Angela Bittencourt
Valor
O Brasil padece de escassez de financiamento de longo prazo. E essa verdade fala mais alto especialmente quando o governo mira taxas mais robustas de crescimento no embalo de novos investimentos em produção e infraestrutura. A União, controladora do capital do BNDES que banca os principais projetos que exigem injeção pesada de recursos, reclama da baixa cooperação das instituições financeiras privadas.
Essas instituições também se queixam por considerar que não há oferta de poupança em prazos ampliados porque no país há uma tributação nervosa e exagerada. Mas gregos e troianos reconhecem avanços no desenvolvimento e comercialização de instrumentos financeiros em função, sobretudo, do processo consistente de queda das taxas de juros e de maior estabilidade macroeconômica. É fato que a inflação brasileira não está colada no centro da meta, de 4,5% há tempo. Mas é fato também que o mercado vê a inflação estrutural brasileira em torno de 5,5% - patamar que vem se mantendo.
Estatísticas do Banco Central (BC) sobre depósitos bancários confirmam, porém, que parcela determinante do total de títulos emitidos pelas instituições brasileiras tem cláusula de resgate antecipado de valores. Em 2006, das emissões equivalentes a R$ 287 bilhões, cerca de 60% estavam atreladas ao resgate antecipado. O restante, 40%, deveria, portanto, ser levado pelo comprador ou aplicador até o vencimento. Em junho de 2012, mostram os dados do BC, do total de R$ 726 bilhões de depósitos a prazo, aproximadamente 75% estavam atrelados ao resgate antecipado e apenas 25% das emissões ficariam obrigatoriamente nas carteiras dos aplicadores até o prazo final da operação.
Alguns analistas atribuem essa condicionalidade das emissões ao nosso histórico de hiperinflação, que acabou criando resistências especialmente nos investidores locais a manter recursos, correndo o risco de perder dinheiro em caso de súbitas arrancadas dos preços na economia. Outros consideram, contudo, que o perfil dos compradores dos títulos bancários tem influência nas características das emissões.~
Em tempo: Em junho de 2012, os clientes pessoas físicas e jurídicas dos bancos respondiam por 77,4% das aplicações em depósitos a prazo do sistema. Desse total, mais de 86% das aplicações estavam condicionadas ao resgate antecipado. Os investidores institucionais respondiam, também em meados de 2012, por 22,4% das compras de CDB. E, nesse caso, quase 39% estavam atrelados ao resgate antecipado. Mas a maioria dos papéis (cerca de 61%) foi adquirida para resgate apenas no fim do prazo da operação.