segunda-feira, fevereiro 02, 2009

A moral da história no futebol e na política

Ruth De Aquino, Revista Época

A acusação contra Robinho e as farras de Ronaldo são pouco perto das obscenidades do Congresso

Fiquei na dúvida se escrevia sobre os jogadores imorais ou os políticos amorais. Tenho mais simpatia pelos craques que nos dão prazer em campo – e seus salários obscenos não são pagos por nós. Os escândalos na Europa se limitam a alguns popstars entre milhares de brasileiros que ralam pelos gramados de lá. No Congresso, o toma-lá-dá-cá de cargos, secretarias e mordomias é generalizado. Choca mais que a suspeita contra Robinho, de abuso sexual numa boate inglesa.

Nós financiamos o segundo mais caro Legislativo do mundo. E provavelmente um dos mais ineficientes. As disputas na Câmara e no Senado não exibem um toque divino, uma pedalada genial. Apenas cochichos, traições e conspirações. Os políticos chamam de articulação. Os craques do Congresso são veteranos, e os juramentos dançam ao sabor das conveniências. Chapéu, em Brasília, não é o que suspende o fôlego nas arquibancadas. É o chapéu literal, passado de mão em mão para comprar votos e, de quebra, a consciência. Escândalo de político no Brasil não vai para a capa dos tabloides nem ajuda a vender jornal. Banalizou. A bactéria é tão insidiosa que não basta amputar os dedos – já se foram também os anéis. O leitor se ruboriza de vergonha e passa direto para a página de esportes. O presidente Lula também. Não há mais partidos com ideários. Deputados e senadores, com honrosas exceções, só pensam neles mesmo. Prestígio, gratificações e benefícios. O espetáculo é feio. Parece pelada de várzea. Quero meu voto de volta.

São 513 deputados e 81 senadores. O orçamento legislativo no Brasil é de R$ 6,1 bilhões. Só perde para o dos Estados Unidos. Tem alguma coisa errada. E eles continuam a aumentar os gastos e vencimentos em causa própria, mesmo no ano da crise e do desemprego. Só o Senado, que José Sarney deve abocanhar pela terceira vez, possui 6.800 funcionários e 402 deles recebem salário de diretor, acima de R$ 16.500. Ninguém fala em ressuscitar o Conselho de Ética. Aliás, quem falava em ética e em abrir a caixa-preta era o petista Tião Viana, coitado, que seria o presidente do Senado antes de ser atropelado por Sarney e pelo ex-amante de Monica Veloso. O alagoano Renan Calheiros volta poderoso, depois de um ano sabático, na encolha. Foi ele quem captou votos do PTB para Sarney. É o amigo do rei. O que tinha sido forçado a renunciar pelos colegas "traíras" depois de escândalos envolvendo empreiteiras e vacas frias.

Por muito menos, o governador de Illinois, nos Estados Unidos, Rod Blagogevich, acaba de sofrer um impeachment por unanimidade de todos os 59 senadores. Blagogevich foi acusado de tráfico de influência por tentar vender a vaga de Barack Obama no Senado americano. Seu crime foi trocar doações de campanha por favores políticos. No Brasil, o verbo não seria "vender". Mas "negociar a vaga", "costurar um acordo". Nosso Congresso está cheio de hábeis negociantes e inescrupulosos alfaiates. Sarney deve ser entronizado: "Não desejei, não quis, não queria, mas não posso abdicar de prestar um serviço ao meu país". E tão certo está disso que mandou polir e envernizar a cadeira de espaldar alto que ocupou em dois mandatos anteriores. Uma cadeira de imperador.

Enquanto isso, na Itália, outro imperador brasileiro, Adriano, deu um soco no abdômen do zagueiro adversário e foi suspenso por três jogos. Robinho, aos 25 anos nosso craque-moleque, foi acusado de estuprar uma jovem numa boate em Leeds, na Inglaterra. Na semana anterior, Robinho tinha fugido da concentração do Manchester City em Tenerife, na Espanha, para comemorar o aniversário no verão brasileiro. Foi multado em cerca de R$ 1 milhão. O equivalente a duas semanas de trabalho. O "corinthiano-desde-criancinha" Ronaldo também se engraçou na boate paulista Pink Elephant (Elefante Rosa) com companheiras garbosas. A noitada provocou rumores de separação da nova mulher – a filha dos dois nasceu há um mês. Ele deixaria para a família um apartamento de R$ 1,5 milhão.

Robinho negou o abuso sexual, Ronaldo negou a separação. Pode ser intriga, mas nossa seleção de badboys exagera. Romário Baixinho, Edmundo Animal, Adriano Imperador, Ronaldo Fenômeno, Ronaldinho Gaúcho e agora a mascote Robinho, com sua cara de assustado. Saíram de famílias pobres, sem instrução foram para países com outro idioma, despediram-se de uma vida divertida de praia, churrasco, botequim, batuque. Não sabem o que fazer com tanto dinheiro. Deviam se engajar mais em causas sociais. Mas o que rola mesmo é balada, álcool, outras drogas, e "as minas". São lindas, gostosas, muitas piranhas e aproveitadoras.

Mas eles não são de todo inocentes. E se tornam símbolos sexuais, até o Gaúcho, que era feio e franzino. Pelé, gênio dos tempos em que craque brasileiro não virava multimilionário aos 17 anos, lamenta os escândalos dos novos ídolos do futebol brasileiro: "Coisas como estas me deixam triste. Vão fechar as portas a nossos atletas", disse Pelé.

Longe de absolver essas lambanças, ainda sou mais os jogadores partindo para o abraço da galera do que os políticos partindo para o abraço do tamanduá.