domingo, fevereiro 13, 2022

Como era o Brasil do 1º centenário da Independência, há 100 anos

 Evanildo da Silveira

De São Paulo para a BBC News Brasil

 CRÉDITO,BN

Muitas situações existentes em 1922 e questões que eram debatidas 

naquele momento permanecem atuais ou pouco avançaram

Como não poderia deixar de ser, o Brasil de 2022, quando se comemora o bicentenário da Independência, é diferente do de 1922, ano do centenário do Grito do Ipiranga. O país mudou bastante nesses 100 anos, mas não tanto como se poderia esperar ou imaginar.

Nesse período, é verdade, a indústria e a economia cresceram e se modernizaram, as mulheres (1932) e os analfabetos (1985) conquistaram o direito de voto, a produção agropecuária se tornou uma das maiores do mundo, a taxa de analfabetismo caiu de 65% para cerca de 7% e as comunicações (imprensa, rádio, TV, telefonia, internet) se expandiram, interligando todo o país e sua população — para citar apenas alguns exemplos de avanços.

Em contrapartida, muitas situações existentes naquela época e questões que eram debatidas então ainda permanecem atuais ou pouco avançaram. Assim como em 2022, em 1922 o Brasil sofria os efeitos de uma pandemia, no caso, a de gripe espanhola, que varreu o país entre 1918 e 1919, causando cerca de 35 mil mortes — um número grande para época, em um país que tinha 30 milhões de habitantes —, inclusive a do presidente eleito em 1918, Rodrigues Alves. As desigualdades sociais, a pobreza e o racismo também são questões da época, que perduram com poucas alterações até hoje.

A historiadora Claudia Wasserman, professora titular do Departamento de História, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), contextualiza o momento histórico do centenário da Independência.

Ela lembra que 1922 foi o último ano do mandato do presidente Epitácio Pessoa, marcado por revoltas contra as oligarquias mineira e paulista que eram dominantes na primeira república (1889-1930).

"Aquele ano representou uma inflexão na política oligárquica brasileira", explica. "A crise que se estabeleceu a partir de então perdurou até 1930, com a revolução que marcou o fim da primeira república e o início da chamada Era Vargas."

Entre os principais acontecimentos de 1922, Claudia destaca a Revolta Tenentista (os 18 do Forte de Copacabana e desdobramentos como a formação da Coluna Prestes), a fundação do Partido Comunista Brasileiro (PCB), filiado à Terceira Internacional, a Semana de Arte Moderna, e o acirramento das lutas operárias com eclosão de greves em vários setores.

"O desenvolvimento do país dependia basicamente das exportações de café, por isso, a economia não ia bem, já que durante a Primeira Guerra Mundial a demanda pela exportação do produto havia decaído", conta.

Ainda de acordo com Claudia, a industrialização existia, mas era ainda incipiente, e as oligarquias regionais controlavam as eleições que eram frequentemente fraudadas.

"Neste período, a dependência econômica acentuou-se e perpetuou a posição dos países da América Latina como periferia do sistema capitalista, fato esse aceito e aplaudido pelas elites locais e que nos traz, até hoje, consequências nefastas", diz.

O colega de Claudia, o também historiador Luiz Alberto Grijó, coordenador de curso de História da UFRGS, acrescenta que a industrialização do Brasil traçou um arco a partir da década de 1920 até os dias de hoje. Primeiro houve um incremento muito grande, acompanhado por enormes deslocamentos populacionais internos no país, principalmente de nordestinos para o sudeste.

CRÉDITO,ARQUIVO PESSOAL

Luiz Alberto Grijó: 'Brasil está passando por uma desindustrialização 

e se transformando novamente num grande agroexportador'

"Isso ocorreu com mais intensidade nas décadas de 40, 50, 60, com as pessoas se mudando para trabalhar como mão de obra nessa industrialização toda e nos serviços, que também se desenvolveram", explica.

Nos últimos 20 ou 30 anos, está havendo, no entanto, segundo Grijó, uma reversão desse processo de industrialização.

"O Brasil, como aconteceu com a Argentina e com outros países, está passando por uma desindustrialização e se transformando novamente num grande agroexportador", diz.

"Além disso, ao mesmo tempo, está se tornando também um exportador de produtos de origem extrativa, como minérios e recursos naturais, por exemplo. Estamos numa fase neoliberal do capitalismo. O que se tem observado, é que, nessa fase, o Brasil tem perdido espaço na produção industrial, cada vez mais e mais acentuadamente."

A consequência mais direta disso é a expulsão de uma quantidade enorme de mão de obra do mercado de trabalho, ou seja, de trabalhadores que deixam de ser operários e têm que buscar emprego em outros tipos de empreendimento.

"Essas pessoas acabam se alocando ou se ocupando no mundo dos serviços, eventualmente como subempregados, sem emprego fixo, sem carteira assinada e sem outros direitos trabalhistas", diz Grijó.

 CRÉDITO,AUGUSTO MALTA/BN

Entre principais acontecimentos de 1922, estão Revolta Tenentista (os 18 do Forte de Copacabana e desdobramentos como a formação da Coluna Prestes), fundação do Partido Comunista Brasileiro (PCB), filiado à Terceira Internacional, Semana de Arte Moderna, e acirramento das lutas operárias com eclosão de greves em vários setores

'Desenvolvimento agroexportador'

O doutor em História pela Universidade de São Paulo (USP) Gilberto Maringoni, professor de Relações Internacionais da Universidade Federal do ABC (UFABC), dá mais informações para contextualizar o ano de 1922 e como o Brasil chegou ao que é hoje, principalmente na questão da industrialização.

"O país vivia o começo do esgotamento da República Velha, que tinha a hegemonia das oligarquias agrárias regionais e com mais de 80% de sua população vivendo no meio rural", explica. "Havia pelo menos duas grandes contradições na estrutura econômico-social do país."

A primeira, diz ele, era o padrão de desenvolvimento agroexportador, voltado para o mercado externo, o que tornava secundária a expansão do interno.

Com baixíssima produtividade, a redução de custos de produção para a obtenção de preços competitivos para o café e outros produtos aconteceu com pesado arrocho salarial e a quase inexistência de direitos trabalhistas.

"No entanto, havia, ao mesmo tempo, um diminuto e florescente setor industrial, em especial no sudeste, nascido a partir dos lucros de latifundiários que decidiram diversificar seus investimentos", conta Maringoni.

Essa indústria, voltada para o mercado interno, tinha dificuldades para se expandir justamente pelo baixo poder aquisitivo da população, resultante do modelo agroexportador, prossegue o professor da UFABC.

"Ao mesmo tempo, as grandes cidades, em especial São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador e Recife, com alta concentração de trabalhadores pobres, desempregados e ex-escravos, em sua maioria analfabetos e famintos, eram cada vez mais caldeirões sociais em ebulição, prestes a explodir", diz.

Com isso, havia uma latência de revoltas sociais, que não raro aconteciam de fato.

"Há evidentes diferenças com o Brasil de hoje, mas a desindustrialização acelerada, o fim de vários direitos trabalhistas consagrados na CLT [Consolidação das Leis do Trabalho] e a preponderância do agronegócio são pontos de contato com aquele Brasil atrasado", explica Maringoni.

"Não nos esqueçamos que nos últimos anos demos um passo atrás na civilização ao voltarmos ao mapa da fome."

Voltando à época do centenário, o pedagogo e historiador da Educação, Luciano Faria Filho, da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), lembra que no fim da Primeira Guerra Mundial, em 1918, o Brasil era, assim como hoje, um país em busca de si mesmo.

"Era um país que se perguntava o que era, quem éramos nós e o que poderíamos vir a ser", explica.

"Do ponto de vista político, a grande questão era como se tornar realmente uma república, um país republicano, no sentido de que as práticas de respeito à coisa pública pudessem de fato se estabelecer."

Segundo Faria Filho, essas preocupações eram basicamente de grupos mais liberais, além dos anarquistas e socialistas. Era um contexto que levou à criação do Partido Comunista Brasileiro (PCB), por exemplo.

"Em contraposição, havia as forças da ordem, que queriam manter aquela relação patrimonialista, autoritária, de benefícios, digamos assim, de usufruto pelo mundo privado das benesses públicas", explica.

"O momento do centenário foi de síntese dessas grandes questões."

CRÉDITO,AUGUSTO MALTA/BN

Praça Marechal Floriano no Rio de Janeiro

Para ele, ainda que se possa dizer que o significado das questões naquele momento e hoje nem sempre seja o mesmo, há desafios que permanecem.

"A construção de um sistema nacional de educação, de uma escola pública laica, é exemplo disso", diz.

"No caso, dos direitos da mulher e do combate ao racismo, houve avanços, é verdade, embora, neste último caso, permaneça o estrutural. Esse racismo institucional nos ajuda a compreender nossas desigualdades sociais. Aliás, elas são outro elemento fundamental para percebermos a continuidade entre 1922 e 2022. Nós continuamos a ser um dos países mais desiguais do mundo. É um traço fundamental que herdamos e atualizamos continuamente. Nisso não há diferença em relação ao ano do centenário."

Outra semelhança entre os dois anos, é que, assim como em 1922, em 2022 haverá eleições para a presidente da República e, no passado e hoje, há um país dividido.

"Era uma disputa que pouco tinha de democrática, a começar pelo fato de, numa população de cerca de 30 milhões de brasileiros, pouco mais de 800 mil (pouco mais de 3,5%) ter direito a voto", diz Maringoni.

