do fator previdenciário. Se o senhor acabar com isto, antes que o PT o faça, a gente ganha a eleição".

Serra não disse nem que sim, nem que não. Ouviu com a atenção devida ao interlocutor que, sete meses atrás, arriscara uma campanha para que Aécio aceitasse ser seu vice na corrida sucessória, como forma de facilitar a vitória do PSDB sobre o PT de Lula e sua candidata.

O fator previdenciário é um sistema de desestímulo à aposentadoria precoce, uma vez que o INSS paga uma pensão maior ao aposentado que adiar a decisão de se aposentar. Nos primeiros dez anos de vigência, o método gerou economia para os cofres públicos calculada em R$ 10 bilhões. Caso seja extinto, a despesa deverá voltar a crescer.

Erro.
Atento às abordagens, o governador eleito de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), aconselhava Serra a não repetir o erro que ele cometera em 2006, quando demorou para reiniciar a campanha do segundo turno contra o presidente Lula e acabou derrotado. "Aqueles dez dias que eu fiquei sem programa de televisão, desmobilizaram a campanha. Quanto mais rápido começar o horário eleitoral, melhor. Como o Brasil é muito grande, é preciso um mutirão, incorporando todo mundo", sugeriu.

O deputado estadual Carlos Mosconi (PSDB) acredita que um acordo simples político para preservar o projeto Aécio 2014 pode virar uma "onda maluca" a favor de Serra em Minas. "A força política do Aécio coloca o fim da reeleição na pauta", completa o segundo suplente do ex-governador no Senado, Tilden Santiago (PSB), que votou em Marina Silva (PV) no primeiro turno. "Se o Aécio me pedir para votar no Serra neste segundo turno, não terei como negar, mas é hora de o PSDB paulista se redimir e acabar com a reeleição", adverte Tilden.

Um tucano experiente adverte que Aécio pode fazer a diferença em Minas, mas com uma condição: "É preciso que haja uma tendência nacional favorável. E o clima positivo de virada prosseguirá, mas só o Serra pode dar início a isso, mostrando algo diferente. O que tem de haver é um discurso novo para o segundo turno".

"Precisamos passar a falar para os eleitores que nós não conseguimos atingir e que a Marina atingiu de maneira muito especial. Isto é fundamental", sugere o secretário-geral do PSDB e deputado federal mais votado de Minas Gerais, Rodrigo de Castro.

Para o presidente da Associação Mineira de Municípios e prefeito tucano de Conselheiro Lafaiete, José Milton Rocha, se quiser conquistar os mineiros neste segundo turno, Serra terá de encontrar um outro "mote de campanha, com apelo popular". Ele entende que será preciso, também, mudar "radicalmente" a postura e se assumir como candidato de oposição. "Para ganhar os prefeitos, ele vai ter de bater no que o PT tem de pior, que é a corrupção, com um discurso mais forte e mais firme", propõe.

(Colaborou Eduardo Kattah)

A campanha que não aconteceu

Villas-Bôas Corrêa

A onda verde da candidata Marina Silva desmontou o esquema do presidente Lula, patrono as candidata favorita da véspera, a ex-ministra chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, por sua vez a responsável pela lealdade e competência da sua sucessora, a famoso Erenice, salvou a pior campanha da história deste país, de uma mediocridade avassaladora, sem um debate com o mínimo interesse entre os candidatos que fugiam das propostas e programas para as amenidades das tolices.

A incompetência dos candidatos Dilma Rousseff e José Serra foi a marca dos falsos debates de cartas marcadas, promovidos por várias emissoras de televisão, com temas escolhidos pelos animadores e sorteados como nos bingos. Os candidatos favoritos, Dilma e José Serra à distância nas pesquisas, adoraram o faz-de-conta que os liberaram de apresentar propostas ou questionar às dos adversários.

O candidato da oposição pairou pela campanha cantarolando o samba de uma nota só da sua eleição, ao arrepio de todas as pesquisas, da sua certeza da eleição no segundo turno, depois da mágica da classificação.

E ninguém prestou atenção na onda verde que o PV da modesta candidata Marina Silva, que começava a inflar nas pesquisas até o estouro nas urnas, quando acabou com a festa e levou a decisão para o segundo turno, em 31 de outubro.

Daqui até lá teremos que acompanhar a convalescença da dupla de finalistas. E quem tiver juízo, fechará o bico para não engolir insetos. Ninguém ganha na véspera, como aprenderam o presidente Lula e a sua candidata Dilma.

Lula não é mais o grande eleitor. E na sofreguidão de virar o jogo, já mandou recados à candidata Marina Silva, a grande surpresa da campanha, que perdeu ganhando, para uma conversa.

O segundo turno não promete muitas novidades. A menos que os dois finalistas, Dilma e Serra, tenham aprendido a lição que não se ganha eleição enganando o eleitor. O papo furado sobre a rotina burocrática do Bolsa Família e dos milhões de residência do Minha Casa Meu Voto, jogou para escanteio o escândalo ético do pior Congresso de todos os tempos, páreo duro para o próximo dos tiriricas e outros patuscos.

Um desafio que ainda atravessará outros governos, se a casa não desabar. Brasília não é apenas a mina sem fundo da bolsa da Viúva, que transformou o mandato parlamentar na gazua das vantagens e propinas, como as passagens aéreas para o fim de semana nos currais eleitorais e os privilégios de marajás, com gabinete individual, a penca de assessores que são cabos eleitorais e as mutretas que pipocam quando o Congresso decide trabalhar, com duas ou três sessões por semana.

O inchaço de Brasília é um desafio que o Congresso não tem vontade política para enfrentar. E nesta batida um dia a casa cai.

Saneamento da política cambial só após 2º turno

O Estado de S.Paulo

A ausência de um debate econômico sério continuará no enfrentamento dos dois candidatos ao segundo turno. Não porque desconheçam o assunto, mas pelo receio de apresentar ideias que tirem votos.

