domingo, abril 05, 2020

E o vírus chegou e disse: vão para casa pensar na vida!

Catarina Carvalho
Diário de Notícias (Lisboa)

A mão na mão. A mão mais jovem a apertar a mão engelhada. Do início ao final dos dedos, do início ao final dos dedos, outra vez, numa massagem a imitar a respiração, como um prender à vida. A mulher deitada, quase desacordada na cama do hospital de Huesca. Olhos encovados. Mas a mulher de pé tem um sorriso que se vê por detrás da máscara. Está junto da mãe, Encarnação - como se houvesse nome melhor para alguém que, aos 101 anos, resistiu ao covid-19. A filha, contente, junto da sua velha resistente e curada, nas imagens da televisão espanhola.

Não idosa, não: velha. Os nossos velhos, devíamos chamar-lhes assim. Chamar-lhes assim, velhos, em vez de os desprezar, dá-lhes valor. E agora são nossos, tomamos conta deles. Quem não tem os seus? Tê-los é uma felicidade destes tempos de extensão da vitalidade e da própria vida, as gerações cruzam-se como talvez nunca mais aconteça. E se não pensamos muito nisso, talvez esta seja uma boa altura para começar a perceber o que estamos a perder - também - quando os atiramos para a solidão de apartamentos em prédios altos, para o amontoado de determinados "lares", palavra tantas vezes mal utilizada quando se trata de autênticos repositórios.

Para já, protegemos os nossos "mais velhos", como dizem, bem, algumas formas de falar português. Lá chegaremos, como dizia Maria João Valente Rosa, numa entrevista ao DN: "Os velhos de hoje são diferentes dos do passado e os do futuro serão diferentes dos de hoje. Os do futuro, que são os que hoje estão preocupados com os seus pais e avós por causa desta pandemia, serão ainda mais qualificados, mais próximos das novas tecnologias, mais conectados e terão uma esperança de vida maior. Podemos permitir-nos ser cidadãos plenos em todas as idades."

Como sociedade, diz bastante de nós e de como aqui chegamos que estejamos dispostos a colocar tanto em causa, uns pelos outros... e sobretudo por eles. É um laivo de esperança. O silêncio das ruas pela vida dos outros. A economia em pantanas pela saúde de todos. O bem comum e interdependente. E já esquecemos, até, uns arremedos de pensamentos que começaram a formar-se na opinião pública - terá sido por serem os velhos as principais vítimas que tantos se atreveram a vir questionar as medidas "demasiado" restritivas, danosas à economia? Foram de imediato calados pela realidade, mas não quer dizer que não voltem.

Não, Presidente Ramalho Eanes, nós não queremos que sacrifique os seus sábios 85 anos, dando um ventilador a outros, mais novos ou com mais vida pela frente. Não queremos perceber que lógica teria esse algoritmo que escolhe uma vida em detrimento da outra. Queremos que o Serviço Nacional de Saúde o proteja - e a todos. Queremos dar-lhe tempo para que o possa fazer, sem ter de enfrentar esses dilemas éticos.

Quando deixamos de nos aborrecer por estar em casa, e nos deitamos a pensar, percebemos que se há coisa interessante que este coronavírus tem é isso mesmo, pôr-nos a pensar sobre tantas coisas, individual e coletivamente. Até parece desenhado por um demiurgo irônico - não maléfico, mas problemático e questionante. Uma espécie de espelho gigante que se colocou à nossa frente.

Além dos nossos velhos, os abraços que não demos. As festas a que não fomos. Os amigos que não vimos. O demasiado tempo que passamos nas redes sociais. O quanto relegamos o bem comum para segundo plano. A guerra entre o Serviço Nacional de Saúde e o privado. Que é que é isso das PPP, alguém se lembra? O desprezo a que votamos os que não conseguiram ser bem-sucedidos, nessa ditadura da meritocracia que vinha tomando conta das sociedades, como se nada mais houvesse. Até o tão famoso mindfulness, como se tudo nas nossas vidas se resolvesse com uma introspeção. O ambiente, numa crise irresolúvel, até porque, e tal, não podíamos dar cabo da economia para salvar o nosso ar.

Tomem, disse-nos o vírus, como fazendo um manguito: vão lá para vossas casas pensar nisto. Nesta semana, na RTP, o virologista Pedro Simas falava de vírus como se fossem seres vivos, e dava-lhes determinadas características antropomórficas - com a familiaridade ganha em anos a lidar com eles no Instituto de Medicina Molecular. E talvez ele tenha razão, e seja assim mais fácil percebê-lo e combatê-lo.


Coronavírus: Falta de infraestrutura é obstáculo para isolamento vertical

José Tadeu Arantes, da Agência FAPESP
Exame.com

Ideia de impor quarentena apenas aos grupos de risco é contraindicada em países com moradias irregulares e favelas

(Ricardo Moraes/Reuters)
Favela: situação é ainda mais grave nas favelas, que, segundo o 
Censo 2010, abrigavam naquela data cerca de 11,4 milhões de pessoas 

No contexto da pandemia causada pelo novo coronavírus (SARS-CoV-2), o chamado “isolamento vertical” – que consiste em impor quarentena apenas aos grupos de risco (pessoas com mais de 60 anos e portadores de doenças crônicas, entre outros) e liberar o resto da população para circular livremente – tem sido contraindicado por autoridades de saúde do mundo todo.

Em um país com alto percentual de pobreza e infraestrutura deficiente como o Brasil, essa suposta opção torna-se ainda mais inadequada, pois, nas faixas de baixa renda, é impossível separar os grupos de risco.

“Idosos e portadores de doenças crônicas convivem com os outros membros da família e até com outras famílias, em espaços apertados, muitas vezes dormindo no mesmo quarto”, diz à Agência FAPESP a pesquisadora Marta Arretche, professora titular do Departamento de Ciência Política da Universidade de São Paulo (USP) e diretora do Centro de Estudos da Metrópole (CEM), um dos Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão (CEPIDs) apoiados pela FAPESP.

Adensamento excessivo (definido como o compartilhamento do mesmo dormitório por mais de três pessoas) e coabitação (compartilhamento da mesma moradia por mais de uma família) caracterizam parte de um déficit habitacional que inviabiliza qualquer proposta de “isolamento vertical”.

Não existem dados atualizados, porque o último Censo Demográfico realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) foi feito em 2010. E o Censo 2020 teve que ser adiado para o ano que vem, exatamente em função da pandemia. Mas estudo da Fundação João Pinheiro, de Minas Gerais, produzido com base na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), oferece um cenário aproximado, com números de 2015.

 “Esse levantamento indicava que havia, naquele ano, um déficit absoluto de 6.356.000 habitações no Brasil. O adensamento excessivo respondia por 5,2% do déficit – ou seja, por 330.512 habitações. E a coabitação, por 29,9% do déficit – isto é, por 1.900.444 moradias”, informa o pesquisador Eduardo Marques, professor titular do Departamento de Ciência Política da Universidade de São Paulo (USP), que integra o CEM.

A situação é ainda mais grave nas favelas, que, segundo o Censo 2010, abrigavam naquela data cerca de 11,4 milhões de pessoas. Mas o que a Fundação João Pinheiro classificou como déficit habitacional não se restringe às favelas, nem necessariamente inclui todos os edifícios existentes nelas, alguns com melhores condições de habitabilidade.

Há déficit também em bairros de baixa renda não favelados. E até mesmo em enclaves de população pobre em bairros de classes média ou alta.

“Ao contrário do que se poderia supor, o maior déficit ocorre na região mais rica do Brasil: a Sudeste, onde a maioria dos números já detectados da doença se localiza. As regiões metropolitanas que lideram o ranking são as de São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte, com déficits aproximados de 640 mil, 340 mil e 159 mil unidades habitacionais, respectivamente. Realizar isolamento vertical nesse contexto é praticamente impossível”, afirma Marques.


TV Cultura traz documentário inédito sobre Wuhan, epicentro do coronavírus

Guilherme Dearo
Exame.com

O documentário mostra a vida da população de Wuhan, confinada em casa por conta do covid-1

(TV Cultura/Divulgação)
Documentário Wuhan - Uma Cidade em Quarentena 

A TV Cultura exibiu  neste sábado(4), às 22h, o documentário inédito “Wuhan – Uma Cidade em Quarentena”, filme sobre a cidade chinesa que foi o epicentro da pandemia do novo coronavírus.

