Raquel Landim, Estadão.com
Ainda são contraditórios os sinais de como será efetivamente a política cambial de Dilma Rousseff. Em entrevista ao Jornal Nacional ontem, ela reafirmou o compromisso com o câmbio flutuante. “Não acredito que manipular câmbio resolva coisa alguma. Nós temos uma péssima experiência disso”, afirmou.
É uma manifestação importante, mas altamente esperada. Seria quase impensável um presidente eleito no Brasil de hoje se posicionar contra um dos tripés da política econômica sem provocar uma turbulência nos mercados. Mas exatamente o que pode ser considerado câmbio flutuante?
O Brasil já pratica uma flutuação “suja” com pesadas intervenções do Banco Central, que segue comprando reservas. O ministério da Fazenda elevou por duas vezes o Imposto sobre Operações Financeiras (IOF), que saltou de 2% para 6%. Também aplicou a mesma taxa para as garantias que os investidores depositam ao operar no mercado futuro.
Um dos maiores especilistas em câmbio do País, Nathan Blanche, disse em entrevista ao Estadão que, com tantas intervenções, o Brasil caminha para um câmbio controlado. Analistas relatam que as medidas recentes causaram mal-estar entre os investidores estrangeiros e foram consideradas mais agressivas que de outros países.
Não se deve, no entanto, esquecer em que contexto tais medidas foram tomadas. O Federal Reserve deve anunciar amanhã mais um afrouxamento monetário para estimular a economia dos Estados Unidos, que incentivará ainda mais a desvalorização do dólar. Do outro lado, a China mantem o yuan colado na moeda americana. Países como o Brasil ficam em meio ao fogo cruzado e assistem sua moeda se fortalecer e suas exportações perderem competitividade.
Dilma deu sinais de que está atenta à guerra cambial. A presidente eleita afirmou que vai discutir o tema com outros países nos fóruns multilaterais, que o Brasil “vai utilizar todas as armas para impedir o dumping” (venda no mercado brasileiro abaixo do preço de custo no país exportador), e que o ajuste dos países desenvolvidos não pode ser feito com base em desvalorizações competitivas. “Você não pode tentar ganhar seu ajuste nas costas do resto do mundo”, afirmou.
As especulações de que o atual ministro da Fazenda, Guido Mantega, pode permanecer no cargo no governo Dilma estão aumentando nos jornais. Sua permanência seria um sinal de que medidas de restrição do fluxo de capital continuarão a ser tomadas para conter a alta do real.
Mantega também assustou os investidores ao dizer que o País não precisa de ajuste fiscal para reduzir os juros. O diferencial entre a taxa de juros brasileira e internacional é um atrativo para os capitais especulativos, que ajudam a fortalecer a moeda.
Nem mesmo o Fundo Monetário Internacional (FMI) condena um certo controle do fluxo de capital hoje, mas a questão é saber dosar. Até que ponto medidas como elevar o IOF são eficazes e podem ser tomadas sem comprometer a classificação do sistema cambial brasileiro como flutuante pelos investidores?
Sem dúvida, será um dos principais desafios do governo Dilma.