E o segundo turno deverá ter uma consequência muito nefasta para a economia: o adiamento da solução relativa à excessiva valorização do real em relação ao dólar.

A taxa cambial nos últimos dias caiu bem abaixo de R$ 1,70 por dólar, aumentando os efeitos negativos da sua supervalorização, que favorece um crescimento das importações em detrimento da produção nacional e impede uma expansão significativa das exportações de produtos manufaturados.

Nas últimas semanas o ministro da Fazenda, Guido Mantega, anunciou oportunamente que o governo iria tomar medidas para tentar amenizar o problema cambial, deixando entrever que uma solução seria a elevação do IOF sobre as entradas de capitais estrangeiros, embora em certos meios se considere que essa medida não será suficiente.

O fato é que até agora nenhuma medida foi tomada e a moeda nacional continua excessivamente valorizada.

Parece improvável que uma medida corretiva seja tomada antes do dia 31 de outubro, levando em conta os efeitos de uma desvalorização. O primeiro seria uma elevação de preços, pois até agora o governo se vem aproveitando das importações de bens (que ajudam a segurar a inflação) e da captação de recursos externos, que reembolsa com moeda valorizada.

Assim, adia o mais possível o momento em que as medidas a serem tomadas terão efeito inflacionário e poderão obrigar a um aumento da emissão de títulos públicos para pagar juros mais altos.

Existe um outro problema que reforça a posição dos que consideram que a mera elevação do IOF seria insuficiente para desvalorizar o real. De fato, o grande atrativo para o capital estrangeiro é a diferença entre a remuneração das aplicações no seu país de origem e a que se obtém no Brasil, o que permite as operações de arbitragem. Para sanear esse inconveniente seria necessário revisar toda a política monetária baseada numa taxa Selic alta demais.

Essa tarefa será deixada para o próximo governo, em vista de todas as incertezas acarretadas por uma mudança profunda da política monetária, embora tivesse um efeito compensador importante com a forte redução das taxas de juros, bem como com a eliminação dos subsídios embutidos nos empréstimos do BNDES.

***** COMENTANDO A NOTÍCIA:
Podemos afirmar, tranquilamente, que o Brasil está à deriva. O Senhor Presidente da República, ao se tornar cabo eleitoral de seu poste, esqueceu de sua principal função é governar o Brasil até 31 de dezembro. Que o país espere, que a sociedade se dane, que as empresas entrem na fila de espera. Enquanto o senhor Lula disputar a eleição no lugar de Dilma, o país que fique à deriva porque o interesse partidário está sobreposto, para o senhor Lula, ao próprio interesse do país. Convenhamos, não é esta a continuidade que se quer. Não mesmo!!!

Decisão ficou para 31 de outubro

Pedro do Coutto

Roma - O Corriere della Sera, mais importante jornal italiano, publicou hoje o resultado das eleições presidenciais no Brasil que remeteu a decisão final para o segundo turno marcado para 31 de outubro. O jornal colocou na primeira página a foto de Dilma Roussef acompanhada de uma legenda que acentua ter recebido o apoio total de Lula e ao mesmo tempo lembra seu passado de guerrilheira contra a ditadura militar instalada no Brasil em 64 e que terminou em 85.

O jornal espanhol El Paiz foi pelo mesmo caminho, mas ainda não tinha certeza quanto ao segundo turno. O Correio da Manhã, de Portugal encontrava-se também em dúvida, porém lembrando que as pesquisas de boca de urna apontavam a vitoria de Dilma já no primeiro confronto.

As pesquisas, sob este aspecto, falharam. Os números não foram confirmados nas urnas. Houve mudanças de última hora. É como se pode interpretar o desfecho de ontem. Cada vez mais se observa nas eleições brasileiras a tendência para uma forte mobilidade do eleitorado nas últimas 48 horas, talvez até mesmo no próprio dia do voto. Dilma Roussef recuou 4 pontos, José Serra subiu três, Marina Silva saltou seis degraus subindo para 20%. O quadro agora, entretanto pode ter sido de surpresa mas não é desfavorável à candidata de Lula.

Para onde irão os votos de Marina Silva? Qual a definição que vai adotar em relação ao segundo turno? Se ela liberar seus eleitores uma parte irá para Dilma outra para José Serra. E aí fica difícil quebrar a vantagem obtida no primeiro turno pela petista. Fica um enigma que nospróximos dias teráque ser revelado.

O Corriere Della Sera, cuja cobertura foi ao mesmo tempo a melhor e mais ampla sobre a sussessão brasileira, atribui o recuo de Dilma na reta de chegada à explosão moral que tem o nome de Erenice Guerra.Foi ela a melhor aliada da oposição para adiar a escolha do futuro presidente para o final do mês. Das urnas do país emergem no primeiro plano o senador Aécio Neves, o governador Geraldo Alckmim e o governador Sergio Cabral, vitoriosos depois do vendaval que passou pelas urnas.

IOF 'não faz diferença', diz Martin Wolf

Leandro Modé - O Estado de S.Paulo

Colunista do 'FT' vê com ceticismo as medidas do governo para conter a valorização do real, e acredita que não impedirão fluxo de investimentos

O mais influente colunista econômico do mundo, Martin Wolf, do "Financial Times", mostra-se cético quanto aos efeitos de médio e longo prazos das medidas anunciadas pelo governo para conter a valorização do real. "Duvido que faça qualquer diferença", afirmou ao "Estado". Ele foi a principal estrela de um evento promovido ontem à noite pela Faap para discutir o papel do Estado na crise financeira internacional.

Sergio Neves/AE
Pode ser o Brasil.
Wolf disse acreditar que a próxima crise econômica mundial acontecerá em um país emergente,
justamente por causa do fluxo de capitais

Wolf disse não acreditar que as taxas de câmbio reflitam movimentos especulativos de curto prazo - a elevação do IOF de 2% para 4% tem como grande objetivo frear justamente a entrada de dinheiro especulativo no Brasil.

