segunda-feira, fevereiro 02, 2009

Não há nada de errado em transmitir conhecimento

Adelson Elias Vasconcellos

André Petry é colunista da revista VEJA, e, muitas vezes, reproduzimos alguns de seus artigos por externar e expressar opiniões com as quais estávamos de pleno acordo, o que não representa dizer que se deva concordar sempre. Muitas vezes nos sintonizamos na mesma faixa de pensamento e opinião, o que não quer dizer que isto seja regra.

Discordar é o caso de sua coluna de hoje. Sob o título “Lembra-te de Darwin”, ele afirma em dado momento: “...É inaceitável dar criacionismo em aula de biologia. Embrutece porque ensina o aluno, desde cedo, a confundir crença e superstição com razão e ciência”.

Muitas vezes me fiz a seguinte pergunta (creio que muita gente já a tenha feito também): será que a ciência, de alguma forma, já não comprovou, em diferentes disciplinas, que muitos dos fatos narrados na Bíblia estavam corretos? Ou deveremos tomar a Bíblia apenas como um livro de fantasias?

Ao ler a coluna do Petry, lembrei-me de uma obra que li, pela primeira vez, há mais de vinte anos. Seu autor, o alemão Werner Keller, reuniu numa única obra, o resultado de décadas de escavações realizadas nas regiões mencionadas na Bíblia, compondo um formidável acervo de documentos, testemunhos de um passado longínquo, que vem permitindo aos cientistas acompanhar passo a passo a sequência de fatos narrados no “Livro dos Livros” provando sua veracidade e relacionando-os com outros importantes fatos da história. Para mim tornou-se, confesso, um importante instrumento de pesquisa. O nome da obra é até bem sugestivo: “e a Bíblia tinha razão”.
Não, a obra não prova a teoria “criacionista”, mas comprova, sem sombra de dúvida, que não se pode descrer de tudo que está escrito e descrito na Bíblia. Muitas vezes, é preciso analisar a obra dentro do contexto histórico em que foi escrita por seus diferentes autores. Não se tinha, à época, os instrumentos de linguagem alicerçados no conhecimento científico, para descrever ou narrar determinados eventos. A consciência humana estava ainda muito distante daquela que hoje conhecemos.

Portanto, que Petry me perdoe, mas ele está confundindo “transmissão de conhecimento” com ciência. Em que a teoria “criacionista” será capaz de, por si só, embrutecer a formação de alguém? Fosse assim, jamais se poderia, em aulas de Física, falar-se das teorias anteriores ao entendimento do seja o universo, ou acaso se deixa de informar que um dia se acreditou que a Terra fosse o centro do universo, por mais que isto, hoje, nos pareça absurdo? Saber disso embrutece quem?

Uma coisa é citar a existência, no passado, de tais e quais teorias tentavam explicar o mundo, a vida, a origem das espécies. Outra, bem diferente, é tentar “fazer” a cabeça dos alunos afirmando-se que tal teoria é a expressão da verdade. Faz bem comparar teorias, faz bem conhecer a história da própria ciência, a evolução do conhecimento. Isto em nada embrutece nem o conhecimento nem tampouco o espírito.

O que talvez o colunista esqueceu de considerar é que, mesmo se tomando por base todo o conhecimento científico hoje existente, com todo o avanço da tecnologia que disponibiliza instrumentos cada vez mais exatos para a percepção da verdade, há, sim, muitas questões em aberto, mesmo na teoria de Darwin.

Sempre que a gente retroceder no tempo em busca da causa primeira de todas as coisas, por mais ciência que se coloque na mesa da discussão, sempre há um dado instante em que as “causas” esbarram ou tocam no ponto inicial. E aí, não há, no momento, ciência que explique. Não se trata de se negar Darwin mas de se buscar a resposta primeira para tudo, ou seja, como tudo começou. Claro, dado o pontapé inicial, o resto se ajusta por si. Mas e daí? Em que saber “como foi” ou “como era” torna-se negativo à formação dos estudantes?

Ocorre que, mesmo que o criacionismo tenha sua origem religiosa, por muitos séculos foi “ensinado” como se ciência fosse. Aliás, em seu texto, Petry informa em uma passagem: “...Em biologia, vale o evolucionismo de Darwin, segundo o qual todos viemos de um ancestral comum, há bilhões de anos, e chegamos até aqui porque passamos no teste da seleção natural. É a melhor (e por acaso a mais bela) explicação que a ciência encontrou sobre a aventura humana na Terra...”. Muito bem, cara pálida, e “este ancestral comum” veio de onde? Quem lhe deu vida? Petry, mesmo em ciência, seja biologia ou física, ou química, não existe acaso. Todo o efeito há de ter uma causa que o produza. Ou terá a ciência moderna mudado tal princípio? Assim, a pergunta permanece em aberto: quem criou o primeiro ser vivo sobre a terra? Ou, vamos avançar mais: quem criou a vida, o seu princípio existencial?

Portanto, informar a existência de uma teoria absurda e que no passado era aceita como expressão da verdade, em nada, mas absolutamente nada mesmo, afeta ou afetará a formação de quem quer que seja. Até porque conhecer o criacionismo em aulas de biologia nunca se soube que tenha afetado a formação de cientistas formados nestas mesmas escolas que o colunista critica. Ou será que as escolas “religiosas” formam só pastores? Nada disso, elas também deram formação à futuros cientistas e, tanto quanto se saiba, suas formações não foram prejudicadas por terem conhecido a teoria criacionista em aulas de biologia. O que é absurdo, e é disto que devemos nos ocupar e preocupar, é uma escola, seja religiosa ou não, ser incompetente, em pleno século 21, de ensinar seus alunos a lerem e escreverem com um mínimo de correção e entendimento, ou, ao menos, saber as quatros operações básicas de matemática. Ou se valer da cadeira da História para transmitir teorias político-partidárias!!! Isto é deformação pura e genuína.

