segunda-feira, janeiro 03, 2022

O Brasil nos 200 anos da independência

 Editorial

Gazeta do Povo

  Foto: Marcos Correa/Presidência da República

Hasteamento da Bandeira Nacional no Palácio do Alvorada.|

Em editorial publicado na Gazeta do Povo em de março de 2014, ano em que Dilma Rousseff foi reeleita à Presidência da República, falou-se das condições estruturais que o Brasil poderia ter ao chegar a 2022, quando se comemorará o aniversário de 200 anos desde a independência em relação ao império português, proclamada em 7 de setembro de 1822. Os economistas Fabio Giambiagi e Claudio Porto haviam lançado um livro organizado por eles, com vários colaboradores, rico em dados e análises, sob o título 2022 – Propostas para um Brasil melhor no ano do Bicentenário. O propósito do livro era identificar o que o país teria feito com dois séculos desde sua independência, sobretudo em termos de bem-estar social médio alcançado pela população em geral.

Pelos dados mostrados no livro, tendo por base o banco de dados do IBGE formado no censo de 2010, a mudança mais profunda em andamento era a rápida transformação da pirâmide demográfica brasileira, com destaque para a previsão de que a população de crianças na faixa dos 5 aos 14 anos deveria diminuir em 6,5 milhões, saindo de 34,1 milhões em 2010 para 27,6 milhões em 2022, enquanto a população de 60 anos ou mais deveria aumentar em 11,4 milhões de pessoas, saindo de 19,3 milhões para 30,7 milhões no mesmo período. Esse aspecto demográfico por si só imporia alterações significativas na estrutura econômica e social do país; logo, era necessário saber como os governantes e a sociedade iriam lidar com a situação, pois daquele ano de 2014 até o bicentenário da independência seriam percorridos somente oito anos mais.

A maior dificuldade das nações é conseguir sucesso na construção das instituições e das condições requeridas para o crescimento econômico capaz de colocar-lhes no clube dos países desenvolvidos, sem pobreza extrema e sem miséria

Entre as deficiências preocupantes estava o tamanho da pobreza, que afligia 20% da população – em torno de 38 milhões de pessoas em 2010 –, e o número dos extremamente pobres (classificados como miseráveis), que eram 7% da população, ou seja, em torno de 13,3 milhões. Embora o IBGE tenha postergado o censo de 2020 em razão da pandemia, os dados da pobreza e da miséria estão atualizados conforme o cadastro social revisado pelo governo em função do pagamento do auxílio emergencial para amenizar os efeitos das medidas de isolamento social e paralisação de atividades econômicas. Atualmente, o total de pobres está na casa de 54 milhões, sendo 14 milhões de miseráveis, lembrando que a população total em 2010 era de 196 milhões e terminará 2021 com 214 milhões – portanto, 18 milhões de habitantes mais.

Naquele ano de 2014, Dilma apresentou um plano de governo que estabelecia entre os objetivos sociais mais importantes dois resultados: zerar a população na faixa dos extremamente pobres (a ferramenta seria o aumento simultâneo do emprego e da renda) e reduzir de 20% para 5% da população total aqueles classificados como pobres. Como objetivos, o conteúdo do plano era merecedor de apoio e aplausos, pois esses dois flagelos sociais devem estar acima de governos e de partidos políticos, e os governantes seguintes deveriam neles persistir como prioridade social, cujo instrumento mais eficiente é o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB). Naquele editorial, foi destacado que a questão principal era descobrir quais são os principais obstáculos na busca do crescimento econômico e do desenvolvimento social.

Cabe reconhecer que a maior dificuldade das nações é conseguir sucesso na construção das instituições e das condições requeridas para o crescimento econômico capaz de colocar-lhes no clube dos países desenvolvidos, sem pobreza extrema e sem miséria. Este jornal já destacava que, entre os principais entraves para o crescimento, a infraestrutura física e a educação eram altamente relevantes e deveriam merecer pesados investimentos, até em face da precariedade de ambas. No caso da infraestrutura, há três gargalos que freiam o progresso: o pequeno tamanho da infraestrutura diante da necessidade do país; a idade média do capital físico, bastante envelhecido; e o defasado grau de conhecimento tecnológico incorporado ao sistema produtivo.

Quanto ao problema educacional, o Brasil não tem conseguido elevar o nível da educação básica, a qualificação profissional média dos trabalhadores continua insatisfatória, o desemprego continua elevado e atrapalhando o progresso referente ao nível educacional e à própria melhoria da qualificação. Ou seja, o país não tem conseguido superar sua incapacidade quanto ao conjunto da educação, tanto no nível básico quanto na profissionalização, ainda que melhorias importantes tenham sido feitas pontualmente em determinados segmentos. E boa parte dos analistas concorda que o problema não é que o país gasta pouco em educação, mas que gasta muito mal e com baixa eficiência. Os gastos com educação e qualificação precisam, sim, ser elevados; porém, a má qualidade do gasto precisa ser enfrentada e revertida, sem o que mais gastos podem significar apenas mais consumo de recursos sem que os resultados sejam melhores.

Seguramente, o Brasil de 2022 comemorará os 200 anos da independência bem aquém dos objetivos e metas imaginados no início dos anos 2010

Pois o Brasil chega a 2022 e o panorama real da sociedade está longe daquelas metas anunciadas pelo governo, como demonstra o tamanho da população em situação de pobreza, bem como o número de extremamente pobres. Reconheça-se que uma tragédia se abateu sobre o Brasil e sobre o mundo todo: a pandemia do coronavírus, algo que em 2014 ninguém poderia sequer imaginar, muito menos na magnitude com que a Covid-19 atacou em 2020 e 2021. Somente agora a humanidade enxerga um alívio, retomando paulatinamente as atividades.

Seguramente, o Brasil de 2022 comemorará os 200 anos da independência bem aquém dos objetivos e metas imaginados no início dos anos 2010. O desafio agora é conseguir trilhar aquele caminho pensado para o aniversário da independência e, quem sabe, atingir aquelas metas até 2030. Porém, além da deficiência na educação e na infraestrutura, a nação ainda sofre com as deficiências ligadas ao ambiente institucional pouco favorável aos investimentos, com a má qualidade das leis, com instabilidade política, com necessidade de melhoria da gestão pública e com a ausência de reformas, principalmente a tributária e a administrativa.


200 anos de Brasil: nada a celebrar, tudo a questionar

 José Murilo de Carvalho

O Estado de São Paulo

Olhando para a frente, podemos nos perguntar se ainda somos um país viável no sentido de sermos capazes de formarmos uma sociedade includente, sem a enorme marginalização que hoje a caracteriza 

O Brasil não tem sorte com seus centenários. O primeiro, em 1922, teve de conviver com os restos da devastação causada pela gripe espanhola, chegada ao País em 1918. Calculam-se em cerca de 35 mil as mortes causadas no País, concentradas no Rio de Janeiro e São Paulo. Entre elas não estava, como se costuma afirmar, o presidente eleito, Rodrigues Alves, embora tenha morrido antes de assumir. O ano de 1922 foi ainda marcado pela primeira revolta tenentista e pela decretação do estado de sítio pelo presidente Epitácio Pessoa, destinada a garantir a posse do presidente eleito, Artur Bernardes. Nas celebrações, destacou-se a Exposição Internacional de que participaram 14 países. O segundo centenário, a ocorrer ano que vem, virá na cauda de outra pandemia, a da covid-19, chegada ao País em 2020 e que já matou cerca de 620 mil brasileiros, embora também sem matar presidente. Junto com a pandemia, temos hoje um país às voltas com um tumultuado mandato presidencial que gerou dúvidas sobre a solidez de nossa jovem democracia e, mais ainda, com o imenso drama social do desemprego, da desigualdade, da exclusão, da fome. Até agora, não há indicação de que haverá alguma importante celebração oficial, ficando os registros da efeméride a cargo da mídia, das instituições e do meio acadêmico.

Nesses registros, naturalmente, haverá retomadas de temas estritamente históricos, mas é importante que sejam também usados como oportunidade para uma avaliação dos 200 anos de nossa vida independente. Quero dizer com isto examinar a natureza do percurso feito, verificar onde acertamos, onde erramos e como chegamos à situação atual. Baseados neste exame podemos também perguntar sobre o que nos pode esperar no futuro próximo. Mao Tsé-tung dizia ser ainda cedo para avaliar adequadamente o impacto da Revolução Francesa. Para nós, no entanto, que sofremos de Alzheimer coletivo, dois séculos já são tempo suficiente para fazermos um balanço do que fizemos e perscrutarmos nosso futuro próximo.

As mudanças nesses 200 anos foram enormes. Passamos de um país de cerca de 5 milhões de habitantes, dos quais um milhão de escravos e 800 mil indígenas, para outro de 214 milhões; de um país com cerca de 10% de população urbana em 1822 para outro de 85% hoje; de um país de economia totalmente agrícola em 1822 para outro com larga participação industrial hoje; de uma população formada exclusivamente por indígenas, africanos e lusos para outra muito mais diversificada pela entrada de italianos, espanhóis, alemães, sírios, libaneses, japoneses; de uma população concentrada na região costeira para outra que cobre todo o território nacional. No entanto, todos os analistas que se encarregaram do tema de nossa trajetória, como Sérgio Buarque de Holanda, Oliveira Viana, Nestor Duarte, Raimundo Faoro, Gilberto Freyre, Roberto DaMatta, entre outros, reconhecem que há mais continuidades do que rupturas. Somos um país sem revoluções. O que chamamos de revolução, como a de 1930, não passou de ajustes entre grupos dirigentes. O povo só entrou no sistema político a partir da segunda metade do século 20, tendo sido logo contido por uma ditadura.

Quando falo do drama social que desautoriza celebrações me refiro, naturalmente, ao problema da  desigualdade, que é de todos conhecido, mas sobre o qual, a meu ver, mais se fala do que se faz. Lembro alguns dados de amplo conhecimento. Segundo dados do IBGE, o auxílio emergencial criado para atender os mais necessitados, adicionado aos recursos do agora extinto Bolsa Família, abrangeu cerca de cem milhões de pessoas, quase a metade da população. Somos o oitavo país mais desigual do mundo e ocupamos a 84.ª posição no Índice de Desenvolvimento Humano. Em 2010, o 1% mais rico da população detinha 44% da riqueza nacional. Ao mesmo tempo, há três décadas, estamos crescendo a taxas medíocres incapazes de gerar os empregos necessários e viabilizar políticas sociais mais substanciais. No entanto, apesar de termos uma das mais altas franquias eleitorais do mundo ocidental (16 anos), temos sido incapazes de aprovar no Congresso medidas redistributivas de renda, como o aumento do imposto sobre heranças, a taxação de dividendos, a alteração nas faixas do Imposto de Renda. Distribuímos, mas não redistribuímos.

Nossa faixa mais alta de Imposto de Renda é de 27,5%. Nos Estados Unidos, ela é de 37%, no Chile, é de 40%, em Portugal, de 48%, no Japão, de 56%. Estamos acumulando uma enorme massa de desempregados, subempregados e não empregáveis sem perspectiva realista de solucionar o problema. Olhando agora para a frente, mesmo que em prazos mais curtos do que os dos chineses, digamos uns 30 anos, podemos nos perguntar se ainda somos um país viável no sentido de sermos capazes de formarmos uma sociedade includente, sem a enorme marginalização que hoje a caracteriza.

A hipótese pode soar apocalíptica, mas talvez estejamos a brincar, ou a brigar, na praia, alheios ao tsunami que se delineia no horizonte.

JOSÉ MURILO DE CARVALHO, formado na UFMG, Mestre E PH.D em Ciência Política E Pós-Doutor em História pela Universidade De Stanford


Não faça do seu dia primeiro um fardo que não precisa carregar

 Revista ISTOÉ 

 © Pixabay Pixabay


Não prometa o regime que nunca vem, a tolerância com quem não merece, o apoio a quem já te cansou e a tal mudança de hábitos assustadora.