"O principal fator que influi na formação da taxa de câmbio é o fluxo de capitais, que, por sua vez, se move de acordo com as oportunidades de investimento e as diferenças entre as taxas de juros dos países", argumentou. "O Brasil é um país com taxa de poupança relativamente baixa e taxas de juros relativamente elevadas. Por isso, é muito atrativo para o capital estrangeiro."

Wolf observou que corporações do mundo todo estão em busca de boas oportunidades de investimento. E essas estão nos países emergentes, como o Brasil, que, diferentemente das nações desenvolvidas, têm registrado forte expansão econômica.

"Se você olhar para as economias emergentes mais atrativas do mundo, com sistemas financeiros relativamente abertos, o Brasil é a número 1", analisou. "Portanto, é absolutamente inevitável que seja inundado com capitais. Uma pequena taxação não vai fazer diferença."

O colunista inglês disse acreditar que a próxima crise econômica mundial ocorrerá em um país emergente justamente por causa do enorme fluxo de capitais atual. Ele frisou que não gosta de fazer previsões, mas reconheceu que o Brasil é um dos candidatos a ter problemas.

"O Brasil está superaquecido, está claramente indo rápido demais e há um monte de capital vindo (e por vir). Isso me preocupa um pouco. Não estou prevendo uma crise, que fique claro. Mas há riscos. Há fatos aqui."

Para Wolf, o fluxo de capitais não faz mal a um país quando é usado para financiar investimentos e, por tabela, uma expansão mais acelerada da economia.

Bolsa. O ex-presidente do Banco Central (BC) Arminio Fraga, que também participou do evento, avalia que, "temporariamente", a medida do governo pode funcionar um pouco. Ele lembrou que, no início dos anos 90, quando esteve no BC pela primeira vez, chegou a adotar mecanismo semelhante.

"Mas, no longo prazo, não funciona", disse. "Uma solução mais definitiva é construir condições para termos uma taxa de juro mais baixa, porque isso é um fator de atração de capital de curto prazo. Não adianta tapar o sol com a peneira", observou.

Fraga, que atualmente preside o Conselho de Administração da BM&FBovespa, considerou positivo o fato de o governo ter excluído os investimentos em Bolsa do aumento do IOF. "Pode parecer correlacionado com a minha presença na Bolsa, mas eu sempre defendi um tratamento diferente (para a Bolsa) porque esse tende a ser um capital de longo prazo", afirmou.

Controle e transparência

Gil Castello Branco, O Dia

Desde a Grécia Antiga, os administradores são obrigados a prestar contas. À época, a comunidade reunia-se na Ágora, a assembleia do povo, para examinar a contabilidade dos arcontes, embaixadores, generais e de todos aqueles que geriam verba proveniente dos impostos arrecadados. No século XXI, a cidadania vem pela via digital. A Ágora atual é a web e o Estado somos nós.

A transparência das contas governamentais é tão importante para a democracia quanto à liberdade de expressão. É no orçamento que se incorporam as prioridades das políticas públicas do país. Soma-se ainda o fato de o orçamento ser formado com recursos das contribuições, impostos e taxas que o brasileiro paga. Neste contexto, nada mais justo que o cidadão tenha acesso e participe da alocação e implementação orçamentária, exercendo o controle social. A transparência e o acesso à informação pública são princípios da democracia.

O registro das receitas e despesas da administração federal no Brasil é feito por meio do Siafi (Sistema Integrado de Administração Financeira) da Secretaria do Tesouro Nacional do Ministério da Fazenda. Mas o Siafi não é aberto à sociedade. Podemos, porém, acompanhar a execução do Orçamento Geral da União por meio de sites cuja base primária de dados é o Siafi.

A partir de 28 de maio, a transparência passou a ter mais força regionalmente com a vigência da Lei Complementar 131, que determinou que a União, estados, Distrito Federal e municípios com mais de 100 mil habitantes divulguem, na Internet, de forma online, informações sobre a execução orçamentária e financeira.

Sob o ponto de vista da moralização administrativa, a Lei Complementar 131 é tão importante quanto à iniciativa popular do Ficha Limpa. Uma evita que os corruptos sejam eleitos, a outra amplia o controle social.

Na prática, as informações lançadas nos portais, em até 24h após o registro da despesa, tornam o Brasil um dos países mais transparentes do mundo, em termos orçamentários. A transparência é o principal remédio contra a corrupção e a má qualidade do gasto púbico. As duas regras contribuem para afastar maus políticos e gestores da vida pública. No fim, seja na Grécia Antiga ou no Brasil de hoje, o fundamental é que os homens públicos informem como gastam o dinheiro dos cidadãos.

Banco central do Japão corta taxa de juros para quase zero

Folha.com

O Banco Central japonês, em uma ação inesperada, reduziu sua taxa de juros de 0,1% para quase 0%. A decisão unânime foi tomada após uma reunião de dois dias entre os nove membros do conselho administrativo do banco e é a primeira mudança na taxa de juros japonesa desde dezembro de 2008.

O movimento tem um impacto simbólico importante, pois sinaliza que o banco está disposto a tomar medidas para estimular a economia em dificuldade, apesar da

riscos de deflação com os novos cortes nas taxas de juros. A economia japonesa tem sido afetada pelo fortalecimento do iene e deflação.

O banco central informou que vai manter taxas de juros entre zero e 0,1%, até que considere que a estabilidade de preços está à vista.

A entidade financeira, que tinha sido pressionada pelo governo para flexibilizar ainda mais sua política monetária, explicou que a economia japonesa continua mostrando sinais de recuperação, mas está se debilitando "em parte por causa do arrefecimento das economias estrangeiras e pelos efeitos da apreciação do iene".

O índice Nikkei, da Bolsa de Valores de Tóquio, subiu mais de 1,5% após o anúncio.