De acordo com ele, a de 1922 foi talvez a campanha mais suja da República Velha. Não faltaram nem as fake news.

"Houve farta disseminação de informações falsas, que hoje são chamadas de fake news, por parte de Arthur Bernardes, rico fazendeiro de Minas Gerais, que se saiu vencedor", explica.

"O regime, mesmo com a mudança de governo no ano seguinte, era incapaz de resolver qualquer problema social."

CRÉDITO,BN

Comemoração do centenário da Independência; governo quis aproveitar comemoração da Independência para reverter a imagem de um país pouco desenvolvido

Nesse cenário, o governo quis aproveitar a ocasião da comemoração da Independência para reverter a imagem de um país pouco desenvolvido.

"Epitácio Pessoa não mediu esforços para mostrar um país moderno", diz Claudia.

"O principal evento foi a Exposição Universal do Rio de Janeiro, que começou em setembro de 1922 e foi até abril de 1923. Para a monumentalidade pretendida, uma obra extraordinária teve que ser feita na zona central da cidade, com a derrubada do Morro do Castelo, discutida à exaustão."

Havia tanto ferrenhos defensores como opositores da medida, mas finalmente o morro foi parcialmente derrubado.

Em seu lugar, foram construídos 2.500 metros quadrados de pavilhões, sendo 15 estrangeiros.

"Com cerca de 10 mil expositores, o evento ainda contava com palácios de festas, dos estados, da música, das diversões, da caça e pesca e muitos outros", conta Claudia.

"Alguns desses prédios ainda podem ser vistos nos dias de hoje. Importante frisar que a exposição de 1922 apresentava o tipo brasileiro como branco e europeizado, e o país como desenvolvido e ligado à cultura da modernidade." Pode se considerar uma fake news de 100 anos.

CRÉDITO,AUGUSTO MALTA/BN

Demolição do Morro do Castelo - em seu lugar, foram 

construídos 2.500 metros quadrados de pavilhões

Em relação às comemorações do bicentenário da Independência, Claudia é pessimista. "O que celebrar?", indaga. "Independências masculinas, colonial, europeias, militares, que tiveram como protagonistas as elites coloniais racistas e autoritárias, escravagistas e senhoriais, que forjaram Estados Nacionais, excluindo negros e índios da condição cidadã, que continuaram o trabalho genocida iniciado pelos espanhóis e portugueses, eliminando populações originárias para aumentar as áreas de cultivo e atender demanda internacional por alimentos e matérias-primas", revolta-se.

Foi neste contexto, continua ela, oligárquico, senhorial, que ocorreram as celebrações do Primeiro Centenário. "Reivindicavam o desenvolvimento econômico, a modernização dos países à custa da miséria das classes populares e da eliminação dos povos originários", critica.

"A pergunta que se faz é: 100 anos depois dessas primeiras comemorações, o que vamos celebrar? Países da América Latina, incluindo o Brasil, continuam profundamente desiguais, alguns miseráveis."

CRÉDITO,BN

Comemoração do centenário da Independência do Brasil

Para Claudia, a pandemia comprovou o que já se sabia, "que as classes populares seriam as primeiras e mais fortemente atingidas por qualquer tipo de crise, econômica, política ou sanitária e que os países latino-americanos, por mais modernizados que tenham sido desde as últimas celebrações, seriam os mais duramente afetados".

"Mesmo assim, os Estados se preparam para celebrar sociedades harmônicas e maduras que, na verdade não existem", lamenta.

Assim, prossegue, "quando surgem vozes a contestar essas celebrações, como aquelas que quebraram os relógios instalados no Brasil no ano 2000, em homenagem aos 500 anos do descobrimento, ao invés de serem tratadas como porta-vozes de uma perspectiva descolonial, são apontadas como de vândalos".

"De verdade, tivemos uma abolição sem cidadania, uma república sem democracia e uma independência sem soberania", acredita. "Então, o que comemorar?".

A também historiadora Cecilia Helena de Salles Oliveira, professora sênior do Museu Paulista da Universidade de São Paulo, também conhecido como Museu do Ipiranga, chama a atenção para outras questões relativas ao bicentenário da Independência.

"Passados 200 anos da proclamação da Independência, o debate se volta, com certeza, para os processos de inclusão social e para o cumprimento das bases da Constituição de 1988", diz.

CRÉDITO,BN

Comemoração do centenário da Independência, em foto de arquivo

Para ela, apesar dos avanços tecnológicos e econômicos, é preciso debater a democratização do conhecimento, a formação dos cidadãos e a democratização política.

"E isso começa com a compreensão dos processos históricos de formação da nacionalidade brasileira", defende. "Ou seja, uma compreensão abrangente do passado para que ele não se repita em termos das desigualdades e das diferenças sociais e raciais."


Briga de irmãos

  William Waack, 

O Estado de S.Paulo

Centrão e setores do mercado não enxergam diferenças entre Bolsonaro e Lula

Há setores do mercado que vivem no curtíssimo prazo e que pulam de Bolsonaro para Lula e vice-versa com a rapidez com que se especula por resultados imediatos. Os setores com horizontes mais distantes não enxergam diferenças significativas entre os dois líderes das pesquisas.

Mais de um grande fundo já disse isso aos cotistas. O mais recente foi o respeitado Verde, para o qual Lula e Bolsonaro “são irmãos gêmeos, separados no nascimento”. Ambos, diz carta redigida pelo fundo, recorrem ao mesmo “populismo eleitoreiro barato totalmente irresponsável”.

Essa afirmação resultou da análise “técnica” (levando em conta apenas modelos econômicos) dos instrumentos pelos quais o governo Bolsonaro pensa conseguir baixar preços de energia em geral e combustíveis em particular. Conclusão similar ao alerta feito pelo próprio Banco Central, segundo o qual a maneira pela qual o Planalto quer baixar preços e inflação arrisca a produzir o resultado contrário – obrigando o BC a subir mais ainda os juros.

Populismo eleitoreiro não é fenômeno restrito a personagens como Lula e Bolsonaro nem ao sistema político brasileiro. É generalizado mesmo em democracias liberais “estáveis” por toda a Europa. A questão para o Brasil, porém, é muito mais abrangente por causa do consenso amplo na sociedade brasileira de que a prioridade não é combater desigualdade, mas, sim, promover o crescimento dos gastos públicos, dos quais grupos privados e corporativistas extraem renda.

Esse tipo de “escolha” não é racional nem deliberada, e resulta de longo processo histórico e cultural – portanto, político. A composição do Parlamento brasileiro, com suas atuais inéditas prerrogativas de poder, espelha exatamente esse consenso. Uma amorfa massa “central” de deputados e senadores luta apenas por seus interesses paroquiais ou setoriais, acomodando-os à custa dos cofres públicos, sem diferenças ideológicas significativas.

O que mais impressiona quando se olha para o Brasil de uma perspectiva ampla é o longo tempo em que está preso à armadilha de renda média. Situação agravada de forma dramática pelas severas perdas sociais causadas pela pandemia na saúde, educação e renda. Esse “plano geral” – o das verdadeiras questões de fundo – não transparece no atual debate político-partidário.

Que se concentra em quem vai apoiar quem em troca de quê. O Centrão segue a lógica do sistema e tem como prioridade formar bancadas. Muito antes dos fundos sofisticados de investimento já havia demonstrado não ver diferenças significativas entre Lula e Bolsonaro. O resto é briga de irmãos.

*JORNALISTA E APRESENTADOR DO JORNAL DA CNN


Quem quer golpe faz a hora.

 Carlos Brickmann

 

Há quem tema que Bolsonaro, se derrotado na tentativa de reeleição, tente um golpe, alegando que as urnas foram fraudadas, que um esquema ilegal foi preparado para impedi-lo de vencer, qualquer coisa. Pode ser. Mas por que esperaria um momento em que os adversários estarão preparados? O que impede um golpista de dar o golpe no melhor momento para ele, não na hora em que esperam que saia da legalidade?

Bolsonaro já fez o possível para agradar a área de segurança, já disse que as Forças Armadas detectaram sabe-se lá quantos milhares de falhas na urna, que vivemos a “ditadura da caneta”, comandada pelo Poder Judiciário, que não há diferença entre essa tal ditadura e as de Cuba e Venezuela. Disse mais: “Acredito em Deus e nos próximos dias acontecerá algo que vai nos salvar”.

Em parte, tem razão: em Cuba, Fidel Castro e seu irmão Raúl só usavam uniformes militares, embora militares não fossem; na Venezuela, houve farta distribuição à turma das Forças Armadas de bons empregos no governo e nas estatais. Em parte, viola o Segundo Mandamento, ao usar Seu Santo Nome em vão. E atribui ao Senhor planos que talvez sejam exclusivamente seus.

Muitos acham que Bolsonaro late, mas não morde, zurra, mas não dá coice. Outros confiam em declarações de generais (que devem a ele seus cargos) de que seguirão fielmente a Constituição – e por que não? Forças Armadas são uma instituição do Estado, não do governo. Mas não se pode cochilar.

Moscou na linha

A visita de Bolsonaro a Putin, em Moscou, certamente terá suas situações ridículas. Certamente terá também aquele grupo de sempre que não tem o que fazer, mas adora viajar, é chegado a uma boca livre e não dispensa uma diária. Mas parece haver motivos importantes para este encontro. Para Putin, é importante que a Rússia tenha bons contatos na América Latina; e a Rússia precisa diversificar sua pauta de exportações, hoje baseada em petróleo e gás natural. Os russos dominam uma tecnologia que o Brasil ambiciona: a dos submarinos a propulsão nuclear (embora com armas convencionais). Quando o Brasil fez o acordo com a França, só havia no mundo cinco países com submarinos nucleares: os membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU. O Brasil seria o sexto. De lá para cá, a Austrália comprou submarinos nucleares americanos, mas o Brasil pode ser o sétimo.

