quinta-feira, abril 18, 2013

Arrumar o futuro


Carlos Alberto Sardenberg 
O Globo

É preciso colocar a economia em ordem, sem inflação, sem dívidas excessivas, abrir espaço para um futuro adequado

Tem jeito para tudo ou, vá lá, para quase tudo — é o que nos diz o FMI em seu último Panorama Econômico Mundial. Os alemães, por exemplo, dariam uma boa ajuda à Europa se gastassem mais, tanto as famílias quanto o governo. E deveriam gastar comprando coisas dos vizinhos em dificuldades, além de viajar para lá.

Já os franceses precisam trabalhar mais e economizar mais. Precisam também criar condições para isso, com uma boa reforma para aumentar a competitividade de seus produtos.

Italianos, portugueses e gregos não têm outro jeito senão prosseguir na austeridade para equilibrar dívidas públicas e privadas. Mas, cuidado. Excesso de austeridade pode matar.

Japoneses fizeram muito bem em iniciar políticas de estímulo ao consumo para sair da recessão. Uma "inflaçãozinha", uns 2% ao ano, seria boa ajuda para convencer as pessoas a gastar mais.

Mas o governo não pode se esquecer de que carrega uma dívida enorme que, em algum momento, terá de ser reduzida.

Isso também vale para os americanos. Tudo bem com a política de gastos agora, mas devem ao menos dizer quando voltam à austeridade para reequilibrar as finanças públicas.

Os emergentes fizeram um bom papel até aqui, mantendo um bom ritmo de crescimento, mas precisam voltar a cuidar dos fundamentos. Quais? Os clássicos: inflação baixa e estável, de menos de 3% ao ano, contas públicas equilibradas, dívida externa financiável.

E todos, literalmente, precisam fazer reformas estruturais. São de dois tipos. No primeiro grupo, estão as reformas destinadas a garantir financiamento de longo prazo para os gastos que mais pressionarão o bolso das famílias: aposentadorias e saúde. A causa é a mesma: com melhores condições, as pessoas estão vivendo mais.

Poderão dizer: mas isso é responsabilidade dos Estados. Tudo bem, mas continua saindo do bolso das famílias, que pagam os impostos direta ou indiretamente. Ou seja, a coisa é mais complicada: é preciso construir esquemas para financiar tanto gastos públicos quanto privados.

Isso exige a criação de estímulos e condições para que os jovens de hoje poupem para financiar seu futuro. Mas também exige que os, digamos, mais maduros, na ativa, trabalhem um pouco mais e contribuam um pouco mais.

Há aí uma clara dificuldade política e psicossocial: sacrifícios no presente para ganhos lá na frente e, em parte, ganhos da outra geração.

O segundo grupo de reformas tem como objetivo abrir caminhos para o desenvolvimento da educação, ciência, tecnologia e inovação. Considerem só um caso: comida.

A população mundial cresce mais no lado emergente, onde há também expansão econômica e, pois, ganho de renda. Portanto, são pessoas deixando a pobreza, ingressando nas classes médias, o que significa maior consumo de alimentos.

No outro lado da equação, há escassez de terra cultivável e ambientes já degradados. Conclusão: é preciso produzir mais alimentos, mais nutritivos, em espaços menores, sem destruir o que sobra de natureza e, de preferência, refazendo o que foi destruído.

Isso depende de ciência e tecnologia — ou seja, de boas escolas e institutos de pesquisa — mas também de instituições que permitam a passagem do conhecimento para a inovação prática nos campos e nas fábricas.

A Embrapa, por exemplo, está desenvolvendo uma vaca transgênica, de cujo leite se poderá extrair insulina. Em outras pesquisas, aqui e lá fora, nos setores público e privado, também estão sendo desenvolvidos bois e vacas que produzem carne mais saudável e mais nutritiva, em menos tempo de vida. Há uma vaca que produzirá leite sem lactose. E por aí vai — difícil e complexa realização. Entretanto, aqui no Brasil e em vários outros países, mais difícil e complexo será passar pelas diversas instâncias governamentais para obter a aprovação legal dessas vacas. Sem contar o inevitável debate "político" — seria a vaca transgênica um fruto proibido do agronegócio capitalista? — o que pode atrasar ainda mais esse processo.

Aqui também se está preparando o futuro. Esses alimentos ficarão prontos para as novas gerações, mas seu desenvolvimento tem de ser pago pelas atuais.

É verdade que sempre foi assim, uma geração preparando para a outra, mas nem sempre funciona. Não raro, os de hoje criam problemas para os de amanhã. E parece que o momento atual, no mundo, é decisivo. As gerações atuais usufruem de avanços extraordinários obtidos ao longo do século passado, graças aos quais vivemos mais e melhor, mas está chegando a hora de pagar a conta.

O que nos leva de volta ao começo: é preciso colocar a economia em ordem, sem inflação, sem dívidas excessivas, abrir espaço para um futuro adequado.
Falar é fácil.

Os importantes


J. R. Guzzo
Revista  VEJA

O cidadão brasileiro Eike Batista, controlador de um conjunto de empresas com sede no Rio de Janeiro, faz parte de um certo tipo de gente que acaba classificada como “importante”. Eis aí uma palavra de significado duvidoso. Pode ser uma descrição positiva para algo ou para alguém. Pode ser também, e aí a coisa já complica, uma boia de salvação para valorizar pessoas, obras ou acontecimentos quando não existe, no mundo dos fatos reais, um mínimo de fundamento capaz de justificar essa valorização. Não importa se uma pessoa tem ou não tem virtudes. Não importa, na verdade, o que tenha feito ou deixado de fazer. Basta conseguir que a chamem de “importante” – vai passar a vida inteira sendo elogiada, sem que ninguém nunca saiba exatamente por quê, e sem que precise mostrar serviço.

É um fenômeno muito comum na cultura. Há o “escritor importante” – mas ninguém se lembra de um único livro realmente bom que tenha escrito. Há, na mesma linha, o músico, o pintor, o diretor de cinema, o filósofo, o crítico que ganham a comenda de “importante” – e até mesmo, nos casos de bobagem em estado terminal, os que são considerados os “mais importantes de sua geração”. Não é difícil, nisso tudo, separar o artigo legítimo do cavalo paraguaio. Nunca passa pela cabeça de ninguém, digamos, dizer que Camões é um “escritor importante” – ele é, apenas, Camões. Não precisa ser chamado de “importante”; tem a fama porque tem a obra. Já no caso das eminências com méritos desconhecidos, é o contrário: não têm a obra, só têm a fama.

A causa disso está nos jornalistas, uma espécie que, pelas condições naturais do seu habitat, desenvolve um forte instinto de manada; se um deles, ou um grupo, começa a falar de um assunto, a maioria sai correndo atrás para falar da mesma coisa, o tempo todo. É o que aconteceu com Eike Batista. Alguns anos atrás, ele começou a aparecer na mídia; logo ganhou dos jornalistas o certificado de “empresário importante”, e desde então é raro que se passem três dias seguidos sem que o seu nome seja citado em algum lugar. Ajudaram-no, sem dúvida, o fato de ter aparecido nessas listas de homens “mais ricos do mundo”, cuja veracidade é algo que jamais foi possível provar de maneira satisfatória, e sua disciplina em manter-se à disposição da imprensa 24 horas por dia. Mas onde estão, precisamente, seus feitos concretos como empresário?

Eike, no noticiário, está num eterno “vai” – vai fazer, investir, negociar, estudar, comprar, vender, associar-se. Não se fala, depois, no resultado dessas intenções. Nem mesmo a mera reforma do histórico Hotel Glória, no Rio de Janeiro – que deveria ser coisa modestíssima para a imensidão de sua fortuna –, parece dar sinais de vida. Eike comprou o hotel cinco anos atrás. Nesse tempo todo, além da tela de malha sintética que cobre a sua fachada, tudo o que os cariocas puderam ver da reforma é que ela não vai ficar pronta para a Copa de 2014, como prometido, e que o BNDES já deu 200 milhões de reais para financiar a obra. Um dos seus poços de petróleo em alto-mar, que deveria produzir “20.000” barris por dia, viu-se discretamente reavaliado, depois, para 10.000, em seguida para 5.000; não se fala mais do assunto. Na verdade, o que mais se noticia hoje são as perdas de Eike: é o mesmo efeito manada, agora na contramão.

Problema dele? Não; infelizmente é problema nosso. Em sua última edição, VEJA mostrou, com fatos e fotos, Eike, o ex-presidente Lula e o lobista Amaury Pires Neto numa visita feita em janeiro ao Porto do Açu, no estado do Rio, uma das mais louvadas realizações do empresário importante – e que, como tantas outras, não decolam. (Esse Pires é homem de procedência garantida: demitido em 2011 do Fundo da Marinha Mercante, no meio da frenética roubalheira flagrada então no Ministério dos Transportes, tem linha direta com o deputado Valdemar Costa Neto, condenado a sete anos e dez meses de cadeia no mensalão.) Lula, aí, estava na mesma atividade de Pires – fazendo lobby em favor de Eike.

O objetivo era obter do governo a transferência para o Açu de um investimento estrangeiro de 500 milhões de reais. Lula foi à luta: pediu à presidente Dilma Rousseff que recebesse Eike, botou dois ministros a trabalhar para o empresário e envolveu até o Itamaraty nesse rolo. Isso não deu em nada, até agora, por falhas operacionais da trama. Mas provou que, além daqueles duzentinhos do BNDES, há uma proximidade perigosa entre Eike Batista e o Tesouro Nacional – perigosa não para ele, claro, mas para quem paga as contas do Brasil para Todos.

