sexta-feira, maio 01, 2020

Saúde pública: o caos começou ontem e sem pandemia!

Comentando a Notícia

Em dezembro de 2013, este blog publicou um texto, da jornalista Ruth de Aquino  cujo título já dava o tom do que se tratava: “O CORREDOR DA MORTE DOS HOSPITAIS”. Fui lembrado deste texto perdido no tempo, por uma leitora do blog com o seguinte e oportuno comentário: “Não é de hoje e nem culpa do corona virus q cidadãos morrem nos corredores dos hospitais, porque não tem leitos para todos”

Naquele tempo, comentamos que “... Faz cerca de seis anos que reproduzimos aqui um artigo de um médico que denunciava o descaso que o então  governo  do senhor Lula tratava a saúde pública do país. De lá para cá, é doloroso constatar que a situação degradou ainda mais.

Em outros textos, publicamos levantamentos que estimavam em cerca de 40 mil leitos que o país havia perdido. E notem: não havia nem epidemias tampouco pandemias, ou crises na saúde da população. Porém, os hospitais, principalmente o sistema do Rio de Janeiro, já mostravam o caos que o Brasil enfrentava. .

Ainda acrescentamos o seguinte: “Também na semana passada, o tal programa federal Mais Médicos, lançado como panaceia para a cura dos males da incompetência do governo em relação à saúde pública, teve um caso insólito. A senhora Rousseff vetou artigo que criava a carreira federal para os médicos brasileiros, numa prova inconteste de que ao governo da Senhora Rousseff não há interesse em resolver o problema da falta de profissionais de saúde na rede pública. “ 

Em 2013 já tínhamos o horror em muitos hospitais da rede pública: pacientes morriam sem atendimento, doentes eram amontoados nos corredores.

Em seu primoroso texto, a jornalista já destacava: “Faltam roupas, remédios, leitos, faltam médicos, anestesistas, enfermeiros. FALTA VERGONHA”. E acrescenta: “No Rio, há 12.500 pacientes à espera de cirurgia em hospitais federais. Alguns esperam há sete anos. Os dados são da semana passada, levantados pela Defensoria Pública da União.”

Sugerimos que os leitores façam uma retrospectiva com a leitura deste texto. Íntegra aqui.

 Hoje, o Brasil paga um alto preço pela desestruturação da saúde pública praticada nos últimos anos. E atenção: que as oposições de hoje, que foram governo neta triste época, não tem o direito de virem à público criticar o governo atual. Foram os governos petistas, de Lula e Dilma que levaram o caos à rede pública. 

As dificuldades que o país vem enfrentando não podem ser justificados apenas pela pandemia. O vírus apenas externa e prova que a desgraça tem sua origem em priscas eras. 

Alguém pode tentar justificar este caos e desestruturação com a velha desculpa da “falta de verbas”. Isto seria o máximo da cretinice. Vejam: o ex-presidente Lula, em seu primeiro mandato, teve à sua disposição cerca de R$ 150 bilhões oriundos da cobrança da CPMF após sua extinção. E, conforme o TCU comprovou, muito pouco destes recursos foram de fato aplicados na saúde. 

Portanto, com um sistema neste estado caótico, seria um verdadeiro milagre se, com a pandemia, o Brasil não viesse sofrer as consequências danosas fruto do desmonte praticado pelo PT na saúde pública. 

Como desgraça pouca é bobagem, quando o país ganhava um verdadeiro e competente ministro da Saúde, que soube com serenidade e eficiência conduzir as medidas e providências iniciais de combate à pandemia, eis que aparece um irresponsável feito Jair Bolsonaro e o demite. O resultado é o que estamos assistindo nas últimos. Aumento vertiginoso do contágio e das mortes e o colapso do sistema de saúde.  

Senhores, sempre é bom lembrar o que nossos governantes fizeram e deixaram de fazer em passado recente. Só que Bolsonaro não precisa piorar o que já está ruim, criando e gerando crises políticas inúteis ao invés de se preocupar em combater o inimigo comum chamado de covid-19.

Conclusão: o desastre instalou-se de vez, e ele começou ontem. A pandemia só acentuou o caos..

Dinheiro para Estados e Municípios – 

Ainda se discute um pacote de socorro aos Estados e Municípios. Trata-se de uma forma de compensação pelas perdas de arrecadação causados pela paralisia da economia provocada pela pandemia. Até aí nada a contestar. De fato, cabe ao governo federal, dado o centralismo excessivo que a União concentra, acudir os entes federados, muitos dos quais já sofriam crises fiscais bem antes da chegada da pandemia ao país; 

A preocupação surge em duas vertentes: de um lado, qual será a contrapartida que governadores e prefeitos irão oferecer para compensar o socorro. A outra ponta, é quem vai fiscalizar a aplicação do dinheiro. Não seria surpresa que parte do dinheiro fosse desviado ou pela corrupção dos maus políticos e gestores, ou pela aplicação em áreas não essenciais e que não guardam relação alguma com o combate à doença e socorro aos infectados, como melhoria na capacitação da rede hospitalar com aumento de ofertas de leitos de enfermaria e leitos de UTI. Fornecimento de EPI para os profissionais de saúde, aquisição de equipamentos e insumo, além de distribuição de máscaras e álcool em gel para toda a população. .

Respostas para um escroto sem noção

Comentando a Notícia


Impossível começar este texto sem esta afirmação: senhor Bolsonaro deixe de ser canalha e um presidente escroto e medíocre. Isto não se trata de ofensas, e sim de elogiar suas qualidades mais visíveis...

Há muitos motivos para desqualificar o presidente. Hoje soltou mais uma das muitas pérolas estúpidas com que tem se manifestado. Segundo este “jênio” da raça,  contrariando consenso científico, afirmou que “o isolamento social foi inútil” além minimizar o impacto da Covid-19, que já matou ao menos 5.901 pessoas no país.

Questionado sobre o crescente número de mortos no Brasil em consequência do  covid’19, o Doutor Genocida respondeu assim: “'E daí? Lamento, quer que eu faça o quê?', diz Bolsonaro sobre recorde de mortos.

Presidente é simples: bastar decretar, em todo o território nacional, a quarentena recomendada pela OMS, pedindo que as pessoas atendam ao isolamento e distanciamento social, única forma conhecida para evitar o aumento do contágio da pandemia e, assim, poupar centenas de vidas. E, faça um favor a si mesmo: pare de mentir e desinformar o país sobre as recomendações expedidas pela OMS. Deixe de ser mau caráter! 

Diga lá, Presidente: quantos milhares de brasileiros ainda precisarão morrer para o senhor criar vergonha na cara e assumir um papel de responsabilidade séria no enfrentamento do vírus letal?

Ou será que o congestionamento nos hospitais e o caos nos serviços funerários não são capazes de sensibilizá-lo? Será que as experiências de países europeus, para o bem ou para mal, não podem ser adotados no país, experiências que poupariam vidas, aliviaram as emergências hospitalares e o atropelo nos cemitérios? 

 Somos 210 milhões de brasileiros e temos o direito mais básico dentre todos: o direito à vida. Pare de ser irresponsável, pare de provocar mortes. Sua resposta ao ser questionado não poderia ter sido mais canalha, mais estúpida, mais moleque, mais delinquente. 

Ser presidente da República não lhe dá direito de roubar vidas. Impõe-lhe o papel de verdadeiro governante com um mínimo de respeito às pessoas.

É ser sim, muito canalha querer jogar a responsabilidade pelas mortes a governadores e prefeitos que decretaram quarentenas. Não fossem tais medidas e, por certo, estariam lamentando a morte de 10 talvez 15 mil mortes ao invés das cerca de 5.900 atuais. E, certamente, já teríamos ultrapassado a barreira de 100 mil infectados. |

Mais: acusar o isolamento adotado em alguns países europeus como culpados pelas milhares de mortes é de uma ignorância dolorosa. Além de uma total falta de senso de realidade. Vamos à verdade dos fatos, e não às fantasias bestiais de presidente moleque. 

Onde os números de infectados mais se avolumaram? Na região da Lombardia, Itália, com  o prefeito de Milão precisando vir a público pedir desculpas,  além de adotar o isolamento total para a população . Onde mais? Na Espanha, cujas autoridades demoraram em demasia para decretar a quarentena. Onde mais? No Reino Unido, cujo Primeiro Ministro, Boris Johnson, além de ter sido infectado, aconselhava vida normal aos britânicos e apertava a mão inclusive de infectados. Acabou tendo que rever sua posição e determinar a quarentena. E que tal os Estados Unidos, onde o presidente também fez pouco caso da pandemia e hoje paga o alto preço de enfrentar o epicentro da pandemia.  

O senhor Bolsonaro, além dos passeios irresponsáveis, de forma genocida sempre incentivou a livre circulação de pessoas e hoje, tristemente, pagamos um alto preço desta delinquência presidencial.

