quinta-feira, novembro 04, 2010

ENEM: que a Justiça acabe com exigências absurdas!

Adelson Elias Vasconcellos

O recado hoje é bem curtinho. O Ministério Público Federal, no Espírito Santo, ingressou com pedido à Justiça, para que mande às favas a exigência do MEC de se proibir os alunos de portarem relógios, lápis, borracha, apontadores ou lapiseiras, para a realização dos exames do ENEM.

Tais exigências absurdas até o momento não foram justificadas. Ninguém até agora provou à sociedade de que forma tais “artefatos” podem contribuir para a quebra da segurança durante a realização das provas.

Que a Justiça ponha um ponto final nesta aberração, e faça o MEC ver que chifres em cabeça de cavalo não contribui em nada, nem para a tal segurança, tampouco para evitar que os alunos se utilizem de meios ilícitos para a realização dos exames.

Aliás, a forma como os exames estão sendo feito, em breve, precisarão ser revistos. Não é o melhor caminho para servir de avaliação, que deve aferir conhecimentos, não se transformar em corrida de obstáculos e sessão de tortura. Os alunos não podem ser penalizados pela má organização dos exames em 2009, quando o MEC não soube garantir a devida segurança.

A pressa em querer ver o sistema implantado de uma vez, se demonstrou como péssima conselheira. E, é justamente em nome da pressa, que excelentes soluções acabam deturpadas e jogadas no lixo.

O desafio à criatura

Dora Kramer , O Estado de São Paulo

O presidente Luiz Inácio da Silva não apareceu na festa, mas esteve presente na vitória de ontem de Dilma Rousseff em cada um dos 56 milhões de votos dados a ela e até no único momento em que a plateia de correligionários reunidos para ouvir o primeiro discurso da sucessora eleita, se entusiasmou: quando Dilma expressou sua gratidão e admiração por Lula.

A reação reproduziu exatamente o ambiente da eleição, toda ela referida na figura de um presidente que não esconde sua contrariedade em deixar o Planalto nem o desejo de fazer da obra da sucessão uma “prova” de seu poderio junto à população.

Por isso mesmo o resultado sequer pode ser visto – como pretende a propaganda oficial – como uma celebração à participação das mulheres na política brasileira, porque foi na realidade a vitória de uma mulher eleita não por méritos próprios, mas pela vontade e o esforço de um tutor.

E quem confirmou isso foram os petistas reunidos em um hotel de Brasília para ouvir as primeiras palavras de Dilma Rousseff depois de eleita, ao aplaudi-la com vigor apenas quando da referência a Lula.

O discurso de um modo geral foi frio, protocolar e genérico. Talvez como coubesse mesmo à ocasião. Foi parecido com a candidata que, mesmo eleita presidente da República, não demonstrava alegria, não transmitia emoção. Sorriu apenas ao falar de Lula, o único momento em que externou alguma emoção. Não lançou uma ideia nem disse uma frase que pudesse ser vista como marca de personalidade ou de estilo governamental. Quem escreveu o texto, não quis arriscar: pôs Dilma a reafirmar compromissos como a erradicação da miséria, a prometer cumprir contratos, reforçar agências reguladoras, melhorar a segurança pública, a nomear “ministros de primeira qualidade” e, no fim, a convidar “a todos para uma ação em prol do futuro do País”.

Até a reafirmação da “mão estendida” à oposição por ora soou como uma formalidade. Pode ser só isso ou pode significar algo mais, disposição de realmente distender os ânimos, mas isso vai depender dos gestos futuros.

Para uma candidata que esperava ganhar no primeiro turno e um partido que preparava há tempo a festa da vitória, o primeiro pronunciamento poderia ter sido mais bem elaborado. Mas não surpreendeu nem decepcionou. Apenas deixou a desejar que os próximos sejam mais pródigos de substância.

Os primeiros instantes de Dilma eleita presidente foram muito semelhantes a todos os momentos já vistos e ouvidos desde que foi lançada candidata e reafirmaram um desafio que se impõe a ela de agora em diante cada vez com mais contundência: o de sair da sombra do criador e mostrar-se uma criatura à altura da responsabilidade que recebeu da maioria do povo do Brasil.

O papel da oposição

O Estado de São Paulo

"Minha mensagem de despedida neste momento não é um adeus. É um até logo. A luta continua." Ao reconhecer a vitória de Dilma Rousseff, José Serra exortou os oposicionistas a se articularem para cumprir o papel que lhes cabe no cenário político nacional. "Para os que nos imaginam derrotados - acrescentou - quero dizer: nós estamos apenas começando uma luta de verdade." É ver para crer.

Um dos fatores decisivos da vitória de Lula foi o comportamento errático, quando não pura e simplesmente omisso, da oposição, ao longo de oito anos de governo petista e na campanha eleitoral deste ano. Lula elegeu-se em 2002 com a imagem de líder popular que fez contrastar com a de intelectual, representante da elite, de seu antecessor, Fernando Henrique. Com grande competência, Lula soube manipular esse contraste para construir a própria imagem de líder e defensor dos fracos e oprimidos e colar nos opositores o estigma de inimigos do povo. FHC virou anátema. Seu governo, "herança maldita". E a oposição, como que sofrendo de grave crise de identidade, assistiu inerme a toda essa mistificação. A tal ponto que em 2005, quando estourou o escândalo do mensalão, Lula estava blindado e imune aos efeitos negativos da corrupção que grassava ao seu redor. Por muito menos, alguns anos antes Fernando Collor fora forçado a renunciar à Presidência.

É animador, portanto, ouvir o até agora principal líder da oposição convocar seus companheiros à continuação da luta política. Pois toda nação democrática necessita de governo competente e honesto tanto quanto de oposição viva e operante, pronta e apta a fazer cumprir o fundamento da alternância no poder.

Condições objetivas para o exercício de uma oposição eficiente a partir de 1.º de janeiro existem, apesar de a base governista ter aumentado no Congresso Nacional. A oposição sai das urnas com desempenho melhor, nos pleitos majoritários, do que quatro anos atrás. A diferença de votos entre Dilma e Serra foi menor, em cerca de 10 milhões de votos, do que aquela que Lula teve sobre Alckmin em 2006, o que pode ser explicado em parte, é claro, pelo fato de que Dilma não é Lula. Além disso, o PSDB acaba de conquistar 8 governos estaduais (foi o partido que mais governadores elegeu), que se somam aos 2 do DEM e abrangem a maioria dos Estados mais populosos e prósperos, como São Paulo, Minas, Paraná e Santa Catarina.

A mesma disposição manifestada por Serra foi reiterada pelo presidente nacional dos tucanos, senador Sérgio Guerra, para quem "o PT e os que ganharam de nós nesta eleição trabalharam para construir uma hegemonia, e não uma democracia. No Congresso, vamos agir para que o contraditório se estabeleça". Por sua vez, depois de defender a necessidade de o maior partido da oposição partir para alianças e até fusões, o governador de São Paulo, Alberto Goldman, colocou o dedo na ferida: "Nós não fomos suficientemente combativos ao longo dos oito anos do governo Lula."

Pode facilitar o trabalho da futura oposição o fato de que Dilma, apesar de dispor de ampla base de apoio parlamentar, certamente não terá sobre seus aliados o mesmo controle que detém o atual presidente. E, certamente ainda mais relevante, o bloco governista poderá bater cabeça diante de previsíveis e inevitáveis discrepâncias entre políticas a serem defendidas pela próxima presidente e aquelas hoje adotadas por Lula. A considerar, ainda, a evidência de que uma importante legenda da base governista, o PSB, chega a 2011 fortalecido pelo aumento de sua bancada parlamentar e pela eleição de 6 governadores, quase todos no maior reduto petista - o Nordeste. Disposto, portanto, a trilhar tanto quanto possível seus próprios caminhos em direção à sucessão presidencial de 2014.

Mas qualquer projeto oposicionista se frustrará, principalmente em termos de consolidação da democracia, se não houver a sincera disposição de banir da vida política duas práticas nefandas que o lulo-petismo consagrou: o exercício da oposição, como fez no plano nacional até 2003, pautado exclusivamente por interesses eleitorais e o tratamento de adversários políticos como inimigos a serem dizimados. A oposição há que ser firme e combativa, sempre, e construtiva, quando possível.

O voto de cabresto não mudou. Elegeu Dilma Rousseff

Alguns analistas comparando os números da eleição do 2° turno, Dilma ganharia sem os votos do Norte e do Nordeste. Dilma: 22.443.748 e Serra ficaria com 10.665.932.

Assim, subtraindo os votos do Norte e Nordeste e somando apenas os votos do Sul – Sudeste + Centro-Oeste: Dilma teria 33.247.650 e Serra com 32.972.526. Portanto, diferença mínima.

Mas se esqueceram do carro chefe que mudaria esse cenário:

Em todo o Brasil, mais de 11 milhões de famílias são atendidas pelo Bolsa Família. E quem são os beneficiários: Quem pode se beneficiar do Bolsa Família?

A população alvo do programa é constituída por famílias em situação de pobreza ou extrema pobreza. As famílias extremamente pobres são aquelas que têm renda per capita de até R$ 70,00 por mês. As famílias pobres são aquelas que têm a renda per capita entre R$ 70,01 a R$ 140,00 por mês, e que tenham em sua composição gestantes, nutrizes, crianças ou adolescentes entre 0 e 17 anos.

É óbvio que esse tipo de assistencialismo tempos atrás, condenado pelo próprio Lula que chamou de “troca de favores” foi decisivo para que Dilma ganhasse. Nem Lula teria tanta popularidade sem esse programa cópia de governos anteriores.

No fundo na liberdade de “pressão” do voto de cabresto ainda existe, embora em outra roupagem, mais light, sem violência física e sem capangas por perto.