Lula privatizou a si mesmo


Guilherme Fiuza
Revista ÉPOCA

Esse é o Brasil moderno, onde as coisas acontecem às claras, inclusive o tráfico de influência

Ministério Público pediu à Polícia Federal abertura de inquérito contra Lula. A base do pedido é a denúncia de Marcos Valério, que o acusa de ter intermediado um repasse de R$ 7 milhões de uma telefônica para o PT. Valério afirmou que foi a Portugal em 2005 para preparar essa operação.

O Ministério Público parece que bebe. Será possível que os procuradores ainda não entenderam? Lula não sabia. Tanto não sabia, que até outro dia afirmava, para quem quisesse ouvir, que o mensalão não existiu. A condenação de seus companheiros mensaleiros, aliás, deve ter sido um choque para ele. Se é que ele já sabe o que aconteceu no Supremo Tribunal Federal.

É uma injustiça essa suspeita de armação petista para sugar milhões de uma empresa privada de telefonia. Todos sabem que o PT prefere extorquir empresas públicas. Até porque as estatais são coisa nossa (deles). Com tanto trabalho para chegar ao poder e passar a ordenhar os cofres do Banco do Brasil, da Caixa Econômica, do BNDES, por que Lula e sua turma perderiam tempo achacando uma telefônica portuguesa?

Ao receber a notícia sobre o inquérito contra Lula por suspeita de envolvimento com o valerioduto, José Dirceu reagiu imediatamente. E disparou o argumento fulminante: o mensalão não existiu. Se existe alguém com autoridade para afirmar isso, esse alguém é José Dirceu. Condenado a dez anos de prisão, ele sabe que essas coisas que não existem podem dar uma dor de cabeça danada. Se Lula não sabia de algo que não existiu, nada melhor do que ser defendido pelo lendário Dirceu, guerreiro do povo brasileiro – personagem que também não existe.

Enquanto o filho do Brasil espera esfriar a denúncia do pedágio colhido com a telefônica, recebe a solidariedade dos fiéis por seu trabalho com as empreiteiras. Sabe-se agora que Lula fez uma série de viagens internacionais bancadas por algumas grandes construtoras brasileiras. Ele explicou que isso foi um ato patriótico – foi ajudar empresas nacionais a fazer negócios no estrangeiro, para o bem do Brasil. Não restam mais dúvidas: a vida é bela. E é feita de gestos nobres como este: um ex-presidente aproveita seu tempo livre para fazer boas ações, ajudando empresários a ganhar dinheiro no exterior, porque país rico é país sem pobreza empresarial.

Aí surge um comovente coro de progressistas, éticos e crédulos para afiançar as turnês lulistas, gritando que Lula não fez nada demais. De acordo com a nova moral da república companheira, não fez mesmo. Qual o problema de o líder máximo do partido que governa o país desenvolver uma relação particular (ou patriótica) com grandes empreiteiras que têm o governo como cliente? Que mal haveria na ajuda de Lula a empresas decisivas no jogo político, com suas doações às campanhas eleitorais? Qual o problema de Lula ter viajado para a Venezuela para arrancar de Hugo Chávez US$ 1 bilhão, devido a uma dessas empreiteiras, que pagou a viagem de Lula? E se essa empresa for a mesma que realizará seu sonho de construir o estádio do seu clube de coração para a Copa do Mundo, fazendo a alegria de milhões de torcedores-eleitores fiéis?

Não tem problema nenhum. Esse é o Brasil moderno, onde as coisas acontecem às claras, inclusive o tráfico de influência. A não ser quando o ministro do Desenvolvimento declara secretos os documentos de financiamentos do BNDES a Cuba e Angola, para obras dessas mesmas construtoras amigas de Lula. Deve ser para a imprensa burguesa não meter o bedelho – sempre uma boa causa. Por acaso, o ministro do Desenvolvimento é Fernando Pimentel, amigo de Dilma que prestou consultorias milionárias à indústria de Minas Gerais. Como se sabe, essas consultorias nunca foram demonstradas. Devem ter sido também apenas um ato patriótico, nova definição para o velho ditado “uma mão lava a outra”.

Pelo visto, a mão que nenhuma outra lavou no final das contas foi a do companheiro Valério – logo ele, que lavou tanto para tanta gente. Agora, o operador do mensalão que não existiu quer mostrar a mão grande do chefe. Será mais um susto. Ele não sabia.

Olhar imediato


Míriam Leitão 
O  Globo

 O Brasil tem olhado muito para o imediato e pouco para as tendências. Olha o saldo comercial de cada mês esperando que ele volte para o azul, sem ver que o mundo inteiro está negociando alianças comerciais poderosas. Acredita que o investimento virá com os pacotes do governo, e há uma crise de confiança sobre as empresas brasileiras e do empresariado em relação ao crescimento.

O número da inflação estourou o teto, e o governo diz que é alta sazonal de alimentos. Existem preços que vão cair, mas o mundo está atravessando o nono ano consecutivo em que fatores climáticos extremos afetam safras de commodities. Os alimentos têm ficado mais caros na média. Além do mais, a inflação subiu estruturalmente do centro para o teto da meta. O país está sem espaço para acomodar choques. E eles sempre acontecem.

O governo comemora a revisão que fez nos contratos de energia elétrica, que foi o grupo que mais puxou a inflação para baixo. Como não comemorar uma conta de luz mais baixa? É ótima notícia. As más noticias que ninguém quer ouvir são as várias pressões elevando estruturalmente o preço da energia, a opacidade dos subsídios públicos na construção das hidrelétricas, e o uso das térmicas que anulará parte do efeito da queda dos preços. Pior, as empresas elétricas, sejam estatais ou privadas, ficaram sem capacidade de investir.

O grupo de Eike Batista foi tão celebrado como exemplo do capitalismo brasileiro e hoje está rondando o governo atrás de socorro. Tomara que ele supere os problemas que estão transformando em pó suas ações, mas ele se alavancou com IPOs em que prometeu o que não estava preparado para entregar e em empréstimos do BNDES para os quais deu como garantia ações cujo valor está se desfazendo.

Do laboratório do governo saem pacotes frequentes e, mesmo assim, o país está crescendo cada vez menos. Os dados mostram que o crescimento anual desenha uma escadinha que desce. O pibinho de 2012 não foi um ponto fora da curva, é o país que não tem conseguido crescer. Os dados de investimento desenham a mesma descendente: o país teve no ano passado queda da taxa de investimento.

No comércio exterior o mais sério não é o fato de que no primeiro trimestre de 2013 houve déficit, depois de termos nos acostumado com superávits. É que o volume de comércio não cresce e as escolhas que o Brasil tem feito são erradas ou estão atrasadas.

Há quem admita no governo que o comércio exterior anda mal. Os Estados Unidos negociam acordo com a Europa, a Ásia se une a países do pacífico do lado de cá do mundo, a China negocia acordos com os seus vizinhos da Ásia e com a África. O mundo gira, a lusitana roda, mas o Brasil não sai do lugar. Os Estados Unidos negociam acordos bilaterais com vários países da América do Sul. O Mercosul está hoje na mão da Argentina: um país em crise cambial, com ágio no dólar paralelo. O controle do câmbio na Argentina espanta até as empresas brasileiras; como podemos nos manter atados a eles nas negociações de comércio internacional?

As cinco estatais criadas em dois anos e quatro meses de governo Dilma fizeram algo pelo crescimento? Foram apenas mais cadeiras a serem oferecidas aos integrantes da aliança governamental, como se 39 ministérios não fossem o suficiente. O governo tem olhos apenas para as eleições de 2014 — tipo ideia fixa, obsessiva —, não o olhar para o horizonte à frente, necessário para agir preventivamente.

A oposição permanece dividida e mais interessada nas brigas intestinas e na administração das ambições do que em saber o que propor como alternativa diante do quadro de dificuldades do país. Uma nova candidatura apareceu dentro da órbita governamental. Parece, na sua ambiguidade, estar cunhando moeda de troca, e não oferecendo uma alternativa. Enquanto isso, o Congresso se esforça em bases diárias para perder a confiança do cidadão.

As projeções da maioria dos economistas do mercado financeiro só conseguem acertar se forem de curtíssimo prazo. A série histórica revela erros crassos. É o que preocupa, e não o fato de que na semana passada a inflação estourou o teto da meta. Este é apenas um dos sintomas do mal nacional: a falta de visão de para onde afinal de contas se quer ir.

O que nos diria a “Dama de Ferro”?


Paulo Rabello De Castro
Brasil Econômico

Emissão monetária desmedida não cria riqueza tangível. Tampouco o resgate ilimitado do sistema bancário

Perguntar aos mortos é, às vezes, mais fácil do que conversar com os vivos. Ao falecer, Margaret Thatcher retorna ao noticiário com a lembrança do que melhor nos deixou como exemplo de ação política tanto quanto sugestão de conduta nas nossas vidas privadas: ousar quando a vontade é de recuar; tentar o impossível como se fosse algo simples de fazer acontecer.

Mas esta – precisamos admitir – é uma receita para poucos, motivo pelo qual a “Dama de Ferro” tinha este apelido e despertava muita controvérsia e até algum rancor, daquele tipo que se alimenta entre estudantes quando uma diretora do colégio é considerada severa demais.

Thatcher deu um basta ao declínio britânico dos anos 1970, com inflação em 20% e 3 milhões de desempregados. Cortou despesa pública e fez recuar o esclerótico Estado empresário.