Ou o governo venha a público, em cadeia de nacional de rádio e televisão e revê seu posicionamento de relaxamento,  e pede de forma decisiva e séria que as pessoas FIQUEM EM CASA ou, quando atingirmos o pico da doença, infectados e mortos serão contados aos milhares, além do colapso total da saúde pública e dos serviços funerários.

Querem uma amostra da pouca seriedade com que o governo Bolsonaro trata a saúde com total desdém? Em TODAS as últimas cerimônia ocorridas no Planalto, poucos ou nenhum dos participantes compareceram com máscara, cuidado mínimo e exemplo péssimo de um governo irresponsável comandado por um presidente escroto e assassino.   E tenha certeza, senhor Bolsonaro: a história não irá poupá-lo da sua  desídia, omissão, irresponsabilidade e descaso, que são extremamente  REVOLTANTE.. 

Salta aos olhos a compulsão do senhor Bolsonaro para distorce4r os fatos para que caibam em sua mentiras e mistificações. Além disso, quando o fato é ruim, sua defesa, invariavelmente, é a grosseria, a agressão, a estupidez, a ofensa quando não a transferência de responsabilidades. Para este escroto, culpados são sempre os outros.

Você, Bolsonaro, só sabe dizer “Quem manda sou eu”, mas no combate contra a pandemia, como se nota, você tem é mandado nada. Zero. E as estatísticas da desgraça estão sendo esfregados na tua cara de nenhuma vergonha e desrespeito total à vida humana.

Não sabes o que fazer, seu pulha? Determine, em cadeia nacional, que TODOS, que não atuam em serviços essenciais, USEM MÁSCARA, LAVAR AS MÃOS COM SABÃO E UTILIZEM O ÁLCOOL GEL E, PRINCIPALMENTE, FIQUEM EM CASA

Em nome e em respeito à vida, senhor Bolsonaro,  pare, imediatamente, de incentivar o relaxamento das medidas restritiva e seja digno minimamente: peça desculpas à Nação por sua ação genocida e irresponsável. 

Quanto ao fato de ser “Messias” e “não fazer milagres”, ninguém está pedindo por eles. O que se quer é que o presidente  tenha juízo e pare de incentivar o caminho da morte. Só isto seria suficiente. Mas, ao que parece, este “Messias” consegue apenas um milagre: o dele próprio se tornar um governante responsável pelos contágios e mortes. 

Eis as respostas para amenizar sua surpresa. 

Portanto, crie vergonha na cara, presidente Bolsonaro ! Pare de nos condenar à morte!!!!!

Não haverá economia se não houver gente viva para desfrutá-la. Assim, doutor genocida, deixe de ser medíocre, indiferente e incompetente!

NOTA FINAL: O CENTRÃO E BOLSONARO.-

 Quem conhece a história do Centrão sabe que sua atuação nunca. jamais visou o interesse público, a melhoria da qualidade de vida da população. Ao Centrão interessam cargos sim, mas somente aqueles que disponham de muita verba para torrar. São mamadores por excelência, sua especialidade é avançar nos cofres do Tesouro. E é com esta quadrilha de larápios que Bolsonaro buscará alianças , Ou seja, além de sua insignificância como presidente, o exterminador vai ressuscitar a velha política do é dando que se recebe, trazendo no bojo, o patrimonialismo, clientelismo e outros cânceres mais. Trata-se de mais um estelionato eleitoral. 

Interessante é que a turma do Centrão, verdadeira milícia política, é que ninguém quer ministérios pobrinhos. Só desejam aquelas pastas com orçamento bem obesos.

Esta aliança espúria, não estranhamos nenhum um pouco. Para quem dispensa ministros como Mandetta, Moro e  aliados da primeira hora, para manter-se com Abraham Weintraub, Ernesto Araújo, Ricardo Salles e aceita a ingerência de Olavo de Carvalho, se percebe o quão ordinário é este senhor. 



Como o novo coronavírus acentua as desigualdades no Brasil

Bruno Lupion
Deutsche Welle 

Covid-19 ameaça particularmente a saúde e a renda dos mais pobres, moradores de periferia e que já tinham vínculos frágeis no mercado de trabalho. Maior impacto da pandemia ainda está por vir, preveem especialistas.     

População pobre tem probabilidade maior de ter doenças pré-existentes 
que tornam infecção pelo coronavírus mais perigosa

O novo coronavírus chegou ao Brasil trazido por pessoas da classe alta, que fizeram viagens internacionais e se contaminaram no exterior. Um dos primeiros casos no país foi o de um homem de 61 anos, morador de São Paulo, que passou duas semanas na Itália em fevereiro. Internado no hospital Albert Einstein, teve o diagnóstico confirmado em 26 de fevereiro e se curou da doença duas semanas depois.

Rapidamente, o vírus desceu na hierarquia social e agora se espalha pelas classes baixas. Em grandes centros urbanos, a covid-19, doença provocada pelo novo coronavírus, já mata mais na periferia do que no centro. Na cidade de São Paulo, entre os bairros onde moravam mais vítimas estão Brasilândia, Sapopemba, São Mateus e Cidade Tiradentes, todos na periferia. O mesmo ocorre em outras capitais. Em Fortaleza, os bairros em situação mais crítica são Barra do Ceará e José Walter, ambos na periferia.

A contaminação é facilitada pela distribuição desigual da renda. Nas periferias, as condições para cumprir o isolamento social são piores: há mais moradores por domicílio, o acesso a água encanada, vital para a higienização, às vezes não existe ou é intermitente, e a insegurança econômica estimula muitos a saírem de casa para obter algum dinheiro.

Quando alguém é infectado e adoece, o sistema público de saúde é a única alternativa, e em algumas cidades ele já está saturado para tratar casos graves. O ponto de partida já é desigual: o número de leitos de UTIs na rede pública, por 10 mil habitantes, é quase cinco vezes inferior ao da rede privada.
A tendência é que a crise provocada pela covid-19 acentue a desigualdade no Brasil, que já é um dos países mais desiguais do mundo, afirma Fernando Burgos, professor da FGV-EAESP e especialista em políticas sociais e desigualdade.

"Quando começou a pandemia, muitas pessoas diziam que a covid-19 iria igualar os desiguais, pois todos iriam ficar doentes, precisar de respiradores, etc. Isso era uma bobagem. A doença afeta desigualmente os desiguais, e será cada vez mais dura com os mais pobres", diz.

Impacto na saúde

A primeira interação visível entre a pandemia e a desigualdade se dá nas condições para evitar a contaminação. Antônio Augusto Moura da Silva, professor de epidemiologia da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), afirma que o alto número de óbitos nas periferias de regiões metropolitanas é uma consequência da condição de vida nesses locais.

"Nas periferias é mais difícil manter o distanciamento social, e a transmissão deve estar ocorrendo a uma maior velocidade", diz. Segundo ele, a situação nesses bairros irá se agravar nas próximas semanas e, com o sistema de saúde saturado, "pessoas vão começar a morrer em casa".

Não é só o ritmo de contaminação que prejudica as classes baixas. A população pobre também tem uma probabilidade maior de ter doenças pré-existentes, como diabetes, hipertensão, doença pulmonar e cardíaca ou insuficiência renal, que tornam uma infecção pelo coronavírus mais perigosa. Na província de Hubei, na China, a taxa de hospitalização foi 1,8 vez maior para os contaminados pelo coronavírus que tinham alguma comorbidade, e 2,6 vezes maior para os com duas ou mais comorbidades.

Um estudo publicado em 6 de abril pelas economistas Luiza Nassif Pires, do Bard College, nos Estados Unidos, e Laura Carvalho, da USP, e pela médica e pesquisadora Laura de Lima Xavier, da Universidade Harvard, nos Estados Unidos, com base na Pesquisa Nacional de Saúde do IBGE de 2013, mostra como as classes mais baixas têm, proporcionalmente, mais comorbidades.

Segundo o trabalho, entre os brasileiros que frequentaram apenas o ensino fundamental, 42% têm uma ou mais doenças crônicas associadas aos casos mais graves da covid-19, enquanto na média da população essa taxa é de 33%. "A base da pirâmide tem maior probabilidade de precisar de internação no caso de contaminação pelo coronavírus", afirmam as autoras.

Redução na renda

Além da saúde, a pandemia também atinge o bolso das diferentes classes sociais de forma distinta. Uma pesquisa realizada pelo DataPoder360 de 13 a 15 de abril mostrou que, quanto mais pobre, maior o impacto da covid-19 na renda dos brasileiros.

O levantamento perguntou aos entrevistados se o coronavírus prejudicou sua renda ou emprego. Entre os desempregados ou sem renda fixa, 77% responderam que sim. O percentual cai para 57% entre os que ganham até dois salários mínimos, e para 26% entre os que recebem mais de dez salários mínimos.