Esse foi o que marcou a eleição de 2010 no Brasil!

De todos os comentários nos jornais do mundo, o The Guardian é de pontualidade britânica: “ Os eleitores brasileiros optaram pela continuidade do "lulismo" através de Dilma Rousseff, mas a decepção com a próxima presidente será inevitável.”

Um país cindido ao meio

Ricardo Vélez Rodríguez (*) - O Estado de São Paulo

Uma boa maneira de resumir o que se vem passando no Brasil nestes últimos meses é recorrer à metáfora utilizada por Royer-Collard, no início do século 19, para simbolizar as desgraças e a dinâmica ensejadas pela Revolução Francesa: "A democracia", dizia o grande precursor dos doutrinários, "é um rio que corre com as margens cheias."

Essa é a nossa "democracia de massas", acelerada, ao longo dos últimos oito anos, pelo fenômeno do lulopetismo. Torrente verbal de linguajar chulo e de eterno palanque; de iniciativas mal costuradas (o tal de Programa de Aceleração do Crescimento, o PAC, que influencia o desempenho do País na esfera econômica, com gastança descontrolada jamais vista); de propostas sensatas no terreno macroeconômico (que vieram do passado recente, ao ensejo das reformas social-democratas promovidas notadamente pelos anteriores governos de Itamar Franco e Fernando Henrique Cardoso, destacando-se nesse contexto o Plano Real); de pregação messiânica que pretendeu fazer do retirante nordestino ocupante do Palácio do Planalto o novo salvador da Pátria; de favores oficiais distribuídos a esmo com a única finalidade de consolidar um eleitorado subserviente; de jacobinismo em alta por parte da coorte safada de "mata-mosquitos" do presidente populista; de corrupção generalizada, justificada pela revanche ideológica que tem embalado o discurso dos novos "donos do poder" contra as odiadas "elites"; de surgimento e consolidação de uma nova-velha elite de peleguismo sindical, inspirada no pior dos populismos; de clérigos e bispos da "Teologia da Libertação" que seguem as pegadas espertas de Leonardo Boff e de Frei Betto para canonizar as falcatruas petistas em nome da justiça social; de orgástica farra do setor do empresariado que se alinhou desavergonhadamente ao lado do poder para garantir as benesses do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e os lucros subsidiados com o dinheiro do contribuinte; de louvação oportunista dos intelectuais amamentados com as benesses oficiais; enfim, de reificação ectoplasmática dessa entidade mítica genialmente descrita por Mario de Andrade como o "herói sem nenhum caráter" que, proveniente das obscuras florestas, percorre o País com a sua oralidade falaciosa, enganando todo mundo para voltar, após a farra escatológica, a sumir nas sombras de onde veio, deixando para trás um nunca visto cenário de terra arrasada em matéria de princípios e instituições.

Essa seria a imagem que melhor representaria, a meu ver, estes paradoxais momentos que estamos vivendo, de um País literalmente dividido ao meio pelos que se entregaram ao embalo dos sonhos da democracia fácil e do tudo pode porque "os que estão mandando são os representantes da alma popular", materializando, assim, a pior das éticas, a totalitária, que sagrou o princípio de que "os fins justificam os meios".

Sairemos ilesos desse tsunami de "retórica utópico-democrática" (como diria Jefferson)? Ou sucumbiremos a um chavismo à brasileira, aos cantos de sereia do núcleo marxista-leninista do petismo, que considera termos chegado à etapa definitiva de deflagração da "revolução do proletariado"?

O tempo dirá.

Talvez, para fazer ainda eco à imagem macunaímica, haja uma acomodação geológica de interesses, movida unicamente pela lei da gravidade do menor esforço, essa lei de cuja aplicação está cheia de exemplos a história política das nações. Um dos maiores partidos do nosso universo político, tido como fiel da balança, é justamente aquela agremiação que, desde a fundação da Nova República, canalizou os interesses miúdos das oligarquias regionais e do caciquismo de sempre, solidamente ancorada no espírito patrimonialista de privatização do poder e do espaço público para benefício de amigos e apaniguados.

Se vivo fosse, o iconoclasta Heráclito de Éfeso exclamaria: "Tanto barulho para nada." Parecia, há oito anos, que o velho patrimonialismo havia começado a recuar, ao ensejo da Lei de Responsabilidade Fiscal, do enxugamento da máquina pública e das privatizações, e agora voltamos a um tempo anterior a esse, temerosos e triunfantes, chorosos e risonhos, ébrios e sóbrios, que essa é a imagem cindida da sociedade brasileira nestes momentos de ressaca eleitoral.

Do que estou seguro é que o Brasil continuará com o seu "voo de galinha", com decolagens mirabolantes e quedas desajeitadas, porque não fizemos o dever de casa. Não cuidamos a contento da educação para a cidadania, que deve ocorrer nas quatro primeiras séries do primeiro grau. Os esforços da última década foram envidados para que dinheiro não faltasse às escolas públicas, para compra da merenda escolar e para distribuição do material didático - em boa medida preparado para destruir qualquer sentimento de brasilidade, pois foi viciado pelos ativistas gramscianos com o vírus que destrói os valores tradicionais para "tomar a sopa pelas beiradas", fazendo ruir de podre a odiada "sociedade burguesa".

Essa é a nossa realidade. Um país que, na era lulista, mostrou os músculos ao mundo, numa política externa desastrada que conspirou contra os interesses dos nossos amigos lá de fora e dos nossos empresários e contribuintes, dando força aos que nos desacreditam no cenário internacional, pois aparecemos agora nas fotos ao lado de ditadores e facínoras, como os irmãos Fidel e Raúl Castro, Mahmoud Ahmadinejad, Hugo Chávez e quejandos. O Brasil não conseguiu emplacar, com a diplomacia lulista, nem a direção da Unesco, nem a coordenação da Organização Mundial do Comércio (OMC), nem a vaga permanente no Conselho de Segurança das Nações Unidas.

(*) Coordenador do Centro de Pesquisas Estratégicas"Paulino Soares De Sousa" da Universidade Federal de Juiz de Fora

FHC: Lula governou com ‘intolerância’

Gilberto Scofield Jr., O Globo

“Ele perdeu oportunidade de construir democracia mais tranquila e dinamitou pontes”

SÃO PAULO. Após criticar o presidente Lula por “abuso de poder político” nas eleições a favor de sua candidata, Dilma Rousseff, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso chamou o PT e Lula de “dinamitadores de pontes”, numa alusão ao quanto considera difícil uma eventual aproximação entre petistas e tucanos no futuro governo.

Ele culpa a intransigência e a intolerância do governo Lula pela polarização entre os partidos e no próprio país, o que impediria um debate mais construtivo sobre o futuro do Brasil.

O ex-presidente diz que o currículo petista é ruim, caracterizado por discurso agressivo e uso escandaloso da máquina pública na defesa de interesses partidários. Ele criticou a falta de visão conciliatória de futuro do PT e disse que, nos últimos oito anos, o partido “nunca acenou para oposição nenhuma”.

— O PT e o PSDB deveriam ter trabalhado por uma reforma política agora, já deveriam estar discutindo durante a campanha.

Mas tem que criar um clima, porque isso não é de repente.

Depois da transição que eu fiz para o Lula, que foi uma coisa bastante civilizada, esperava isso: mais cooperação. Não aconteceu.

Muito pelo contrário. O governo do presidente Lula se caracterizou pela intransigência, pela intolerância, um é bom, outro é mau. Espero que isso mude, ou então não avançamos politicamente.

E o Brasil precisa de pontes, mas a ponte tem que ser construída. Por enquanto, o governo do presidente Lula e o PT foram dinamitadores de pontes.

Fernando Henrique votou no Colégio Sion, em Higienópolis.

Ele foi aplaudido duas vezes por eleitores que gritavam sentir saudades de sua gestão na Presidência.

O ex-presidente elogiou o processo eleitoral como manifestação democrática legítima no país e disse que o Brasil saiu das urnas mais forte, mas condenou a imagem de “Brasil gigante” que o PT buscou passar na campanha. Ele condenou a soberba e a petulância com que o presidente Lula conduziu todo o processo, mas disse que não nutre mágoas: — Mágoa, a gente tem quando se sente lá dentro ofendido, e Lula não me ofendeu.

Mas ele perdeu a oportunidade de ter construído uma democracia mais tranquila. Se ele fosse menos agressivo, se ele entendesse que não é todo mundo contra ou todo mundo a favor, se ele tivesse uma visão mais pluralista, se ele fosse um pouquinho mais humilde, teria sido melhor. Eu já o convidei para tomar um café. Mas um café, porque todo mundo sabe que eu sou pão-duro, né?

Perguntado sobre os desafios do governo, listou problemas e voltou a reclamar da falta de discussão sobre o futuro do país: — Além das questões econômicas, que, aliás, foram deixadas de lado, nosso problema é criar uma boa sociedade, com respeito à democracia, sem abuso de poder por parte de ninguém, muito menos do presidente da República. Mais segurança para as pessoas, educação de melhor nível, emprego, respeito aos recursos naturais — afirmou. — (Tem que) Deixar de transformar o pré-sal, que é de todos nós, num slogan de campanha, para ser uma coisa realista, para saber o que fazer para o Brasil. É ter uma visão do meio ambiente, o que vai fazer com a matriz energética. Esses são os problemas do Brasil.

A contradição do discurso

Demétrio Magnoli , O Estado de São Paulo

Foi um discurso inclusivo. Dilma disse que é presidente de todos os brasileiros, que vai defender a democracia, a liberdade de expressão, a liberdade de imprensa, os contratos, a estabilidade econômica. Ela se comprometeu com um programa que é do País, não de uma facção, não de um partido.