Não prometa parar de fumar, de beber, de dormir de madrugada, de assistir à TV até o sol raiar, de dormir até tarde e começar a caminhar às seis da manhã.

Não prometa trabalhar mais, trabalhar menos, visitar seus pais, não comer chocolate – ou só nos fins de semana – e separar a gordura da picanha.

Não prometa não brigar com a esposa, com o marido, com o namorado ou a namorada, com os filhos ou os pais, com o ‘vizinho mala’ do andar de cima.

Não prometa ganhar mais dinheiro, trocar de carro, fazer aquela viagem adiada, poupar, ao invés de gastar tudo o que tem, nem de nunca mais parcelar a fatura do cartão.

Não prometa ir ao médico, começar a meditar, estudar outra língua, fazer pós-graduação, mudar de emprego, nunca mais votar errado ou não beber até vomitar.

Não prometa ser quem você não é, fazer o que não gosta ou, o que é sempre muito pior!, não fazer o que gosta. Sim. Faça o que gosta, sempre que puder.

Promessas não são profecias. Promessas não têm poder. Promessas não são autorrealizáveis. Promessas apenas aprisionam e cobram o preço quando falham.

Seja quem você é, com seus acertos e erros, suas qualidades e seus defeitos, suas manias, seus bons e maus hábitos, seus vícios e… apenas tente ser melhor!

A felicidade começa com a liberdade. Liberdade de escolhas, inclusive. Aceite as suas (escolhas) e viva um ano novo mais leve, mais possível, mais feliz.

Daí, sobrando tempo, sem culpa, apenas por vontade própria, aí sim!!, faça tudo aquilo que sempre prometeu, mas que não cumpriu nem realizou. Afinal, nunca é tarde pra tentar.

Feliz 2022.


A responsabilidade do País

 Editorial 

O Estado de São Paulo

Ano Novo é tempo de esperança: de olhar para a frente com otimismo, aprendendo com os erros do passado e renovando os melhores sonhos para o futuro. Essa dinâmica pode ser aplicada não apenas na vida pessoal e familiar, mas também nos rumos do País. E aqui o prognóstico brota imediatamente: 2022 será um ano de grandes desafios, seja pela gravidade da crise social e econômica – há muitos brasileiros passando fome –, seja pelas decisões que a população terá de tomar nas eleições do segundo semestre.

Neste ano, muita coisa está em jogo. Não é tanto saber se o próximo governo será de esquerda ou de direita ou se qual parcela da população ficará contente com o resultado eleitoral. O tema é muito mais grave. O País será capaz de enfrentar responsavelmente os seus problemas, tanto os de curto prazo, como os de médio e longo prazos? A sociedade brasileira será capaz de dar em 2022 os passos necessários para enfrentar, de forma prioritária e responsável, a fome, a miséria, a falta de oportunidades educativas e profissionais para tantos jovens, o desemprego que assola tantas famílias?

Os últimos dois anos foram especialmente difíceis. A pandemia de covid-19 tirou muitas vidas, impôs enormes restrições econômicas e agravou questões sociais antigas, em especial reforçou desigualdades e multiplicou vulnerabilidades. Junto a isso, e de forma ainda mais desanimadora – pois a atuação federal podia ter sido muito diferente –, o presidente Jair Bolsonaro esbanjou irresponsabilidade, negacionismo e absoluta incapacidade de governar.

Para piorar, o Legislativo foi muitas vezes conivente com o desequilíbrio do Executivo federal, além de se aproveitar da falta de rumo do governo para fazer prevalecer interesses e modos pouco republicanos. O orçamento secreto, em meio a uma pandemia – quando a ação estatal deveria ser ainda mais transparente e mais informada por critérios técnicos –, é sintoma paradigmático de um cenário que guarda poucas razões para o otimismo. 

Além disso, não se deve esquecer que esse Executivo e esse Legislativo – que trouxeram tanta desesperança nos últimos tempos – foram eleitos precisamente no pleito de 2018, marcado pelo desejo de mudança e renovação por parte do eleitor. Ou seja, o cenário é, sem nenhum exagero, profundamente desafiador. Abundam os motivos para a frustração com a política, as condições sociais e econômicas são especialmente adversas e, diante de tudo isso, o eleitor será instado a escolher os rumos do País.

Nessa situação, talvez o principal perigo seja repetir os erros do passado, insistindo em opções populistas que, em vez de oferecerem novas propostas e caminhos, reafirmam justamente as escolhas que gestaram a atual crise. O bolsonarismo não foi solução para o lulopetismo. Basta ver que Jair Bolsonaro tentou, tal como fez o PT, “ocupar” com seus seguidores a máquina pública, sua rigorosa inaptidão para melhorar a eficiência estatal e seu interesse exclusivo, desde que chegou ao Palácio do Planalto, pela questão eleitoral. Da mesma forma, o lulopetismo não é solução para o bolsonarismo.

Lula e Bolsonaro têm muitas diferenças, mas possuem uma radical semelhança: os dois são parte do problema, tendo contribuído, cada um a seu modo, para a atual crise social, econômica, política, cívica e moral. Um dos aspectos mais perversos da similaridade entre Lula e Bolsonaro é o modo como tratam as classes mais pobres. Uma vez que medem tudo pelo interesse eleitoral, a vulnerabilidade social, em vez de ser enfrentada responsavelmente, é usada como oportunidade eleitoreira. Para os populistas, a autonomia do cidadão é obstáculo para a instauração do seu projeto de poder. 

Em 2022, o País tem o desafio de enfrentar responsavelmente o drama social e econômico que recai sobre boa parte da população. Em vez de cabresto político, a pobreza deve ser o grande estímulo para políticas públicas responsáveis. É hora de cuidar generosamente dos mais vulneráveis, é hora de construir soluções efetivas e sustentáveis. Basta de retrocesso.


A vida só muda quando você muda

 Revista SELEÇÕES 

André Messias - Revista Seleções

 © Vasyl Dolmatov/iStock 

A vida só muda quando você muda

Fim de ano é sempre a mesma história: pessoas dizendo que no ano seguinte farão isso e aquilo. Vão treinar, entrar na academia, serão mais ativas etc. Os dias, semanas e meses passam e a pessoa continua no mesmo lugar: inativa e acumulando riscos à saúde. Como normalmente as pessoas ficam mais reflexivas nesta época do ano, a coluna de hoje tem como propósito proporcionar uma reflexão: estou fazendo o suficiente pela minha saúde?

É importante recordar que a saúde de toda e qualquer pessoa é multifatorial e construída ao longo da vida e depende de muitas variáveis, como a prática de exercícios físicos, alimentação, sono, hidratação, comportamento social, âmbito emocional, vida social e outras. Cabe a todos nós refletir sobre onde podemos melhorar.

Os benefícios de se manter ativo

A atividade física promove a saúde, combate a depressão e muitas outras doenças e nos faz sentir vivos. Sempre me pergunto como uma pessoa consegue viver sem essa prática. São tantos os benefícios dela, que quem não pratica não sabe o que deixa de ganhar. É como diz uma famosa frase de corrida: “aumente os dias de sua vida e a vida de seus dias”.

Há muitas opções de atividades físicas: corrida, caminhada, natação, bicicleta, dança, musculação, skate, hidroginástica, dentre outras. Aproveite que um novo ano irá começar — e um ano de copa do mundo é sempre um ano especial — e veja as possibilidades.

Organize o tempo, reveja a agenda, pense nas prioridades e analise as possibilidades para que a atividade física esteja presente em sua vida. Ela alivia dores, acaba com a preguiça, melhora o sono, promove o bem-estar e te faz sentir mais vivo.

Atividade física é sinônimo de vida

Viver é o verbo mais importante que existe. A atividade física é um sinônimo de vida: movimentamos o corpo e trabalhamos tudo: coração, cérebro, músculos, ossos, braços, pernas, pés e mais.

Conheço muitas pessoas que viviam reclamando da vida, das dores e dos outros. Era necessário manter distância desse tipo de pessoa ou plantar a semente da atividade física. Felizmente a semente germinou e elas passaram a ser ativas e tiveram suas vidas transformadas.

Um ano novo terá início. Que as pessoas possam colocar em prática o que falam e prometem. Quando mudamos e procuramos ser melhor, as coisas de fato melhoram. Seja ativo e positivo. E que todos nós tenhamos um 2022 inesquecível.


As mídias sociais e o futuro da democracia

 Editorial

O Estado de São Paulo

Boa parte das angústias das pessoas que se preocupam com o futuro da democracia advém do impacto dos espaços digitais sobre o tecido social e a capacidade de deliberação dos cidadãos. A invasão do Capitólio nos Estados Unidos tornou-se um ícone dos efeitos deletérios da desinformação e dos discursos tóxicos, intensificando a apreensão sobre o papel das redes sociais.

Neste contexto, o Pew Research Center inquiriu mais de 800 inovadores, executivos, gestores e pesquisadores do campo da tecnologia a propósito do futuro dos espaços digitais e seu papel na democracia. A grande maioria (70%) acredita que a revolução digital tem em igual medida aspectos positivos e negativos; 18% veem uma predominância dos negativos; e 10% dos positivos. Perguntados se, num arco de 15 anos, os espaços digitais serão ou não utilizados de maneira que servirão significativamente ao bem comum, 61% afirmaram que sim e 39%, que não.

Os pessimistas apontam que as fragilidades e perversidades humanas tendem a se amplificar com as novas tecnologias. Humanos são autocentrados e têm a visão curta; logo, são fáceis de manipular. Muitos temem que as instituições humanas não sejam capazes de acompanhar o ritmo e a complexidade das comunicações digitais. Alguns preveem mesmo uma espiral distópica com os avanços na Inteligência Artificial, hipervigilância, a “dataficação” de cada aspecto da vida ou engenharias comportamentais abastecidas pelo autoritarismo e magnificadas pela desinformação.

É um dado que, para maximizar os lucros, os atuais algoritmos das mídias sociais são programados para acelerar o engajamento dos usuários. O problema é que, mais ou menos deliberadamente, eles acabam favorecendo meios de engajamento eficazes, mas socialmente destrutivos, como o extremismo, o ódio e a mentira.

Diante disso, os otimistas ancoram suas melhores esperanças no redesenho dos algoritmos a fim de qualificar a interação dos indivíduos e robustecer o debate democrático. Há um anseio difuso por uma regulação que promova o discurso cívico e reprima a desinformação. Mas ele se depara com a questão crucial: quem seria responsável pelos critérios e sua execução: os governos? As próprias mídias? Os usuários?

Para muitos, o Estado, por meio de uma combinação de regulação e pressões brandas, teria o papel de induzir as empresas de tecnologia a adotar comportamentos mais éticos. Alguns apontam que, como em todos os avanços anteriores na comunicação humana, após um primeiro momento disruptivo, o letramento digital e a familiaridade com os aspectos mais tenebrosos da tecnologia trarão naturalmente melhoras.

Entre as propostas que têm sido aventadas para redesenhar o ambiente digital estão a introdução de mais competição no ecossistema de informações por meio de softwares que permitam às pessoas escolher algoritmos que priorizem conteúdos conforme seus padrões editoriais; sistemas eletivos online que favoreçam consensos ao invés da polarização entre grupos partidários; uma Declaração dos Direitos da Internet que permita uma soberania individual, garantindo o anonimato a cada pessoa, mas erradicando robôs; ou sistemas de comunicação construtivos que reduzam a voltagem do ódio e concilie divisões.

É possível apontar fragilidades e riscos em cada uma dessas estratégias. Possivelmente, o melhor caminho será uma combinação de todas – de maneira que as virtudes de umas compensem os vícios de outras –, orientada pelo princípio da subsidiariedade, ou seja, a primazia da regulação sobre o conteúdo caberia ao usuário e, subsidiariamente, às outras autoridades, das menos às mais centralizadas: as próprias mídias, os governos nacionais e, por fim, uma governança global.