A produção é da rede chinesa CGTN.

O documentário mostra a vida da população de Wuhan, confinada em casa por conta do covid-19, e também apresenta a vida de profissionais que trabalham na luta contra a pandemia.

Um dos personagens é Lao Ji, que cruza a cidade durante as 24 horas, comprando gêneros de primeira necessidade, medicamentos e comida, para cada cidadão que – isolado – pede ajuda.


 (TV Cultura/Divulgação)
Cena de Wuhan, Uma Cidade em Quarentena

Epicentro - 24h em Wuhan | Documentário


Caso você não tenha assistido a exibição pela TV Cultura, você pode  assistir o documentário a seguir, exibido pelo Youtube. 


Neste documentário produzido pela CGTN - China Global Television Network, saiba mais sobre o início da crise de saúde pública na China que se transformou numa pandemia: o COVID-19. 

O novo coronavírus começou a circular durante a temporada de viagens mais movimentada na China, na qual milhões visitam suas famílias no feriado do Ano Novo Lunar. Em meio ao crescimento da epidemia, uma Wuhan sitiada se mobiliza para salvar aqueles que estão no epicentro da emergência. Numa manobra sem precedentes, a China isolou a grande metrópole na esperança de impedir a disseminação do vírus. 

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Brasil contabiliza 10.278 casos confirmados e 431 mortes por coronavírus

Gilson Garrett Jr.
Exame.com

Na avaliação do Ministério da Saúde, São Paulo, Rio, Ceará e Amazonas continuam sendo os estados com maior preocupação de aumento rápido de casos

 (Dado Galdieri/Getty Images)
Quarentena: o Ministério da Saúde orienta que os idosos 
só saiam de casa em caso de necessidade.


O Brasil tem 10.278 infecções confirmadas por coronavírus (causador da covid-19). O dado foi atualizado no balanço diário do Ministério da Saúde, divulgado neste sábado. Pelo quinto dia consecutivo, foram mais de mil novos casos. No último boletim eram 9.056 infectados.

Em uma semana, as mortes quase quadruplicaram, comparando-se os dados entre 28 de março e 4 de abril. O número saltou de 114 para 431. A taxa de letalidade é de 4% e a maior parte dos óbitos é de pessoas com mais de 60 anos com algum problema cardíaco ou diabetes.


Na avaliação do Ministério da Saúde, São Paulo, Rio, Ceará e Amazonas são os estados que deverão apresentar maior preocupação por conta do aumento rápido de casos.

“Estamos percebendo que estes estados devem fazer essa transição para um maior número de casos”, disse João Gabbardo, secretário-executivo do Ministério da Saúde, que comandou a coletiva de imprensa que a pasta promoveu neste sábado.

Segundo ele, a redução significativa da transmissão do coronavírus só vai acontecer quando a população tiver contato com a doença ou quando houver uma vacina. “A covid-19 vai continuar por aí. As pessoas vão ficar doentes, mas nós estamos trabalhando para que elas não adoeçam ao mesmo tempo.” Gabbardo acrescentou que 90% das pessoas que tiverem o vírus não apresentarão sintomas.


Máscara caseira

Com o objetivo de ajudar no combate à disseminação do coronavírus, o Ministério da Saúde vem incentivando o uso de máscaras caseiras, uma vez que há uma falta desse produto em todo o mundo.

Mas para que o uso seja eficiente, são necessários alguns cuidados. Por isso a pasta publicou, nesta quinta-feira, 2, um manual de como fazer sua máscara em casa. O objetivo é que novas produções da mercadoria sejam direcionados aos profissionais de saúde.

No manual, o ministério orienta que a máscara deve ter pelo menos duas camadas de pano, além de ser de uso individual. Os tecidos podem ser de algodão, tricoline, TNT ou outros tecidos, desde que desenhadas e higienizadas corretamente.

Para a lavagem, é recomendado sabão ou água sanitária, deixando de molho por cerca de 20 minutos.

Coronavírus: Chegar ao pico da curva de contágio não encerra quarentena, dizem especialistas

Thaís Cunha e Braitner Moreira
De Milão para a BBC News Brasil


 Direito de imagem AFP Image caption 
A Itália foi um dos países mais atingidos pela covid-19 até agora

Em 11 de março, a Itália se tornou o primeiro país do mundo a entrar em isolamento em meio à crise do coronavírus. Hoje, são 2,8 bilhões de pessoas vivendo em quarentena. Três semanas se passaram e, segundo especialistas ouvidos pela BBC News Brasil, o isolamento deve continuar por mais tempo para evitar uma possível segunda onda de infecções.

Para eles, chegar a um pico de contágio não é sinônimo de reabertura.

A bióloga e doutoranda em epidemiologia Sabrina Simon, que vive em Turim, na Itália, defende que o isolamento continue até que se pare de registrar novos casos da doença. "Se as pessoas voltarem para a rua antes de a doença ser extinta, o país volta a ter mais pessoas suscetíveis a pegar o vírus, e começa uma nova onda epidêmica", explica.

Até agora, autoridades de saúde dividem a população em duas categorias: suscetíveis e imunes. Como ainda não há vacina para o novo coronavírus, são considerados imunes, a princípio, os pacientes que já tiveram contato com o vírus. Ao se isolar pessoas que não pegaram a doença, a ideia é que o vírus não encontre mais pacientes vulneráveis e que as infecções parem de ocorrer.

O pico da curva de contágio indica que um número máximo de pacientes suscetíveis já teve contato com o vírus e que, a partir daí, o Sars-CoV-2 encontrará cada vez menos vítimas. A curva em queda, portanto, indica que, mantendo-se o isolamento, as infecções devem desaparecer.

Mas a tendência de queda não significa a retomada imediata de todas as atividades. "O retorno deve ser muito cauteloso para evitar que a epidemia volte nas semanas seguintes", diz Sabrina.

Quem está imune ao coronavírus?

A imunidade é um mecanismo de resistência a infecções. Quando aparecem novos vírus, como o Sars-CoV-2, esta resposta deve ser adquirida por meio da produção de anticorpos. "Uma vez que o paciente tenha contato com a infecção, ele se torna resistente a ela", explica o imunologista Ricardo Gazzinelli, presidente da Sociedade Brasileira de Imunologia e professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

A resistência de cada pessoa varia conforme a infecção.

No caso da gripe comum, por exemplo, as campanhas de vacinação são feitas uma vez por ano porque o vírus sofre transformações neste período. Outros vírus se mantêm mais estáveis e, por isso, a pessoa que já teve algum contato com ele adquire imunidade.

 Direito de imagem CRUZ VERMELHA/DIVULGAÇÃO 
Image caption 
Chegar ao pico do contágio não levará automaticamente 
ao fim da quarentena e do isolamento social

É com base nesta "memória" do corpo humano que a curva de contágio tem sido estudada. Os especialistas acreditam, baseados no primeiro vírus da Sars, em 2002, que quem já entrou em contato com o novo coronavírus não manifestará a doença no futuro.

"Mas nós só vamos ter certeza com a observação de quem teve a infecção", pondera Gazzinelli.

Para ele, a melhor forma de garantir a imunidade da população em larga escala seria uma vacina, solução capaz de gerar esta "memória" sem provocar novas infecções. "Quanto mais gente na população for imune, menos transmissões", explica.

Sem vacina e sem isolamento, o cenário, segundo o imunologista, seria catastrófico.

"Se fosse uma infecção suave, dava para todo mundo pegar e ficar imune. Mas, muitas vezes, pode ser grave. Seriam milhões de doentes e milhares de mortos. A imunidade de rebanho não funciona na base da infecção. É inadmissível ter isso às custas da infecção", afirma Gazzinelli.

Exame de sangue para verificar anticorpos

O governo italiano tem, hoje, seis ensaios clínicos em andamento em busca do tratamento adequado para a Covid-19. Neles, tem sido possível testar a resposta de medicamentos em voluntários humanos.