Dilma foi mais longe e agradeceu os eleitores da oposição e até mesmo os partidos de oposição. Quase disse a frase fundamental: a oposição é tão importante quanto o governo numa democracia. Se tivesse dito, parte do discurso chegaria à perfeição, do ponto de vista do que se pretende de um presidente de um país inteiro.

Ao mesmo tempo, por outro lado, ela pronunciou aquela narrativa que já se tornou padrão no atual governo – a de que a história do Brasil começou com Lula. Nas palavras infelizes que utilizou, a “genialidade” de Lula produz o desenvolvimento. É como se nada houvesse antes: a redemocratização, o plano real. Tudo se passa como se o governo Lula não estivesse inscrito numa trajetória histórica da Nação.

Essa forma de dividir a história em antes de Lula e depois de Lula, a.L. e d.L., contradiz todo o resto do discurso. A mensagem, enfatizada por um coro partidário que entoava o nome do “presidente salvador”, funcionou como uma borracha, quase apagando o texto precedente. A melodia sobre o Líder e o Povo, assim com maiúsculas mesmo, sobre “o povo de Lula”, entra em conflito com o discurso de princípios, que fala de democracia, de instituições, de liberdades, de contratos, de cidadania, de Constituição.

Um discurso bipartido, organizado sobre dois polos mutuamente excludentes. Há aquilo que se pretende afirmar e aquilo que se afirma sem se pretender. Essa é a contradição que vai demarcar o governo de Dilma. No fim, ela terá que escolher uma via ou a outra.

Num país sério, seria um escândalo

O Globo



Entrevista com Profesor Marco Antonio Villa

O GLOBO: O senhor acha que houve uso da máquina?

MARCO ANTONIO VILLA: Estatal? Sem dúvida. Como nunca. Nunca na História deste país, como disse certa pessoa, a máquina estatal foi tão utilizada. Inclusive abandonando a agenda de trabalho. Nas últimas sextas-feiras, ele (o presidente Lula) abandonou a agenda e as funções administrativas. Colocou-se em campanha de uma forma… Uma coisa é apoiar um candidato. É legítimo. Outra coisa é pôr a máquina estatal, ministérios, secretários, os 25 mil cargos de nomeação direta ou indireta a serviço da candidata oficial. Até as universidades públicas. Há dias, o reitor da UFRJ deu declaração favorável (a Dilma). Não é um país sério, é um país de Macunaímas. Se fosse um país sério, seria um escândalo. Não é por que a lei é omissa que você vai ter uma atuação política que fira a ética.

Mas nunca usaram a máquina antes?

VILLA: Desta forma, não. Mas não inauguraram o uso da máquina. Ele existe desde 1945. Mas nessas proporções, com o presidente fazendo discurso e dizendo que quer exterminar o adversário, eu nunca vi. O presidente se preocupa com a eleição de um adversário no Amazonas, no Piauí, no Ceará. Você transforma a grande política em questão pessoal. Não é por não gostar de um senador que vou dedicar parte de minha agenda a derrotá-lo, como no caso de Arthur Virgílio (PSDB-AM) ou Tasso Jereissati (PSDB-CE).

Foi o presidente quem derrotou esses senadores?

VILLA: Ele fez um esforço. No Ceará, foi claro. A questão que se coloca é um presidente sair pelo país fazendo campanha, usar a máquina dessa maneira. Ele prometeu fazer campanha depois do expediente e não cumpriu. O deslocamento (de Lula), quem paga?

O presidente deveria ter se licenciado?

VILLA: Essa é uma questão que Covas (Mario, governador de SP, morto em 2001) colocou na eleição de 1998. Temos de rever a lei. Sou favorável à reeleição. O eleitor, se gostou, tem o direito de reeleger. Mas a lei precisa ser aperfeiçoada. É injusta. Você pode ser candidato no cargo e seu adversário não pode. No caso da Presidência, se o adversário é um governador, precisa se desincompatibilizar. A lei precisa de aperfeiçoamento urgente.

Por que não a alteram?

VILLA: Porque depende do Congresso e há temas que não entram em pauta. Mas o Executivo, se quiser, faz. O Executivo aprova o que quer. Dilma, por exemplo, se for eleita, terá mais de três quintos da Câmara e do Senado. Portanto, tem quórum para aprovar o que quiser.

E isso o assusta?

VILLA: Claro. Eu vivi durante o regime militar, fui indiciado na Lei de Segurança Nacional, sei que não é muito agradável.

O senhor comparou esta eleição ao futebol de várzea?

VILLA: Tivemos um debate político rasteiro, decepcionante.

Os boatos contribuíram?

VILLA: Acho que não. De um lado, houve receio de se politizar as eleições. Há a ideia de se criar gerentes. Isso vem dos anos 1950. Adhemar de Barros batia nessa tecla: São Paulo precisa de gerente. O que falta é discutir política. Discute-se gerência quando o país é muito atrasado.

O uso da máquina colaborou com essa despolitização?

VILLA: Sim. Porque você coage os eleitores, impõe aos governadores apoiar a chapa oficial. Nós pensávamos que, com a urbanização do país, com a industrialização, os oligarcas seriam página virada. Ledo engano, doce ilusão. Nunca os oligarcas foram tão fortes como hoje. Identificase a política em alguns estados pelo nome de pessoas. Jader Barbalho, no Pará, Fernando Collor e Renan Calheiros, em Alagoas. A família Sarney, com dois representantes no Congresso, e um no Executivo estadual.

Em que José Serra errou?

VILLA: Ser candidato da oposição é muito difícil no Brasil.

Sim, mas isso não é erro.

VILLA: Houve um problema para estabelecer o arco de alianças. E houve muitos erros: o primeiro foi que (Serra) demorou para sair candidato. Dois: o partido não estava unido em torno da candidatura. Três: ao demorar muito, não conseguiu fazer alianças amplas nos estados.

A escolha do vice foi um problema?

VILLA: Sim. Demorou muito a sair a candidatura, porque você cria uma agenda negativa em torno do que é positivo. Esses fatores criaram um problema para estruturar o programa.

E Dilma, em que ela errou?

VILLA: Primeiro ela tem de levantar os braços para o céu por ter sido candidata. Ela é a candidata do bolso do colete do presidente, porque ele é candidato em 2014. Para ele, foi ótima a crise do mensalão, porque fez com que se livrasse dos rivais na direção do PT. Ele virou dono inconteste do partido. Ninguém mais se põe a ele. (Lula) estabeleceu as alianças que quis, e impôs pela goela abaixo do partido, sem ter oposição, a candidata Dilma. É o proprietário do PT, só falta registrar no cartório.

O uso da máquina teve peso na vitória de Dilma?

VILLA: O uso da máquina foi fundamental para a vitória da Dilma. Agora, precisa ver como será a presidente Dilma. É um ponto de interrogação. O PMDB terá parcela considerável no governo, muito maior que hoje.

O governo de São Paulo também usou a máquina?

VILLA: Acho que depois do que eu vi na esfera federal… Falar que teve uso da máquina em São Paulo, acho que nem o Mercadante (candidato do PT ao governo) disse. Eventualmente pode ter tido uso em discursos.

Não, Presidente Obama, o senhor não pode tudo

Caio Blinder, Veja online

Foto Mark Wilson/Getty

No, he can’t. Foi uma humilhação para ele. Mas não é apocalypse now para o presidente Barack Obama e muito menos para o país. Na terça-feira, os eleitores americanos determinaram uma correção de curso e removeram o Partido Democrata do comando da Câmara dos Deputados. Os republicanos tiveram avanços significativos, mas não conseguiram conquistar o Senado. Não existe como dourar a pilula. Será mais difícil para o presidente sorrir, mais há muito chão pela frente até 2012. O republicano Ronald Reagan e o democrata Bill Clinton sobreviveram ao desastre legislativo no primeiro mandato e foram reeleitos de forma confortável.

Mas, de volta ao sorriso. No seu próximo discurso sobre o “estado da união”, no começo do ano que vem (foto acima), Obama terá atrás dele o novo presidente da Câmara, o republicano John Boehner, e não mais a democrata Nancy Pelosi, embora ainda o vice-presidente Joe Biden, presidente do Senado. Os democratas levaram uma surra e os eleitores enfraqueceram o mandato de Obama no meio do seu primeiro mandato presidencial. Isto não é o mesmo que conferir um mandato aos republicanos.

Foi um voto de castigo, um dolorido puxão de orelhas para um presidente que ambiciona demais e um partido que exorbitou. Os democratas pagaram o preço de uma liderança legislativa muito à esquerda num país com uma população moderadamente conservadora e com uma relação esquizofrênica com o governo. Desconfia dele, mas não está disposta aos sacrifícios resultantes dos necessários cortes de benefícios. Claro que não tinha jeito. Nenhum Salvador da Pátria ou Maria do Socorro impediriam um desastre diante do atual estado da economia, com o desemprego beirando os 10% e não abaixo dos 8% como a Casa Branca projetara para o momento eleitoral.

Os furiosos insurgentes do Tea Party (o setor mais conservador dos republicanos) tiveram algumas vitórias espetaculares, mas agora o desafio para o establishment republicano será domar a fera. No jogo pendular da política americana, os americanos tampouco querem desmantelar o governo federal como deseja fervorosamente o Tea Party. É um movimento que sofre dos mesmos delírios daqueles que acreditaram nas mensagens mais otimistas de mudança e esperança de Obama dois anos atrás.