O que parece incontroverso é que, tal como o espaço público físico, o virtual precisa de alguma regulação. É a única alternativa à anarquia. E se essa regulação não for implementada pela coletividade conforme os princípios e métodos democráticos, a história sugere que inevitavelmente o será conforme as ambições autocráticas ou plutocráticas de uns poucos. 

O populismo econômico e as eleições

 Editorial

Gazeta do Povo 

| Foto: EFE/Juan Ignacio Roncoroni

Supermercado em Buenos Aires: em cem anos, 

inflação média no país foi de 105% ao ano.

Em abril de 2019, a Gazeta do Povo publicou um editorial sobre os males do populismo econômico, cujo teor é atual e válido para esclarecer e contribuir com o discernimento da população diante de promessas demagógicas, que são a marca das campanhas eleitorais. Dada a fundamentação de como a demagogia funciona e o comprovado malefício do populismo político e administrativo – num efeito totalmente inverso ao que promete –, é útil que esse assunto seja trazido à discussão novamente, pois, como sempre acontece, as eleições federais e estaduais de outubro serão palco para a demagogia, populismo e promessas inviáveis.

Nos países pobres, onde as camadas pobres suplicam por melhorias e políticas sociais a seu favor, os candidatos tendem a usar o recurso das soluções simplistas e milagrosas embutidas em suas promessas populistas com a finalidade exclusiva de conquistar votos, mesmo quando eles próprios sabem que suas promessas não solucionam os problemas nem serão viáveis em sua administração, caso cheguem ao poder. Vale notar que, apesar de descumprirem com regularidade suas promessas, os demagogos vêm sendo reeleitos sistematicamente, razão por que o populismo não sai de moda nem os populistas são punidos por não cumprirem o que prometem.

O economista Nicolás Cachanosky, professor na Metropolitan State University, em Denver (EUA), escreveu um ensaio em 2016 sobre o que ele chamou de “as quatro etapas do populismo econômico”, e tratou do percurso que o populismo percorre desde a indignação com a pobreza até as más consequências das soluções adotadas. Essas soluções sempre vêm com a aparência de solidariedade aos pobres e de caráter humanitário, para depois se revelarem desastrosas até mesmo para os pobres. Tomando dados da realidade e estudos antes feitos por outros economistas, Cachanosky concluiu que os programas populistas em geral contêm forte intervenção do Estado na economia, incentivo desordenado ao consumo, descaso com os investimentos de longo prazo, excesso de gastos, imprudência fiscal, déficits públicos e endividamento governamental.

Apesar de descumprirem com regularidade suas promessas, os demagogos vêm sendo reeleitos sistematicamente, razão por que o populismo não sai de moda nem os populistas são punidos por não cumprirem o que prometem

As receitas populistas sempre trazem alguns elementos comuns, como a proposta de dar dinheiro, assistência social, mercadorias e outras ajudas aos pobres – tal ajuda não é errada em si mesma; programas de transferência de renda são defendidos e propostos por economistas liberais como Thomas Friedman; o problema está em defender o auxílio sob o argumento de que isso é mais importante que a preocupação com déficit das contas públicas. Cachanosky afirma que as experiências têm demonstrado que o populismo é insustentável no longo prazo e percorre quatro estágios desde sua implantação até chegar ao fracasso final, citando os exemplos de Argentina, Venezuela, Brasil e outros. A expressão “os quatro estágios universais inerentes ao populismo” já havia constado de um artigo intitulado Macroeconomic Populism, publicado no ano de 1990 por dois renomados economistas, Rudiger Dornbusch e Sebastián Edwards, no qual eles explicam o trajeto das políticas populistas até o resultado final, em geral oposto ao pretendido.

Entre outras características, o populismo tem como essência a promessa de soluções simples para problemas complexos e a tentativa de fazer o público acreditar que tais soluções somente não foram implantadas por incompetência ou insensibilidade dos adversários políticos e dos governos anteriores. Também faz parte do discurso populista afirmar que o governo pode tudo e a solução depende apenas de vontade política para aplicar os remédios que ele propõe. Candidatos populistas e demagogos, como não poderia ser diferente, se apresentam como os salvadores da pátria e os únicos capazes de resolver os problemas. Os quatro estágios do populismo são os que seguem.

No primeiro estágio, o populista destaca o que vai mal na economia e na vida dos eleitores; diz que, se eleito, criará programas assistencialistas e paternalistas que, em geral, atacam os sintomas dos males sociais em foco, porém sem eliminar as causas de tais males. O resultado é sempre uma sequência previsível: aumento dos gastos, inchaço da máquina estatal, medidas conducentes ao consumo insustentável, terminando por estourar as contas do governo e dificuldade de continuar a prática populista. Nos momentos iniciais das medidas populistas, pode parecer que a coisa vai funcionar, mas não dura muito até que a frustração chegue. Esse tipo de situação já ocorreu várias vezes nos países latino-americanos e, neste momento, está se repetindo em alguns deles.

Uma prática comum a todo governo demagogo e populista é o congelamento de preços dos produtos ofertados por empresas estatais, como é o caso da energia, combustíveis e transporte público. No Brasil, esse figurino já esteve presente em vários governos, a exemplo de José Sarney (1985-1990) e praticamente todos os governos que lhe seguiram, com algumas exceções curtas. O caso mais barulhento e desastroso em tempos recentes foi o congelamento de preços de energia e combustíveis pelo governo Dilma Rousseff, que teve entre seus efeitos a quase destruição da Petrobras e a fragilização de outras empresas estatais.

O segundo estágio ocorre uma vez passada a euforia inicial da primeira fase. O exemplo lapidar na história recente brasileira foi o Plano Cruzado, do governo Sarney, em 1986: as medidas radicais de congelamento de preços pareciam funcionar a princípio, mas em poucos meses terminaram em descalabro, com inflação, desorganização do sistema de preços, escassez de produtos, recessão, desemprego, explosão da dívida pública e desestímulo aos investimentos. Claro que o populista nunca assume seus erros e sempre procura bodes expiatórios nos empresários, especuladores, investidores financeiros, capitalistas e outros demônios inventados para não assumir a culpa de seus atos.

O estágio seguinte, o terceiro, é aquele em que a recessão, o desemprego, a inflação e as crises de abastecimento se apresentam de forma grave – aí está a Venezuela mostrando a inexorável sequência da demagogia e do populismo –, levando o mundo a desacreditar na capacidade do país em sair da crise. Na sequência, os investidores internacionais fogem, retiram seus capitais, os bancos estrangeiros negam novos financiamentos, o balanço com o resto do mundo entra em déficits, o preço do dólar explode e a fuga de capitais nacionais se torna corriqueira. Quando chega a esse ponto, o populista aplica doses maiores do veneno que criou a crise, aumenta impostos, empobrece o setor privado produtivo e a crise se torna estrutural. A Argentina, país que já foi desenvolvido e tinha tudo para ser uma das nações mais ricas do mundo, está aí como a prova dos estágios trágicos da demagogia e do populismo, apesar de a população continuar elegendo os populistas com singular rotina.

A dificuldade da população em rejeitar medidas populistas é que elas surgem embaladas em bonitas intenções, ainda que em seu conteúdo mais agravam o mal que pretendem combater

Por fim, no quarto e último estágio, em que o governo populista é tirado do poder (se for nação democrática), o novo governo tem de enfrentar as distorções e adotar medidas impopulares para tentar consertar a bagunça que, apesar de ter sido feita em nome da ajuda aos pobres, agora é o maior castigo justamente para os pobres. Na América Latina, é muito difícil o apoio a programas de ajuste capazes de colocar as nações no rumo do crescimento, pois os países pobres pedem urgência (com certa razão, dado o flagelo da pobreza) e não há paciência para esperar até que os planos produzam efeitos.

Nunca é demais recitar a principal regra da economia: um povo somente consome o que ele próprio produz; logo, os governos sucessores dos populistas não escapam de amargar impopularidade no período entre a recessão e a recuperação. No caso de recessões, há sempre um hiato entre as medidas para combatê-las e o início da retomada do crescimento econômico, período que é doloroso especialmente para os pobres e os desempregados. A dificuldade da população em rejeitar medidas populistas é que elas surgem embaladas em bonitas intenções, ainda que em seu conteúdo mais agravam o mal que pretendem combater. Entretanto, não se pode confundir medida populista com medidas sociais sérias e realistas, adequadas à realidade local, com potencial para resolver os dramas que os países pobres enfrentam. Uma das razões é que rigorosamente toda política econômica ou social mexe com interesses, e os grupos de interesses são mais organizados e com maior poder de desestabilização do governo do que a grande massa anônima de pobres. Aí está o desafio.


2022: o primeiro ano do resto de nossas vidas

 Vera Magalhães

O Globo 

O clima que cerca a chegada de 2022 é de ansiedade. Viradas de ano costumavam, antes da pandemia e de Bolsonaro, ser épocas cercadas de renovação de esperanças, um relaxamento de quem quer deixar tudo de ruim no ano que se encerra e começar o novo com tudo zerado.

Mas não é assim desta vez. 2021 foi, no Brasil e no mundo, a parte 2 de 2020, repetindo confinamento, mortes, incerteza quanto à recuperação da economia, agravamento das desigualdades e a confirmação de que vivemos uma emergência climática cada vez mais presente no dia a dia. De novo vimos ameaçados consensos civilizatórios, como direitos individuais e coletivos e a adesão às leis, à democracia e à razão.

E se 2022 vier para constituir uma trilogia macabra que conspurcará para sempre a terceira década do século 21? Há componentes que fogem ao nosso controle para definir se esse cenário distópico vai se concretizar, mas na última coluna do ano prefiro ficar no que está ao alcance de nós, brasileiros, para que vivamos o primeiro ano do resto de nossas, vidas, e não o terceiro do caos.

É preciso que exijamos dos governantes atitudes racionais, baseadas em dados e evidências, que contribuam para o bem da maior parcela da sociedade, e não de grupos de pressão ou de afinidade ideológica.

É necessário que a democracia seja um valor inegociável para qualquer brasileiro, independentemente de sua crença político-ideloógica, porque, à medida que ela continue a ser enfraquecida, como vem sendo de forma sistemática e deliberada pelo presidente e seus apoiadores, nenhum governo, seja de direita, de esquerda ou de centro, terá tranquilidade e segurança jurídica e institucional para administrar o país.

Por defesa incondicional da democracia se compreende o respeito ao resultado das eleições que ocorrerão em outubro, vença quem vencer. A compreensão madura de que ciclos políticos vêm e vão porque contêm em si os elementos de confirmação ou de repulsa ao que produzem, e isso é o cerne e a maior beleza dos regimes democráticos.

Para que esse entendimento seja genuíno, e não um discurso que varia a depender das pesquisas de popularidade de governos e políticos, é necessário que haja um comprometimento com a independência dos Poderes e do Ministério Público e com a existência de uma imprensa que não serve para legitimar esta ou aquela narrativa, mas para cobrar duramente quem está no poder.

A superação do ciclo que se agravou em 20 e 22, mas que começou bem antes a nos condenar a crises sucessivas, concomitantes e sistêmicas depende de que vencedores e vencidos de ontem e hoje deixem de infantilmente exigir capitulação daqueles que enxergam como inimigos e passem a construir um futuro de superação do flagelo que atualmente se abate sobre o Brasil.

Não está escrito em nenhum livro místico que países serão capazes de sobreviver por mais que governos sejam ineptos, neguem a Ciência, ajam contra a vida e os mais desassistidos, defendam o arbítrio e o uso da violência como forma de persuasão coletiva ou dizimem as bases do amanhã em busca de confirmação de viés ideológico ou de benesses a grupos cujos interesses são obscuros e contrários ao bem comum. 