Por fim, tentando demonstrar sua tese, Petry saca o seguinte, em outro trecho: “Quem contrabandeia o criacionismo para as aulas de biologia diz que, em respeito à "liberdade de pensamento", está "mostrando os dois lados" aos alunos. Afinal, são escolas religiosas, confessionais, e os pais podem ter escolhido matricular seus filhos ali exatamente porque o criacionismo é visto como ciência. Pode ser, errar é livre, mas que embrutece não há dúvida.”

Como diria o filósofo inglês, Jack – O Estripador, "vamos por partes": afirmar que é contrabando dar conhecimento da teoria criacionista em aulas de biologia não se trata de pecado. Além do que está dito acima, e mesmo que Petry não aceite, as escolas estão, de fato, “mostrando os dois lados”. Que mal há nisso? Nenhum !!!

E os pais, hoje, senhor Petry, não estão escolhendo (quando podem escolher, é claro) escolas para seus filhos baseados unicamente em fé religiosa. Fazem-no por sua qualidade superior, pela segurança de que seus filhos não ficaram deformados por greves de professores com duração de 30, 40, 70 ou até mais dias. Fazem-no por entenderem que, além da formação intelectual, seus filhos também precisam receber uma formação mais humanística, com a noção de alguns princípios do tipo moral, indispensáveis à formação do caráter de qualquer indivíduo. E saiba ainda que muitos são filhos de pessoas que sequer são religiosos freqüentadores de qualquer crença, alguns até são filhos de cientistas que encaram o criacionismo como aquilo que realmente ele é, uma teoria ultrapassada, sem base científica. Com exceção de uns poucos, a grandiosa maioria dos pais que matriculam seus filhos em escolas religiosas o faz unicamente pela qualidade do ensino, e não por acreditar que o criacionismo seja tomado como ciência.

Assim, conhecer a realidade é melhor do que se deixar guiar apenas por preconceitos, estes sim, injustificáveis. A ninguém, concorde ou não, é dado o direito de negar o conhecimento, seja ele fruto de obra religiosa ou não. A ninguém é concedido permissão para escolher o que devemos conhecer e saber, e, no caso, me parece que Petry vai justamente na direção oposta a tal princípio. Além, é claro, de estabelecer um juízo de valor sobre as escolas religiosas bastante perigoso.

Negar o holocausto é um ato imoral

Pedro do Coutto, Tribuna da Imprensa

O Papa Bento XVI devolveu ao bispo inglês Richard Williamson e a mais três dignitários da Igreja Católica a comunhão que deles tinha sido retirada por seu antecessor, João Paulo II, pelo fato de terem negado publicamente a existência do holocausto contra os judeus ou então - cinicamente - minimizá-lo.

Um duplo absurdo. A reação, intensa, como não poderia deixar de ser, se fez sentir levando o atual ocupante do Trono de São Pedro a mais uma vez condenar o horror que, a partir de uma infame covardia, marcou os campos de concentração da Alemanha de Hitler na Polônia. Não se encontra uma explicação lógica para a devolução da comunhão a Williamson e aos outros três bispos.

Williamson quis reduzir a dimensão do holocausto de 6 milhões de judeus e outros prisioneiros para 300 mil, como se isso pudesse diminuir a desumanidade praticada em larguíssima escala. Um dos três bispos, como a “Folha de S.Paulo” publicou na edição de 29/01, chegou a colocar em dúvida a existência das câmaras de gás letal.

Impressionante tal atitude revisionista. Os que se empenham em fazer uma reforma impossível de um passado sinistro, a maior violação de direitos humanos da história, esquecem-se dos documentos existentes. Todos registrados. Há filmes feitos por alemães que foram capturados pelos ingleses e que hoje se encontram nos arquivos da BBC de Londres.

Os documentos focalizam a descoberta do gás Zyrcon, aperfeiçoado por sugestão de Albert Speer, arquiteto do III Reich, para matar mais rapidamente a um custo menor. Mostram os filmes e as fotografias milhares de cadáveres empilhados como lixo lançados às valas de sangue e lodo. Objetos dos assassinados de forma vil foram roubados.

O roubo praticado pelos nazistas chegava até a dentes e obturações de ouro das vítimas. Nem sequer havia luta. Alain Resnais, em “Noite e nevoeiro”, documentário, dá seu testemunho.

Os prisioneiros embarcavam nos vagões da morte para Auschwitz, Dachau,entre outras unidades de horror e pânico. O bispo Richard Williamson, reabilitado, e novamente condenado pela opinião pública, não só judaica, mas mundial, deve inclusive lembrar que Bento XVI visitou Auschwitz e ergueu as mãos aos céus indagando como as atrocidades ali praticadas puderam ter ocorrido.

Mas se Williamson deve se lembrar, o cardeal Joseph Ratzinger (Bento XVI) parece ter se esquecido de sua visita à Polônia há apenas três anos. Pois como devolver a comunhão a quem a perdeu exatamente por negar as atrocidades que ele próprio confirmou em sua viagem ao passado recente?

Em plena era do registro, com os jornais, revistas, fotografia, cinema, tv e agora a internet, essencial para a pesquisa, como negar o que está concretamente arquivado em páginas, imagens e sons, testemunhas eternas da fúria e do assassinato em série? Impossível.

