domingo, junho 26, 2011

Afinal, qual é a agenda do governo Dilma?

Adelson Elias Vasconcellos

Uma das grandes mazelas que ouço sobre o Brasil é o baixo investimento público. De fato, comparativamente com outros emergentes, já nem vou comparar com as nações mais ricas do que a brasileira, o investimento público brasileiro está muito aquém das nossas necessidades para vivermos num processo de crescimento sustentável.

Verifique-se o crescimento do PIB ao longo dos últimos 20 anos, e ele não supera a média de 3,5% a 4% por ano. É o mais baixo dentre os BRICS, e tem sido mais baixo do que alguns vizinhos latino-americanos. Investimento baixo significa criar gargalos ao desenvolvimento. A infraestrutura caótica que temos é um exemplo perfeito e acabado. A educação de má qualidade é outra. Não há como entender ou aceitar que tenhamos 50% dos jovens fora das escolas do ensino médio. Nosso índice de analfabetismo reduziu nos últimos anos, mas ainda é muito alto.

Outra consequência da falta de poupança é o peso excessivo da carga tributária, a insegurança jurídica de um país que não tem planejamento, e precisa adotar centenas de medidas novas principalmente no campo tributário, a cada ano.

Nesta altura, a pergunta que se impõem é: que país desejamos construir? Certamente, não é um país em que se distribuam bolsas que, muitas vezes, se tornam a única fonte de renda para grande parte das pessoas, enquanto pequenas castas dividem entre si o produto da riqueza que o país produz. E é precisamente este o caminho que estamos trilhando desde 2003.

Uma das grandes bandeiras que o PT tem usado contra a oposição formada por PSDB, DEM e PPS é a de que FHC, quando governou o país, privatizou empresas públicas estratégicas.

Em uma série de artigos, no ano passado, desmistificamos estas mentiras que se contaram e ainda se contam acerca das privatizações. A partir de Lula, porém, a curva se inverteu. O governo passou a inchar desproporcionalmente ao crescimento do PIB, seja pelo aparelhamento irresponsável do Estado, seja pela criação de dezenas novas estatais, sem finalidade, sem serventia à população e geradoras apenas de mais despesas. Ora, quanto maior for o tamanho abusado do Estado menor será a capacidade deste de poupar e aumentar seu investimento. Assim, para que ele cumpra com os serviços básicos em condições de razoável qualidade, para que ele possa investir em modernizar e recuperar a infraestrutura do país, maior terá que ser a carga tributária e a manutenção dos juros básicos, pois é através destes que o governo puxa para dentro do país a poupança que aqui dentro ele não tem ou não consegue construir e formar.

Todos estes fatores que citei acima são gargalos e obstáculos a este crescimento sustentável, virtuoso, que temos condições de atingir, temos imensas oportunidades no presente de alcançar, mas que por falta absoluta de planejamento e de uma agenda propositiva de reformas, e que deveriam ser de iniciativa do Executivo, ficamos vendo a banda passar e não aproveitamos nem para corrigir o que é preciso, nem implementar o que se faz necessário.

Assim, é de se perguntar qual agenda tem o governo Dilma no plano de reformas, para dar uma alavancada e novo e vigoroso impulso ao desenvolvimento do país? Com certeza não será este programa requentado do Bolsa Família e que agora se chama Brasil Sem Miséria, nem a versão 2.0 do Minha Casa, Minha Vida, quando a primeira versão, se sabe, sequer entregou 20% do prometido em seu lançamento. Como também não será o empacado PAC, que é uma versão piorada do Avança Brasil do Fernando Henrique, ao qual se juntaram obras que eram irrigadas através das emendas parlamentares.

Não temos, é bom frisar, um plano de país, um projeto de desenvolvimento a partir de um programa de reformas estruturais. O país vai na base da improvisação, fazendo de agenda de ação os índices de popularidade que as pesquisas de opinião tem apontado. Antigamente, a isto se chamava de bagunça, hoje de medidas pontuais. Mas a doença da desorganização é a mesma.

E esta agenda, senhores, não pode simplesmente ser imposta. Ela deve ser de iniciativa do governo, em torno da qual, as lideranças partidárias com assento no Legislativo e entidades representativas da sociedade civil debatam de forma aberta, estabelecendo quais pontos são prioritários e focando ações de curto, médio e longo prazo. O governo Dilma não foi vendido ao país como sendo de continuidade? Pois bem, já no primeiro dia útil de trabalho era para ter alinhado pontos básicos de um projeto de país, chamado os interessados, discutido e costurado acordos de consenso sobre as prioridades e imediatamente dar início aos trabalhos.

Passados mais de seis meses, o que temos deste governo que se dizia continuidade dos oito anos de Lula? Absolutamente nada. Um exemplo: o tal trem bala. Fala-se dele há pelo uns vinte anos ou mais. Tornou-se um dos compromissos de campanha de dona Dilma e já se prepara o terceiro adiamento da licitação. E o que é pior: sem que se tenha ideia do custo, das fontes de onde virão os recursos, e do efetivo retorno que o investimento pode garantir.

Querem outro exemplo? A questão dos aeroportos. Por picuinhas políticas, Lula não reformou, não modernizou e nem ampliou a capacidade dos principais aeroportos do país, e isto apesar do PAC e das perspectivas em relação a Copa do Mundo e Jogos Olímpicos. A presidente Dilma demorou cerca de quatro meses e meio para se dar conta da necessidade de privatização, pelo menos dos principais terminais. Qual será a regra? Quais as exigências? Quem poderá participar, etc., etc.? Ou seja: se fez o anúncio e, passados praticamente dois meses deste anúncio, ainda não se sabe absolutamente nada de como o processo acontecerá. E a data da Copa está encurtando cada vez mais e o país não consegue sair do marasmo.

Portanto, ou a presidente põe na mesa, e logo, seu projeto para o país e o discute com a sociedade, ou estará condenada a administrar crises cartoriais ao longo de todo o seu mandato. E quanto mais tempo demorarmos para atacar os problemas de ontem, maior será a herança maldita que se acumulará com o ingresso de novos problemas que já estão aí reclamando providências. O momento é mais do que propício para projetar o país do futuro. Infelizmente, ainda estamos amarrados ao passado, discutindo da conveniência de se privatizar, das reclamações eternas de empresários e sindicalistas sobre os juros altos, de que precisamos conter o crescimento para a inflação não fugir ao controle, e por aí vai. Por quanto tempo mais jogaremos fora as oportunidades que o momento nos oferece?

Olha: os ventos favoráveis vindos de fora a partir de 2003, que fizeram com que nossa a nossa economia navegasse em mar de brigadeiro, impunham, por outro lado, que aproveitássemos a boa onda para dar um acabamento nas reformas que o país tanto reclama e precisa. Porém, deixamo-nos entorpecer por esta onda, e empurramos com a barriga o dever de casa. Posteriormente, no auge da crise financeira de 2008, ficou claro que se, num primeiro momento, não fomos tão afetados não foi pelos nossos bons olhos. Não sofremos impacto maior em razão de que o nosso sistema bancário havia se fortalecido no embalo do Plano Real que criou o Proer, e permitiu que se implantasse um sistema regulatório absolutamente avesso ao risco.

E, mesmo assim, até por conta da nossa dependência da economia internacional, tivemos consequências dolorosas que só não foram maiores e se prolongaram por conta da economia chinesa que continuou consumindo nossas commodities em larga escala. Porém, atualmente, o quadro da economia internacional é preocupante e, muito provavelmente, a velocidade de crescimento das economias ricas e emergentes sofrerão impactos negativos que acabarão por respingar aqui dentro. E atenção: nossas virtudes fiscais de ontem se deterioraram muito de três anos para cá, nosso déficit em conta corrente tem crescido a perder de vista, estados e municípios estão totalmente falidos, e os déficits do Executivo Federal tem sido cobertos com poupança externa via juros altos e adiamento ou redução de investimentos dos quais o país precisa com urgência.

E até deixo de analisar aqui as consequências que o câmbio apreciado tem provocado na nossa industria. Assim, o que não faltam são motivos para nos preocuparmos e, de imediato, retomarmos a agenda de reformas sem as quais este pequeno círculo virtuoso que o país tem experimentado a partir de 1995, se desvanecerá rapidamente.

Aqui volto a questão que venho colocando à presidente Dilma já há algum tempo: ou ela se dá conta da necessidade de elaborar e conduzir um projeto de país, que é um benefício coletivo, abrangente, em detrimento de um projeto de poder, que é de particularíssimo interesse de seu partido, e que beneficia apenas uma pequena casta política e empresarial, ou sairá da presidência carregada pelo estigma da incompetência e de não haver agregado nenhum benefício de longo prazo para a sociedade brasileira em seus quatro anos.

Claro que muitas das reformas em aberto exigem que a classe política pague um certo preço político. Por exemplo, mexer com legislação trabalhista e previdenciária vai gerar, todos sabemos, atritos e protestos por mexer e tocar em privilégios. Ocorre que o pouco que alguns perderão no presente, garantirá que muitos se beneficiem no futuro. A situação dramática que vivem hoje Irlanda, Grécia, Portugal e Espanha pode ser evitada aqui. Prorrogar a necessária reforma nestas duas pontas, é transferir não só um problema localizado do presente, mas comprometer no médio prazo a estabilidade econômica e a saúde financeira do país.