É essa a realidade do Brasil hoje, a síntese do que é o bolsonarismo enquanto governo. Esses vetores independem de o governo ser de direita, ou conservador, ou como se queira chamar. Eles derivam de uma profunda incapacidade do atual mandatário para a missão de governar um país. Para que 2022 devolva o Brasil aos trilhos é preciso mudar este rumo. A forma com que isso será feito caberá à maioria decidir. É hora de construir essa saída.

*Entro em férias a partir de amanhã. A coluna volta a ser publicada em 26 de janeiro. Desejo a todos os leitores e a suas famílias um 2022 maravilhoso, e ao país, o que vai acima.


Geringonças políticas

 Eliane Cantanhêde, 

O Estado de S.Paulo

Existe bolsonarista, petista, comunista, tucano e morista ao mesmo tempo? Sim, nas redes sociais

  Foto: Dida Sampaio/Estadão

Foto aérea de Brasília.

Como alguém pode ser acusado de ser, ao mesmo tempo, responsável pela eleição de Bolsonaro, fanático por Lula, direitista, petista, comunista, tucano e fazer campanha para Sérgio Moro? Pois é. Muitos, incontáveis, são atacados assim. Eu, inclusive.

Esse Frankenstein, metamorfose ambulante ou geringonça política é uma das ficções criadas nas redes sociais pela irracionalidade e polarização da política brasileira. E quem cai nessa rede será, certamente, um saco de pancadas de variados militantes doentios neste ano eleitoral de 2022.

Preparem-se jornalistas, analistas, cientistas políticos, responsáveis por pesquisas e, de forma mais direta, os ministros do Supremo, apedrejados pelos petistas no mensalão e no petrolão e agora pelos bolsonaristas, após a anulação dos processos contra Lula que permitiu o que o próprio Supremo havia lhe negado em 2018: a candidatura à Presidência. Favorito em 2022, Lula é a maior ameaça à reeleição de Bolsonaro.

Além disso, o Supremo serve de anteparo aos ataques do presidente e do governo a isolamento social, máscaras, vacinas, ciência e realidade e foi também quem deu um basta ao gabinete do ódio e à indústria de fake news e ataques às instituições – principalmente ao próprio STF.

Isso tende a disparar em 2022, já que Bolsonaro dobrou a aposta em suas maluquices até o finzinho de 2021, com falas, live e pronunciamento, entre um jetski e outro, insistindo em desmoralizar urnas eletrônicas, a “gana por vacinas” e a exigência de imunização.

Marcelo Queiroga, da Saúde, dificulta a vacinação de crianças de 5 a 11 anos, com invenções como receita médica e consulta pública, e a ministra Cármen Lúcia entrou em ação. Milton Ribeiro, da Educação, emergiu do anonimato e do silêncio durante o caos nas escolas na pandemia, para impedir universidades federais de exigir vacinas, e o ministro Ricardo Lewandowski suspendeu a decisão. Ambos no último dia de 2021.

Como gato e rato, o governo faz loucuras, o STF desfaz. E, assim como Bolsonaro se tornou o maior cabo eleitoral de Lula, também conseguiu unir a Corte. Os ministros viviam às turras, não vivem mais. “Estamos mais protegidos contra disputas internas”, diz um deles, preparando-se para a guerra de 2022.

Os ataques, porém, não serão só dos bolsonaristas nem só contra o Supremo. Serão de todos contra todos e as geringonças políticas, como boa parte dos jornalistas, estaremos no meio do tiroteio, expondo e comentando fatos e com crise existencial. Como alguém pode ser bolsonarista, lulista, tucano e morista, tudo ao mesmo tempo? Só na Terra plana da internet.


Verdades secretas.

 Carlos Brickmann

 

Ontem, 1º de janeiro, foi Dia da Confraternização Universal. No entanto, as incessantes críticas a Bolsonaro não cessaram. O motivo é que, enquanto a Bahia sofre com as enchentes, Sua Excelência fica de férias, com nutrida e feliz comitiva, nas belas praias de São Francisco do Sul, Santa Catarina.

Quanta perseguição! Espalha-se nas redes sociais um hashtag ofensivo, o #bolsonarovagabundo, só porque o presidente prefere ficar de férias no Sul a enfrentar, ao vivo e em cores, a tragédia que ocorre no Nordeste. Só que...

*Bolsonaro já esteve na Bahia, em Itamaraju, há pouco menos de um mês. Foi quando sua segurança agrediu repórteres da TV Bahia, lembra-se?

*Ele não está pessoalmente no local da tragédia, mas mostra em atitudes sua solidariedade. Passa boa parte do tempo dentro d`água, ocupando gente e equipamentos da Marinha, que poderiam estar lá, e simbolicamente estão;

*É melhor que fique longe, para não atrapalhar o serviço.

E não é verdade que Sua Excelência tenha se recusado a exercer as sempre exaustivas tarefas que lhe competem para ficar só descansando. Pois fiquem sabendo que o Mito gastará um de seus dias de descanso cansando-se pelo bem da população. Já na próxima quinta-feira, confirma seu assessor especial tenente Mosart Aragão, Bolsonaro participará de um futebolzinho solidário em Buriti Alegre, Goiás, com os cantores Gusttavo Lima, Bruno e Marrone.

E agora, maledicentes, joguem ao mar a hashtag #bolsonaro vagabundo.

Questão de preço

O problema dos críticos do Mito deve ser inveja: só porque vai passear em todo feriado prolongado, com fartas comitivas, amigos, família, e tudo por conta do dinheiro dos impostos, querem controlar suas despesas.

Simples: as do ano passado custaram R$ 2.452.586,11, segundo dados oficiais. Quem não gostaria de ter férias dessas sem ter de pagar por elas?

Hora do Brasil

Em 7 de setembro de 1822, d. Pedro proclamou a Independência do Brasil, até então parte do Reino Unido de Portugal e Algarve. Salvador, na Bahia, foi mantida sob controle por forças portuguesas, comandadas pelo general Madeira de Melo, e só se uniu ao Brasil independente em 2 de julho de 1823, quando os comandantes das forças brasileiras (ambos europeus: o almirante inglês Thomas Cochrane e o general francês Pierre Labatut, trazidos por d. Pedro) receberam a rendição do general Madeira.

Neste ano, o Brasil completa 200 anos de independência. Em São Paulo, será reinaugurado o Museu do Ipiranga, restaurado e modernizado. E no Brasil?

Retomar o caminho

Para o Brasil, uma sugestão do sempre excelente colunista Elio Gaspari (publicada em 29 de dezembro na Folha de S.Paulo e O Globo):

“Parece pouca coisa, mas será uma oportunidade para se pensar numa terra que resolveu andar para a frente com seus 4,7 milhões de habitantes. A máquina do tempo levará os curiosos de 2022 a um bonito momento. No mínimo, livrará os viajantes da mediocridade presente.

 “Em agosto de 1822, {José} Bonifácio redigiu um manifesto às nações amigas. Parece pouca coisa, mas vê-se o seu tamanho quando se sabe que, passados dois séculos, sem motivo plausível, o Brasil encrencou com China, Estados Unidos, França e Chile, noves fora a má vontade com as vacinas, questão pacificada antes mesmo de 1822 pelo pai de Pedro.

 “D. João 6º criou a Junta Vacínica para conter a varíola. Afinal, ela havia matado o seu irmão. Desde 1817 vacinavam-se crianças no Rio.”

Claro, claro

Tudo bem, cada petista pode pensar o que quiser, desde que faça o que seu ídolo máximo, o ex-presidente Lula, determina que seja feito. Mas vale como curiosidade: José Genoíno é um dos petistas que mais resistem à união entre Lula e o ex-governador de São Paulo Geraldo Alckmin. Tem prestígio no partido, do qual foi fundador e presidente; quando enfrentou dificuldades enfrentou-as sozinho, não delatou ninguém.

Sem dúvida o partido fará o que Lula quiser. É interessante ler os argumentos de Genoíno (expressos numa live com gente do PSOL) e, mais interessante ainda, entendê-los: "O que está em jogo é se a esquerda socialista será protagonista do enfrentamento do neoliberalismo ou se a esquerda será domesticada, domada para um projeto de melhorismo por dentro de um neoliberalismo com feição progressista”.

Deltan em julgamento

Levou cinco anos, mas a ação de indenização proposta por Lula contra Deltan Dallagnol deve entrar na pauta do Superior Tribunal de Justiça agora em fevereiro. O caso se refere à entrevista coletiva (com PowerPoint) em que o então procurador da Lava Jato colocava Lula no centro de articulações que considerava criminosas. Na opinião de Lula, houve abuso de autoridade.

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Resistência e independência

  Míriam Leitão

O Globo

  Márcia Foletto - O Globo

Secretaria municipal de Saúde autorizou antecipação da terceira dose da vacina contra a Covid. No posto de vacinação instalado na Casa Firjan, em Botafoto, o movimento foi intenso essa manhã. Além da procura pela terceira dose, muita gente foi ao posto 

O novo ano começa com a esperança de que o tormento do pior governo da nossa história chegue ao fim e a previsão de que a economia nos manterá em terreno árido. O ano passado nos deu uma certeza pelo avesso, a de que o Brasil, colocado no extremo de um presidente sem compaixão e sem capacidade administrativa, consegue governar a si mesmo. O país desenvolveu vacinas, se vacinou, criou consórcio de governadores, manteve-se informado, enfrentou ameaças de golpe, investigou os crimes do governo na pandemia, produziu cultura e montou uma rede de solidariedade para o combate à fome e às tragédias. Na crise aguda da falta de oxigênio em Manaus, a sociedade tentou ajudar.

É resistência que se chama. O país resistiu de inúmeras formas ao descalabro que tem sido Bolsonaro no comando. O presidente apostou no pior, jogou no conflito, investiu em pautas nefastas. Mas o saldo do ano passado é positivo, principalmente porque o socorro veio da ciência. Nos institutos brasileiros de produção de vacinas trabalhou-se duramente. Brasileiros em centros internacionais conectaram o país nas redes de desenvolvimento da imunização. O Sistema Único de Saúde venceu um ministro general que dizia não saber o que era o SUS, e um ministro sabujo que até o último dia do ano tentava retardar a vacinação de crianças. O governo foi sórdido. A sociedade resistiu. Com alta taxa de vacinação, os brasileiros aguardam a onda ômicrom mais seguros, mas ainda vigilantes.

A economia terá novo ano de estagnação, com alto desemprego. Milhões de brasileiros continuarão fazendo este ano o que fizeram nos últimos dois: criar seu próprio trabalho. A taxa de desemprego até outubro, divulgada na última semana do ano, trouxe dados mistos. Na análise do indicador, feita por Álvaro Gribel no meu blog, ficou claro que o mercado não se recuperou. A taxa de desocupação ainda é maior do que antes da crise. Havia um milhão de pessoas a menos na população ocupada. Menos brasileiros trabalhando com carteira assinada. E a renda despencou. É 6,5% menor do que em 2019 e 11% abaixo do que no ano passado.

A inflação declinante é uma solitária notícia boa para o ano que vem, mas sobre ela pesam muitas dúvidas. A primeira é se as tempestades trazidas por La Niña podem afetar a safra. La Niña provoca chuvas no Nordeste e seca no centro-sul do país. Esperava-se que viesse suave, mas aí ocorreram as enchentes da Bahia. O economista José Roberto Mendonça de Barros diz que a perspectiva da safra ainda é boa:

— Em matéria de produção, o que está atrapalhando é a falta de chuva no Rio Grande do Sul e no leste de Santa Catarina e no Paraná. Isso está tirando um pouco da produtividade. Nos últimos dias choveu ligeiramente, reduzindo o déficit hídrico. Tem que continuar acompanhando porque o clima está doido, mas lembrando que o grosso da produção de grãos está no Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e sul de Goiás, onde está tudo dentro da normalidade.

