sexta-feira, janeiro 04, 2013

O ano novo dentro de você


Fernando Gabeira
O Estado de S.Paulo

"É dentro de você que o Ano Novo cochila e espera desde sempre", diz a propaganda da TV, usando o verso do poeta Carlos Drummond de Andrade, que faria 100 anos em 2012. O anúncio usa o último verso do poema de Receita de Ano Novo.

Aceito a orientação do poeta e concordo com ele quando diz que não precisa fazer listas de boas intenções nem acreditar, parvamente, que por decreto de esperança, a partir de janeiro, as coisas mudem e seja tudo claridade. Há algo novo de Drummond para cá. Ele escreveu: "Ao telefone, perdeste muito, muitíssimo tempo de semear".

Hoje o telefone é um instrumento de trabalho. Mas nos aeroportos, ruas e estradas perdemos muito tempo de semear. Nos aeroportos há espera no saguão, nos ônibus que nos conduzem a bordo e nas poltronas, antes de o avião decolar. Nas ruas de quase toda grande cidade brasileira o trânsito é infernal. Não vejo esperança no horizonte. O governo continua isentando a indústria de carros e estimulando a venda em 70 prestações.

No meu tipo de trabalho, o melhor guia não é um poeta, mas um treinador de futebol. Gentil Cardoso dizia: "Quem não se desloca não recebe". É sempre possível atenuar usando bike ou motoneta no lazer e nas tarefas domésticas. Mas com equipamento pesado nas costas, sem carro ou avião, não posso deslocar-me e receber a bola. Quase nunca é possível usar o saguão de um aeroporto para trabalhar. Os portões de embarque mudam constantemente. É preciso interromper e sair rápido para não perder o voo.

São lamentos de um trabalhador. Quem sabe o PT não os leva em conta, apesar de estar me deslocando sempre a serviço da mídia golpista, da elite reacionária, enfim de todos esses vilões que reaparecem toda vez que os companheiros são colhidos em mais um escândalo.

A favor do governo, no tema mobilidade, lembro que Dilma decidiu privatizar dois aeroportos e prometeu construir 18 regionais. Se tudo der certo, ainda não será neste ano que poderemos colher os frutos. Foram tão lentas as decisões, faz tanto tempo que a demanda crescente expõe a vulnerabilidade dos aeroportos.

No caso dos automóveis, a sensação que tenho é de que Dilma alimenta a utopia de um carro para cada pessoa. No futuro próximo muito mais gente vai compreender como é insustentável essa política. As ruas ensinam. Dilma não as tem frequentado nestes dois anos.

Os companheiros caminham para o modelo econômico com ênfase no papel do Estado, na criação de empresas oficiais e formação de um setor fortemente apoiado pelo BNDES. A discussão econômica é central no momento. O PT venceu as eleições, o governo tem apoio da maioria, é legítimo que tente o seu caminho. O fato é que a economia não cresceu no último ano. O caminho está errado? É uma leitura equivocada da crise econômica de 2008? Esse é o debate mais frequente. Mas existe outro, também essencial: que empresas o BNDES está financiando e em que condições?

Baseado no fato de que o dinheiro é público, o Ministério Público já fez essa pergunta e o BNDES afirmou que tais dados são sigilosos. E a lei de acesso aos dados do governo? Não pegou? Como ter uma visão desse complexo econômico construído com financiamento público sem saber para onde e em que quantidade vão os recursos?

Dilma sempre associou sua imagem ao interesse pela energia. Mas como na campanha foi chamada de mãe do PAC, talvez tenha atravessado os papéis e se sinta mãe onde era técnica. A energia no Brasil é cara. O forte calor aumentou em 8% o consumo no Sudeste. Uma redução no preço será um alívio para todos. Do ponto de vista eleitoral, baixar o preço da energia é ótimo para o governo. Mas não precisa ser um desastre para quem critica sua tática. Basta defender uma redução cuidadosa, sobretudo nesta conjuntura.

Preocupados em resistir ao julgamento do mensalão, os companheiros não se deram conta de que a luz andou apagando aqui e ali, que os reservatórios estão baixos e a chuva real será menor que a esperada. Uma queda de braço no momento pode ser ruim para todos. A popularidade a autoriza. Mas popularidade, com tudo o que implica, é como um vinho que deve ser consumido com moderação.

Na esfera política, os amplos setores do PT que resistem ao julgamento do mensalão estão se queimando. Parecem um pouco aqueles dirigentes de escola de samba que não se conformam com o resultado do júri e batem boca, com o palco já desmontado. O conforto eleitoral estimula avaliações amadorísticas do quadro político pós-mensalão. José Dirceu aparece de punho erguido em foto de jornal. Ele vê o mensalão como um elo na história das lutas da esquerda. O punho erguido foi a saudação dos comunistas. Um atleta negro americano o ergueu ao vencer a Olimpíada. O gesto era usado contra Franco na Guerra Civil Espanhola. O mensalão não pertence à história de lutas da esquerda, mas ao seu extenso rosário de erros. Independente do juízo sobre o comunismo, todos sabem a diferença entre La Passionária e o Delúbio Soares.

Genoino vai para o Congresso, onde nada poderá fazer nos meses em que espera os recursos no STF. Não há condições políticas, nem mesmo psicológicas. Porém ele aceita um cargo público que consome R$ 136 mil/mês. É como se alguns peixes do oceano político não respeitassem mais o momento de submergir.

Drummond tem razão: despertar o ano novo que cochila em você, mesmo porque nas altas esferas o sono ainda é profundo.

O ano terminou com o presidente da Câmara, Marco encarnando o fim do mundo Maia, enfrentando o Supremo. Ele é um produto dos intrincados mecanismos de disciplina e lealdade do PT. Sonha ser dirigente de um clube de futebol. Para não dizer que sou negativo diante do companheiros, esse sonho pelo menos eu apoio, dependendo, é claro do clube escolhido.

Os chineses falam de tempos interessantes como aqueles em que há convulsões sociais, tormentas, revoluções. Espero tempos engraçados, tomando-se o humor em todas as suas dimensões, inclusive as dolorosas.

Brasileiro é tão bonzinho


Carlos Brickmann 
Observatório de Imprensa

Uma raríssima entrevista coletiva da presidente Dilma Rousseff, num café da manhã com jornalistas. Primeira pergunta: assunto, teto do Fundo de Garantia. Resposta da presidente: “Ah, essa não! Vamos tentar outro assunto”. Segunda pergunta: assunto, aumento da gasolina. A presidente também não gostou. E resolveu o problema das perguntas que não estavam a seu gosto: “Eu mesma começo. Queria falar, neste final de ano (...)”

Imagine uma entrevista assim na Casa Branca. O mundo cairia. Imagine uma entrevista assim no Iraque – onde o repórter Montazer Al Zaidi jogou um sapato no presidente americano George Bush. Imagine uma entrevista assim em Londres, onde o duelo entre autoridades e repórteres é duríssimo. Aqui passou na boa – e, não fosse uma nota publicada fora do corpo da reportagem, num único jornal, o público poderia pensar que os repórteres perguntaram o que quiseram e a presidente da República respondeu às perguntas por eles formuladas.

Brasileiro é tão bonzinho! Não apenas repórteres de elite, escolhidos pelas redações mais importantes para cobrir o Palácio do Planalto, aceitam que o entrevistado lhes determine o que podem ou não perguntar, como este fato é deixado de fora da matéria, como se fosse irrelevante. Sua Excelência, o Consumidor de Informação, é tratado como cidadão de segunda classe: pensa que está tomando conhecimento de uma entrevista, sem saber que só as perguntas aprovadas pelo entrevistado entram na matéria.

No início da ditadura militar, quando o presidente da República, marechal Castello Branco, começou a falar em leis de imprensa (que, como hoje, eram muito mais leis de cerceamento de liberdade de expressão do que qualquer outra coisa), a grande desenhista Hilde Weber, no Jornal da Tarde, publicou uma série de charges sobre o tipo de imprensa que o marechal queria. Lembrança necessária: Castello Branco era feio de doer e sua cabeça saía direto dos ombros, dispensando o pescoço. Em várias charges demolidoras, surgiam as manchetes de que o governo militar gostaria. Por exemplo, “Castello é bonito”; “Presidente é bom de bola”, “Moda francesa quer copiar as gravatas de Castello”.

Com censura e tudo, referindo-se a uma frase clássica do ex-presidente Ernesto Geisel, de que o Brasil vivia uma “democracia relativa”, o repórter João Russo perguntou ao todo-poderoso ministro Delfim Netto se a taxa de inflação que ele apontava (e que, com base em informações do Banco Mundial, o correspondente Paulo Francis desmentia) era absoluta ou relativa. Delfim não gostou, respondeu duro, e a entrevista continuou fluindo. Num programa de entrevistas, o professor João Manuel Cardoso de Mello (hoje na Facamp, em Campinas), protagonizou um memorável duelo com Delfim Netto, perguntando o que queria e ouvindo as respostas do ministro, por sinal um excelente debatedor.

Uma repórter da Rede Bandeirantes, Ana Aragão, perguntou ao ditador de plantão, general João Figueiredo, por que ele, como havia dito, preferia o cheiro de cavalo ao cheiro do povo. Figueiredo não respondeu, mas a ausência de resposta foi o ponto principal da reportagem.