Portanto, o que o país espera e pede à presidente Dilma é que ela governe o Brasil, apenas isso: governe, presidente, governe o Brasil para os brasileiros e não apenas para os “cumpanheros”.

O caso dos “aloprados” alopra a decência do país

Adelson Elias Vasconcellos




Na semana passada, reproduzimos texto da Revista Veja em que se revelam os bastidores do escândalo escabroso que ficou conhecido como “Escândalo dos Aloprados”, cujo objetivo era bastante simples: utilizando-se da poderosa ferramenta tão a gosto dos petistas, tentou-se armar um dossiê fajuto que mirava na candidatura de José Serra, então candidato ao governo de São Paulo e que, por tabela, destruiria a incipiente campanha de Geraldo Alckimin, então candidato da oposição à Presidência do país brigando justamente contra Lula, que buscava sua primeira reeleição.

Muito embora todas as evidências e provas mostrassem a trama, com participações comprovadas de figuras ilustres da cozinha presidencial, a até então festejada Polícia Federal se mostrou falha para apurar o crime, e mais ainda: com tudo que se tinha nas mãos, o Ministério Público não conseguiu produzir um processo que, na Justiça, resultasse em punição aos verdugos.

Somente após a saída de Lula é que certos fatos vieram a público e tiveram, ao menos isto, o dom de fazer com que o Ministério Público reabrisse o caso. É de se esperar que daí resulte em punições, muito embora, com a justiça que temos, não leve muita fé. Tenho motivos, como de resto o país todo os têm, para não acreditar no Poder Judiciário brasileiro. Aquilo que deveria ser a regra, julgamento justo e correta condenação e prisão aos culpados, tornou-se exceção. E, quanto mais alto os culpados se encontrarem na política, ou com ela mantenham relações promíscuas, maior a probabilidade que tenhamos crimes com vítimas e provas, mas sem culpados.

Pois bem, a edição da Revista Veja traz neste final de semana mais um capítulo do dossiê dos Aloprados, designação esta concedida pelo próprio Lula quando o caso estourou e veio a público.

Desta vez, além de Mercadante que já estava envolvido – aliás, caso a tramoia tivesse vingado, seria ele o principal beneficiado – também outro figura do ministério de Dilma participou da lambança. Desta vez, ninguém menos do que Ideli Salvatti, o que para mim não é nenhuma surpresa.

Ideli sempre foi o pit bull petista a agir nos subterrâneos do Congresso, Senado principalmente, para o servicinho sujo de esconder as sujeiras dos companheiros, ou de aliados importantes, como foram exemplo José Sarney e Renan Calheiros. Sempre foi um aríete para impedir que o Congresso investigasse os escândalos patrocinados no seio do poder petista. Quando foi guindada à ministra das Relações Institucionais disse aqui, com plena segurança, e isto foi no dia 12.6, que se tratava de uma piada, que Dilma enlouquecera e que esperava que a presidente não viesse a se arrepender pela escolha. E fiz um alerta: apertem os cintos.

Agora leiam este trecho da reportagem da Veja, publicado no blog do Reinaldo Azevedo. Volto para concluir.


Ideli Salvatti, a ministra das relações nada institucionais: "Quem? Eeeuuu???"

(…)
Logo depois do encontro, do gabinete da senadora foi iniciada a preparação do que deveria ser a etapa derradeira do plano - a publicação do falso dossiê. As negociações do PT com os empresários que atuariam na farsa já estavam acertadas. Os criminosos queriam 20 milhões de reais pelo serviço, mas acabaram aceitando o valor de 1,7 milhão de reais oferecido pelo partido, dinheiro que Mercadante se comprometeu a conseguir com a ajuda do ex-governador Orestes Quércia, segundo as revelações de um dos participantes da reunião, o bancário Expedito Veloso. Na reunião, os cinco - Mercadante, Ideli, Expedito. Lorenzetti e Bargas - manusearam uma lista com números de cheques e fotos de um empresário já falecido que, na montagem da história, seria apresentado como elo da quadrilha com os tucanos. Uma cópia do material foi deixada com a senadora. E ela deu início ao que deveria ser a apoteose do trabalho: procurou jornalistas interessados em divulgar o conteúdo, exibiu os papéis e disse que aquilo era apenas uma pequena amostra da munição que o PT tinha para fulminar os tucanos. Ela conhecia todos os detalhes do dossiê e deixou sua assessoria à disposição para ajudar no trabalho de divulgação. A senadora, aliás, não escondia os motivos de seu empenho: as revelações, segundo ela, atingiriam Serra e beneficiariam o PT na eleição em São Paulo, mas também repercutiriam na disputa presidencial em favor da reeleição do presidente Lula.

*****

COMENTO:
É claro que Ideli Salvatti vai tratar de negar. Esta turma do PT, sempre envolvida em crimes diversos, jamais os admitem, mesmo diante da prova mais indiscutível. Mas o crime existiu, o dossiê estva com a turma, o dinheiro foi mostrado pela Polícia Federal para todo o país, o dossiê acabou tomado pelos agentes da Polícia Federal, e as confissões só foram aparecendo agora, depois do caso encerrado, mas que não terá o dom de desfazer a lambança cometida.

Quando analisei a escolha de dona Dilma, a participação de Ideli no caso dos Aloprados não era conhecida. Julguei-a inapta para o cargo de relações institucionais por não ver na escolhida a indispensável capacidade de articulação, equilíbrio emocional suficiente para agir na diplomacia das negociações políticas, principalmente, levando-se em conta os tipos com que teria de lidar.

Que o antigo ocupante do cargo, Luiz Sérgio, fosse uma negação completa, disto ninguém duvida. Que havia a necessidade mudar, dado os projetos de interesse do governo aguardando votação no Congresso, disto também ninguém duvida. Mas a escolha precipitada da presidente, infelizmente, a fará, cedo ou tarde, provocar nova mudança. E neste dia, espera-se, que a escolha leve em conta o perfil que o cargo exige, e não apenas uma mudança para mostrar “quem manda sou eu”.

Até na Holanda, a maconha já é considerada droga pesada

Adelson Elias Vasconcellos



No texto abaixo, comentei sobre o texto tendencioso e discriminatório do jornalista Gilberto Diemenstein sobre evangélicos e gays. Ocorre que Diemenstein engrossa as fileiras da turma que, defendendo direitos de um grupo, ataca os direitos de outros grupos. Além disto, a mistura de religião com “opções” sexuais demonstra total estupidez e ignorância.

Mas há outro movimento, conduzido por uma turma não menos barulhenta que tentam impor um comportamento movidos pela mentira e mistificação. É a turma das drogas, maconha principalmente.sem o brilho que merecia, nenhum grande veículo de comunicação deu destaque ou sequer se preocupou em informar seus leitores.

A seguir o texto da Reuters. Retorno para comentar:

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Holanda pode classificar maconha concentrada como droga pesada

A Holanda, famosa por sua política liberal em relação às drogas, anunciou nesta sexta-feira que pode classificar algumas formas de maconha altamente concentrada como droga pesada, comparável à cocaína ou heroína, em função do risco de criação de dependência.

Com muitas "coffeeshops" vendendo maconha abertamente a fregueses, além do cultivo doméstico de plantas de maconha ser tolerado no país, a Holanda atrai atenção na discussão global sobre as políticas em relação às drogas leves.

Nos últimos três anos o país vem restringindo e desencorajando o consumo e venda de drogas leves, por razões de saúde e criminalidade, e agora quer limitar o turismo de drogas, especialmente nas cidades situadas perto das fronteiras.

O governo propôs a criação de "passes de maconha" especiais para impedir visitantes de usarem as coffeeshops e restringir o acesso de moradores no país a elas. Alguns analistas prevêem que a medida pode provocar uma queda no número de turistas e nos gastos deles no país.

Agora uma comissão holandesa concluiu que o haxixe e a maconha vendidos na Holanda têm teor de THC, a substância psicoativa principal, de cerca de 18% e informou à ministra da Saúde que uma concentração de THC superior a 15% coloca a droga em nível semelhante à heroína ou cocaína.

"Eu me preocupo há anos com a concentração de THC, especialmente quando é tão alta. Vamos analisar essa questão seriamente", disse à emissora pública NOS a ministra da Saúde, Edith Schippers.

"As consequências, em termos de geração de dependência, são muito mais fortes e graves. Está claro que este é um fator preocupante."

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COMENTO:

Ora vejam só, o país que era o berço da turma do fumacê, como que então, movido pelas evidências e até pela comprovação de pesquisas científicas, se vê na contingência de declarar a “inofensiva” maconha uma droga tão letal quanto a heroína e cocaína!

Dada a importância da discussão de descriminalização das drogas tomou forma no Brasil, por que esta notícia não teve maior divulgação e repercussão na mídia? Vá se saber quais interesses movem esta gente além de poderem se drogar de forma descontrolada?