A redução da inflação, prevista por todos os analistas, tem algumas premissas. A boa é essa, a da supersafra. As ruins são de que os juros continuarão a subir mantendo a economia em “terreno contracionista”, como diz o Banco Central. A queda da renda vai reduzir alguns repasses de preços. A alta da energia está sendo mitigada através de um empréstimo às distribuidoras que será cobrado dos consumidores, com juros, depois das eleições. E o dólar? Ele chegou a R$ 5,83 no pior momento e fechou em R$ 5,58, com alta de 7,5%. O maior valor para um fim de ano. Como poderá ficar estável em 2022, quando o país terá eleições sob um governo com índole autoritária? Certamente a volatilidade continuará.

Este ano é de travessia. É grande a chance de encerrarmos o governo deletério que deveria ter sido encurtado por impeachment. Nenhuma outra administração mereceu tanto o remédio do impedimento. Mas para que futuro iremos neste ano do nosso bicentenário? O Brasil nos últimos anos pareceu um coração com a artéria principal entupida e que criou atalhos para a circulação do sangue e a sobrevivência. Nesses caminhos alternativos o país foi ficando independente do próprio governo. Essa capacidade de resistência será testada em 2022, porque a natureza deste governo é antidemocrática. Bolsonaro tentará, como fez Donald Trump, melar o jogo democrático. Será preciso estar, como diz a minha geração, atento e forte.

Com Alvaro Gribel (de São Paulo)

 


O Brasil como deve ser

 Basilio Jafet

O Estado de São Paulo

 O ano de 2021 foi marcante. Entre muitos desafios, tivemos boas notícias. O avanço da vacinação permitiu a retomada de várias atividades, movimentando a economia e ampliando a oferta de empregos.

Sob a ótica do mercado imobiliário, à primeira vista teríamos motivos para comemorar. Na cidade de São Paulo, do início de 2019 até agosto de 2021, o volume de lançamentos e vendas foi recorde – números jamais vistos no histórico da Pesquisa Secovi, que há anos acompanha o comportamento da área. As famílias de menor renda, enquadradas no programa Casa Verde Amarela, absorveram 50% das residências comercializadas.

O verbo ter no condicional se justifica. E não é “chorar de barriga cheia”. Não fossem as restrições impostas por legislações urbanísticas inadequadas, que encarecem o preço das moradias, poderíamos ter feito muito mais para reduzir o enorme (e vergonhoso) déficit habitacional.

Além disso, o motivo central desse desempenho – inflação e juros baixos – foi fraturado a partir de setembro, repercutindo diretamente nas vendas. Adicionalmente, o significativo aumento nos custos de produção, absorvidos no limite da capacidade pelas empresas e inevitavelmente repassados, restringiu o acesso à casa própria, num momento em que a ressignificação da moradia (que veio para ficar) aumentou a demanda.

Some-se a este cenário o fato de que o mercado imobiliário não é uma ilha. Está inserido no ecossistema da economia, em que boa parte dos setores produtivos (ainda que de forma heterogênea) começava a experimentar reativação quando o ambiente político (sempre ele) descompensou o ambiente dos negócios e dos investimentos.

Veio uma proposta de reforma do Imposto de Renda – a qual, espera-se, seja definitivamente arquivada – travestida de reforma tributária. Longe da simplificação desejada, a proposta só tumultuou e gerou crise de confiança. Depois, a PEC dos Precatórios colocou em xeque o respeito ao teto de gastos e, mesmo, à Lei de Responsabilidade Fiscal, ocasionando insegurança ainda maior, repercutindo no aumento da taxa cambial e da taxa Selic.

E é nesta esteira que caminhamos para 2022, com os problemas de sempre (sem reforma administrativa e outras estruturais, insegurança jurídica, falta de previsibilidade, etc.) e dificuldades novas, como a pandemia se estendendo muito além do imaginado e a imprevisibilidade gerada pelo cenário eleitoral. Em razão disso, os investimentos não vêm no volume desejado e, como consequência, deixamos de criar oportunidades e empregos.

Até agora, o debate eleitoral não contempla, com a profundidade necessária, a discussão de propostas para o País.

Essa sensação de vazio foi acentuada para quem visitou a Expo Dubai, onde todos os países (excetuando-se a Coreia do Norte) mostram o que planejam para suas cidades e seus habitantes em áreas fundamentais, como sustentabilidade (onde estava o pavilhão brasileiro), mobilidade e oportunidade.

A maioria das nações está firmemente empenhada em promover mudanças. A mobilidade equiparou-se à sustentabilidade. Um equilíbrio coerente. Afinal, o vaivém das pessoas tem impacto ambiental que precisa ser mitigado. Daí, inclusive, os projetos de cidades compactas, funcionais e amigáveis, coisa que o adensamento inteligente proporciona. São grandes transformações em andamento, alinhadas a compromissos assumidos na Conferência do Clima das Nações Unidas (a COP-26, realizada em Glasgow, Escócia). Infelizmente, o Brasil pouco apresenta que possa despertar interesse, atrair o olhar do investidor externo. Perdemos a chance. Mais uma vez. Quem não planeja não colhe.

A única coisa em que permanecemos pródigos é em perder tempo com temas triviais. Eles eclipsam o que importa de fato. E o fato é que precisamos de pessoas que pensem o Brasil. Não o Brasil do imediatismo das urnas, mas o que vem depois e vai além, alcança as futuras gerações, também cuidando daqueles que estão no presente. Ou será que não devemos medir as consequências do que ocorreu, por exemplo, no campo da educação? Conforme estudo realizado por Tribunais de Contas dos Estados, divulgado em 25 de novembro, um ano após o início da pandemia 10% dos estudantes do ensino fundamental (alunos dos 6 aos 14 anos) tinham abandonado a escola.

Qual é o plano para reverter essa situação? O que ela significa de atraso para a sociedade, para o desenvolvimento econômico e social? E quais as propostas para fixar o País como celeiro do mundo, entre tantas outras questões relevantes?

Enquanto isso, discutimos questões do Enem...

Cabe a nós, integrantes dos setores produtivos, cumprirmos nosso papel de colocar as cartas, ou as condições de prosperidade, na mesa. Sim, pois são os setores produtivos que têm voz para catalisar mudanças. Nossa história mostra isso. Com firme posicionamento, alicerçado integralmente no interesse nacional, precisamos sublinhar: o Brasil não aceita nem o como foi e nem o como é. Exige o como deve ser. Nada menos.

* PRESIDENTE DO SECOVI-SP


Bolsonaro está se lixando para o povo

 Germano Oliveira

Revista ISTOÉ

 Foto: Reprodução/Twitter


Ao abrir os jornais desta quarta-feira, 29, às vésperas das festas do Ano Novo, todos eles estampavam a foto de Bolsonaro com a filha Laura na garupa de um jet ski, navegando sobre as águas límpidas e azuladas do paradisíaco mar de São Francisco do Sul, uma das mais belas praias do litoral catarinense. Os dois ali maravilhados, como se não houvesse o amanhã. Nas mesmas páginas desses jornais, na sequência, podemos ver as imagens dos milhares de baianos, especialmente os do sul do estado, padecendo pela maior cheia da história, que já matou 21 pessoas e deixou outras milhares desabrigadas.

Acompanhando o relato do repórter Juliano Dipp, da Rádio Bandeirantes, que está acompanhando a tragédia baiana, hoje logo cedo, mostrando que famílias foram acordadas na madrugada desta quarta-feira com mensagens de som das prefeituras locais pedindo para que todos deixassem suas casas, pois barragens de romperam e tudo iria por água abaixo, ficamos chocados. Ele mostrou relatos de gente que tudo perdeu com as chuvas descomunais. Os relatos nos deram uma grande sensação de revolta e de indignação. Como pode um presidente da República, eleito pelo povo, inclusive pelo baiano, não tomar conhecimento desse drama, virar as costas para o povo e ainda por cima tripudiar dessa população desesperada ao se deliciar nas exuberantes praias catarinenses. É repugnante. Nojento. Dá náuseas. Em qualquer lugar decente, ele teria interrompido a farra na praia e tomaria providências. Mas aqui esse homem indecente não se comove, assim como não se comoveu com as mais de 619 mil mortes por Covid.

Que o presidente é negacionista, que ajudou a matar pessoas com o coronavírus, não apenas deixando de comprar as vacinas na hora certa, mas também desestimulando o uso de máscaras, fazendo pouco caso do distanciamento social, incentivando aglomerações e outras tantas atitudes criminosas, todos nós já sabemos. Isso ficou sobejamente comprovado durante a CPI da Covid, que o indiciou por dezenas de crimes cometidos. Um governo insensível e desumano, que deveria ser julgado até mesmo por genocídio no STF ou na Corte Internacional de Haia. Juristas importantes já defenderam isso. Mas o que ele vem fazendo em Santa Catarina é vilipendiar, desprezar pela vida das pessoas, que sofrem com as enchentes na Bahia. É doloroso ver o que estão sofrendo. De cortar o coração nesta época do ano em que todos deveriam comemorar dias melhores. Mas, sob o governo Bolsonaro, isso não é possível. Ainda viveremos tempos de horror até terminar o mandato dessa insensato.

Sarcasticamente, diz que não interromperá seu passeio no litoral catarinense, mordomias mantidas pelos cartões corporativos, com comida e bebida farta, paga pelos impostos de todos os brasileiros, inclusive dos moradores da Bahia, que paradoxalmente agora agonizam sob as cheias, mergulhados na mais dura miséria. O irresponsável e despreparado presidente diz ter enviado para o local das enchentes alguns ministros (o incompetente Queiroga, o obscuro Rogério Marinho e o insignificante João Roma). Ora, esses ministros são os mesmos que vão ao local das cheias na Bahia e liberam somente R$ 200 milhões, quando para seus projetos eleitoreiros são destinados bilhões e bilhões. Pior, dos R$ 200 milhões, apenas R$ 80 milhões serão destinados para todo o Nordeste, enquanto que outros R$ 70 milhões para o Norte e R$ 50 milhões para o Sudeste. É uma desfaçatez. Ação indigna de um desgoverno.

O governador da Bahia, Rui Costa, por exemplo, já disse que dos R$ 80 milhões para o Nordeste, apenas uma parte ficará para a Bahia e o estado está precisando muito mais para recuperar os prejuízos. O que Bolsonaro destinou para a região é uma esmola. Não vai dar para nada. Ora Bolsonaro, tire essa bunda gorda do jet ski e vá para a região ou para Brasília trabalhar por mais recursos. Sabemos que vossa senhoria nunca gostou de trabalhar, vagabundeia há anos, mas faça alguma coisa. Como é o Centrão que manda no caixa do governo e o senhor não manda mais em nada no governo, implore para o Arthur Lira liberar mais recursos das emendas do Orçamento para enviar mais dinheiro para a Bahia. Afinal, para que servem as emendas de relator que consumirão R$ 16 bilhões? Para que servem as emendas parlamentares de R$ 36 bilhões que o presidente e os deputados usam para desviar dinheiro do Orçamento em prol de seus apaniguados e que invariavelmente são usados para desvios e compras superfaturadas? Ora, peguem uma parte disso e socorram o povo. Se o presidente continuar insensível e apenas surfando nas belas praias catarinenses, certamente os eleitores saberão lhe dar uma resposta nas urnas em outubro. Mas nem assim Bolsonaro parecer estar preocupado. Está se lixando para o povo.


Bolsonaro parece um turista no Palácio do Planalto

 Thomas Milz, ColunaRealpolitik

Deutsche Welle

O presidente negacionista chega ao fim de seu terceiro ano de mandato negando-se cada vez mais até mesmo a governar. Está na hora de o Brasil ter mais ambição e botar alguém com vontade de trabalhar na Presidência.

Foto: Andre Lucas/dpa/picture alliance

"Para Bolsonaro, andar de jet ski e de moto parece 

ser mais divertido e fácil do que liderar um país"

 Nada mais simbólico do que o presidente andar de jet ski e dançar funk numa lancha, enquanto as casas de milhares de brasileiros estão sendo submersas por inundações, principalmente no sul da Bahia. Mas isso não é nenhuma novidade.