Ideias mortas

Celso Ming, Estadão.com


Se é verdade que, nesta campanha eleitoral, não existiu debate econômico, como a Coluna de sábado observou, também é verdade que ideias econômicas radicais de esquerda foram agora enterradas por serem consideradas velhas demais ou impraticáveis.

Não dá para dizer que foram enterradas definitivamente, porque defuntos, especialmente se forem ideias, sempre podem ser exumados.

O único candidato à Presidência da República que se comportou como arqueólogo de ideologias do passado foi o simpático Plínio de Arruda Sampaio, que levantou boas risadas das plateias, mas não conseguiu ser levado a sério.

Seu partido, o PSOL, nas eleições presidenciais de 2006 ainda havia arrebatado quase 7% dos votos válidos no primeiro turno, mas desta vez não conseguiu nem 1%. Não dá para dizer que Plínio teve pouca oportunidade para transmitir sua mensagem e para se fazer entender pelo eleitor. Nos debates pela TV não conseguiu aproveitar nem mesmo o espaço que lhe cabia. Algumas vezes entregou sua manifestação bem antes do esgotamento do tempo, passando a impressão de que não tinha muito o que dizer.

Plínio defendeu, por exemplo, o calote da dívida pública, com suspensão do pagamento do principal e dos juros, “para que sobrem recursos para a educação, para a saúde ou para as ferrovias”. Essa também havia sido, em 2006, a bandeira do então candidato à Presidência (pelo PSB), Ciro Gomes, que se mirava no exemplo do corte unilateral da dívida argentina. Até hoje, a Argentina permanece no limbo global porque continua com dificuldades para obter financiamento externo. Talvez também em consequência do fracasso argentino, até mesmo Ciro Gomes deixou de assoviar essa música.

Plínio defendeu, ainda, a taxação progressiva das grandes fortunas a partir de patrimônios pessoais e familiares de R$ 2 milhões; a reestatização imediata da Companhia Vale do Rio Doce; a abolição dos contratos de PPPs (Parcerias Público-Privadas), que ele considera “privataria disfarçada”; a expropriação de todo o capital privado na Petrobrás; e a volta do monopólio estatal do petróleo extinto na Constituição de 1988.

Deu total respaldo às invasões de propriedades agrícolas pelos movimentos sociais dos sem-terra e declarou que, se arrebatasse a Presidência, limitaria a extensão da propriedade rural a apenas mil hectares.

Na área trabalhista também foi radical. Avisou que o salário mínimo seria puxado para acima de R$ 2 mil, ou seja, para o nível que o Dieese garante ser o mínimo indispensável para restabelecer o poder aquisitivo de 1940, quando o salário mínimo foi instituído. O direito de greve seria absoluto e alcançaria até mesmo as atividades essenciais. E os funcionários públicos teriam todo o direito de paralisar seus serviços contra qualquer arrocho salarial.

Tais receitas carcomidas, num momento em que o Brasil se consolida como potência emergente e é chamado a participar da coordenação da macroeconomia global no âmbito do Grupo dos 20 (G-20), podem ter sido agora arquivadas.

Coincidência ou não, essas ideias são rejeitadas ou, simplesmente, ignoradas pelo eleitor brasileiro, no momento em que mergulham no crepúsculo administrações econômicas jurássicas, como o regime castrista de Cuba, o do venezuelano Hugo Chávez e, até mesmo, o do equatoriano Rafael Correa. É sinal dos tempos.

Pedágio em dobro.
A partir de amanhã, o aplicador estrangeiro em renda fixa vai pagar o dobro, de 2% para 4%, a título de pedágio, cada vez que trouxer dólares para o Brasil. Desta vez, o governo deixou de fora as aplicações em Bolsa, que continuam pagando 2%.

Especulação com juros.
O objetivo é claríssimo. O governo quer desestimular apenas as operações de especulação com juros (arbitragem com juros, ou carry-trade). De janeiro a agosto deste ano, a entrada líquida de recursos em renda fixa atingiu US$ 19,9 bilhões.

Tendência mantida.
Na prática, a aplicação fica muito mais cara para o aplicador estrangeiro que, assim, provavelmente desistirá desse tipo de operação. No entanto, é improvável que apenas essa decisão seja suficiente para reverter a atual tendência de baixa do câmbio. Por alguns dias, pode acusar alta do dólar, mas as cotações deverão voltar a baixar em consequência da forte entrada de moeda estrangeira sob outras rubricas.

Qual é o preço da liberdade?

Sandra Cavalcanti, O Estado de São Paulo

Estamos vivendo dias constrangedores. Muita gente no Brasil não tem a menor noção do que seja exercer uma atividade pública. Tanto representantes do povo como esmagadora parte do próprio povo, todos demonstram que não sabem fazer a correta distinção entre o que é público e o que é privado.

O comportamento da maioria dos cidadãos e dos governantes revela esta realidade: os conceitos de bem público e de bem privado aparecem sempre muito misturados, de forma confusa e até ardilosa, sufocados pelos interesses particulares de pessoas, famílias, corporações, sindicatos, ONGs suspeitas e seitas pseudorreligiosas.

Os resultados dessa criminosa contaminação são aterradores. Populismo, demagogia, uso perverso dos meios de comunicação, acirramento dos ressentimentos entre categorias sociais. Total falta de transparência no gerenciamento dos tributos arrecadados, nepotismo, enriquecimentos inexplicáveis. E o pior: o apodrecimento dos valores morais. Por isso tem sido tão deprimente enfrentar o que vem sendo trazido à tona nestes últimos tempos.

Não adianta alegar que em épocas anteriores também havia pilhagem do bem comum. Sabemos disso. Mas havia reação. Havia quem se escandalizasse. Havia quem se envergonhasse… Hoje, não. A impunidade está sendo aceita. Virou regra geral. Parece que todo o talento de nossa gente se aplica à fantástica criatividade de novas modalidades de golpes.