Este negócio de reinventar o país é complicado. A turma do Obama achou que emplacara um duradouro realinhamento partidário em 2008 com conotações progressistas, a mesma ilusão da banda do republicano George W. Bush no ciclo anterior. A coalizão de Obama era frágil e vale destacar a deserção dos independentes. E aqui está o alerta para os republicanos. Uma fatia expressiva do eleitorado não deu um cheque para os conservadores. Tirou o crédito dos liberais. A demografia ainda funciona a favor de Obama, mas em termos imediatos os jovens não se mostram tão entusiasmados com o presidente, como em 2008.

Na margem republicana, houve mais entusiasmo e fúria. Mas a melhor definição para o estado da nação é de ansiedade. Existem atitudes políticas instáveis. É a era da volatilidade Em mais de meio século, nunca havia ocorrido uma dança de cadeiras tão intensa no Congresso como nos últimos 18 anos. A rigor, os dois partidos estão afundando simultaneamente. Os eleitores deram votos para os republicanos na terça-feira, mas não morrem de amores pelo partido. Aliás, dentro dele existe um bastião de resistência, o Tea Party, que considera o comando republicano tão corrupto e viciado como os democratas.

Resta esperar que a longo prazo prevaleça o senso de otimismo dos americanos. No seu editorial desta semana, a revista The Economist fez uma ode ao EUA, dizendo que, apesar dos seus problemas, este é o país que ainda tem a economia mais inovadora do mundo, um presidente ainda talentoso e um imã para imigrantes de todas as partes do mundo. Há dois anos, foi o triunfo de Barack Obama, o filho do pai negro do Quênia e mãe branca do Kansas. Neste ciclo eleitoral, temos estrelas ascendentes do Partido Republicano, como o senador eleito da Flórida, Marco Rubio, filho de exilados cubanos, e Nikki Haley, governadora eleita da Carolina do Sul, filha de indianos. Nas suas tensões internas e em meio à volatilidade política, os americanos exibem vigor e dinamismo.

A visão de San Tiago

Sebastião Nery

RIO – Rio de Janeiro, segundo semestre de 1963. Já doente, arrumando as gavetas da vida com a serena violência de sua luminosa lucidez, San Tiago Dantas, ex-ministro das Relações Exteriores e da Fazenda, deputado pelo PTB de Minas, tentou um último esforço para salvar o barco da República, que adernava levando o governo de João Goulart para o naufrágio.

San Thiago elaborou, articulou, coordenou uma “Frente Ampla” (a de Carlos Lacerda, em 66, foi a segunda; o título é direito autoral de San Tiago) que conseguisse reunir do PSD ao Partido Comunista, passando pelo PTB e Partido Socialista, as forças naquele momento comprometidas com a defesa da democracia, para evitar que a radicalização do processo político acabasse levando, como levou, o País ao impasse do golpe militar.

Esquerda
Uma noite, San Tiago nos convidou, a alguns deputados, federais e estaduais, líderes sindicais, dirigentes estudantis e, sobretudo, o comando da Frente de Mobilização Popular, liderada por Leonel Brizola mas sem a presença dele, para uma conversa em sua casa da rua Dona Mariana,no Rio.

Foi impossível um entendimento. A esquerda, dividida no PTB, no Partido Socialista, até no Partido Comunista, e outras forças reunidas na Frente de Mobilização Popular, já haviam dado um salto para a radicalização do processo, denunciando e vetando “a política de conciliação de João Goulart” e a aliança com o PSD, que San Tiago considerava o lastro indispensável do pacto político e social do País.

Cadeia
Depois de horas de debates, San Tiago, exausto, visivelmente desencantado, tirou o lenço do bolso, limpou longamente os óculos e pôs a mão no ombro de deputado Mário Lima, do PSB, presidente do Sindicato do Petróleo na Bahia (um dos poucos que, ali, aceitávamos sua proposta):

- Tenho a impressão de que o resto desta discussão será na cadeia.

Foi. Já sem ele, que morreu em 1964, mas com todos nós.

Dilma
É só trocar o PSD pelo PMDB, o PTB pelo PT, manter o Partido Socialista, substituir o Partido Comunista pelo PC do B e incluir alguns penduricalhos partidários fisiológicos, e a “Frente Ampla” que San Thiago queria em 63 é o governo de Dilma que foi eleito domingo.

Os tempos são outros, o pais naufragou com Jango numa ditadura militar de 20 anos e todos nós, uns mais outros menos, uns culpados outros inocentes, quase todos coniventes, pagamos o preço da radicalização.

Dilma não precisa ter medo do PMDB : é só não faltar comida, como também para a grande maioria dos aliados. Essa lição, a pior que deixou, Lula lhe ensinou quando retalhou o governo com os gulosos de sempre, fatiou o FAT e o Imposto Sindical com as Centrais Sindicais, o MST, “movimentos sociais” fajutos, até com a UNE.

PT
O perigo de Dilma mora no quintal de casa. Há um animal perigoso solto, que vai tentar dar agora as dentadas que não conseguiu com a esperteza fisiológica e sistematicamente corruptora de Lula : o PT “radical”, “revolucionário”, “trotsquista”, fidelista, chavista.

Perderam seu “presidente”, quando José Dirceu teve que ser expulso do palácio e da política aberta, legal, no golpe do “Mensalão”, criado exatamente para ser a base da candidatura dele para substituir Lula.

É ilusão imaginar que eles desistiram. O projeto continua o mesmo : cevar-se nos negócios e dinheiramas que passam por dentro, ao lado ou nas periferias do governo e irem aos poucos ganhando espaço e construindo uma maioria no PT, para ser usada em qualquer disputa futura mais dura.

Comunicação
O projeto dos Conselhos de Comunicação (o nacional, estaduais, municipais e até mesmo nas estatais) existe para isso. Já que o ministério da Fazenda, Banco Central, Banco do Brasil, Petrobrás, Eletrobrás, etc. são destinados aos donos da política financeira e econômica, o PT radical quer assumir, numa boa ou na marra, a área de comunicações.

A partir dos Conselhos, eles se instalariam na Comunicação, na Propaganda oficial (com suas verbas bilionárias), na Internet, na mídia toda, sobretudo televisões, jornais e revistas. A “matilha” (é assim carinhosamente que eles se tratam, os jornalistas petistas incrustados em toda a maquina do governo) acha que, com Dilma, serão ainda mais poderosos pela inconsistência da relação dela com a cúpula da mídia.

Ainda ouviremos falar muito desses Conselhos.

Lobato
O público imagina que governo é uma cooperativa de bom senso. Nada disso. Em cada canto há alguém jogando bruto para tentar tornar dogmas as teses mais malucas e tanto mais “radicais” quanto mais medievais. Até no MEC, o Ministério da Educação, que aparentemente seria um setor com o mínimo de juízo, toda hora aparecem malucos.

O Conselho Nacional de Educação (?) aprovou “parecer” de uma relatora doidona “acusando Monteiro Lobato de racista e proibindo-o nas escolas, porque trechos relativos à personagem de Tia Anastácia , que é negra, e a animais como o urubu e o macaco, têm elementos de depreciação racial contra os negros” (Globo).

Urubu tem que ser branco. O Pinel não tem vaga não?

Dança com Lobos

Percival Puggina

Não foi dito por acaso. Tampouco como mera observação feita à margem dos fatos, desconectada da realidade do encontro e de seus participantes. A fala de Bento XVI aos bispos brasileiros que estiveram com ele no dia 28 de outubro tem tudo a ver com o que estava em curso nas nossas dioceses, na grande mídia e nas comunicações da internet em função do pleito do dia 31. Os presentes – e até mesmo os ausentes – sabiam a respeito do que o Papa estava falando. A imprensa sabia, os candidatos sabiam, seus partidos sabiam. Foram palavras severas, de apoio aos poucos, aos raros, aos escassos bispos que resolveram cumprir sua função pastoral e dizer com clareza a seus fiéis o quanto é contraditório à fé e à moral católica o voto que confere poder a correntes políticas comprometidas com: a) a liberação do aborto; b) a abolição de símbolos religiosos; c) a absorção de toda e qualquer relação afetiva no conceito constitucional de família; e d) uma visão de estado laico cujo viés totalitário pretende expurgar dos debates civis os cristãos, seus princípios e seus valores. Foi bem claro, o Papa, a esse respeito: "Quando os direitos fundamentais da pessoa ou a salvação das almas o exigirem, os pastores têm o grave dever de emitir um juízo moral, mesmo em matérias políticas".

Venho escrevendo sobre isso há anos, como leigo, e nunca sequer me ocorreu que fosse necessário perguntar a Bento XVI, ou, antes dele, a João Paulo II, se estavam de acordo. Eu simplesmente sabia, assim como sei haver oxigênio no ar que respiro, que, tais afirmações eram harmônicas com a orientação pontifícia. Ponto. Surpreendem-me os que, leigos ou religiosos, se surpreenderam!

Vá que seja. Eu talvez tenha estudado um pouco mais essas coisas do alguns deles, por gosto e boa orientação de amigos padres e bispos que influenciaram minha formação. Nunca precisei, portanto, como leigo, que alguém me dissesse o quanto o PNDH-3 (decretado em 21/12/2009), seus criadores e propugnadores confrontam valores essenciais da fé e da moral cristã. Aliás, era algo tão berrante, tão escandalosamente perceptível que até a CNBB se obrigou a objetar! Sim, leitor, até a CNBB veio às falas (declaração formal de 15/01/2010), posicionar-se contra certos elementos daquela infeliz agenda. Mas a agenda era tão partidária, tão inerente ao partido do governo, que o partido do governo, em congresso nacional (18-20/02/2010), voltou a aprová-la. Não por escassa maioria. Não por larga margem de votos. Por decisão sem discrepância conhecida.