Em três anos de governo, Jair Messias Bolsonaro mostrou o desinteresse pelo cargo que ocupa. Ele tem sido um turista, e não um líder de governo e da nação. Andar de jet ski e de moto parece ser mais divertido e fácil do que liderar um país.

Bolsonaro já havia se omitido quando florestas brasileiras pegaram fogo e quando milhares morreram de coronavírus. Ele parece gostar do avanço da destruição, portanto não faz nada para detê-la. Às vezes, ainda sabota os bombeiros e joga gasolina nas chamas. Por outro lado, não sabe construir nada. Seu mandato presidencial é a continuação dos seus quase 30 anos como parlamentar, nos quais não criou nenhum projeto de lei digno de nota.

Por outro lado, ainda bem, diga-se de passagem. Assim, aqueles projetos malucos de costume, como a escola sem partido, já foram deixados de lado por ele. Assim como a criação de escolas militares em massa. Já não se fala mais em Olavo de Carvalho, graças a Deus, a não ser da fuga dele para os Estados Unidos. Aliás: de fugas hollywoodianas para lá, houve muitas ultimamente: o ex-ministro da Educação Abraham Weintraub, o blogueiro Allan dos Santos e aquele líder dos caminhoneiros que nem era líder dos caminhoneiros. Turma estranha.

E não se fala muito mais em Paulo Guedes. A última coisa que ouvi dele foi a explicação de como evitar pagar impostos ao criar empresas offshore no Panamá. O tal choque liberal na economia, por outro lado, ninguém viu. Ao invés de privatizar estatais como a Petrobras, o presidente quer mais interferência governamental para manipular o preço da gasolina. Como tantos outros governos antes dele já tinham feito.

E nada de combater a corrupção. Sob o governo Bolsonaro, acabou-se o lavajatismo. Ao invés disso, há rachadinhas generalizadas e orçamentos secretos. Sobraram, portanto, os velhos instrumentos dos populistas, nada mais. Alias, é a velha política que ele tinha prometido combater. Consequentemente, ele está de volta ao PL de Valdemar Costa Neto, de volta ao coração do Centrão. E não se ouve mais o general Heleno cantar "Se gritar pega centrão, não fica um, meu irmão".

Na América Latina, uma das regiões mais pobres e desiguais do planeta, o Brasil tinha dado sinais de se transformar num país sério, a partir de meados dos anos 1990. Tinha conseguido, pouco a pouco, ser destaque internacional na área de meio ambiente, de diplomacia global e de combate à pobreza. Tudo isso foi para o lixo no governo de Jair Messias. A única iniciativa de política externa foi repetir tudo o que Donald Trump fazia, até esse cair. Sem Trump, Jair Messias conversa com os garçons nas cúpulas internacionais.

Caetano Veloso já tinha cantado: "Nessa terra a dor é grande. E a ambição, pequena". Está na hora de ter mais ambição e botar alguém com visão e vontade de trabalhar na Presidência. O Brasil é grande demais para se apequenar com um presidente turista no Palácio do Planalto. A notícia triste é que, com tanta mamata, Jair Messias e sua família podem ficar o resto das suas vidas andando de jet ski e dançando funk num jatinho. Prova que a tal meritocracia não existe. Outra promessa que virou vento.

Thomas Milz saiu da casa de seus pais protestantes há quase 20 anos e se mudou para o país mais católico do mundo. Tem mestrado em Ciências Políticas e História da América Latina e, há 15 anos, trabalha como jornalista e fotógrafo para veículos como a agência de notícias KNA e o jornal Neue Zürcher Zeitung. É pai de uma menina nascida em 2012 em Salvador. Depois de uma década em São Paulo, mora no Rio de Janeiro há quatro anos.

O texto reflete a opinião do autor, não necessariamente a da DW.


E lá se foi 2021, o ano em que o Centrão colocou o presidente Jair Bolsonaro na coleira…

 Malu Gaspar, O Globo

Tribuna da Internet

Charge do Latuff (Brasil 247)

Quando 2021 começou, o ministro Paulo Guedes dizia que a economia brasileira estava iniciando uma recuperação “em V”. Jair Bolsonaro foi na contramão: “O Brasil está quebrado. Eu não consigo fazer nada. Eu queria mexer na tabela do Imposto de Renda… Teve esse vírus, potencializado pela mídia que nós temos. Essa mídia sem caráter”.

Guedes tentou contemporizar (em relação às finanças, e não à mídia, claro). Disse que o presidente estava se referindo apenas ao setor público, em situação difícil depois dos “excessos de gastos cometidos pelos governos anteriores”. E, procurando se mostrar no controle da situação, garantiu que o auxílio emergencial só seria prorrogado se fosse possível manter o teto de gastos e que não haveria reajustes aos servidores públicos.

DERRUBAR MAIA – Numa coisa, porém, o presidente e o ministro concordavam: era preciso derrubar o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ). Maia tinha aprovado a reforma da Previdência que o governo queria, mas Guedes achava que ele boicotava as privatizações e a reforma tributária. Se tivessem um amigo no controle, pensavam presidente e ministro, o governo decolaria.

Eles conseguiram. No início de fevereiro, Arthur Lira (PP-AL) foi eleito, inaugurando uma nova era no Congresso. Mas o governo não decolou.

Com a prestimosa ajuda do Congresso, o Executivo acochambrou o teto de gastos. Oficializou o calote parcelado dos precatórios judiciais. Estendeu o programa de renda emergencial e acabou com o Bolsa Família, criando o Auxílio Brasil.

REAJUSTE PRIVILEGIADO – Também anunciou um reajuste salarial aos policiais federais, levando as outras categorias a ameaçar greve geral em pleno ano eleitoral. Para evitar um tarifaço nas contas de luz, autorizou um socorro de R$ 15 bilhões ao setor elétrico. Reforma tributária, administrativa e privatizações ficaram para as calendas.

Fora da seara econômica, Bolsonaro dilapidou as instituições de controle da corrupção, da proteção ao meio ambiente, do patrimônio histórico e do sistema educacional. Domesticou o Exército, trabalhou duro para destruir a credibilidade das nossas eleições e, no 7 de Setembro, tentou dar um golpe no Supremo Tribunal Federal.

Mas nada disso o abalou no cargo, porque Bolsonaro tinha Arthur Lira.

ORÇAMENTO SECRETO – Empoderado pelos R$ 11 bilhões do orçamento secreto — distribuídos segundo critérios imperscrutáveis a uma lista igualmente sigilosa de parlamentares —, Lira relegou Paulo Guedes a um nível de irrelevância que Rodrigo Maia jamais pensou em conseguir. Segurando a chave da gaveta que guarda os 143 pedidos de impeachment de Bolsonaro, colocou o presidente da República na coleira.

Com ela, Lira e o Centrão deixam que Bolsonaro esbraveje contra as urnas eletrônicas, mas na hora H sepultam o voto impresso no plenário da Câmara. Deixam que vá aos palanques contra ministros do Supremo, mas nos bastidores avisam que não sustentarão quarteladas. Permitem que o presidente lance suspeitas contra a vacinação, mas, quando o eleitorado reage, afirmam que a palavra final cabe aos técnicos.

Considerando o histórico dos três anos de governo Bolsonaro, até que demorou para o Centrão tomar conta de tudo. Mas o bloco não está no poder há tantos governos à toa. Lira e seus aliados sabem exatamente o que é preciso fazer para atravessar Presidências sem perder o comando.

O ANO DO FUTURO – Se 2021 foi o ano em que o Centrão tutelou Bolsonaro, 2022 será o ano em que decidirá seu futuro. Uma decisão que dependerá de diferentes variáveis, mas principalmente do próprio presidente.

Um presidente que chega ao final de 2021 da mesma forma como entrou, agindo como se não pudesse fazer nada — quanto à tragédia das chuvas na Bahia, quanto ao aumento do funcionalismo, quanto à vacinação de crianças.

Difícil acreditar que Bolsonaro não saiba o que está fazendo. É mais provável que acredite que o casamento com o Centrão vá protegê-lo da derrota em 2022. Talvez o que lhe falte seja a noção de que, em alguns meses, com o fundo eleitoral e o orçamento secreto devidamente distribuídos, essa união poderá não ser mais tão interessante. Será nessa hora que os aliados decidirão se continuam a trabalhar pela reeleição do presidente ou se o abandonam pela estrada, com coleira, com Paulo Guedes, com tudo.

  ******COMENTANDO A NOTÍCIA :

Como já dizia um certo ex-ministro da Saúde, enquanto uns mandam (Centrão), outros obedecem (Bolsonaro). 

Um governo à deriva: o terceiro ano de Bolsonaro

 Jean-Philip Struck

Deutsche Welle

[Análise] Em 2021, o Brasil foi castigado pela covid, mas a vacinação avançou – apesar de Bolsonaro. Presidente continuou a corroer a democracia e mostrar desinteresse por problemas do país. E atingiu reprovação recorde.

Foto: Andre Borges/AFP/Getty Images

Protesto contra Bolsonaro no Rio de Janeiro. Atos quebraram monopólio

 bolsonarista das ruas, mas não produziram impulso decisivo para impeachment

Setembro de 2021. Um caminhão estaciona no bairro da Glória, Zona Sul do Rio de Janeiro. Uma fila se forma em volta do veículo. São pessoas que esperam garimpar algo para comer entre a carga do veículo: uma pilha de ossos e carcaças de animais descartados por supermercados. A cena se repete várias vezes por semana, segundo reportagem do jornal Extra, que testemunhou o episódio. Poucas imagens de 2021 simbolizam tanto a interminável crise brasileira.

Ao longo do ano, o Brasil viu a inflação chegar a dois dígitos, o desemprego continuar em alta, e os preços de combustíveis e energia serem puxados para cima. Na véspera de Natal, o Datafolha mostrou que 26% da população do país afirma que não conta com comida suficiente para alimentar suas famílias. Uma pesquisa da CNI mostrou em dezembro que sete em cada dez brasileiros estão pessimistas em relação à economia.

"Há sinais por toda parte de que a economia brasileira está de novo decolando", disse Paulo Guedes, o ministro da Economia de Jair Bolsonaro, em março, o segundo mês mais letal da pandemia no Brasil, quando o país registrou mais de 66 mil mortes por covid-19.

Guedes usou a palavra "decolar" várias vezes ao longo do ano, como um mantra, mesmo quando a realidade econômica, sanitária e política insistia em não se encaixar no seu otimismo.

Mas o ministro não foi o único membro do governo que passou o ano preso a um universo paralelo.

Como no  repetitivo "dia da marmota" do filme Feitiço do Tempo (1993) – em que o personagem do ator Bill Murray revive o mesmo dia num looping interminável –, Bolsonaro continuou a desprezar em 2021 os protocolos do cargo e a colocar instrumentos do governo federal a serviço da sua agenda extremista, insistindo em alimentar visões conspiracionistas, desdenhar da pandemia e executar ofensivas contra o sistema democrático – para depois fazer alguns recuos táticos e esperar uma nova oportunidade. A única diferença com episódios similares de 2020 foi em escala. 

Sempre desinteressado em abordar os problemas reais do país, Bolsonaro também passou parte do ano produzindo cenas artificiais ou fraudulentas, tentando se pintar como suposto "homem simples" ou como alguém que conta com apoio maciço da população. Nessa tática entraram episódios como o "jantar" de pizza numa calçada nos EUA e as repetitivas "motociatas" – frequentemente menores do que os apoiadores do presidente queriam fazer crer e que custaram até o momento mais de R$ 5 milhões aos cofres públicos, segundo a Folha de S.Paulo.