Pior do que isso é ter de aturar, na mídia, as declarações e as explicações dos nossos caciques. Pedem respeito às suas pessoas incomuns. Exigem consideração por sua biografia. E o fazem alegando valores republicanos!

É muito cinismo!

É muita arrogância!

A palavra República nada tem que ver com esses comportamentos. República não é nada disso. A expressão res publica, que herdamos da língua latina, significa coisa pública. A República, portanto, cuida da coisa pública. Seu objetivo principal é o bem comum.

Ser republicano é dar primazia ao bem comum. Significa que cabe ao político cuidar do bem comum. Significa que a atividade política se desenvolve na área da justiça. E se vincula integralmente à ética. Sem ética não há política nem políticos. Sem justiça não há política nem políticos.

Diante do panorama que temos à nossa vista, vale a pergunta: de que cuidam os políticos em nosso país, nestes tempos negros? A resposta é aterradora: só pensam em chegar ao poder. Ficar no poder. Usufruir o poder. Gozar o poder. Aproveitar o poder. Tirar vantagens do poder.

Acontece que na verdadeira República o poder só existe para que alguém exerça a tarefa de governar. É isto o que os brasileiros devem exigir de quem chega ao poder: cuidem apenas de governar.

O significado republicano de governar exige zelo pelo bem comum, honesto gerenciamento dos recursos públicos, prestação de contas rigorosa de todos os atos e respeito às leis. As leis, na República, são votadas para ser cumpridas por todos, governantes e governados.

Não é isso o que estamos vendo, mas exatamente o contrário. Os encarregados de zelar pelo bem comum cuidam somente de interesses particulares, partidários, ideológicos, sindicais, corporativos e familiares. Desdenham dos objetivos do bem comum. Apropriam-se dele sem nenhum sinal de vergonha ou constrangimento.

E é nesta realidade deprimente que o Brasil, no domingo, vai escolher de novo seus governantes! Raras vezes vivi um clima pré-eleitoral tão esquisito. Tão absurdamente apalermante! Qual vai ser a reação de nosso povo diante de tudo o que vem acontecendo, como uma enxurrada em dias de tempestade? Onde está a indignação de nossa gente?

Encarapitado no planalto goiano, o governo vive fora da vigilância da população. Ali é quase milagre escapar da contaminação. O presidente, seus subordinados, os senadores, os deputados, os ministros, os membros do Judiciário e mais os aliciantes amigos dos Poderes, todos os que atuam nesse ambiente à parte do País respiram o dia inteiro as vantagens e os privilégios; os conluios e os conchavos marcaram a implantação da capital. Em Brasília, tudo o que é coisa pública está pronto para virar coisa privada! Ninguém conhece limites. Emprego para aliado, protegido, marido, filho, esposa, nora, sogra, avó… Supostas verbas indenizatórias. Luz, telefone, passagens, gastos com as bases, malícias nos artigos das medidas provisórias, espertíssimas emendas orçamentárias, concorrências de fachada, licitações com cartas marcadas, recibos e notas frias. Enfim, um labirinto burocrático infernal, onde o poder jamais cuida do bem comum.

Qual a solução? Existe alguma? Existe. Mas para isso é preciso que apareçam lideranças de verdade. Não há de ser com a UNE subordinada de hoje, nem com candidatos que se escondem sob as ordens de marqueteiros.

Qual o caminho? Tentar acabar com a passividade do eleitor brasileiro. Dando-lhe voz. Dando-lhe meios para exigir dos partidos a indicação de nomes sérios. Dando-lhe meios para cobrar fichas limpas. Sem isso, nada feito. Pelo sistema de hoje, nosso voto não passa de um simples voto de boas-festas, de parabéns, de pêsames ou de louvor. Os partidos atuais não vivem pela força de seus filiados atuantes. Sobrevivem por causa de alianças passivas com o poder. Essa mudança tem de ser feita. Quem fará? Nós! Cabe a nós lutar para garantir a liberdade de opinião e o direito de escolha. Nossa liberdade está prestes a ser agredida. Mas nós vamos reagir. A imprensa mudou o mundo, mas a internet ainda mudou mais. Essa revolução é a nossa força. A turma que está no poder quer impedir a nossa praça!

Na hora de votar, lembre-se disso. O preço da liberdade é a eterna vigilância. Vigiai e orai! Quantos somos? Onde estamos? Qual nosso alvo? Dia 3 de outubro vamos reproclamar a República?

Donos de institutos arriscaram a credibilidade

João Bosco Rabello, Estadão.com

Pesquisa não é urna”. A frase, de Ulysses Guimarães, é daquelas que confirmam que o óbvio, às vezes, precisa ser dito.

E se aplica à presente eleição, na qual os institutos de pesquisa foram alçados à condição de vilões por errarem previsões defendidas com uma convicção, por vezes, até intimidatória.

O que se espera de um instituto de pesquisa, sobretudo dada a importância que adquiriu no processo eleitoral – em que passou de mero aferidor a indutor de tendências -, é que se posicione com neutralidade técnica perante candidatos e campanhas.

Nisso reside o que um instituto tem de mais caro – a credibilidade. Funciona como uma vacina que imuniza contra os efeitos de eventuais erros.

Ibope e Vox Populi , este mais que aquele, comprometeram essa credibilidade em momentos distintos da campanha.

Por isso, os erros verificados no primeiro turno provocaram tantas reações de revolta por parte de candidatos – vitoriosos e derrotados.

Logo no início, Augusto Montenegro, do Ibope, repetiu como um mantra que Dilma Rousseff não tinha a menor chance de vencer a disputa.

Quando ela alcançou os 20%, ele decretou o fim da capacidade de transferência de votos de Lula para a sua candidata.

Mais na frente, quando se admitia como tendência a vitória de Dilma no primeiro turno, ele desculpou-se publicamente e ficou tudo por isso mesmo.

Porém, mais grave foi Marcos Coimbra, do Vox Populi. Não só garantiu a vitória de Dilma, em cima de números de seu instituto, que mais tarde se mostraram errados, como tripudiou dos jornalistas que ousaram questionar suas previsões.