Em nota técnica publicada pela Rede de Políticas Públicas e Sociedade, os pesquisadores Rogério Barbosa, do Centro de Estudos da Metrópole, e Ian Prates, do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento, estimaram o número de trabalhadores afetados no Brasil pela covid-19, e concluíram que 81% da força de trabalho (75,5 milhões de pessoas) experimentam algum tipo de vulnerabilidade em função da pandemia. Os mais vulneráveis, com empregos menos estáveis em setores não essenciais, como serviços domésticos, cabeleireiros, comércio de vestuário e manutenção de veículos, somam 23,8 milhões de pessoas, ou 25,5% da população.

"Muitas pessoas que já tinham vínculos frágeis no mercado de trabalho vão perdê-los, e será difícil restabelecê-los", diz Burgos, da FGV-EAESP. Em crises como essa, o sistema de proteção social do país deveria reagir, mas está respondendo de forma frágil.

Ele afirma que as iniciativas da Renda Básica de Emergência, que pagará 600 reais por mês por três meses a trabalhadores informais de baixa renda, e a expansão do Bolsa Família demoraram para ser anunciadas e ainda enfrentam problemas de implementação.

"Tínhamos três semanas de antecedência em relação a outros países e já podíamos ter botado dinheiro na mão dessas pessoas mais vulneráveis, mas temos um governo que não acredita na pandemia", diz Burgos, lembrando que muitas pessoas que teriam direito ao benefício ainda não conseguiram recebê-lo.

Moura da Silva, da UFMA, realça que a covid-19 deve atingir também de forma mais aguda os pretos e pardos, que predominam entre a população de baixa renda. "A taxa de mortalidade será maior nesse grupo do que entre os brancos", afirma.

Acesso à educação

Outra área em que a covid-19 impacta de forma distinta as classes baixas e altas é a educação. Enquanto os alunos de boas escolas privadas migraram para o ensino online e seguem ativos e apoiados por uma boa estrutura em casa durante o isolamento social, em muitas cidades os estudantes da rede pública sofrem com a ausência ou precariedade de sistemas de ensino à distância e não têm espaço ou conexão à internet adequados em casa.

"O esforço de muitos professores é gigantesco, mas as escolas públicas têm piores condições, e isso vai gerar mais desigualdade. O aluno do terceiro ano do Ensino Médio, que já tinha menos chance de ter uma boa nota no Enem [Exame Nacional do Ensino Médio], estará em piores condições para competir", diz Burgos.

Mesmo que a rede pública migre para o ensino online, como é o caso de São Paulo, as condições de estudo em casa variam. Ele cita o próprio caso da FGV-EAESP, que tem alunos bolsistas que moram em favelas.

"Você vê a condição da pessoa assistindo à aula em casa, e é muito diferente. Enquanto alguns [de classes altas] estão no quarto, em seu computador, com alguém preparando almoço para ele, outros [de classe baixa] estão na cozinha, assistindo com o irmão menor ao lado, dividindo o computador, com internet ruim. Ambos terão a mesma condição? Óbvio que não", afirma.

Maior impacto ainda está por vir

Os dois professores consultados pela DW Brasil estimam que os efeitos da covid-19 na desigualdade brasileira serão percebidos com maior nitidez nas próximas semanas.

Burgos afirma que as redes de solidariedade formadas para doação de alimentos, importantes neste primeiro momento, podem se esgotar e se mostrar insuficientes para manter um padrão de vida mínimo para a população mais pobre.

"Não adianta só dar feijão e arroz, se não der botijão de gás para eles cozinharem. E os empresários vão ficar doando por quanto tempo? Tenho dúvidas se essa solidariedade será permanente", diz.

Ele diz que o país está presenciando atualmente a primeira onda de vulnerabilidade provocada pela pandemia. A segunda onda virá em cerca de um mês, quando ficará mais claro o impacto nas pessoas que foram demitidas ou que não estão conseguindo manter uma renda de subsistência. "A desigualdade é um projeto nacional no Brasil, e a pandemia veio para agravar esse projeto", diz.

A chegada da covid-19 aos municípios menores também deve adicionar pressão às classes baixas desses locais, diz Moura da Silva, da UFMA. "Muitas cidades brasileiras não dispõem de UTI, e uma parcela dos contaminados vai precisar ser internada. Isso pode gerar uma situação bastante dramática na rede pública", afirma.



Teich muda discurso: ‘Não dá para começar liberação quando se tem uma curva em franca ascendência'

André Borges e Julia Lindner, 
O Estado de S.Paulo

Ministro da Saúde admitiu que o Brasil pode vir a registrar cerca de 1 mil mortos por dia

  Foto: Gabriela Biló
O ministro da Saúde, Nelson Teich 

BRASÍLIA- O ministro da Saúde, Nelson Teich, admitiu que o Brasil pode vir a registrar cerca de 1 mil mortos por dia e mudou completamente o tom sobre os planos de flexibilizar o isolamento social defendido pelo presidente Jair Bolsonaro. Ele afirmou que o momento é impróprio, dado o avanço crescente de mortes e contaminações em todo o País.

“Ninguém está pensando em relaxamento. Ninguém está pensando em relaxar o isolamento. Neste momento, ninguém está pensando em flexibilizar nada”, disse Nelson Teich, em coletiva de imprensa realizada no Palácio do Planalto. “Temos uma diretriz pronta, um ponto de partida, mas não dá para você começar uma liberação (social) quando você tem uma curva em franca ascendência.” 

Teich disse que, neste momento, o foco é apoiar a infraestrutura de Estados e municípios que estão em situação de emergência. “As diretrizes estão feitas, tem que ver como a gente vai veicular. Ninguém vai chegar aqui com uma coisa milagrosa. O mundo inteiro está tomando iniciativas de flexibilização. O distanciamento social permanece como a orientação. Vamos avaliar cada Estado e município”, disse o ministro. 

O ministro admitiu que o Brasil pode vir a registrar cerca de 1 mil mortos por dia. Nas últimas 24 horas, foram registradas 435 mortes pela covid-19. “É um número possível de acontecer. Não quer dizer que vai acontecer”, comentou. 

Teich disse que, apesar de haver muitos municípios com poucos casos confirmados, cerca de 15% dos municípios mais sensíveis pode concentrar a maioria da população. “Se a gente não parar para entender e ficar polarizando se é bom ou ruim, não vai levar a nada. Temos que analisar isso de forma tranquila e equilibrada”, disse.

Quando chegou ao ministério, Teich disse que estava 100% alinhado ao discurso de Bolsonaro e que o País precisava tratar de medidas de flexibilização onde fosse possível. A realidade, porém, é que o crescimento rápido do vírus em todo o País tem feito com que o Ministério da Saúde tenha de priorizar a agenda de socorro a locais que passam por todo tipo de dificuldade, como as cidades de São Paulo, Rio de Janeiro, Recife, Manaus e Fortaleza.


Brasil chega a 91 mil casos da covid-19 e supera 6 mil mortes

Da redação
Exame.com

Balanço do mês de abril, que começou com 6.931 casos confirmados e 244 óbitos, mostra que a doença está se expandindo rapidamente no país

ATUALIZADO ÀS 16:15 HS

 (Bruno Kelly/Reuters)
Covid-19: Brasil está entre os países com o maior número de mortes pela doença

O Brasil atingiu nesta sexta-feira, 1, a marca de 91.589 casos confirmados do novo coronavírus, segundo dados do Ministério da Saúde. Os óbitos pela doença já chegam a 6.329.

Nas últimas 24 horas, foram mais 428 mortes e 6.209 novos casos de contaminação pela covid-19. O balanço do mês de abril, que começou com 6.931 casos confirmados e 244 óbitos, mostra que a doença está em expansão, bem como a realização de testes. Apenas na última semana foram 2.313 mortes.

São Paulo, epicentro da covid-19 no país, está com 30.374 casos confirmados da doença e 2.511 mortes.

Por conta desse alto ritmo de contágio, o secretário municipal de Saúde, Edson Aparecido, informou nesta manhã que o prefeito Bruno Covas (PSDB) vai ampliar a quarentena na cidade além de 10 de maio, prazo final das restrições.


Já no Rio de Janeiro, que está com mais de 2 mil funcionários da saúde contaminados e fila de espera de mil pessoas para vagas em UTI, o governador Wilson Witzel (PSC) está avaliando decretar “lockdown”. O estado registra 9.453 casos confirmados e 854 mortes.

Em seguida está o Ceará (7.606 casos e 482 mortes), Pernambuco (6.876 casos e 565 mortes) e Amazonas (5.254 casos e 425 mortes). Os três estados estão em situação crítica.

Pico e contágio

Apesar do trágico cenário, o ministro da Saúde, Nelson Teich, afirmou ontem que “ninguém sabe” quando será o pico da doença no país, nem se ele chegará ao mesmo tempo em todos os estados.

Segundo o chefe da pasta, a falta de informações sobre o número real de pessoas infectadas, de óbitos e de testes realizados prejudica o combate à pandemia. “Sem informações, o distanciamento social é a única certeza que temos por enquanto”, disse em interrogatório no Senado.