De Paris a Moscou

O acordo com a França deu uma emperrada (o presidente Macron não tem a menor vontade de colaborar com Bolsonaro; o almirante Othon Luiz Pinheiro da Silva, cérebro do programa nuclear brasileiro, foi preso por ordem do juiz Sérgio Moro), e as coisas não mais andaram. Parou o programa nuclear inteiro, tanto que Angra 3, iniciada no regime militar, não foi ainda concluída. A KWU alemã, cuja tecnologia foi usada nas Angras 2 e 3, foi vendida à Thomson francesa. Sobram Rússia e China. Viável, só a Rússia.

As novidades

A Alemanha está desativando suas usinas nucleares. A França resolveu investir pesado – a energia nuclear foi declarada limpa pela Europa Unida. A hora é boa: de acordo com os especialistas da norueguesa Rystad Energy, citada pelo site Petronotícias (www.petronoticias.com.br) a tensão entre Rússia e Ucrânia põe em risco 30% das importações de gás da Europa. E os estoques disponíveis são os menores dos últimos cinco anos. Para quem tem tecnologia de energia nuclear para fins pacíficos, é a hora de faturar com ela.

Viagens frias

Há viagens e viagens. O Ministério Público pediu investigações sobre a viagem do secretário da Cultura, Mário Frias, aos EUA. Frias viajou levando um assessor, com o objetivo declarado de conhecer um projeto multimídia do ex-lutador Renzo Gracie. Foram R$ 52 mil de dinheiro público para duas passagens na classe executiva, mais R$ 12.800,00 de diárias para cada um, mais seguro. Despesa, só com passagem, diárias e seguro: R$ 78.200,00, “verdadeira afronta ao princípio da moralidade administrativa”, afirma o subprocurador Lucas Furtado.

Duas perguntas: se era apenas para conhecer um projeto, por que não usar a Internet? E, se Renzo Gracie queria apresentar seu projeto, e não queria usar a Internet, por que não veio ele ao Brasil?

Recordação

A PM do Rio de Janeiro entrou na favela de Vila Cruzeiro para prender Chico Bento (apelido de Adriano Souza Freitas, apontado pelos policiais como traficante e parte da liderança do grupo criminoso Comando Vermelho). A operação fechou 17 escolas, impedindo que cinco mil crianças fossem às aulas; matou oito pessoas, que teriam resistido, armadas de fuzis, à entrada dos policiais na favela; e não achou o Chico Bento.

É interessante lembrar que, no governo Temer, houve intervenção militar no Rio, de quase um ano. O interventor, general Braga Netto, disse que o trabalho foi positivo. Pois é. Ele, por exemplo, hoje é ministro da Defesa.


NO TWITTER:  @ChumboGordo

SITE CHUMBOGORDO (www.chumbogordo.com.br)

carlos@brickmann.com.br

Twitter:@CarlosBrickmann

www.brickmann.com.br


Mil centrões

 Dora Kramer 

Revista VEJA

A ideia dos partidos é usar federações para criar bolsões de poder no Congresso

  Beto Barata/Agência Senado

Se a chamada terceira via tiver de morrer antes mesmo de chegar à praia (das urnas), não será por vontade do eleitorado, que a ela ainda não foi devidamente apresentado. Caso as candidaturas alternativas ao embate Jair Bolsonaro/Luiz Inácio da Silva venham a falecer, será obra de morte matada. Encomendada pelos partidos que as lançaram e agora se ocupam em firmar alianças sob a nova regra das federações.

Sabem do que se trata? Pois então, devido à proibição de coligações nas eleições proporcionais (deputados e vereadores) em setembro do ano passado, o Congresso autorizou os partidos a se juntar sem a necessidade de fusão, mas os obrigou a fazê-lo de modo uniforme em todo o país e assim permanecer durante quatro anos. Ah, sim, obriga também a que tenham identidade programático-ideo¬lógica, coisa um tanto fantasiosa em nosso cenário de doutrinas partidárias bastante gelatinosas.

A ideia em si não é má ou, por outra, é boa. Em tese poderia resultar na redução da quantidade de partidos, acabar com a extrema dispersão na representação popular e facilitar a interlocução entre os poderes Executivo e Legislativo.

A questão ainda não discutida é a viabilidade da aplicação da norma frente aos usos e costumes da política brasileira como ela é. Falaremos disso adiante. Primeiro falemos do uso da receita e de seus efeitos sobre as candidaturas que tendem a se esvair nas movimentações partidárias em torno das federações.

O tema não é de interesse apenas das legendas menores, cuja sobrevivência está ameaçada pela combinação do veto às coligações proporcionais com a exigência de votação mínima (cláusula de desempenho) para obtenção de representação na Câmara, acesso a dinheiro e espaço nas propagandas de televisão e rádio sustentados por recursos públicos.

Os partidos grandes e médios, que se garantem individualmente, estão preocupados principalmente com a correlação de forças, internas e externas, no Parlamento. Atentos, sobretudo, ao significativo peso do Centrão, diante do qual correm o risco de se tornar meros satélites em termos de decisões e na sempre tensionada relação com o Palácio do Planalto.

“A ideia dos partidos é usar federações 

para criar bolsões de poder no Congresso”

Quando PSDB, MDB, PDT, PSB e mesmo o novo União Brasil negociam a formação de federações, estão na verdade empenhados em criar bolsões de poder dentro do Congresso, a fim de fazer frente àqueles partidos que já atuam em conjunto e conseguiram fazer valer seus interesses junto ao governo Bolsonaro. Se Lula for eleito, conseguirão o mesmo, e é contra isso que os caciques das legendas citadas acima querem se prevenir. Como? Formando elas mesmas os próprios Centrões.

Para isso precisam eleger o maior número possível de deputados. E, em nome dessa causa, estão dispostas a sacrificar as candidaturas presidenciais. Aquelas que ainda não deram sinais de decolagem na preferência do eleitorado, por mais que seja cedo para aferir as reais predileções dos brasileiros.

Suas altezas têm pressa. Isso já se vê nas reclamações de candidatos a deputado e senador que reivindicam mais dinheiro para suas campanhas em detrimento do financiamento dos candidatos a presidente. Como se dissessem: não vamos gastar vela boa com defunto ruim. Assim, desde já, dão como perdidas as paradas e decretam a falência dos projetos presidenciais que nesse ritmo tendem a morrer por inanição.

A instituição do financiamento público total mudou a lógica do jogo. Antes os candidatos a presidente captavam recursos junto a empresas, mas agora o dinheiro vai para os partidos, cabendo às direções a divisão da partilha, que passa a obedecer à guerra de pressões internas. E nelas prevalece hoje o interesse de reforçar as tropas no Congresso.

Se o preço fosse a melhoria teórica embutida na intenção original das federações, tudo bem. O problema é que nada garante seu bom funcionamento nem permanência. Sempre pode, passadas estas eleições, haver adaptações na rigidez da norma aos interesses do próximo pleito. Além disso, se hoje a fidelidade partidária não vale na prática, quem assegura que valeria para as federações? A tendência será o vale-tudo de sempre, pois às legendas não apetece impor punições aos infiéis.

Uma coisa é a boa intenção em padrão suíço. Outra bem diferente é a execução no ambiente ainda retrógrado em que se faz política no Brasil.

Os textos dos colunistas não refletem, necessariamente, a opinião de VEJA


Publicado em VEJA de 16 de fevereiro de 2022, edição nº 2776


Bolsonaro e os “paus de arara, cabeçudos e aratacas”

 Carlos José Marques 

Revista ISTOÉ

 (Crédito: Alan Santos/PR)

Preconceito? Imagina, claro que não! É o “mito” Messias em pessoa designando os nordestinos por aquilo que, no seu entender, eles merecem. Soco no estômago para acabar com a autoestima de cada um, mas no leque de discriminações trombeteadas pelo presidente representa apenas mais um impulso do sincericídio, que lhe é peculiar. Ele enxerga dessa maneira e ponto. “E daí, P…?”. No geral e no todo, o mandatário assume a intolerância e a hostilidade como as melhores formas de exercer a política. Pode parecer estranho? Equivocado? Uma loucura? Não no imbecilizante ecossistema bolsonarista. Ali, misoginia, racismo, xenofobia ou mesmo antissemitismo parecem normal, quase padrão no comportamento cafajeste da maioria. O mandatário em pessoa odeia pobre, negro, gay, mulheres, extratos sociais variados. E, curiosamente, acredita, ainda assim, reeleger-se justamente com o voto desse elenco. Contrassenso? No universo particularmente negacionista do capitão, não. Ali, as aberrações ditas e praticadas servem apenas de corolário do evangelho de pregações retrógradas a serem seguidas. 