Observem as datas e me digam se seria preciso mais do que isso para estabelecer um insuperável divisor de águas. Não estamos diante de mera divergência de opinião, ainda que sobre tema relevante. Estamos diante de um confronto entre convicções antagônicas e legítimas. Um lado, legitimamente, tratou de deixar bem claro a que veio e a quem serve. E o outro lado, aquele da CNBB, aquele da imensa maioria dos bispos, sufocou-se em ilegítimo silêncio sobre a que veio e a quem serve. Foi essa a necessária retificação que Bento XVI fez em sua fala do dia 28. O Papa disse a quem serve. Orientou os bispos, pastores de suas dioceses.

Mas os lobos, bem, os lobos não são propriamente os melhores zeladores de qualquer rebanho. E eles continuam comandando a CNBB. Tolerando os absurdos redigidos por algumas de suas assessorias. Descuidando do que é publicado e divulgado com a chancela da entidade (qualquer empresa séria cuida melhor de sua marca e de sua imagem do que a CNBB). Metendo-se onde não deve (como no ridículo plebiscito da dívida externa e, agora, no não menos ridículo plebiscito da extensão das propriedades rurais). E, assim, envolvendo a Igreja, por motivos ideológicos, com seus piores e mais destapados inimigos. Corrijo-me: seus piores inimigos não são aqueles que claramente dizem a que vêm e a quem servem, mas aqueles que não servem a quem deveriam, que se lixam para o sucessor de Pedro. E preferem ir à dança com os lobos.

* Percival Puggina é arquiteto, empresário, escritor, articulista de Zero Hora e de dezenas de jornais e sites no país, autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia e Pombas e Gaviões

Acabou a graça da campanha

Villas-Bôas Corrêa

O entusiasmo do final da campanha eleitoral, no desempate do segundo turno entre a presidente eleita, Dilma Rousseff e o derrotado candidato da oposição, José Serra, sacudiu o país de norte a sul, no contraste de sempre da euforia dos vencedores e os resmungos dos derrotados.

Aí acabou a graça. E não é em tom de crítica, mas com uma certa frustração, que confiro que nada mudou no comportamento da população. Vitoriosos e derrotados esgotaram as suas ruidosas explosões de júbilo nos dois, três dias de passeatas, foguetório dos dilmistas de nascença e os derrotados enxugaram as lágrimas e foram cuidar da vida.

Tento uma explicação para as reações contraditórias. A primeira, a vitória é dos que ganharam no voto ou que dela são beneficiários. A turma de sempre. Antonio Palocci, Guido Mantega, Paulo Bernardo, Sérgio Gabriel, o sumido presidente do PT, José Eduardo Dutra que não foi convidado nem para um bate-papo de esquina estão com os nomes nas especulações da imprensa para o bingo dos ministérios, autarquias ou o consolo da liderança do governo no Senado e na Câmara.

Na penumbra da derrota, o azedume estimula o bate-boca das flechas trocadas. No PSDB, mineiros e paulistas trocam beliscões. Os paulistas ligados a José Serra cobram do mineiro Aécio Neves a derrota em Minas por acachapantes 1,7 milhão de votos. E os mineiros lavam as mãos alegando que não podiam fazer milagre.

Com a temperatura em queda dos últimos dias o jeito é chorar na cama que é lugar quente.

Renovar o compromisso

Ilan Goldfajn (*) - O Estado de São Paulo

Um novo mandato presidencial se inicia. Renovam-se as esperanças de que o Brasil continue na trilha da estabilidade e do crescimento. É o momento de alavancar a credibilidade adquirida na última década e meia para mudar o patamar de desenvolvimento do País, afastando o risco de mais um ciclo de boom and bust (euforia seguida de crise), tão típico da América Latina e do Brasil. É o momento de saber se a tendência de deterioração das contas fiscais, com consequências relevantes sobre o arcabouço macroeconômico, foi um desvio temporário ou é a manifestação de uma tendência que deve seguir adiante. Se foi temporário, é importante reafirmar o compromisso com o arcabouço macroeconômico e abrir o caminho para lidar com os entraves remanescentes ao crescimento sustentado no Brasil. Se a deterioração não é temporária, mas reflete a convicção num regime macroeconômico distinto, vale um debate transparente com a sociedade.

Há sinais para os dois lados. Por um lado, há a promessa de continuar reduzindo a dívida pública ao longo dos próximos anos. Isso abriria espaço para juros menores e mais investimento. Mas a promessa precisa estar calcada em medidas concretas, como ajuste na trajetória crescente dos gastos correntes, e não somente em hipóteses otimistas quanto ao crescimento do PIB e à queda nos juros reais no Brasil, mesmo na ausência de mudanças. Por outro lado, há sinais vindos do atual Ministério da Fazenda de uma nova "ideologia", muito diferente da que norteou o estabelecimento do atual regime macroeconômico. Argumenta-se que o crescimento ininterrupto (e insustentável) dos gastos correntes não tem nenhuma relação com a capacidade de a economia experimentar juros menores (ou seja, gastos maiores não geram mais demanda nem inflação) nem com a resultante pressão que os juros maiores exercem sobre o câmbio.

Nessa linha de raciocínio, mais gastos correntes não geram nenhum custo para a sociedade, já que os juros altos e o câmbio apreciado, freios naturais da economia, são consequência de outras forças. Nessa lógica, empregar mais e dar mais benefícios a grupos da sociedade é ganho para todos. E serve para todas as estações. Quando da crise recente, argumentou-se que foi a expansão dos gastos que nos "salvou", garantiu a demanda, evitou a recessão. Mas o inverso parece que não vale. Agora que a economia cresce forte, a demanda avança mais que a produção interna, as expectativas de inflação estão em alta e o déficit externo aumenta rapidamente, argumenta-se que os gastos não teriam o papel simétrico para aliviar a pressão sobre a demanda. A política fiscal continua na mesma direção expansionista. O que mudou foi o discurso. Na crise gasta-se mais por razões anticíclicas. Com a economia aquecida desvinculam-se os gastos dos seus impactos na demanda e no resto da economia.

Não é de surpreender que essa crença leve a tratar a meta fiscal apenas como um número contábil a ser alcançado. Manobras fiscais são instrumentos úteis para alcançar a meta no papel. Não o seriam para alcançar uma meta fiscal real, a que influencia a economia, reduzindo a pressão sobre os juros e o câmbio. Mas se a crença é que os gastos fiscais não têm influência sobre a economia, por que não se contentar com esforços puramente contábeis?

De fato, manobras contábeis têm ocorrido seguidamente. O governo tem vendido créditos que tem a receber de estatais ao BNDES, que compra com recursos que vêm do próprio Tesouro Nacional. Foi o caso da venda de créditos da Eletrobrás e, principalmente, da recente operação de capitalização da Petrobrás. Neste último, o governo vendeu o direito de explorar o futuro petróleo do pré-sal à Petrobrás, que pagou esse direito parcialmente com recursos originários do próprio Tesouro, via BNDES. A mágica que permite criar superávit dessa transação é que os recursos da venda são contabilizados como receita para o governo, enquanto as despesas do BNDES para a compra não o são (mesmo que financiadas com recursos do próprio Tesouro).

Não é coincidência que a deterioração fiscal coincida com o surgimento dessa nova "ideologia". O problema é que o novo discurso vai de encontro ao arcabouço macroeconômico idealizado nos últimos anos. O tripé macroeconômico - câmbio flutuante, responsabilidade fiscal e metas de inflação - tem de funcionar com todas as suas três pernas para poder gerar estabilidade e germinarem as bases do crescimento sustentado. Sem uma das pernas, o tripé desaba. Os juros necessários para combater a inflação acabam sendo mais altos e o câmbio torna-se mais apreciado para poder deslocar recursos escassos das exportações para os gastos do governo. Por isso é importante saber se o novo governo sancionará esse discurso de duas pernas.

Mesmo que o tripé macroeconômico e o atual arcabouço sejam mantidos, isso não significa a resolução de todos os males na economia. A apreciação cambial, por exemplo, é também consequência do atual contexto internacional particular, que requer uma depreciação do dólar em relação às outras moedas no mundo. E para os juros convergirem para níveis internacionais também é necessário preencher outras condições básicas, lidando com outras distorções na economia.

Em suma, tem sido uma longa trilha para a economia brasileira chegar até o ponto atual. A estabilidade é dada como certa e há confiança no crescimento futuro. Mas o fantasma dos ciclos de prosperidade seguidos de crise ainda ronda o Brasil. Enquanto estivermos voltando a discutir as bases do arcabouço macroeconômico (com o qual foi possível chegar ao ponto atual), retardaremos o debate sobre os avanços necessários que possibilitem sustentar e, se possível, aumentar as atuais taxas de crescimento da economia.

(*) Economista-Chefe do Itaú Unibanco

Promessas de seriedade

O Estado de São Paulo

A presidente eleita Dilma Rousseff dirigiu-se mais aos mercados que aos militantes do PT em seu primeiro pronunciamento depois de eleita. Mais que um programa de governo, ela apresentou uma série de compromissos com a responsabilidade fiscal, o respeito aos contratos, as boas normas da administração pública e a preservação da estabilidade econômica. Foi um recado parecido com o da Carta ao Povo Brasileiro, assinada há oito anos pelo candidato Luiz Inácio Lula da Silva. Mas houve uma diferença muito significativa. Desta vez, uma candidata vencedora julgou necessário reapresentar de forma conjunta e articulada as promessas de agir com seriedade e confiabilidade. A votação garantiu-lhe a vitória. Faltava - e ainda falta - atenuar desconfianças e temores amplamente justificados, em especial pela experiência dos últimos dois anos.

A intenção de produzir um discurso mais tranquilizador que mobilizador é evidenciada pela escolha dos temas e da linguagem. "Cuidaremos de nossa economia com toda responsabilidade", prometeu a eleita. Não se falaria em "responsabilidade" se aqueles temores fossem considerados irrelevantes.