E isso na ditadura. Hoje, por que tanta mansidão dos meios de comunicação diante do poder?

Quem é o culpado
É um caso espantoso, escandaloso, quase inacreditável: uma menina foi atingida por uma bala perdida na noite de Natal e levada ao Hospital Salgado Filho, no Rio. O neurocirurgião que deveria estar de plantão não estava. Ninguém no hospital se preocupou em encontrar outro médico que pudesse atendê-la, ou em removê-la para algum hospital em que pudesse ser atendida. Ficou lá, largada, à espera da morte (que, ainda bem, não veio: ela sobrevive, em estado grave).

Os meios de comunicação estraçalharam o médico faltoso (e com toda a razão: quem não quer trabalhar em feriados não pode ser neurocirurgião). O prefeito Eduardo Paes e o governador Sérgio Cabral mostraram sua indignação e prometeram demitir o médico, usar contra ele todo o peso da lei – e fazem muito bem: não se pode admitir que alguém que fez o Juramento de Hipócrates deixe pacientes sem atendimento, violando sua missão, e falte ao serviço, deixando os pacientes sem assistência.

Agora, as perguntas que nem o governador, nem o prefeito, nem os meios de comunicação fizeram:

1. Que história é essa de uma menina ser atingida por bala perdida numa área que, dizem todos, foi pacificada? Estarão se referindo, sem contar a mais ninguém, à famosa paz dos cemitérios?

2. Imagina-se que haja investigação policial para saber de onde saiu a tal bala perdida. Quem cuida dessa investigação? Que resultados já foram alcançados, quase uma semana depois do acontecimento?

3. A menina chegou ao hospital com uma bala na cabeça e o neurocirurgião não apareceu (e aí não importa o motivo, seja fútil ou de força maior: o que importa é que não havia ninguém da especialidade). Não há ninguém no hospital com uma agenda e um telefone, para chamar outro especialista? Ou para telefonar a outro hospital e verificar se há vagas e médicos? Nem o espírito de Natal foi suficiente para que algum funcionário se movesse para salvar a menina?

4. Certamente havia outros médicos no hospital (se não houvesse, o escândalo seria ainda maior). Nenhum poderia examiná-la e determinar a imediata transferência para algum local onde pudesse ser tratada? Na pior das hipóteses, nenhum médico poderia ao menos colocá-la num quarto, limpar o ferimento, estancar eventuais sangramentos, tirar a pressão, verificar os batimentos cardíacos?

5. Que sistema de saúde é este que depende de uma única pessoa, um ser humano sujeito a toda sorte de imprevistos – um acidente de trânsito, um mal súbito, ou simplesmente vagabundagem – para atender a uma pessoa em risco de vida?

O comportamento do médico deve ser investigado e, se for o caso, punido na forma da lei, de maneira exemplar. Mas não se pode ignorar o comportamento de um sistema de saúde que ignora quem está ferido e não tem compaixão por uma menina que corre risco de vida.

 As leis, ora as leis
Sabe-se hoje que partes da Constituição foram enxertadas sem que a Constituinte as aprovasse. A confissão foi feita há algum tempo por Nelson Jobim, autor dos enxertos. Sabe-se hoje que boa parte da Constituição não pode ser aplicada corretamente porque o Congresso Nacional não cuidou de regulamentar o que precisa ser regulamentado. E não é por falta de tempo: para campanhas eleitorais, festas juninas, Carnaval, reuniões de desagravo a criminosos condenados, recesso parlamentar de julho, recesso parlamentar de dezembro, segundas e sextas enforcadas (e as terças já esquecidas), para isso não falta tempo. Agora, iniciamos o ano sem orçamento federal. No lugar, até que o Congresso retorne de suas férias, vai um quebra-galho, um remendo para evitar mais problemas.

O Supremo foi criticadíssimo por exigir que o Congresso cumprisse a lei, analisando os vetos presidenciais pela ordem cronológica. Com isso, inviabilizou-se a tentativa de derrubar o veto da presidente Dilma Rousseff a determinados trechos da lei de distribuição de royalties de petróleo: havia três mil vetos a examinar na frente desse. O presidente do Senado, José Sarney, propôs que os vetos fossem apreciados de baciada, todos de uma vez; mas até no Congresso ficou evidente que isso seria ridículo (e provavelmente cairia nos tribunais).

O Supremo Tribunal Federal, a propósito, também não está isento de culpa: os ministros pedem vista de um processo por determinado número de dias e o devolvem quando querem – até anos depois.

Cheguemos ao nosso tema: os meios de comunicação, aparentemente, acham que esses problemas não são com eles. Ninguém verifica no Supremo se algum processo está emperrado porque alguém está demorando para devolvê-lo, nem verifica no Congresso por que um determinado veto está esquecido, ou pergunta a líderes parlamentares qual o empecilho para que regulamentem artigos da Constituição – que, recorde-se, foi promulgada há 24 anos, tempo suficiente para deixá-la sem qualquer buraco.

O mestre Alberto Dines lembra, neste Observatório, que todos os grandes veículos de comunicação têm repórteres no Congresso, mas repórteres que não fazem a cobertura das atividades cotidianas dos parlamentares. Nem sempre foi assim: quando este colunista foi escalado para cobrir a Assembleia Legislativa de São Paulo, tinha como missão fazer o mesmo que os repórteres congressuais de hoje, acompanhar negociações, tendências, articulações, buscar notícias políticas. Mas havia um repórter – o grande Ricardo Sérgio Mendes, uma fera, mais versado no regimento da Assembleia que qualquer deputado – que fazia uma impecável cobertura do cotidiano. Uma cobertura que incluía, entre outras coisas, a leitura do Diário Oficial, a pesquisa daqueles projetos de lei que incluem, no inciso 7º do parágrafo 4º do artigo 2º da Lei nº 0000000/00, a expressão “não”. É aí que estão as mutretas, e era também aí que o Ricardão acompanhava o andamento do dia a dia legislativo. Como em qualquer assembleia, naquela havia alguns bandidos; e os projetos desses senhores eram examinados com muito carinho.

Custa um pouco mais caro. Mas, se o jornalismo existe para fornecer informação, tem de atender a quem quer informação. Ou limitar-se a discutir fofocas e a insinuar quem dorme com quem.

 Os culpados de sempre
Houve época em que os reis mandavam matar os mensageiros que lhes traziam más notícias. Os fatos desagradáveis, claro, não melhoravam nem um pouco com a morte dos portadores da informação. Não faz mal: o hábito se mantém até hoje. Até nos pontos mais civilizados do país: só que, nestes, embora não haja ordem de matar fisicamente os mensageiros, há a tentativa coordenada de matá-los profissionalmente, tentando desgastar sua credibilidade. Claro que os apagões continuam, apesar de tudo que se fala mal de quem publica as notícias; e continuam também os riscos de descontrole da inflação, o PIB que não cresce, a falta de competitividade da indústria. Não faz mal: basta botar a culpa na zelite, na imprensa golpista, nozianque, na subserviência da imprensa a quem anuncia.

Verdade? Não (e o jornalista Eugênio Bucci, que trabalhou com o presidente Lula, gosta do presidente Lula, mas gosta ainda mais dos fatos como ele são, desmonta essa besteirada toda num belíssimo artigo para a revista Época, muito bem embasado, com números mostrando onde estão os erros desse tipo de análise).

Quem leu esta nota até aqui pensa num texto antipetista. Mas não é: o líder tucano José Serra cansou de brigar com jornalistas que faziam perguntas de que não gostava, alegando que tinham “pautas petistas”. E se tivessem? Uma dos dogmas do jornalismo é que não há perguntas inconvenientes. O que pode ser inconveniente é a resposta. Basta responder às perguntas com precisão, sem irritação, mostrando o que está errado, ou distorcido, nelas. É uma capacidade que um político sempre deve ter; ainda mais quando já exerceu cargos legislativos e executivos e disputou várias campanhas eleitorais.

O ex-presidente Lula vive se queixando, a presidente Dilma chega a exigir dos repórteres que a entrevistam que só perguntem o que ela quer. O caso petista tem uma curiosidade: o jornalismo chapa-branca defende o tal “controle social da imprensa” que, garantem, não é censura, é apenas dispor de mecanismos para evitar que poucos grupos dominem a área de comunicação. Uma das coisas censuráveis, para eles, é a propriedade cruzada dos meios de comunicação (este colunista, a propósito, também é contra, embora a internet e a convergência digital estejam tornando esse objetivo cada vez mais difícil).

Mas a TVT, ligadíssima ao Partido dos Trabalhadores, já têm uma série de emissoras de rádio e TV, jornais, revistas – exatamente aquilo que é condenável, segundo os profetas do “controle social da mídia”.
Como dizia Millôr Fernandes, “democracia é quando eu mando em você, e ditadura é quando você manda em mim”.

 Brincando de cobrar
Como enfrentar um mamute empresarial que só atende por telefone, com operadores que não têm a menor ideia do que estão falando e cujas informações são absolutamente inconfiáveis? Se alguém souber a resposta, entre em contato com a jornalista Rose Vitaly. Um dia, Rose descobriu que seu Itaucard lhe estava cobrando, a título de “seguro-garantia”, pouco menos de R$ 19 mensais.