Um novo estudo feito pelo Imperial College de Londres, uma das universidades mais respeitadas do mundo, estima que o Brasil tem a maior taxa de transmissão da covid-19.

De acordo com os resultados, Brasil e Estados Unidos são países que ainda passam por uma fase difícil da pandemia e podem registrar 5.000 mortes na próxima semana em decorrência de complicações da doença.

O colapso previsto por Mandetta começa a se tornar realidade

Roberta Paduan 
Veja online

Em 20 de março, o ex-ministro previu que o sistema de saúde chegaria ao limite de capacidade no final de abril por causa da Covid-19

  Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil
O ex-ministro Luiz Henrique Mandetta: não era exagero 

O ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta, que pilotou o combate à pandemia do novo coronavírus até duas semanas atrás, ganhou popularidade durante a crise, em parte pela maneira didática com que explicava a doença e as formas de se proteger dela. Mas o ex-ministro também ganhou confiança de boa parte da população (64% discordaram de sua demissão) por tratar o problema de forma muito transparente. Muitas das projeções feitas por ele sobre o avanço da pandemia estão se confirmando hoje.

Nos últimos dias, uma das previsões mais preocupantes feitas por Mandetta vêm tomando contornos de realidade: o colapso do sistema de saúde. De acordo com o ex-ministro, o “apagão sanitário” ocorreria no final de abril. “Claramente, em final de abril nosso sistema de saúde entra em colapso”, disse Mandetta em 20 de março, em uma reunião com o presidente Jair Bolsonaro e um grupo de empresários. Em seguida, o então ministro explicou: “O que é um colapso? Você pode ter o dinheiro, o plano de saúde, mas simplesmente não há sistema para você entrar”.

Na ocasião, a fala de Mandetta gerou desconforto no presidente, que afirmou, no dia seguinte, que o subordinado havia “exagerado”. Hoje, em 29 de abril, passados 39 dias, a explosão de casos de infecção pelo novo coronavírus (78 mil ao todo e mais de 2.600 nas últimas 24 horas) já esgotou os leitos de UTI no Rio de Janeiro, que vem mandando pacientes para hospitais no interior do estado, a mais de 150 quilômetros da capital.

Em São Paulo, a situação também começa a ficar crítica, com 85% de ocupação dos leitos de UTI em toda região metropolitana. Em três dias, o número de atendimentos a casos suspeitos de Covid-19 no sistema de saúde da capital paulista quadruplicou, passando de 812 por dia (média até 23 de abril) para 3.355 em 28 de abril.

Em todo Brasil, a Covid-19 já matou 5.466 brasileiro. Nessa quarta-feira, 29, o número de mortes fechou em 449.

Epidemia do coronavírus acelera após queda na adesão à quarentena no país

Rafael Garcia e Renato Grandelle
O Globo

Cientistas alertam que violação de políticas de isolamento social pode prolongar pico da doença

  Foto: Eduardo Valente/FramePhoto/22-4-2020
Em Florianópolis, um decreto que determinou 
a quarentena do comércio de rua foi revogado 

RIO e SÃO PAULO — A tendência de registro de novos casos e mortes da Covid-19 parece estar seguindo à risca no Brasil a estimativa de cientistas de que as oscilações no nível de adesão à quarentena demoram duas semanas a serem sentidas. Quando a mobilidade de pessoas atingiu o mínimo da tendência no país, em 24 de março, a epidemia esboçou desaceleração 15 dias depois. Naquele dia, a procura por transporte público caiu 69% em relação a janeiro, segundo dados do Google com base em celulares rastreados.

Mas o isolamento social daqueles que podem ficar em casa, feito para reduzir o contato entre as pessoas (inclusive as não infectadas) e desacelerar a disseminação da doença, começou a se reduzir em força depois disso, e perdeu um quinto da adesão até 17 de abril.

Ontem, 13 dias depois desse relaxamento, o número de casos engatou tendência de alta pelo quarto dia seguido, com 7.218 novos casos notificados num único dia, o recorde até agora, além de 435 mortes. O país tem agora 85.380 casos confirmados e 5.901 óbitos.

O atraso de duas semanas entre ação e reação é fruto do ciclo de transmissão do vírus, que leva em conta o tempo de a pessoa se contaminar, transmitir o vírus a outra, e a nova pessoa infectada apresentar sintomas.

Nos dados do Google para o Brasil, em 10 de abril, sexta-feira santa, os brasileiros ficaram mais em casa e bateram o recorde de adesão ao isolamento. Duas semanas depois, em 26 de abril, o número diário de registros da doença também caiu, como em coreografia.

Em sua transmissão de vídeo nas redes sociais ontem, o presidente Jair Bolsonaro voltou a insinuar que a política de distanciamento social não funciona. 

— Pelo que estamos vendo, até agora todo empenho para achatar a curva praticamente foi inútil — afirmou, em declaração que contraria o consenso científico.

Evidências

O economista Hakan Yilmazkuday, da Universidade Internacional da Flórida, realizou um estudo olhando para dados de mobilidade do Google em 127 países, e viu uma forte correlação.

“Os resultados sugerem que um aumento de 1% na permanência semanal em residências leva a cerca de 50% menos casos semanais de Covid-19 e cerca de 4% menos mortes pela doença”, escreveu em estudo preliminar no portal SSRN. “Um decréscimo de 1% em visitas a terminais viários leva a cerca de 22% menos casos de Covid-19 e 2% menos mortes.”

Para quase todos os parâmetros, os brasileiros parecem ter respeitado mais suas quarentenas até a última semana de março. Mas, desde então, à exceção da sexta santa, a população parece estar aos poucos comprometendo o distanciamento social. O relaxamento coincide com o período em que Bolsonaro acirrou a queda de braço com governadores pedindo retomada da economia.

O ministro da Saúde, Nelson Teich, disse ontem que a diretriz do governo de flexibilizar o distanciamento social no país está pronta. Ele afirmou temer, no entanto, que ela seja alvo de “polarização” e transformada em “ferramenta da discórdia”. Mas reconheceu que há risco de a pandemia se agravar:

— Em relação a um possível número de mortes, hoje a gente está perto de 500 mortes, 400. O número de mil, se estivermos num movimento, num crescimento significativo da pandemia, é um número que é possível acontecer.

O estatístico Benilton Carvalho, da Unicamp, que estuda a dinâmica da Covid-19 no Brasil, enxerga tendência de reversão no comportamento do brasileiro. Apesar de uma boa adesão ao isolamento social até o começo de abril em parâmetros como mobilidade e frequência a lojas e parques, desde o final de março a visita a familiares está aumentando. Por isso, nas últimas semanas, índices de contágio podem ter sido impulsionados dentro de casa.

Transmissão doméstica

— Muitas vezes olhamos para o núcleo familiar e pensamos que estamos protegidos ali, e ignoramos que alguém pode estar manifestando sintomas relacionados à Covid — afirma Carvalho. — As visitas domiciliares, na verdade, são o primeiro estágio. Aos poucos, a população pode desistir do recolhimento e reconquistar o espaço público.

Algumas projeções traçadas por especialistas indicam que o pico da pandemia do coronavírus no Brasil pode ocorrer na segunda quinzena de maio. Segundo Carvalho, muitas pessoas que morrerão neste período começaram a ser infectadas já na semana passada.

Flávio Guimarães da Fonseca, virologista da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), defende a análise que correlaciona medidas de isolamento e desaceleração da epidemia:

— Foi comprovado no mundo inteiro que o distanciamento social é absolutamente necessário. Qualquer sociedade que adotar uma flexibilização precisará pagar um preço que pode ser alto demais.
Fonseca reconhece que as pessoas estão “saturadas” de ficar em casa e que há relatos sobre o aumento de casos sobre doenças associadas à depressão.

— Quando alguém pergunta se pode visitar a mãe, digo que tecnicamente não é recomendável, e que não devemos sair do isolamento. Mas não é esta a resposta que as pessoas querem ouvir — afirma o pesquisador. — Cabe às autoridades balizar a voz dos cientistas e mostrar a importância da adesão ao isolamento social, mas a população tem recebido sinais muito confusos do governo. O coronavírus não pode ser politizado.

“Palavras importam”: estudo revela como Bolsonaro prejudicou isolamento

Clara Cerioni
Exame.com

Após episódios de fortes críticas do presidente contra a quarentena, levantamento identificou queda imediata no isolamento em cidades pró-Bolsonaro

(Ueslei Marcelino/Reuters)
Bolsonaro: níveis de adesão à quarentena caíram, em média, até 
três pontos percentuais em municípios que concentram mais apoiadores do presidente 

As falas do presidente Jair Bolsonaro diante da pandemia do novo coronavírus influenciaram diretamente a taxa de isolamento em municípios onde ele recebeu mais votos nas eleições de 2018. Essa é a conclusão de um estudo em desenvolvimento liderado por três economistas da Faculdade Getulio Vargas e da Universidade de Cambridge, no Reino Unido.