A fórmula de prudência econômica e fiscal parecia impossível num ambiente dominado pelas demandas de grupos de interesse, como os mineiros de carvão, os servidores públicos, então a seu próprio serviço, a indústria britânica esmagada pela competição e a moeda abalada pela inflação e a ação de especuladores, como George Soros que, na época, ganhou fama por fazer fortuna apostando contra a libra.

Os desafios de ontem, encarados por Thatcher e seu partido são os mesmos de hoje, com outras tintas e atores. O mundo entra no quinto ano de não-ajustamento e acomodação à explosão financeira de 2008.

As lideranças fracas do mundo preferem caminhar na adoção de afrouxamentos monetários sucessivos, sendo o mais recente anunciado pelo Japão, que comentamos aqui na semana passada.

Emissão monetária desmedida não cria riqueza tangível. Tampouco o resgate ilimitado do sistema bancário.

A maioria dos bancos no mundo dito desenvolvido continua apresentando níveis perigosos de exposição de ativos, não cobertos por patrimônio. Os endividados do mundo insistem na manutenção de gastos públicos que a sociedade que produz e paga impostos não consegue mais bancar.

E, do mesmo modo, a crescente desigualdade social e a evasão de impostos pelos ricos constitui marca registrada de uma economia de alto endividamento e baixo investimento.

Todas essas distorções dos tempos atuais mereceriam desaprovação de Thatcher. No entanto, a qualidade principal da Dama de Ferro não estava em saber reprovar, mas em saber propor e executar.

Por isso, virou o jogo no seu país recolocando a Inglaterra, decadente e deslocada de seu passado glorioso, no seu devido lugar. Dos anos 1980 até a crise de 2008, a renda per capita britânica cresceu mais do que qualquer outro na zona do euro.

Margareth Thatcher esteve no centro dessa revolução econômica, ainda que incompleta e, no momento, cercada de incertezas quanto às saídas desta nova crise. Thatcher continuará personalidade polêmica.

Ela parecia não se importar com isso. Pelo contrário. Como estadista, sempre preferiu ser reconhecida por ter criado tanta riqueza para seus compatriotas e tantos exemplos positivos para o mundo.

Banho-maria


Dora Kramer 
O Estado de S.Paulo

Na última reunião de seu diretório nacional o PT anunciou o lançamento de campanhas para recolher assinaturas em apoio a duas emendas constitucionais: uma para instituir o financiamento público eleitoral e outra para ver se consegue criar alguma forma de controle estatal sobre o conteúdo produzido pelos meios de comunicação.

À primeira, o partido acrescentou dois ou três detalhes e deu o nome de "reforma política". A segunda batizou de "democratização dos meios de comunicação" e manteve o espírito do projeto de controle social da mídia que vem tentando tirar do papel desde que ganhou a primeira eleição presidencial e anunciou a criação de um conselho para fiscalizar a imprensa.

Por que recorrer à iniciativa popular se o governo tem maioria ampla no Congresso e, em tese, poderia ganhar a parada no voto?

Porque o partido já percebeu que ambos os debates são perdidos na sociedade e, assim, não pode contar com ajuda do Planalto nem com apoio dos partidos aliados no Parlamento.

Campo onde há interesses conflitantes não é seara em que governos gostem de transitar. Alguns ainda enfrentam brigas e delas é que resultam avanços. De um modo geral não compram todas elas. Mesmo Fernando Henrique Cardoso, que comprou a da abertura da economia iniciada no governo Collor, a dos monopólios, a da reforma do Estado e parte da Previdência, deixou outras pelo caminho.

Veio o PT e não só retrocedeu em importantes avanços da época de FH, como abandonou outros contenciosos. Estão aí por fazer a complementação da reforma previdenciária e a totalidade das reformas política, tributária e trabalhista. E para que não fosse importunada por cobranças, logo ao assumir a presidente Dilma Rousseff anunciou que deixaria esse desconforto de lado. Oficializou o abandono das reformas e assunto encerrado.

Se o tema é vencido qual a razão de voltarmos a ele? A seguinte: insistência do PT não deixar a questão do controle da imprensa sair da pauta em contraposição à decisão do governo deixá-lo dormir em berço esplêndido.

No meio disso, há a necessidade incontestável de se regulamentar artigos da Constituição de 1988 sobre o funcionamento dos veículos comunicação, além da premência de se organizar legalmente os meios que se disseminaram de lá (quando, por exemplo, não existia internet) para cá.

A última manifestação da presidente Dilma Rousseff a respeito, para o ministro das Comunicações Paulo Bernardo, foi dizer a ele que estava "conduzindo muito bem o assunto" quando recentemente concordou com a necessidade de se debater o chamado marco regulatório, mas acrescentou que isso seria feito no "momento adequado".

Como o governo não vislumbra essa adequação no horizonte, a presidente quis dizer ao ministro que a coisa é para ficar assim mesmo, em banho-maria. Até quando? Sabe-se lá.

E justiça seja feita: não se deve apenas àquele grupo do PT que tem um chilique autoritário a cada vez que é publicada uma denúncia envolvendo o governo ou o partido.

Deve-se a isso também, mas há a outra face da moeda: os interesses conflitantes entre partidos e empresas de comunicação, notadamente as proprietárias de canais de televisão. Os políticos não querem mexer no assunto porque grande parte ou tem emissoras (rádio ou TV) ou é, de alguma forma, ligada a elas.

As grandes redes puxam cada qual para a respectiva sardinha e já deixaram isso muito claro às autoridades competentes. Exemplo de temas em torno dos quais reina a discórdia: aluguel de horário para programas independentes (aí incluídos, e principalmente, os espaços ocupados por igrejas de todo tipo) e obrigatoriedade de um determinado porcentual de programação local.

É um tiroteio. E dele o governo fica distante para não levar uma bala perdida.

Maioria a serviço


Merval Pereira 
O Globo

A intensa movimentação governista nos bastidores do Congresso para impedir que novos partidos tenham direito ao Fundo Partidário e, principalmente, ao tempo de propaganda eleitoral de rádio e televisão proporcional a sua bancada, só demonstra o temor do Palácio do Planalto com candidaturas alternativas de oposição, como a da ex-senadora Marina Silva ou a do governador de Pernambuco Eduardo Campos.

Será vergonhoso caso a maioria governista obtenha êxito na tentativa de neutralizar a ação política desses novos partidos — há ainda o Solidariedade, do líder da Força Sindical Paulo Pereira da Silva — pois meses atrás o governo ajudou no que pôde o então prefeito de São Paulo Gilberto Kassab na formação do PSD, que desidratou o partido de oposição DEM.

O partido de Kassab teve que ir ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) para garantir seu direito ao tempo de televisão, que o DEM queria vetar, e o assunto acabou sendo decidido pelo Supremo Tribunal Federal(STF) “em abstrato”, isto é, tratando o assunto de maneira abrangente, sem se referir ao caso específico do PSD. Na ocasião, vários ministros se manifestaram sobre o que seria um efeito deletério da decisão.

O ministro Joaquim Barbosa disse que a consequência não seria boa, enquanto Cezar Peluso e Marco Aurélio Mello, antevendo os perigos para a democracia que a decisão poderia produzir votaram pela igualdade na disputa eleitoral, com o tempo da propaganda sendo dividido igualmente entre todos os candidatos.

Os votos do ministro Marco Aurélio Mello são exemplos evidentes da confusão instalada no quadro partidário. Ele votou no Tribunal Superior Eleitoral contra a formação do PSD, mas, diante da aprovação da sigla, viu-se na obrigação de votar a favor do direito do novo partido de receber sua parcela proporcional do Fundo Partidário.

Para não se comprometer com o erro, votou no Supremo pelo fim da distribuição do tempo de acordo com as bancadas da Câmara, pois considera que esse sistema de divisão provoca a formação de partidos de aluguel que vivem de seus tempos de propaganda eleitoral.

Os ministros que concordaram com a tese de que os partidos formados dentro da legislação da fidelidade partidária, que abre uma janela para a mudança de legenda para a formação de um novo partido, têm o direito ao tempo de seus membros basearam- se na realidade criada pela legislação.

Mesmo que jamais tenha disputado uma eleição, esse partido teria que ter meios de subsistir até a próxima eleição e tempo de propaganda eleitoral correspondente à bancada que formou — no caso do PSD, uma das maiores da Câmara, com 52 deputados.

Na verdade, essa decisão do Supremo significou a institucionalização da venda do tempo de televisão e criou um pretexto para que os partidos já estabelecidos, como PT e PMDB e inclusive o PSD, tentem agora barrar novos entrantes sob a alegação de que estão combatendo as legendas de aluguel, e não este ou aquele partido específico.

O problema é que essa decisão tomada agora, quando as forças políticas estão se organizando para as eleições presidenciais, ganha uma dimensão de prepotência que lhe tira toda a autoridade moral, colocando a maioria do Congresso a serviço da candidatura à reeleição da presidente Dilma Rousseff.

Mesmo que a fusão do PPS com o PMN consiga se viabilizar antes da entrada em vigor da nova lei, haverá uma insegurança jurídica que dificultará a troca de partidos para apoiar a candidatura de Eduardo Campos. E os partidos de Marina e Paulo Pereira da Força Sindical estarão comprometidos.

O mais sensato parece ser a proposta do governador de Pernambuco Eduardo Campos: que as novas regras só valham para depois da eleição de 2014. Mas não estamos propriamente num terreno em que atuem cavalheiros.

A formação de um povo


Lya Luft
Revista VEJA

A formação de um povo pode ser olhada sob vários aspectos. Aqui eu falo da formação cultural, informação, crescimento, consciência dos direitos e deveres de quem vive numa democracia verdadeira, que se interesse por um povo formado e informado.