Nem é questão de preço: é o desaforo de uma cobrança que ela não tinha autorizado, por algum serviço que ela não tinha comprado e do qual não precisava.

Como Rose Vitaly não tinha autorizado o seguro-garantia, e aliás não tinha a menor ideia do que fosse, ligou para o “vamos estar providenciando para que a senhora possa estar resolvendo seu problema” do Itaucard. Ouviu dezenas de musiquinhas, soube várias vezes o quanto sua ligação era importante, recebeu vários protocolos daqueles com 27 algarismos cada um. Prometeram-lhe suspender a cobrança. Não suspenderam. Dois meses depois do início da novela, disseram para ela não pagar. OK, ela obedeceu. No mês seguinte veio a fatura de novo, com a cobrança do mês anterior, mais juros, mais a cobrança do mês. Eles até topam cancelar o cartão (inteiro, para resolver o problema), mas só depois de ela pagar a fatura. Detalhe: há mais de um ano a jornalista não usa o tal cartão. Só deve o tal seguro que ela não quer, não comprou e insistem em cobrar-lhe.

Imprensa é legal, né? Este colunista é que não deve ter prestado atenção, por isso não encontrou a notícia, que deve ter sido fartamente divulgada. Será possível que o colunista não tenha falhado, e a notícia não tenha saído em nenhum meio de comunicação? Seria terrível demais, né? E fazer uma reportagem não seria difícil: ou a jornalista comprou o serviço (e, nesse caso, há algum comprovante) ou não há comprovante e não há qualquer motivo para cobrar-lhe centavo algum.

A propósito, o “vamos estar providenciando” também não tem a menor ideia da utilidade do tal seguro-garantia. Mas “vão estar se informando”.

 Outro lado – mas só um?
Ouvir o outro lado é um avanço – mas que coisa pequena! O sujeito é acusado de ter matado a mulher e a sogra, de ter botado fogo na casa onde mora, de ter deixado o cachorro de estimação amarrado para morrer no incêndio. É ouvido e informa que não é casado, nem tem namorada – nem sogra, portanto. Não mora numa casa, mas num apartamento, onde aliás está sendo entrevistado (por telefone, claro, pois hoje ninguém gosta muito de sair da confortável redação para ir a lugares onde vai se misturar com gente do povo, nesse calor horroroso). Detesta cachorros, jamais teve um, e não poderia portanto colocá-lo no fogo. A matéria sai com todas as loucuras e, à guisa de “outro lado”, diz que Fulano nega as acusações.

Mas, mesmo que a coisa fosse bem feita, a verdade não tem apenas dois lados. A verdade é multifacetada, frequentemente não comporta o “sim” e o “não”. O caso mais interessante é o da extinção inexorável do rio São Francisco. Apenas como esclarecimento, este colunista não entende nada de rios e não tem condições de ser favorável ou contrário à transposição das águas do São Francisco.

Pois um grande jornal informou que o rio será extinto, ponto final. Base da informação: um biólogo – um único biólogo. Algum especialista em águas? Não. Outro biólogo? Não. Algum gráfico sobre a evolução do volume das águas num período amplo? Não. O biólogo pelo menos explica por que é impossível reverter a inexorável extinção do rio? Não. Algum exemplo de outro rio que tenha sido extinto? Não. E o outro lado? É o governo, dizendo que o rio não está sendo extinto, não. Por quê? Porque não, uai!

Há alguns anos, o então senador Antonio Carlos Magalhães, contrário á transposição, disse numa entrevista que o rio estava doente, com o recebimento de águas diminuído em virtude da redução das matas ciliares, não apenas dele como de seus afluentes, assoreamento não cuidado, desperdício da água existente com técnicas primitivas de irrigação. A entrevista do senador, curtinha, foi mais informativa que a página inteira de previsão do futuro. E ACM podia ser tudo, mas com certeza não era especialista em rios. Apenas acompanhava seus problemas.

GUIA SAÚDE:


Para acessar, clique na aba superior " SAÚDE” para os  temas desta edição, que são os seguintes:

Cãibras: é possível evitá-las?

Combinação de remédios é eficaz contra o câncer de tireoide
Ministrados juntos, paclitaxel e pazopanibe mostraram eficácia no tratamento de um tipo raro e muito letal do câncer de tireoide

Quilos a mais podem aumentar tempo de vida, diz estudo
Para aqueles que sofrem de obesidade moderada, o risco de mortalidade é 5% menor em comparação com pessoas de peso normal

Equação pode prever risco de obesidade em recém-nascido
Cálculo matemático leva em consideração dados dos pais e do bebê, mas sem a necessidade da realização de exames como o de sangue

Estudo liga "barriga de cerveja" a enfraquecimento ósseo
Noção de que homens têm menor risco de perda óssea é falsa, afirmou especialista

Misturar remédios e grapefruit pode causar danos à saúde
O número de medicamentos que, misturados à grapefruit, podem causar graves problemas de saúde, entre eles a morte súbita, disparou

As dez 'tendências globais' dos próximos cinco anos


BBC Brasil

Medidas de austeridade e desemprego levam
 jovens europeus (acima, espanhóis) à desilusão

O mundo dos próximos anos deve ser mais interconectado, de população mais velha e urbana, e com uma classe média mais forte nos países emergentes.

Mas também será um mundo de jovens desiludidos, de incertezas econômicas, crescente disparidade de renda e sob sérios desafios climáticos.

Essas são algumas das tendências previstas pela empresa de pesquisas Euromonitor International, autora de um relatório chamado "Dez Macro Tendências para os Próximos Cinco Anos".

O objetivo do relatório é analisar o futuro dos mercados consumidores. Confira as projeções:

'Futuro incerto'
Dívidas fora de controle, medidas de austeridade na zona do euro e distúrbios políticos globais causam o maior nível de incerteza política e econômica dos últimos anos, aponta o relatório.

"E se a situação de prosseguir, isso terá efeitos para os consumidores que, em tempos incertos, vão exercitar a cautela ao tomar decisões de consumo."

'Classes médias emergentes'
"A expansão da classe média nos diversos países emergentes será um dos efeitos-chave do crescimento econômico (desses países), à medida que grandes contingentes populacionais deixaram a pobreza e formaram uma base de consumidores cada vez mais exigentes e sofisticados", opina a Euromonitor.

Relatório de novembro do Banco Mundial cita por exemplo o aumento da renda média na América Latina. Na última década a classe média da região cresceu em 50%, de 103 milhões de pessoas em 2003 para 152 milhões em 2009, hoje representando 30% da população.

Na Rússia, analistas apontam que a classe média está mais influente e busca sua voz na política; a China mira cada vez mais seu mercado de consumo doméstico, diante do desaquecimento da economia global.

'Jovens desiludidos'
A crise em países desenvolvidos teve como desfecho os altos índices de desemprego entre os jovens, e essa tendência deve se manter, diz a Euromonitor.

Idosos na Grã-Bretanha; população global
 está em processo de envelhecimento

Entre os casos mais graves estão a Espanha e a Grécia, onde, segundo dados da Eurostat (instituto oficial de estatísticas da União Europeia), a taxa de desocupação de pessoas com menos de 25 anos supera os 50%.

Essas taxas contribuem para a insatisfação dos eleitores mais jovens, muitos dos quais têm saído às ruas de Atenas e Madri para protestar contra as medidas de austeridade na Europa.

O relatório da Euromonitor afirma que "faltam perspectivas decentes para os jovens, que enfrentam altos desemprego, custos universitários e custos de vida, além da falta de moradia acessível e do fardo de ter que ajudar os mais idosos no futuro".

'Divisão entre ricos e pobres'
O Brasil vive um momento histórico de redução da desigualdade, mas isso não necessariamente se repete no resto do mundo.

Segundo estudo prévio da Euromonitor, de março, a desigualdade de renda aumentou na maioria dos países entre 2006 e 2011, forçada pelo envelhecimento da população, pelo crescimento do desemprego e das medidas de austeridade em países desenvolvidos, além da persistente divisão entre áreas rurais e urbanas nos países em desenvolvimento.

Segundo o levantamento, essas disparidades podem minar os benefícios da recente onda de crescimento em alguns países.

A Euromonitor cita que aumentos desproporcionais de salários, avanços tecnológicos e urbanização também podem favorecer a desigualdade.

Para a consultoria, essas divisões também estão por trás de distúrbios sociais.

'O desafio climático'
"Padrões climáticos cada vez mais erráticos e o aumento dos níveis dos mares serão as maiores ameaças às populações nos próximos cinco anos e depois", diz a análise da Euromonitor.

Serve de exemplo a supertempestade Sandy, que recentemente varreu a costa leste dos EUA e deixou mais de 40 mortos no país. Os custos de reconstrução das áreas devastadas foram estimados em de US$ 30 bilhões a US$ 40 bilhões.


Favela brasileira; desigualdade caiu no país, 
mas cresceu em vários lugares do mundo, diz relatório

Mas os prejuízos causados pelo clima "errático" vão muito além disso. "Secas e enchentes continuarão a provocar devastação em plantações, afetando os preços dos alimentos nos próximos anos", segundo o relatório da Euromonitor.