Para o levantamento, os pesquisadores usaram dados de geolocalização anônimos de 60 milhões de aparelhos celulares e cruzaram com informações do resultado do pleito presidencial, disponibilizado pelo Tribunal Superior Eleitoral.

As informações de geolocalização, disponibilizadas pela empresa InLoco, consideram furar o isolamento a pessoa que se afasta da sua residência primária por uma distância acima de 450 metros.

A metodologia revelou que os níveis de adesão à quarentena caíram, em média, até três pontos percentuais em municípios que concentram mais apoiadores de Bolsonaro em dois eventos específicos, que tiveram grande repercussão nacional e internacional, nos dias 15 e 24 de março. Em ambas as situações, o presidente minimizou os impactos da covid-19.

O primeiro foi quando ele participou de manifestações em Brasília em ato pró-governo e contra o Congresso Nacional. Na ocasião, ele tocou em manifestantes, pegou celulares para fazer selfies e abraçou apoiadores. Sua atitude foi destaque em todos os veículos de comunicação naquele dia e tomou conta das redes sociais.

Dez dias depois, Bolsonaro fez um pronunciamento em cadeia nacional onde criticou a quarentena impostas por governadores, além de ter dito que “nada justificava o fechamento de escolas”, já que o grupo de risco da doença são os idosos. Em seguida, ele adotou a postura de que o país precisava voltar à “normalidade” o quanto antes.

Os pesquisadores identificaram que depois desses dois eventos a diferença nas taxas de isolamento em cidades pró e anti-Bolsonaro, que antes era insignificante, passa a crescer e persiste por ao menos uma semana.

Essa relação pode ser vista no gráfico a seguir, em que os pontos vermelho são o nível médio de isolamento entre cidades pró-bolsonaro em comparação às anti-bolsonaro. O ponto negativo do eixo vertical mostra que os municípios tiveram menos adesão ao isolamento, em média.



 (Arte/EXAME)

Há pesquisas que mostram, de fato, uma menor adesão de eleitores de Bolsonaro ao confinamento, como mostrou o Datafolha desta semana. Daqueles que não concordam com o isolamento, 67% são apoiadores do presidente.

A inovação deste estudo, no entanto, é mostrar que há diretamente uma causa e um efeito na população logo após as falas do presidente, segundo Nicolás Ajzenman, um dos autores do levantamento.

“Não é apenas uma relação entre votar em Bolsonaro e não respeitar isolamento. Essa correlação pode acontecer por vários motivos. Um ponto importante da pesquisa é o “timing” dos eventos: ela mostra que queda do isolamento social acontece apenas depois ele falar. E a principal conclusão da pesquisa é: os líderes importam”, diz em e-mail à EXAME.


A influência dos líderes

O impacto da influência do discurso de líderes políticos na sociedade é uma das especialidades do brasileiro Leonardo Bursztyn, PhD em Harvard e professor assistente de economia da Universidade de Chicago, a meca do liberalismo econômico mundial.

Em conversa com a reportagem, Bursztyn avalia que o comportamento de Bolsonaro é semelhante ao do presidente dos EUA, Donald Trump, que recentemente sugeriu que a injeção de desinfetante poderia ajudar no tratamento contra o novo coronavírus. Naquela semana, Nova York registrou alta em intoxicação pelo produto.

“As pessoas olham para os líderes e seus comportamentos e isso as influencia de diversas formas, como identificação com a atitude do presidente, uma desculpa para tomar atitudes semelhantes ou até mesmo uma questão de identidade em um cenário tão polarizado como o Brasil”, diz.

Ele analisa, contudo, que em uma pandemia viral, onde o distanciamento é a melhor forma de proteção, as consequências das atitudes dos governantes podem ser letais, já que não é só a vida do eleitor que está sendo colocada em risco, mas de terceiros.

Bursztyn, inclusive, é um dos autores de um estudo que foi publicado em abril “Misinformation During a Pandemic“, que mensurou o impacto da covid-19 por meio de dois programas da Fox News, um que ignorou e outro que alertou sobre os riscos do novo coronavírus.

Usando uma enquete com os leitores da emissora com mais de 55 anos e dados disponíveis publicamente, eles calcularam que os espectadores da Fox que assistiam mais ao programa que ignorou a gravidade da doença eram menos propensos a aderir às regras de distanciamento social. As áreas desses espectadores também tiveram maiores taxas de infecção e morte.

IMBECIL: Onyx diz que filas da Caixa ocorrem por causa da 'natureza' e 'cultura' dos brasileiros

Julia Lindner e André Borges, 
O Estado de S.Paulo

Ministro da Cidadania também informou que o governo já analisou o cadastro de cerca de 95 milhões de pessoas, das quais 45 milhões já receberam a primeira parcela

  Foto: Felipe Rau/Estadão 
Em São Paulo, pessoas formaram fila na manhã desta quinta, 
30, no quarto dia de saques do auxílio emergencial. 

BRASÍLIA - O ministro da Cidadania, Onyx Lorenzoni, afirmou nesta quinta-feira, 30, que as filas em agências da Caixa para recebimento do auxílio emergencial de R$ 600 ocorrem em razão da "natureza" e "cultura" dos brasileiros que têm dificuldade para acessar o aplicativo criado pelo governo.

Segundo ele, as aglomerações devem continuar a ocorrer nas agências até o final do programa, previsto até julho. O benefício contempla milhões de pessoas consideradas "invisíveis", que, em diversos casos, não possuem registro civil e acesso à internet.

"Tem uma parcela da população que não usa o aplicativo, quer dizer, não usa o sistema digital... Ele precisa ir na Caixa, ver o dinheiro, pegar o dinheiro, é uma tradição de algumas pessoas, particularmente as de mais de idade", disse Onyx.

Onyx admitiu que esta é uma dificuldade do governo. "Acredito que algum grau de fila nas agências da Caixa vai ter até o final do programa porque é da natureza nossa, da própria cultura."

Ainda de acordo com o ministro, o governo já analisou até o momento o cadastro de cerca de 95 milhões de pessoas que pedem o auxílio emergencial. Dessas, 45 milhões já receberam a primeira parcela do auxílio e 5 milhões devem receber ser contempladas nesta semana.

Outras 13,6 milhões terão que refazer o cadastro por algum tipo de inconsistência no registro. Há ainda, 32,8 milhões que foram consideradas inelegíveis.

Com os cadastros feitos até o momento, o custo do programa é calculado em cerca de R$ 120 bilhões. Segundo Onyx, no entanto, a expectativa é que outros "invisíveis" sejam identificados, o que pode aumentar o valor.  


****** COMENTANDO A NOTÍCIA:

Questões simples para este ministro responder: por que o governo não fez um convênio com a FEBRABAN, para que outros bancos, além da Caixa, pudessem realizar os pagamentos?

Quando o governo montou o programa sabia que seriam cerca de 45 milhões de pessoas que acorreriam às agências e aplicativos. Achava o quê diante desta expectativa de demanda, que não haveria filas? ?Que não haveria atropelos? Ou acha que todo mundo tem ou sabe usar celular com aplicativos? Por que não equipou melhor o sistema e as agências para não haver todo este sofrimento das pessoas? 

O senhor Onyx tem de parar de julgar as pessoas por si mesmo. Nem todos tem o teu salário, nem todos tem a tua boa vida, e existe, ministro, aceite esta verdade, muita pobreza e miséria neste país, e esta “esmola” de R$ 600,00 representa muito para este exército de famintos. Deveria haver por parte do governo e  de seu ministério mais respeito para com estes milhões de brasileiros necessitados.

Reconheça que as dificuldades não são as pessoas. É questão de estrutura do único banco autorizado a pagar o auxílio. Aqui, senhor Onyx, a única “cultura” e “natureza” presentes é a de um país cujos governantes e políticos em geral não param de mamar a riqueza que deveria ser repartida com todos e não é. Pare de inventar desculpas porcas para seus erros.


No Brasil, saúde perde prioridade em gastos do governo

Adriana Fernandes e Mateus Vargas, 
O Estado de S.Paulo

Dos R$ 56,5 bilhões desembolsados, menos de 10% foram direcionados para o Ministério da Saúde

  Foto: Tiago Queiroz/Estadão
O Sistema Único de Saúde (SUS)  pede critérios objetivos para envio de recursos 

BRASÍLIA - Apesar da urgência, os gastos com saúde ficaram para trás no total de recursos que já foram pagos pelo governo para as ações emergenciais contra o novo coronavírus. Do orçamento de R$ 226,8 bilhões anunciado em novas despesas, R$ 56,5 bilhões já foram efetivamente desembolsados – sendo que, desse total, apenas R$ 5,4 bilhões foram direcionados para o Ministério da Saúde. É menos de 10% do que já foi gasto pelo governo.