Em artigo na revista Carta Capital, chamou-os de “jornalistas tucanos, ineptos, autores de uma sucessão de análises erradas, hipóteses furadas, teses sem pé nem cabeça. Todas inventadas para justificar o favoritismo de Serra, que só existia no desejo de quem as elaborava”.

Coimbra distorceu os fatos: ninguém achava Serra favorito, mas questionava o favoritismo de Dilma para vencer já no primeiro turno, algo que seu instituto garantiu ao seu cliente, o PT, e não aconteceu.

Coimbra foi além: “Se não fossem tão ineptas, essas pessoas poderiam, talvez, ter impulsionado as oposições na direção de projetos menos equivocados. Se não fossem tão arrogantes, teriam, quem sabe, poupado seus amigos políticos do fracasso inevitável que os espera”.

A semelhança entre o texto de Coimbra e o ataque do presidente Lula à imprensa, exatamente nos mesmos termos, não é mera coincidência: o dono do Vox Populi, que previu a vitória de Dilma no primeiro turno com 57% dos votos, reproduzia o pensamento de seu cliente.

Coimbra também condenou candidatos e imprensa por revelarem escândalos administrativos no âmbito do governo. Estranho seria se, diante de tais fatos, nada se dissesse, como se as urnas lhe impusessem uma cortina de silêncio.

Não lhe cabe tal papel, como titular de uma instituição cuja tarefa equivale à de um termômetro: medir a temperatura da campanha, sem pretender influir sobre ela.

O fato se agrava quando se sabe que seu instituto mantém contrato com o comitê de campanha do PT, o que o coloca em situação no mínimo ambígua: de um lado, promove pesquisas independentes, de divulgação pública, registradas na Justiça Eleitoral, que lhes dá o selo de isenção; de outro, presta serviços a um dos partidos e o defende em artigos de jornal e revista.

Por essa razão, o ministro Gilmar Mendes, do STF, considera fundamental que, passadas as eleições, se reavalie o funcionamento dos institutos de pesquisas. Ou bem eles prestam serviços aos partidos ou ao público. A ambos, parece-lhe impossível. Considera inconstitucional, por ferir o princípio da isonomia, que ajam em ambas as frentes.

A iniciativa já está na agenda de políticos e partidos. O PPS vai pedir investigação das relações entre os institutos de pesquisa e os candidatos.

O deputado Rubens Bueno (PR) já anunciou essa decisão. Ele mesmo, vítima de um erro do Ibope em 2004, pelo qual processa o instituto, registra os erros cometidos agora no Paraná.

No Ibope da véspera da eleição o instituto dava a Roberto Requião 47% das intenções de voto e ao seu concorrente, Gustavo Fruet, 27%. Requião teve 24,8% e Fruet , 23,1%.

Em São Paulo, as pesquisas indicaram empate entre Marta Suplicy e Netinho e excluiram Aloysio Nunes Ferreira da disputa – logo ele que teve nada mais, nada menos, que 11 milhões de votos e elegeu-se em primeiro lugar. Já Netinho, vai continuar cantando.

Na Paraíba, José Maranhão (PMDB) foi dado como vencedor por larga margem, mas terminou a eleição atrás de seu oponente, Ricardo Coutinho (PSB). Houve mais, bem mais, mas esses exemplos são suficientes para ilustrar o problema.

A vitória de Dilma ou Serra não altera a necessidade de se repensar as pesquisas.

Não necessariamente nos termos do deputado do PPS, que as criminaliza, mas levando em conta que uma etapa já foi vencida: os erros indicam que o eleitor não se deixou influenciar por elas.

Todos erraram, principalmente as pesquisas.

Helio Fernandes, Tribuna da Imprensa

Não houve decisão no primeiro turno, nem Dilma nem Serra foram vitoriosos. Dilma tem que culpar Marina, Serra agradecer a ela. Será outra eleição?

Depois que foi criado o segundo turno, este, Dilma-Serra é o mais surpreendente e até rigorosamente inesperado. Na verdade foi uma eleição traumática e traumatizante, principalmente para personagens considerados como grandes lideranças, que não se reelegeram governadores ou senadores.

Essas derrotas e alguma vitórias esperadas mas não tão garantidas (excetuada a de Aécio Neves) influirão seguramente no resultado do dia 31 de outubro. Franca favorita, Dona Dilma esteve pertíssima de conquistar a Presidência, imediatamente. Não conquistou, tem 28 dias para is buscar os quase 4 por cento dos votos que não obteve agora.

Para o segundo turno o resultado é irreversível, democraticamente, eleitoralmente, politicamente. É uma nova eleição? Claro que é, embora os fatores que impulsionaram a votação de uma cidadã que jamais soube o que é uma campanha, continuem visíveis e analisáveis. Vejamos ligeiramente, já na madrugada, teremos até o dia 31 para avaliar mais seguramente o que se aproxima.

Serra tem os mesmos 28 dias para buscar os quase 16 por cento dos votos que não conseguiu agora. O governo de São Paulo, conquistado por Alckmin, era tão certo, que não significava alteração. (Alteração mesmo foi a eleição para o Senado de Aloysio Nunes Ferreira, excelente figura, ligadíssimo ao ex-governador).

A eleição de Aécio, é considerada como reforço para o ex-governador de São Paulo, muitos já dizem ou tentam interferir com a afirmação: “Aécio agora pode apoiar Serra para presidente, e fazer um acordo para 2014”. É evidente que as coisas não se resolvem assim, embora possa realmente acontecer. Duvido no entanto que Aécio se decida imediatamente ou a longo prazo.

É preciso considerar, nesse segundo turno, não apenas a capacidade do presidente Lula transferir votos, cansado, em fim de mandato, com essa nova eleição que ele sabidamente não imaginava que fosse existir ou acontecer. Admitamos que Lula transfira os mesmos 46 por cento dos votos, de onde virão os outros imprescindíveis 4 por cento?

