Adelson Elias Vasconcellos
Ao ler o título de um artigo do Gilberto Diemenstein para a Folha de São Paulo, confesso que não tive vontade alguma em ler . O tal “São Paulo é mais gay ou evangélica?”, coloca uma questão absolutamente imbecil para um tema que, sinceramente, não tem a menor graça discuti-lo ou fazer o carnaval que se tenta fazer.
Acho pura perda de tempo e de falta de informação este movimento todo em torno dos tais “homoafetivos”. Homossexualismo, apesar do recente modismo, é um comportamento existente desde os primórdios da civilização. Portanto, não se trata de algo novo. E a literatura médica aponta que, pelo menos 10% da população mundial, é ou tem propensão a ser homossexual, independente de ser biologicamente homem ou mulher.
Tenta se criar com o “modismo” ou com a “causa” um clima de puro terror sobre a sociedade dita normal, ou heterossexual. E o incrível é que um comportamento que contraria de forma absoluta o rito natural normal quer se impor como se sua tendência fosse a majoritária sobre a sociedade. E não só isso: se quer demonstrar que, um acidente em minúscula escala da natureza, é mais prazeroso, mais vantajoso e mais correto. Se a gente for observar as tais passeatas em que, homossexuais e maconheiros se unem em torno de suas causas, para esta turma todo aquele que não convergir para sua profissão de fé é preconceituoso, homofóbico.
Assim, o tema proposto já no título de Diementein é uma boçalidade. São Paulo, como resto o Brasil todo, é muito mais cristã – e incluam-se aí as diferentes correntes católicas e evangélicas – e heterossexuais do que gays ou evangélicas. O restante do artigo é, para se dizer o mínimo, preconceituoso contra um lado, e extremamente dócil e parcial em relação a outro.
Afirma Diemenstein: “...Os gays usam a alegria para falar e se manifestar. A parada evangélica tem um ranço um tanto raivoso, já que, em meio à sua pregação, faz ataques a diversos segmentos da sociedade. Nesse ano, um do seus focos foi o STF”.
Olha, não sei em que parada o jornalista desfilou, mas fica claro que sobre a evangélica ele emite uma opinião sem nenhuma base. Primeiro, que para ser alegre não se precisa ser gay. Segundo, a evangélica em faixas, cartazes, manifestações, cânticos louvou o amor a Deus e a Jesus. E havia muita alegria em sua marcha que, aliás, se realiza no mundo todo, e reúne bem mais gente do que os gays.
Quanto aos ataques a “vários segmentos da sociedade” na verdade eles criticaram, no que estão exercendo um direito, a decisão do STF quanto à união estável entre homossexuais. Eles, por uma questão de dogma religioso, e eu, porque também critiquei a decisão, por questões legais, já que os ministros decidiram rasgar a constituição. Se o senhor Diemenstein não professa nenhuma religião, não tem o direito de desqualificar aqueles que a têm e a seguem.
A exemplo deste jornalista, muitas são as pessoas que, em nome da causa gay praticam uma distorção estúpida numa tentativa de encobrir suas “simpatias”. Uma coisa é luta contra o preconceito e o direito de serem aceitos como são. Ponto.
Outra, bem diferente, é tentarem impor seu comportamento de grupo minoritário à grande maioria da população. Já disse e demonstrei que, em nome de se acabar com um preconceito está se criando outro e em sentido inverso. Confunde-se, por total ignorância e absoluta má fé, liberdade e licenciosidade. Dentre a s mulheres, e desde que o mundo é mundo, sempre houve uma parcela de prostitutas. Por conta disto, todas deverão se tornar prostitutas para provarem que não são preconceituosas? Sempre houve, ainda, uma parcela da humanidade, de pessoas criminosas. Por conta disso todos deverão se tornar criminosos para provarem que tem preconceito? Da mesma forma, gays e lésbicas. Não são e nunca serão a maioria. Se seu comportamento tem componentes genéticos, nasceram sendo o que são, por outro lado, não podem pretender a genética da maior parte da população. Num sentido restrito do termo, o homossexualismo não deixa de ser uma aberração ou um acidente da natureza já que, biologicamente, o normal é homem e mulher serem heterossexuais. Fazer esta leitura, aceitando cada grupo tais como são, não demonstra ranço algum. Ranço e preconceito é misturar com total desprezo bandidos políticos à uma grande parte da população, cujo único defeito, vejam só, é serem evangélicos. Se há entre eles políticos, e políticos são safados, a lógica do jornalista é de uma estupidez sem conta. Existem políticos gays também, ou não, senhor Diemenstein? Aliás, existem muitos, e a maioria é enrustida. Tem vergonha de se assumirem, de serem o que são. E muitos são safados também, também praticam corrupção e desviam dinheiro público. Por conta destes, os demais homossexuais devem ser taxados de safados? Ora, ora...