O governo tornou disponível R$ 23 bilhões para o Ministério da Saúde e outros ministérios para medidas emergenciais – apenas 2,3% do total previsto. Outros R$ 16 bilhões foram transferidos como auxílio emergencial a Estados e municípios, mas, nesse caso, o ritmo de execução é ainda mais baixo: só R$ 1 bilhão foi pago.

A velocidade do desembolso tem sido maior para a linha de financiamento da folha de pagamento das pequenas e médias empresas. Dos R$ 34 bilhões orçados, a metade já foi efetivamente executada, ou seja, paga pelo governo federal. Os gastos com o auxílio emergencial de R$ 600 para os trabalhadores informais e desempregados também estão sendo gastos com maior rapidez. Dos R$ 98,2 bilhões orçados, um terço já foi pago.

Dados passaram a ser divulgados pelo Tesouro

Os dados são do painel de monitoramento de gastos que o Tesouro passou a divulgar na internet. Para o pesquisador do Instituto Brasiliense de Direito Público, José Roberto Afonso, os números indicam que há uma enorme distância entre o que é anunciado de medidas, o orçado, e o efetivamente pago. “O mais chocante é que, quando vamos olhar dentro dos R$ 56 bilhões orçados para saúde, só R$ 5,4 bilhões foram pagos”, diz.

Ele pondera que é muito pouco diante da urgência da crise. “É uma confissão da falta de prioridade que está se dando para a saúde, porque a primeira coisa que o mundo todo está fazendo é gastar com saúde.”

Afonso afirma que é preciso comprar logo tudo que se pode de respiradores, montar UTIs, contratar reforço de profissionais de saúde numa prioridade máxima. Para ele, a diferença de execução é visível com outras medidas. “Não estou dizendo que as outras iniciativas não são relevantes. São muito relevantes. Mas não dá para entender porque a saúde está ficando para trás.”

Além disso, gestores do SUS têm pedido ao Ministério da Saúde critérios mais objetivos para envio de recursos do governo federal. Nas primeiras parcelas liberadas, o ministério escolheu a partilha de acordo com a população, mas secretários locais apontam que é preciso priorizar locais próximos do colapso, como o Amazonas.

Segundo secretários estaduais, o governo tem privilegiado municípios, apesar de ficar nas mãos de governadores o grosso do custo para combate ao novo coronavírus. No Pará, por exemplo, são R$ 84,1 milhões destinados ao Estado e R$ 124,2 milhões aos municípios pelo governo Bolsonaro.

O governo tem ainda atrasado a instalação de leitos de UTI nos Estados, forçando gestores locais a abrirem espaços por conta própria. No começo da crise, o ministério prometeu 3 mil kits para instalação dos leitos. Em 15 de março, o Estado revelou promessa de entrega da primeira leva, de 540 unidades – mas apenas 340 kits foram entregues. O governo tem dito que encontrou dificuldades para compra de equipamentos – mil respiradores, por exemplo, foram bloqueados pelo governo da Argentina.

Sobre as razões da baixa execução, o Ministério da Economia disse a reportagem para procurar o Ministério da Saúde, que não respondeu o pedido do Estado.

ESTUPIDEZ: Bolsonaro usa o futebol para forçar relaxamento da quarentena

Breiller Pires
El Pais

Apesar da resistência de jogadores, Governo recorre a apelo pela volta dos jogos como estratégia para enfraquecer posição de governadores favoráveis ao isolamento social

.LUCAS FIGUEIREDO / CBF
 Jair Bolsonaro posa ao lado de Rogério Caboclo, presidente da CBF

Se em março dizia que a paralisação dos campeonatos “contribui para a histeria” diante da pandemia de coronavírus, agora, o presidente Jair Bolsonaro, que nesta quarta-feira caminhou pelo Palácio da Alvorada com uma camisa do Palmeiras prometendo dar aval aos jogos de futebol, cerra fileiras pela volta imediata das competições. Na segunda, pela terceira vez nas últimas duas semanas, ele já havia defendido a retomada do esporte mais popular do país. “Fui procurado por autoridades do futebol. Se depender do meu voto, eu aprovo. Logicamente, com parecer técnico do Ministério da Saúde, que acho que será favorável a começar a realizar treinamentos”, disse o presidente em entrevista coletiva.

No mesmo dia, dois integrantes do Governo também se manifestaram publicamente em defesa do reinício dos torneios. “Nós já estamos conversando com os clubes sobre retomar as atividades. Essa retomada será com portões fechados, porque a nossa preocupação principal é com a saúde. Sem público, a volta do futebol é relativamente mais simples”, afirmou Carlos da Costa, secretário especial de Produtividade e Emprego subordinado ao ministro da Economia, Paulo Guedes. O novo chefe da Saúde foi outra autoridade a fazer coro ao plano. “Existe um pedido da CBF para avaliar o retorno de jogos sem público. Ainda estamos estudando, mas são iniciativas que, de alguma forma, poderiam trazer uma rotina um pouco melhor para as pessoas, porque o enclausuramento tem impacto muito negativo no bem-estar das pessoas”, declarou Nelson Teich.

Em reunião por videoconferência com presidentes de federações nesta terça-feira, a CBF rechaçou ter solicitado diretamente a intervenção do Governo pela retomada dos campeonatos. A entidade reforçou que está finalizando um protocolo médico para orientar a volta às atividades assim que as autoridades sanitárias permitirem. Favoráveis ao reinício dos estaduais em maio, cartolas das federações redobram a aposta no lobby em Brasília por entender que a troca de nomes no Ministério da Saúde configura o cenário propício ao fim da paralisação de jogos, já que Teich tem se mostrado mais alinhado às determinações presidenciais que o antigo ministro, Luiz Henrique Mandetta.

Quando o Brasil já registrava as primeiras mortes por coronavírus, Bolsonaro defendia que as partidas deveriam continuar acontecendo, com cargas menores de ingresso, “para proteger empregos e a economia”. O argumento ainda é o mesmo, porém, neste momento, o presidente apoia a liberação dos jogos sem torcida para acelerar o relaxamento da quarentena. Como não obteve sucesso em reabrir o comércio em ampla escala, o futebol passou a ser o trunfo do Governo para pressionar gestores locais relutantes em afrouxar as medidas de isolamento social. A fala de Teich, por exemplo, sugere que a retomada das transmissões de partidas pela televisão poderia amenizar a restrição de opções de lazer para torcedores que seguem confinados em casa.

No entanto, a jogada do Planalto esbarra na resistência de prefeitos e governadores, que avaliam até mesmo ampliar a vigência das medidas restritivas no atual estágio da pandemia, que já contabiliza mais de 5.000 mortes pelo país. Em São Paulo, a Secretaria da Saúde já avisou à Federação Paulista de Futebol (FPF) que o reinício do campeonato só poderá ser avalizado pelas autoridades locais a partir de 8 de maio, data em que o governador João Doria promete anunciar um plano de flexibilização da quarentena no Estado. No Rio de Janeiro, o governador Wilson Witzel tem se posicionado contrário ao retorno do futebol no curto prazo. “A pandemia ainda é grave e considero que não é adequado para a saúde e a segurança dos atletas ou de todos aqueles envolvidos nos jogos e treinamentos.”

A CBF orientou que, para concluir os torneios regionais, dirigentes sigam as determinações dos governos de cada Estado. Por outro lado, a pressa em reiniciar os campeonatos é sustentada por duas razões. A primeira, das federações, interessadas em finalizar os estaduais antes que se tornem completamente inviáveis por falta de datas no calendário e comprometam o pagamento integral das cotas de televisão. A segunda, dos clubes, que veem o período de férias concedidas aos atletas se encerrar no fim deste mês e precisam lidar com folhas salariais milionárias sem a perspectiva de voltar a lucrar com bilheteria este ano.

É o caso do Flamengo, citado por Bolsonaro como um dos clubes financeiramente impactados pela pandemia. O clube se articula para retomar treinamentos na primeira semana de maio e conta com o apoio do Governo Federal. A diretoria rubro-negra nunca poupou esforços para se aproximar do presidente. No início deste ano, uma comitiva encabeçada pelo técnico Jorge Jesus e o presidente Rodolfo Landim visitou o Planalto após a conquista da Supercopa do Brasil, disputada no estádio Mané Garrincha. Bolsonaro, que desde o começo de seu mandato é figura frequente em jogos, esteve no estádio para prestigiar o time carioca.

Além de envolver os ministérios da Economia e Saúde, a força-tarefa do Governo pró-futebol envolve a pasta da Cidadania, por meio do secretário especial do Esporte, Marcelo Magalhães. Padrinho de casamento do senador Flávio Bolsonaro, ele assumiu o cargo em janeiro e foi destacado pelo presidente para articular a retomada das atividades esportivas, em contato com CBF, federações e técnicos como Renato Portaluppi, do Grêmio, amigo e apoiador da família Bolsonaro. Jogadores, por sua vez, temem um retorno apressado aos campos. Para o Sindicato de Atletas do Rio de Janeiro, os profissionais só cogitam voltar aos treinos após receber garantias de segurança do Governo estadual.

Um dos defensores da agilização dos trâmites para derrubar a suspensão dos campeonatos é Mário Celso Petraglia, presidente do Athletico Paranaense. Ele fez campanha para Bolsonaro em 2018 e tem argumentado a outros dirigentes que, caso o futebol não seja reiniciado o mais rápido possível, os clubes, incluindo os grandes, entrarão em colapso econômico. “Infelizmente, o vírus chinês nos pegou a todos. Se o Furacão não for apoiado, ajudado neste momento, vai quebrar”, escreveu o cartola em comunicado aos sócios da equipe, endossando o uso da palavra “chinês” para estigmatizar o país asiático, como Donald Trump tem feito nos EUA.

Na Europa, os campeonatos nacionais da Bélgica e Holanda já foram encerrados por causa da pandemia de coronavírus. Nesta terça-feira, o Governo da França determinou que as competições esportivas no país não serão retomadas nesta temporada. A Itália, epicentro europeu da doença, considera tomar o mesmo caminho. O Governo italiano havia autorizado a volta dos treinamentos dos times a partir de 18 de maio, mas, nesta quarta, o ministro dos Esportes, Vincenzo Spadafora, deu um passo atrás ao reconhecer a possibilidade de encerrar a temporada do futebol. “Se não puder ser reiniciado em segurança, terá de ser interrompido e as pessoas precisam entender isso.”

Pernambuco registra fila por UTI; profissional já tem de optar quem levar primeiro, diz secretário

Felipe Resk, 
O Estado de S.Paulo

o Estado chegou a 538 mortes, atrás apenas de São Paulo e do Rio, e 6.194 diagnósticos desde o início da pandemia

  Foto: Divulgação
Governador de Pernambuco, Paulo Câmara, pede para população ficar em casa 

RECIFE - Em 3° lugar no número de mortes pelo novo coronavírus no Brasil, Pernambuco já registra fila de pacientes à espera de vaga em unidades intensivas de tratamento (UTI). "Os profissionais de saúde estão tendo de tomar opções sobre quem levar primeiro para terapia intensiva", afirmou o secretário estadual da Saúde, André Longo.  

Segundo boletim epidemiológico desta quarta-feira, 29, Pernambuco confirmou 470 novos casos e 30 mortes por covid-19 nas últimas 24 horas. Com isso, o Estado chegou a 538 mortes, atrás apenas de São Paulo e do Rio, e 6.194 diagnósticos desde o início da pandemia - dos quais 4.045 (65,3%) se enquadram como Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG) e são considerados graves.

Diante do aumento acelerado das notificações, a gestão Paulo Câmara (PSB) afirma ter aumentado o número de leitos à disposição em UTIs públicas, mas que não foi suficiente para acompanhar a "franca aceleração da curva epidêmica". Também já há relatos de hospitais particulares lotados. Segundo o governo, há 1.002 internados -- 203 em UTIs e 799 em leitos de enfermaria, tanto na rede pública quanto privada.

"Tivemos aumento de 316% nas demandas de internação por covid-19 nas últimas duas semanas. Ou seja, a gente está sofrendo uma pressão muito grande no sistema de saúde", disse Longo. "Hoje, realmente temos uma situação crítica. Já há fila por leitos de UTI, que é extremamente dinâmica e varia de acordo com a hora do dia. Então pode captar uma fila, por vezes, maior do que cem pessoas. E, às vezes, por abertura de leitos, ela recua. Mas a pressão já leva a uma sobrecarga", acrescentou. 

"Reconhecemos que a situação dos nossos serviços de saúde é muito difícil, porque as pessoas estão adoecendo ao mesmo tempo. Esse era um alerta que fazíamos desde o início", disse o secretário. De acordo com Longo, o Estado e a prefeitura do Recife abriram "mais de 400 leitos de UTI" nos últimos 40 dias.

O governo de Pernambuco culpa o desrespeito ao isolamento social e diz não estudar medidas para relaxar a quarentena. "O que está acontecendo hoje é reflexo de 14, 15 dias atrás", disse Longo. "Aqueles que desmerecem o isolamento social, que zombam dos casos de morte e ignoram a gravidade da situação não encontram espaço da nossa mesa de discussão."


'A guerra está a pleno vapor e vai aumentar ainda mais'

Chefe do setor de Infectologia do Hospital Universitário Oswaldo Cruz, no Recife, o médico infectologista Demetrius Montenegro confirma o aumento de pressão nas unidades de atendimento. O hospital é referência no tratamento ao coronavírus na capital. "É muito triste sair do hospital e ver o número de pacientes aumentando", disse Montenegro. "A guerra está a pleno vapor e vai aumentar ainda mais."

Em Pernambuco, profissionais de saúde de outras áreas, que atuam em ambulatórios ou em procedimentos eletivos foram convocados para a linha de frente contra a covid-19. O governo também estuda contratar médicos residentes para reforçar o quadro local. "Isso é uma guerra silenciosa. Ninguém escuta bomba estourando, mas se prestar atenção vai perceber o aumento das sirenes de ambulância passando pelas ruas", afirmou.

Juiz determina lockdown, o 1º do País, no Maranhão

Ricardo Galhardo,
 O Estado de S.Paulo

O pedido de confinamento foi feito pelo Ministério Público do Maranhão, que alegou que todos os leitos de UTI exclusivos para a covid-19 na rede hospitalar do governo do Estado em São Luís estão ocupados

  Foto: Tiago Queiroz/Estadão 
Médicos tratam paciente com coronavírus 

As cidades de São Luís, São José de Ribamar, Raposa e Paço do Lumiar, no Maranhão, são as primeiras a ter decretado o lockdown, estado mais rígido de isolamento social que só libera os serviços mais essenciais e veta qualquer circulação que não seja de urgência. A medida foi determinada pelo juiz Douglas de Melo Martins, titular da Vara de Interesses Difusos e Coletivos da Comarca da Ilha de São Luís.

O pedido de confinamento foi feito pelo Ministério Público do Maranhão, que alegou que todos os 112 leitos de UTI exclusivos para a covid-19 na rede hospitalar do governo do Estado, na capital, estão ocupados, “o que significa na completa ausência de atendimento com respiradores, se necessários, mesmo após ampliação que vem sendo desenvolvida, inclusive com recursos federais (com referência à criação de hospitais de campanha e leitos)”.

A Promotoria acrescentou ainda, que, embora o Maranhão tenha veiculado a possibilidade de decretar lockdown, caso a lotação dos leitos de UTI chegasse a 80%, até agora “nenhuma medida mais intensa foi tomada”. Na decisão, o magistrado disse ser preciso “bloqueio total, ainda que por curto período, pois essa é a única medida possível e eficaz no cenário para contenção da proliferação da doença e para possibilitar que o sistema de saúde público e privado se reorganize, a fim de que se consiga destinar tratamento adequado aos doentes”.

O que muda. A medida judicial inclui especificamente a vedação de entrada/saída de veículos da Ilha, por 10 dias, suspensão de atividades não essenciais, veto a reunião e suspensão de aulas mesmo na rede particular. Procurado, o governo do Maranhão informou que “aguardará a intimação da decisão judicial, irá analisá-la e verificar as medidas necessárias ao cumprimento”. 

“Coronavírus mostrou que o Brasil precisa investir em ciência”

Larissa Linder
Deutsche Welle

Novo presidente do CNPq, Evaldo Vilela terá menor valor para bolsas em ao menos uma década. Defensor do Inpe na disputa com Bolsonaro em 2019, ele diz não estar preocupado com “questão ideológica” na nova função.
    

Evaldo Ferreira Vilela, o novo presidente do CNPq

Crítico da postura do governo Jair Bolsonaro em relação à pesquisa e aos cortes de verba para o setor, o recém-empossado presidente do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), Evaldo Ferreira Vilela, garante que assume o cargo para defender a ciência e que não haverá corte de bolsas neste ano. 

Não será tarefa fácil. Em agosto do ano passado, o Conselho chegou a suspender 4.500 bolsas de pesquisa por falta de dinheiro. O Ministro da Ciência e Tecnologia, Marcos Pontes, disse, à época, ter “implorado” ao Ministério da Economia um crédito suplementar de 330 milhões de reais. Em outubro, acabaram sendo liberados 250 milhões, após pressão da comunidade científica. 

Entre 2011 e 2014, a verba destinada a bolsas via CNPq cresceu, impulsionada pelo programa Ciência sem Fronteiras, que tinha a meta de distribuir 100 mil bolsas até 2015. O início da queda coincide com o fim do programa. O valor total, que atingiu um pico de 2,542 bilhões de reais em 2014, caiu gradativamente até chegar a 1,112 bilhão no ano passado. 

Mas, independentemente do Ciência Sem Fronteiras, a queda é expressiva. O valor de 2010 - quando ainda não havia o programa-, atualizado pela IPCA, é de 1,683 bilhão de reais, ainda superior em mais meio milhão ao que foi concedido no ano passado. Em 2020, há 1 bilhão de reais orçado para cerca de 79 mil bolsistas.

Vilela assume no lugar de João Luiz Filgueiras de Azevedo, exonerado no dia 17 de abril, que estava à frente do órgão desde fevereiro de 2019. Antes, acumulava as funções de presidente da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (Fapemig) e da presidência do Conselho Nacional de Fundações de Amparo à Pesquisa (Confap). Também foi reitor da Universidade Federal de Viçosa, entre 2000 e 2004, e é egresso da área de agronomia.

Em entrevista à DW Brasil, ele comenta os desafios da pasta e acredita que, com a pandemia de covid-19, ficou evidente que é necessário que o país invista em pesquisa científica. 

DW Brasil: Qual o maior desafio do CNPq neste momento?

Evaldo Vilela:Temos um desafio de ampliar o nosso orçamento, que no ano passado voltou a ser o que era, tínhamos perdido orçamento no governo anterior, ele se recompôs no ano passado. 


Mas no passado também ocorreram cortes… 

Não no CNPq... Não teve porque em tempo se completou o orçamento e completamos o ano pagando as bolsas todas. E agora temos um orçamento que foi recomposto e que atende nossa necessidade de bolsas. Claro que a se a gente tivesse mais seria muito bom, mas atende. Estamos trabalhando para que o orçamento para projetos seja ampliado. Nós fazemos isso através de parcerias e também buscando recursos em outras instituições parceiras. 

Que tipo de instituições?

O Ministério da Saúde, várias empresas que nos procuram. Se o nosso recurso para fomento está pequeno, a gente busca de outros ministérios e da iniciativa privada.

O CNPq está buscando ativamente a iniciativa privada?

Sim. Temos alguma dificuldade ainda por causa do teto do Orçamento. Mas estamos  buscando alternativas para que o recurso seja ou pago diretamente por instituições parceiras aos pesquisadores, sem usar nosso orçamento, ou através de fundações de amparo a pesquisa dos estados e fundações de apoio das universidades.

São coisas relativamente novas que estamos enfrentando, então temos que ter criatividade para superar essas dificuldades. Com essa questão do coronavírus, conseguimos recursos do FNDCT [Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico], junto com o Ministério da Saúde.

Foram 50 milhões, certo?

50 milhões de reais o edital do CNPq, mas o sistema CNPq-Finep ficou na ordem de 120 milhões de reais.

Qual é exatamente a situação financeira do CNPq hoje?

Temos alguma coisa para pagar dos editais de 2018, ainda restam 50 milhões. Esse dinheiro vem do FNDCT, e no mais estamos buscando recursos para os novos editais. Estamos trabalhando com os ministérios da Ciência e da Saúde, tem em andamento já projetos com uma possibilidade de edital na área de terapias gênicas, deve ser um edital bastante interessante. 

É possível que haja cortes de bolsas este ano?

Do CNPq não. E olha, essa questão da covid-19 demonstrou que o país precisa investir mais em ciência, mais em pesquisa. Nós estamos preparados no CNPq, já era um trabalho anterior, que agora vamos dar mais ênfase, de comunicar melhor a sociedade e trabalhar mais junto ao Congresso Nacional para aproveitar esse momento em que todo mundo e aqui no Brasil que tenham reconhecimento da ciência como a ferramenta que existe de enfrentar a covid-19. Está muito claro para a população que precisamos investir em cientistas, em educação superior, na geração de novos conhecimentos. 

Uma portaria do ministério da Ciência, publicada no Diário Oficial no dia 24 de março,  excluiu as ciências humanas das prioridades de projetos de pesquisa no CNPq até 2023. Na prática, o que isso deve representar para a área de humanas?

Para nós não houve isso, porque se você ver uma outra portaria que saiu a seguir, acredito que foi uma maneira de se expressar...quando você fala em área prioritária de energia...o país não tem como atacar todas as áreas, rotas tecnológicas. Não existe mais nenhuma área do conhecimento que sozinha é capaz de fazer desenvolvimento no mundo atual. Esses projetinhos aqui e acolá, isso foi importante no passado.

Mas que tal se a gente aglomerar por solução de problemas? Tem que pensar no desenvolvimento e aplicação de conhecimento. Mas o mundo não vai viver só de tecnologia, o efeito da tecnologia, a relação humana com a tecnologia está se tornando mais importante na medida em que o mundo ganha mais tecnologia. Esse é um campo que também tem que ser explorado.


O senhor pretende priorizar fomento a pesquisas relacionadas à covid-19 neste momento?

Já está priorizada pelo próprio andar das coisas. Vamos lançar mais alguns editais, estamos trabalhando para isso. Há outras coisas em andamento, ontem publicamos um edital de grafeno. Mas a questão central hoje é a saúde. 

No ano passado, quando o Ministério da Ciência sofreu um contingenciamento de 42,2% das verbas, o senhor alertou para as consequências disso para a ciência brasileira. De lá para cá, algo mudou na sua visão sobre a condução do orçamento para a ciência? 

Olha, ele tem a possibilidade de mudar agora, com essa pandemia. É um evento novo que reforça aqueles que acreditam que a ciência pode fazer mais pela sociedade. Agora, vivemos numa democracia, onde as pessoas pensam diferente, e a pressão que a gente recebe é natural.

Nosso trabalho é pelo entendimento, porque simplesmente pegar uma bandeira e ir pra rua e dizer que falta dinheiro não convence ninguém. Você tem que mostrar que aquele recurso vai trazer benefício para a sociedade, e não só em produto; em aumento de conhecimento, em instrução das pessoas, em talentos. 

O senhor foi  um dos signatários de uma carta endereçada ao presidente Jair Bolsonaro em 2019, no auge da crise da Amazônia, em defesa dos dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Como o senhor avalia a visão deste governo em relação à ciência como um todo e especificamente no enfrentamento à Covid-19?

Olha, é uma pergunta difícil, porque acabo de chegar aqui. Você tem que levar em consideração que sou da comunidade científica, e  lá atrás eu representava o Conselho das Fundações de Amparo à Pesquisa (Confap). O que eu estou representando aqui agora é como parte de um governo. Entendo que o governo, numa democracia, ele tem cabeças pensantes diferentes, é natural isso.

Eu vejo o trabalho para que o CNPq seja reconhecido, para que tenha o protagonismo que sempre teve. No ano passado, o movimento que fizemos na sociedade, tivemos muito êxito. O que aprendemos é que numa democracia é muito importante conversar com o parlamento. A gente não fazia isso na ciência. 

Mas ano passado chegou a ter suspensão de 4.500 bolsas.

Mas foi recomposto em seguida. Ele teve ameaça de perder, mas foi totalmente recomposto.

O ex-presidente do CNPq João Luiz de Azevedo era contrário a uma fusão do Conselho com a Capes (diferentemente do que é defendido pelo ministro da Educação, Abraham Weintraub. Qual sua posição a respeito?

Isso não tem a menor a menor possibilidade, está descartado. 


Qual sua argumentação?

Olha a contribuição que o CNPq deu e dá futuramente, o CNPq trabalha com projetos, trabalha com pesquisador. Ninguém faz isso no país e não vai fazer se não for o CNPq. Temos umas cotas de bolsas, mas estão dentro de projetos. Trabalhamos com projetos, Não trabalhamos com capacitação de pessoas, isso é a Capes.

Mesmo tendo se mostrado contrário a posturas do atual governo, o senhor foi nomeado para presidir o CNPq. Que liberdade o senhor terá na sua gestão?

Não tenho nenhum constrangimento e, se houver...sou uma pessoa pelo entendimento, não sou dono da verdade, respeito as opiniões contrárias e tento me posicionar sempre tendo a ciência como norte. Estou aqui para servir a ciência, não para servir uma causa pessoal. Já tive outros convites em outros governos, e nesse governo também para outras posições, e nunca aceitei, porque já tenho uma carreira acadêmica, já fui reitor de universidade federal, já fui secretário de estado de ciência e tecnologia... 


Por que desta vez o senhor aceitou o convite?

Porque o CNPq é a minha casa, foi ele que financiou todas as minhas pesquisas praticamente, eu sempre fui bolsista, então a contribuição que posso dar é aqui. Estou vindo pelo CNPq e pela ciência. A hora que não puder mais ajudar vou embora.

Houve quem da comunidade científica tenha ficado surpreso pela sua nomeação, pelo fato de o senhor ser crítico ao próprio governo. E as pessoas se perguntaram até onde o senhor consegue trabalhar nesse contexto.


A gente tenta, né. Como eu não trabalho com ideologia, para mim não é difícil. Depois que fui reitor da universidade eu deixei a porta aberta para outras contribuições. Trabalhei com o governo PSDB, com o governo PT  e agora com esse governo. A questão ideológica não me preocupa. Minha arma é o conhecimento e vou até onde eu puder contribuir com o meu país, quando não der mais, não deu.