'Um mundo em processo de envelhecimento'
A tendência global é de taxas menores de nascimentos e maior expectativa de vida, o que resulta em uma população mais velha.

O Brasil se encaixa nessa tendência: a taxa de fecundidade foi de 1,86 filho por mulher em 2010, segundo o IBGE. A população brasileira deve se estagnar a partir de 2030. As consequências socioeconômicas de casos como o brasileiro são diversas.

"Populações em processo de envelhecimento vão impactar as perspectivas futuras de crescimento econômico, por conta da redução da mão de obra e de taxas mais baixas de poupança e investimento", prevê a Euromonitor. "Ao mesmo tempo, gastos públicos relacionados à idade (caso da saúde) devem aumentar significativamente."

'Transição urbana'
"A urbanização ser uma tendência de longo prazo, mas seu ritmo cresceu perceptivelmente nos últimos anos e o crescimento das cidades alcançou níveis sem precedentes em mercados emergentes", aponta o levantamento.

A China é um exemplo, com a construção de cidades que têm virado polo de atração para hotéis, aeroportos e outros empreendimentos.

Em âmbito global, mais da metade da população já vive em áreas urbanas.

"O êxodo do campo à cidade é fortemente impulsionado pelo anseio por mais poder econômico", diz a Euromonitor. "A transição global para a vida urbana está moldando os mercados consumidores e a demanda."

'Pessoas em movimento'
Para a consultoria, o mundo fica "menor" à medida que mais pessoas têm acesso à opção de viajar, estudar e trabalhar fora de seus países de origem.

Para Euromonitor, marcas chinesas 
querem disputar mercado com marcas internacionais

"A continuidade da migração tem impacto significativo nas economias, nos mercados e no consumo", opina a Euromonitor. "A maior diversidade étnica oferece boas oportunidades aos mercados."

'Mundo mais conectado'
Previsão da consultoria tecnológica IDC aponta que, a partir de 2015, usuários acessarão mais a internet por dispositivos móveis - tablets e smartphones - do que por computadores.

"Quase um terço dos consumidores globais online têm acesso à web em seus celulares", afirma a Euromonitor.

"Mídias sociais como Facebook e Twitter estão mudando a forma como as pessoas interagem. Uma estratégia bem-sucedida em mídias sociais será uma prioridade para as empresas no mundo inteiro."

'China global'
Segundo a Euromonitor, está mudando o foco dos investimentos estrangeiros chineses: inicialmente concentrados em países em desenvolvimento e ricos em recursos naturais, eles agora se começam a se voltar à América do Norte e à Europa.

"Diversas marcas chinesas entraram na arena global e tentarão desafiar marcas globais estabelecidas", prevê o relatório. "Especialistas creem que os investimentos externos de empresas chinesas tenham um crescimento expressivo na próxima década."

2012


Carlos Alberto Sardenberg 
O Globo

É certo que as previsões pessimistas ou simplesmente as previsões do pensamento mais à esquerda não se realizaram

O mundo não mergulhou na segunda recessão. Houve crescimento — baixo, é verdade, mas sempre algum ganho de produto e renda. E alguns países e regiões, como partes da Ásia e da América Latina, foram até bastante bem, com expansão acima dos 5%.Os Estados Unidos também não caíram numa segunda recessão. A maior economia do mundo fechou o ano com crescimento pouco acima de 2%. É menos do que o potencial americano, mas é o melhor resultado entre os maiores países ricos. A taxa de desemprego caiu e o governo começou a venda das ações de empresas e bancos que haviam sido estatizados. Estão sendo reprivatizados.

Os Estados Unidos também não despencaram no abismo fiscal. Na última hora, Obama conseguiu um acordo com os republicanos, regulando aumento de impostos e corte de gastos públicos. É parcial, mas saiu, aliás confirmando o diagnóstico atribuído a Churchill: “Pode-se sempre confiar em que os americanos farão a coisa certa, uma vez esgotadas todas as outras possibilidades.”

A China não sofreu a temida aterrissagem forçada, nem sua estrutura política entrou em colapso. O crescimento econômico desacelerou e manteve-se entre 7,5% e 8% ao ano, talvez até mais saudável que o ritmo anterior. E iniciou-se uma completa troca de comando na direção do partido e do governo, operada de modo planejado e organizado. A nova liderança anuncia reformas na direção correta, de poupar menos, gastar mais e ampliar o consumo interno.

A zona do euro não entrou em colapso. Nenhum país abandonou a moeda.

Espanha e Itália não afundaram na crise da dívida, nem na turbulência política. Ficaram mais pobres em 2012, é verdade, e é triste, mas chegaram ao fim do ano financiando suas dívidas a juros menores do que no início do período. Seguem as políticas de ajuste e reformas, que começam a produzir os primeiros resultados. Os governos conservadores desses dois países mantiveram suas posições.

Já François Hollande, que se elegeu com o mote “abaixo a austeridade”, criou na França uma confusão de política econômica bem parecida com a brasileira. Designou um superempresário para fazer um diagnóstico da baixa competitividade francesa (como Dilma convidou Gerdau), aplicou uma ou outra das medidas sugeridas (como a redução do imposto sobre a folha de salários, de novo como Dilma), mas ao mesmo tempo desencadeou políticas intervencionistas que assustaram o empresariado e reduziram o nível de investimentos (de novo ...).

A Corte Constitucional francesa considerou inconstitucional o imposto de 75% sobre a renda superior a um milhão de euros anuais — que havia sido outro grande tema de campanha socialista. Antes disso, Gerard Depardieu já havia renunciado à cidadania francesa. Para ele, o governo Hollande “pensa que sucesso, criatividade e talento precisam ser punidos”.

Ministros socialistas atacaram sua “falta de patriotismo e de solidariedade”. Depardieu respondeu com sua biografia: começou a trabalhar aos 14 anos como operário gráfico; em 45 anos, nos tempos mais recentes como ator e empresário, juntou uma bela fortuna; ao longo desse tempo, criou empregos e pagou 145 milhões de euros em impostos. Que querem mais? Mudou-se para a Bélgica, enquanto a popularidade de Hollande caía para 35%.

Já Angela Merkel segue firme em suas políticas e convicções. Dos grandes europeus, a Alemanha foi a única a apresentar algum crescimento no ano passado.

Dirão: o jogo ainda não acabou, há muitas variáveis no ar. Sim, como sempre será. Mas é certo que as previsões pessimistas ou simplesmente as previsões do pensamento mais à esquerda não se realizaram. E não se realizaram pela ação política. Super-Mário, o presidente do BC Europeu, Mario Draghi, salvou o euro. La Merkel, acreditem ou não, manteve o euro e a União Europeia de pé, reclamou reformas que começam a ser implementadas em diversos países. O presidente do BC americano, Ben Bernanke, evitou um desastre global. Obama se reelegeu e, aos pouquinhos, vai arrumando a economia e as contas públicas.

Já no Brasil, foram as previsões otimistas que deram errado. A presidente Dilma passou o ano inteiro dando lições de crescimento nos fóruns internacionais. Atacou as políticas americana e europeia, culpou-as pelos problemas locais, e fez propaganda do modelo brasileiro-lulista. Para colher o quê? Crescimento de menos de 1% e inflação perto de 6% — combinação pior que a média latino-americana, pior que a média asiática, pior que a média mundial, pior que os Brics, pior que EUA e pior que Alemanha.

Tem uma poderosa carta na manga — o desemprego baixo, mas cuja força está sob ameaça.

2013? Fica para a próxima.

A vitória dos despreparados


Raul Velloso

É chocante o anúncio de que, a partir de agora, os planos de negócios não serão mais exigidos dos concorrentes

Enquanto os investimentos desabam e o Produto Interno Bruto (PIB) rateia, continuam a aparecer notícias sobre o desempenho problemático das concessões de infraestrutura aprovadas desde 2007. A infraestrutura de transportes não se expande, deixando de ampliar a capacidade de produção interna e fazer a produtividade geral crescer. E a conta vai para os usuários e para o crescimento econômico futuro.

De acordo com o ex-ministro Delfim Netto, um interlocutor da presidente Dilma Rousseff, as intenções do governo parecem ser as melhores possíveis. Imagino mesmo que, nas reflexões sobre o travesseiro, a presidente deseja que se cobrem as tarifas mais baixas possíveis e que as concessões sejam implementadas pelas melhores empresas da praça. Mas o fato é que em todas as concessões rodoviárias de 2007 para cá, em que houve mudança do modelo pré-Lula, o desempenho está abaixo da crítica.

Tudo bem que agora se façam leilões pela menor tarifa, em vez da outorga máxima. Mas existe um defeito fundamental no atual modelo, que está na raiz dos resultados ruins. Trata-se da busca não da menor tarifa possível, mas da menor tarifa imaginável nos negócios – ou da menor taxa de retorno imaginável. A presidente pode estar pensando na primeira mas, na prática, a ação governamental busca a segunda. E há uma distância enorme entre as duas posições. Essa exigência está condicionando todo o processo de implementação das concessões e dificilmente produzirá uma concessão que se considere razoável.