Como diz Elena, minha mulher, no caso, negar a existência do holocausto é tão alucinado como defendê-lo. Talvez moralmente até pior. Isso porque negar o que todos sabem que aconteceu é uma forma de escapismo, uma confissão tácita.

Na negativa está implícita a idéia de defender o que ocorreu. Porém de maneira indireta. Já que, diretamente, só alucinados poderiam colocar-se ao lado de um processo inominável de extermínio incluindo a pilhagem.

O atual titular da Cátedra de São Pedro cometeu um erro indo ao espaço de seu antecessor para rever atos que não possuem a menor necessidade de serem revistos. Foi uma falha histórica enorme. Ele já começou a tentar corrigi-la. Conseguirá integralmente? Tenho dúvida.

Palmada no bumbum

Guilherme Fiúza, Revista Época

O governo federal decidiu exigir licença prévia para importações. É um certo estilo de combater a abertura de mercado a golpes de carimbo, mas é direito dele.

Assustador é o mesmo governo federal suspender a medida em coisa de 48 horas – depois de ouvir as primeiras reações contrárias, entre elas um pito da Miriam Leitão ao vivo (“são uns malucos”).

Qual será afinal a diretriz de política econômica do governo? A que prescreve um entrave burocrático nas operações de importação, ou a que o remove? Há uma terceira opção possível, talvez a mais provável: não haver diretriz alguma.

Como se sabe, a era Lula fundou o estatismo neoliberal. Esse sistema hermafrodita consiste basicamente em deixar o Banco Central governando (ninguém está aí para correr riscos eleitorais) e colocar uns ministros jogando pedras nele. A fórmula é perfeita: o país segue seu trilho e o povo continua achando o governo bonzinho.

Aí tem de tudo, até assessor especial do presidente da República mandando cartinha pela internet para dizer que “A América do Sul e Latina estão vivendo o momento mais rico de sua história de 500 anos”, graças ao que está acontecendo na Venezuela, na Bolívia, no Brasil e no Equador – ou seja, graças ao chavismo.

Assim os meninos aloprados de Lula vão brincando de revolução nacionalista, e de repente alguém tem a idéia de fazer uma traquinagem contra as importações.

Não tem problema. Uma traquinagem é só uma traquinagem. Um pito da Miriam Leitão resolve.

Pensando bem, o melhor é deixar os meninos gastando 80 milhões de reais do contribuinte na Farra Social Mundial. Pelo menos lá eles não mexem com a vida real.

Refúgio e extradição

Editorial da Folha de São Paulo

"É válida a lei que reserva ao Executivo o poder privativo de conceder asilo ou refúgio", assinalou o Supremo Tribunal Federal quando arquivou, sem julgar o mérito, a ação para extraditar o colombiano Francisco Cadena, em 2007.

Acusado por terrorismo e homicídio, o integrante da narcoguerrilha marxista Farc havia obtido status de refugiado político do Comitê Nacional para os Refugiados (Conare), ligado ao Ministério da Justiça. Diante do benefício, o STF recusou-se a analisar a extradição.

O precedente terá de ser enfrentado na ação movida pela Itália para extraditar Cesare Battisti, condenado à prisão perpétua por quatro homicídios. O Supremo volta à rotina hoje e pode discutir o assunto tão logo se manifeste o governo da Itália, que tem até quarta para fazê-lo.

No Brasil, é do STF a competência para julgar pedidos de extradição de estrangeiros. Já o governo federal detém a atribuição de declarar o refúgio político e de conceder asilo territorial -asilo e refúgio têm efeitos práticos semelhantes. A concessão do refúgio ou do asilo pelo Executivo, no entanto, faz cessarem, de acordo com a lei, os procedimentos de extradição no Judiciário.

Não é por mero formalismo que o sistema funciona assim. O próprio Supremo forneceu uma razão forte ao declarar, no citado juízo de 2007, que é do Executivo "a competência para tomar decisões [como dar refúgio] que tenham reflexo no plano das relações internacionais do Estado". Além disso, esse é o tipo de decisão que sempre comporta alguma margem de arbítrio político.

Mesmo assim, é inegável o caráter anômalo, às raias do estapafúrdio, da concessão do refúgio a Battisti. O ministro Tarso Genro, embora valendo-se de uma prerrogativa legal, atropelou os argumentos técnicos do Conare e produziu um libelo de frouxo embasamento jurídico, além de ofensivo às instituições italianas, francesas e europeias.

A margem de arbítrio do ministro da Justiça em questões de asilo e refúgio existe, mas está limitada pela lei do refúgio político, de 1997. O benefício a Battisti, por exemplo, foi concedido com base em temor de perseguição por motivos de "opinião política", o que é impossível de justificar com base nos autos.

Não será surpresa, portanto, se o Supremo desqualificar os frágeis argumentos de Genro e julgar a extradição mesmo assim.

Presidente palestino descarta diálogo com Hamas

BBC Brasil

Abbas visitou feridos palestinos que recebem tratamento no Egito

O presidente da Autoridade Nacional Palestina, Mahmoud Abbas, descartou neste domingo a possibilidade de reconciliação com o Hamas – facção palestina que controla a Faixa de Gaza – a não ser que o Hamas passe a considerar a Organização para a Libertação da Palestina (OLP) a única representante do seu povo.

“Verdadeiramente e honestamente, nenhum diálogo (irá ocorrer) com aqueles que rejeitam a OLP, e eles tem que reconhecer que a OLP é o único legítimo governo do povo palestino. Aí teremos diálogo”, disse Abbas na capital do Egito, Cairo, após se encontrar com palestinos feridos na recente ofensiva israelense na Faixa de Gaza.