Os números da criminalidade se já não deixavam dúvidas, assim como a comprovação cabal do dano que as drogas causam ao ser humano, fica claro que existe esta história de drogas leves ou pesadas. Droga é droga, e o seu prejuízo é igual, independente do tipo que o usuário resolva adotar para si.

Assim, a mistificação de que a Holanda adotara uma política liberal e o mundo não acabara, fica desmoralizada.

Vários foram os artigos que reproduzimos aqui sobre os danos que a maconha provoca. Se a cannabis tem lá suas propriedades terapêuticas como se tenta teorizar, que seu uso fique restrito ao uso terapêutico em ambientes controlados como o são os laboratórios da indústria farmacêutica. Liberar seu uso indiscriminado à população como seus defensores reclamam é condenar a população a sua degradação social. E isto é e está longe de ser moderno, de ser civilidade. A sociedade brasileira, apesar do duro golpe desferido pelos ministros do STF afrontando a Constituição e o Código Penal, não pode se deixar enredar pelo discurso canalha e asqueroso dos “iluminados” da maconha ou de qualquer outra droga ilícita. No país em que se espalham com maior insistência políticas antitabagismo, em que se pretende até proibir a publicidade de biscoito, não pode seguir um caminho inverso e contraditório de liberalização das drogas, sejam elas leves ou pesadas, porque, de resto, não existem nem leves nem pesadas, existem drogas, todas elas fatais ao organismo humano, e todas elas degradantes do ponto de vista social. Infelizmente, neste ponto, a sociedade brasileira sequer pode contar com o apoio da Justiça de seu país que, em nome da liberdade de expressão, liberou geral a apologia ao crime, muito embora tenha sido a mesma justiça que decretou censura a um órgão de imprensa de divulgar os crimes praticados por uma das cabeças coroadas da política nacional.

Voltem ao texto da Reuters: tudo o que se tem dito por parte dos que são contrários à liberalização das drogas no país, está lá plenamente justificado. Isto é, o dano irreversível que as drogas causam ao organismo humano e o aumento da criminalidade. Está na hora do país adotar uma postura séria e honesta em relação às drogas ilícitas, a de que não existem justificativas capazes de que se adote uma política de descriminalização e liberação. Foi preciso que a Holanda adota esta política para perceber o quanto ela é perniciosa aos indivíduos em particular, dado o grau de degradação física e social que as drogas provocam, e à sociedade pelo aumento da criminalidade que a liberação provoca. Os mitos que se contam precisam ser desmascarados, com a coragem de quem deseja um país melhor e mais justo. Para isso, a única “droga” que realmente importa é do estado de direito democrático e um povo educado com qualidade, única maneira de nos vacinarmos contra as ideologias e teorias vagabundas e mentirosas de quem não conseguem viver de maneira sóbria.

Mas há um dado que precisa também ser considerado nesta discussão: segundo a OMS – Organização Mundial da Saúde, as drogas ilegais são consumidas por 5% da população mundial. Ora, é possível tentar justificativa a descriminalização para tão pequena parcela, colocando em risco a saúde e a segurança dos restantes 95% da população mundial? Então por que a repressão não consegue conter o uso e o tráfico, o que é crime deixará de sê-lo apenas por conta da nossa incompetência? Da mesma forma, então, se poderia argumentar que o homicídio, que no Brasil vitima 50 mil pessoas por ano, deveria deixar de ser crime apenas porque nossa segurança pública não consegue impedir homicídios aconteçam? Ora, tenhamos juízo e bom senso numa hora dessas.

E já que falamos de drogas, um pouco de humor. Nota enviada desde Caracas informa:

Confirmado!!! Hugo Chavez se encuentra en Cuba en grave estado de salud por culpa de una bacteria. Invitamos a todos a orar por la vida y salud de la bacteria.

Um texto tendencioso e discriminatório

Adelson Elias Vasconcellos

Ao ler o título de um artigo do Gilberto Diemenstein para a Folha de São Paulo, confesso que não tive vontade alguma em ler . O tal “São Paulo é mais gay ou evangélica?”, coloca uma questão absolutamente imbecil para um tema que, sinceramente, não tem a menor graça discuti-lo ou fazer o carnaval que se tenta fazer.

Acho pura perda de tempo e de falta de informação este movimento todo em torno dos tais “homoafetivos”. Homossexualismo, apesar do recente modismo, é um comportamento existente desde os primórdios da civilização. Portanto, não se trata de algo novo. E a literatura médica aponta que, pelo menos 10% da população mundial, é ou tem propensão a ser homossexual, independente de ser biologicamente homem ou mulher.

Tenta se criar com o “modismo” ou com a “causa” um clima de puro terror sobre a sociedade dita normal, ou heterossexual. E o incrível é que um comportamento que contraria de forma absoluta o rito natural normal quer se impor como se sua tendência fosse a majoritária sobre a sociedade. E não só isso: se quer demonstrar que, um acidente em minúscula escala da natureza, é mais prazeroso, mais vantajoso e mais correto. Se a gente for observar as tais passeatas em que, homossexuais e maconheiros se unem em torno de suas causas, para esta turma todo aquele que não convergir para sua profissão de fé é preconceituoso, homofóbico.

Assim, o tema proposto já no título de Diementein é uma boçalidade. São Paulo, como resto o Brasil todo, é muito mais cristã – e incluam-se aí as diferentes correntes católicas e evangélicas – e heterossexuais do que gays ou evangélicas. O restante do artigo é, para se dizer o mínimo, preconceituoso contra um lado, e extremamente dócil e parcial em relação a outro.

Afirma Diemenstein: “...Os gays usam a alegria para falar e se manifestar. A parada evangélica tem um ranço um tanto raivoso, já que, em meio à sua pregação, faz ataques a diversos segmentos da sociedade. Nesse ano, um do seus focos foi o STF”.

Olha, não sei em que parada o jornalista desfilou, mas fica claro que sobre a evangélica ele emite uma opinião sem nenhuma base. Primeiro, que para ser alegre não se precisa ser gay. Segundo, a evangélica em faixas, cartazes, manifestações, cânticos louvou o amor a Deus e a Jesus. E havia muita alegria em sua marcha que, aliás, se realiza no mundo todo, e reúne bem mais gente do que os gays.

Quanto aos ataques a “vários segmentos da sociedade” na verdade eles criticaram, no que estão exercendo um direito, a decisão do STF quanto à união estável entre homossexuais. Eles, por uma questão de dogma religioso, e eu, porque também critiquei a decisão, por questões legais, já que os ministros decidiram rasgar a constituição. Se o senhor Diemenstein não professa nenhuma religião, não tem o direito de desqualificar aqueles que a têm e a seguem.

A exemplo deste jornalista, muitas são as pessoas que, em nome da causa gay praticam uma distorção estúpida numa tentativa de encobrir suas “simpatias”. Uma coisa é luta contra o preconceito e o direito de serem aceitos como são. Ponto.

Outra, bem diferente, é tentarem impor seu comportamento de grupo minoritário à grande maioria da população. Já disse e demonstrei que, em nome de se acabar com um preconceito está se criando outro e em sentido inverso. Confunde-se, por total ignorância e absoluta má fé, liberdade e licenciosidade. Dentre a s mulheres, e desde que o mundo é mundo, sempre houve uma parcela de prostitutas. Por conta disto, todas deverão se tornar prostitutas para provarem que não são preconceituosas? Sempre houve, ainda, uma parcela da humanidade, de pessoas criminosas. Por conta disso todos deverão se tornar criminosos para provarem que tem preconceito? Da mesma forma, gays e lésbicas. Não são e nunca serão a maioria. Se seu comportamento tem componentes genéticos, nasceram sendo o que são, por outro lado, não podem pretender a genética da maior parte da população. Num sentido restrito do termo, o homossexualismo não deixa de ser uma aberração ou um acidente da natureza já que, biologicamente, o normal é homem e mulher serem heterossexuais. Fazer esta leitura, aceitando cada grupo tais como são, não demonstra ranço algum. Ranço e preconceito é misturar com total desprezo bandidos políticos à uma grande parte da população, cujo único defeito, vejam só, é serem evangélicos. Se há entre eles políticos, e políticos são safados, a lógica do jornalista é de uma estupidez sem conta. Existem políticos gays também, ou não, senhor Diemenstein? Aliás, existem muitos, e a maioria é enrustida. Tem vergonha de se assumirem, de serem o que são. E muitos são safados também, também praticam corrupção e desviam dinheiro público. Por conta destes, os demais homossexuais devem ser taxados de safados? Ora, ora...

Se o jornalista nutre suas simpatias por um grupo e não por outro, deveria ter mais honestidade no julgamento do grupo que despreza. Sim, porque para ser evangélico é preciso adotar e seguir alguns comportamentos de correção que talvez o jornalista não esteja disposto a tanto sacrifício... Existem bons religiosos, sim. Como existem bons políticos, também. Como haverão muitos bons homossexuais, muitos bons jornalistas. Mas o fato de abraçar esta ou aquela tendência – falo de opção sexual – ou de seguir esta ou aquela profissão não confere a ninguém auras de santidades.