Bolsonaro também continuou a produzir calculadas cenas ultrajantes, muitas vezes para consumo da sua base extremista ou para servir de cortina de fumaça. Na última quinzena do ano, um dia após um encontro entre o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o ex-governador Geraldo Alckmin – que vêm discutindo uma potencial aliança em 2022 –, Bolsonaro se deixou filmar dançando sobre uma lancha ao lado de uma mulher de biquíni ao som de uma música misógina que compara mulheres de esquerda a "cadelas". No final do ano, ele parecia mais interessado em curtir férias e andar de jet ski do que em intervir nas enchentes na Bahia.

Mas tais cenas, embora repetitivas, já não parecem produzir o efeito desejado por Bolsonaro e seus apoiadores. Episódios ao longo do ano como os protestos de esquerda contra o governo – que reuniram mais pessoas que atos bolsonaristas –, a volta de Lula ao jogo eleitoral, a decolagem do petista nas pesquisas e até mesmo em grau menor a oficialização das ambições políticas do ex-juiz Sergio Moro – que virou assunto frequente em parte da imprensa que abraçava a Lava Jato – demonstraram o declínio do poder de Bolsonaro em pautar a totalidade da agenda política do país.

Mesmo os incentivos negacionistas do presidente se chocaram com a realidade do avanço robusto da vacinação no país. Até a última ofensiva do presidente na reta final do ano, a oposição à vacinação de crianças, não gerou até o momento os efeitos esperados no Planalto. Uma pesquisa da Fiocruz mostrou que 80% dos pais brasileiros pretendem vacinar seu filhos.

Bolsonaro chegou ao fim do ano amargando 53% de reprovação, o pior nível de avaliação de seu governo, segundo o  Datafolha, que ainda apontou que 60% dos brasileiros não confiam em nada do que o presidente fala.

É um cenário oposto ao de 2020, quando Bolsonaro - paradoxalmente - terminou seu segundo ano mais popular do que em 2019. Agora, com apenas 22% das intenções de voto para a eleição Presidencial de 2022, bem atrás de Lula, Bolsonaro parece estar entrando naquele que deve ser seu último ano de governo.

 Foto: Isac Nobrega/Präsidentschaft der Republik (PR)

Bolsonaro inaugura ponte de madeira de 18 metros de comprimento no Amazonas.

 Viagem presidencial para o local custou três vezes o valor da obra

Bolsonaro termina ano nas cordas, mas mostra resiliência

Mesmo definhando nas pesquisas e com seu governo tomado pela inércia ou caos em áreas como economia, o governo Bolsonaro paradoxalmente chegou ao fim de 2022 numa posição mais estável do que há 12 meses.

A CPI da Pandemia provocou desgaste, mas não um impulso decisivo para um impeachment. O mesmos se deu com as manifestações contra Bolsonaro a partir de maio. Embora tenham quebrado o monopólio bolsonarista das ruas, elas não conseguiram se ampliar no segundo semestre como força capaz de mudar o cenário.

Em fevereiro, Bolsonaro também colocou toda a máquina do Planalto a serviço da eleição de Arthur Lira para presidência da Câmara. A aposta se pagou. Lira ganhou e depois não só deixou na gaveta os mais de 140 pedidos de impeachment contra o presidente como passou a atuar como um dos principais operadores do esquema de distribuição de emendas do chamado orçamento secreto – o pouco transparente mecanismo que tem ajudado o governo a manter uma base de sustentação no Congresso.

Já no Senado, Bolsonaro conseguiu emplacar a confirmação do "terrivelmente evangélico" André Mendonça para uma vaga no Supremo Tribunal Federal (STF). Após a entrada de Mendonça, Bolsonaro passou a afirmar que conta com "20%" dos 12 ministros da Corte – em 2020, ele já havia emplacado a indicação de Kassio Nunes Marques. O Senado também reconduziu Augusto Aras, que tem evitado agir contra Bolsonaro para mais um mandato à frente da Procuradoria-Geral da República.

Num retorno às origens e deixando de lado a fantasia de outsider de 2018, o presidente também voltou a fazer oficialmente parte do Centrão, a massa de deputados que alugam apoio para o governo da vez em troca de verbas e cargos. Depois de deixar o PSL em 2019 e fracassar em 2020 na tentativa de criar um partido próprio (a natimorta Aliança pelo Brasil), Bolsonaro se filiou ao PL, a sigla comandada pelo ex-deputado Waldemar Costa Neto, figura notória do escândalo do Mensalão. "Sempre fui do Centrão", disse o presidente.

Em 2020, Bolsonaro já havia entregado cargos para políticos do Centrão. Mas a presença do grupo na Esplanada saltou neste ano, com a entrada de Ciro Nogueira na Casa Civil, Flávia Arruda na Secretaria de Governo e João Roma no Ministério da Cidadania.

E, como já havia ocorrido entre 2019 e 2020, a entrada de políticos "profissionais" ou veteranos não resultou numa moderação do governo. Pelo contrário, os novos membros abraçaram a cartilha bolsonarista. O ministro Roma, por exemplo, em poucas semanas no cargo já estava atacando medidas de distanciamento e defendendo o voto impresso.

 Foto: Alan Santos/Präsidentschaft der Republik (PR)

Bolsonaro e André Mendonça. Presidente finalmente emplacou

 um ministro "terrivelmente evangélico" no STF

Vacinação avança, apesar de Bolsonaro

Em dezembro de 2020, Bolsonaro atacou laboratórios que produzem vacinas e afirmou que a melhor forma de imunização é "pegando o vírus". Um ano depois, não foi diferente, mesmo com o Brasil registrando mais 420 mil mortes por covid-19 ao longo de 2021. Nesta reta final de ano, o presidente se voltou contra a vacinação de crianças, mecanismos de passaporte sanitário e ainda tentou intimidar técnicos da Anvisa. Ele continua a ser – oficialmente – o único líder de um país do G20 que não se imunizou contra a covid-19.

O ano começou com a crise do oxigênio e Manaus e com o governo não possuindo um plano nacional efetivo de vacinação, além da operação atrapalhada das autoridades federais para importar vacinas prontas da Índia com o objetivo de ultrapassar o governador de São Paulo, João Doria, na largada da imunização. No final, foi graças aos esforços do governo paulista que a vacinação pôde efetivamente começar em janeiro.

O Brasil chegou ao fim do ano com 66,9% da sua população totalmente imunizada. Tudo isso ocorreu apesar de Bolsonaro. Mesmo quando a vacinação deslanchou, o presidente continuou a alimentar paranoia sobre os imunizantes, chegando a associar de maneira mentirosa as vacinas ao risco de pegar aids.

Em 2021, Bolsonaro divulgou diversos boatos contra medidas de distanciamento social, a ponto de – como revelou a DW Brasil – apresentar uma enquete distorcida realizada na Alemanha como um "estudo" que comprovaria que máscara são prejudiciais para crianças. Em maio, chamou de "idiotas" as pessoas que cumpriam isolamento e continuou a promover seu ineficaz e potencialmente perigoso "tratamento precoce" contra a covid-19, inclusive usando a tribuna das Nações Unidas para defender drogas desacreditadas.

 Foto: Marcelo Chello/Zuma/dpa/picture alliance

Enfermeira Monica Calazans foi primeira vacinada do país. Com caos e desinteresse do governo federal, imunização no país só começou em 17 de janeiro graças aos esforços das autoridades de São Paulo

Ofensivas contra a democracia e à imprensa – de novo

Bolsonaro continuou a questionar o sistema eleitoral brasileiro em 2021. Foram pelo menos 23 declarações nesse sentido ao longo do ano. Em desvantagem nas pesquisas para 2022, o presidente lançou repetidas falsas acusações de que as urnas eletrônicas seriam passíveis de fraude e defendeu regularmente a criação de uma forma de voto impresso.

Bolsonaro também afirmou que só seria derrotado no próximo pleito se sofresse fraude e distribuiu repetidos ataques contra o presidente do Tribunal Superior Eleitoral, Luís Roberto Barroso, a quem chegou a chamar publicamente de "filho da puta" e a associar falsamente à pedofilia. Em janeiro, Bolsonaro ainda usou o episódio da invasão e depredação do Capitólio americano por uma turba de extremistas para afirmar que, sem voto impresso, o mesmo poderia se repetir no Brasil.

O STF reagiu a vários dos ataques de Bolsonaro e seus aliados. Ainda no primeiro semestre, o tribunal determinou a prisão do deputado de extrema direita Daniel Silveira. Outros aliados de Bolsonaro, como o blogueiro Allan dos Santos e o ex-deputado Roberto Jefferson também tiveram prisões autorizadas pelo STF.

 Foto: Alan Santos/PR

Presidente continuou a produzir "cortinas de fumaça" ou 

cenas ultrajantes para consumo da sua base extremista

O Supremo ainda impôs derrotas ao governo ao determinar a apresentação de comprovante de vacinação para viajantes internacionais e ao conceder liminar para a abertura da CPI da Pandemia. Em um recado a Bolsonaro, o TSE também cassou o mandato de um deputado bolsonarista por disseminação de informações falsas sobre o processo eleitoral.

Em 2021, Bolsonaro se tornou alvo de quatro novos inquéritos no STF e um no TSE. Os casos envolvem as declarações relacionando falsamente a vacina à aids, suspeita de vazamento de um inquérito sigiloso da Polícia Federal, ataques às urnas eletrônicas e de prevaricação no caso da compra fraudulenta da vacina Covaxin.

Bolsonaro respondeu ao STF redobrando os ataques. Em agosto, apresentou um inédito pedido de impeachment contra o ministro Alexandre de Moraes – que acabou rejeitado pelo presidente do Senado, Rodrigo Pacheco.

O presidente também tentou mobilizar as ruas para tentar intimidar o Tribunal. Chegou a organizar um desfile de blindados em Brasília como demonstração de força, mas o episódio chamou mais a atenção pela obsolescência dos veículos e pela fumaça emitida.

No feriado de 7 de Setembro, a crise chegou ao ápice quando Bolsonaro levou milhares às ruas e fez um discurso golpista no qual afirmou que seu governo não acataria mais determinações do ministro Moraes. Apoiadores extremistas do presidente manifestaram entusiasmo, como se um golpe estivesse a caminho. No entanto, Bolsonaro decidiu recuar horas depois.

Com participação do ex-presidente Michel Temer, divulgou uma "Declaração à Nação" minimizando os ataques. A crise com o STF arrefeceu, mas em dezembro Bolsonaro mostrou mais uma vez que seus recuos são sempre temporários ao voltar a atacar os ministros da Corte.

Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Blindados em frente ao Planalto. Encurralado e em desvantagem 

nas pesquisas, presidente tentou fazer várias demonstrações de força em 2021

Bolsonaro ainda atacou a imprensa ao menos 68 vezes entre janeiro e dezembro de 2021, segundo a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji). Em duas ocasiões, seguranças da Presidência atacaram fisicamente repórteres e o presidente chegou a chamar um jornalista de "idiota” e mandou que outro calasse "a boca". Em julho,  Bolsonaro passou a constar numa relação de líderes mundiais que a organização Repórteres Sem Fronteiras considera "predadores da liberdade de imprensa", ao lado dos chefes de Estado da Síria, Bashar al-Assad, e da China, Xi Jinping.

CPI expõe "estratégia macabra" de Bolsonaro

Ao longo de quase seis meses de trabalho, a CPI da Pandemia expôs o que foi descrito no relatório final como uma "estratégia macabra" do governo Bolsonaro para lidar com a pandemia.

Resultando em 78 pedidos de indiciamento, o colegiado pintou a atuação do governo federal durante a pandemia como negligente, incompetente, anticientífica, corrupta, macabra, caótica, criminosa e decisiva para que o Brasil produzisse o desastre que já ceifou oficialmente mais de 600 mil vidas.