“Eles (o Hamas) assumiram riscos com o sangue do palestinos, com seus destinos, seus sonhos e aspirações de um Estado palestino independente.”

A OLP é um órgão reconhecido internacionalmente como o legítimo representante do povo palestino e é dominada pelo Fatah, a facção política à qual pertence Mahmoud Abbas.

Na semana passada, um dos líderes do Hamas, Khaled Meshaal, disse que a OLP está obsoleta e pediu que ela deixasse de existir, sendo substituída por uma outra autoridade nacional.

O Hamas assumiu o controle da Faixa de Gaza em 2007. Abbas mantém o controle sobre a Cisjordânia.

Nesta segunda-feira, Abbas tem um encontro com o presidente do Egito, Hosni Mubarak, onde devem discutir a situação em Gaza.

O Egito vem mediando um acordo entre Israel e Hamas desde que os dois lados anunciaram uma trégua em 18 de janeiro, depois da ofensiva em mais de mil palestinos morreram na Faixa de Gaza.

***** COMENTANDO A NOTÍCIA:

Reparem que, enquanto um dos lados, afirma que os terroristas do Hamas “... assumiram riscos com o sangue do palestinos, com seus destinos, seus sonhos e aspirações de um Estado palestino independente.” , o outro, diz que “... a OLP está obsoleta e pediu que ela deixasse de existir, sendo substituída por uma outra autoridade nacional.”

Ora, O primeiro grupo sabe há meios de uma convivência pacífica entre judeus e palestinos, e a deseja por perceber que os conflitos não favorecem seu próprio povo. Já a turma do Hamas, com estes nenhum diálogo é possível, nenhum acordo é respeitado, nenhuma trégua é consentida. Para estes só a guerra é possível, e, em caso de morte, ela é glorificada como o sacrifício necessário. Para eles, a paz só será obtida com a destruição de Israel. Portanto, pelo menos eles não mistificam sua posição.
Pena que grande parte da mídia internacional, pró Hamas, ainda não se deu conta de quem é a verdadeira vítima, e quem são os agressores neste conflito. Para o Hamas, já são dois os seus inimigos: judeus e os palestinos da OLP, ou qualquer outro que fale em paz, deposição de armas, trégua duradoura. Fica, deste modo, impossível qualquer diálogo que tenha por objetivo por fim ao conflito, quando um dos lados, os palestinos do Hamas, só pensam na guerra.

A intervenção estatal

Suely Caldas (*), Estadão

Foi uma semana de choque. O que parecia chegar aqui como uma marolinha (pelo menos para o presidente Lula) está-se tornando um maremoto de proporções gigantes, duração incerta e consequências assustadoras. Em dezembro a produção industrial desabou, o desemprego se espalhou e a arrecadação tributária caiu feio. "A desaceleração da indústria era esperada, mas não com essa velocidade. A crise chegou muito forte", resumiu o economista da Confederação Nacional da Indústria (CNI) Renato da Fonseca. No setor externo da economia, a balança comercial terá, em janeiro, seu primeiro déficit em oito anos e pode chegar a US$ 1 bilhão. Os indicadores que saíram das pesquisas de órgãos oficiais e privados nos últimos dias trazem preocupação e intranquilidade com o que vem pela frente.

E o que vem? Do exterior chegam sinais ruins. O Fundo Monetário Internacional (FMI) reduziu suas projeções para 2009, indicando recessão para os países ricos e crescimento de só 1,8% para o Brasil. Segundo pesquisa feita pela Price Waterhouse & Coopers, a maioria dos 1.124 executivos de 50 países ouvidos prevê pelo menos três anos de duração para a crise. No Brasil analistas esperam uma queda próxima a 2% do produto interno bruto (PIB) no último trimestre de 2008 e uma recessão técnica no primeiro trimestre de 2009. Empresas e empregados fazem acordos de redução de jornada e salários válidos só até abril. E depois? Ninguém sabe, é viver o dia-a-dia para ver o que acontece.
A marcha rápida e violenta da crise traz dúvidas, insegurança e incerteza a quem tem responsabilidade de geri-la, aliviar seus efeitos e reduzir ao mínimo possível o sofrimento da população do planeta. Os governos têm recorrido à intervenção direta do Estado na economia, suprindo a carência de crédito, promovendo investimentos, gerando empregos e reduzindo tributos. É o intervencionismo estatal de volta, como o New Deal de Franklin Roosevelt, na década de 1930.

Não é raro em tal conjuntura governos cometerem erros. A equipe do ex-presidente George W. Bush errou feio ao pedir ao Congresso poderes ilimitados para escolher onde pôr dinheiro público e ao propor bônus milionários a executivos de bancos que deveriam ser punidos, não premiados. Barack Obama parece ter um rumo mais bem definido, embora economistas norte-americanos duvidem. O fato é que não apareceu ainda um John Maynard Keynes a orientar esse intervencionismo estatal.

O governo Lula não foge à regra. Tem atirado confusamente em várias direções, mas sem estratégias definidas, sem monitoramento nem controle sobre resultados. Porém o pior e mais grave erro - conhecido na terça-feira - foi tentar maquiar os resultados da balança comercial do País na marra, controlando importações da forma mais bronca possível de imaginar. Felizmente, o presidente Lula teve bom senso e mandou desfazer o que classificou de "erro fenomenal" e que ameaçava espalhar estragos por toda a economia.
O modelo escolhido pelos Ministérios do Desenvolvimento e da Fazenda - as famigeradas licenças de importação que abarrotavam as gavetas da antiga Cacex - é velho. Operado na década de 1970, caiu de podre em 1994: impunha punições sem culpa, gerava corrupção e atos de vingança, incentivava o contrabando, interrompia e reduzia a produção e paralisava as empresas. Vale contar um episódio da época para dar ideia do poder de estrago que o sistema punha nas mãos da burocracia.