Em entrevista coletiva na noite de segunda-feira (30), o presidente do Conselho Superior de Saúde da Itália, Franco Locatelli, informou que um deles é um teste sorológico para o novo coronavírus: um exame de sangue capaz de definir quantos indivíduos em determinada região já apresentam anticorpos no sangue.

"Vamos entender a difusão do coronavírus e ganhar informações sobre a imunidade de rebanho, usando dados sólidos para elaborar estratégias fundamentadas que possam reabrir as atividades econômicas do país", disse.

Os primeiros testes começaram a ser feitos nesta semana com os 54 mil servidores da saúde da região Vêneto.

 Direito de imagem AFP/GETTY IMAGES Image caption
Bilhões de pessoas no mundo todo estão vivendo com alguma restrição 
de mobilidade no momento por causa da covid-19

O problema deste exame de sangue é que a produção de anticorpos para o novo coronavírus pode ser lenta em relação ao momento do contágio. Ou seja, uma pessoa infectada pode ter desenvolvido anticorpos e ainda ter o vírus no corpo. E pode, portanto, contagiar outros indivíduos, segundo estudos técnicos anunciados durante a semana tanto pela Associação Italiana de Microbiologistas Clínicos quanto por Giulio Gallera, secretário de Saúde da região mais afetada pelo vírus, a Lombardia.

Desta forma, o resultado do teste seria confiável dentro de uma pesquisa epidemiológica ampla, por exemplo, mas não serviria para o diagnóstico de um indivíduo. Na Itália, o exame considerado seguro é feito com a análise da mucosa da faringe, onde se pode identificar a presença do vírus, não do anticorpo.

Quando acaba a quarentena?

Assim, chegar ao pico do contágio não levará automaticamente ao fim da quarentena e do isolamento social.

O governo italiano tem evitado fazer previsões públicas de quando a curva de contaminação no país chegará ao pico. Nesta sexta-feira (3), o chefe da Defesa Civil, Angelo Borrelli, disse ao canal estatal Rai 1 "acreditar fortemente" que a quarentena poderá ser estendida até 1º de maio. "A situação agora aparenta estar estável, precisamos ver quando começa a diminuir. Não quero dar datas, mas daqui até 16 de maio poderemos ter dados positivos que nos aconselhem a retomar as atividades e começar a fase 2", declarou.

O governo chama de "fase 2" a reabertura gradual do comércio, desde que garantindo a distância de um metro entre clientes. Escolas, academias e cafés ficariam no fim da fila, devido à ameaça de contágio causada pela proximidade dos alunos e clientes.

Oficialmente, o confinamento e o fechamento das atividades não essenciais em toda a Itália vai até 13 de abril, logo após a Páscoa, o que representa um adiamento em 10 dias em relação ao primeiro decreto que colocou o país em quarentena. O anúncio foi feito pelo primeiro-ministro da Itália, Giuseppe Conte, em entrevista coletiva por teleconferência, na última quarta-feira (1º).

 Direito de imagem ARQUIVO PESSOAL Image caption
A bióloga Sabrina Simon diz que o pico da doença
 não significa que a quarentena vá acabar

Durante a entrevista, ele voltou a apelar para que a população fique em casa. "Se começarmos a afrouxar as medidas, todos os esforços podem ter sido em vão, então pagaremos um preço muito alto, além do custo psicológico e social. Seríamos forçados a recomeçar", disse o premiê.

A preocupação, segundo Sabrina Simon, é que a Itália esteja mais suscetível à volta da Covid-19 no momento em que as fronteiras sejam reabertas. "Dependendo de quantas pessoas voltarem, a segunda onda [de contaminações] pode vir muito pior", explica. "Se chegar outra pessoa com o vírus à Itália, começa mais uma curva epidêmica, como ocorreu na primeira vez."

O epidemiologista Gianni Rezza, chefe do departamento de doenças infecciosas do Instituto Superior de Saúde da Itália, chegou a defender que as estratégias de contenção fossem feitas de forma simultânea em toda a União Europeia, mas a medida não foi tomada.


A importância de ficar em casa

Todas as projeções dos epidemiologistas para a Itália são baseadas em um contexto no qual a população respeite as regras rígidas de isolamento social.

Segundo Sabrina Simon, isolar apenas os grupos de risco não ajuda a conter a doença. "Esse tipo de medida não faz sentido. Os idosos morrem mais, mas todo mundo transmite. O vírus não identifica quem é idoso, quem é criança", explica.

 Direito de imagem EPA Image caption
Na Bélgica, caixões de vítimas de covid-19 estão sendo 
marcados com sinais de "perigo biológico"

"No ponto que está o Brasil, tenho tudo para acreditar que a epidemia será a pior do mundo", diz Sabrina.

O imunologista Ricardo Gazzinelli também critica o isolamento parcial da população: "O problema é que o grupo de risco acaba tendo mais contato com o vírus. Se, por exemplo, uma criança que vive com os avós volta às aulas, ela pode pegar coronavírus e transmitir para os mais velhos".

Os especialistas ouvidos pela reportagem também demonstram preocupação com o sistema de saúde de países que não optarem pelo isolamento completo. "Os efeitos indiretos são enormes", diz Gazzinelli. "O número alto de infecções leva a uma sobrecarga que dificulta o atendimento para todos, até quem não tem coronavírus."

'Fim do isolamento social deve ser gradual', diz diretor-geral do Hospital Sírio-Libanês

André Vieira, 
O Estado de S.Paulo

Paulo Chapchap diz que a obrigação de manter o distanciamento social é necessária para evitar o colapso do sistema de saúde, principalmente o público, diante do novo coronavírus. Sírio-Libanês tem cerca de 120 internados com a doença

Entrevista com
Paulo Chapchap, diretor-geral do Hospital Sírio-Libanês

  Foto: Lilo Clareto/Hospital Sírio-Libanês
Diretor-geral do Hospital Sírio-Libanês, Paulo Chapchap 

SÃO PAULO - O diretor-geral do Hospital Sírio-Libanês, Paulo Chapchap, afirma que o pico dos casos do novo coronavírus na região metropolitana de São Paulo se dará, levando em consideração modelos de cálculos, na terceira semana de abril. A estabilidade na curva de crescimento dos casos se prolongará por três a cinco semanas. Só a partir daí, acontecerá o início da queda da curva de forma mais consistente, quando poderia começar gradualmente o relaxamento do distanciamento social. "Só vamos relaxar com o isolamento social quando a curva tiver em franco decréscimo", diz. Em entrevista ao Estado, Chapchap diz que a obrigação de manter o distanciamento é necessária para evitar o risco trazido pelo crescimento exponencial ao sistema de saúde, principalmente o público. 

O Hospital Sírio Libanês, uma das referências no atendimento hospitalar privado no Brasil, triplicou sua capacidade de número de leitos em UTI de 60 para 170, abriu 100 vagas permanentes para médicos e especialistas em saúde, adiou cirurgias eletivas, diversificou sua cadeia de fornecedores de insumos e redirecionou o atendimento aos pacientes com covid-19. "Algumas doenças, como cardio-cérebro vasculares, câncer ou que causam dor, não podem esperar pois poderá piorar o prognóstico. O resto tem de ser adiado", diz Chachap.

Hoje, dos quase 500 leitos em São Paulo, o Sírio tem cerca de 120 pacientes internados com a covid-19.

A seguir, os principais trechos da entrevista.


Qual é a taxa de ocupação hoje do Sírio-Libanês?

Hoje, a taxa de internação é de 55% a 60% e da unidade ambulatorial é de 20%. Essa taxa de ocupação tende a crescer, caso os efeitos da epidemia não sejam mitigados. Temos tido crescimento diário da ocupação dos pacientes da covid-19 entre 10% e 20%, que é a curva contida de crescimento já vista em outros países que adotaram o distanciamento social. Isso já é possível ver nas classes menos vulneráveis.

Quer dizer que já há um achatamento da curva nos pacientes das classes sociais AB?