Não é para menos que, animado com a possibilidade de “enganar aos trouxas” – só poderia estar pensando assim! –, partiu, dias atrás, rumo aos sertões do Norte e Nordeste, indo se aboletar nos currais dos votos de cabresto, para expor a decantada “habilidade populista”. Era o caradurismo de sempre, inaugurando obras não concluídas e prometendo mundos e fundos que não tem para entregar e que jamais irá de verdade fornecer. Nos cânticos de louvação bolsonarista, a mentira é parte essencial da homilia para converter fiéis. E como tática recorrente monta encenações folclóricas – que denotam os estereótipos de sempre – para parecer um local, homem do povo. Depois da farofada lá atrás, bolou o que chama de uma “jeguiata”, passeio de “jegue” em grupo (como ele é brilhante!), no qual planejou gastar até R$ 200 mil. Tá valendo! Com o trocado, dá para arregimentar mais de 200 cabeças dos burricos em uma caravana profética a repetir, digamos de modo mais pobretão, as “motociatas” encenadas no sul maravilha ao custo de milhões de reais.

Para os “cabeçudos”, a jeguiata tá de bom tamanho. Os nortistas e nordestinos não precisam de mais. Afinal, não passam de um bando de “paus de arara, aratacas”, como classifica. E antes que alguém entenda o relato do tratamento dado como eventual endosso a tamanho desatino, vale registrar que o signatário aqui também é nordestino, com muito orgulho, natural de Olinda-PE. Mas para Bolsonaro, a fatia de habitantes lá de cima do mapa do “Brasilsão Grande” serve apenas de massa de manobra para alcançar o intuito nas urnas. Nada mais, depois amarrota, joga fora e esquece o voto deles. Não lhe vale para coisíssima alguma as necessidades dessa gente, “bando de pés rapados”. O cala boca por um ano do Auxílio Emergencial generoso, com data para acabar, será suficiente – com certeza – para convencê-los de que o capitão é bonzinho, generoso, preocupado. Depois, pode largar mão. Voltar aos afazeres do funk em lanchas e regressar ali somente quatro anos depois, para renovar apoios. Aqueles nordestinos não terão serventia no interregno de eventual novo mandato.

Mas eis que o imprevisto atropela os planos. Na solene cerimônia de inauguração – pela milionésima vez entre presidentes nos últimos tempos – da esperada e tão desejada obra (retalhada em pedaços!) da Transposição do Rio São Francisco, Bolsonaro se deparou com o inconveniente. Tava tudo muito bom, chapéu estilo coco e prosa larga, dentro do script, quando o prefeito da cidade de Salgueiro (PE), onde ocorria o furdunço com rapapés ao mandatário, resolveu confrontá-lo levantando uma cobrança elementar: está faltando água, presidente, quando isso acaba? Danou-se! O pessoal também quer tudo, não é mesmo? O capitão picou a mula lá do seu Palácio para aquele fim de mundo setentrional, cortou fita inaugural e tudo e o sujeito ainda pede água? Como foi chatear o mandatário-candidato com detalhes? No tour sertanejo, Messias queria mesmo era parecer e ser visto como um Deus, o enviado da salvação, para a veneração de pobres e oprimidos. 

A “jeguiata” viria a calhar na paixão contemplativa do santificado. É bíblico, a lembrar o regresso triunfal de Jesus Cristo a Jerusalém sobre um jumento, saudado pelos transeuntes com ramos de palmeiras nas mãos, no episódio que ficou popularmente conhecido como o Domingo de Ramos. Bolsonaro foi durante a semana mesmo – não iria gastar seu dia de descanso com os “cabeças-chatas”, outra das alcunhas a qual recorreu na ocasião. Tal qual nas escrituras, o Messias do Planalto desejava ser o arauto da boa nova. De qual boa nova mesmo ele estaria falando? A do aumento da fome? Da miséria? Do recorde de desemprego, da inflação ou dos juros? Vendilhões do Templo! Não profanem a fé irrestrita e irrefreável dos seguidores, nem a palavra da redenção. O profeta ungido estava ali. O Messias encarnado que, por divindade e direito, pode atribuir a seus filhos de religião a alcunha que bem desejar. Sim, que venham a ele os paus de arara, cabeças-chatas, aratacas cabeçudos, desvalidos na condição e fisionomia, porque deles é o reino da reeleição. Contemplem o salvador de araque, malfeitor dos vulneráveis. E concedam a ele a prova de sua devoção.

Bolsonaro desdenha da inteligência desses “cabras da peste” interioranos. Não conhece as suas agruras, disfarçada ingenuidade e muitos menos as peculiaridades do senso de justiça apurado que carregam. Nessa toada, pode levar de contragolpe uma sova fragorosa. Que não se engane! O nordestino está curtido nas áridas promessas dos aventureiros ocasionais. Não é ludibriado facilmente. Basta ver a lapada de votos que no passado tirou de alguns descuidados pretendentes. Desprezar a sutil percepção da boa escolha por parte dessa gente é flertar, invariavelmente, com a derrota. O tucano Aécio Neves, lá atrás, que o diga. Mal apareceu para alguns poucos dedos de prosa e deixou o poste adversário, Dilma Rousseff, herdeira do demiurgo de Garanhuns, carregar em média 80% dos votos da região, enquanto colhia migalhas residuais de 3% a 6% naqueles estados. 

O mandatário parece ir pelo mesmo caminho. Não tem o menor traquejo para esconder a sua repulsa latente e óbvia. Não se emenda. Ele acredita que é tudo farinha do mesmo saco. Basta um agrado aqui, outro acolá, para calar a boca de carências seculares desse povo. De bucho cheio, eles viriam cordeirinhos e comeriam na sua mão. Vai pensando! O estilo odioso de alguém que imaginou cancelar o luto oficial do lendário sacerdote Padre Cícero – e ainda confundiu sua origem como sendo “lá de Pernambuco”, talvez por nunca ter visitado Crato, no Ceará, e por ignorância intelectual mesmo – é típico da visão tosca que guarda de uma gente tão sofrida.


Flávio Bolsonaro disse quase tudo

 Elio Gaspari

O Globo

A entrevista do senador pareceu um momento de moderação e, sobretudo, revelou a possibilidade de uma campanha na qual são aceitas as regras do jogo, até mesmo da vacina

Na sua entrevista à repórter Jussara Soares, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) disse quase tudo:

— Para mim, quem soltou o Lula foi o Moro. Segundo entendimento do Supremo Tribunal Federal, ele fez coisas que estavam fora da lei. Era só ter cumprido a lei que o Lula estava preso até hoje.

Quase tudo, porque não há como garantir que, cumprindo-se a lei, Lula estaria preso. Quase tudo, porque também faltou lembrar o famoso tuíte do general Eduardo Villas Bôas. Mesmo assim, é certo que ao divulgar às vésperas do primeiro turno a colaboração do ex-ministro Antonio Palocci, Moro levou água para o moinho de Bolsonaro. Fortaleceu-o aceitando a costura de Paulo Guedes, ocorrida (sem divulgação) pouco antes do segundo turno.

Numa trapaça da sorte, Bolsonaro foi ajudado primeiro pela colaboração premiada de um ex-ministro da Fazenda (divulgada por Moro), e depois pelo futuro ministro da Economia, à época chamado de Posto Ipiranga.

A entrevista do senador pareceu um momento de moderação e, sobretudo, revelou a possibilidade de uma campanha na qual são aceitas as regras do jogo, até mesmo da vacina. Referindo-se a manifestações dos aliados do presidente que pediam o fechamento do Congresso e do Supremo, ele disse que “se fosse chutar o balde, o Brasil afundaria”. Boas palavras, admitindo-se que o tamanho do chute viraria o balde. De qualquer forma, vale a conclusão: o Brasil afundaria.

Prever os próximos lances dos Bolsonaro é coisa temerária, mas fica o registro de que essa entrevista do senador foi pelo menos um momento de moderação.

Ele diz que o governo se comunica mal. Na realidade, Jair Bolsonaro se comunica de forma eficaz para seus admiradores e assim chegou à Presidência da República em 2019. A conjuntura era outra, e nela teve não só a ajuda de Moro, mas também de um outro tipo de negacionismo, vindo de seus adversários.

Se há um problema, não está na forma da comunicação, mas no seu conteúdo.

Bolsonaro com o pé no acelerador

A entrevista do senador Flávio (01) Bolsonaro estava nas ruas quando seu pai fez a live semanal e apontou para um novo desentendimento com o Tribunal Superior Eleitoral.

Nas suas palavras:

“Nosso pessoal do Exército, da guerra cibernética, buscou o TSE e começou a levantar possíveis vulnerabilidades. Foram levantadas várias, dezenas de vulnerabilidades. Foi oficiado o TSE para que pudesse responder às Forças Armadas. Passou o prazo e ficou um silêncio. O prazo de 30 dias se esgotou no dia de hoje. Isso está nas mãos do ministro Braga Netto (Defesa) para tratar desse assunto. E ele está tratando disso e vai entrar em contato com o presidente do TSE. E as Forças Armadas vão analisar e dar uma resposta”. 

Além disso, prometeu para “os próximos dias” algo para “nos salvar”.

Na véspera, o deputado Eduardo (03) Bolsonaro, havia dito que “a gente vai dar um golpe que vai acabar com o Lula”.

A dificuldade de Doria

O governador João Doria definiu como “jantar dos derrotados” o encontro em que estavam, entre outros tucanos de muita plumagem, Tasso Jereissati, Eduardo Leite e Aécio Neves.

De fato, Doria derrotou-os na prévia do partido, mas seu modesto desempenho nas pesquisas estimulou-os para costurar alianças mais adiante, sobretudo com a senadora Simone Tebet, do MDB.

Menosprezar adversários do mesmo partido sempre é uma política arriscada. A menos que Doria esteja em busca do título de candidato derrotado.