Era final dos anos 70 e os metalúrgicos do ABC, em greve, pediam aumento salarial. O governo acertou com empresários não cederem e deixarem a greve acabar pelo desgaste. Pressionada por uma encomenda lucrativa, com prazo definido de entrega, uma empresa da região furou o bloqueio e fez acordo com os empregados, que voltaram ao trabalho. Mas, para concluir a encomenda, a empresa dependia de peças de reposição importadas para suas máquinas.
Acreditava não haver problemas, porque a Cacex já havia liberado a licença e as peças estavam no porto para desembarque. Eis que, informado do furo do bloqueio da greve, o então ministro Delfim Netto ordenou à Cacex cancelar a liberação da importação das peças. Assim foi feito e a empresa perdeu a encomenda.O erro da licença de importação é o último vexame da coleção do governo Lula em suas tentativas de intervir onde não deve. Soma-se aos Conselhos de Jornalismo e de Cultura, ao mensalão, ao dossiê dos aloprados e à trapalhada do ex-ministro Ricardo Berzoini no episódio do recadastramento de aposentados.
(*) Suely Caldas é jornalista e professora de Comunicação da PUC-Rio

Gasto da indústria com juros sobe 17,3% no último trimestre de 2008

Marcelo Rehder, Estadão
Despesa financeira que, em média, era de R$ 8,1 bi por mês entre janeiro e setembro subiu para R$ 9,5 bilhões

Os gastos da indústria brasileira com pagamento mensal de juros subiram 17,3% no último trimestre de 2008 em relação ao período de janeiro a setembro. As despesas financeiras, que eram de R$ 8,1 bilhões em média por mês, aumentaram para R$ 9,5 bilhões.

Essas despesas chegam a superar outros gastos, como o de salários, sem considerar os encargos que incidem sobre a folha de pagamentos. Na média entre outubro e dezembro, período mais agudo da crise mundial, que fez subir o custo dos financiamentos, os desembolsos para pagamento de juros foram 11% superiores aos gastos com salários (R$ 8,5 bilhões). De janeiro a setembro, a média das despesas financeiras correspondia a 95% dos gastos mensais com salários.

Os dados são de um levantamento da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) ao qual o Estado teve acesso e que deverá ser apresentado hoje em reunião de diretoria da entidade. "Neste momento de crise, com ameaças ao emprego, é inadmissível a indústria gastar mais com juros do que com salários dos trabalhadores", diz José Ricardo Roriz Coelho, diretor do Departamento de Competitividade e Tecnologia da Fiesp, que coordenou o trabalho.O levantamento ressalta que as despesas financeiras da indústria foram impulsionas pelo aumento no chamado spread bancário, a diferença entre a taxa de juros cobrada por bancos e financeiras e a que eles pagam para captar recursos. No último trimestre de 2008, conforme a Fiesp, o setor despendeu R$ 5,5 bilhões em média por mês só para remuneração do spread, ante uma média mensal de R$ 4,4 bilhões entre janeiro e setembro, o que representa um salto de 25%. No custo para captação, a média passou de R$ 3,72 bilhões para R$ 4 bilhões, uma variação de 7,5%.

"Enquanto empresas têm segurado e até reduzido seus preços para manter as vendas e trabalhadores estão perdendo emprego e reduzindo salários, os bancos retém o crédito e aumentam os spreads para manter suas margens de lucro", afirma Roriz Coelho.

O diretor da Fiesp explica que os resultados do levantamento referem-se à média nacional das empresas do setor. "Não se pode dizer que todas gastam mais com juros do que com salários." As empresas intensivas em capital, que faturam alto e empregam número reduzido de trabalhadores, por exemplo, estão acima dessa média. Nesse grupo estão incluídos setores de mineração, siderurgia, petroquímica e papel e celulose, entre outros. Por outro lado, as intensivas em mão de obra, que faturam pouco, mas empregam milhares de trabalhadores, como calçadista e têxteis, estão abaixo da média.

Em dezembro, a diferença entre a taxa cobrada nas operações de crédito e a de captação de recursos subiu 16%, para 30,6 pontos porcentuais, ou 4,2 pontos acima da registrada em setembro. Com isso, a participação do spread na taxa de juros de mercado cresceu para 70,8% - a maior registrada desde 2000. No crédito para empresas, o spread atingiu 18,3 pontos porcentuais, com alta de 25% ante os 14,5 pontos em setembro. Para a pessoa física, a alta foi de 17% , para 45 pontos.

Entre os fatores que compõem o spread estão a cunha fiscal formada por impostos e compulsórios, o risco de inadimplência da operação de empréstimo, as despesas administrativas e a margem de lucro das instituições. "Com exceção do lucro, nenhum deles justifica tamanha elevação nos últimos meses", diz Roriz Coelho. Já o custo do dinheiro financiado, que é determinado pela Selic, recuou de 13,99% para 12,63%, entre os dois períodos.

Ao longo de 2008, os brasileiros pagaram spread médio de 26,6 pontos porcentuais, somado ao custo do juro básico, para contrair empréstimos. A média praticada em outros 42 países pesquisados, que representam mais de 90% do PIB mundial, é de 3 pontos porcentuais. No Brasil ele é, portanto, quase oito vezes maior do que o dos nossos principais concorrentes. Se o País seguisse o padrão internacional de definição de spread em relação a renda per capita, seu valor deveria ser de apenas 5 pontos porcentuais.