Elementar, da grande vencedora da eleição, Marina Silva, que impediu Dilma de vencer, conseguiu a façanha de levar Serra ao segundo turno. Com o tipo de legislação eleitoral que existe no Brasil, os 20 milhões de votos dados a uma candidata, votos dela, pois sua legenda ainda tem pouca representatividade, servirão a um outro candidato.

Marina Silva tem os mesmo 28 dias para decidir o que fazer, como fazer e porque fazer. Normalmente, naturalmente, política e eleitoralmente, pode transferir parte substancial desses votos. Mas não pode acreditar que “faz e desfaz com esses 20 milhões de votos”.

Por agora, Marina é heroína de uma eleição sem vencedores, com dois candidatos que dependerão de muitos fatores e acontecimentos, mas principalmente dela. E também de senadores, deputados e governadores dos mais diversos Estados.

Uma dura lição para o PT

Aldo Fornazieri (*) - O Estado de S.Paulo

Como o processo eleitoral ainda não terminou, o resultado do primeiro turno permite afirmar que o PT saiu dele com uma derrota relativa: não alcançou seu principal objetivo, que era o de eleger Dilma Rousseff sem a necessidade de um segundo turno. De quebra, a oposição saiu fortalecida nas disputas estaduais, com quatro governadores eleitos pelo PSDB e dois pelo DEM. O PSDB manteve os seus dois principais baluartes: São Paulo e Minas Gerais; e o DEM não foi extirpado da política brasileira. A conquista do Paraná foi contrabalançada pela perda do Rio Grande do Sul.

O novo fracasso do PT nos dois principais colégios eleitorais do País revela duas coisas: em Minas houve um enorme erro de estratégia com o não lançamento de uma candidatura própria. Em São Paulo o PT precisa mudar de rumos e apostar em novas lideranças. Com a vitória de Tarso Genro no primeiro turno, o eixo de poder no PT passa por fora do Sudeste.

O resultado final em 18 Estados, com 4 governadores do PMDB, 4 do PT, 3 do PSB e um do PMN, mostra um quadro de equilíbrio entre governo e oposição, o que é salutar para a democracia, já que impede um hegemonismo desequilibrador de uma sigla. A oposição fugiu do apocalipse que se anunciava, é verdade. Mas terá de se reconstruir, pois PSDB e DEM são partidos fragmentos, sem base social e sem eixos programáticos claros, capazes de lhes conferir identidade e sentido.

Marina Silva foi a grande vencedora do primeiro turno. Ganha força para negociar uma agenda com um dos candidatos - Dilma ou José Serra. Um purismo olímpico de Marina neste momento representaria um não dar consequência à sua expressiva votação.

Serra vai para o segundo turno não por méritos próprios, mas graças ao desempenho de Marina. O que ele ganhou é uma oportunidade de se reabilitar, de reconstruir sua credibilidade, de apresentar uma agenda para o Brasil, pois a sua campanha no primeiro turno foi sofrível, errática e sem foco. O segundo turno, de qualquer forma, recoloca em cena aquilo que se previa no início do processo eleitoral: uma campanha dura e polarizada entre Dilma e Serra. Naquele momento se esperava até mesmo que Serra pudesse chegar à frente de Dilma no primeiro turno.

Dilma fez uma campanha centrada nas realizações do governo, mas também deficitária em termos de agenda futura. O que mais pesou para o seu recuo na reta final, e a ascensão de Marina, foram a tradicional arrogância petista, ancorada numa sede desmedida de poder, e a insistência em não aprender com os erros do passado. Três erros graves da campanha governista determinaram o segundo turno.

O primeiro erro foi o escândalo envolvendo Erenice Guerra. Alegar desconhecimento do tráfico de influência na Casa Civil é absolutamente insustentável, pois o governo dispõe da Abin, da Política Federal e de outros órgãos de controle interno para saber o que se passa no alto escalão governamental e no seu entorno. O que o episódio Erenice demonstra é que o PT e o governo abandonaram os cuidados necessários com o tema da moralidade pública, acreditando que o poder é uma espécie de salvo-conduto para práticas antirrepublicanas. Na verdade, desde que chegou ao poder, o PT foi enfraquecendo sua vértebra republicana, caminhando para a vala comum dos outros partidos nesse quesito. Não é raro ouvir de militantes petistas a tese de que sem essas práticas não se governa. O que a evidência tem demonstrado é que a assimilação dessas teses e dessas práticas representa muito mais risco do que benefício político, além de uma descaracterização em termos de valores republicanos.

O segundo erro, na reta final da campanha, consistiu em morder a isca, pisar na casca de banana jogada pelos adversários. Os petistas - presidente Lula à frente - passaram a atacar a imprensa, abrindo o flanco para que proliferassem acusações de antidemocratismo e para que se publicassem manifestos em defesa da liberdade de expressão, reanimando o medo que é tônica nas campanhas desde 1989, quando Lula chegou perto da vitória. O próprio presidente parece ter-se esquecido de que o que ganha votos são mensagens positivas, simplicidade e um estilo "Lulinha paz e amor".

O terceiro erro foi em torno do polêmico tema do aborto. Inicialmente, documentos do PT o declararam a favor do aborto. Dilma manteve uma posição ambígua sobre o assunto até que, na véspera das eleições, no contexto de perda de votos por causa das dúvidas sobre sua posição, ela se manifestou contra o aborto. Mas já era tarde. Aqui também há uma falta de aprendizado com a História. Temas morais, altamente sensíveis para a maioria das pessoas comuns, merecem todo o cuidado no trato dispensado por candidatos majoritários. Um presidente da República deve ser o símbolo da unidade da Nação. Os temas morais polêmicos devem ficar no âmbito do Legislativo.