O tom e o mote são mantidos na frase seguinte: "O povo brasileiro não aceita mais a inflação como solução irresponsável para eventuais desequilíbrios." Vem depois o detalhamento do problema: "O povo brasileiro não aceita que governos gastem acima do que seja sustentável." A referência à questão fiscal - que preocupa os analistas - é acompanhada da promessa de melhora do gasto público, de qualificação dos serviços e de "simplificação e atenuação" dos tributos.

A concessão aos militantes surge com a promessa de não realizar nenhum ajuste à custa dos programas sociais. A ressalva seria desnecessária, se fosse tradição brasileira a gestão orçamentária flexível e racional, guiada por prioridades e pelo uso eficiente de recursos. Mas esse não é o caso, e oito anos de governo petista apenas pioraram a administração das finanças públicas.

As promessas de Dilma seriam mais confiáveis se ela já houvesse reconhecido alguma vez a baixa qualidade da gestão orçamentária. Mas, em muitas outras ocasiões, ela preferiu, como o presidente Lula, queixar-se da extinção do imposto do cheque, como se os programas de saúde dependessem mais desse dinheiro do que do bom uso das verbas públicas.

Vale registro a referência à meritocracia - um conceito de pouco ou nenhum valor para um governo empreguista, aparelhador e irresponsável na expansão da folha salarial. Mas não há notícia de iniciativa sua, como ministra, a favor de padrões mais sérios para o serviço público. Terá condições, na Presidência, de mexer com os interesses de uma casta com grande peso no PT?

A presidente eleita mencionou apenas uma vez a complexidade e o peso da tributação. Passou longe de qualquer exposição mais séria sobre a reforma tributária, uma das promessas principais de todos os candidatos. Se não começar desde já a trabalhar num projeto de reforma, dificilmente obterá mais sucesso nessa reforma do que o governo atual.

A promessa de respeitar a autonomia das agências de regulação também tem um significado especial. Durante oito anos o governo Lula enfraqueceu, aparelhou e desmoralizou as agências, para garantir sua subordinação aos interesses político-partidários. Como ministra, a atual presidente eleita participou dessa política. Por que alguém deveria, agora, confiar na promessa de mudança?

O discurso de Dilma oscila entre promessas de continuidade e o compromisso com políticas rejeitadas pelo atual governo, como o controle de gastos, o fortalecimento das agências e o respeito à meritocracia. O próprio Lula, ao aconselhar a manutenção do presidente do Banco Central e do ministro da Fazenda, já se imiscui na próxima administração. Há, além disso, a sua promessa pública - para alguns, uma ameaça - de agir como conselheiro de sua sucessora. Se ela pretender, de fato, inovar em termos de responsabilidade e seriedade administrativa, precisará antes de mais nada livrar-se do poder de seu criador.

O primeiro papel da oposição é assumir o seu papel

Reinaldo Azevedo

O professor Marco Antonio Villa, do Deparrtamento de Ciências Sociais da Universidade Federal de São Carlos, nem parece um acadêmico brasileiro, tal a pertinência com que consegue pensar o país. Leiam artigo que escreve na Folha de hoje.

44% estão na oposição

A OPOSIÇÃO acreditou que criticar o governo levaria ao isolamento político. O resultado das urnas sinalizou o contrário: 44% do eleitorado disse não a Dilma. Ela era candidata desde 2008. Ninguém falou em prévias, nenhum líder fez muxoxo. Lula uniu não só o partido, como toda a base. Articulou, ainda em 2009, as alianças regionais e centrou fogo para garantir um Congresso com ampla maioria, para que Dilma pudesse governar tranquilamente. Afinal, nem de longe ela tem sua capacidade de articulação política.

E a oposição? Demorou para definir seu candidato. Quando finalmente chegou ao nome de Serra, o partido estava dividido, vítima da fogueira das vaidades. Ao buscar as alianças regionais, encontrou o terreno já ocupado. Não tinha aliados de peso no Norte e Centro-Oeste, e principalmente no Nordeste. Neste cenário, ter chegado ao segundo turno foi uma vitória. No último mês deu mostras de combatividade, de disposição de enfrentar um governo que usou e abusou como nunca da máquina estatal. Como, agora, fazer oposição? Não cabe aos governadores serem os principais atores desta luta — a União pode retaliar e isso, no Brasil, é considerado “normal”.

É principalmente no Congresso Nacional que a oposição deve travar o debate. Lá estará, inicialmente, enfraquecida. Perdeu na última eleição, especialmente na Câmara, quadros importantes. Mesmo assim, pode organizar um “gabinete fantasma” e municiar seus parlamentares e militantes com informações e argumentos. Usar as Câmaras Municipais e as Assembleias estaduais como espaços para atacar o governo federal. E abastecer a imprensa — como sempre o PT fez — com denúncias e críticas.

Espaço para a oposição existe. O primeiro passo é assumir o seu papel. Deve elaborar um projeto alternativo para o Brasil. Sair da esfera dos ataques pessoais e politizar o debate, acabar com o personalismo e o regionalismo tacanho, formar quadros e mobilizar suas bases. É uma tarefa imediata, não para ser realizada às vésperas da eleição presidencial de 2014.

O lulismo tem pilares de barro. É frágil. Não tem ideologia. Não passa de uma aliança conservadora das velhas oligarquias, de ocupantes de milhares de cargos de confiança, da máfia sindical e do grande capital parasitário. Como disse Monteiro Lobato, preso pelo Estado Novo e agora perseguido pelo lulismo: “Os nossos estadistas nos últimos tempos positivamente pensam com outros órgãos que não o cérebro -com o calcanhar, com o cotovelo, com certo penduricalhos, raramente com os miolos”.

Ano do Tigre, Dia das Bruxas

Carlos Brickmann, Blog da Maria Helena R. R. da Silva

Foi uma bela vitória de Dilma Rousseff, com ampla vantagem sobre o adversário José Serra, do PSDB. Mas, apesar da lavada eleitoral, a vantagem de Dilma não é suficiente para fazer o que quiser, à vontade. A oposição venceu nos Estados mais ricos e de maior população; neles habitam, hoje, 52,3% dos eleitores brasileiros. Presidente é presidente, seu poder é incontrastável; os governadores têm muito menos força e, em grande parte, dependem de recursos da União. Mas juntando-se os governadores de São Paulo, Paraná, Minas Gerais, Santa Catarina, Mato Grosso, Goiás e outros Estados, forma-se um poder capaz de conter uma eventual afoiteza e as possíveis bravatas do Governo Federal.

As primeiras palavras de Dilma como presidente eleita foram moderadas - moderação que pode ter irritado os bolsões sinceros porém radicais de seu partido, mas que se tornou obrigatória diante da divisão do poder no país. O eleitorado está rachado ao meio - pouco mais da metade com o PT, na eleição presidencial, pouco mais da metade com a oposição, nas eleições estaduais. A forte frase de Dilma em favor da liberdade de imprensa pode ser lida a partir dessa divisão de forças: "Prefiro o barulho da imprensa livre ao silêncio das ditaduras".

É provável que o ex-ministro Antônio Palocci, com trânsito fácil entre políticos e empresários, seja seu articulador. Não terá problemas com os grandes empresários, que marcharam com Dilma na campanha. Com os políticos, depende da presidente: cabe a ela definir os termos do convívio com a oposição.

E a vida continua
Bem ao gosto do presidente Lula, o que está escrito acima pode ser traduzido numa frase do técnico José Mourinho, do Real Madrid, nas vésperas de um jogo importante contra o maior adversário de seu time, o Barcelona: "Se o Real vencer, amanhã será quinta-feira. Se o Barcelona vencer, amanhã será quinta-feira".

Vale ler
Do discurso de Dilma, muita coisa é obrigatória (luta contra a miséria, por exemplo; ela não poderia dizer nada que não fosse isso). E há uma frase que normalmente seria também obrigatória, mas que se tornou importante por causa da campanha: "Vou zelar pela mais ampla liberdade religiosa e de culto. Vou zelar pela observação criteriosa e permanente dos direitos humanos tão claramente consagrados na nossa própria Constituição". O texto não chega a ser brilhante, mas deixa claro que seu Governo não agirá contra a hierarquia católica que se opõe ao aborto, mesmo que discorde dela (é bobagem achar que a posição religiosa interfere na política brasileira, a menos que se transforme em lei - como, antigamente, ocorria no caso da proibição do divórcio); e "direitos humanos consagrados na nossa própria Constituição" não são exatamente os mesmos que se tentou implantar no Plano Nacional de Direitos Humanos, tão criticado.

Cinco letras que choram
Dilma Rousseff inicia seu Governo com um sinal de boa sorte: o ministro da Verdade, Franklin Martins, está falando em deixar o cargo, onde se notabilizou como o maior crítico oficial da liberdade de imprensa. Não se sabe, até agora, para onde vai. Talvez volte à crônica política - onde, apesar dos vínculos ideológicos, vai mostrar mais talento do que os comentaristas em que apostou.

Não vale ler
O discurso de José Serra, após a derrota, traz algumas bravatas ("verás que um filho teu não foge à luta"; "estamos apenas começando" - isso depois de mais de 20 anos da fundação do PSDB, isso depois de oito anos de Fernando Henrique na Presidência da República, isso depois de 16 anos de poder em São Paulo, mais o novo mandato de Geraldo Alckmin, que agora se inicia). Talvez seja uma conclamação à oposição, para que seja mais combativa. Uma excelente ideia - desde que a oposição não diga que ela é a continuação do maravilhoso e magnífico e sensacional presidente Lula, ou que sai o Silva e entra o Zé, lembra?