Segundo Roriz Coelho, o elevado custo de capital é um dos fatores que mais prejudicam a competitividade brasileira na disputa por novos investimentos produtivos e manutenção dos projetos já aprovados. A disputa fica ainda mais acirrada em momentos críticos como o atual, em que falta crédito no mundo.

"Estamos disputando investimentos com o mundo inteiro", diz Roriz Coelho. "Se não tem crédito no mundo, e a empresa dispõe de pouco capital próprio, ela vai para um lugar onde precise de menos dinheiro para introduzir e tocar o negócio."Outra consequência da alta do spread foi a desaceleração na expansão da oferta de crédito. Para empresas, o crescimento médio, que chegou a atingir 12,7% ao mês no terceiro trimestre de 2008, caiu para 9,3% no último trimestre. Além disso, somado aos demais efeitos da crise, a alta do custo financeiro contribuiu para a redução da atividade econômica. Tanto que o emprego e a produção industrial caíram 0,7% e 7,5%, respectivamente, de setembro para novembro.

Vocação estatizante

Estadão

O governo admitiu, na semana passada, que quer reativar a Telebrás, tornando a empresa a responsável pelo acesso à internet, por banda larga, em todo o território brasileiro.

A volta da Telebrás foi defendida pelo secretário de Logística e Tecnologia da Informação do Ministério do Planejamento, Rogério Santanna, sob a alegação de que "o País precisa de rede própria para interligar com banda larga não só escolas, mas delegacias e hospitais em todos os lugares". Dia 26/12, a Telebrás já havia comunicado aos acionistas a disposição da União de capitalizar a empresa, aportando-lhe até R$ 200 milhões, por subscrição de ações novas.

Os defensores do projeto alegam ainda que a Telebrás propiciaria maior economia ao governo e maior segurança aos serviços de telecomunicações governamentais, além de operar com um satélite estatal brasileiro, para atender ao governo e às comunicações da aeronáutica. Sobretudo, alegam eles, poderia operar uma rede de 16 mil quilômetros de cabos de fibra óptica que está ociosa, pois pertence a uma empresa falida, a Eletronet, cujo controle acionário é da Eletrobrás e da AES Bandeirante.

A verdade é bem diferente do que sugerem os defensores da Telebrás. Ressuscitar a estatal, que já deveria ter sido liquidada por falta de atividades desde a privatização da telefonia, em 1997, e hoje é deficitária, conflita com o previsto na Lei Geral de Telecomunicações.

Em sua coluna de domingo, dia 25 de janeiro, no Estado, Ethevaldo Siqueira, especialista em tecnologia da informação, denuncia a inconsistência dos argumentos dos defensores da Telebrás e alerta para os riscos de que seja realizada uma operação nebulosa e, eventualmente, danosa ao País, por envolver uma companhia (a Eletronet) cujo único resultado concreto foi dar um enorme prejuízo aos credores, estimado em cerca de R$ 600 milhões.

Ignorou-se, diz o jornalista, na proposta de reativar a Telebrás, que o Brasil já dispõe de uma excelente infraestrutura e de oferta de serviços que poderiam atender ao governo. A segurança das comunicações militares é conferida por sistema de criptografia e codificação, não pelo fato de a operadora ser uma companhia estatal.

Além disso, acrescenta Ethevaldo Siqueira, na verdade a Telebrás nunca foi operadora, mas apenas uma holding de empresas telefônicas; o marco regulatório é contrário à presença de estatais como operadoras de serviços, salvo em casos excepcionais; e o Estado não tem razões plausíveis para retornar ao setor de telecomunicações, pois a estrutura privada do segmento mostrou-se altamente eficiente.

Aliás, mesmo no âmbito oficial, não há unanimidade quanto à conveniência de reativar a Telebrás. O ministro das Comunicações, Hélio Costa, por exemplo, estaria alinhado a outro grupo, para o qual a estatal deveria apenas cumprir suas obrigações judiciais e caminhar para a extinção.

A Telebrás, ademais, não teria condições de atender diretamente os usuários de telecomunicações, pois a rede da Eletronet não lhe faculta este acesso.

Como afirmou o ex-ministro das Comunicações do governo Fernando Henrique Cardoso Juarez Quadros, seria no mínimo arriscado transformar a Telebrás em prestadora de serviços de telefonia: "Por um momento, pode até parecer competitiva, mas depois vai precisar de dinheiro para modernizar a infraestrutura e aí não vai haver garantias. É difícil concorrer com a iniciativa privada." Ao ressuscitar a Telebrás, portanto, o governo terá de aumentar as despesas públicas, num momento de queda de receitas tributárias.

A única certeza é que se abriria espaço para a criação de centenas de empregos para os correligionários e amigos do governo, como se tem visto nas demais agências reguladoras, inclusive na Anatel, responsável pela área de telecomunicações. Em 25 anos, a Telebrás investiu cerca de R$ 40 bilhões, instalando o total de 24,5 milhões de acessos telefônicos, entre fixos e móveis. Em pouco mais de uma década, as operadoras privadas já investiram quatro vezes mais do que a Telebrás, passando a oferecer uma linha de telefone por habitante, pois atingiu 193,2 milhões de acessos fixos e móveis, densidade seis vezes maior do que quando a telefonia foi privatizada.