Imaginemos uma concessão rodoviária em cujo leilão só se candidatem concessionários preparados ou não oportunistas. Diante do edital, esses candidatos prepararão propostas da melhor qualidade e estabelecerão a tarifa mínima possível em função dos parâmetros do negócio e das oportunidades alternativas disponíveis no Brasil e no mundo. É assim que o sistema de mercado funciona: vence o que oferecer a menor tarifa possível, de acordo com as hipóteses de cada um. Se o governo fincar pé na menor tarifa imaginável – algo abaixo do razoável, como vem acontecendo – o resultado é simplesmente o leilão fracassar, sem qualquer vencedor. O mesmo raciocínio pode ser feito substituindo tarifa por taxa de retorno, já que uma implica a outra. Nesse caso, o governo teria de repensar seu modelo ou enfrentar a opinião pública, que clama por mudanças relevantes na infraestrutura.

A presença de concorrentes despreparados – para não dizer oportunistas – pode alterar esse quadro, pois estes podem aceitar taxas de retorno (tarifas) irrealistas – e assim vencer os demais -, na expectativa de obter algum “refresco” mais adiante sob alguma forma, como o mero descumprimento de compromissos de investimento. No final, o serviço fica precário, mas o governo, que sempre teme o desgaste político de anunciar o fracasso, pode apregoar que conseguiu aprovar uma concessão. Só que garantia de resultado para valer, com satisfação máxima do usuário, nem pensar.

Imaginando um edital bem feito de uma licitação, há fases que, idealmente, devem ser transpostas antes do leilão em si. A primeira é a pré-qualificação, para separar o joio do trigo. A segunda é a proposta técnica e a terceira é o plano de negócios, que às vezes são chamadas conjuntamente de plano de negócios. É aqui que os proponentes explicam direitinho como vão por em prática aquilo que o governo especificou como missão no respectivo edital. Só aqui pode se fazer um julgamento adequado sobre se os pré-selecionados entenderam bem a tarefa a ser executada, e se estão realmente em condições de implementá-la.

A última tarefa é o leilão em si. Ainda que pareça se justificar pela maior agilidade que imprime ao processo, a prática de “inversão de fases”, que vem sendo adotada desde algum tempo e coloca a última fase à frente das demais, se afigura como mais uma prática destinada a facilitar a atuação dos despreparados.

Se uma proposta ganha pelo menor preço porque ela não incluiu elementos importantes daquilo que o governo quer e assim reduziu seus custos, esta deve ser impugnada administrativamente. Só que, mais uma vez, o governo teme a reação dos órgãos de controle à rejeição da proposta de menor preço. Se o interesse do usuário e os ganhos macroeconômicos são prioritários, é obviamente preferível um processo mais demorado, mas que chegue onde se quer, e essa é a arma com que o Executivo deve enfrentar os demais poderes.

É chocante, assim, o anúncio de que, a partir de agora, além da inversão de fases, os planos de negócios não serão mais exigidos dos concorrentes (!?), nem mesmo para ganhar o leilão, para evitar contestações judiciais. Trata-se da crônica de um desastre anunciado. Com tantos equívocos, ou as empresas preparadas passam a adotar as manhas e artimanhas dos oportunistas, como induz o governo ao alterar as regras, ou então assistirão passivamente à vitória dos concorrentes despreparados.

Quem perde sempre é o usuário, que vai pagar pela concessão e não vai levar. E o governo obtém uma vitória de pirro. Baixa o preço, mas não consegue levar transformações ou qualquer melhoria à rodovia e, mais cedo ou mais tarde, cairá na armadilha de ter que assinar aditivos para “reequilibrar” um contrato que sequer tinha a salvaguarda de um plano de negócios.

Mais voluntarismo


Rolf Kuntz
O Estado de S. Paulo

Dilma Rousseff começa o terceiro ano de mandato sem Orçamento aprovado, com a economia emperrada e a inflação ainda longe de 4,5%

A presidente Dilma Rousseff começa o terceiro ano de mandato sem Orçamento aprovado, com a economia emperrada e a inflação ainda longe de 4,5%, meta muito mais alta que a de outros países bem mais dinâmicos. O cenário mundial continua ruim, com a Europa estagnada e a recuperação americana em perigo, mas o governo brasileiro, se tiver juízo, deverá abandonar a ilusão dos últimos dois anos: será inútil confiar no mercado interno como fator de crescimento, se a indústria permanecer incapaz de responder à demanda dos consumidores. Os grandes beneficiários do estímulo serão mais uma vez os produtores estrangeiros, além de alguns setores sempre favorecidos pelas autoridades.

O governo encerrou 2012 com promessas de tempos melhores, mas sem formular, pelo menos em público, sequer um bom propósito de ano-novo. Ao contrário: aceitou sem espernear a decisão dos parlamentares de jogar para fevereiro a votação do Orçamento. O adiamento, disse a presidente, foi decidido com a concordância do governo. A história é um tanto intrigante, porque o atraso impediria o governo de investir. A solução encontrada foi a edição da Medida Provisória n° 598. Objetivo: liberar R$ 42,5 bilhões para investimentos desde o início do ano.

Os artigos 62 e 167 da Constituição proíbem a edição de medidas provisórias (MPs) sobre matéria relativa a planos plurianuais, orçamentos e abertura de créditos extraordinários, exceto para “atender a despesas imprevisíveis e urgentes, como as decorrentes de guerra, comoção interna ou calamidade pública”. Qual dessas condições é aplicável ao caso, especialmente depois de ter o governo concordado com o adiamento da votação?

Essa MP é prenúncio de mais um ano de política econômica voluntarista, conduzida a partir do Palácio do Planalto. Só os freqüentadores do gabinete podem dizer como são dadas as ordens, mas os resultados são inequívocos. O investimento encolheu, a produção industrial diminuiu e os estímulos mal dirigidos foram um fracasso. Ao mesmo tempo, ajuste cambial e mais barreiras foram insuficientes para impedir a piora do saldo comercial. Longe de ser um luxo, um amplo superávit na conta de mercadorias é essencial para o Brasil, por causa do déficit estrutural da balança de serviços.

Para o novo ano o Banco Central (BC) projeta um superávit comercial de US$ 17 bilhões, inferior ao de 2012. Estima-se exportação de US$ 268 bilhões, com crescimento de apenas 4,7% em dois anos (sim, dois anos). As projeções do mercado financeiro são mais magras, com o saldo comercial estimado na vizinhança de US$ 15 bilhões. Se houver alguma recuperação do comércio global, em 2013, deverá ser muito lenta. A Organização Mundial do Comércio divulgou, recentemente, uma projeção de 4,5%, mas até esse número pode ser muito otimista, segundo técnicos da área.

Para os brasileiros os motivos de preocupação vão muito além dessas estimativas. No trimestre final de 2012 a presidente Dilma Rousseff acrescentou a palavra “competitividade” a seus pronunciamentos habituais. Esse reforço vocabular foi usado na apresentação dos novos planos de logística.

Esses planos incluem um novo convite ao setor privado para investir em rodovias, ferrovias, portos e aeroportos ideia incorporada pelo governo depois de muita resistência. Os investimentos só sairão, naturalmente, se houver realismo nas condições de concessão e de parceria.

Parte importante dos projetos nas áreas de transporte e energia ainda depende, no entanto, diretamente do governo e de suas empresas. De janeiro a novembro o Tesouro investiu 22,8% mais que no ano anterior, segundo a última demonstração de contas do governo central. Mas o valor desembolsado continua inferior a 60% da provisão orçamentária, inclui financiamentos imobiliários e corresponde, em boa parte, a restos a pagar. Além disso, a qualidade dos projetos e de sua execução é muito baixa. Sobra voluntarismo e falta competência na estratégia e na gestão de projetos. Não basta recorrer a truques para liberar R$ 42,5 bilhões, quando o governo é incapaz de usar bem os recursos, nem oferecer benefícios fiscais temporários e localizados, se o sistema tributário ainda onera o investimento, a produção e a exportação. Quanto aos juros, continuarão reduzidos se a inflação permanecer longe da meta?

O desastre das contas públicas


Merval Pereira
O Globo

A reclamação generalizada dos novos prefeitos que assumiram no dia 1º sobre a situação financeira de seus municípios tem tudo a ver com as mudanças que o governo quer fazer na Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF), o que sinaliza que o cenário futuro pode até mesmo piorar.

Além da razão básica de que a arrecadação de tributos está caindo devido ao fraco desempenho da economia, há uma razão específica para a situação dos estados e municípios estar pior: os benefícios tributários que o Planalto está oferecendo para setores econômicos atingem principalmente tributos que têm forte influência nas economias regionais, como o Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI).

A cada isenção oferecida pelo governo, os fundos de Participação dos Estados (FPE) e dos Municípios (FPM) perdem, pois eles são formados basicamente pelo IPI e pelo Imposto de Renda.

Com o fraco desempenho da economia, agora mesmo está caindo a arrecadação do IR de grandes empresas, como a Petrobras e a Vale, o que já afeta os fundos regionais. Por isso os governadores estão reclamando, os prefeitos também, mas o governo federal, não, porque a maior parte dos tributos não é dividida com os estados e municípios, principalmente as “contribuições”, e a desoneração é basicamente sobre o IPI.

A maior parte da conta está, portanto, sendo espetada nos estados e nos municípios, que não têm a capacidade de decisão.