Vale comentar
O discurso de Serra começou tarde (deveria ter-se antecipado ao da candidata vitoriosa, para desejar-lhe boa sorte), foi fraco na admissão da derrota (recorde-se: John McCain, ao ser derrotado por Barack Obama, disse algo como "até agora ele era meu adversário. De agora em diante é o meu presidente") e contém uma frase que poderia muito bem ter sido esquecida: "Não é adeus, é até logo".

OK, José Serra. Até logo.

Porta na cara
Pode ter sido apenas um incidente isolado; mas pode ser, também, um indício de como os políticos talvez sejam tratados no Governo Dilma. O senador Eduardo Suplicy, fundador do PT, levou flores à presidente Dilma em sua casa. Antes, deu entrevista: "Vim pessoalmente cumprimentar a presidente Dilma pela vitória e dar um abraço nela pessoalmente", disse (o estilo Dilma de falar parece ter contaminado muitos políticos). Em seguida, foi barrado por um segurança. Nada de desculpas gentis: o segurança informou que a presidente eleita estava descansando e não iria recebê-lo. Mas ele poderia deixar as flores, que ele as entregaria. Suplicy disse que não estava chateado, mas foi imediatamente embora.

Palavra de Dilma

Rolf Kuntz - O Estado de São Paulo

A presidente eleita Dilma Rousseff terá de renegar o lulismo, se quiser cumprir os compromissos do primeiro discurso depois da vitória, como o respeito à liberdade dos meios de comunicação e a seriedade fiscal. Prometeu "valorizar a democracia em toda sua dimensão, desde o direito de opinião e expressão até os direitos essenciais da alimentação, do emprego e da renda, da moradia digna e da paz". "Zelarei", acrescentou, "pela mais ampla e irrestrita liberdade de imprensa." Voltou a esse ponto quase no fim, mencionando as críticas do jornalismo livre como "essenciais aos governos democráticos".

Mais de uma vez o presidente Luiz Inácio Lula da Silva tentou limitar os meios de comunicação, apoiando ou propondo projetos de "controle social", um nome cínico para a censura. A apresentação do impropriamente chamado Decreto dos Direitos Humanos foi uma das tentativas mais claras. Além disso, um dos grandes eventos da campanha petista foi um ato contra a liberdade de imprensa promovido por gente favorável ao tal controle.

Para cumprir a promessa, a futura chefe de governo precisará decepcionar esses companheiros. Estará mesmo inclinada a governar num ambiente de livre informação e de crítica? O criador de sua candidatura só não enquadrou os meios de comunicação porque houve resistência. Mas nunca deixou de aplaudir os companheiros Chávez, Kirchner e Ahmadinejad, escrachados inimigos da imprensa livre.

Se os meios de informação puderem noticiar e criticar, haverá alguma resistência a desmandos. Será talvez a única fiscalização, porque a oposição partidária será provavelmente mais inepta do que foi no segundo mandato do presidente Lula e na campanha eleitoral.

Com pouca resistência no Congresso e pressionada pelas demandas do PMDB e das alas mais vorazes do PT, a presidente Dilma Rousseff precisará de muita disposição e muita firmeza para seguir as linhas anunciadas no discurso - controlar e melhorar o gasto público, promover a meritocracia, respeitar os contratos, aliviar a carga tributária e apoiar a autonomia das agências de regulação, entre outros itens.

Empresários apostam na influência do deputado Antonio Palocci como fator de moderação e de bom senso na administração federal. O pronunciamento da presidente eleita, no domingo à noite, reflete de forma inconfundível os conselhos do deputado e ex-ministro da Fazenda. Mas outras figuras e grupos do PT disputam um papel na definição das linhas de governo. Além disso, o presidente Lula prometeu, mais de uma vez, interferir na administração de sua sucessora. Enfim, os próprios empresários frequentemente pressionam as autoridades para obter benefícios nem sempre justificáveis, como barreiras protecionistas, câmbio ajustado a seus interesses, juros muito inferiores aos defendidos pelo Banco Central e subsídios generosos, normalmente custeados pelo Tesouro.

Todas essas pressões são incompatíveis com o chamado tripé da estabilidade - as metas de inflação, o câmbio flutuante e o superávit primário suficiente para manter a dívida pública sob controle e, se possível, declinante como porcentagem do Produto Interno Bruto (PIB). Governar com alguma seriedade implicará administrar essas pressões e limitar seus efeitos.

Uma gestão responsável incluirá a reconversão das empresas controladas pelo Tesouro em companhias do Estado, não do governo. Será uma das tarefas mais complicadas, por causa da vocação aparelhadora do PT e do poder de extorsão dos partidos aliados.

A presidente herdará contas públicas em condição preocupante, mal disfarçada neste ano por meio de artifícios contábeis. Seu primeiro teste será negociar o salário mínimo, levando em conta as consequências para as finanças do governo. Encontrará também um déficit em rápida expansão na conta corrente do balanço de pagamentos, causado em parte pela crise externa e em parte pelas desvantagens competitivas do País. Impedir o agravamento desses problemas será uma das principais tarefas de 2011.

Terá de enfrentar, ao mesmo tempo, os investimentos para a Copa do Mundo. Grande parte das despesas caberá ao governo federal ou será financiada - sem grande perspectiva de restituição - pelo Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social. Terá de combinar competência, austeridade e coragem para decisões politicamente difíceis. Por enquanto, há um abismo entre as promessas do primeiro discurso e as condições objetivas de governo.

Somos todos passageiros

Roberto da Matta - O Estado de São Paulo

São 13 horas do dia 23 de outubro e eu estou no aeroporto de O"Hare, em Chicago. Eu sou um dos 13 milhões e duzentos e trinta mil passageiros que aqui transitaram este mês. Ando, como e compro jornais neste ponto de encontro de objetos voadores conhecidos, os quais carregam e descarregam tripulantes e passageiros. Aliás, o meu filho mais velho muitas vezes aterrissou nessas enormes pistas e voamos muitas vezes com ele para o Brasil. Esse Brasil que tem hoje (são 21 horas do dia 31 de outubro e estou no meu escritório em casa, em dois espaços e tempos simultâneos) essas coisas que só o espírito humano e a literatura permitem. Meu filho morreu com a Varig, mas o aeroporto e o governo Lula continuam, já que acabo de saber do resultado da eleição.

Minhas saudações à nova e primeira mulher a ser eleita presidente do Brasil. Meus votos de que realmente venha a cuidar do povo brasileiro, sobretudo dos mais pobres.

No momento, em O"Hare, eu estou usando o centro de computação e estou me lembrando do filho comandante que perdi graças ao governo que termina, pois em todos esses locais de trânsito aéreo, sua bela, alta e forte figura surge de dentro do meu coração, tornando-o mais forte e mais valente para lutar contra as empulhações do mundo e da vida. Para combater o desânimo, a falsidade e as mentiras do velho populismo brasileiro que vimos tantas vezes reiteradas neste processo eleitoral por todos os candidatos. Pois nenhum falou de dificuldades, mas - como santos ou virgens - apenas fez promessas. Mas eis que o Comandante aparece. Vejo-o uniformizado ao meu lado, incentivando-me a falar o que penso deste Brasil que todos nós temos o dever de mudar. Ei-lo vivo e morto do caixão negro, obrigando-me ao duro diálogo no qual um lado meu se faz de outro. Ei-lo também instigando a minha revolta contra esses populistas populares que se imaginam imortais porque têm um cordão de puxa-sacos.

* * *

O fato é que eu estava destinado a aeroportos. Estava fadado a ter essa consciência de ser sempre um passageiro que, transitório, acidental e anônimo. Eis o paradoxo. Eu, esse ser invisível pronto a ser ferozmente identificado e inapelavelmente esquecido, devo passar todo o dia em O"Hare de onde sigo para Miami e depois para a minha querida Niterói - esse nome impossível de ser pronunciado em inglês. Quando eles têm a coagem de tentar, sai algo como: em Nai-tí-roaí! Imagine...

Estou ao lado de milhares de outros humanos. Todos sem rosto, mas todos com alma e coração. Todos passantes neste ponto de chegada e saída que, como um cemitério vivo, recebe e despacha para a terra dos esquecidos seus cidadãos embarcados em naves voadoras, não em caixões que se movem pelas mãos dos parentes e amigos.

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Tomo um café e devoro um bolo. Ao meu lado, senta-se um jovem do Texas que é negociante. Vende e compra adubos e, como eu, vive de transformar bosta em dinheiro. Só que eu transmuto tudo em parábolas ou porcarias (como muitos leitores já me disseram), ao passo que ele - como os políticos - vende merda por esterco. E assim a vida segue com os passageiros passando, com alguns esverdeando, e outros dormindo, outros mais roubando ou enganando e, como falava Manuel Bandeira: com os cavalinhos correndo; e nós cavalões comendo... O sol tão claro lá fora; e em minhalma - anoitecendo!

O fato é que, no mundo, todo mundo passa. E quanto mais se quer ficar, mais rapidamente se vai. Como um relâmpago no céu das tempestades de verão ou o arroto num jantar elegante. Você, leitor, escolhe.

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Uns vão depressa. Outros muito lentamente. E as duas situações são duras de viver e acompanhar com emoção e amor. Num caso, é como um barco que explode; noutro, é como um navio que vai partindo de uma ilha para chegar Deus sabe aonde. Talvez do tal além postulado pela incrível resistência humana ao finito, porque o nosso imaginário não conhece fim, nossas almas não têm fundo. Pelo nosso amor que jamais se satisfaz. Camus dizia que há mais compaixão no condenado que sabe quando vai morrer do que em cada um de nós, meros passageiros que não sabemos quando vamos embarcar.