A moral da história no futebol e na política

Ruth De Aquino, Revista Época

A acusação contra Robinho e as farras de Ronaldo são pouco perto das obscenidades do Congresso

Fiquei na dúvida se escrevia sobre os jogadores imorais ou os políticos amorais. Tenho mais simpatia pelos craques que nos dão prazer em campo – e seus salários obscenos não são pagos por nós. Os escândalos na Europa se limitam a alguns popstars entre milhares de brasileiros que ralam pelos gramados de lá. No Congresso, o toma-lá-dá-cá de cargos, secretarias e mordomias é generalizado. Choca mais que a suspeita contra Robinho, de abuso sexual numa boate inglesa.

Nós financiamos o segundo mais caro Legislativo do mundo. E provavelmente um dos mais ineficientes. As disputas na Câmara e no Senado não exibem um toque divino, uma pedalada genial. Apenas cochichos, traições e conspirações. Os políticos chamam de articulação. Os craques do Congresso são veteranos, e os juramentos dançam ao sabor das conveniências. Chapéu, em Brasília, não é o que suspende o fôlego nas arquibancadas. É o chapéu literal, passado de mão em mão para comprar votos e, de quebra, a consciência. Escândalo de político no Brasil não vai para a capa dos tabloides nem ajuda a vender jornal. Banalizou. A bactéria é tão insidiosa que não basta amputar os dedos – já se foram também os anéis. O leitor se ruboriza de vergonha e passa direto para a página de esportes. O presidente Lula também. Não há mais partidos com ideários. Deputados e senadores, com honrosas exceções, só pensam neles mesmo. Prestígio, gratificações e benefícios. O espetáculo é feio. Parece pelada de várzea. Quero meu voto de volta.

São 513 deputados e 81 senadores. O orçamento legislativo no Brasil é de R$ 6,1 bilhões. Só perde para o dos Estados Unidos. Tem alguma coisa errada. E eles continuam a aumentar os gastos e vencimentos em causa própria, mesmo no ano da crise e do desemprego. Só o Senado, que José Sarney deve abocanhar pela terceira vez, possui 6.800 funcionários e 402 deles recebem salário de diretor, acima de R$ 16.500. Ninguém fala em ressuscitar o Conselho de Ética. Aliás, quem falava em ética e em abrir a caixa-preta era o petista Tião Viana, coitado, que seria o presidente do Senado antes de ser atropelado por Sarney e pelo ex-amante de Monica Veloso. O alagoano Renan Calheiros volta poderoso, depois de um ano sabático, na encolha. Foi ele quem captou votos do PTB para Sarney. É o amigo do rei. O que tinha sido forçado a renunciar pelos colegas "traíras" depois de escândalos envolvendo empreiteiras e vacas frias.

Por muito menos, o governador de Illinois, nos Estados Unidos, Rod Blagogevich, acaba de sofrer um impeachment por unanimidade de todos os 59 senadores. Blagogevich foi acusado de tráfico de influência por tentar vender a vaga de Barack Obama no Senado americano. Seu crime foi trocar doações de campanha por favores políticos. No Brasil, o verbo não seria "vender". Mas "negociar a vaga", "costurar um acordo". Nosso Congresso está cheio de hábeis negociantes e inescrupulosos alfaiates. Sarney deve ser entronizado: "Não desejei, não quis, não queria, mas não posso abdicar de prestar um serviço ao meu país". E tão certo está disso que mandou polir e envernizar a cadeira de espaldar alto que ocupou em dois mandatos anteriores. Uma cadeira de imperador.

Enquanto isso, na Itália, outro imperador brasileiro, Adriano, deu um soco no abdômen do zagueiro adversário e foi suspenso por três jogos. Robinho, aos 25 anos nosso craque-moleque, foi acusado de estuprar uma jovem numa boate em Leeds, na Inglaterra. Na semana anterior, Robinho tinha fugido da concentração do Manchester City em Tenerife, na Espanha, para comemorar o aniversário no verão brasileiro. Foi multado em cerca de R$ 1 milhão. O equivalente a duas semanas de trabalho. O "corinthiano-desde-criancinha" Ronaldo também se engraçou na boate paulista Pink Elephant (Elefante Rosa) com companheiras garbosas. A noitada provocou rumores de separação da nova mulher – a filha dos dois nasceu há um mês. Ele deixaria para a família um apartamento de R$ 1,5 milhão.

Robinho negou o abuso sexual, Ronaldo negou a separação. Pode ser intriga, mas nossa seleção de badboys exagera. Romário Baixinho, Edmundo Animal, Adriano Imperador, Ronaldo Fenômeno, Ronaldinho Gaúcho e agora a mascote Robinho, com sua cara de assustado. Saíram de famílias pobres, sem instrução foram para países com outro idioma, despediram-se de uma vida divertida de praia, churrasco, botequim, batuque. Não sabem o que fazer com tanto dinheiro. Deviam se engajar mais em causas sociais. Mas o que rola mesmo é balada, álcool, outras drogas, e "as minas". São lindas, gostosas, muitas piranhas e aproveitadoras.

Mas eles não são de todo inocentes. E se tornam símbolos sexuais, até o Gaúcho, que era feio e franzino. Pelé, gênio dos tempos em que craque brasileiro não virava multimilionário aos 17 anos, lamenta os escândalos dos novos ídolos do futebol brasileiro: "Coisas como estas me deixam triste. Vão fechar as portas a nossos atletas", disse Pelé.

Longe de absolver essas lambanças, ainda sou mais os jogadores partindo para o abraço da galera do que os políticos partindo para o abraço do tamanduá.

Verdade, Honra, Vergonha

Maria Lucia Victor Barbosa, site Instituto Millenium

Nosso relativismo moral vem de longe. É obra cumulativa de séculos. A acachapante aprovação nacional de Lula da Silva, sem contar com sua eleição e reeleição, demonstra que já chegamos aos píncaros das consequências históricas com requintes de caos. E diante do que se passa na atualidade, lembremos de Gregório de Matos e Guerra (1636-1696) advogado e poeta, alcunhado Boca do Inferno ou Boca de Brasa. Em Epílogos, ele retrata a paisagem moral de Salvador, Bahia, nossa capital na época colonial. Mudando a palavra cidade para país, teremos a paisagem moral atual em alguns dos versos do poeta:

“Que falta neste pais? Verdade.
Que mais por sua desonra? Honra.
Falta mais que se lhe ponha? Vergonha”.
“O demo a viver se exponha,
Por mais que a fama o exalte,
Num país onde falta
Verdade, honra, vergonha”.


Nunca nos faltou tanto verdade, honra, vergonha. Convivemos alegremente com “mensaleiros”, sanguessugas, transportadores de dólares em cuecas e até os reelegemos. Somos antiamericanistas doentes, mas volta e meia vamos aos Estados Unidos para fazer turismo, comprar, estudar, trabalhar, cuidar da saúde, além dos milhões de brasileiros que partem em busca da América, América e lá permanecem clandestinos, mas ganhando o que jamais ganhariam aqui. Odiamos os judeus porque preferimos o Hamas dos Palestinos. Como bons latino-americanos somos de esquerda e por isso idolatramos Fidel Castro, não importando ser ele um ditador implacável que nunca respeitou os direitos humanos. Se Lula da Silva, o grande pai de seu povo, põe o Brasil de joelhos diante de Hugo Chávez, Evo Morales, Rafael Correa, Fernando Lugo, Cristina Kirchner, nos inclinamos também perante as lideranças populistas que infestam a América Latina sempre imersa em sua mentalidade do atraso, em suas mazelas, em seus fracassos. A corrupção faz parte de nossa história e aprovamos governos corruptos ao dizer que se estivéssemos lá faríamos as mesmas coisas. Afinal, somos espertos, malandros e nossa satisfação em passar os outros para trás não tem limites.

Indiferentes ou ignorando o que ocorre no Congresso Nacional ou no âmbito da Justiça seguimos cantando o samba de Zeca Pagodinho que nosso presidente da República tanto aprecia: “Deixa a vida me levar”. Futebol, carnaval e Big Brother são nosso alimento espiritual. Acreditamos que o MST é um movimento social pacífico que não esbulha proprietários rurais destruindo maquinário, roubando gado, pilhando, queimando sedes de fazendas. Do mesmo modo admiramos as sanguinárias Farcs, idealizadas como heróicas e defensoras do povo colombiano.

No momento dois fatos empolgam os noticiários. O primeiro diz respeito ao caso do terrorista Cesare Battisti, que a Itália quer de volta, mas que já foi perdoado por nosso ministro da Justiça com o acordo de Lula da Silva. Não devolveremos Battisti de jeito nenhum, o criminoso é nosso. Também estamos de braços abertos para receber os terroristas de Guantánamo. Aplausos para a Justiça brasileira, pois aqui o crime compensa. Do jeito que a coisa vai, pode ser que Lula da Silva crie o Ministério do Terrorismo e convide Osama Bin Laden para ministro. Seria mais uma vez delirantemente aplaudido pelo povo e seu prestígio subiria como atestado em pesquisa.

O segundo fato é relativo ao Fórum Social Mundial, que ocorre em Belém do Pará. O governo investiu milhões na festividade, inclusive, em camisinhas. Tudo pago com o dinheiro do contribuinte, ou seja, estamos financiando a esbórnia que atrai pessoas de todo o Brasil e do exterior. Presentes ao festival estarão Lula da Silva, ministros, assessores, figuras como João Pedro Stédile, além dos caudilhos Hugo Chávez, Evo Morales, Rafael Correa. Fernando Lugo, que fazem Lula sonhar com outro mandato possível. Lula não irá ao Fórum Econômico Mundial em Davos. Ficará em Belém dançando o Carimbó.

Aliás, não faltarão ao carnavalesco evento, além das camisinhas, muita cachaça e folia. Naturalmente, os participantes se posicionarão contra o capitalismo que os sustenta, contra a liberdade que permite a festividade, contra a riqueza que almejam para si. Dizem que no globalizado Fórum será dada oportunidade aos participantes, se os eflúvios etílicos permitirem, de perceberem que os problemas que assolam o mundo derivam da competição pelo poder e do acúmulo de bens materiais. Ou seja, tudo que eles mesmos fazem ou almejam. Em suas utopias delirantes as esquerdas clamarão pela volta do socialismo, nem que seja o do século XXI. E enquanto a crise avança sobre o planeta, em Belém do Pará se dançará o Carimbó, pois o tal outro mundo possível nunca foi definido nesses fóruns onde acontece de tudo, menos idéias.

Sem dúvida, esse “Fórum Socialista” faz recordar as proféticas palavras de Ortega y Gasset em A Rebelião das Massas: “A vida toda se contrairá. A atual abundância de possibilidades se converterá em efetiva míngua, escassez, em impotência angustiante, em verdadeira decadência. Porque a rebelião das massas é a mesma coisa que Rathenau chamava de ‘a invasão vertical dos bárbaros”.

No Brasil essa invasão começou faz tempo, mas diante dela nos quedamos indiferentes porque nos falta verdade, honra e vergonha ou, talvez, porque sejamos nós os bárbaros.