Essa situação, aliás, tem a ver com a discussão da distribuição dos royalties do petróleo. Sem condições políticas para disputar com o Planalto a melhor distribuição dos tributos nacionais, governadores e prefeitos tentam tirar a arrecadação dos estados produtores de petróleo, que são minoria e presas aparentemente fáceis.

A melhor solução seria fazer a distribuição geral dos tributos, mas com alíquota menor. As contas indicam que, se houvesse distribuição de 20% da tributação geral, incluindo as “contribuições”, o resultado seria melhor para estados e municípios, e a União não ficaria tão prejudicada.

Mas, voltando à questão da Lei de Responsabilidade Fiscal e à mudança que o governo federal quer realizar, está disposto na lei original, de 2000, que não é possível fazer subsídios com caráter permanente, o prazo máximo é de até três anos. Se o governo quiser ir além desse limite, tem que fazer corte de gasto ou promover o aumento de receita com a elevação de outro tributo.

Não é permitido usar o critério de excesso de arrecadação para uma ação de mais longo prazo, porque nunca se sabe se essa situação será permanente.

Se a economia ficar fraca, como agora, a arrecadação cai. Mas, se o incentivo for generalizado, e não apenas a setores pontuais, não é necessário fazer essa compensação.

O que o governo fez foi retirar da lei essa ressalva “de caráter geral”, o que indica, para especialistas, que pretende dar isenções de longo prazo, além de três anos, ou mesmo permanentes, para alguns setores, aprofundando política que era proibida pela LRF.

Com a mudança sugerida pelo governo, fica claro que eles querem ficar escolhendo para quem dar os incentivos, que podem ser de duração mais longa, o que pode enfraquecer de maneira permanente os estados e municípios, muitos dos quais vivem de suas participações nos fundos.

Nesse quadro perigoso para as contas públicas, a situação de penúria da maioria das prefeituras revelada neste final de ano pode estar sinalizando também que a LRF já não está sendo tão eficaz quanto anteriormente.

Os problemas de recolhimento de lixo em diversas cidades pelo país podem representar uma vingança do político derrotado nas urnas, ou simplesmente má gestão, contra o que a LRF não tem o que fazer.

Mas os gastos excessivos, estes, sim, devem ser combatidos. O controle da LRF é por quadrimestre, e uma das medidas mais importantes é proibir os governos de assumir novas dívidas quando faltarem dois quadrimestres para o fim do mandato.

Se a administração que sai tiver que deixar contas a pagar, tem que deixar também dinheiro em caixa para responder por esses compromissos.

Se o governante deixou mais restos a pagar do que tinha em caixa, há punições do Tribunal de Contas, mas geralmente elas são barradas pelas Assembleias Legislativas ou Câmaras Municipais.

Os limites do crescimento


Celso Ming 
O Estado de S.Paulo

Crescer, crescer, crescer. Em praticamente todos os países, a política econômica está voltada prioritariamente para a criação de empregos que, por sua vez, está condicionada à geração de riquezas. Mas até quando se pode contar com o crescimento econômico?

Nas últimas semanas, a pergunta vem sendo objeto de debates na imprensa mundial com base em trabalho publicado em agosto pelo economista Robert J. Gordon (foto), professor de Macroeconomia da Northwestern University, Cambridge, Estados Unidos .

A avaliação de Gordon é de que a contagem regressiva para um período de crescimento zero já começou. Ele parte do princípio de que o avanço econômico global desde o século 17 está associado a revoluções industriais. A primeira delas cobriu o período que vai de 1750 a 1830 e se seguiu à invenção da máquina a vapor. A segunda, entre 1870 e 1970, foi consequência da utilização intensiva da energia elétrica e do petróleo e marcada pela produção em série. A terceira, que teve início nos anos 60, baseia-se no avanço da informática e da Tecnologia da Informação.

Gordon entende que os ganhos de produtividade baseados na Tecnologia da Informação vão se esgotar rapidamente e que, logo depois, virá o anoitecer.

Embora entre os pressupostos da política econômica estejam os de que o crescimento econômico durará para sempre, as teorias sobre seu colapso vêm lá de trás. Começaram no século 18, com o economista inglês Thomas Malthus, que chegou à conclusão de que a população mundial crescia muito mais depressa do que a produção de alimentos. Se não houvesse drástico controle da natalidade, estariam próximos os dias da grande fome e da estagnação econômica.

Nos anos 70, o Clube de Roma publicou um livro intitulado Os limites do crescimento, que provocou um vendaval. Partiu do princípio de que os recursos naturais estavam em fase de esgotamento e que, mais dia menos dia, o crescimento estancaria.

Mais ou menos no mesmo sentido, ficou famosa uma frase do biólogo americano Edward Osborne Wilson: "Precisaríamos de mais quatro planetas Terra se for para sustentar toda a população do mundo aos padrões de consumo dos Estados Unidos".

Uma a uma, essas predições vêm sendo desmentidas - ou adiadas. A revolução verde que multiplicou a produção dos alimentos, grandes descobertas de petróleo e de matérias-primas, a reciclagem dos materiais e certo controle do desperdício foram fatores que afastaram a ideia do fim do crescimento.

É provável que a era iniciada com a Tecnologia da Informação tenha mais fôlego e mais o que dar do que imagina Gordon. Também não se pode descartar de antemão que novas descobertas (como a produção de energia elétrica a partir da fusão nuclear, há anos perseguida por importantes centros de pesquisa) inaugurem nova era de intenso crescimento.

No entanto, como aponta o Prêmio Nobel de Economia de 2008, Paul Krugman, pouco ou quase nada sabem os especialistas e os centros de projeção sobre o crescimento a longo prazo. Provavelmente, em consequência dos seguidos desmentidos das teorias malthusianas e de variações sobre elas, a ideia dos limites do crescimento desperta pouco interesse. Mas a crise global e o alastramento do desemprego podem levar mais gente a procurar mais luz e mais respostas para a questão.

Negócio x mercado

Alexandre Schwartsman
Folha de São Paulo

Pouco antes do fim do ano passado, a jornalista Claudia Safatle, no "Valor Econômico", relatou conversa com fonte na área econômica tratando, entre outras coisas, da percepção do governo acerca de suas relações com o setor privado.

 tema foi a mudança de orientação do governo Dilma Rousseff, que teria dado uma "guinada no estatismo" típico do Programa de Aceleração de Crescimento em prol de uma orientação mais empresarial.

Segundo a fonte: "A Dilma ministra-chefe da Casa Civil do governo Lula acreditava que o Estado, com seus investimentos, faria o país crescer. A Dilma presidente da República entendeu que há limitações e que é preciso trazer a iniciativa privada para o crescimento econômico".

Parece boa notícia, mas desconfio de que nem a fonte nem a presidente entenderam muito bem o que significa "trazer a iniciativa privada para o crescimento econômico".

Para usar categorias empregadas pelo economista Luigi Zingales, o governo parece confundir uma política pró-negócio com uma orientação pró-mercado.

A primeira consagra vencedores em setores eleitos a dedo, sem que saibamos ao certo os critérios de escolha.

A segunda buscar criar condições para que empresas possam florescer em um ambiente competitivo, abstendo-se de eleger a priori os campeões nacionais.

Os resultados dessas abordagens não poderiam ser mais distintos, como expresso, por exemplo, no indispensável "Why Nations Fail" (Por que nações fracassam?), de Daron Acemoglu e James Robinson.

Como argumentado por esses economistas, políticas pró-negócio tipicamente levam a lucros de monopólio, beneficiando uns poucos setores à custa do resto da sociedade.

Com lucros garantidos (o chamado "capitalismo de compadres"), reduz-se o incentivo à atividade inovadora e assim o impulso ao crescimento de longo prazo, sustentável apenas pela expansão persistente da produtividade.

Políticas pró-mercado, em contraste, não se ocupam da eleição de vencedores, mas, sim, em forjar um ambiente econômico que facilite a proliferação de inovadores para que da quantidade surja a qualidade.

Tributos mais baixos (e, principalmente, mais simples), agilidade na criação (e destruição) de empresas, respeito aos direitos de propriedade são medidas, entre outras, que fazem parte desse ambiente, cujo sucesso é fartamente documentado na literatura econômica, inclusive no livro citado.

Não é preciso clarividência para perceber que a orientação governamental aproxima-se do primeiro caso, sem muito parentesco com o segundo grupo de políticas.

O governo crê que sua ação, seja por meio de políticas setoriais, seja pela manipulação da política tributária ou creditícia, criaria os "incentivos corretos" (segundo seus próprios e inescrutáveis critérios) para o investimento empresarial e é nesse sentido que acredita ter se aproximado do setor privado.

O viés intervencionista, porém, não se esgota nisso. Por coincidência (ou não), na mesma coluna, ao discorrer sobre o pacote de concessões (privatização permanece como palavra tabu no dicionário governista), faz-se menção explícita aos limites impostos sobre o retorno do capital investido nesses projetos.

Assim, ao mesmo tempo em que oferece lucros extraordinários a setores eleitos, o governo arbitra o retorno em outros segmentos e ainda se ofende quando os prejudicados reclamam.