Existem bons e maus em todas as profissões e em todos os gêneros de pessoas. E no texto do senhor Diemenstein é clara a sua manifestação preconceituosa contra os evangélicos, apenas por serem evangélicos. E isto fica na sua última frase: “Civilidade é a diversidade. São Paulo, portanto, é mais gay do que evangélica.

Ou seja, para o jornalista, civilidade é ser gay. Nada mais falacioso. Civilidade, senhor Diemenstein, é ser correto, é ser decente, é ser honesto, é respeitar os nossos semelhantes não invadindo seu espaço ou desqualificando suas crenças, é aceitar que cada seja aquilo que é, bom ou mau. Isto é civilidade. Além disso, se a gente for confrontar o texto de Diemenstein com o tal projeto que pretende criminalizar a homofobia, fica claro que é o movimento gay quem pretende usurpar o direito dos evangélicos de se manifestarem e, caso o façam, querem puni-los com cadeia.

Já disse aqui que preconceito não se acaba por decreto. O que a lei pode é delimitar o espaço entre a livre manifestação de opinião e a discriminação. Aceitar os gays é uma coisa, mas querer que sejam amados, idolatrados, venerados por decreto?

Mas há um crasso erro de avaliação no artigo , e isto é indesculpável para um jornalista de mente assim tão aberta como Diemenstein se julga, que é achar que a marcha dos evangélicos é um produto paulista. Deveria ter o cuidado de acompanhar o noticiário para perceber que muitas foram as caravanas vindas de outros estados brasileiros que se juntaram naquela festa. Assim se vê, São Paulo continua sendo o mais diversificado polo étnico do país, em que majoritariamente se vê religiosos de várias crenças e heterossexuais em grande maioria.

Há ainda, além da confusão toda que o jornalista tendenciosamente manipula, outra desinformação grotesca que é a estatística dos crimes contra homossexuais. Neste sentido, o texto mais abaixo do jornalista Ruy Fabiano é primoroso. Ele desfaz completamente a distorção e aponta que se alguma fobia no país em termos de crimes, ela tem natureza muito mais hetero do que homofóbica.

São Paulo, portanto, é a cara do Brasil: profundamente religiosa, onde mais de 90% são cristãos, e maciçamente heterossexual.

E, dada a sua civilidade, a cidade ainda consegue dar emprego para jornalistas com visão estreita, desinformados e tendenciosos, além daqueles que prefere às plumas e paetês, por menos minorias que eles representem...

Um último registro: em país bananeiro, a lei é assaltada até pelo Poder Judiciário. Já em países sérios, onde os poderes são exercidos de forma harmoniosa e plena, e cada um respeita seus limites, a coisa é diferente. Apesar do grande apelo dos homossexuais americanos pela legalização do casamento entre gays, em Nova York, por exemplo, isto só foi possível mediante projeto apresentado,votado e aprovado pelo Senado do Estado. Aqui, a corte constitucional representada pelo STF resolveu atropelar a constituição e mudá-la à revelia, exercendo um poder que a lei não lhe faculta.

Em torno da causa gay

Ruy Fabiano – Blog do Noblat

Toda a campanha em favor da causa gay, e que orienta a aprovação do projeto de lei 122, em tramitação no Senado, parte de uma mesma premissa: haveria, no Brasil, um surto de homofobia – isto é, hostilidade e ameaça física aos gays.

A premissa não se sustenta estatisticamente. Os números, comparativamente aos casos gerais de homicídios anuais no país – cerca de 50 mil! -, são irrelevantes.

Segundo o Grupo Gay da Bahia, de 1980 a 2009, foram documentados 3.196 homicídios de homossexuais no Brasil, média de 110 por ano.

Mais: não se sabe se essas pessoas foram mortas por essa razão específica ou se o crime se deu entre elas próprias, por razões passionais, ou pelas razões gerais que vitimam os outros 49 mil e tantos infelizes, vítimas do surto de insegurança que abala há décadas o país.

Se a lógica for a dos números, então o que há é o contrário: um surto de heterofobia, já que a quase totalidade dos assassinatos se dá contra pessoas de conduta hetero.

O que se constata é que há duas coisas distintas em pauta, que se confundem propositalmente e geram toda a confusão que envolve o tema.

Uma coisa é o movimento gay, que busca criar espaço político, com suas ONGs e verbas públicas, ocupando áreas de influência, com o objetivo de obter estatuto próprio, como se opção de conduta sexual representasse uma categoria social.

Outra é o homossexualismo propriamente dito, que não acrescenta nem retira direitos de cidadania de ninguém.

Se alguém é agredido ou ameaçado, já há legislação específica para tratar do assunto, independentemente dos motivos alegados pelo agressor. Não seria, pois, necessário criar legislação própria.

Comparar essa questão com o racismo, como tem sido feito, é absolutamente impróprio. Não se escolhe a raça que se tem e ver-se privado de algum direito por essa razão, ou previamente classificado numa categoria humana inferior, é uma barbárie.

Não é o que se dá com o homossexualismo. As condutas sexuais podem, sim, ser objeto de avaliação de ordem moral e existencial, tarefa inerente, por exemplo (mas não apenas), às religiões.

Elas – e segue-as quem quer – avaliam, desde que existem, não apenas condutas sexuais (aí incluída inclusive a dos heterossexuais), mas diversas outras, que envolvem questões como usura, intemperança, promiscuidade, infidelidade, honestidade etc.

E não é um direito apenas delas continuar sua pregação em torno do comportamento moral humano, mas de todos os que, mesmo agnósticos, se ocupam do tema, que é também filosófico, político e existencial.

Assim como o indivíduo, dentro de seu livre arbítrio, tem a liberdade de opções de conduta íntima, há também o direito de que essa prática seja avaliada à luz de outros valores, sem que importe em crime ou discriminação. A filosofia faz isso há milênios.

Crime seria incitar a violência contra aqueles que são objeto dessa crítica. E isso inexiste como fenômeno social no Brasil. Ninguém discute o direito legal de o homossexual exercer sua opção. E a lei lhe garante esse direito, que é exercido amplamente.

O que não é possível é querer dar-lhe dimensão que não tem: de portador de direitos diferenciados, delírio que chega ao extremo de se cogitar da criação de cotas nas empresas, universidades e partidos políticos a quem fez tal opção de vida.

Mesmo a nomenclatura que se pretende estabelecer é falsa. A união de dois homossexuais não cria uma família, entendida esta como uma unidade social estabelecida para gerar descendência e permitir a continuidade da vida humana no planeta.

Casamento é instituição concebida para organizar socialmente, mediante estatuto próprio, com compromissos recíprocos, a geração e criação de filhos.

Como aplicá-lo a outro tipo de união que não possibilita o que está na essência do matrimônio? Que se busque então outro nome, não apenas para evitar confusões conceituais, mas até para que se permita estabelecer uma legislação que garanta direitos e estabeleça deveres específicos às partes.

Há dias, num artigo na Folha de S. Paulo, um líder de uma das muitas ONGs gays do país chegou a afirmar que a heterossexualidade não resultaria da natureza, mas de mero (e, pelo que entendi, nefasto) condicionamento cultural, que começaria já com a criança no ventre materno.

Esqueceu-se de observar que, para que haja uma criança no ventre materno, foi necessária uma relação heterossexual, sem a qual nem ele mesmo, que escrevia o artigo, existiria.

Portanto, a defesa de um direito que não está sendo contestado – a opção pelo homossexualismo – chegou ao paroxismo de questionar a normalidade (e o próprio mérito moral) da relação heterossexual, origem única e insubstituível da vida. Não há dúvida de que está em cena um capítulo psicótico da história.

A Bíblia do caos: novo evangelho

Millôr Fernandes




VII

XX.

Sou totalmente a favor da mãe solteira – porque também sou frontalmente contra o pai casado.

XIX.

A esperança é crônica. O medo é agudo.

XVIII.

Falsa Cultura: Crack
Rockfeller morreu de armas na mão defendendo o crack de 1929.

XVII.

No cassino da vida pública brasileira é considerado modelo de probidade o que tem só um ás na manga.

XVI.

Cristo foi seguido por suas parábolas demagógicas e crucificado por seus planos de reforma social.

XV.

A Glória Séc. XXI
Ninguém acredita mais em Glória com menos de 30 milhões de audiência.

XIV.

A indenização é o último patriotismo do rebelde

XIII.

Não sou um homem muito culto. Mas sempre tive o cuidado de me cercar de completos ignorantes.

XII.

Agora, que já avançamos pelo século XXI, podemos fazer um pequeno balanço do que o século XX nos legou.

1. O atropelamento.
2. O salto suicida do décimo andar.
3. O envenenamento pela radioatividade.
4. A estupidificação pela televisão.
5. A queda do avião.
6. A democratização da aids.
7. A poluição, tornando verdadeira a frase "O mar não tá pra peixe".
8. O escorregão na Lua.
9. A morte no CTI.
10. A possibilidade de um final feliz, todo mundo acabando junto.

XI.

A infância não, a infância dura pouco. A juventude não, a juventude é passageira. A velhice sim. Quando um cara fica velho é pro resto da vida. E cada dia fica mais velho.