Aqui entra primariamente a educação, que venho comentando sem conseguir esgotar, assunto inexaurível na vida privada de todo cidadão e na existência geral de um povo. É preciso ter em mente que, para os líderes, sejam quais forem, esse deve ser um interesse primordial em sua atividade.

A mim me preocupa a redução do nível de formação e informação que nos oferecem. Escrevi muito sobre as cotas, com que, em lugar de melhorar a educação pela base, subindo o nível do precário ensino elementar, se reduz o nível do ensino superior, para que se adapte aos que lá entram mais por cota do que por mérito e preparo, em lugar de ser, como deveria, o inverso.

Com isso, nosso ensino superior, já tão carente e ruim, com algumas gloriosas exceções, piora ainda mais. Vejam-se os dados assustadores de reprovação, no exame da Ordem dos Advogados do Brasil, de candidatos saídos dos nossos cursos de direito.

Os exames de igual caráter para egressos de cursos de medicina ainda não apresentam resultado tão incrivelmente ruim, mas começam a nos deixar alertas pois esses médicos vão lidar com o nosso corpo, a nossa vida.

Estudantes de letras frequentemente nem sabem ortografia, e mais: não conseguem se expressar por escrito, não têm pensamento claro e seguro, não foram habituados, desde cedo, a argumentar, a pensar, a analisar, a discernir, a ler e a escrever.

Agora, pelo que leio, parece que vão conseguir piorar ainda mais a situação, pois a meninada só precisa se alfabetizar no fim do 3º ano da escola elementar. Pergunto: o que estarão fazendo nos primeiros dois anos de escola? Brincando? Gazeteando? A escola vai fingir que está ensinando, preparando para a vida e a profissão? E os pais que se interessam, o que podem esperar de tal ensino?

Aos 8 anos, meninos e meninas já deveriam estar escrevendo direito e lendo bastante — claro que em escolas públicas de qualquer ponto do país onde os governos tivessem colocado professores bem pagos, seguros e com boa autoestima em escolas nas quais cada sala de aula tenha uma prateleira com livros doados pelos respectivos governos, municipal, estadual ou federal, interessados na formação do seu povo.

Qualquer coisa diferente disso é ilusão pura. Não resolve enviar centenas de jovens ao exterior ou trazer estudantes estrangeiros para cá, se a base primeira do ensino é ruim como a nossa, pois não adianta um telhado de luxo sobre paredes rachadas em casas construídas sobre areia movediça.

Como não adianta dar comida a quem precisaria logo a seguir de estudo e trabalho que proporcionasse crescimento real, projetos e horizontes em lugar da dependência de meninos que não conseguem largar o peito materno mesmo passada a idade adequada.

O que vai acontecer? Com certeza vai se abrir e aprofundar mais o fosso entre alunos saídos de escolas particulares que ainda consigam manter um nível e objetivo de excelência e a imensa maioria daqueles saídos de escolas públicas ou mesmo privadas em que o rebaixamento de nível se instalar.

Grandes e pequenas empresas e indústrias carecem de mão de obra especializada e boa, milhares de vagas oferecidas não são preenchidas porque não há mão de obra preparada: imaginem se a alfabetização for concluída no fim do 3o ano elementar, quando os alunos tiverem já 8 anos, talvez mais, quando e como serão preparados?

Com que idade estarão prontos para um mercado de trabalho cada vez mais exigente? Ou a exigência também vai cair e teremos mais edifícios e outras obras mal construídos, serviços deixando a desejar, nossa excelência cada vez mais reduzida?

Não sei se somos um povo cordial: receio que sejamos desinteressados, mal orientados e conformados, achando que é só isso que merecemos. Ou nem pensando no assunto.

Autonomia da escola


Marco Lucchesi
O Globo

Em certa escola pública assistimos a imposições de secretarias despreparadas, movidas pelo fetiche das estatísticas, dos índices trazidos por improvisados pedagogos

Levamos séculos para descobrir que a infância não é uma doença que ataca os seres humanos quando nascem, tão dependentes e incompletos se mostram. A criança não passaria de um adulto imperfeito, para o qual se devem ministrar remédios, que consistem em apressar-lhe o crescimento, mediante atribuição de tarefas e compromissos, que dissolvam a profunda poesia em que se move. Um crime de lesa-humanidade que se prolonga, infelizmente, sob diversas modalidades.

Leio o programa de uma escola que oferece, a meninos e meninas de 6 até 11 anos, aulas de economia e administração. E acrescenta uma gloriosa possibilidade de que se tornem milionários, dentro de vinte anos, ou quem sabe antes, através de “sólido projeto de educação financeira”. Não deixa de ser uma forma de considerar as crianças. Como se fossem um bônus do tesouro, um bom investimento a médio e longo prazo.
Existem, obviamente, propostas mais elaboradas com fins sociais e educativos, que merecem análise e discussão. Mas o problema é outro, no risco de uma escola que se transforma em agência de segunda classe, que já elabora seu projeto filosófico, toda de joelhos para o mercado, sem um programa de cooperação e liberdade, dissolvendo o território frágil da infância. Uma escola que, de modo geral, não propõe um livro de literatura, que não conhece atividades artísticas, além das acessórias para substituir uma eventual falta de aula, com alunos em permanente estado de competição, como se vivessem dentro da bolsa de valores, de olho no índice Bovespa, sem uma sombra de cortesia, sem o fóssil de um gesto solidário. Eis uma escola pronta a atender o projeto de meia-humanidade, em que desabam as dimensões lúdicas e afetivas, sem a urgente e necessária defesa dos sonhos.

Em certa escola pública assistimos a imposições de secretarias despreparadas, movidas pelo fetiche das estatísticas, dos índices trazidos por improvisados pedagogos, que empreendem uma guerra santa contra os “verdadeiros inimigos” da escola, que seriam justamente alunos e professores, que não colaboram no alcance das metas, como se a educação dependesse apenas do milagre da multiplicação dos peixes e dos formulários da burocracia, em detrimento da dignidade dos que trabalham nessa mesma escola, superando ásperos desafios, que os tecnocratas não poderão jamais avaliar, por absoluta incompetência.

Trata-se da defesa de uma escola autônoma, com um projeto amadurecido, robusto, sem favores e concessões, diante de vontades que apressem as crianças para fins não generosos, como se fossem bens flutuantes ou cifras eleitorais, que se pode usar sem grandes problemas.

Precisamos de uma escola de valores democráticos fundamentais, de uma escola corajosa, que ande, quando preciso, na contramão e favoreça o território de uma viva subjetividade.

Diretor da escola: o protagonista esquecido


Gustavo Ioschpe
Revista VEJA

Um erro que cometemos é imaginar que o diretor é um mero burocrata responsável por administrar as instalações físicas da escola

Quando se fala em educação, logo se pensa em professores e alunos. Cada vez há mais indícios, porém, de que esse foco na sala de aula é o ípico caso em que não conseguimos ver a floresta por estarmos tão preocupados com as árvores. Salas de aula não flutuam por aí, afinal: o locus do ensino é a escola, uma organização bastante complexa. que precisa reter bons profissionais, interessar e estimular alunos e agradar a pais e líderes políticos. Quem rege essa orquestra toda é o diretor escolar.

Sabemos relativamente pouco sobre ele. Alguns estudos mostram que a maneira como um diretor chega ao cargo é importante: escolas que têm diretor escolhido por processos que envolvem provas seguidas de eleições, ou pelo menos via eleição, têm alunos que aprendem mais do que aquelas em que o diretor é fruto de indicação política. Como costuma acontecer no Brasil, privilegiamos o caminho errado: os últimos dados mostram que 46% dos diretores de nossas escolas chegaram ao posto por indicação de alguém.

Outro erro que cometemos é imaginar que o diretor é um mero burocrata responsável por administrar as instalações físicas da escola e passar um corretivo nos baderneiros. O bom diretor, porém, faz bem mais do que isso. No livro “Organizing Schools for Improvement”. os autores definem bem as quatro áreas que o gestor escolar deve dominar: capacitação dos professores, criação de um clima propício ao aprendizado, envolvimento com a família e ensino ambicioso, visando ao ingresso na universidade.

Alguns desses quesitos são difíceis de medir e quantificar. O trabalho de um bom diretor é indireto: assim como se nota o trabalho de um bom técnico pelo desempenho de seus jogadores, a virtuosidade de um diretor se manifesta pelo trabalho de seus professores. Um bom diretor consegue criar um clima ordeiro e organizado, em que alunos e professores podem dar o seu melhor com o mínimo de interrupções. Pesquisas demonstram que alunos aprendem mais naquelas escolas em que há um clima positivo e onde os professores reconhecem a liderança do seu diretor. 

Pesquisas internacionais (todas disponíveis em twitter.com/gioschpe) comprovam que, quando o diretor tem poder para contratar e demitir professores, os alunos têm desempenho melhor. Outra pesquisa mostra que os diretores têm boa capacidade para prever, antes da contratação, quais serão os professores excelentes e quais os ruins. Faria sentido, portanto, mudar o processo de seleção de professores, que hoje se resume a um concurso público que avalia quase tudo — menos a capacidade do sujeito de ensinar um determinado conteúdo —, para um processo que envolva uma entrevista com os bons diretores escolares.