A CPI também concluiu que o governo optou por expor "deliberadamente a população a risco concreto de infecção em massa" ao recusar a adoção de simples medidas de distanciamento – como máscaras – e abraçar a promoção do ineficaz "tratamento precoce". Tudo para buscar uma "imunidade de rebanho" por contaminação natural, mesmo diante das evidências de que milhares de brasileiros morreriam nesse processo.

"A ideia era permitir que o novo coronavírus se propagasse livremente", concluiu o relatório, que pediu o indiciamento de Bolsonaro por crimes contra a humanidade, charlatanismo, incitação ao crime e fraude, entre outros crimes.

Muitos dos itens no relatório já eram conhecidos. No entanto, a CPI foi palco de revelações inéditas, como os esquemas de corrupção no Ministério da Saúde, que contaram com militares e personagens obscuros de empresas de fachada. A CPI ainda detalhou a atuação sinistra da empresa de planos de saúde Prevent Senior na elaboração de estudos ilegais e fraudulentos para comprovar a suposta eficácia do "tratamento precoce".

Também foi exposta a atuação do "gabinete paralelo", uma estrutura obscura de aconselhamento à parte do Ministério da Saúde e formada por entusiastas de tratamentos ineficazes, céticos das vacinas e da pandemia e leigos em saúde.

A CPI provocou desgaste para o governo, mas não foi suficiente para forçar uma mudança de rumo decisiva nas políticas negacionistas. Quando o colegiado ainda estava em funcionamento, Bolsonaro tentou agir para interromper a vacinação de adolescentes. Na reta final do ano, fez o mesmo em relação as crianças e voltou a repetir que não vai tomar vacina. "Quer melhor vacina, comprovada cientificamente, do que a própria contaminação?", disse em 5 de dezembro.

 Foto: Jefferson Rudy/Agencia Senado

CPI da Pandemia causou desgaste ao governo ao expor estratégia do governo de deixar o coronavírus circular livremente pelo país e revelar casos de corrupção no Ministério da Saúde

Seis por meia dúzia nos ministérios

Em um ano de desgaste, Bolsonaro perdeu alguns aliados na Esplanada dos Ministérios. Entre eles estavam alguns dos membros mais histriônicos do governo, como  Ricardo Salles (Meio Ambiente) e Ernesto Araújo (Relações Exteriores), que se destacaram por implementar agendas paranoicas de extrema direita ou por desmontar as políticas das duas pastas. Araújo teve seu cabeça entregue para apaziguar o Senado. Salles pediu demissão após ser acusado de beneficiar criminosos que exportavam madeira ilegalmente.

Na Saúde, o obediente Eduardo Pazuello deixou o cargo em março, deixando como legado mais de 260 mil mortos por covid-19 que foram registrados sob sua guarda e o fraudulento "tratamento precoce" como política pública, além de ter falhado em comprar vacinas.

Mas essas trocas nas chefias não resultaram em nenhuma mudança de rumo nas pastas.

O substituto de Pazuello, Marcelo Queiroga, rapidamente passou a agir como um mero executor das ordens de Bolsonaro, travando a vacinação de crianças e a adoção do passaporte sanitário, além de não ter agido para expandir a testagem. Mais recentemente, Queiroga passou a repetir bordões vazios de Bolsonaro como "'melhor perder a vida do que a liberdade” e provocou indignação ao afirmar que o número de crianças mortas por covid-19 não implica na tomada de decisões emergenciais. Antes disso, o ministro já havia sido alvo de críticas por fazer um gesto obsceno para manifestantes antibolsonaristas em Nova York.

 Foto: Evaristo Sa/AFP

Queiroga e Pazuello: uma troca cosmética. Ministério da Saúde

 continuou a ser comandado por Bolsonaro

No Meio Ambiente, o fazendeiro Joaquim Leite se mostrou mais discreto que seu antecessor, mas manteve a mesma política implementada por Salles. Na COP26, atraiu críticas ao afirmar que "onde há muita floresta, há muita pobreza". Ainda sob Leite, a Amazônia registrou a maior destruição em 15 anos.

Na Defesa, Fernando Azevedo e Silva foi substituído por Walter Braga Netto, que ocupava a Casa Civil. A saída de Silva gerou uma crise, com os comandantes da três armas deixando os cargos, gesto não visto desde a redemocratização.

 Foto: Marcos Corrêa/PR

Pouco mudou no Meio Ambiente com a saída de Salles

Nos bastidores, a queda de Silva foi atribuída à pressão de Bolsonaro para que o então comandante do Exército, Edson Pujol, se manifestasse contra governadores que impunham medidas contra a pandemia. Com Braga Netto, Bolsonaro conseguiu o que desejava. Em julho, o ministro e os novos comandantes militares chegaram a assinar uma carta tentando intimidar o presidente da CPI da Pandemia, Omar Aziz.

No Itamaraty, Araújo deu lugar a outro diplomata com histórico de pouca expressão, Carlos França. Embora considerado mais pragmático por políticos da oposição, o novo ministro não deu uma guinada decisiva no Itamaraty. Embaixadores bolsonaristas foram mantidos em postos como Washington e Paris e França chegou a participar do ato golpista de 7 de Setembro.

Em última instância, como ocorre em todos os ministérios, a última palavra é do extremista Bolsonaro. O presidente fez questão de criar tensões ou embaraços diplomáticos ao longo do ano, como ao acusar sem provas a China de ter criado o coronavírus e afirmar que Donald Trump foi vítima de fraude nos EUA.

Sempre pária internacional

Em 2021, o isolamento do Brasil continuou a se aprofundar. Bolsonaro perdeu aliados como o americano Donald Trump, o israelense Benjamin Netanyahu e mais recentemente viu um candidato de esquerda triunfar no Chile.

O isolamento e a inabilidade do governo no cenário internacional foram mais uma vez escancarados com a agenda esvaziada de Bolsonaro durante um giro pela Itália, em outubro. Na reunião de cúpula do G20, ele não teve nenhuma agenda bilateral com outros líderes do grupo das 20 maiores economias – com exceção de um encontro protocolar com o anfitrião da reunião. Solitário e incapaz de construir relações, Bolsonaro se viu reduzido a em alguns momentos a conversar com garçons durante a reunião.

 Foto: Team von Storch/dpa/picture alliance

Bolsonaro recebeu membros da ultradireita alemã

A inabilidade também se revelou quando o presidente ignorou a presença do social-democrata alemão Olaf Scholz em uma roda de conversa com o líder turco Recep Tayyip Erdogan. Scholz havia vencido a eleição alemã e em poucas semanas se tornaria chanceler federal, mas Bolsonaro aparentemente não sabia de quem se tratava.

Sem amigos entre os grandes líderes mundiais, Bolsonaro preferiu travar em 2021 contatos com políticos da cena de ultradireita mundial, como o ex-ministro italiano Matteo Salvini e a deputada alemã Beatrix von Storch – este último encontro provocou críticas de entidades judaicas brasileiras. Em novembro, enquanto Lula era recebido por líderes europeus como Scholz e o francês Emmanuel Macron, Bolsonaro fez um giro por uma série de ditaduras árabes.

No plano ambiental, a falta de confiança no Brasil continuou a se aprofundar. Durante a Cúpula do Clima, as autoridades brasileiras se comprometeram a acabar com o desmatamento até 2030, mas poucos levaram a promessa a sério. Para piorar, o governo foi acusado por ambientalistas de atrasar a divulgação de números recordes de desmatamento para evitar críticas durante a cúpula. Dias antes do início da COP26, Bolsonaro também visitou um garimpo ilegal numa terra indígena. Semanas depois, a tolerância do governo com a atividade ilegal foi escancarada quando centenas de dragas irregulares de garimpeiros tomaram o rio Madeira.

A rejeição na Europa a um acordo com o Mercosul também continuou a avançar, alimentadas em grande parte pelas política antiambientais de Bolsonaro. Em fevereiro, a França reiterou que é contra o pacto nos "termos atuais" e em março a Áustria se posicionou contra a ratificação.

Poucos dias depois da COP26, a Comissão Europeia também apresentou um projeto de lei que propõe proibir a importação de todos os produtos provenientes de áreas desmatadas, sem fazer exceções se leis locais permitem ou não esse desmatamento, numa ação que deve atingir em cheio o Brasil e seu Código Florestal.

 Foto: Alan Santos/Präsidentschaft der Republik (PR)

Bolsonaro em uma de suas repetitivas "motociatas". Enfraquecido, presidente apostou em demonstrações artificiais de apoio - que regularmente foram menores do que a máquina de propaganda bolsonarista queria fazer crer

Lula volta ao jogo

Em 8 de março, o ministro do STF Edson Fachin decidiu pela anulação de todas as condenações do ex-presidente Lula no âmbito da Lava Jato. A decisão recolocou efetivamente Lula de volta ao jogo político e o cacifou para disputar novamente a Presidência. Em junho, foi a vez de o tribunal considerar o ex-juiz Sergio Moro, antigo algoz de Lula na Lava Jato, suspeito para atuar nos processos contra o petista. "Sempre acreditei que a verdade ia vencer", disse Lula após a anulação.

Nos meses seguintes, Lula passou a liderar todas as pesquisas eleitorais para o pleito de 2022. Em dezembro, o Datafolha apontou que ele tinha 48% da preferência do eleitorado e poderia vencer a eleição já no primeiro turno.

O petista ainda fez giros internacionais para contrastar com a má imagem de Bolsonaro no exterior. Lula foi recebido entre outros por Olaf Scholz, o primeiro-ministro espanhol Pedro Sánchez e discursou para eurodeputados de esquerda no Parlamento Europeu. Na França e na Argentina, foi recebido com honras de chefe de estado pelos presidentes Macron e Alberto Fernández, dois desafetos de Bolsonaro.  "Outro Brasil é possível. E vamos lembrar o mundo disso", disse Lula.

 Foto: Ricardo Stuckert/Instituto Lula

Lula e o novo chanceler federal da Alemanha, Olaf Scholz. Favorito nas pesquisas, petista fez giro bem-sucedido pela Europa para contrastar com isolamento de Bolsonaro

Lava Jato chega ao fim, e ex-estrelas ensaiam bolsonarismo sem Bolsonaro

As decisões do STF a favor de Lula também fizeram com que a Lava Jato perdesse seu principal "troféu". Em 2021, a operação efetivamente chegou ao fim, sem alarde e sem lamentos expressivos, contrastando com o barulho que suas fases provocaram entre 2014 e 2018. Em fevereiro, o núcleo original de procuradores operação de Curitiba foi extinto. Em março, o mesmo ocorreu com a força-tarefa no Rio de Janeiro.

 Foto: Adriano Machado/REUTERS

Moro se filiou ao pequeno Podemos em 2021

No final, a aliança tumultuada dos seus membros com o bolsonarismo e o escândalo de vazamento de mensagens de 2019 aceleraram o declínio da operação.

Mesmo com a Lava Jato chegando a um fim melancólico e acumulando de críticas, seus principais atores passaram 2021 traçando estratégias para espremer dividendos políticos da antiga popularidade da operação. Em novembro, Moro entrou oficialmente para a política partidária indicou que pretende concorrer à Presidência em 2022. Dez dias depois, o aliado de Moro e ex-procurador Deltan Dallagnol seguiu o exemplo.

Moro passou as últimas semanas do ano tentando se posicionar como uma "terceira via" entre Lula e seu antigo aliado de extrema direita Bolsonaro, de quem foi ministro.

Mas o ex-juiz, que já acumulava acusações de ter agido de forma ilegal na Lava Jato – especialmente contra Lula –, logo passou a ser criticado por soar como um candidato de "uma nota só" ao focar seu discurso no combate à corrupção. Embora tenha conseguido despertar o interesse em setores da imprensa, que passaram a cobrir – e promover – sua rotina de pré-candidato de forma insistente, Moro ainda não conseguiu decolar nas pesquisas, marcando apenas 9% no último Datafolha, demonstrando que, por enquanto, sua modalidade de "bolsonarismo sem Bolsonaro" ainda não se firmou de forma competitiva.