Não é assim que uma economia capitalista prospera. Sob um regime como o que vigora no Brasil, há mais a ganhar tentando influenciar decisões de política do que na atividade empresarial propriamente dita. É de esperar, portanto, que empresas reajam racionalmente a isso, direcionando seus recursos para o lobby em vez de ao investimento produtivo e à inovação.

Num momento em que o esgotamento da mão de obra ociosa deixa claros os limites ao modelo de crescimento do país, investimento e produtividade são as saídas possíveis, mas, sob o regime pró-negócio, cada dia mais remotas.

As surpresas de 2012 e suas implicações


Ilan Goldfajn
O Estado de S. Paulo

Um novo ciclo – denominado baktun pelos maias – está apenas começando

Feliz ano-novo, querido leitor. Estou em férias no sul do México, terra dos maias. Daqui atesto que um novo ciclo – denominado baktun pelos maias – está apenas começando. Nada de fim do mundo.

No Brasil, e no mundo, a sensação é, de fato, de uma transição entre ciclos econômicos mais longos. Típicas dessas transições são as surpresas que nos acompanham. Abaixo relaciono as mudanças que caracterizaram o ano velho e suas implicações para o novo ano.

O risco de ruptura na zona do euro diminuiu. No entanto, não foi abolida a volatilidade. Graças ao Super-Mario (Mario Draghi, presidente do Banco Central Europeu), o risco de quebra na zona do euro diminui. A promessa de fazer “o que for necessário” para manter a zona do euro funcionando deu resultado. A disposição de comprar títulos soberanos (espanhóis, italianos, etc.), quando e se necessário, permitiu reduzir os juros cobrados e viabilizar o financiamento dos países periféricos. A melhora no ambiente financeiro, no entanto, pode levar as autoridades dos países a postergar novamente os duros ajustes necessários e a uma volta da desconfiança dos mercados. Ou, inversamente, a persistência nos ajustes pode levar à fadiga e a novos protestos nas ruas. Os problemas na Europa não acabaram, mas o fim do euro está mais longe.

Não houve recessão global, mas sim crescimento mais baixo, que deve continuar. Falou-se muito no mergulho duplo (nova recessão) nos EUA e no mundo. Todavia nada disso ocorreu. Observou-se mais do mesmo: nem recessão nem aceleração, apenas o crescimento baixo se consolidando. O mundo completou meia década (2007 a 2012) perdida desde o início da crise do subprime, que levou à crise financeira internacional. Tudo indica que continuará perdida por mais alguns anos. A desalavancagem (redução das dívidas) é um processo lento, que ainda precisa terminar. Nos EUA o setor privado já sacudiu a poeira e as dívidas (como a melhora nas bolsas e no mercado imobiliário sinalizam), mas deixou tudo na mão do setor público, que ainda precisa se ajustar. Os debates do abismo fiscal e limites do teto da dívida no Congresso americano são sinais do imenso desafio à frente.

A China ameaçou com um “hard landing”, mas o crescimento estabilizou-se em torno de 7,5%-8%. Enquanto a China desacelerava, a sensação de queda livre dominou as expectativas. Sem esse motor do crescimento mundial, temia-se sobre o futuro global, especialmente nas economias emergentes, e na América Latina em particular. Mas a parada brusca (hard landing) não ocorreu, no segundo semestre o crescimento estabilizou-se e até ensejou uma recuperação no final do ano. Os sinais são de um crescimento menor, mas ainda forte, na China nos próximos anos.

As commodities resistiram bem aos problemas globais. Esperamos que permaneçam nesse patamar relativamente alto. Com o risco de ruptura na Europa, recessão nos EUA e parada brusca na China, o preço das commodities podia se ajustar de forma contundente, ameaçando o ganha-pão de vários países da América Latina. A região respirou aliviada e agradeceu apresentando um crescimento sólido, com notáveis exceções.

O crescimento no Brasil decepcionou (em torno de 1%) em 2012. Retomada moderada parece o mais provável. Apesar da queda dos juros, de incentivos fiscais, quase fiscais, monetários e cambiais, não ocorreu a vigorosa retomada que tanto se esperava. Persistir é o moto de alguns, aguardando a volta da “normalidade” do crescimento da última década no Brasil. Outros já se debruçam sobre as causas estruturais da falta de crescimento (ausência de reformas, confiança abalada no futuro, perda de dinamismo global, etc.). O fato é que a taxa de investimento voltou a cair no ano passado, ao invés de subir, condição necessária para o crescimento sustentável. Enquanto isso, delineia-se uma retomada lenta e decepcionante (terceiro trimestre com um crescimento anualizado de 2,5% e o quarto trimestre, espera-se, em torno de 3%). Entretanto, os riscos são elevados. Os problemas estruturais podem ameaçar o crescimento por mais tempo, a exemplo do baixo crescimento do México na década passada (seria o caso de um “se eu fosse você” soberano).

Apesar da desaceleração do PIB, o desemprego apresenta recorde de baixa e os salários, de alta, no Brasil. O equilíbrio é frágil. O PIB mais fraco normalmente levaria a um enfraquecimento no mercado de trabalho, o que não ocorreu no ano passado. O crescimento forte da economia em setores com uso intenso de mão de obra explica a tendência. A resistência das empresas a demitir, e ter de recontratar mais adiante, explica a força do mercado de trabalho no atual ciclo. Mas é bom ter claras as perspectivas. A dicotomia entre o crescimento fraco do PIB e a força do mercado de trabalho não se pode perpetuar. Algo terá de mudar. A retomada do PIB, mesmo que moderada, sustenta o emprego e os salários. Um PIB persistentemente fraco ameaça a força de trabalho e seus subprodutos: consumo, a nova classe média e melhoras socioeconômicas, incluindo a distribuição de renda.

A taxa Selic chegou a 7,25%, o câmbio elevou-se acima de R$ 2 por dólar. O crescimento fraco deve manter esses estímulos na economia. A inflação permanece elevada. A perspectiva de retomada da economia no ano passado não permitia vislumbrar facilmente que a taxa de juros Selic chegaria a patamares tão baixos (juros reais de 1,5%) nem que o governo precisaria induzir uma desvalorização do câmbio de quase 20%. Para a frente, a perspectiva de uma retomada apenas moderada da economia não permitirá a retirada desses estímulos este ano. A inflação elevada (5,7% em 2012) põe limites à depreciação cambial. Os fundamentos da economia brasileira demandam uma apreciação cambial, na ausência de poupança doméstica que substitua a externa. Uma depreciação excessiva pode levar a uma inflação corretiva, para alinhar o câmbio real.

Fones de ouvido


Percival Puggina
Zero Hora

Há poucos dias fiz aniversário. Embora costume brincar sobre o tema da minha idade dizendo que tenho 68 anos mas "bem lavado fico como novo", o fato é que algumas coisas mudaram na percepção que tenho da minha realidade existencial. Assim: quando eu era jovem, contemplava o futuro como um horizonte móvel. Ele se ampliava e se distanciava a cada passo dado. Agora, eu o percebo fixo. A distância entre mim e ele encurta a cada velinha soprada. 

Um dos fascínios da vida, aqui de onde eu a vejo, é a possibilidade de ouvir o que os jovens falam e o que alguns dizem aos jovens. Nessa tarefa instigante de ouvir, comparar e meditar, volta e meia me deparo com a afirmação de que os anos 60 e 70 produziram uma geração de jovens alienados. Milhões de brasileiros teriam sido ideologicamente castrados em virtude das restrições impostas pelos governos militares que regeram o Brasil naquele período. Opa, senhores! Estão falando da minha geração. Esse período eu vivi e as coisas não se passaram deste modo.

Bem ao contrário. Nós, os jovens daquelas duas décadas, éramos politizados dos sapatos às abundantes melenas. Ou se era comunista ou se lutava contra o comunismo. Os muitos centros de representação de alunos eram disputados palmo a palmo. Alienados, nós? A alienação sequer era tolerada na minha geração! Todo santo ano, o DCE da UFRGS comemorava como data nacional o aniversário da Revolução de Outubro (revolução bolchevique de 1917). Havia passeata por qualquer coisa, em protesto por tudo e por nada. Surgiu, inclusive, uma figura estapafúrdia - a greve de apoio, a greve a favor. É sim senhor. Os estudantes brasileiros dos anos 70 entravam em greve por motivos que iam da Guerra do Vietnã à solidariedade às reivindicações de trabalhadores. Havia movimentos políticos organizados e eles polarizavam as disputas pelo comando da representação estudantil. O Colégio Júlio de Castilhos foi uma usina onde se forjaram importantes lideranças do Estado. As assembléias estudantis e os concursos de declamação e de retórica preparavam a rapaziada para as artes e manhas do debate político. Na universidade, posteriormente, ampliava-se o vigor das atuações. O que hoje seria impensável - uma corrida de jovens às bancas para comprar jornal -, era o que acontecia a cada edição semanal de O Pasquim, jornal de oposição ao regime, que passava de mão em mão até ficar imprestável. 

Agora, leitor, compare o que descrevi acima com o que observa na atenção dos jovens de hoje às muitas pautas da política. Hum? E olhe que não estou falando de participação. Estou falando apenas de atenção, tentativa de compreensão. Nada! As disputas pelo comando dos diretórios e centros acadêmicos, numa demonstração de absoluto desinteresse, mobilizam parcela ínfima dos alunos. Claro que há exceções nesse cenário de robotização. Mas o contraste que proporcionam permite ver o quanto é extensa a alienação política da nossa juventude num período em que as franquias democráticas estão disponíveis à vitalidade da dimensão cívica dos indivíduos. 