O bom diretor escolar é um líder pedagógico, além de ser um bom gestor. Nas escolas de primeiras séries, há evidências de que o conhecimento do diretor sobre as matérias ensinadas e sua intervenção nas práticas dos professores — especialmente aqueles com dificuldades — melhoram o desempenho dos alunos. Nos anos mais avançados, é impossível para um diretor dominar todas as áreas, de forma que seu impacto precisa ser indireto, mas não por isso ele é menos importante. Pesquisas sugerem, por exemplo, que em aulas de linguagem uma estratégia em que os alunos se engajam através de questionamentos e uma postura interativa facilita o aprendizado, enquanto em aulas de matemática ocorre o oposto: estratégias em que o professor passa mais tempo explicando conceitos, formalizando o conhecimento, têm melhores resultados. O mau diretor acha que cada professor deve fazer o que bem entender. 

O bom diretor julga que todos precisam de orientação e que a escola deve ter um padrão. Por isso é que normalmente não se veem escolas com resultados muito díspares entre séries ou disciplinas. Ainda faltam pesquisas para esmiuçar esse fenômeno, mas em minhas andanças por escolas Brasil afora ficam claros dois fatores. Primeiro, os semelhantes se atraem: professor descompromissado procura escola de diretor idem, e bons diretores fazem o possível para afastar os maus professores e atrair os bons. Uma diretora arretada de escola pública de Fortaleza me contou que uma de suas professoras tirava licença médica atrás de licença médica. Ela também trabalhava em uma escola particular, só que a essa comparecia sempre. Quando a professora estava de licença, a diretora ligava para a escola particular e descobria se ela estava trabalhando. 

Depois de alguns meses em que teve seu comportamento desmascarado, a professora malandra pediu para sair. O segundo mecanismo é através do exemplo. Quando um professor sabe que seu diretor está batalhando e que vai cobrá-lo, isso é motivador. E vice-versa: visitei uma escola em Goiânia em que a diretora resolveu afrouxar as cobranças sobre alunos e professores porque queria se candidatar a vereadora e não convinha antagonizar ninguém. Os professores ficaram tão desmotivados, e trataram seus alunos com tanta indiferença, que logo a escola saiu do controle: os alunos, enraivecidos, começaram até a riscar o carro de professores.

Outra marca do bom gestor escolar é a relação com a comunidade. Em linhas gerais, os bons diretores atraem os pais, trazendo-os para peno da escola. Só assim um pai ou mãe poderá monitorar, cobrar e ajudar os filhos. Os maus gestores só se lembram de que os pais existem quando precisam culpar alguém pelo insucesso da escola. Eles costumam tratar os pais com menosprezo e distância: para um pai marcar uma reunião com um diretor desses, é missão impossível. Bem diferente de uma marca freqüente do bom diretor: ele espera pais e alunos no portão da escola, todos os dias, na entrada e na saída. É uma oportunidade de estreitar o contato com os pais. comentar os problemas do dia a dia antes que cresçam e simplesmente se colocar à disposição de todos.

Ainda estamos longe de desvendar todos os mistérios da boa gestão escolar, mas a pesquisa traz três achados encorajadores. O primeiro é que, no Brasil, onde a bagunça administrativa é generalizada, iniciativas muito simples para pôr a casa em ordem têm efeito significativo. Um programa de intervenção na gestão das escolas estaduais de São Paulo que se encontravam entre as 5% piores trouxe melhoras no aprendizado dos alunos de até incríveis 40%. Resultados que vêm com medidas simples como oferecer mais aulas de reforço, coibir faltas de professores e passar mais tempo visitando e acompanhando as salas de aula. O segundo é que o salário do diretor está diretamente relacionado com o aprendizado dos alunos, ao contrário do salário dos professores. É bem mais barato e eficaz mexer no salário de diretores (menos de 200.000 pessoas) do que no de professores e funcionários (mais de 5 milhões). Terceiro, o impacto da gestão escolar é enorme: pesquisas americanas sugerem que um quarto da disparidade de desempenho entre escolas é diretamente atribuível a diferenças de gestão. Depois das ações dos professores em sala de aula (que respondem por um terço), esse é o quesito mais importante na determinação do sucesso acadêmico dos alunos.

Alunos do Norte e NE têm 4 anos de atraso em relação aos do Sul e Sudeste


Ocimara Balmant 
O Estado de S.Paulo

Estudantes no 9º ano do ensino fundamental em Alagoas, Maranhão e Amapá sabem menos português e matemática que aqueles de Minas e do Distrito Federal

Alunos de Estados das Regiões Norte e Nordeste do Brasil têm quatro anos de atraso na aprendizagem em relação aos estudantes do Sul e Sudeste do País. Os dados são de um levantamento da Fundação Lemann, feito com base em microdados da Prova Brasil, e mostram o porcentual de alunos de escolas públicas que obtiveram pontuação considerada adequada no exame.

Carlos Nealdo/Estadão
Em Alagoas, 57% dos estudantes terminam o 9.º ano
 sem saber o conteúdo de matemática do 5º

Os resultados apontam que, ao fim do ensino fundamental, no 9.º ano, os estudantes que moram em Alagoas, no Maranhão e no Amapá sabem menos português e matemática do que aqueles que estão terminando o 5.º ano na rede pública de Estados como Minas Gerais, Distrito Federal e Santa Catarina.

Em Alagoas, por exemplo, 57% dos estudantes terminam o 9.º ano do ensino fundamental sem saber o conteúdo de matemática que deveriam dominar já no fim do 5.º ano. Isso significa que mais da metade dos estudantes foi para o ensino médio sem saber, por exemplo, localizar informações em um gráfico, competência esperada para uma criança de 10 anos de idade.

No outro extremo, em Minas Gerais, 87% dos alunos do 9.º ano têm conhecimento proficiente ou avançado do conteúdo do 5.º ano. O índice chega a 85% em Santa Catarina e no Rio Grande do Sul.

Se o aprendizado dos formandos do 9.º ano já está muito aquém do que eles deveriam saber no 5.º ano, o cenário fica ainda pior se forem consideradas as competências esperadas para a etapa que estão concluindo.

Na rede municipal do Amapá, por exemplo, apenas 2,4% dos alunos vão para o ensino médio com aprendizado adequado para enfrentar a nova etapa. Porcentual parecido com o apresentado por outros Estados com desempenho ruim, como Alagoas, com 3,6% dos estudantes com aprendizado adequado para a série e Maranhão, com 3,8%.

"A não ser que considerássemos que os alunos dessas regiões podem aprender menos do que os de outras regiões – e, obviamente, eles não podem –, os números mostram que existe alguma coisa muito errada", afirmou o autor do estudo, o economista Ernesto Martins Faria, coordenador de projetos da Fundação Lemann.

E, apesar de ser consenso, a importância de aumentar os recursos financeiros destinados a educação, a questão do dinheiro investido, por si só, não explica essa disparidade nos rendimentos. "Mais do que apenas verbas e repasses, essas regiões são as que mais necessitam de um acompanhamento contínuo, de suporte e de diálogo. Mas isso de forma efetiva, não de cima para baixo", afirmou Faria.

Efeito cascata
Sem esse acompanhamento, algumas práticas fundamentais na garantia do aprendizado acabam sendo ignoradas, como é o caso da formação continuada de professores, o acompanhamento e o apoio técnico para escolas, o desenho de uma boa proposta curricular e a atenção diferenciada às escolas em situação mais vulnerável.

O resultado: enquanto 45% dos professores da Região Sudeste afirmam desenvolver com os alunos pelo menos 80% do conteúdo curricular, o porcentual é de apenas 30% no Norte e de 27% no Nordeste.

As taxas de abandono e reprovação também são mais altas nessas regiões. Duas em cada dez crianças do Norte e Nordeste do 3.º ano, com idade média de 8 anos, ou são reprovadas ou abandonam a escola. No Nordeste três de cada dez alunos são reprovados ou abandonam no 6.º ano.

"Pesquisas mostram que a reprovação, em vez de colaborar, reduz os ganhos de aprendizagem dos alunos ao longo dos anos", disse a especialista em Gestão Educacional na Fundação Itaú Social, Patrícia Mota Guedes. "Sem contar que a reprovação tem efeitos na organização da escola, já que a repetência pode levar ao aumento do número de alunos por sala e atrapalhar a gestão da aula, na medida em que docentes têm alunos com idades diferentes em uma mesma sala."

Exemplos do próprio Nordeste mostram que a criação de uma cultura de acompanhamento, que defina metas e priorize intervenções, mudam esse cenário. "O Ceará, por exemplo, se sobressai nos anos iniciais, o que pode estar relacionado aos avanços obtidos com o Programa Alfabetização na Idade Certa", afirmou Patrícia. 

***** COMENTANDO A NOTÍCIA:
Há uma questão a se destacar: o atraso acima destacado pelo Estadão é apenas consequência de outra informação aqui publicada quanto ao gasto aluno comparativamente entre sul/sudeste e norte/nordeste. 

No Norte/nordeste o gasto por aluno é pouco mais de um terço da média nacional. Ora, com investimento menor, sem dúvida, que o resultado será pior. E aí que vemos o quanto é falso o discurso do governo petista, seja de Lula quanto de Dilma, quanto aos investimentos em educação e o quanto é mau distribuído este investimento. 

É justamente esta diferença que provoca a desigualdade. Até faz sentido: quanto menos instruído for o povo do norte/nordeste, mais o curral eleitoral via Bolsa-Família tende a se configurar nas urnas. 

