segunda-feira, fevereiro 02, 2009

Negar o holocausto é um ato imoral

Pedro do Coutto, Tribuna da Imprensa

O Papa Bento XVI devolveu ao bispo inglês Richard Williamson e a mais três dignitários da Igreja Católica a comunhão que deles tinha sido retirada por seu antecessor, João Paulo II, pelo fato de terem negado publicamente a existência do holocausto contra os judeus ou então - cinicamente - minimizá-lo.

Um duplo absurdo. A reação, intensa, como não poderia deixar de ser, se fez sentir levando o atual ocupante do Trono de São Pedro a mais uma vez condenar o horror que, a partir de uma infame covardia, marcou os campos de concentração da Alemanha de Hitler na Polônia. Não se encontra uma explicação lógica para a devolução da comunhão a Williamson e aos outros três bispos.

Williamson quis reduzir a dimensão do holocausto de 6 milhões de judeus e outros prisioneiros para 300 mil, como se isso pudesse diminuir a desumanidade praticada em larguíssima escala. Um dos três bispos, como a “Folha de S.Paulo” publicou na edição de 29/01, chegou a colocar em dúvida a existência das câmaras de gás letal.

Impressionante tal atitude revisionista. Os que se empenham em fazer uma reforma impossível de um passado sinistro, a maior violação de direitos humanos da história, esquecem-se dos documentos existentes. Todos registrados. Há filmes feitos por alemães que foram capturados pelos ingleses e que hoje se encontram nos arquivos da BBC de Londres.

Os documentos focalizam a descoberta do gás Zyrcon, aperfeiçoado por sugestão de Albert Speer, arquiteto do III Reich, para matar mais rapidamente a um custo menor. Mostram os filmes e as fotografias milhares de cadáveres empilhados como lixo lançados às valas de sangue e lodo. Objetos dos assassinados de forma vil foram roubados.

O roubo praticado pelos nazistas chegava até a dentes e obturações de ouro das vítimas. Nem sequer havia luta. Alain Resnais, em “Noite e nevoeiro”, documentário, dá seu testemunho.

Os prisioneiros embarcavam nos vagões da morte para Auschwitz, Dachau,entre outras unidades de horror e pânico. O bispo Richard Williamson, reabilitado, e novamente condenado pela opinião pública, não só judaica, mas mundial, deve inclusive lembrar que Bento XVI visitou Auschwitz e ergueu as mãos aos céus indagando como as atrocidades ali praticadas puderam ter ocorrido.

Mas se Williamson deve se lembrar, o cardeal Joseph Ratzinger (Bento XVI) parece ter se esquecido de sua visita à Polônia há apenas três anos. Pois como devolver a comunhão a quem a perdeu exatamente por negar as atrocidades que ele próprio confirmou em sua viagem ao passado recente?

Em plena era do registro, com os jornais, revistas, fotografia, cinema, tv e agora a internet, essencial para a pesquisa, como negar o que está concretamente arquivado em páginas, imagens e sons, testemunhas eternas da fúria e do assassinato em série? Impossível.

Como diz Elena, minha mulher, no caso, negar a existência do holocausto é tão alucinado como defendê-lo. Talvez moralmente até pior. Isso porque negar o que todos sabem que aconteceu é uma forma de escapismo, uma confissão tácita.

Na negativa está implícita a idéia de defender o que ocorreu. Porém de maneira indireta. Já que, diretamente, só alucinados poderiam colocar-se ao lado de um processo inominável de extermínio incluindo a pilhagem.

O atual titular da Cátedra de São Pedro cometeu um erro indo ao espaço de seu antecessor para rever atos que não possuem a menor necessidade de serem revistos. Foi uma falha histórica enorme. Ele já começou a tentar corrigi-la. Conseguirá integralmente? Tenho dúvida.