X.

O trocadilho, dizem os que gostam de dizer, é "a forma mais baixa de humor". É. Não há nada mais chato do que um debilóide que gosta de "contar" um trocadilho. Isto é, fala um trocadilho dito antes, geralmente sem nenhuma criatividade. Pois o trocadilho vale pela espontaneidade, feito in the spur of the moment, na velocidade do instante. Por pessoas que têm o dom do "processamento" repentino.

Mas há também o bom trocadilho pensado, refletido. Sem trocadilho, jogo de palavras, Shakespeare não existiria. Ainda mais – a literatura não existiria.

Este longo nariz-de-cera é porque vi, nas ondas de protesto contra as tropas de ocupação da Síria, no Líbano, uma faixa dizendo: GO HOME SIRIAL KILLERS!

Nunca esquecer que o maior trocadilho, sobre o qual se firmou o cristianismo, está lá, gigantesco, rodeando a cúpula da Igreja de São Pedro: "Pedro, tu és pedra, e sobre ti edificarei a minha Igreja". Dito pelo próprio Cristo. A verdadeira graça de Deus.

IX.

Respostas a que não fui perguntado

Um artigo de psicologia - ai! - pergunta: “No banheiro você se sente nu ou despido"?
Deixa eu ver:

- Despido: Somos nós quando tiramos a roupa.
- Nu: Uma outra pessoa qualquer (talvez porque não assistimos ao ato de ela se despir?) Cadáver assassinado também é nu.
- Nuinha: Mulher bonita.
- Pelada: Mulher na janela em frente, em geral bonita e vulgar. Criancinha recém-nascida.
- Desnudado: Artistas sem cache-sexe, atletas sem sunga, políticos.

VIII.

Jesus foi crucificado entre o bom e o mau ladrão. Pois é: naquela época havia 50% de bons ladrões.

VII.

Monogamia: Chama-se de monogamia a capacidade de ser infiel à mesma pessoa durante a vida inteira.

VI.

Olhando pra esquerda ou olhando pra direita, estamos dentro do palíndromo da corrupção

V.

Ao fim e ao cabo, aprendam logo, se já não sabem: todo partido político é uma gang com ideologia (e até sem ela).

IV.

Todos sabem - os poucos que sabem - que sou grande admirador da tecnologia. Mas o progresso é sempre melhor? Sempre? Todo dia a gente vê desastres. Terríveis acidentes aéreos, engavetamento de trens, batida coletiva de automóveis. Você alguma vez ouviu falar de algum acidente com os maravilhosos meios de transporte do passado - soube da queda de algum tapete voador, de alguma batida de vassouras de bruxas, de algum enguiço de botas de sete léguas?

III.

Democracia
Lula, defensor do analfabetismo como neocultura, vai enviar ao Congresso uma MP proibindo a elitista ordem alfabética.

Transparência
A imprensa, como demonstra extraordinariamente no momento atual, é, mais que nunca, o Quarto Poder. E, neste primeiro escândalo internacional, ocorrendo no imenso Brasil, a internet, com sua repercussão-relâmpago e capacidade de invadir e influenciar todos os setores, já é o Quinto Poder. Estamos, sempre estivemos, a reboque da tecnologia.

Mestre
Aprendi com o vosso Presidente: o caixa dois das campanhas eleitorais, a fome, a discriminação (Lula tem horror de viado, como provou em Pelotas, e a internet mostra interminavelmente), o desemprego, o mensalão, a incompetência, tudo isso é o que se chama "a ordem natural das coisas".

Antibiológico
Nem a ciência ficou de fora: Valério conseguiu desmoralizar até o DNA.

II.

Bíblia me ensinou; "Cada coisa tem seu tempo." Paro hoje - em verdade parei ontem - o ciclo de pequenas lições de civismo para cego-surdo-mudos. Paro porque há uma hora de parar. Espero em Deus não ter que recomeçar. Foi bom sentir que alguns puderam ver, outros ouvir, uns raros se indignar. Quando surgem vozes mais competentes e aparelhadas do que a minha, cedo a vez. E posso dar ao meu leitor (na presunção de tê-Ios) descanso do enfado a que o submeti por tema, atualmente, quase irrelevante; a prepotência a serviço do crime. Paro com a melancolia de perder a admiração que tinha por dois ou três amigos. Paro com a satisfação de que, por mais erros que cometa, por mais contaminada que esteja pela metástase do país - nenhum de nós escapa - ainda é na imprensa, e quase só na imprensa, que o cidadão encontra um espaço de choque contra a insensibilidade patológica do nosso poder político-econômico.

I.

De vez em quando, o mais raramente melhor, é bom transcrever alguém já consagrado. Desde que ele seja curto, profundo, - em qualquer sentido - e bom mesmo. Aqui vai um pedaço de Borges (Jorge Luis), que preenche esses requisitos. Millôr.


O refúgio de Sérgio Cabral

Nelito Fernandes, Revista Época

A casa onde o governador se isolou depois da tragédia foi comprada no período em que tomou empréstimos de assessores

LUXO
O imóvel de Cabral em Mangaratiba, avaliado em R$ 1,5 milhão.
O local foi escolhido para descanso, mas é outra fonte de questionamentos para o governador


Licenciado por uma semana, Cabral isolou-se em sua casa de R$ 1,5 milhão em Mangaratiba, na Costa Verde fluminense, para descansar. Foi lá também que Cabral passou o Réveillon de 2010, marcado por uma tragédia em Angra dos Reis, onde deslizamentos de encostas, provocados pelas chuvas, causaram dezenas de mortes. Apesar da proximidade entre Mangaratiba e Angra, Cabral demorou a aparecer em público. Localizada dentro de um condomínio, a casa é usada como refúgio pelo governador, mas tem sido também uma fonte de aborrecimentos para ele. Há anos Cabral tem sido cobrado a explicar como conseguiu comprá-la com os modestos salários de político.

Documentos obtidos por ÉPOCA mostram que, no período em que adquiriu o imóvel, Cabral recebeu empréstimos de familiares e assessores. Em cinco anos, R$ 474.852,17 entraram em sua conta. Entre 1996 e 1997, quando ainda era deputado estadual, Cabral obteve empréstimos de R$ 54 mil de Aloysio Neves Guedes, seu chefe de gabinete. Guedes recebia R$ 5.400 mensais, dez vezes menos que o valor do empréstimo. Outro financiador foi o assessor Pedro Lino, que ganhava o mesmo que Guedes e emprestou R$ 46 mil. Subchefe de gabinete, Sérgio Castro Oliveira colaborou com R$ 31 mil. Outros R$ 79 mil caíram na conta de Cabral vindos da Araras Empreendimentos, empresa de sua ex-mulher Suzana Neves. O ex-sogro Gastão Lobosque emprestou R$ 264 mil. Em 1998, Cabral tomou emprestados R$ 150 mil da Sociedade Três Orelhas para a compra da casa de Mangaratiba, com a promessa de pagar em 18 meses. A Três Orelhas administra o condomínio (Portobello) onde foi erguido o imóvel.

Cabral não deu detalhes sobre as operações. Qualquer documento referente a esses anos tão remotos já foi descartado, tendo em vista que a prescrição é de cinco anos”, disse sua assessoria. Ele informou, porém, que pagou os empréstimos. Os assessores dos empréstimos são amigos de Cabral e trabalharam em suas campanhas. Aloysio foi indicado para o Tribunal de Contas do Estado, onde hoje é conselheiro. Ele diz não se lembrar de nada: “Faz muito tempo. É coisa muito pequena para eu recordar”. O mesmo diz Pedro Lino. “Se foi feito, está em meu Imposto de Renda”, afirma. Sérgio Castro não respondeu aos pedidos de entrevista.

O visto de Battisti é ilegal

O Estado de São Paulo



Por 14 votos a 2, 1 abstenção e 3 ausências, o Conselho Nacional de Imigração - vinculado ao Ministério do Trabalho e integrado por 9 representantes de Ministérios, 5 de sindicatos, 5 de entidades patronais e 1 da comunidade científica - concedeu visto de permanência ao ex-terrorista italiano Cesare Battisti. Com isso, ele poderá viver e trabalhar por tempo indeterminado no Brasil.

Pela ordem jurídica vigente, a decisão do Conselho Nacional de Imigração é ilegal. Ela colide com a Lei 6.815/81, que criou o órgão e define a situação jurídica dos estrangeiros no Brasil. O inciso IV do artigo 7.º dessa lei proíbe taxativamente a concessão de visto "ao estrangeiro que foi condenado ou processado em outro país por crime doloso, passível de extradição segundo a lei brasileira".

É justamente esse o caso de Battisti. Ele foi condenado à prisão perpétua pela Justiça italiana por quatro assassinatos cometidos na década de 1970, quando integrava a organização terrorista Proletários Armados para o Comunismo. No momento em que Battisti foi processado, julgado e condenado, a Itália vivia em plena normalidade política e constitucional, ou seja, sob democracia plena.