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Agora vale a pena esperar para ver se vai surgir algum rosto novo no velho cordão dos sicofantas nacionais. A eles eu recomendo discreta contenção, senão o nariz fica um tanto amarronzado.

O Brasil e o tráfego aéreo

O Estado de São Paulo

Segundo dados do Banco Central (BC), os brasileiros gastaram US$ 262,2 milhões, em setembro, com a compra de passagens de empresas aéreas estrangeiras, elevando o total este ano a US$ 2,07 bilhões, o que representa 29% do déficit do item viagens internacionais do balanço de pagamentos janeiro-setembro (US$ 7,146 bilhões). Enquanto isso, as receitas auferidas pelas empresas aéreas brasileiras nas suas linhas internacionais foram de US$ 198 milhões no mesmo período, menos de um décimo das obtidas pelas estrangeiras.

Apesar dos esforços que as companhias aéreas nacionais têm desenvolvido para superar essa disparidade, ela tende a se agravar a médio prazo: das 58 novas rotas aéreas internacionais autorizadas pela Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) até agosto deste ano, apenas 11 ficaram com companhias brasileiras.

Na realidade, a abertura de mercado adotada pelo País é que tem possibilitado atender ao rápido crescimento do turismo externo brasileiro, que é muitas vezes maior que no início da década. O Brasil hoje tem acordos bilaterais de reciprocidade em voos internacionais, incluindo liberdade tarifária, com 78 países, dos quais 40 foram negociados a partir de 2008. Os acordos são de livre determinação pelos países signatários quanto ao número de voos e escolha de rotas e cidades de destino.

Bem equipadas e com capacidade para proporcionar grande variedade de rotas, as companhias aéreas internacionais têm meios para oferecer no mercado brasileiro, com exclusividade, voos diretos para cidades americanas como Atlanta, Dallas, Houston e Los Angeles, e também para a Cidade do Panamá, Cidade do México, Doha e Dubai, Toronto, Johannesburgo e Pequim.

Nota-se que, mesmo em se tratando de polos turísticos tradicionais, as companhias do exterior vêm levando nítida vantagem. Diariamente, há cinco voos diretos entre São Paulo e Nova York, por exemplo, três de empresas estrangeiras e dois de uma empresa brasileira.

Para Miami, saem todos os dias cinco voos, três de companhias estrangeiras e dois de uma brasileira. Muito ilustrativo é também o caso de Madri. Há um voo diário para a capital espanhola operado pela TAM, mas há dois da espanhola Iberia, além de dois voos semanais, com o mesmo destino, operados pela Air China.

As empresas internacionais também têm agido com flexibilidade para contornar as deficiências dos aeroportos brasileiros. A American Airlines, por exemplo, só oferecia voos internacionais partindo de São Paulo e Rio. Hoje, tem voos que partem de oito capitais brasileiras.

É verdade que, com a quebra da Varig em 2006, que dominou praticamente sozinha, durante muitos anos, os voos internacionais a partir do Brasil, o País teve de ceder espaço para companhias estrangeiras, inclusive nos balcões de atendimento que detinha em aeroportos estrangeiros. Hoje, somente uma companhia brasileira, a TAM, voa para a Europa. A Gol, que ficou com a marca Varig, atua apenas no âmbito da América Latina, tendo deixado de operar rotas tradicionais daquela companhia, como Nova York, Paris, Roma, Lisboa e Frankfurt.

As companhias aéreas brasileiras procuram saídas, como, por exemplo, o acordo de acionistas entre a TAM e a LAN Chile e os contratos feitos pela Gol para fretamento de voos internacionais. Mas se veem diante de um dilema. Com a maior concorrência também no mercado interno, e tendo os preços das passagens se tornado mais acessíveis, a aviação regional cresceu muito.

O aquecimento da demanda por viagens aéreas em um país de dimensão continental como o Brasil acaba interferindo nos planos de expansão internacional. Calcula-se, por exemplo, que 9 milhões de brasileiros viajaram em aviões pela primeira vez em suas vidas só neste ano.

Mas é claro que o déficit da conta turismo poderia ser reduzido com maior participação de empresas brasileiras nas linhas internacionais.

Conversa vai, conversa vem...

Blog da Maria Helena R. R. da Silva

Passadas as eleições e dando graças a Deus pelo final dessa campanha chatíssima, venho aqui fazer um pedido que, confesso, é mais que um pedido: é uma nova regra do Blog da Maria Helena.

Aqui, dona Dilma será chamada de PresidentE. Que não usem essa forma ridícula que pretendem usar, uma verdadeira barbaridade.

A não ser que de hoje em diante possamos chamar o Lula de PresidentO e dizer que ele hoje deve estar, com justiça, muito contentO.

Portanto, peço desculpas por qualquer contrariedade que possa causar a vocês, mas aqui, qualquer outra forma para a velha e boa palavra Presidente, será bloqueada.

Aproveito para dizer que desejo que a nova Presidente faça um bom governo e que os brasileiros sejam aquinhoados com uma administração mais sóbria e mais correta do que a que se despede.

Congratulo-me também com o fato de vir a prevalecer, de agora em diante, assim espero, amor à Língua Portuguesa, que é a nossa pátria. É o que nos torna um só povo: de norte a sul, leste a oeste, brancos, pretos, ricos, pobres, velhos, moços.

Com gírias, com expressões típicas de cada canto do Brasil, sotaques variados, erros, acertos, mas sempre procurando aprender mais e respeitar a língua que herdamos de nossos ancestrais.

Estimular os jovens, sempre, a ler, a estudar.

E que ninguém mais diga, em um palanque, que estudar é desnecessário...

E que Deus, esquecido pela vencedora em seu discurso de ontem, ilumine o Brasil. E guarde nosso Fusca, que está mais querido do que nunca. O Fusca não perdeu: ele ganhou mais adeptos. O nosso carrinho é soberano em 11 estados. Isso é perder?

Para sepultar o sonho presidencial de Serra, Lula ressuscitou a oposição

Augusto Nunes, Veja online
Eu gostaria de uma eleição plebiscitária, ou seja: nós contra eles, pão pão, queijo queijo”, desafiou em outubro de 2009 o mais presunçoso dos presidentes, em êxtase com taxas de popularidade anabolizadas por comerciantes de porcentagens. Bastaria ensinar ao país que Dilma Rousseff era o codinome com que disputaria a própria sucessão para que o jogo começasse com o placar já assinalando 80% a 4%. Um oceano de brasileiros felizes contra a poça de insatisfeitos profissionais, imaginou o campeão da bazófia. A goleada estava garantida.

“A maior obra de um governo é eleger o sucessor”, avisou Lula em fevereiro passado, quando abandonou o emprego para virar animador de palanque fora-da-lei. Nos oito meses seguintes, o chefe de Estado reduzido a chefe de facção atropelou a Constituição, debochou da Justiça Eleitoral, afrontou o Ministério Público, zombou dos adversários, fez o que pôde e tudo o que não podia para impor ao país a vontade do monarca.

Para transformar em herdeira uma formidável nulidade, o presidente de todos os brasileiros açulou a radicalização maniqueísta, abençoou a beligerância das milícias, colocou a administração federal a serviço de uma candidatura, protegeu os estupradores de sigilo fiscal, aplaudiu a produtividade da usina de dossiês e redimiu previamente todos os pecadores para conseguir o que queria. Ganhou a eleição. Mas o Lula que vai deixando o governo é ainda menor do que o que entrou. E não foi pouco o que perdeu.

O país redesenhado pelas urnas do dia 31 informa que a estratégia do “nós contra eles” foi uma má ideia. Disfarçado de Dilma Rousseff, Lula sepultou os sonhos presidenciais de José Serra. Mas ressuscitou, com dimensões especialmente impressionantes, a oposição que não houve em seus oito anos de reinado. No mundo dos ibopes e sensus, os que não se ajoelham no altar do Primeiro Companheiro nunca ultrapassaram a fronteira dos 5%. Sabe-se agora que, nas urnas, 5% são 45%. Disseram não a Lula 43.711.388 brasileiros. Somados os que se abstiveram, anularam o voto ou o deixaram em branco, 80.050.565 ignoraram a determinação do reizinho.

Popularidade não rima com voto, reiterou a paisagem eleitoral. No Brasil das pesquisas, Lula vai beirando os 100% de aprovação (ou 103%, se a margem de erro for camarada). Na vida como ela é, a unanimidade foi rebaixada a 56% dos votos válidos. Dilma venceu na metade superior do mapa (veja ilustração acima). Foi derrotada na outra. Em lugarejos perdidos nos grotões, ganhou muito bem. Perdeu feio em regiões especialmente desenvolvidas.

Os candidatos do PSDB foram vitoriosos no Paraná, em São Paulo, em Minas Gerais, no Tocantins, no Pará, em Alagoas, em Roraima e em Goiás. Como o DEM venceu em Santa Catarina e no Rio Grande do Norte, a oposição vai governar 53% do eleitorado e a maioria da população brasileira. O Brasil insatisfeito é infinitamente maior que Serra, muito mais combativo que o PSDB. E está disposto a resistir energicamente ao prolongamento da Era da Mediocridade.

Se o PSDB não assimilar a partitura composta pela resistência democrática, que destaca enfaticamente valores éticos e morais, vai perder o bonde da história. Os eleitores que não compraram a dupla Lula-Dilma também rejeitam partidos que só agem ─ e com desabonadora timidez ─ quando começa a temporada de caça ao voto. Se os líderes tucanos não aprenderem a opor-se o tempo todo, não terão ninguém a liderar.

Os brasileiros inconformados descobriram que podem viver sem eles. E sabem o que querem. Não há esperança de salvação para políticos que se declaram adversários do governo mas não sabem, ou não querem, interpretar o pensamento e as aspirações da grande frente oposicionista.