Leiam também: 


Alunos do Norte e Nordeste apresentam atraso de aprendizagem de quatro anos


Veja online
Com Estadão Conteúdo

Ao término do 9º ano, estudantes de Alagoas dominam menos conhecimentos de português e matemática do que os concluintes do 5º ano em Minas

(Thinkstock) 
Em Alagoas, quase metade dos alunos conclui o 9º ano 
sem saber o conteúdo que deveria dominar no fim do 5º ano

Alunos de estados das regiões Norte e Nordeste do Brasil apresentam um atraso de aprendizagem de quatro anos em relação a estudantes do Sul e Sudeste. A constatação é de estudo da Fundação Lemann a partir de microdados da Prova Brasil — avaliação nacional que mede a qualidade do ensino no país. O levantamento aponta que, ao término do ensino fundamental, no 9º ano, estudantes que moram em Alagoas, Maranhão e Amapá dominam menos conhecimentos de português e matemática do que aqueles que estão terminando o 5º ano na rede pública de Minas Gerais, Santa Catarina e também do Distrito Federal.

Em Alagoas, por exemplo, 57% dos estudantes terminam o 9º ano do ensino fundamental sem conhecer o conteúdo de matemática esperado para o fim do 5º ano. Isso significa que mais da metade dos estudantes vai para o ensino médio sem saber, por exemplo, localizar informações em um gráfico, competência esperada para uma criança de 10 anos de idade. No outro extremo, em Minas Gerais, 87% dos alunos do 9º ano têm conhecimento suficiente ou avançado do conteúdo do 5º ano. O índice chega a 85% em Santa Catarina e no Rio Grande do Sul.

Outros exemplos também assustam. Em escolas municipais do Amapá, apenas 2,4% dos alunos vão para o ensino médio com aprendizado adequado. O porcentual é parecido com o apresentado por Alagoas, 3,6%, e Maranhão, 3,8%. "Os números mostram que existe alguma coisa muito errada", afirma o autor do estudo, o economista Ernesto Martins Faria, coordenador de projetos da Fundação Lemann.

Apesar de haver um forte apelo pelo aumento de verbas para a educação, dinheiro não deve isoladamente explicar a disparidade no aprendizado. "Mais do que apenas verbas e repasses, essas regiões são as que mais necessitam de um acompanhamento contínuo, de suporte e de diálogo", ressalta Faria.

Sem acompanhamento, algumas práticas fundamentais para garantia do aprendizado acabam sendo ignoradas: é caso de formação continuada de professores, elaboração de uma boa proposta curricular e atenção diferenciada às escolas em situação mais vulnerável. O resultado: enquanto 45% dos professores da região Sudeste afirmam desenvolver com os alunos pelo menos 80% do conteúdo curricular, o porcentual é de apenas 27% no Nordeste e de 30% no Norte.

As taxas de abandono e reprovação também são mais altas nessas regiões. Duas em cada dez crianças do Norte e Nordeste do país, com idade média de 8 anos, são reprovadas ou abandonam a escola. Exemplos do próprio Nordeste mostram que a criação de uma cultura de acompanhamento, que defina metas e priorize intervenções, pode mudar esse cenário. "O Ceará se sobressai nos anos iniciais, o que pode estar relacionado aos avanços obtidos com o Programa Alfabetização na Idade Certa", afirma Patrícia Mota Guedes, especialista em Gestão Educacional na Fundação Itaú Social.

O Estatuto da Juventude, o adolescente de 29 anos e os “Sem Estatuto”


João Bosco Rabello
O Estado de São Paulo

O Senado aprovou na noite desta terça-feira (16), um monstrengo intitulado Estatuto da Juventude, uma bíblia de privilégios para uma nova categoria social instituída pelo documento – os “jovens de até 29 anos”. Trata-se de estender a essa idade a adolescência, uma projeto surrealista que só pode ter motivação eleitoral.

O estatuto cria privilégios para um público que vai dos 15 aos 29 anos, calculado em 52 milhões de brasileiros. O Censo de 2010 do IBGE indicou 34 milhões de pessoas somente na faixa entre 20 e 29 anos. Entre as vantagens reservadas a esse público, estão a meia-entrada em eventos culturais e esportivos e assentos gratuitos em ônibus interestaduais, um socialismo de botequim com o chapéu alheio.

Numa demonstração de que eleição a qualquer custo ganha dimensões de patologia, os defensores da idéia, chegaram a segmentar a juventude em três categorias: “jovens-adolescentes” (15 a 18 anos), “jovens-jovens” (19 a 24 anos) e “jovens-adultos” (25 a 29 anos).

O mais impressionante é o registro solitário de um senador apenas, Aloysio Nunes Ferreira (PSDB-SP),  para algo tão esdrúxulo. O texto reproduz conteúdo do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) em tal proporção que fica clara a intenção única de apenas estender seu alcance até os 29 anos.

Ao abordar esse aspecto, o senador chamou a atenção para a fragilidade do documento, diante do ECA, considerado uma das legislações mais avançadas do mundo.

“Há um contraste entre a eloquência e o entusiasmo em torno desse texto, e a fraqueza e inanição de seus efeitos jurídicos concretos. Ele quase reproduz o Estatuto da Criança e do Adolescente, apenas estende a sua aplicação aos chamados jovens de 29 anos”, disse Aloysio.

O tucano reconheceu a necessidade do ECA, uma legislação voltada à tutela dos direitos das crianças e adolescentes, que são pessoas, essencialmente, em fase de formação, justificando, portanto, uma disciplina especial para evitar riscos e garantir correções adequadas à idade. Mas questionou um estatuto para pessoas de até 29 anos.

“O que justifica tratamento semelhante às pessoas de 18 a 29 anos, momento em que estão com a vida encaminhada ou buscando encaminha-la?” O tucano argumentou que aos 16 anos, a pessoa já pode votar, e aos 18 anos, é responsável penal, pode dirigir e até se eleger vereador. Arrematou com uma provocação: “E os que têm entre 30 e 59 anos, são os sem-estatuto?”

Vale lembrar que além das crianças e adolescentes, o Congresso também aprovou um estatuto específico para regular os direitos das pessoas com idade a partir de 60 anos, o Estatuto do Idoso (Lei 10.741/2003).

A redundância com o Estatuto da Criança e do Adolescente é tão evidente, que restou ao Estatuto da Juventude uma natureza meramente complementar. O senador Paulo Paim acrescentou um parágrafo ao texto final para ressaltar que o Estatuto da Juventude só será aplicado aos jovens de 15 a 18 anos em caráter suplementar.

“Aos adolescentes com idade entre 15 e 18 anos, aplica-se o ECA (Lei 8.069/90), e excepcionalmente, este Estatuto, quando não conflitar com as normas de proteção integral do adolescente”, diz o texto aprovado no Senado.

“Não podemos dar qualquer margem a brechas que porventura permitam interpretações restritivas dos direitos e das peculiaridades próprios da adolescência”, justificou Paim, sobre o conflito com o ECA.

Outra polêmica , o pagamento de meia-entrada para eventos culturais e esportivos foi solucionada com medidas restritivas.

O estatuto ressalva que a meia-entrada para os “jovens de até 29 anos” não valerá para os eventos mundiais, como Copa do Mundo de 2014 e as Olimpíadas de 2016. Certamente uma exceção feita à Fifa, cujo argumento para as exceções obtidas no Brasil é um  só: a Copa do Mundo é um evento privado coordenado por uma instituição privada.  Como, de resto, o mercado de entretenimento no país.

Os senadores amenizaram a concessão aprovando uma emenda da senadora Ana Amélia (PP-RS), instituindo uma cota  máxima de 40% para a venda de meia-entrada.

A senadora leu no plenário uma carta da atriz Fernanda Montenegro, que interveio na discussão representando os artistas de teatro. Segundo ela, a meia-entrada representa, hoje, quase 90% da receita das bilheterias. A ampliação dessa venda inviabilizaria a atividade teatral, argumentou a atriz.

“A cota é fundamental para a economia da nossa área que sobrevive da receita do nosso trabalho”, escreveu Fernanda. “Não me peçam de graça a única coisa que eu tenho para vender que é o meu ofício”, concluiu, citando Cacilda Becker.

As mudanças introduzidas pelos senadores, como a cota para meia entrada, obrigarão a revisão da matéria na Câmara dos Deputados. Lá o texto será relatado pela líder do PCdoB, Manuela D’Ávila (RS), uma das inspiradoras da proposta, que deve ter retirado do baú de memórias de seu tempo de líder estudantil.

No ano passado, o tema foi abordado aqui no blog  ( http://blogs.estadao.com.br/joao-bosco?s…),  dando como improvável a aprovação do projeto, mas o Congresso Nacional é capaz ainda de surpreender, quando já se supunha  esgotado o repertório de indiferenças com a sociedade. Além do mau uso do dinheiro público, agora mete a mão no bolso privado.

ABSURDO: Apostila de curso traz xingamentos e erros sobre a história de MT


O Globo, com TV Centro América

Material foi entregue a alunos de curso de hotelaria, promovido pelo governo do estado


SÃO PAULO — Apostilas de um curso de capacitação em hotelaria, promovido pelo governo do estado do Mato Grosso, trazem palavrões, expressões agressivas e até xingamentos nas páginas que retratam as histórias dos municípios de Cáceres, Poconé, Santo Antônio de Leverger e Barão de Melgaço.

Um dos trechos diz que “índios tabajaras, freiras lésbicas celibatárias e fugitivos de um circo de horror holandês fundaram esta cidade”. Os alunos ficaram indignados.

Em outra página, o texto diz que a cidade de Poconé foi “colonizada por muambeiros, meretrizes e outros tipos de filme de faroeste”.

Na Câmara Municipal de Santo Antônio de Leverger, os vereadores prometem denunciar o caso ao Ministério Público, à Assembleia Legislativa e querem uma retratação do governo do estado.

O Instituto Concluir, responsável pelo desenvolvimento do conteúdo pedagógico e pela impressão do material, disse que das 6 mil apostilas, 40 apresentaram problemas e foram recolhidas. A direção diz que vai apurar o caso, mas acredita que houve sabotagem. Um boletim de ocorrência foi registrado na Polícia Civil.