Battisti também já foi condenado no Brasil pela primeira instância da Justiça Federal à pena de dois anos em regime aberto, convertida em pagamento de multa e prestação de serviços à comunidade, por usar passaportes franceses falsificados, encontrados quando foi preso pela Polícia Federal, em 2007, a pedido do governo italiano. Ele recorreu, mas a decisão foi mantida há cinco meses pelo Tribunal Regional Federal da 2.ª Região. No inciso II do artigo 7.º, a Lei 6.815 também proíbe a concessão de visto "ao estrangeiro considerado nocivo à ordem pública".

Por mais que se apresente como perseguido político, Battisti, do estrito ponto de vista técnico-jurídico, não preenche os critérios previstos pela legislação para a obtenção de visto de residência. Por isso, a Procuradoria-Geral da República - o órgão encarregado pela Constituição de "defender a ordem jurídica" - não tem outra saída a não ser contestar judicialmente a decisão do Conselho Nacional de Imigração e exigir o cumprimento do direito positivo.

Foi com base nessa legislação que, em 2009, a Procuradoria-Geral da República emitiu um parecer contrário à concessão de asilo a Battisti - posição que foi endossada pelo Comitê Nacional para os Refugiados, uma comissão interministerial encarregada de receber os pedidos de refúgio e determinar se os solicitantes reúnem as condições jurídicas necessárias para serem reconhecidos como refugiados. Surpreendentemente, o então ministro da Justiça, Tarso Genro, desprezou as duas decisões e concedeu o status de refugiado político a Battisti.

Classificando a iniciativa de Genro como "grave e ofensiva", o Ministério de Assuntos Estrangeiros da Itália recorreu ao Supremo Tribunal Federal, acusando o governo brasileiro de não cumprir o tratado de extradição firmado pelos dois países em 1989. Mas, em vez de dar uma solução clara e objetiva ao caso, em 2010 a Corte, numa decisão ambígua, autorizou a extradição, mas deixando a última palavra ao presidente da República. Pressionado pelo ministro da Justiça, por um lado, e pelo governo da Itália, por outro lado, Lula deixou claro que concederia asilo a Battisti - o que só fez no último dia de seu mandato - e pediu à Advocacia-Geral da União um parecer que fundamentasse sua decisão. Cumprindo a determinação, o órgão desprezou a legislação e preparou um parecer político, dando as justificativas "técnicas" de que o presidente precisava para decidir pela permanência de Battisti no País, com o status de imigrante.

O governo italiano voltou a recorrer e o Supremo, para perplexidade dos meios jurídicos, também agiu politicamente, ignorando tanto o tratado de extradição firmado entre o Brasil e a Itália quanto a própria legislação brasileira sobre estrangeiros. Essa desmoralização das instituições jurídicas foi aprofundada ainda mais com a concessão do visto de permanência a Battisti, pelo Conselho Nacional de Imigração.

A dívida brasileira é mais segura que a americana?

José Fucs, Revista Época

A notícia inusitada de que um calote na dívida pública brasileira seria menos provável que na americana gerou euforia em Brasília na semana passada. Entusiasmado com a boa-nova, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, exaltou “a solidez da economia brasileira e a confiança do mercado”. Contou também que a presidente Dilma Rousseff havia ficado “muito satisfeita”. O ufanismo tem origem na variação do preço de uma espécie de seguro contra calotes em títulos públicos, conhecido pela sigla CDS (em inglês, credit default swap). Na terça-feira 14, a taxa de CDS com validade de um ano para os papéis brasileiros chegou a 38,9 pontos, 10 abaixo dos americanos. Isso significa que o investidor pagaria 0,1 ponto porcentual a menos pelo seguro contra um calote brasileiro. Algo inimaginável no passado.

Infelizmente, a realidade não é exatamente da cor que o ministro procurou pintá-la. Primeiro, porque o indicador usado por Mantega baseava-se apenas nas operações de um ano, que refletem a percepção de curto prazo do investidor. Segundo, porque as operações desse tipo são raras. A maior parte dos investidores prefere seguros com prazo mais longo. “Nos últimos anos, o país melhorou, mas daí a dizer que o risco Brasil é menor que o dos Estados Unidos há uma longa distância”, diz o economista Fernando Fix, da Votorantim Wealth Management.

De acordo com Fix, a evolução da taxa do CDS reflete mais um problema conjuntural da economia americana que uma mudança de percepção em relação ao Brasil. A questão é a gigantesca dívida federal dos EUA. Em maio, ela alcançou o teto legal de US$ 14,3 trilhões, um recorde histórico. E, até o final do ano, deverá chegar a US$ 15,2 trilhões, superando a marca de 100% do PIB pela primeira vez desde 1946. Para aumentar o limite da dívida, o governo depende agora de autorização do Congresso. E a maioria republicana na Câmara joga duro com o presidente Barack Obama, do Partido Democrata, e rejeitou um novo limite. Diante do veto recente do Congresso, a insegurança do investidor cresceu, a especulação aumentou e a taxa do CDS de curto prazo também.

Com as negociações em curso, ninguém espera que os parlamentares declarem a moratória americana. Nos últimos 50 anos, o limite da dívida federal foi aumentado 78 vezes, dez delas desde 2001. “Isso deverá ser resolvido logo”, afirma o economista Octavio de Barros, do departamento de pesquisa do Bradesco.

A percepção de que se trata de um problema temporário apoia-se na taxa dos CDS de cinco anos, os mais negociados. Eles tinham, na terça-feira passada, taxa de 109,9 pontos para papéis brasileiros e 51,6 pontos para papéis americanos. Outros indicadores de risco soberano mostram a mesma tendência. Embora tenha recebido o grau de investimento, em reconhecimento à melhoria do ambiente econômico do país, o Brasil ainda está apenas um degrau acima de países cujos títulos são considerados podres. Os EUA mantêm a classificação AAA, a mais alta. O otimismo exagerado do governo é um sinal de que Brasília prefere viver num mundo de ilusões.

Acredite, se quiser
Desde 20 de maio, custa mais caro se proteger contra um calote na dívida pública americana que na brasileira¹ – em pontos

ONU põe Brasil sob suspeita de tortura e visitará cadeias e unidades para jovens

Jamil Chade - O Estado de São Paulo

Missão promete ser dura com as autoridades, já que não é a 1º vez que investigação é feita

A Organização das Nações Unidas (ONU) fará a maior inspeção internacional já realizada nas prisões brasileiras para avaliar sérias denúncias sobre o uso da tortura no País. Segundo informações reveladas ao 'Estado' com exclusividade, a missão recebeu evidências de ONGs e especialistas apontando para violações aos direitos humanos em centros de detenção provisória, prisões e nas unidades que cuidam de jovens infratores em vários Estados.

Não é a primeira vez que a tortura no Brasil é alvo de investigação na ONU e a missão promete ser dura com as autoridades. Os locais de visita estão sendo mantidas em sigilo para que o grupo de inspetores faça visitas de surpresa aos locais considerados críticos, impedindo que as autoridades “preparem” as prisões e “limpem” eventuais problemas. Também será a primeira vez que a tortura será investigada em unidades para jovens - como a antiga Febem.

Para poder surpreender as autoridades, a viagem que ocorrerá no início do segundo semestre tem sua agenda guardada a sete chaves. A ministra de Direitos Humanos, Maria do Rosário, só foi informada de que a missão ocorrerá e será liderada pelo Subcomitê de Prevenção da Tortura da ONU. Mas não recebeu nem a lista das cidades que serão inspecionadas nem quais instituições serão visitadas. A obrigação do governo será a de dar acesso irrestrito aos investigadores.

No total, o grupo contará com cinco especialistas internacionais. Para garantir a confidencialidade das discussões, o documento não será publicado sem que exista autorização do governo. A brasileira Maria Margarida Pressburger, que integra o Subcomitê, não fará parte da análise. Ela espera que os inspetores encontrem uma situação alarmante. “Existem locais no Brasil em que a tortura se aproxima da mutilação.”, afirmou.

Acordos.
A visita ainda tem como meta pressionar a presidente Dilma Rousseff a ratificar os acordos da ONU para a prevenção da tortura. O Brasil assinou o entendimento em 2007. Mas não criou programas em todo o País para treinar policiais e evitar a prática.

A relação entre o governo brasileiro e a ONU em relação à tortura é tensa desde 2005, quando o Comitê contra a Tortura realizou uma visita a um número limitado de lugares. Ao escrever seu relatório, indicou-se que a tortura era " sistemática" no País. O governo tentou convencer a ONU a apagar essa palavra e bloqueou a publicação do texto até 2007.

Em 2009, o governo comprou uma briga com o relator da ONU contra Assassinatos Sumários, Phillip Alston, que havia colocado em dúvida a redução de execuções. O Brasil chegou a chama o relator de “irresponsável”.

*****

País não ratificou acordo e bloqueou relatório anterior

O Estado de São Paulo

A visita ainda tem como meta pressionar a presidente Dilma Rousseff a ratificar os acordos da ONU para a prevenção da tortura. O Brasil assinou o entendimento em 2007. Mas não criou programas em todo o País para treinar policiais e evitar a prática.

A relação entre o governo brasileiro e a ONU em relação à tortura é tensa desde 2005, quando o Comitê contra a Tortura realizou uma visita a um número limitado de lugares. Ao escrever seu relatório, indicou-se que a tortura era " sistemática" no País. O governo tentou convencer a ONU a apagar essa palavra e bloqueou a publicação do texto até 2007.

Em 2009, o governo comprou uma briga com o relator da ONU contra Assassinatos Sumários, Phillip Alston, que havia colocado em dúvida a redução de execuções. O Brasil chegou a chamar o relator de "irresponsável".

Viram no que deu?

Percival Puggina

Era de se imaginar que maconheiros, traficantes, falsos progressistas, defensores do relativismo moral, partidários da tolerância com o intolerável, turma do politicamente correto, bem como seus assemelhados na esfera política onde todos gravitam, se encantassem com as mais recentes decisões do Supremo. Afinal, o Brasil está ficando como eles querem e o STF levando os descontentes a entender quem é que manda no pedaço.

Viva! A decisão sobre a reserva Raposa Serra do Sol foi um sucesso cívico: conseguiu lançar indígenas e colonos na miséria. Viva! No Brasil já se pode jogar embriões humanos no vaso e puxar a descarga. Viva! Battisti só não terá cidadania brasileira se não quiser, que qualificações não lhe faltam. Viva! Quando a Constituição Federal fala em homem e mulher enuncia apenas um estereótipo, um clichê em desuso, para representar qualquer tipo de encaixe. Viva! A marcha pela maconha é uma festa da cidadania patropi. E deve virar feriado nacional.

Li e reli as atribuições constitucionais do STF. Em nenhum lugar lhe foi outorgada a função de precursoria, de vanguarda social, incumbido de levar a nação, pelo nariz e a contragosto, para onde apontam os narizes e os gostos de seus membros. Já não falo em substituir-se ao Congresso Nacional que esse está nem aí para o que acontece, contanto que não faltem cargos e emendas necessárias à preservação dos mandatos. Raríssimas vozes se ouvem, ali, apontando os devidos limites às vontades da Corte.

Mas o que está acontecendo eram favas contadas. A partir de Fernando Henrique Cardoso, por 16 anos consecutivos, as indicações para o STF são buscadas no mesmo nicho. Embora a esquerda goste de dizer que FHC era neoliberal, o fato é que ele e Lula pertencem à mesma extração esquerdista, com diferenças apenas no nível intelectual. FHC é um Lula de salão nobre, com doutorado, ao passo que Lula é um FHC de piquete grevista e curso primário. Lula defende a cachaça e FHC, no melhor estilo da esquerda dos anos 60, de Woodstock, da contracultura, oitentão modernoso que é, defende a maconha. Aparta-os a política, não as ideias. Os indicados por ambos formam 80% do Supremo e não faz muita diferença o fato de que Lula tenha escolhido boa parte dos seus no partido e no partidão. As cabeças são parecidas. As disputas que por vezes se esboçam entre eles são, essencialmente, de beleza. Temas para espelho mágico. De nada vale, então, aguardar o futuro porque o futuro não nos reserva algo melhor. Os ministros mais antigos e mais próximos da compulsória são os dois Mello - o Celso e o Marco Aurélio. Estão piorando com a idade e com a vaidade. Gravitam no mesmo círculo filosófico dos demais. E só saem, respectivamente, em 2015 e 2018.

Viram no que deu, este país ficar votando compulsivamente na esquerda? A mesma sociedade, majoritariamente conservadora, cristã, consciente da importância dos valores tradicionais, ao votar na esquerda por motivos menores, é obrigada a assistir suas posições maiores - religiosas, filosóficas e morais - serem desrespeitadas e ridicularizadas nos votos e nas decisões dos ministros do Supremo.

Segredo é para quatro paredes

Fernando Gabeira - O Estado de São Paulo

Em duas formas diferentes e diferentes relações com o tempo, o sigilo entrou na agenda política brasileira. Na forma de segredo de Estado, ele aparece nas objeções de Sarney e Collor à divulgação de documentos depois de um prazo de 50 anos. É perfeitamente razoável que se oponham levantando questões de Estado. O surpreendente foi o recuo de Dilma Rousseff, uma vez que o projeto aprovado na Câmara sempre teve o apoio do governo. O outro sigilo classifico de mais indigesto: o dos gastos com as obras da Copa do Mundo. Com esse nem Sarney concorda.

Quando a maioria esmagadora das pessoas entende esse sigilo como sospechoso, torna-se inadequado dizer que foi mal interpretado. Como estamos no universo político, e não das ciências exatas, o razoável é afirmar que diante da interpretação majoritária o governo se explicou mal. São nuances.

Falando diretamente: não passará. Sobretudo num momento em que acaba de cair o chefe da Casa Civil e a Fifa e CBF são acusadas, na Suíça e na Inglaterra, de corrupção. Uma questão de tempo e bom senso para dizer: esqueçam, não está mais aqui quem propõe sigilo para os gastos nessa empreitada, com esses atores.

Já o projeto que estabelece o acesso aos documentos públicos é muito mais amplo do que eventuais vazamentos revelando que obtivemos terras da Bolívia, escalpelamos os paraguaios na guerra ou compramos o seu governo no projeto de Itaipu. A quebra desse sigilo é fundamental, reconheço, para os historiadores e a afirmação da maturidade democrática brasileira. O argumento que Dilma apresenta para justificar seu recuo, objeção do Itamaraty, é surpreendente. Nossos diplomatas não podem dizer, parodiando Drummond: os amigos não me disseram que havia uma comissão. E havia. O presidente era do PT, José Genoino; o relator, do PMDB, Mendes Ribeiro. Mais do que isso, o Itamaraty não poderia ignorar que o governo marchava nessa direção e que Dilma, já candidata, fez um discurso público a favor do projeto.

Quem faz pressão pública para que o governo volte atrás? Sarney e Collor. Um presidente que todos nós criticamos, outro que todos nós derrubamos. Mais fácil seria dizer a eles que a democracia brasileira vive um outro tempo, que suas observações são ponderáveis, mas seguiremos com nossos prazos para o sigilo. O problema é que o curto-circuito introduzido por Sarney-Collor obscurece a importância do projeto não só para a opinião pública, como também para o indivíduo.

A partir dele, o Estado terá de montar uma estrutura para atender às demandas de informação. Quando discutíamos o tema na Câmara, aprendemos que os EUA gastam US$ 300 milhões anuais para satisfazer às perguntas que chegam e honrar o compromisso de garantir acesso.

O primeiro obstáculo a ser vencido é do sigilo eterno. Mas, infelizmente, depois de vencido, a luta estará apenas começando. É mais fácil para o governo anunciar que aprovou a lei de acesso aos documentos públicos e afirmar que, nesse ponto, o Brasil se equipara a outras democracias.

Vai haver uma rápida celebração. Mas, e depois, quando as pessoas quiserem, realmente, utilizar o seu direito de saber? Estaremos preparados para isso?

Numa tentativa - desesperada, creio eu - de desqualificar o projeto, Sarney afirmou que o Brasil não se poderia expor ao WikiLeaks sobre sua História. Nada mais inadequado que essa comparação. O WikiLeaks obtém informações contra a vontade dos governos, sem se preocupar com a dimensão legal de sua obtenção. O projeto brasileiro prevê as formas legais de acesso, determina os prazos para a abertura dos arquivos. É, na verdade, um antídoto contra vazamentos, uma vez que oferece os documentos. Nos casos em que isso não for possível, a pessoa interessada ficará sabendo, claramente, quanto tempo falta para conhecer os dados.

Muitos não conhecem o poder da informação. Ou nem mesmo calculam como na sua vida, em determinado momento, pode ser essencial obter do governo um certo documento. Houvesse essa compreensão, certamente teríamos algumas marchas pelo acesso aos documentos oficiais.

A presidente Dilma tentou confortar a crítica ao seu recuo afirmando que os documentos sobre a ditadura militar não podem gozar de sigilo. Tudo bem, mas não devemos utilizar a ditadura como uma espécie de biombo. O que está em jogo não é apenas o conjunto de documentos sobre aquele período. É toda a vida do País, do fim até o começo.

Ditadura, Guerra do Paraguai, consolidação das fronteiras, tudo isso é muito interessante e vai dar excelente debate entre historiadores e acadêmicos. Mas a questão central é aqui e agora. São as demandas que os jornais fazem na Justiça para terem acesso a documentos que o governo esconde, são as dúvidas que um indivíduo, às vezes, tem para definir sua trajetória.

A história dos documentos secretos ligados às fronteiras nacionais ou mesmo às guerras do passado pode se transformar numa espécie de bode na sala.

No mesmo momento em se discute o sigilo com retórica de estadistas, a Câmara aprova o segredo nas contas da Copa do Mundo, o governo não diz quanto gastará para pôr o projeto de acesso em funcionamento, nem monta a estrutura necessária para que ele funcione no cotidiano.

Gravada também por João Gilberto, que faz 80 anos, uma canção popular brasileira diz que segredo é pra quatro paredes e o peixe é pro fundo da rede. Mas o segredo da canção é entre amantes que compartem a mesma casa. Não há segredos eternos nas questões públicas.