Se o jornalista nutre suas simpatias por um grupo e não por outro, deveria ter mais honestidade no julgamento do grupo que despreza. Sim, porque para ser evangélico é preciso adotar e seguir alguns comportamentos de correção que talvez o jornalista não esteja disposto a tanto sacrifício... Existem bons religiosos, sim. Como existem bons políticos, também. Como haverão muitos bons homossexuais, muitos bons jornalistas. Mas o fato de abraçar esta ou aquela tendência – falo de opção sexual – ou de seguir esta ou aquela profissão não confere a ninguém auras de santidades.
Existem bons e maus em todas as profissões e em todos os gêneros de pessoas. E no texto do senhor Diemenstein é clara a sua manifestação preconceituosa contra os evangélicos, apenas por serem evangélicos. E isto fica na sua última frase: “Civilidade é a diversidade. São Paulo, portanto, é mais gay do que evangélica.”
Ou seja, para o jornalista, civilidade é ser gay. Nada mais falacioso. Civilidade, senhor Diemenstein, é ser correto, é ser decente, é ser honesto, é respeitar os nossos semelhantes não invadindo seu espaço ou desqualificando suas crenças, é aceitar que cada seja aquilo que é, bom ou mau. Isto é civilidade. Além disso, se a gente for confrontar o texto de Diemenstein com o tal projeto que pretende criminalizar a homofobia, fica claro que é o movimento gay quem pretende usurpar o direito dos evangélicos de se manifestarem e, caso o façam, querem puni-los com cadeia.
Já disse aqui que preconceito não se acaba por decreto. O que a lei pode é delimitar o espaço entre a livre manifestação de opinião e a discriminação. Aceitar os gays é uma coisa, mas querer que sejam amados, idolatrados, venerados por decreto?
Mas há um crasso erro de avaliação no artigo , e isto é indesculpável para um jornalista de mente assim tão aberta como Diemenstein se julga, que é achar que a marcha dos evangélicos é um produto paulista. Deveria ter o cuidado de acompanhar o noticiário para perceber que muitas foram as caravanas vindas de outros estados brasileiros que se juntaram naquela festa. Assim se vê, São Paulo continua sendo o mais diversificado polo étnico do país, em que majoritariamente se vê religiosos de várias crenças e heterossexuais em grande maioria.
Há ainda, além da confusão toda que o jornalista tendenciosamente manipula, outra desinformação grotesca que é a estatística dos crimes contra homossexuais. Neste sentido, o texto mais abaixo do jornalista Ruy Fabiano é primoroso. Ele desfaz completamente a distorção e aponta que se alguma fobia no país em termos de crimes, ela tem natureza muito mais hetero do que homofóbica.
São Paulo, portanto, é a cara do Brasil: profundamente religiosa, onde mais de 90% são cristãos, e maciçamente heterossexual.
E, dada a sua civilidade, a cidade ainda consegue dar emprego para jornalistas com visão estreita, desinformados e tendenciosos, além daqueles que prefere às plumas e paetês, por menos minorias que eles representem...
Um último registro: em país bananeiro, a lei é assaltada até pelo Poder Judiciário. Já em países sérios, onde os poderes são exercidos de forma harmoniosa e plena, e cada um respeita seus limites, a coisa é diferente. Apesar do grande apelo dos homossexuais americanos pela legalização do casamento entre gays, em Nova York, por exemplo, isto só foi possível mediante projeto apresentado,votado e aprovado pelo Senado do Estado. Aqui, a corte constitucional representada pelo STF resolveu atropelar a constituição e mudá-la à revelia, exercendo um poder que a lei não lhe faculta.