A gente vê sinais antecedentes, mas não se consegue ter certeza. A mensagem clara é: não podemos relaxar. Talvez seja efeito da mitigação. É importante lembrar que há um período silencioso entre a contaminação e a doença, entre a doença e a necessidade de atendimento no hospital e do hospital para a curva de mortalidade. Esse período progressivo de silêncio não é de duas semanas. Esse efeito é maior, de três a cinco semanas. Na Itália, se relaxou no período de duas semanas.

Quando acontece o pico dos casos no Brasil?

Trabalhamos com a terceira semana de abril. Não quer dizer, com isso, que vamos relaxar nessa ocasião. Só vamos relaxar com o isolamento social quando a curva tiver em franco decréscimo. Por que isso? É quando a gente teria a tal imunidade de rebanho, uma quantidade de gente que já se recuperou da doença.

E a proposta de isolamento vertical?

É besteira. Primeiro, porque é impossível em qualquer lugar do mundo. Mais problemático ainda é quando você não testa todo mundo.

Quando a gente poderia suspender as medidas de isolamento?

A grande maioria já concordou com a ideia de isolamento total. Com base nos dados científicos, quando o número de doentes precisando ir ao hospital e o número de mortes começar a cair de forma consistente, aí atingimos o ponto em que o número de pessoas infectadas passa a diminuir. Esse será o momento de discutir a suspensão das medidas de isolamento e no qual vamos começar primeiramente a liberar. Primeiro, as pessoas de menor risco que já tiveram a infecção e estão imunes. Vamos liberando aos poucos. Quais os últimos grupos a serem liberados? As aglomerações coletivas. E de forma controlada. Os restaurantes, por exemplo, com distanciamento de mesas. Quem vai servir? A população mais jovem, de menor risco. Só depois, os bares, shoppings, de tal forma que num espaço de em três a cinco semanas poderemos liberar a todos de uma forma mais generalizada.


Quando seria isso?

É difícil e perigoso fazer tais inferências. Mas, se os modelos apontam um pico na terceira semana de abril, espera-se que o tal “achatamento” da curva - quando há a manutenção do número diário dos infectados - por duas a três semanas. Isso seria no meio de maio. A partir daí, começa o processo de decréscimo em duas a três semanas de forma consistente. Só então, poderia começar o relaxamento do distanciamento social.

Isso vale para todo o Brasil?

Há um complicador nesse raciocínio. Temos uma diferença das classes sociais. Poderá ter uma curva para a classe AB e outra para as classes mais vulneráveis. Esse efeito virá depois, com mais dificuldades de mitigação por causa das condições menos favoráveis.

Como fazer a gestão disso?

Estamos agindo na prevenção primária que é o isolamento das pessoas. Mas tem um segundo aspecto que é a prevenção de alguém em casa que testou positivo ou está com um quadro clínico compatível com a covid-19. O que se faz? Coloca em um quarto separado, usam-se utensílios separados e alguém cuida desta pessoa com relativo distanciamento físico. Na classe AB, dá para fazer assim.

Como fazer nas classes mais vulneráveis?

Temos estudado projetos em favelas para permitir o distanciamento físico de pessoas com sintomas e que não possam voltar à sua casa, na qual em um cômodo dormem 4 a 5 pessoas. A ideia é ter locais de convivência, como grandes dormitórios ou escolas públicas, com distanciamento adequado, padrões de higiene, cuidadores com máscaras, etc, ajudando a essas comunidades.

E os hospitais de campanha?

Temos ajudado a organizar. A ideia é que eles sejam centros de atendimento de baixa complexidade, deixando com os hospitais os casos mais complexos.

Faltarão médicos?

É uma hipótese. Mas é bom lembrar que no Brasil é muito provável que os picos ocorram em tempos diferentes e locais diferentes, pelo fato de o país ser grande e diverso. Do ponto de vista de pessoas, equipamentos e insumos, é provável que as necessidades sejam prementes em momentos diferentes e vamos ter, com uma liderança central do Ministério da Saúde, de suprir outros locais que venham a enfrentar o problema mais pra frente. Quando se olha para as cidades do interior de São Paulo, elas estão bem atrás na curva do desenvolvimento, em relação à capital e à região metropolitana. Toda a epidemia tem seu ciclo. Se os ciclos não acontecerem de forma sincronizada, será bom para o País.


E os impactos econômicos deste isolamento?

Os efeitos econômicos de uma mitigação são muito menores do que uma recuperação econômica, como na Itália. Ninguém vai aguenta ver corpos empilhados e sair nas ruas achando que não está acontecendo nada. Isso prolonga o período de lockdown. Se não foi feito antes, fazer depois vai ser tão contundente e por tanto tempo por causa do pânico que o efeito econômico vai ser pior do que prevenção. Toda vez que a humanidade se submeteu a decisão humanista à uma decisão puramente econômica, ela sofreu.





Hospitais municipais de São Paulo têm 1,8 mil funcionários afastados por problemas respiratórios

Redação, 
O Estado de S.Paulo

Dentro desse grupo de profissionais estão 95 casos confirmados de covid-19
  
Foto: HÉLVIO ROMERO/AE
Hospital Municipal do M 'Boi Mirim 

Desde o anúncio do primeiro caso de coronavírus no Brasil, em 26 de fevereiro, até a última sexta-feira, 3, a Autarquia Hospitalar Municipal (AHM) registrou 1.841 funcionários afastados de suas funções por causa de quadros de síndrome respiratória. Esses números incluem ainda pessoas que trabalham nas áreas administrativas e que não têm relação com o atendimento de saúde. Dentro desse grupo estão 95 casos confirmados de covid-19.

Os números fazem parte de um informativo da Secretaria Municipal da Saúde (SMS), que monitora essa situação desde que um paciente retornou da Itália no final de fevereiro com o coronavírus. A AHM é responsável por 19 Hospitais Municipais e quatro Unidades de Pronto Atendimento, que reúnem 19.675 funcionários no total. "Antes da chegada do coronavírus ao Brasil a Autarquia já tinha 652 funcionários afastados, portanto sem nenhuma relação com a pandemia", diz o comunicado.

O boletim sobre afastamento de profissionais de saúde indica ainda que nesse período o "Hospital do Servidor Público Municipal, com 2.586 funcionários, teve 94 afastamentos por síndrome gripal, 11 deles confirmados de covid-19. Os afastamentos no HSPM representam 4% do total", diz, lembrando que ainda não divulgou as informações de outras unidades porque esses números ainda estão sendo compilados.

Segundo a SMS, todos os profissionais que apresentam qualquer sintoma compatível com o coronavírus são testados. Outra medida, feita por meio de uma portaria, estabeleceu que os funcionários acima de 60 anos fossem realocados para ajudar em atividades de retaguarda, como orientação de pacientes por telefone, análise de prontuário, avaliação de resultado de exames, informação sobre alterações para os pacientes, entre outras atividades.


Quais medidas econômicas contra covid-19 já saíram do papel?

Clara Cerioni
Exame.com

Recursos para saúde, novo benefício de 600 reais para trabalhadores vulneráveis e expansão do Bolsa Família estão entre as frentes de atuação


 (Bloomberg / Colaborador/Getty Images)
Coronavírus: benefício emergencial de 600 reais para informais
 deve começar a ser operacionalizado na terça

As consequências da pandemia do novo coronavírus avançam em várias frentes e na mesma rapidez que a própria doença. Não à toa que, há mais de um mês, as principais autoridades do país têm realizado pronunciamentos diários para anunciar novas medidas para mitigar os impactos do vírus.

No início de março, quando o país havia atingido a marca dos 100 casos confirmados da covid-19, o ministro da Economia, Paulo Guedes, declarou que o governo ia reagir “a cada 48 horas”. “Eu gostaria que as principais lideranças políticas do Brasil reagissem também com muita velocidade”, disse na ocasião. 

Até agora, mais de 70 medidas foram apresentadas pelo Ministério da Economia, envolvendo as áreas de saúde, manutenção do trabalho e garantias sociais. No entanto, além dos anúncios é preciso de fato colocá-las em prática e com agilidade, pois a situação é emergencial.

Há três semanas, o Congresso aprovou o estado de calamidade pública que, na prática, autoriza o governo a não cumprir a meta fiscal para este ano.

De acordo com o ministro da Economia, Paulo Guedes, os programas para combate à doença devem chegar a 1 trilhão de reais nas próximas semanas ou meses. Segundo ele, o déficit primário já está em 6% do Produto Interno Bruto. Na próxima terça-feira, 7, há a expectativa de que saia o calendário para o pagamento do principal programa de transferência de renda, que garante um auxílio de 600 reais a trabalhadores informais.

Veja a seguir as principais medidas econômicas anunciadas pelo governo para a pandemia de coronavírus:

Liberações para a Saúde

Desde que a pandemia chegou ao Brasil, o governo federal já anunciou o repasse de ao menos 20 bilhões de reais para o Ministério da Saúde reforçar o combate à doença. Até agora, já foram enviados 5 bilhões de reais. O governo também editou um Medida Provisória que abriu um crédito extraordinário de 9,4 bilhões de reais para a pasta.

As promessas é que mais 4,6 bilhões de reais sejam transferidos do fundo do DPVAT e mais 2,3 bilhões de reais da verba que seria usada para a realização do censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Esses dois montantes, no entanto, ainda não têm prazo para serem enviados.

Nas últimas semanas, o Ministério da Saúde também tem zerado as alíquotas de importação para mais de 100 produtos hospitalares, como máscaras, luvas e respiradores, este último essencial para casos graves da covid-19.

Já o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social anunciou que vai liberar 2 bilhões de reais em empréstimos para empresas privadas do setor de saúde. O programa visa à ampliação imediata da oferta de leitos emergenciais e de materiais e equipamentos médicos e hospitalares. 

“Estamos vivendo uma crise diferente de todas as outras e, nesse caso, o objetivo número zero é saúde. Destinar recursos para a saúde é o mais urgente, depois vem todas as consequências”, diz Marcel Balassiano, economista do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (Ibre/FGV).

Medidas sociais

Em conversa com a EXAME, no quadro exame.talks, o CEO da Gerando Falcões, Edu Lyra, que atua em mais de 70 favelas do país, defendeu que “os mais pobres devem ser o alvo das medidas do governo” e sinalizou que já há famílias que esgotaram seus recursos e “quem tem fome tem pressa”.

Na última semana, o governo foi pressionado para sancionar com urgência a medida com mais capilaridade, que repassa 600 reais durante três meses para trabalhadores informais, intermitentes inativos e microempreendedores individuais.

Apesar de ter sido aprovado pelo Congresso na segunda-feira, o benefício só deve começar a ser operacionalizado na próxima semana.

Segundo a pasta da Economia, essa renda básica emergencial será um dos maiores gastos públicos relacionados à doença e deve consumir 98,2 bilhões de reais. 

Para o Bolsa Família, cuja previsão de orçamento estava próxima de 30 bilhões de reais antes da pandemia, o governo já destinou um reforço orçamentário de 3,1 bilhões de reais. Isso permitirá incluir 1,2 milhão de pessoas no programa social, que garante um repasse mensal de no máximo 178 reais, e outras propostas de aumento da rede de proteção social também circulam entre economistas.

Pesquisadores do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada enviaram uma proposta sugerindo um reajuste de até 29% no critério de acesso e nos valores pagos pelo Bolsa Família para inclusão de mais famílias necessitadas. Além disso, também propõem a criação de um benefício extraordinário de 450 reais por seis meses para todas as famílias com renda de até meio salário mínimo por pessoa.

O governo também prometeu um repasse de 2 bilhões de reais para a área de assistência social, mas ainda não houve a liberação dessa verba.

Manutenção do emprego

O segundo maior gasto público que o governo projeta ter durante a pandemia é com um novo mecanismo que permite suspensão de contrato de trabalho e redução de jornada desde que o emprego seja mantido.

Os benefícios emergenciais devem atingir 24,5 milhões de trabalhadores com carteira assinada, segundo o Ministério da Economia, ao custo de 51 bilhões de reais.

A redução de jornada e salário poderá ser de 25%, 50% e até 70% por até três meses por meio de acordos individuais entre empregador e empregado, ou coletivos. A medida também permite a suspensão dos contratos por até dois meses.

O empregado terá estabilidade no emprego por um período igual ao da redução de jornada ou suspensão de contrato de trabalhadores com remuneração de até três salários mínimos (3,1 mil reais) e também para empregados que recebem duas vezes o teto do INSS (12,2 mil reais).

Como compensatório pela manutenção do posto de trabalho, o governo pagará uma parte do seguro-desemprego a que o trabalhador teria direito se fosse demitido. O programa está valendo porque foi enviado via Medida Provisória e tem 16 dias para ser aprovado na Câmara dos Deputados no Senado antes de perder a validade. Isso porque o Congresso Nacional autorizou mudanças no processo de votação de MPs.

O governo anunciou também um 40 bilhões de reais em créditos financiamento de até dois salários mínimos da folha de pagamento de funcionários de Micro e Pequenas Empresas. No entanto, o BNDES ainda não definiu as regras para a medida ser colocada em prática.


Governo reserva Parque Olímpico e outros 79 imóveis para construção de hospitais de campanha

Lorenna Rodrigues, 
O Estado de S.Paulo

Ministério da Economia selecionou um total de 80 imóveis da União para a construção de hospitais de campanha em todo o Brasil

  Foto: Fábio Motta / Estadão Conteúdo
 Parque Olímpico do Rio de Janeiro  

Brasília, 03/04/2020 - O Ministério da Economia selecionou um total de 80 imóveis da União, entre eles o Parque Olímpico do Rio, para a construção de hospitais de campanha em todo o Brasil. São prédios, terrenos e galpões que estão sem uso, muitos na lista para serem vendidos.

Com a pandemia do novo coronavírus, o governo suspendeu as licitações e repassou a lista ao ministérios da Defesa e da Saúde, que serão os responsáveis pela vistoria das áreas e posterior construção dos hospitais. Isso será feito de acordo com a demanda de cada região, na medida em que a doença avance e a necessidade de leitos aumente.

 “Precisamos ter alternativas para a possibilidade de o sistema público de saúde colapsar. Existem diferentes cenários, quanto mais subir a curva (de infectados), mais necessidade de atendimento. Nesse sentido, o governo já está com a área mapeada”, explica o secretário de Coordenação do Patrimônio da União do Ministério da Economia, Fernando Bispo.

Foram reservados espaços em todas as regiões, em 27 Estados. Na lista, há de prédios históricos a grandes terrenos, como as áreas do Pátio do Pari, com 120 mil m², onde funcionava a Feira da Madrugada, e o Pátio ferroviário de Pirituba, com 31,6 mil m², ambos na cidade de São Paulo.

No Rio de Janeiro, foram selecionadas as instalações do Parque Olímpico da Barra - onde foram feitas competições nas Olimpíadas de 2016 -, o Edifício A Noite (na Praça Mauá), que foi o maior arranha-céu da América Latina na época da inauguração, na década de 1930 e chegou a ser considerado o mais alto edifício do mundo em concreto armado, e até uma área da Quinta da Boa Vista, um parque em São Cristóvão.

Três estádios também estão no grupo: em Curitiba (PR), o Estádio do Paraná Clube (Vila Capanema), em Teresina (PI) o Estádio Rei Pelé (Trapichão) e o Estádio de Futebol Aluízio Ferreira (Aluizão), em Porto Velho (Rondônia). As arenas estão em áreas da União cedidas aos clubes. No caso de Curitiba, a área já foi avocada para ficar na reserva em caso de necessidade.

Segundo Bispo, a ideia é que, nas áreas abertas, sejam construídas estruturas temporárias, como a que está sendo feita no Estádio do Pacaembu, em São Paulo. Já prédios e outras construções podem passar por reformas e adaptações e serem aproveitados como hospitais.

A intenção foi escolher duas áreas em cada grande centro, uma para a triagem e outra para internações, que tenham fácil acesso e proximidade com hospitais e centros de saúde já existentes. Foram reservados espaços em todas as capitais e em grandes centros.