Por acaso, a ministra Ideli Salvatti deixou a Pesca e, ao assumir Casa Civil, comunicou o recuo de Dilma no caso do sigilo. Não sei se um dia ouviram a canção, mas, seguramente, estão em conflito com ela. O segredo para quatro paredes não é uma questão do governo. E o peixe no fundo da rede, bem, essa é mensagem mais inequívoca, mas parece que a ministra Ideli não a entendeu, a julgar pela sua passagem pelo Ministério da Pesca.

Picadinho de novidades

Villas-Bôas Corrêa

Hoje não é exatamente o dia para um artigo político, quando o sol promete um fim de semana de praia e a presidente Dilma Rousseff dá o bom exemplo, viajando para São João do Caruaru, numa barretada para a aproximação do matriarcado e dos aliados e de participação no bate-papo com os políticos.

Mas, jornal não chega às bancas com as folhas ilustradas por fotos, com flagrantes da violência que é uma das marcas deste tempo ensandecido.

A presidente cunhou a frase exata, no jantar em Caruaru, mandou a dieta às favas e saboreou o sarapatel, o arrumadinho, a cocada e o pé de moleque. Merecia ser aplaudida de pé: “Aqui é o local adequado para colocar o pé na jaca”. Pois pise à vontade nas jacas que despencam no chão e despedaçam.

Assim como quem não quer nada, o ministro Aloizio Mercadante, de Ciência e Tecnologia, matérias do seu absoluto desconhecimento, tentou expelir o senador Valadares (PSB-SE) da cadeira em que se refestelava na posse da ministra Gleisi Hoffmann, da Casa Civil.

O diálogo é um modelo de cordialidade e boas maneiras:
“Você está sentado na minha cadeira” suspirou o ministro.
“Não estou” – tentou esclarecer o senador Valadares.
”Está sim”, rebateu o ministro que chamou o cerimonial para desempatar o bate-boca.

Valadares explodiu:

“Sou um senador da República e não vou me levantar. Da próxima vez coloquem mais cadeiras”, encerrou o senador que não tem o mesmo apreço pela sua cadeira no plenário, na forma do costume dos parlamentares que se sacrificam no serviço ao país. Lá é verdade que muito, muitíssimo bem pagos.

O exemplo cai do alto da escada. A contratação de pessoal terceirizado para áreas administrativas, em funções que o Ministério do Trabalho considera irregulares, como secretariado e secretariado-executivo é uma praxe generalizada nos órgãos do governo federal. A procuradora do Ministério Público do Trabalho, Daniela Marques, fala alto para que seja ouvida;

“É terrível que cada vez se crie mais cargos com nomes inusitados. Parece que está se tentando buscar brechas para terceirizar o que não é terceirizável".

Parece, dona Daniela?.

A ameaça virtual

Carlos Brickmann, Brickamnn & Associados Comunicação

Como um vírus, ele é invisível. Como um vírus, ele é potencialmente perigoso. Um vírus pode estar presente, sem qualquer consequência; pode causar desconforto, pode causar doenças, pode enfraquecer o organismo. E pode matar.

O ataque de hackers aos computadores de instituições oficiais brasileiras pode ser uma brincadeira, pode ser um desconforto, pode ser o prelúdio de uma série de crimes (o vazamento de senhas, por exemplo, abre infinitas possibilidades de roubos e fraudes). E, numa situação extrema, pode colocar sob o controle de pessoas não credenciadas nem habilitadas uma série imensa de serviços públicos.

Ao que se saiba, há três grupos de hackers no ataque. O site do IBGE foi invadido e saiu do ar; o da Petrobras saiu do ar por 20 minutos (mas informações internas da empresa foram divulgadas). Houve exposição de dados pessoais da presidente Dilma Rousseff e do prefeito paulistano Gilberto Kassab. Os ataques foram feitos à Presidência da República, ao Senado, ao Ministério dos Esportes, a diversos outros órgãos de administração federal.

Para quê? Aparentemente, para nada - ou, como pichadores de rua, apenas para mostrar a competência de cada grupo. Houve manifestos sobre a necessidade de transparência, as virtudes da democracia, os altos preços dos combustíveis, mas nada muito consistente. E os três grupos estão brigando entre si: os dois com base internacional (Anonymous e Lulz) já são adversários antigos. O brasileiro FIREH4CK3R os acusa de falta de ideologia, e defende um país de todos.

A ameaça real
O manifesto do grupo brasileiro diz que em junho o número de ataques a sistemas de computadores do país baterá recordes. Os hackers, provando que estiveram lá, divulgaram dados pessoais de funcionários da Petrobras. E se divulgarem os segredos comerciais da empresa? O problema é nosso: imagine que, na diversão, alguém desarranje os dados do abastecimento de água. Ou de luz.

Programa de Índio
O candidato a vice de José Serra, Índio da Costa, foi abordado numa operação policial e se recusou ao teste do bafômetro. Segundo explicou, tinha tomado uma taça de vinho no almoço e, como não sabia a duração dos efeitos do vinho no organismo humano, preferiu não se arriscar. A história de Índio chama a atenção:

1 - Se não sabia quanto tempo dura o efeito do vinho, não deveria guiar.
2 - O vinho foi no almoço. E recusou o teste na madrugada do dia seguinte.

Chapa completa
Índio foi vice da chapa tucana na última eleição presidencial. Aécio, que deve ser o candidato tucano na próxima, também não quis soprar o bafômetro. Foram, sem dúvida, feitos um para o outro. E podem até aproveitar (antes que adversários mais habituados o usem) até o slogan que lhes faltava: "Uma boa idéia".

Ônibus camburão
Há quem diga que não ocorrem novidades na política brasileira! Antônio Teixeira de Oliveira, o prefeito petista de Senador Pompeu, no Ceará, acusado de desvio de dinheiro público e fraude em licitações, juntou 36 companheiros - todos, inclusive ele, com prisão preventiva decretada - e fugiu num ônibus alugado. A coisa por lá é brava: o desembargador Darival Bezerra determinou o afastamento do prefeito, do vice-prefeito e do vice-presidente da Câmara.

Família, a base de tudo
O governador propôs, a Assembléia aprovou: duas novas secretarias estaduais foram criadas no Paraná, com muitas verbas (inclusive federais, do PAC, Bolsa Família e Brasil sem Miséria) e amplos poderes. Uma delas, Infraestrutura e Logística, tem como titular José Richa Filho, irmão do governador tucano Beto Richa; outra, Família e Desenvolvimento Social, é comandada por Fernanda Richa, esposa do governador.

Agora já se sabe por que Beto Richa fazia oposição tão ferrenha ao ex-governador peemedebista Roberto Requião: é que, nos bons cargos públicos, Requião punha a família dele (seis parentes!) e não a de Richa.

Faça o que eu mando 2
Comentando a nota da última coluna a respeito dos prazos impostos pela Agência Nacional de Saúde Suplementar aos convênios e seguros médicos para que atendam seus clientes, um médico de primeira linha informa os prazos reais que hospitais do SUS impõem para seus serviços. O médico é generoso: usa os prazos do Hospital das Clínicas de São Paulo, de grande tradição e reputação.

1 - Colonoscopia, pedida por médico do próprio hospital em setembro de 2009. O exame foi realizado em agosto de 2010.
2- Exame preliminar na Pneumologia, pedido em setembro de 2009, foi feito em maio de 2010.

Se o cliente não puder esperar, paciência: vai piorando e morre. Afinal de contas, não é este o destino de todos nós?

Entendendo a economia
Do economista Alexandre Schwartsman, sobre a provável manutenção da meta de inflação em 4,5% para 2013:

- "Já entendi o sentido de ‘não negociaremos com a inflação’. Quer dizer que cederemos à inflação tudo que ela exigir".

carlos@brickmann.com.br
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Dez notícias que poderão ser dadas no correr do dia – ou não

Bolívar Lamounier, Exame.com

1. Em mensagem à FIFA, Dilma Rousseff oficializa desistência brasileira de sediar a Copa de 2014; “decisão é irrevogável”.

2. Direção nacional do PMDB convoca reunião dedicada exclusivamente ao debate de questões ideológicas e programáticas.

3. Sorridente, Serra caminha pelo bairro e cumprimenta moradores; Aécio faz voto de castidade.

4. Palocci manda email à imprensa informando quem foram os clientes de sua consultoria desde 2006.

5. Descansando no Maranhão, Sarney anuncia intenção de parar; deve disputar só mais dois mandatos.

6. Ministro dos Esportes faz referências gentis ao governo e ao prefeito de São Paulo.

7. Direitos humanos em Cuba: Frei Betto diz que a situação é boa, mas “há espaço para melhorar”.

8. Lula fica calado; assessores informam que ele vai passar o dia todo numa biblioteca.

9. Saindo de reunião com Gleisi e Ideli, dirigentes do PT declaram que o partido não vai pleitear mais cargos; querem deixar “bastante claro” que a sigla não é fisiológica.

10. 4 x 1: em seu primeiro compromisso na Europa, o Dorense de Dores do Indaiá goleia a Inter de Milão.