O preço do nazismo

O deputado Kim Kataguiri disse que a Alemanha errou ao criminalizar o nazismo. Depois, explicou-se, desculpando-se. Para quem acha a mesma coisa, até mesmo em nome da liberdade de opinião, aqui vai uma lembrança das boas razões que levaram os alemães a isso.

Se fosse possível esquecer o que o nazismo fez com os outros, hoje completam-se 77 anos do dia em que as sirenes de Dresden começaram a soar. Em 25 minutos, oitocentos aviões ingleses despejaram cerca de duas mil toneladas de bombas sobre a cidade medieval. A “Florença do rio Elba” foi bombardeada por outros dois dias. Uma tempestade de fogo derreteu até estruturas de aço. Tudo o que poderia queimar, queimou e restou uma paisagem lunar. 

Os ingleses perderam apenas seis aviões, e os americanos da segunda leva, um. Morreram cerca de 25 mil alemães.

(Nunca uma população civil tinha sofrido ataques de tais proporções. Em março, os americanos queimaram parte de Tóquio, e em agosto jogaram duas bombas atômicas em Hiroshima e Nagasaki).

Os alemães criminalizaram o nazismo porque, entre outros crimes, tendo iniciado a guerra, persistiu nos combates, mesmo sabendo que sacrificava seu próprio povo.

A Alemanha criminalizou o nazismo por vários motivos mas, acima de tudo, pelo mal que ele custou aos alemães.

Eremildo, o idiota

Eremildo é um idiota, nunca trabalhou na vida nas encantou-se com o doutor Zezeco. José Medeiros Nicolau, diretor do Departamento de Ordenamento, Parcerias e Concessões da Secretaria Nacional de Atração de Investimentos do Ministério do Turismo, informava em sua agenda que estava ocupado com “despachos internos”.

O repórter Patrik Camporez descobriu que ele estava na região de Courchevel, nos Alpes franceses. Explicando-se, Zezeco disse que trabalhou de forma remota e “nada parou”.

Eremildo vai a Brasília para ver se descola uma boquinha em Courchevel e promete que nada haverá de parar.

De mão em mão

Vender aeroportos tem sido motivo de orgulho para sucessivos governos brasileiros.

Falta explicar o que esses governos sentem quando os compradores devolvem a mercadoria.

O aeroporto do Galeão foi vendido em 2013 para a Odebrecht, com financiamento do BNDES e do FGTS, mais a participação minoritária da Changi, administradora do celebrado terminal de Cingapura, que tem até piscina para os passageiros. Antes mesmo do impacto da pandemia, os concessionários reclamavam do negócio, e em 2017 a Odebrecht foi-se embora.

Em outubro passado, a Changi começou a negociar a venda da concessão, e na semana passada decidiu devolvê-la à Viúva.

Com isso, o Galeão será oferecido junto com o aeroporto do Centro da cidade.

Os governos gostam de falar bem de tudo o que fazem. Falta contar porque o Galeão virou um mico.

Trump

Vem aí, às vésperas da eleição americana de novembro, um novo livro sobre Donald Trump, e o título já diz bastante: “Confidence Man”, “Vigarista”, em tradução livre. A autora é Maggie Haberman, repórter na Casa Branca durante o governo do presidente.

Ela já revelou que às vezes o pessoal da limpeza encontrava papéis rasgados nas privadas do seu gabinete. No caso de Trump, papéis em privadas são coisa suspeita, pois acredita-se que o doutor destruía documentos que, por lei, deveria preservar. Já se sabe, por exemplo, que Trump usava os celulares de assessores para não ser rastreado.

Puro palpite

Bolsonaro vai se vacinar.

Se o fizer, não tomará a vacina chinesa.


O inevitável mal-estar da política

 Murillo de Aragão 

Revista VEJA

Narrativas radicais e falsas expectativas geram esse sentimento

  JOAO RAMID/Dedoc

Constituição estabeleceu metas sem a devida preocupação de indicar

 os meios para que a sociedade se torne suficientemente produtiva 

A política causa mal-estar. Por isso, para muitos, ela é desprezível. O mal-estar na política se confirma pela elevada desaprovação dos políticos entre a população, o que tende a se amplificar com a divulgação de narrativas antipolíticas por parte de quem não está no poder.

Identificamos, pelo menos, dois polos na questão: o cidadão insatisfeito e o oposicionista que deseja o lugar de quem está no poder. Entre os cidadãos, as origens desse mal-estar relacionam-se a três aspectos fundamentais: as elevadas expectativas que nutrimos em nossa vida; a incapacidade da sociedade e do Estado de atender a elas; e a transferência a outros de nossa responsabilidade por nossas escolhas e eventuais fracassos.

Nos dias de hoje, uma elevada expectativa é posta como fato consumado já ao nascermos, pois a Constituição nos assegura diversos direitos. Por exemplo, direito à educação, à saúde, ao trabalho, à Previdência Social, ao lazer, à segurança, à proteção à maternidade, à infância e a desamparados. Contudo a maioria desses direitos não é efetivamente garantida pelo Estado.

Em sua mordaz e pertinente crítica à Carta Magna de 1988, o economista Roberto Campos menciona que “a palavra ‘produtividade’ só aparece uma vez no texto constitucional; as palavras ‘usuário’ e ‘eficiência’ figuram duas vezes; fala-se em garantias 44 vezes e, em direitos, 76 vezes, enquanto a palavra “deveres” é mencionada apenas quatro vezes.”

“A maioria dos direitos assegurados 

pela Constituição não é garantida pelo Estado”

Assim, cria-se uma expectativa impossível de ser alcançada, já que a Constituição estabeleceu metas sem a devida preocupação de indicar os meios para que a sociedade se torne suficientemente produtiva a ponto de poder financiar o Welfare State imaginado. O resultado é a frustração.

O mal-estar também decorre da tendência do ser humano de terceirizar a responsabilidade diante do próprio fracasso ou das próprias pretensões não concretizadas. Sem responsabilidades sobre nossas expectativas, é cômodo transferir a outros a culpa por eventuais derrotas. Uma sociedade injusta e desigual como a nossa transforma essa tendência humana em algo quase inevitável. Como disse Jean-Paul Sartre, “o inferno são os outros”.

Nesse ponto, cabe uma analogia com o questionamento de Freud sobre a cultura: seríamos mais felizes se desistíssemos da política e retornássemos às condições primitivas? Creio que não. Primeiro, porque, mesmo que a humanidade recomeçasse do zero, a política faria parte dessa reconstrução. A política existiria em qualquer estágio da humanidade por causa das relações que se estabelecem entre famílias, clãs, tribos e nações. Segundo, porque ainda não foi inventado nada melhor que o processo político para mediar conflitos, criar instituições e reduzir os riscos inerentes à convivência entre seres humanos.

A inevitabilidade da política nos leva à conclusão de que o mal-estar causado por ela também é inevitável, já que resta impraticável atender às expectativas formalizadas na Constituição em um ambiente de elevada desigualdade como o nosso. De acordo com o filósofo Mario Sergio Cortella, somos “seres de insatisfação”. Sobretudo em meio a narrativas antipolíticas e radicais alimentadas por quem deseja ou quer conservar o poder. De nossa parte, como seres de insatisfação, continuaremos a desejar muito e a nos responsabilizar pouco por nossas escolhas e seus resultados.

Publicado em VEJA de 9 de fevereiro de 2022, edição nº 2775


O cafezinho de Bolsonaro ainda não está frio

 Malu Gaspar

O Globo

  Cristiano Mariz/Agência O Globo

Bolsonaro participa de cerimônia na Câmara dos Deputados ao lado do presidente

 da Casa, Arthur Lira (PP-AL), que instrumentalizou o chamado orçamento secreto | 

Diz uma das mais antigas máximas da política que, quando o presidente da República está fraco, já perto de deixar o poder, o cafezinho começa a chegar frio à mesa. Poderia já ser o caso de Jair Bolsonaro.

No último ano de mandato e em posição delicada nas pesquisas, o presidente assiste a aliados fazerem jogo duplo em seus estados, especialmente no Nordeste. Até o ministro da Casa Civil, Ciro Nogueira (PP-PI), evitou mencionar o nome do chefe durante o lançamento de seus candidatos majoritários no Piauí —estado governado pelo PT — no último final de semana.

O ministro Tarcísio de Freitas, candidato de Bolsonaro em São Paulo — estado que o presidente considera vital para sua reeleição — até agora não tem um partido. Há muita resistência a apoiá-lo entre líderes locais do Centrão, que preferem seguir com o vice de João Doria, o tucano Rodrigo Garcia. 

Em Brasília, a perspectiva de uma vitória de Lula vem fazendo algumas figuras-chave se mexerem. O mesmo comandante da FAB que meses atrás reforçou a posição de Bolsonaro contra a CPI da Covid, ao dizer que as Forças Armadas não aceitariam ataques institucionais e que “homem armado não ameaça” dar golpe, agora afirma que os militares prestarão continência a Lula ou qualquer outro presidente eleito em 2022.

O procurador-geral da República, Augusto Aras, começou discretamente a executar uma estratégia de reposicionamento de imagem, tentando criar fatos que demonstrem combatividade e sugerindo a interlocutores próximos, em conversas de pé de ouvido, que não cometerá o suicídio político de chegar a uma eventual transição de poder amarrado à âncora bolsonarista.

No Congresso, é provável que boa parte dos projetos que o presidente da República listou como prioritários fique para as calendas. Se Bolsonaro conseguir uma solução para os preços dos combustíveis que não estoure as contas públicas e os índices de inflação antes do pleito, já poderá comemorar.

Petistas tradicionais que andavam sumidos da capital federal já voltaram a circular, em reuniões e jantares em que são tratados com atenção cada vez maior. Na Avenida Faria Lima, cada vez mais gente se assanha com a possível (ou provável) troca de turno no Palácio do Planalto.

Ainda assim, não dá para dizer que o café de Bolsonaro esfriou.

O presidente ainda tem lenha para queimar. O Auxílio Brasil, o auxílio-gás, a bolsa caminhoneiro e um possível aumento de salário para algumas categorias de servidores públicos são a parte do plano destinada a agradar diretamente ao eleitorado. Para o público “qualificado”, os parlamentares, o Executivo reservou R$ 16 bilhões só na fatia do orçamento secreto deste ano — instrumento valioso em que os partidos do Centrão pretendem lastrear a eleição de grandes bancadas.

Para completar, Bolsonaro ainda poderá nomear até 45 novos desembargadores em seis tribunais de segunda instância ao longo do ano, o que tem provocado uma intensa peregrinação de juízes e lobistas judiciários ao Planalto. E há ainda as duas vagas de ministro abertas no STJ, que o presidente deverá preencher até maio. Nada mau para um mandatário que tem no Judiciário um dos maiores focos de tensão em seu governo.

Não estivéssemos falando de Bolsonaro, seria razoável apostar que um candidato à reeleição com tanto dinheiro e possibilidades teria como se segurar pisando fundo no clientelismo e no uso da máquina. Não seria nem o primeiro nem o último mandatário a fazê-lo — e com sucesso.

Sendo Bolsonaro quem é, porém, fica difícil dizer que proporção desse poder servirá para vitaminá-lo politicamente e quanto apenas turbinará os dirigentes do Centrão sem necessariamente beneficiá-lo. E isso não porque o presidente não queira “fazer o diabo para ganhar a eleição”, como já disse um dia Dilma Rousseff.

A questão é saber quem se manterá firme com ele caso o cenário eleitoral vá ficando mais e mais desafiador, como se prevê. E, mais importante, quem de fato o ajudará a usar os instrumentos disponíveis sem deteriorar irremediavelmente a economia e sem empurrar os recalcitrantes para o colo da oposição.

São movimentos sensíveis, que exigem tirocínio, competência, senso de oportunidade e jogo de cintura — habilidades que Bolsonaro não tem. O presidente, que empoderou de forma tão cabal esses aliados que hoje piscam para o lado de Lula, agora depende deles para atravessar o mar revolto das eleições.

Sem a ajuda deles, o bule de café começará mais cedo a chegar gelado ao gabinete presidencial.

 


O racismo irascível

 Antonio Carlos Prado e Fernando Lavieri

Revista ISTOÉ

Por que o Brasil não consegue abandonar o preconceito estrutural; por que não consegue se livrar dessa chaga

 (Crédito: Chico Ferreira)

EXCLUSÃO Moïse, como a maioria das vítimas do preconceito

 estrutural, era triplamente vulnerável: preto, pobre e imigrante 

Raízes do Brasil é um dos nossos principais clássicos da sociologia, escrito originalmente como ensaio pelo historiador Sergio Buarque de Holanda e publicado em 1936. Trata-se de uma das mais amplas interpretações da complexa formação do tecido social brasileiro, a partir do conceito do “homem cordial” — termo que o autor tomou emprestado do poeta nicaraguense Rubén Dario e, como bem afirmou o sociólogo e crítico literário Antonio Candido, deu a ele “fundamento sociológico”.

Entre o sentido da poesia e o sentido das ciências sociais, é importante ressaltar que o “cordial” refere-se à expressão “cordalis”, radical latino relativo ao coração e à passionalidade. Essa explicação é vital para se chegar ao esclarecimento de dois lastimáveis pontos que mancham de sangue nosso chão: o crescente índice de assassinato de negros decorrente do racismo, e por qual razão tal racismo não tem fim.

O “homem cordial”, formulado por Sérgio Buarque, nada tem a ver com as características de homem bem-educado, gentil e hospitaleiro com as quais é quase sempre erroneamente associado. O “homem cordial” quer dizer, isso sim, que o “senhor da casa grande”, a contar da escravatura do “negro da senzala” (e aqui a escravatura foi uma das mais violentas do mundo), engendrou o brasileiro passional (“cordial”) que age, sobretudo, pela emoção — pode explodir em alegria (por exemplo, o grito de gol), ou pode explodir em violência (os recentes e selvagens assassinatos, no Rio de Janeiro, do negro Moïse Kabagambe, congolês que trabalhava em quiosque de praia, e do também negro Durval Teófilo Filho, funcionário de supermercado). Não é diferente com as reincidentes ofensas dirigidas a jogadores de futebol pretos, igual ocorreu com Gabigol. E o que impede que o Brasil se livre dessa chaga, dessa ferida supurada? O que impede que o racismo estrutural tenha fim em nossa sociedade e ela se faça de fato democrática? O que impede que se transforme em uma sociedade “cordalis” para a delicadeza e não para o embrutecimento? A resposta parece complexa, mas é simples.

 (Crédito:Claudio Gatti)

JOSÉ VICENTE Fórmula para banir o racismo: a existência de Justiça no País 

A interpretação equivocada do “homem cordial” gestou e deu a luz ao autoritário, falso e demagógico mito da democracia racial. Tal mito, como ensinou o sociólogo Florestan Fernandes, impossibilita que o Brasil reconheça o seu próprio preconceito: “o País tem preconceito de ter preconceito”, dizia ele, e disso decorre, moto-contínuo, a negação permanente da vocação de parte da sociedade para a discriminação de etnias — o negacionismo varre para debaixo do tapete a discussão sobre a permanência da discriminação. Trata-se de um fenômeno social, e assim escreveu a pensadora e filósofa francesa Simone de Beauvoir: “ninguém nasce racista, torna-se racista”. O racismo persiste no Brasil porque as elites não o discutem abertamente e com frequência. Nesse ponto reside a importância da divulgação jornalística dos hediondos crimes raciais. 

 (Crédito:ARQUIVO PESSOAL)

SÉRGIO BUARQUE Autor de Raízes do Brasil: as elites 

deturparam o “cordalis”, termo emprestado do poeta Rubén Dario 

Explica-se, igualmente, a importância dos movimentos que lutam contra a criminosa arrogância herdada da casa grande. Mas, para extirpar-se o racismo, o Brasil, enquanto Estado e sociedade, deve, em primeiro lugar, admitir que não é republicano na questão étnica. “Olhar nos olhos da tragédia é dominá-la”, disse o dramaturgo Oduvaldo Vianna Filho em sua monumental peça Rasga Coração. O que desvia o olhar do trágico, no caso, é a construção teórica do mito da igualdade racial, mito nascido do equivocado entendimento do conceito do “homem cordial”. Sérgio Buarque foi distorcido ao sabor da má intenção de parte das elites do País que faz com que os conceitos de “homem cordial” e “democracia racial” camuflem o preconceito. Chega! É hora de mudar. Se não agora, quando? Basta do som de ossos quebrados, basta do som de tiros no escuro.

O conceito de “homem cordial” não significa ser gentil. Traduz-se, isso sim, por passionalidade: o brasileiro explode em alegria (grito de gol) e explode em violência (mata por preconceito)

(Crédito:Jacques Pavlovsky)

SIMONE DE BEAUVOIR A filósofa francesa deu uma lição 

definitiva: “não nascemos racistas, tornamo-nos racistas” 

“A abolição da escravatura terminou com a tortura do negro, mas o racismo persiste. Acabou na norma, continua de fato”, explica o sociólogo da UFRJ Muniz Sodré. “Hoje ele é institucional, se dá no interior da escola, da faculdade, do trabalho, da família”. Da fala de Sodré se depreende que, se na época da escravatura a dominação era física e mental, “hoje tal dominação se reveste de exclusão e hierarquização social”. Existe racismo no Brasil, seja estrutural ou institucional, porque a abolição, atendendo a interesses políticos e econômicos, não transformou o negro escravizado em cidadão. Para colocar fim a essa cruel realidade, é necessário, na avaliação do historiador Marco Antonio Villa, “um processo longo e difícil”. Mais: “é imprescindível a adoção de políticas públicas e a adoção de um novo enfoque na educação”. O professor José Vicente, reitor da Universidade Zumbi dos Palmares, coloca seu corpo e sua alma no lugar do corpo e da alma dos torturados e assassinados: “o racismo terminará quando houver Justiça”.


O caso Moïse e o racismo diário com apoio presidencial

 Thomas Milz

Deutsche Welle

Analistas veem assassinato brutal do jovem congolês como consequência da banalização da violência contra minorias, alimentada pelo discurso do próprio governo Bolsonaro.

 © Cristine Ramalho/DW 

Protesto pela morte de Moïse diante da Embaixada do Brasil em Berlim

A brutalidade do assassinato do congolês Moïse Mugenyi Kabagambe, de 24 anos, espancado com pauladas até a morte num quiosque da praia da Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, gerou uma onda de indignação no Brasil. Milhares expressaram seu horror nas redes sociais usando hashtags como #JustiçaparaMoise” e #JusticaPorMoiseMugenyi”.

As cenas do crime, registradas pelas câmeras de segurança do quiosque, chocaram o país. Segundo a família, o congolês, que fugiu em 2011 com seus parentes da guerra na República Democrática do Congo, teria sido morto após cobrar o pagamento de dois dias de trabalho no quiosque.

As imagens mostram vários homens batendo em Moïse com uma ripa de madeira e um taco de beisebol e amarrando-o em seguida. Três homens que trabalhavam no local do crime e no quiosque vizinho, identificados como agressores através do vídeo, foram presos.

Para a deputada do PSOL Talíria Petrone, racismo e xenofobia andam de mãos dadas neste caso. "Não há dúvida de que ele foi vítima do racismo, da xenofobia e de uma sociedade cada vez mais intolerante. Que cada vez mais banaliza violências como essa", comenta a parlamentar negra em entrevista à DW.

Para Petrone, o governo de Jair Messias Bolsonaro tem sua parte nessa tragédia, por ser tão "racista, intolerante e xenófobo". O presidente "faz piada com povos indígenas e quilombolas, exalta o autoritarismo e a tortura e aplaude a truculência contra a população negra e favelada". "Bolsonaro é a própria representação de uma política que reforça o racismo e a xenofobia que vitimou Moïse Kabagambe", afirma a deputada.

Para o sociólogo Ignacio Cano, do Laboratório de Análise da Violência da Uerj, o caso revela a banalização da violência no Brasil, onde bater em alguém para "ensinar uma lição" é considerado normal e legítimo. "Espancar não é nada incomum. O que não é tão comum é que esse espancamento resultou na morte. Mas o espancamento, infelizmente, é comum."

Protestos contra racismo e xenofobia

Segundo Cano, o que chama a atenção é a grande comoção que o crime despertou na sociedade brasileira. Ele afirma que, enquanto em outros países a morte de um migrante atrai menos atenção do que a de um cidadão local, no Brasil ocorre o contrário.

Foi justamente o fato de Moïse ser migrante, estrangeiro e negro que chamou a atenção, de acordo com o especialista. "A consciência do racismo está crescendo, e portanto quando há uma vítima negra, ostensivelmente negra como um congolês, isso gera uma reação mais forte. E também essa questão da consciência da fragilidade, da ideia de que pessoas como ele são mais vulneráveis."

 © Fotoarena/imago images 

Quiosque Tropicália deve se tornar memorial 

em homenagem a Moïse e a culturas africanas

No último sábado, milhares de brasileiros protestaram em todo o país contra o racismo e a xenofobia. Também houve protestos em frente à embaixada brasileira em Berlim. Esse é um sinal claro, de acordo com a deputada Talíria Petrone.

"As manifestações têm demonstrado não ser mais possível conviver com crueldades como essa e tantas outras que tiram o nosso sono, destroem famílias inteiras, dilaceram o coração e a alma de mães que perdem seus filhos para a violência de um Estado racista."

Para o teólogo Rodolfo Capler, pesquisador do Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo/PUC-SP, o alto interesse do público mostra que a sociedade brasileira é sensibilizada por movimentos estrangeiros como o Black Lives Matter.

Segundo ele, principalmente a geração mais jovem está aberta para esse "impulso mundial". "Essa geração, que chamo de geração selfie, é a geração mais inclusiva da história", diz Capler. Ao mesmo tempo, ele ressalta que o Brasil vive um aumento da violência contra minorias sob Bolsonaro, alimentado pelo próprio discurso do governo.

Racismo cotidiano em vez de democracia racial

Para Capler, a violência racista cotidiana é a prova de que a teoria de uma democracia racial que supostamente prevalece no Brasil não procede. Criada pelo sociólogo Gilberto Freyre na década de 1930, ela afirma que o racismo seria progressivamente reduzido pela crescente mistura de raças.

Segundo o teólogo, isso não aconteceu. "O racismo nosso de cada dia usa uma roupagem de democracia racial. Mas aqui não há uma democracia racial. Negar isso é uma forma de camuflar o racismo, de negar a realidade."

A prefeitura do Rio agora quer dar o exemplo e fazer um memorial a Moïse no local do crime. Para isso, os dois quiosques serão convertidos num espaço de celebração de cultura de países africanos. O prefeito Eduardo Paes também cedeu um deles, o Tropicália, à família da vítima nesta segunda-feira. A mãe de Moïse e os quatro irmãos estão autorizados a gerir o quiosque até 2030. Já o quiosque Biruta, que fica ao lado, onde o congolês também prestava serviços, será passado à família de Moïse após definição de uma disputa judicial, conforme o prefeito.

Ignacio Cano elogia a resposta rápida da prefeitura, sublinhando que a medida é, ao mesmo tempo, uma providência de apoio à família da Moïse. "Isso manda um sinal para futuros casos: essas não são pessoas que se mata com facilidade, são pessoas que têm valor."

A deputada Talíria Petrone também saúda a iniciativa da prefeitura, mas também expressa preocupação: "É difícil imaginar como essa família vai conseguir atuar e viver num espaço onde um dos seus foi espancado até a morte."


Discriminação e racismo não são protegidos pela liberdade de expressão no Brasil; entenda

 Géssica Brandino, Renata Galf e Flávio Ferreira

Folha de São Paulo

ÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Apesar de a liberdade de expressão ser um direito fundamental, ela é limitada pela própria legislação brasileira. Entre os motivos de restrição estão situações que incluem condutas que promovem a discriminação de certos grupos ou segmentos da população.

O direito brasileiro está alinhado a sistemas legais da Europa continental, como o da Alemanha. Já nos Estados Unidos, o Judiciário oferece uma maior proteção à liberdade de expressão, e mesmo discursos discriminatórios são tolerados desde que não configurem uma ameaça iminente à sociedade.

A defesa feita pelo apresentador Bruno Aiub, o Monark, de que nazistas deveriam ter o direito de ter um partido e que antijudeus podem se manifestar dessa maneira, foi amplamente criticada e provocou seu desligamento da empresa de que era um dos sócios. Uma fala do deputado Kim Kataguiri (DEM-SP) no mesmo programa fez com que políticos decidissem entrar com representação contra ele no Conselho de Ética da Câmara.

Nesta quarta (9), o comentarista da Jovem Pan Adrilles Jorge foi demitido após gesto associado por uma parte do público ao nazismo depois de comentar o caso de Monark. Ele nega qualquer alusão ao nazismo e diz que apenas deu tchau.

Entenda o que pode caracterizar discriminação e os limites da liberdade de expressão no Brasil.

*

O que é discurso de ódio?

Não há uma definição na legislação brasileira, mas existem diferentes leis - nacionais e internacionais- que envolvem a criminalização de condutas como a discriminação a determinados grupos e segmentos da população por questões raciais, sociais, étnicas e religiosas.

O que diz a Constituição?

Prevê a promoção do "bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação" como um dos objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil.

A Carta também diz que a lei punirá qualquer discriminação atentatória dos direitos e liberdades fundamentais e que o racismo é crime inafiançável e imprescritível, sujeito à pena de reclusão.

O que diz a lei sobre crime de racismo?

O artigo 20 da Lei 7.716, de 1989, diz que é crime "praticar, induzir ou incitar a discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional".

A pena é de reclusão de um a três anos e multa, que aumenta para dois a cinco anos, quando praticado por intermédio de meios de comunicação ou publicações.

No Judiciário, há o entendimento de que só se aplicaria o crime de racismo em caso de a conduta atingir uma coletividade, deste modo, casos de racismo que sejam entendidos como dirigidos a uma pessoa específica acabam sendo enquadrados como crime de injúria racial.

Tal diferenciação é criticada por especialistas no tema que entendem que injúria racial é racismo. No ano passado, o STF decidiu que a injúria racial é equiparada ao crime de racismo e, portanto, imprescritível.

Como é enquadrada a apologia ao nazismo?

Condutas de defesa do nazismo podem ser enquadradas como incitação ou indução ao preconceito conforme previsto no art. 20 da lei 7.716/89. Para o IBCCRIM (Instituto Brasileiro de Ciências Criminais), a fala de Monark pode vir a ser tipificada dessa maneira.

"A defesa da criação de um partido político voltado à discriminação e extermínio de pessoas pode vir a caracterizar, em tese, a incitação a essa prática. No caso discutido, ainda poderia se aplicar a causa de aumento de pena do §2º, já que a declaração se deu por intermédio dos meios de comunicação", disse o instituto.

Há um trecho da lei que cita especificamente o nazismo, com pena de reclusão de dois a cinco anos, além de multa. Ele tem aplicação restrita, contudo, a casos que envolvam a utilização da "cruz suástica ou gamada".

O que diz a lei sobre homofobia e transfobia?

Embora não haja na legislação brasileira a criminalização da homofobia e da transfobia, ela é possível pela decisão do STF, que equiparou ambas as condutas ao crime de racismo até que o Congresso Nacional aprove uma legislação sobre o tema.

O que dizem os tratados internacionais dos quais o Brasil faz parte?

Em 2021, o Congresso aprovou o texto da Convenção Interamericana contra o Racismo, a Discriminação Racial e Formas Correlatas de Intolerância, incluindo o texto ao ordenamento jurídico brasileiro. Segundo a norma, a discriminação racial pode se basear em raça, cor, ascendência ou origem nacional ou étnica.

O artigo 4º da Convenção define racismo como "qualquer teoria, doutrina, ideologia ou conjunto de ideias que enunciam um vínculo causal entre as características fenotípicas ou genotípicas de indivíduos ou grupos e seus traços intelectuais, culturais e de personalidade, inclusive o falso conceito de superioridade racial".

Diz ainda que tais condutas perturbam gravemente a paz e a segurança internacional e são condenadas pelos países signatários.

"É um tratado que já mostra que esse endosso a práticas racistas já cai numa prática de racismo que o nosso sistema proíbe", diz o professor da FGV Direito-SP e coordenador do grupo Supremo em Pauta, Rubens Glezer.

Desde 1992, também faz parte do ordenamento interno o Pacto Internacional sobre Direitos Civis e Políticos, que em seu artigo 20 diz que "será proibida por lei qualquer apologia do ódio nacional, racial ou religioso que constitua incitamento à discriminação, à hostilidade ou a violência". O Brasil ratificou ainda, em 1969, a Convenção Internacional sobre a Eliminação de todas as Formas de Discriminação Racial.

A fala em defesa da existência de partido nazista é crime?

No caso da fala de Monark, especialistas entrevistados pela reportagem divergiram quanto ao enquadramento criminal da declaração.

Isso porque parte deles entende que defender o direito de dizer algo é diferente de fazer apologia ao crime, e estaria dentro do direito à liberdade de expressão. Segundo a Constituição, é livre a manifestação do pensamento, sendo vedado o anonimato.

Por outro lado, quem argumenta que tal fala pode ser enquadrada como crime explica que tal ato já pode ser considerado como uma incitação à discriminação e que, diferentemente de casos como a descriminalização das drogas, é preciso considerar a lesividade do discurso que está sendo defendido a uma coletividade.

"Não é que as ideias do nazismo sejam aceitáveis porque são ideias. Elas não são ideias: elas são um programa de ação e um programa de ação leva ao que já aconteceu", diz a diretora da ONG Artigo 19, Denise Dora.

"A gente tem que avaliar aquilo que chamamos de fronteiras da liberdade de expressão em relação a qual é a possibilidade de aquela manifestação, que parece apenas uma fala, na verdade contém um incitamento e uma proposta de organização de uma ação que vai atingir ou indivíduos ou populações, grupos inteiros".

Como o STF tem decidido sobre o tema?

O caso Ellwanger é citado como emblemático na discussão sobre o tema. Em 2003, o STF condenou o proprietário da Editora Revisão, Siegfried Ellwanger a dois anos de reclusão por crime de incitação ao racismo por obras em que questionava a existência do Holocausto. O entendimento dos ministros foi de que "escrever, editar, divulgar e comerciar livros fazendo apologia de ideias preconceituosas e discriminatórias contra a comunidade judaica constitui crime de racismo''.

Rossana Brum Leques, advogada criminalista e mestre em direito penal pela USP, diz que a corte tem seguido a noção de que o direito à liberdade de expressão não é absoluto e não pode ser usado para prejudicar minorias. Nos casos criminais, porém, ela reforça que a maioria dos julgamentos acaba tratando de crime contra a honra e não como racismo.

Denise Dora afirma que ainda é preciso muito trabalho de convencimento e construção de argumentos para que a Justiça se posicione de forma mais consistente.

"Esse conjunto de agressões sistêmicas, com as quais a gente convive na sociedade brasileira, de ataques agressivos, violentos, ofensivos às pessoas por conta da cor da sua pele, por conta de serem mulheres, isso é a antessala dos discursos de ódio organizados e das ações organizadas de extermínio. Tem uma cadeia e o Judiciário brasileiro não vê e não age em relação a isso", diz.

A discussão sobre os limites da liberdade de expressão é diferente em outros países?

O professor de direito constitucional da PUC-SP Pedro Estevam Serrano diz que o tema gera grandes controvérsias nos EUA, principalmente em razão da atuação de supremacistas brancos.

"O supremacismo branco é uma postura evidentemente racista e o tema dos limites da liberdade de expressão é muito duvidoso, sempre gera conflitos na Suprema Corte dos Estados Unidos. A última tendência da corte é negar a validade das chamadas "fighting words", ou seja, a expressão de ideias que performam violência, como também é o caso do nazismo. Ultimamente há uma tendência da Suprema Corte em restringir e estabelecer limites ao direito de opinião quando esse direito implica violência", segundo o constitucionalista.

Apesar disso, Serrano avalia que nos EUA ainda há uma grande tolerância em relação aos discursos dos supremacistas brancos. "Isso em um momento de onda de extrema direita pode se transformar em um problema para a democracia. A questão não é ser extremista, senão teremos uma ditadura de centro, mas ter como pressuposto a prática de crimes de lesa humanidade, como o nazismo", afirma.

O professor de direito da FGV-SP Oscar Vilhena Vieira diz que no sistema americano prevalece um princípio de que um discurso de ódio só configurará violação à lei se houver prova de que há perigo de que a fala incite diretamente ou produza uma ação ilegal iminente.

"Nos Estados Unidos discursos discriminatórios são permitidos desde que não haja um risco de que aquilo que esteja sendo proposto pelo discurso se transforme em uma ação iminente", afirma o professor.

Já no direito brasileiro, a exemplo do direito europeu continental que o inspira, uma manifestação racista pode levar a punições independentemente de suas possíveis consequências práticas.

De acordo com Vieira, "a Constituição americana dá uma proteção mais ampla do que as Constituições brasileira e europeias, no tocante à liberdade de expressão. No Brasil há uma criminalização do discurso racista."

"Há uma metáfora empregada por juristas de que os europeus entendem a liberdade de expressão como se fosse o meio ambiente, que não deve ser poluído por discursos de ódio. Já o modelo americano é o do livre mercado de ideias, ou seja, deixem que falem bobagens, alguém vai se contrapor a elas", completa.

*

Liberdade de expressão e discriminação

CONSTITUIÇÃO FEDERAL

- Constituem objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil: (...) promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação (art. 3º IV)

- É livre a manifestação do pensamento, sendo vedado o anonimato (Art. 4º VIII)

- A República Federativa do Brasil rege-se nas suas relações internacionais pelos seguintes princípios: repúdio ao terrorismo e ao racismo (Art. 5º VI)

- A lei punirá qualquer discriminação atentatória dos direitos e liberdades fundamentais (Art. 5º XLI)

- A prática do racismo constitui crime inafiançável e imprescritível, sujeito à pena de reclusão, nos termos da lei; (Art. 5º XLII)

CRIME DE RACISMO

Lei 7.716/1989

- Praticar, induzir ou incitar a discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional* (Art. 20). Pena: reclusão de um a três anos e multa.

*Se qualquer dos crimes previstos no caput é cometido por intermédio dos meios de comunicação social ou publicação de qualquer natureza, pena é aumentada para reclusão de dois a cinco anos e multa

- Fabricar, comercializar, distribuir ou veicular símbolos, emblemas, ornamentos, distintivos ou propaganda que utilizem a cruz suástica ou gamada, para fins de divulgação do nazismo (Art. 20 § 1º). Pena: reclusão de dois a cinco anos e multa


Um passo assustador na mistura entre política e religião

 Matheus Leitão 

Veja online

Pastor da Assembleia de Deus admitiu que se envolve em emendas parlamentares

  YouTube/Reprodução 

O pastor da Assembleia de Deus Vitória em Cristo, Silas Malafaia,

 recebe o presidente da República eleito, Jair Bolsonaro 

Uma revelação feita pelo jornal O Estado de S. Paulo nesta quinta-feira, 10, mostra como a mistura indevida de política com religião está alcançando novos níveis no país.

Segundo a reportagem, José Wellington Bezerra da Costa, líder da Assembleia de Deus do Belém, em São Paulo, admitiu com todas as letras que faz a intermediação do pagamento de emendas recebidas por três de seus filhos que são parlamentares: o deputado federal Paulo Freire Costa (PL-SP), a deputada estadual Marta Costa (PSD-SP) e a vereadora Rute Costa (PSDB-SP).

“A emenda só vai para o prefeito por intermédio do pedido do pastor da Assembleia de Deus”, teria dito José Wellington durante reunião realizada nesta semana.

A fala revela como religiosos estão tentando entrar na política para proteger seus próprios interesses. Já não basta a maluquice que é ter parte do orçamento sendo diretamente administrada pelo Congresso, agora fica evidente que não é o parlamentar que está escolhendo o destino dos recursos, e sim um Pastor.

Procurado pelo jornal, José Wellington confirmou sua conduta e defendeu a atitude. “Quando o prefeito de uma cidade precisa de uma verba, é evidente que nós mandamos o pastor da nossa igreja para que ele tenha conhecimento com o prefeito”, disse.

Além de mexer com recursos públicos, o pastor faz campanha política dentro da igreja. “Meus irmãos, trabalhem para eleger os nossos irmãos na fé, procurem eleger os nossos irmãos na fé. Glória! Seja fiel a este nome: Assembleia de Deus no Brasil”.

As falas de José Wellington expõem a conduta que tem sido adotada por diversos líderes religiosos nos últimos. Usar o púlpito da igreja como palanque e tentar interferir nos recursos públicos em prol de seus fiéis já é comum e o movimento deve ganhar ainda mais força com a nova liderança da bancada evangélica na Câmara.

Nesta quarta-feira, 10, o deputado Sóstenes Cavalcante (DEM-RJ) assumiu a presidência da Frente Parlamentar Evangélica. Em entrevista ao Estado de S. Paulo, ele admitiu que sua prioridade será aumentar a participação de evangélicos no Congresso.

“Focar na eleição para ampliar a bancada com o máximo de colegas. Somos sub-representados. Somos 30% da população brasileira, e não somos 30% dos deputados, muito menos dos senadores”, declarou o deputado, discípulo de Silas Malafaia.

Com a postura de Sóstenes e a interferência de líderes como José Wellington, o Brasil vai ver, infelizmente, política e religião se misturando cada vez mais.