Em meio às intoleráveis dificuldades impostas à liberdade de expressão nos anos 60 e 70, a juventude daquela época viveu um engajamento que hoje não se observa em quaisquer faixas etárias. Nada representa melhor a apatia política da juventude brasileira na Era Lula do que os fones de ouvido.

Abaixo o país das gambiarras


Ricardo Galuppo 
Brasil Econômico

O ano começou e, sem querer apelar para o surrado recurso da bola de cristal, é possível prever o que acontecerá nos próximos meses e apontar alguns temas que frequentarão as manchetes dos jornais de hoje até dezembro.

Haverá novos apagões de eletricidade, causados por deficiências no sistema, embora a presidente Dilma Rousseff tenha garantido no final de 2012 que a causa dos sucessivos blackouts pelo país afora são falhas humanas.

A usina de Belo Monte e as demais hidrelétricas que estão sendo construídas terão as obras paralisadas mais uma vez.

As rodovias federais se mostrarão insuficientes para garantir o trânsito livre e seguro aos motoristas que viajarão (ou tentarão viajar) por elas. O trânsito nas cidades maiores ficará ainda pior.

Os aeroportos, mesmo com as melhorias feitas nos terminais privatizados, continuarão lotados e os usuários tratados sem o respeito que um cliente merece. 

Hoje em dia, um passageiro que vai de Brasília para São Paulo corre o risco de demorar mais tempo à espera da bagagem e do táxi no aeroporto do que dentro do avião.

A despeito de tudo isso, o debate eleitoral ganhará espaço - sobretudo no segundo semestre - e as soluções desses e de outros problemas serão empurrados para o próximo mandato presidencial.

É assim que tem sido nos últimos anos e nada indica mudanças nesse cenário. O Brasil desenvolveu uma capacidade incrível de se contentar com soluções improvisadas em lugar de colocar todos os problemas sobre a mesma prancheta, fazer estudos sérios e isentos de viés partidário e propor soluções de longo prazo.

O Brasil precisa deixar de ser o país das gambiarras e de se contentar com alguns dos argumentos mais utilizados para justificar a inoperância de algumas instituições. Um desses argumentos é o de que em ano eleitoral não se mexe em problemas delicados.

Outro argumento é o de que a configuração do Congresso Nacional impede que se mexa em temas estruturais. Existe ainda o velho e falacioso argumento de que o Brasil, por não ser um país desenvolvido, pode se contentar com soluções de segunda linha.

Finalmente, tem muita gente por aí que demonstra uma convicção impressionante diante da ideia de que a capacidade de improvisação e a alegria natural do povo brasileiro transformam qualquer tragédia em festa. Não precisa ser assim.

O Brasil precisa se imaginar como quer ser daqui a 20 anos e começar agora a se preparar para isso. Precisa traçar um plano, discuti-lo e colocá-lo em prática. Precisa investir mais em programas como o Ciência Sem Fronteiras, que criarão uma geração inteira de cidadãos que, por terem passado anos vivendo em sociedades mais organizadas, ajudarão a mudar a face do país.

Precisa entender que grandes problemas exigem grandes soluções. E ir em frente. 

Intervenção no câmbio


Celso Ming
O Estado de S.Paulo

O ministro da Fazenda, Guido Mantega, passou meses desfilando o argumento de que a desvalorização cambial (alta do dólar) induzida pelo governo, de cerca de 20% desde março deste ano, revitalizou a indústria.

As lideranças do setor não escondem a insatisfação. O presidente da Fiesp, Paulo Skaf, por exemplo, quer um dólar que flutue entre R$ 2,30 e R$ 2,40, ou seja, quer uma desvalorização adicional do real de cerca de 15%. De todo modo, havia ficado a impressão de que o governo Dilma estava engajado na tarefa de dar mais competitividade à indústria.

Mas o Banco Central do Brasil, que vem fazendo o jogo ativista do governo tanto nos juros como no câmbio, foi obrigado a inverter prioridades. Ao longo de dezembro (até dia 21) vendeu US$ 1,7 bilhão em moeda estrangeira no câmbio futuro, disposto a impedir que a cotação do dólar saltasse para acima dos R$ 2,10. Sexta-feira, também sob efeito da atuação do Banco Central, presidido por Alexandre Tombini, a cotação do dólar fechou o ano a R$ R$ 2,045.

Estas não são intervenções meramente episódicas. Em novembro, o Banco Central também agira com firmeza redobrada para impedir que o câmbio produzisse mais inflação.

Essas mexidas no câmbio há muito mudaram de qualidade. Antes, limitavam-se a dar liquidez ao mercado e a evitar excessiva volatilidade. A partir de abril, deixaram de fazer parte de uma política estratégica do governo. O câmbio passou a ser usado como ferramenta de ocasião para apagar incêndios.

Hoje, está claro que o Banco Central está interessado em manter o câmbio relativamente fixo. Suas cotações não devem resvalar para abaixo dos R$ 2,00 por dólar. Também não devem saltar para acima de R$ 2,10.

Assim, a economia brasileira atua agora com os dois principais preços do real relativamente fixos. Os juros básicos (o preço interno) permanecerão nos 7,25% ao ano por "tempo suficientemente prolongado", como já avisou o Banco Central, e o câmbio (preço externo da moeda nacional) está amarrado aos tais R$ 2 por dólar, porque passou a a ter a função de conter a inflação.

Um governo pode manter fixos esses dois preços somente por um período curto. Com o tempo, as distorções serão inevitáveis. Não foi só o comportamento insatisfatório do PIB que atropelou o governo Dilma. O estouro da inflação para mais perto dos 6,0% do que dos 5,5% em 12 meses também contrariou suas expectativas. Mas, em vez de aceitar esses desvios como indicações de desequilíbrios da economia; e em vez de apertar mais as despesas públicas para controlar a inflação; o governo optou por borboletear sobre os sintomas. Trabalha com a hipótese de que essa e outras anomalias foram geradas pelas conturbações da economia global e serão superadas naturalmente.

O risco que corre o governo Dilma - e aí vai sendo apontada uma das distorções acima mencionadas - é que a contenção da alta do dólar não seja suficiente para segurar a inflação. E à medida que a inflação mantiver sua força, entre 5% e 6% ao ano, o câmbio contido à altura dos R$ 2,00 por dólar estará corroendo a competitividade que o governo pretendeu dar à indústria quando promoveu a desvalorização cambial. E, aí, o que fará o governo para evitar as pressões por novas desvalorizações do real?

O vício do resgate antecipado


Angela Bittencourt  
Valor

O Brasil padece de escassez de financiamento de longo prazo. E essa verdade fala mais alto especialmente quando o governo mira taxas mais robustas de crescimento no embalo de novos investimentos em produção e infraestrutura. A União, controladora do capital do BNDES que banca os principais projetos que exigem injeção pesada de recursos, reclama da baixa cooperação das instituições financeiras privadas.

Essas instituições também se queixam por considerar que não há oferta de poupança em prazos ampliados porque no país há uma tributação nervosa e exagerada. Mas gregos e troianos reconhecem avanços no desenvolvimento e comercialização de instrumentos financeiros em função, sobretudo, do processo consistente de queda das taxas de juros e de maior estabilidade macroeconômica. É fato que a inflação brasileira não está colada no centro da meta, de 4,5% há tempo. Mas é fato também que o mercado vê a inflação estrutural brasileira em torno de 5,5% - patamar que vem se mantendo.

Estatísticas do Banco Central (BC) sobre depósitos bancários confirmam, porém, que parcela determinante do total de títulos emitidos pelas instituições brasileiras tem cláusula de resgate antecipado de valores. Em 2006, das emissões equivalentes a R$ 287 bilhões, cerca de 60% estavam atreladas ao resgate antecipado. O restante, 40%, deveria, portanto, ser levado pelo comprador ou aplicador até o vencimento. Em junho de 2012, mostram os dados do BC, do total de R$ 726 bilhões de depósitos a prazo, aproximadamente 75% estavam atrelados ao resgate antecipado e apenas 25% das emissões ficariam obrigatoriamente nas carteiras dos aplicadores até o prazo final da operação.

Alguns analistas atribuem essa condicionalidade das emissões ao nosso histórico de hiperinflação, que acabou criando resistências especialmente nos investidores locais a manter recursos, correndo o risco de perder dinheiro em caso de súbitas arrancadas dos preços na economia. Outros consideram, contudo, que o perfil dos compradores dos títulos bancários tem influência nas características das emissões.~

Em tempo: Em junho de 2012, os clientes pessoas físicas e jurídicas dos bancos respondiam por 77,4% das aplicações em depósitos a prazo do sistema. Desse total, mais de 86% das aplicações estavam condicionadas ao resgate antecipado. Os investidores institucionais respondiam, também em meados de 2012, por 22,4% das compras de CDB. E, nesse caso, quase 39% estavam atrelados ao resgate antecipado. Mas a maioria dos papéis (cerca de 61%) foi adquirida para resgate apenas no fim do prazo da operação.