A Secretaria Estadual do Trabalho e Assistência Social do Mato Grosso prometeu tomar todas as medidas necessárias.


A crise dos institutos técnicos


O Estado de S.Paulo

Três meses depois do início do ano letivo, vários institutos técnicos federais continuam sem professores para lecionar determinadas disciplinas. Alguns institutos estão deixando de oferecer cerca de 200 aulas por dia e em vários cursos o currículo já está comprometido. Em São Paulo, uma das unidades mais prejudicadas é o Instituto Federal de São Paulo (IFSP), que foi criado em 1909 como Escola de Aprendizes Artífices. Com 6,5 mil alunos, o IFSP chegou a obter, em 2009, a nota mais alta entre as escolas públicas no Exame Nacional do Ensino Médio.

A crise dos institutos técnicos federais foi retratada recentemente por um relatório do Tribunal de Contas da União (TCU). O documento mostra que faltam 7.966 professores em toda a rede. Segundo os auditores do TCU, a contratação de professores para preencher essas vagas é muito lenta, o que prejudica o atendimento em laboratórios.

Os auditores também constataram que o currículo de muitos cursos está desconectado da realidade social e econômica das cidades em que estão instalados. E afirmam que mais de 60% dos formandos criticam a qualidade das aulas, além de reclamar da falta de professores.

Como os salários pagos são baixos e o MEC só tem aberto concurso para professores substitutos, não há candidatos interessados em lecionar nos institutos técnicos federais. "Houve concurso que já abri quatro vezes. Simplesmente não aparecem candidatos", diz o diretor-geral do Instituto Federal de São Paulo, Carlos Alberto Vieira. Os professores substitutos ganham R$ 4.650. Os professores dão preferência às universidades federais, que pagam cerca de R$ 6.041.

A falta de docentes nos institutos técnicos federais mostra que a presidente Dilma Rousseff não está conseguindo cumprir a promessa de fazer da educação uma das prioridades de sua gestão.

No início de seu mandato, ela lançou o Ciência sem Fronteiras - um programa que oferece bolsas de estudo para que universitários possam estudar no exterior. Também investiu na expansão da rede de institutos federais, mobilizando Ministérios, Estados e municípios para agilizar a implementação do Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego. Atualmente, a rede conta com 365 institutos. A construção de outros 88 deve ser concluída em dezembro e mais 120 devem ser inaugurados em 2014.

Por preparar jovens para o mercado de trabalho e amenizar o problema da escassez de mão de obra qualificada, iniciativas como essas seriam bem-vindas, caso fossem implementadas de forma responsável, com base em consistentes projetos pedagógicos.

Mas, por causa dos interesses eleitorais do governo, esses programas têm sido implementados de modo açodado. Além da falta de docentes, os novos cursos têm carga horária considerada insuficiente, não integram de modo adequado o currículo do ensino médio regular com disciplinas técnicas e aceitam alunos com baixa escolaridade.

"Poderemos ter surpresas na avaliação final do programa quanto à real eficiência pedagógica e social dessas iniciativas", diz Gabriel Grabowski, ex-superintendente Estadual de Educação Profissional do Rio Grande do Sul e consultor da Unesco. "O mercado de trabalho valoriza o profissional especializado. Logo, quanto melhor é o currículo do curso técnico, maior é o retorno em termos de remuneração", afirma Naércio Menezes Filho, professor do Insper.

Para o secretário de Educação Profissional e Tecnológica do MEC, Marco Antonio Oliveira, "a rede de institutos técnicos federais está passando pela maior expansão de sua história" - e a falta de professores "é resultado disso", explica. Segundo Oliveira, para este ano está planejada a contratação de 8 mil docentes, para acabar com o déficit apontado pelo TCU, e de 6 mil servidores técnicos.

Esses problemas são fruto de uma decisão equivocada do governo Dilma. Porque quer fazer da educação uma bandeira para a campanha pela reeleição, ela estimulou a expansão da rede federal de institutos técnicos sem o planejamento adequado. Ampliar a rede é fácil - o desafio é fazê-la funcionar como deve.

Nova lei para enfrentar as drogas


Percival Puggina

O problema das drogas e seus dependentes vem sendo tratado, em nosso país, de um modo piegas e desconjuntado da realidade. Os instrumentos legais disponíveis quase nada fazem para enfrentar essa pandemia que avança sem encontrar resistência suficiente para contê-la. Talvez o melhor exemplo da impotência que menciono possa ser representado pelo fato de que toda tentativa de internar um dependente químico esbarra, ainda hoje, no simples "não quero" que ele possa antepor a quem se disponha a tratá-lo. 

Já ouvi contar sobre a violência de uma internação forçada. É fácil intuir o quanto algo assim afeta a sensibilidade de todos. São terríveis os relatos sobre os limites aos quais são empurrados os pais de um jovem prisioneiro do vício e de suas exigências cotidianas. Imagino os sentimentos contraditórios que afloram diante dos protestos de um filho sendo internado compulsoriamente. Afinal, ele não é um criminoso. Afinal, ele é um doente. Afinal, ele é um ser humano dotado de liberdade. Afinal, será que ele não pode fazer o que bem entende de sua vida, inclusive drogar-se até a morte? Afinal, não está a própria sociedade sendo orientada para lidar com a existência como um espaço onde cada um realize os próprios desejos? Afinal, não está inscrita na regra do jogo da vida como a vivemos nestes anos loucos que não devemos frustrar nossa "vontade"? 

Penso que as ingênuas objeções à internação forçada de dependentes químicos são espelho dessa deplorável visão de mundo. Refletem a liberdade sem norte, sem rumo, ignorando o fato de que aquilo que chamamos "vontade" não é sinônimo de desejo ou pulsão, mas um poderoso dom, inerente à natureza humana, para resistirmos às atraentes versões com que o mal se apresenta às nossas vidas. 

Essas e muitas outras interrogações certamente estiveram presentes em dezenas de audiências realizadas para debater o projeto que pretende proporcionar melhores instrumentos à ação do Estado e da sociedade no combate à drogadição e que deve ser votado pela Câmara dos Deputados nos próximos dias. Aprovado o projeto do deputado Osmar Terra, havendo solicitação da família e recomendação médica, os dependentes poderão ser internados compulsoriamente, por determinação judicial. É desumano não internar uma pessoa destituída, pelo vício, de seu discernimento. É dever da sociedade produzir os meios que viabilizem cuidar dessas situações extremas com medidas adequadas. 

O projeto em pauta, ademais, aumenta a pena e reduz as atenuantes para o tráfico. Já não era sem tempo! Divide a competência das ações antidrogas entre União, estados e municípios. Prevê isenções fiscais às empresas que abrirem postos de trabalho para egressos do tratamento e disponibiliza um conjunto de regras para a avaliação e acompanhamento da gestão das políticas sobre drogas. A nova lei, por fim, será extremamente benéfica para as comunidades terapêuticas, essas preciosas instituições, nascidas da generosidade social, cujos voluntários realizam uma das mais valentes expressões do amor ao próximo. Tais instituições, doravante, passarão a contar com apoio financeiro do poder público e poderão fazer muito mais. 

No entanto, mesmo com a nova lei e mesmo com novos e melhores meios para lidar com o problema, é indispensável ter presente que a droga sempre se infiltrará numa sociedade regida por chavões do cotidiano, como são as expressões - Querer é poder! Eu quero eu posso! Eu sei o que é bom para mim! Perante tais lemas, quase nunca comparecem as objeções que qualquer consciência bem formada deveria antepor - É lícito querer o que quero? Aquilo que considero bom para mim serve ao meu próprio bem e ao bem dos demais? As drogas também refletem, portanto, o mau caráter de uma sociedade e seu desapreço por certas virtudes e práticas indispensáveis ao desenvolvimento integral e harmônico da pessoa humana. 

Supremo dobra prazo para recursos dos réus do mensalão


Laryssa Borges
Veja online

Ministros ampliaram prazo para defesa dos condenados de cinco para dez dias úteis, após a publicação do acórdão. Joaquim Barbosa foi voto vencido

Ivan Pacheco 
Ministros do STF durante julgamento do mensalão, em 10/12/2012 


O plenário do Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu nesta quarta-feira dobrar o prazo para a apresentação de recursos contra a sentença de condenação do mensalão. Originalmente, o regimento do tribunal estabelece que o tempo para a apresentação das contestações dos réus é de cinco dias úteis, contados após a publicação do acórdão do julgamento. Os ministros, entretanto, resolveram ampliar esse prazo para dez dias úteis. A expectativa é que o acordão seja publicado no Diário de Justiça nesta quinta-feira.

Dos nove ministros presentes na corte, o único que se manifestou contra a extensão do período de defesa foi o presidente do Supremo, Joaquim Barbosa, que foi relator da ação penal do mensalão. Barbosa voltou a reclamar nesta quarta as manobras da defesa dos mensaleiros para postergar a conclusão do processo. Ele já havia negado pedidos do ex-ministro José Dirceu, condenado por comandar o esquema de corrupção, para tentar atrasar o desfecho do caso.

“A lei que vem sendo aplicada significa cerceamento de defesa?”, questionou o magistrado. “As normas devem se aplicar a todos. Não se pode fixar normas de acordo com o caráter diferenciado do processo", disse. Ele também atacou os advogados dos réus: “A advocacia brasileira perdeu, a meu ver, o senso de limites".