Com o maior número de casos registrados até agora, o Estado de São Paulo é também o que possui mais espaços à disposição. São quatro áreas na capital e 16 no interior. Na cidade de São Paulo, os locais estão em um cinturão na região central: além dos dois terrenos há ainda uma antiga escola na região Sul, na área de Interlagos e da represa Billings, e um sítio com 189 mil m² na Via Anhanguera,

No interior, foram selecionadas áreas em cidades como Campinas, Bauru e Mogi das Cruzes. Também foram reservados antigos galpões do Instituto Brasileiro do Café pelo país, foram selecionados galpões e um edifício da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), em Goiás, e até um clube de servidores, no Distrito Federal.

Na Bahia, um antigo prédio do Dnit, em Salvador está na lista, assim como o Edifício da Sudene, em Recife (PE). No Maranhão, um campo de futebol com 5,9 mil km2 foi reservado em Imperatriz.

Na Região Norte, foram listados espaços como o Armazém Central, em Manaus (AM), e um ginásio em Porto Velho (RO).

De acordo com o secretário, novas áreas poderão ser selecionadas, à medida em que a pandemia avance. O Ministério da Defesa começou agora a vistoria dos imóveis. Em Roraima, um hospital de campanha em área da União já está em fase final de construção pelo Exército. 


Brasil está sem médicos e equipamentos suficientes para conter coronavírus, diz relatório

André Borges, 
O Estado de S. Paulo

Boletim do Ministério da Saúde sobre cenário da pandemia da covid-19 traça cenário crítico



BRASÍLIA – Boletim do Ministério da Saúde concluído ontem sobre o cenário da pandemia do novo coronavírus traça um cenário crítico da situação da saúde no País para lidar com o pico das contaminações, previsto para ocorrer entre o fim de abril e início de maio.

O documento elaborado pela Secretaria de Vigilância em Saúde afirma que a capacidade laboratorial do Brasil ainda é insuficiente para dar resposta a essa fase da epidemia. A Rede Nacional de Laboratório é semi-automatizada, composta pelos 27 Laboratórios Centrais de Saúde Pública (LACENs), Instituto Evandro Chagas e todas as unidades da Fundação Oswaldo Cruz que juntas, em carga máxima, são capazes de processar aproximadamente 6.700 testes por dia.

"Para o momento mais crítico da emergência, será necessária uma ampliação para realização de 30 a 50 mil testes de RT-PCR por dia", afirma o boletim.

O Ministério alerta que "não há escala de produção nos principais fornecedores para suprimento de kits laboratoriais para pronta entrega nos próximos 15 dias". Além disso, afirma que há carência de profissionais de saúde capacitados para manejo de equipamentos de ventilação mecânica, fisioterapia respiratória e cuidados avançados de enfermagem para lidar com pacientes graves de Covid-19.

Outro ponto frágil são os locais de atendimento a casos críticos. "Os leitos de UTI e de internação não estão devidamente estruturados e nem em número suficiente para a fase mais aguda da epidemia", afirma o relatório.

O Ministério da Saúde está buscando parceria público-privada com grandes redes de laboratórios e ampliando a capacidade dos LACENs, Fiocruz e Instituto Evandro Chagas.

Após 37 dias desde o primeiro caso de contaminação, o Brasil acumula um total de 9.056 casos e 359 óbitos. “De acordo com padrão epidemiológico observado por esses primeiros casos, constata-se que a transmissão ainda está na fase inicial em todos os Estados e Distrito Federal”, diz o ministério.

Considerando as fases epidêmicas (epidemia localizada, aceleração descontrolada, desaceleração e controle), na maior parte dos municípios a transmissão está ocorrendo de modo restrito. No entanto, informa o boletim, considerando o coeficiente de incidência nacional de 4,3 casos por 100 mil habitantes, é preocupante a situação do Distrito Federal (13,2/100 mil) e dos Estados de São Paulo (9,7/100 mil), Ceará (6,8/100 mil), Rio de Janeiro e Amazonas (6,2/100 mil) que apresentam os maiores coeficientes. “Nesses locais, a fase da epidemia pode estar na transição para fase de aceleração descontrolada”, afirma.

Interior da Amazônia pode se tornar novo epicentro da pandemia, adverte médico

João Soares
Deutsche Welle

Concentração do atendimento especializado em grandes cidades eleva vulnerabilidade de indígenas que vivem em áreas remotas. Por razões distintas, médicos e invasores de terras são vetores em potencial. 
    

Um índio Munduruku no estado do Pará. Pandemia impôs 
novos desafios para o atendimento de saúde dos indígenas

O velório de uma senhora indígena de 87 anos da etnia Borari mobilizou a vila de Alter do Chão, em Santarém (PA), no dia 20 de março. Centenas de pessoas compareceram para homenagear a idosa, ligada ao folclore local. Apesar da perda, o clima era festivo, com direito a uma roda de carimbó. Passados dez dias, o governo do Pará anunciou seu diagnóstico tardio de infecção pelo novo coronavírus.

"Santarém pode se tornar um grande epicentro de covid-19 no interior da Amazônia”, avalia o neurocirurgião Erik Jennings. No Hospital Regional do Baixo Amazonas (HRBA), onde o médico trabalha, há dois internados com sintomas graves, sendo um caso confirmado, que estiveram na cerimônia.

O prognóstico de Jennings leva em consideração três fatores. A cidade recebe cerca de 300 mil turistas por ano. Além disso, é o principal polo de comércio e serviços da região. Por fim, Santarém representa a única opção de atendimento especializado para 1,1 milhão de pessoas em 20 municípios do oeste do Pará, região com alta concentração de terras indígenas.

"Não aparelhamos as aldeias com o mínimo de recursos tecnológicos e humanos para resolver as coisas nas comunidades. A estrutura de assistência à saúde indígena foi criada em cima de um modelo que não dá certo nem para o branco em momentos de pandemia”, critica.

Com apenas 20 leitos de UTI para adultos no HRBA e outros sete no hospital municipal, o sistema hospitalar pode colapsar em breve. Havia quatro casos confirmados até esta sexta-feira (03/04). A sobrecarga compromete a resposta ao coronavírus e também o atendimento regular.

Jennings divide seu tempo entre o centro cirúrgico do HRBA e um pequeno hospital criado dentro da Terra Indígena Zoé, comunidade que vive isolada na Amazônia, também no Pará. Seu trabalho na aldeia começou há 20 anos, de forma voluntária, tendo sido posteriormente inserido na estrutura da Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai), vinculada ao Ministério da Saúde.

Desde 2007, a unidade realiza cirurgias e exames complexos, em diálogo com as cosmovisões e costumes da comunidade. A iniciativa pioneira serviu como referência para recomendações da ONU e do Ministério sobre a assistência de saúde a povos isolados e de recente contato


O médico Erik Jennings e indígenas na terra Munduruku.

O objetivo da iniciativa era descentralizar o atendimento especializado dos hospitais das grandes cidades, o qual impõe a necessidade de deslocamento e eleva o risco de contágio para povos sem memória biológica, que podem ser dizimados por uma simples gripe. "Os indígenas que precisarem sair de uma aldeia para receber atendimento serão expostos no avião, na ambulância e, depois, no hospital, onde pessoas livres de covid-19 serão contaminadas”, alerta Jennings.

Médicos são vetores em potencial

Além do eventual deslocamento de indígenas para hospitais, o trabalho dos profissionais da área médica que viajam para as aldeias é fonte de grande preocupação. O primeiro caso de coronavírus confirmado entre indígenas foi justamente de uma agente de saúde indígena do Amazonas.

Ela e outras 26 pessoas vinham sendo monitoradas após terem tido contato com um médico que trabalha no Distrito Sanitário Especial Indígena (DSEI) da região e foi diagnosticado com o Covid-19 após retornar de férias.

Em áreas remotas da Amazônia, onde as equipes de saúde vinculadas aos DSEIs costumam passar 15 dias corridos nas aldeias, foi determinada a extensão desse período para 30 dias e o isolamento no município mais próximo durante a quinzena de folga. O objetivo é reduzir os riscos gerados pelos deslocamentos. Não está claro, porém, como será custeada a estadia dos profissionais em cidades onde não residem.

"As equipes estão muito confusas. Há profissionais comprando máscaras do próprio bolso, pela carência de Equipamentos de Proteção Individual (EPIs). Outros têm medo de estarem assintomáticos e levarem o vírus para as aldeias”, conta Marina Corradi, que acompanha o trabalho de 16 médicos supervisores do programa Mais Médicos no Pará e Amapá.

Na última quinta-feira (02/04), a Sesai anunciou a distribuição de kits de testagem rápida para detecção do Covid-19 entre as equipes que visitam as aldeias, além da aquisição de insumos e EPIs.

A ideia é garantir que os profissionais de saúde não levem o vírus para as comunidades atendidas. Entretanto, também na quinta, o Ministério da Saúde informou que os 500 mil testes rápidos distribuídos pelo país apresentam 75% de probabilidade de erro em resultados negativos para o novo coronavírus.

Pandemia ofusca problemas crônicos

Enquanto a sociedade brasileira tenta se adaptar ao distanciamento social para reduzir a propagação do novo coronavírus, grupos criminosos que atuam em terras indígenas parecem ter intensificado suas atividades. Eles também representam vetores em potencial da doença para os povos indígenas.

A DW Brasil noticiou, recentemente, que o garimpo ilegal aumentou na Amazônia durante a pandemia. Na última terça-feira (31/03), o líder Zezico Guajajara foi assassinado a tiros na Terra Indígena Araribóia (MA), região que é alvo do interesse de madeireiros e havia registrado um crime semelhante contra outra liderança em novembro do ano passado.

"As redes criminosas irão perceber uma queda no risco de responsabilização, e certamente verificaremos uma intensificação das atividades criminosas no entorno e dentro das terras indígenas”, afirma Danicley Aguiar, membro da Campanha da Amazônia do Greenpeace.

O ativista chama atenção para a decisão do Ibama de reduzir os esforços de combate ao crime ambiental durante a pandemia, anunciada em março, em meio ao déficit de 2 mil servidores e cortes orçamentários que afetam a autarquia.

Uma situação que demanda atenção especial é a dos povos que vivem em total isolamento. Especialistas têm alertado sistematicamente para o risco de genocídio dessas etnias caso sejam alcançadas, como aconteceu ao longo da história brasileira.

No dia 26 de março, o Ministério Público Federal pediu abertura de inquérito à Polícia Federal para investigar a denúncia feita por lideranças indígenas sobre uma expedição preparada pelo missionário americano Andrew Tonkin a terras indígenas no Vale do Javari, o que fere a política de não contato estabelecida pela Constituição de 1988.

Em outubro do ano passado, o presidente da Funai, Marcelo Xavier, exonerou da coordenação de isolados o servidor Bruno Pereira, que estava no cargo há 14 meses e chefiou a maior expedição de contato com esses povos dos últimos 20 anos. Pela primeira vez desde a criação do cargo, um nome externo ao quadro técnico foi nomeado por Xavier: o missionário evangélico Ricardo Lopes Dias.

"Apesar do nome — Fundação Nacional do Índio —, a Funai abandonou seu objetivo principal no atual governo, de oferecer a proteção e vigilância dos territórios dos povos indígenas do Brasil. Não é um órgão confiável para nós”, afirma Nara Baré, coordenadora-geral da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (COIAB).

Procurado pela DW Brasil, o Ministério da Saúde informa que têm sido frequentes a detecção e correção de possíveis problemas e a realização de novas ações, baseadas nos protocolos estabelecidos pelo órgão para o combate ao coronavírus, respeitando as especificidades dos povos indígenas. Até esta sexta-feira (03/04), havia 22 casos suspeitos de indígenas contaminados e 19 descartados, além do já confirmado no Amazonas.

A morte da indígena de 87 anos não consta nesse grupo. A Sesai local informou que estava apenas contabilizando casos de indígenas “aldeados”, apontando que aqueles que vivem em cidades são atendidos pelo Sistema Único de Saúde.

FALTA DE CONSCIÊNCIA 3: Na periferia, comércio reabre aos poucos e moradores vão às ruas para garantir sustento

Tulio Kruse, 
O Estado de S.Paulo

Moradores relatam retorno gradual do movimento ao longo da semana; para muitos, continuar trabalhando é a única forma de sobreviver, mas especialistas veem riscos para a saúde de quem vive nesses bairros

  Foto: DANIEL TEIXEIRA/ESTADÃO
A família Santos Botelho, em frente à casa de dois cômodos na 
Favela Gato Preto, onde moram; com volta do comércio no bairro, 
famílias estão mais vulneráveis à epidemia do coronavirus  

Na cama que divide com três filhos, a dona de casa Luciana Santos Botelho, de 45 anos, tem passado as últimas noites em claro. Ela respira o ar abafado do quarto onde a família se aperta, pensa nas dívidas e na epidemia que se espalha no Jardim dos Francos, na zona norte paulistana, onde mora. 

Ali, embora os casos do novo coronavírus tenham se multiplicado, o comércio aos poucos volta à atividade, e o risco para a família Santos Botelho tem aumentado.

“O que me tira o sono é o aperto aqui, porque nós moramos em dois cômodos para muita gente, e não ter um lugar melhor para eles”, diz Luciana. São oito pessoas – a mãe, três moças e quatro meninos – para o barraco de 4 por 8 metros. Com o fim da merenda na escola das crianças, todos comem mal na casa. Ela só consegue comida no descarte de um supermercado e com a mãe, a faxineira Maria Raimunda, de 65 anos, que ainda usa o transporte público todos os dias para ir ao trabalho.

A quarentena não durou muito para moradores de alguns bairros da periferia. Nos arredores da Favela Gato Preto, onde mora Luciana, já é possível ver bares abertos, e filas de clientes dentro das barbearias, mesmo com metade do portão fechado. Aos poucos, as ruas que concentram o comércio da comunidade voltam a ter movimento. À noite, carros de som e lojas de bebida voltaram a fazer pequenas festas. 

“Na periferia, temos muitos estabelecimentos pequenos, e as pessoas dependem disso. Parte acabou reabrindo, com muitos preocupados em não conseguir manter o sustento da família”, diz o líder comunitário Henrique Deloste, que mora na Brasilândia. Ele disse que equipes da subprefeitura têm orientado os comerciantes a fechar, “mas sem trabalho e preocupados com as contas da família, muitos comerciantes acabaram reabrindo”. 

O cenário é o mesmo nas duas maiores favelas da capital, Heliópolis e Paraisópolis. Moradores relatam um retorno gradual do movimento ao longo desta semana, após o fechamento de bares, restaurantes e comércios não essenciais ter sido decretado no município. Durante o fim de semana anterior, houve carreatas pedindo a reabertura do comércio na cidade, e o presidente Jair Bolsonaro chegou a visitar comerciantes do Distrito Federal. 

  Foto: Werther Santana/Estadão
Movimento em São Miguel Paulista, na zona leste paulista; aos poucos, 
comércio na periferia da capital voltou à atividade em meio à pandemia do coronavírus 

 “Está aumentando (o movimento) porque está faltando dinheiro”, diz Igor Amorim, membro da união dos moradores em Paraisópolis. “O presidente dizer que é uma ‘gripezinha’ traz problema, porque o povo quer sair mesmo. O movimento está muito alto, muito diferente da semana passada para cá.” 


Bairros mais pobres têm registros de covid-19

O novo coronavírus já atingiu esses bairros. Um dos casos é o da professora Michele Fernandes Teixeira, de 38 anos. Ela foi diagnosticada por meio de uma tomografia no pulmão, após ir a dois médicos com febre, dor no corpo e tosse. Moradora do Jardim dos Francos, ela hoje passa a maior parte do dia no quarto, onde deve permanecer por mais dez dias, mas divide o único banheiro da casa com o marido e os filhos. 

“O pessoal está na rua jogando bola, e no sábado estava a maior música na rua”, conta Michele. “As pessoas estão achando que é brincadeira, até ter algo muito próximo delas, elas não percebem o quanto esse assunto é sério.”

Para muitos, porém, seguir trabalhando é visto como a única forma de sobreviver. Aos 77 anos, o metalúrgico aposentado Jair Araújo continua saindo de casa para visitar a igreja, uma praça e o posto de saúde. Ele complementa a renda de aposentadoria com os bicos de pedreiro e jardinagem no bairro.

O dinheiro extra, que chega a ultrapassar R$ 700, ajuda a sustentar a casa, onde moram 15 pessoas. De vez em quando, ajuda a completar o valor da prestação do carro da filha ou a cesta de remédios para os parentes. Ele parece convencido de que é ficar parado que o deixaria doente.

“Eu uso a máscara, mantenho distância, não fico no meio de aglomerações”, conta, despreocupado. “O meu objetivo é trabalhar, doa a quem doer, com dignidade e honestidade.” 

  Foto: DANIEL TEIXEIRA/ESTADÃO
O metalúrgico aposentado Jair Araújo, de 77 anos, que continua fazendo bicos
 como pedreiro em meio à pandemia do novo coronavirus  


Volta do movimento aumenta risco da pandemia

O epidemiologista Bernardino Alves Souto, da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), alerta que a volta do movimento no comércio pode ter consequências mais graves para a comunidade. Segundo ele, estudos apontam que a mortalidade pela covid-19 é mais alta em bairros mais populosos, em que mais pessoas estão concentradas em um espaço pequeno.

“Se elas não levam a sério a quarentena, o risco da epidemia se disseminar de uma maneira mais intensa e mais grave é maior para a própria comunidade”, afirma. Souto também diz que não faz sentido que a quarentena vigore em apenas alguns bairros da cidade. “A negligência em um bairro significa risco para o outro também.”

2 mil agentes fazem fiscalização

Em nota, a Prefeitura disse que cerca de 2 mil agentes têm trabalhado na conscientização de ambulantes e comerciantes para manter estabelecimentos fechados. Até o momento, segundo a gestão municipal, 33 lugares foram interditados por não acatar a decisão de fechamento, e uma empresa foi multada no valor de R$ 9.231,65.

“A população tem colaborado com a determinação dos decretos municipais” , diz a Prefeitura. “Os locais que descumprirem o exposto no decreto estão sujeitos à interdição imediata de suas atividades e, em caso de resistência, cassação do alvará de funcionamento.”


FALTA DE CONSCIÊNCIA 2: Bares e restaurantes de SP ignoram quarentena e servem bebida e alimentos

Priscila Mengue, 
O Estado de S.Paulo

Parte dos estabelecimentos permite que clientes consumam em mesas dispostas na entrada; outros ‘escondem’ frequentador atrás de portas

  Foto: Priscila Mengue/ESTADÃO
Bares ignoram decreto e servem bebida em São Paulo 

SÃO PAULO - A quarentena no Estado de São Paulo contra a pandemia do novo coronavírus chega ao 12º dia neste sábado, 4, com cumprimento parcial por parte dos afetados. Entre os setores mais resistentes, estão pequenos bares, lanchonetes e restaurantes da capital paulista, que adotaram “jeitinhos” para continuar servindo alimentos e bebidas no local - o que é vetado.

O Estado percorreu vias da região central e do distrito de Pinheiros entre as 12 e as 15 horas da sexta-feira, 3, período em que avistou ao menos 20 estabelecimentos que descumpriam o decreto estadual. Os espaços permitiam o consumo de alimentos no balcão ou em mesas dispostas no limite entre a área interna e a calçada. 

Na República, por exemplo, um bar na Rua Bento Freitas baixou parcialmente as portas, mas não conseguiu esconder um cliente que consumia um pão na chapa e tomava um café no balcão. Perguntado, um funcionário disse que está servindo apenas uma pessoa por vez na parte de dentro do estabelecimento e que a maioria dos atendimentos são por delivery.

Caso semelhante se repetiu na Rua Xavier de Toledo, nas proximidades da Estação Anhangabaú. O restaurante impedia a entrada de clientes na área interna criando uma espécie de barreira de mesas, nas quais justamente servia cachaça e cerveja em copos de vidro para dois clientes - ambos idosos. Os funcionários falaram que era “exceção” por se tratar de “amigos da casa”.

“O limão dizem que protegem, o álcool dizem que protegem também (contra o covid-19)”, brincou um dos clientes, que disse ter 72 anos. “Vim resolver uma coisa e aproveitei para encontrar um amigo, mas a gente fica bem longe um do outro, nem beijo na boca a gente dá”, ironiza. “Minhas filhas não sabem (que está fora de casa). Se soubessem, tinham me amarrado no pé da cama.”

A situação também se repetia perto dali, na Avenida São João. Nas quadras entre o Largo do Paiçandu e a Rua Ana Cintra, ao menos cinco bares repetiam o procedimento.

O funcionário de um dos locais justificou que servia as bebidas em copos plásticos e que não conseguiria controlar o comportamento dos clientes, que colocavam os copos sobre as mesas que bloqueavam a entrada, aglomerando-se. “Da porta para fora, eles podem não podem fazer nada”, justifica um frequentador. 

Também sobre as mesas de madeira que bloqueavam a entrada, outro bar da mesma via colocava não somente copos de vidro como um prato de cerâmica com diversos cortes de carne. O estabelecimento, de pequeno porte, reunia seis homens na entrada e justificou que a maioria dos clientes compra para levar.

Situações do tipo também foram vistas na Rua Augusta, na Barra Funda, na Santa Cecília, na Bela Vista e em dois pequenos restaurantes de Pinheiros - todos voltados para um público de classes média e baixa. Em contraste aos que burlam o decreto, outros chegavam a usar fitas para impedir a aproximação de clientes da área interna ou entregavam os pedidos por pequenas janelas entreabertas.

DECRETO

Quando anunciou quarentena, que permanece ao menos até 7 de abril, o governador João Doria (PSDB) ressaltou que estabelecimentos não podem servir bebidas e alimentos para consumo no local e pediu que comerciantes sejam “criativos” e “solidários”. 

"Serviços de alimentação preparada deverão ser suspensos e, se desejarem, transformados em serviços de delivery. Isso implica que bares, cafés e restaurantes em todo o Estado de São Paulo devem fechar as suas portas (...), mas, se desejarem, poderão funcionar através de delivery." 

  Foto: Priscila Mengue/ESTADÃO
Bares ignoram decreto e servem bebida em São Paulo 

Na sexta-feira, 3, o prefeito de São Paulo, Bruno Covas (PSDB), disse, em coletiva de imprensa, que a gestão municipal está com 2 mil fiscais das subprefeituras para garantir o cumprimento da quarentena e que denúncias podem ser feitas pelo serviço 156. A orientação é fechar o local infrator e, em caso de reincidência, cassar o alvará de funcionamento e encaminhar o caso para a Polícia Civil.

"Essa não é questão de responsabilidade exclusiva do poder pública, embora a gente não abra mão da nossa responsabilidade, mas é também da população”, afirmou. “É um ato humanitário poder respeitar essa quarentena.”

MOVIMENTO

Moradores e frequentadores da região central dizem que o movimento de carros e pessoas cresceu nos últimos dias. “Aumentou muito, está um absurdo. Antes de ontem, você olhava aqui (Largo do Paiçandu) e não via um carro subindo. Não tinha isso, de gente andando pra lá e pra cá”, comenta o empresário Sérgio Schumann, de 67 anos. “Eu tinha certeza que, depois de ontem (do posicionamento do Ministério da Saúde sobre máscaras de pano), todo mundo estaria de máscara hoje.”

Já na Vila Madalena, na zona oeste, era raro encontrar um pedestre e grande parte dos bares e restaurantes estava fechado até mesmo para serviços de entrega. “Está um eterno domingo. Em uma sexta-feira, já estaria um movimento meio de happy hour. Só aqui, a gente costuma servir uns 120 almoços por dia”, conta o chef Filipe Leite, de 34 anos, que agora prepara pratos apenas para delivery. “Costuma ser um bairro mais movimento de pedestre, até porque tem muito escritório pequeno (no entorno).”

Leite conta, contudo, que percebeu o trânsito mais intenso do que nos dias anteriores. “Foi o dia mais movimentado para chegar (do centro, onde mora, até o restaurante). Infelizmente.”

Mesmo com a suspensão do rodízio, a cidade de São Paulo não tem enfrentado engarrafamentos na quarentena. Segundo dados da Companhia de Engenharia de Tráfego (CET), a capital não teve registros de lentidão na sexta-feira.