Dilma e Serra precisam extrair uma bela lição da campanha de Marina. Não são apenas cimento, ferro, estradas e obras que rendem votos. O "eu fiz" ou "fiz mais" também não resolve tudo. Uma campanha para a Presidência precisa irradiar valores vinculantes, uma perspectiva de civilização. Os dois candidatos mais votados pouco falaram de valores.

Uma eleição presidencial é também uma promessa de futuro, uma visão de destino que a sociedade quer e precisa se dar. O futuro não se define apenas no factível em termos de obras, mas também na regulação social pelo metro dos valores. A política é um dos fatores sociais nos quais os indivíduos querem encontrar uma razão de vida. A política é a atividade que consegue configurar de forma mais abrangente um sentido de pertencimento a uma comunidade de destino. Uma disputa presidencial apartada de valores e de sentido civilizador perde a sua razão principal de ser.

(*) Diretor Acadêmico Da Fundação Escola De Sociologia E Política De São Paulo (FESPSP)

E Dilma já parte para o ataque. Depois reclama quando recebe o troco

Dilma abre discurso de 2º turno com ataque a projeto de Serra para o mínimo
Renato Andrade - O Estado de S.Paulo

Candidata diz que modelo atual prevê reajustes sistemáticos e insiste na comparação entre Lula e FHC

A candidata do PT à Presidência, Dilma Rousseff, deixou claro ontem que pretende rebater com força os ataques que forem lançados pelo ex-governador José Serra durante as próximas quatro semanas. Menos de 24 horas após o início efetivo do segundo turno das eleições presidenciais, Dilma questionou propostas defendidas por Serra, como o aumento do salário mínimo, e propôs "esclarecimentos sistemáticos" à população para qualquer acusação vinda do PSDB.

Ajuste fino.
Dilma em encontro com governadores e senadores, em Brasília; campanha petista pretende terá reação imediata a 'boatos e factoides'

Sem citar o nome de Serra, a petista qualificou a polêmica sobre sua posição em relação ao aborto, que teve impacto no seu desempenho nas urnas no domingo, de "campanha perversa" lançada por seus adversários na reta final do primeiro turno. Dilma afirmou que pretende continuar o debate com movimentos religiosos e revelou que a estratégia definida para as próximas semanas é prestar "sistematicamente" esclarecimentos à população todas as vezes em que houver acusações feitas com base em "calúnias e difamações".

Fernando Henrique.
A comparação entre os governos Luiz Inácio Lula da Silva e Fernando Henrique Cardoso também continuará sendo a linha-mestra da campanha. A candidata insistiu que, ao fazer essa análise, não está se buscando uma avaliação de "retrovisor", mas sim discutindo com os eleitores se há interesse em continuar programas desenvolvidos pelos petistas ou um retorno às políticas de FHC.

Segundo a petista, Serra não pode evitar a discussão sobre as políticas tocadas pelos tucanos durante os oito anos em que estiveram no Palácio do Planalto. "Não basta discutir projeto pontual, temos que discutir os projetos para o Brasil, queira meu adversário ou não", afirmou a candidata. Ela aproveitou para alfinetar mais uma fez o ex-governador, que evitou durante o primeiro turno associar sua imagem à do ex-presidente Fernando Henrique. "Se esse foi seu governo, quem me garante que não irá repeti-lo?", afirmou.

"Lula não é remédio".
A participação do presidente Lula como principal cabo eleitoral de Dilma também será estendida para o segundo turno. Mas a petista evitou comentar se a presença do presidente na sua campanha será tão ostensiva como na primeira etapa da disputa pelo Palácio do Planalto ou se haverá algum tipo de moderação.

"Em relação ao presidente Lula a gente não pode falar em dose certa. Ele não é propriamente um remédio. É uma solução para várias coisas, mas não é um remédio", disse a ex-ministra.

Dilma também atacou a proposta de Serra de elevar o valor do salário mínimo em 2011 para R$ 600 e de aumentar os benefícios previdenciários em 10%. Para a petista, a manutenção do modelo de reajuste estabelecido pelo governo Lula levará o salário para valores acima de R$ 600 ao longo dos anos, porque o sistema prevê aumentos sistemáticos. "Não adianta dar um aumento forte num ano e depois paralisar, como no passado."

A petista também disse que cabe a Serra demonstrar como vai adaptar o Orçamento da União aos reajustes que prometeu. "Há uma diferença entre falar e fazer. Quando eles puderam mais, eles fizeram menos. Nós, não."

"Jogo baixo".
 A estratégia de atacar de forma mais firme o ex-governador paulista ficou clara até mesmo quando Dilma fez elogios à candidata do PV, Marina Silva, que abocanhou votos da petista na reta final, levando a disputa presidencial para o segundo turno. Segundo a candidata, Marina fez uma campanha de "alto nível", sem "jogo baixo como fez o meu adversário".

***** COMENTANDO A NOTÍCIA:
Quando dona Dilma aforma ao "jogo baixo como fez o meu adversário", a pergunta que fica é: quando e em que momento Serra baixou oo nível? Terá sido quando foi encontrado no comitê de campanha um dossiê armado pelos petistas? Ou terá sido quaqndo a Receita Federal confirmou a quebra de sigilo fiscal dele, da família e de outros dirigentes tucanos? Ou terá sido quando a imprensa, e não a oposição, informou sobre a Bolsa Família Erenice e seu tráfico de influência dentro da Casa Civil quando a Ministra era dona Dilma Rousseff?   Ou terá sido Serra quem mandou gravar as declarações de Dilma à revista Marie Claire e a Folha de São Paulo sobre sua defesa ao aborto?
 
É impressionante a capacidade desta gente de transofrmar as vítimas de seus crimes em culpados! Fosse esse um país um pouco mais sério e sequer dona Dilma estaria concorrendo: os crimes do escândalo Erenice tiveram, no mínimo, a conivência de dona Dilma. Era sua funcionária e, portanto, a responsabilidade última pelos atos da Erenice, eram de Dilma Rousseff. Acho que nem é preciso desenhar para perceber...