A argumentação para que o prazo de recursos fosse ampliado foi feita pelo ministro Teori Zavascki, novato na corte. Ele sustentou que o Código de Processo Civil (CPC) permite a ampliação do tempo de defesa em processos que envolvam muitas partes, para preservar o direito de ampla defesa. Os ministros presentes concordaram com Zavascki. “É razoável que se estenda o prazo não só em atenção ao CPC, mas ouso dizer tendo em conta a característica excepcional desse processo. Dizer que o processo é como outro qualquer é um eufemismo”, disse Ricardo Lewandowski, revisor da ação penal.

“A proposta formulada pelo ministro Teori prestigia e presta reverência à prerrogativa fundamental das partes, que é a garantia do devido processo”, disse Celso de Mello, decano da corte.

O ministro Luiz Fux disse que, no início do julgamento, o procurador-geral da República, Roberto Gurgel, teve direito a cinco horas de sustentação oral - o regimento prevê apenas uma hora para a acusação. “É razoável que se conceda o prazo em dobro e que se firme essa jurisprudência quando temos um processo com múltiplos réus”, declarou Fux.

Os recursos apresentados pelos advogados nessa etapa do julgamento, tradicionalmente, não acarretam mudanças significativas nas sentenças. Na prática, servem para corrigir detalhes nos votos dos ministros.

Saiba por que o brasileiro deve temer a inflação

Josias de Souza




Não faz muito tempo, o Brasil era um país monotemático. Duríssimo era o inimigo que inquietava a nação: o dragão da inflação. Como a atmosfera era de guerra, não se exigia do governo grandes resultados noutras áreas. A inflação, uma espécie de pesadelo do qual o brasileiro pelejava para acordar, obscurecia todos os outros problemas.

Nas últimas semanas, a inflação voltou às manchetes. Dilma Rousseff, que não mencionava a palavra em público senão para jactar-se de manter enjaulado o dragão, viu-se compelida a admitir o problema. Entre a noite de segunda-feira e a tarde de terça, a presidente falou de inflação em três oportunidades.

Numa, disse que “jamais voltaremos a ter aqueles juros em que qualquer necessidade de mexida os elevava para 15%, porque estavam em 12%. Hoje, temos uma taxa de juros real bem baixa. Qualquer necessidade de combate à inflação será possível fazer num patamar bem menor.”

Noutra, declarou que “não teremos o menor problema em atacar a inflação sistematicamente. Queremos que esse país se mantenha estável, porque a inflação corrói o tecido social. Corrói, para o trabalhador, a renda. E corrói, para o empresário, seu lucro legítimo.”

Horas antes, dissera: “Faço parte de um governo no qual nunca negociamos com a inflação, não fazemos concessões à inflação e sempre combatemos e combateremos a inflação. O controle da inflação é uma conquista desses dez anos, não abriremos mão desse controle.”

Dilma disse tudo isso uma semana depois da divulgação de um dado inquietante: no acumulado de 12 meses, o IPCA, índice oficial de preços, bateu em 6,59% no mês de março. Ficou-se sabendo que a inflação ultrapassara o teto da meta do governo, que é de 6,5% ao ano. A notícia potencializou a suspeita de que, sob Dilma, as autoridades econômicas flertavam com a tese de que, na busca do crescimento perdido, é admissível conviver com alguma inflação.

No passado, os economistas também se dividiram em duas alas. Uma achava que era preciso enfrentar o dragão a qualquer custo. Outra imaginava que o Brasil podia continuar correndo na frente do dragão. Com as labaredas na nuca, diziam que o dragão não era tão ruim quanto todos imaginavam. Desde que a situação fosse bem administrada, uma economia bem passada não era o fim do mundo.

Como demonstrado no vídeo que ilustra o texto, o Brasil só conseguiu debelar a superinflação depois de se livrar das mágicas. Dilma tortura a historiografia ao dizer que “o controle da inflação é uma conquista desses dez anos” do PT no poder. Em verdade, se dependesse do ex-PT, a estabilidade não existiria. Lula teve o mérito de beijar a cruz e preservar os avanços. Como tem a ambição de ser reeleita, Dilma inflaciona suas declarações sobre inflação por pragmatismo eleitoral.

Diz-se que o brasileiro não tem memória. Mas o que o brasileiro não tem mesmo é muita curiosidade. Há toda uma geração de eleitores que não viveu a experiência de receber um salário que, roído pela carestia, condenava o dono do contracheque a um fim de mês perpétuo. Quando perceber que o tomate 122% mais caro é uma forma de taxação que pode ser imposta sem legislação, mesmo a menos curiosa das criaturas vai olhar para trás. E logo perceberá que observar passivamente o pretérito passando não faz sentido.

FMI: Brasil está perto do crescimento potencial


Flávia Barbosa, 
O Globo

Chefe do Departamento de Pesquisa do FMI defende que, quando avanço do PIB acelerar, política monetária expansionista será questionada

WASHINGTON - A economia brasileira está próxima de seu crescimento potencial, ou seja, o ritmo de atividade a partir do qual há pressão inflacionária, e isso deverá levar o Banco Central a reavaliar a política de juros, avaliou Thomas Helbling, um dos chefes do Departamento de Pesquisa do Fundo Monetário Internacional (FMI). Sem especificar prazos — o Comitê de Política Monetária (Copom) se reúne hoje e amanhã —, Helbling afirmou que à medida que a expansão do Produto Interno Bruto (PIB) se acelerar, o que é esperado ara 2013, a atual política monetária expansionista "será questionada", pois a inflação já se encontra no teto da meta.

— A inflação está no limite superior da banda e o núcleo da inflação está relativamente elevado. Na medida em que o crescimento começar a melhorar, a atual política monetária acomodativa será questionada, no sentido de que a taxa de juros está abaixo do que consideramos o patamar neutro (que estimula crescimento sem pressionar a inflação) — afirmou Helbling, no lançamento das novas projeções do relatório trimestral "Perspectivas para a Economia Global".

O FMI projeta expansão de 3% para o Brasil em 2013 e de 4% em 2014, após alta do PIB de apenas 0,9% em 2012. Para o IPCA, a previsão é de taxa de 6,1% este ano e de 4,7% no próximo.

Helbling reafirmou a preocupação do FMI com gargalos na economia brasileira, que podem limitar o ritmo de crescimento no médio prazo:

— Há vários gargalos à oferta no Brasil. No curto prazo, o impacto imediato é de infraestrutura. Com crescimento muito rápido, esses gargalos ficam evidentes. A questão é removê-los, o governo deve permitir que o setor privado participe dos investimentos, o que pode gerar alívio a partir deste ano, razão pela qual veremos o crescimento acelerando. O Brasil também viu rápida expansão do emprego, que alimentou consumo e PIB (...) Mas a expansão da população ocupada vai desacelerar, por questões demográficas e porque há escassez de mão de obra qualificada em alguns setores.

‘Brasil é a projeção no espelho de uma imagem feia do México’, diz Financial Times


Fernando Nakagawa 
Agência Estado

LONDRES - O México está bonito na foto e o Brasil aparece feio. Esse é o resumo de uma reportagem publicada nesta quarta-feira em especial do site do jornal Financial Times sobre moedas e investimentos estrangeiros em 2013. Com o título “Brasil é a projeção no espelho de uma imagem feia do México”, o texto repete a tese de que o baixo crescimento da economia ameaça a atratividade do País na disputa por capitais estrangeiros. Para a reportagem, o governo e o Banco Central “estão mais ou menos” comprometidos com a meta de inflação e o câmbio flutuante.

“Brasil, o original guerreiro cambial acostumado a desencorajar os fluxos de capital durante os anos de boom entre 2009 e 2011, encontra-se agora em um mundo diferente no mercado cambial e no comércio global”, diz o texto assinado por Joe Leahy, chefe da sucursal do FT em São Paulo. “O Brasil foi um crítico da política monetária frouxa dos Estados Unidos e outros países desenvolvidos. Isso desencadeou uma enxurrada de dinheiro para o País, fortalecendo a moeda e tornando a indústria nacional menos competitiva. Mas o desafio de longo prazo parece cada vez mais ser como atrair o fluxo de capital estrangeiro ao invés de repeli-lo”, diz o jornalista.

Leahy argumenta que os fluxos de capitais para países emergentes devem continuar após o histórico pacote de incentivo anunciado pelo Japão e a manutenção por mais alguns meses das medidas nos Estados Unidos. Nesse ambiente, diz, “aumenta a concorrência entre os países em desenvolvimento para atrair a atenção dos investidores”.

“É nesse desfile de beleza que o Brasil, com o crescimento de menos de 1% no ano passado e uma deterioração da conta corrente, está parecendo menos atraente para atrair recursos para portfólio e investimento estrangeiro direto quando comparado a países, como o México, que estão envolvidos em reformas políticas e econômicas”, diz a reportagem, que ouviu analistas de instituições financeiras e agências de classificação de risco.

A reportagem reconhece que o Brasil “não enfrenta nenhum tipo de crise”, mas acusa as autoridades brasileiras de serem apenas “mais ou menos comprometidas” com dois pilares do tripé macroeconômico: a meta de inflação e o câmbio flutuante. “O País ainda tem uma das maiores reservas mundiais, com cerca de US$ 377 bilhões, um sistema financeiro sólido e um governo e um Banco Central ainda mais ou menos comprometido com a meta de inflação e em manter uma taxa de câmbio flutuante”, diz.

Nesse desfile de beleza com o Brasil menos atrativo e o México com cada vez mais fãs, o FT reconhece, porém, que o governo brasileiro tem “uma série de cartas na manga” para tentar reavivar o interesse no mercado nacional. Entre eles, a reportagem cita a possibilidade de alteração de alíquotas do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF).