quarta-feira, setembro 04, 2013

20 anos para o Brasil ficar rico

Nicholas Vital
Revista EXAME

Está em curso um fenômeno novo para o país: o amadurecimento em massa da população. Mas é preciso correr, pois a janela de oportunidades tem data para fechar

Germano Lüders/EXAME.com 
Multidão no Centro de São Paulo: o aumento da idade média da 
população brasileira também amplia a força produtiva do país

São Paulo - Ronaldos e Giseles à parte, a maioria dos mortais segue um roteiro de vida semelhante. Primeiro experimentamos as delícias da infância e da adolescência. Depois, chega a hora de começar a trabalhar, um momento marcado por muito esforço e pouco dinheiro.

Com o tempo, as oportunidades vão surgindo e o desafio é conseguir garantir um descanso tranquilo no período final. E assim passamos de geração em geração. Também os países seguem uma trajetória semelhante, com graus diferentes de sucesso.

Numa fase inicial, nações jovens têm uma fatia grande da população abaixo da idade de trabalho. Com o tempo, as crianças crescem e começam a trabalhar. É um período ideal para aproveitar o impulso e crescer. Depois vem a fase do envelhecimento, em que o ímpeto econômico se esvaece. Se tudo der certo nesse caminho, haverá, então, riqueza suficiente para financiar o sossego dos idosos.

O Brasil já foi uma nação jovem. E seremos, no futuro, um país velho. A boa notícia é que estamos — agora — no auge do período produtivo. Encontra-se em curso um fenômeno demográfico e social novo para o país: o amadurecimento em massa da população. O crescimento populacional vertiginoso ficou para trás.

Após crescer geometricamente por dois séculos, o número de brasileiros aumenta cada vez menos e não deve ultrapassar a marca de 220 milhões. Ao mesmo tempo,  com expectativa de vida de 73 anos, o país tem hoje dois terços da população entre 15 e 64 anos — a faixa etária considerada economicamente mais produtiva.

A proporção dos que estão em idade de produzir vai continuar a crescer até 2022, quando atingirá um pico de 71%. A previsão é que nessa data o número de brasileiros em idade ativa passe dos atuais 130 milhões para 147 milhões. As chances de negócios abertas por essa transformação silenciosa são enormes.

“Se em dez anos não abrirmos 100 milhões de novas contas, é porque algo deu errado”, diz Luiz Carlos Trabuco Cappi, presidente do Bradesco.

Segundo estimativa da Federação Brasileira de Bancos, o número de agências bancárias no país deve crescer 50% na próxima década, o que significa a criação de cerca de 150 000 postos de trabalho. O crescimento no setor bancário é apenas um exemplo do salto esperado em inúmeros mercados na próxima década.

“Essa é uma chance única na história de qualquer país”, disse a EXAME Ronald Lee, diretor do departamento de demografia e economia da Universidade de Berkeley e membro da Comissão Americana para Estudos do Envelhecimento. A chance a que Lee se refere é batizada pelos especialistas de bônus demográfico — a fase com o máximo possível de gente trabalhando.

Uma projeção realizada pelos professores Cássio Turra e Bernardo Queiroz, da Universidade Federal de Minas Gerais, mostra que o Brasil tem um potencial de crescimento de 2,5% ao ano gerado exclusivamente pelo bônus demográfico.

Outra conta, feita por Marcelo Neri, pesquisador do Centro de Políticas Sociais da Fundação Getulio Vargas, sugere um aumento de até 2,7% ao ano na renda média dos brasileiros em função do bônus e do aumento da escolaridade, iniciado nos anos 90.

No cenário elaborado por Turra e Queiroz, o Brasil, se crescer apenas à média anual de 2,5% propiciada pelo bônus demográfico, chegará a 2030 com um produto interno bruto de 3,3 trilhões de dólares, 50% maior que o atual.

Mas o país tem crescido mais que isso — e os economistas avaliam que será possível manter um ritmo de 4,5%. Isso elevaria, no mesmo prazo, o PIB para 4,8 trilhões de dólares, o sufi ciente para alcançar um padrão de renda equivalente ao que Portugal tem atualmente.

Numa hipótese mais otimista, de o bônus ser aproveitado para impulsionar reformas mais profundas, em duas décadas o Brasil atingiria o nível de renda per capita atual da Espanha e teria um PIB de 7 trilhões de dólares.

“Os brasileiros estão diante de uma oportunidade de ouro, mas ela é temporária. Após duas décadas, o envelhecimento da população inverterá a curva e fará a proporção de inativos subir. Por isso, para tirar o máximo proveito até lá, o Brasil deve investir fortemente nas novas gerações, em especial provendo boa educação básica”, diz Lee.

O recado é claro: temos mais 20 anos para fazer a lição de casa, modernizando a economia e melhorando a qualidade da educação, e, assim, nos tornar uma nação rica. Caso contrário, estaremos no pior dos mundos. Corremos o risco de envelhecer sem ter conseguido integrar o clube dos desenvolvidos — e aí será muito mais difícil chegar lá.

O bônus tem como origem uma guinada no comportamento das famílias brasileiras. Desde meados dos anos 60, tem havido uma queda progressiva no tamanho das famílias. A média de filhos por mulher, que era de seis há meio século, caiu até chegar a menos de dois hoje.

A presidente eleita Dilma Rousseff — de quem se espera um conjunto de políticas para aproveitar ao máximo o bônus demográfico — é um exemplo da nova mulher brasileira. Teve apenas uma filha, a qual, por sua vez, recentemente lhe deu o primeiro neto. A idade média da população, antes inferior a 20 anos, atualmente está próxima de 29 — e vai continuar a crescer.

A pirâmide demográfica mudou de forma e agora é uma figura cada vez mais arredondada. No ponto atual, a maioria dos que eram jovens nas décadas anteriores ainda não chegou à terceira idade e constitui uma inédita geração de brasileiros mais maduros e que estão no auge de sua carreira profissional.

O resultado é que a proporção entre pessoas que não trabalham e as que são ocupadas caiu de mais de sete inativos (seja criança, seja idoso) para cada grupo de dez trabalhadores, há 20 anos, para menos de cinco para dez. No auge do bônus, em 2022, essa proporção será de quatro para dez.

Quando há menos gente que precisa ser sustentada, a abundância de população em idade ativa dinamiza a economia e gera recursos adicionais que podem ser revertidos em poupança e investimento. Isso reforça o crescimento econômico e gera oportunidades em inúmeros mercados.

A mudança do perfil demográfico da população brasileira deve fazer com que alguns setores da economia experimentem um ritmo de crescimento acelerado na próxima década, o que pode colocar o Brasil entre os líderes globais em vários segmentos.

Os cosméticos são um bom exemplo. Hoje, o Brasil é o terceiro maior mercado de produtos de perfumaria e beleza do mundo, atrás de Estados Unidos e Japão.

Caso a estimativa de crescimento do setor se confirme — 9,6% ao ano, de acordo com uma estimativa feita pela consultoria Euromonitor a pedido de EXAME —, o mercado brasileiro de cosméticos deverá chegar a 108 bilhões de dólares em 2020, quase o dobro do observado atualmente nos Estados Unidos.

“Nossos consumidores, em sua maioria, são maduros”, diz José Vicente Marino, vice-presidente de negócios da Natura, a maior empresa de cosméticos do país. “Boa parte de nosso crescimento nos últimos anos já pode ser atribuída ao bônus.” O envelhecimento da população também deve impulsionar o segmento de serviços médicos, que inclui gastos com consultas, exames e hospitais.

Hoje, os brasileiros gastam pouco mais de 56 bilhões de dólares, montante que deve alcançar 112 bilhões em 2020, mais do que o gasto atual da Alemanha, em torno de 90 bilhões de dólares. O gasto com educação, segundo as projeções da Euromonitor, também deve dobrar na próxima década, de 91 bilhões de dólares para 182 bilhões.

Para as empresas, um dado central é o perfil do brasileiro médio daqui a uma década, quando o bônus demográfico estiver empurrando o país com força máxima. Muito provavelmente, será próximo ao de Ana Rita Mazza Menani.

Aos 33 anos de idade, casada, com dois filhos, formada em comunicação social, ela e o marido, Rogério, têm uma pequena gráfica em Monte Alto, no interior paulista. Juntos eles dispõem de uma renda em torno de 8 000 reais por mês. Moram numa casa confortável e, na garagem, têm dois carros e duas motos. Dentro de casa, não faltam eletrodomésticos, móveis e computador.

Os filhos, de 7 e 13 anos, estudam em escola particular, fazem aulas de inglês, artes, música e esportes. “Investimos cerca de 25% da renda familiar na educação deles”, diz Ana Rita. “Se tivéssemos mais filhos, seria difícil manter o padrão. As pessoas da minha geração não têm condições de ter mais que um ou dois filhos.”

Embora muito tenha se falado sobre o crescimento na base da pirâmide, o exemplo de Ana Rita ilustra que a ascensão econômica em curso no país legará uma estrutura social com preponderância das classes média e alta.

Nessa nova sociedade, algumas tendências comportamentais começam a ser detectadas.A importância crescente dada à educação dos filhos é uma delas. O desenvolvimento esperado para as próximas décadas está atrelado a fortes investimentos em educação e formação de mão de obra qualificada — uma das consequências diretas do bônus.

“Saímos da baixíssima escolaridade para um nível menos ruim, e isso já está jogando a favor do desenvolvimento há um tempo”, afirma Neri, da FGV. “Nosso retrato provavelmente seria bem pior se não fosse isso. O que precisamos fazer é avançar com mais ambição no setor de educação, para não desperdiçar o bônus.”

Essa necessidade faz com que as escolas constituam um mercado que evidentemente está entre os que mais proliferam atualmente no Brasil. De acordo com a Euromonitor, esse setor deve crescer quase 10% ao ano no Brasil até 2020, quando alcançará 400 bilhões de reais. A expansão tem atraído investidores estrangeiros principalmente para atuar no ensino superior.

O grupo americano DeVry chegou ao país há três anos. Instalou-se na Região Nordeste e já conta com 14.000 alunos em suas quatro unidades.

“Enxergamos uma grande oportunidade no mercado brasileiro de educação”, diz Carlos Filgueiras, presidente do braço local do DeVry. “O potencial de crescimento é muito grande. Hoje, apenas 30% dos jovens brasileiros entre 18 e 22 anos estão na faculdade. Na Grécia, o índice é de mais de 90%.”

De acordo com ele, o efeito do bônus já é perceptível, mas poderá ser mais intenso porque as classes C e D estão começando a ter acesso às universidades. “Isso deve impulsionar o setor nos próximos anos”, diz.

Potencial a ser descoberto
Curiosamente, muitas empresas ainda não atentaram para o potencial de mercado aberto pela mudança na demografia brasileira. Recentemente, ao promover por seis meses um estudo com seus 100 executivos de nível mais alto para identificar tendências e planejar os próximos dez anos, o grupo de engenharia Promon descobriu o bônus.

“O tema da demografia causou frisson nas nossas reuniões”, diz Luiz Fernando Rudge, presidente da Promon. “As pessoas não percebem seu efeito no dia a dia, mas vimos que, ao longo das décadas, o impacto é dramático.”

A Promon identifica áreas de negócios que serão particularmente atraentes num cenário de amadurecimento da população, como as de saúde e bem-estar. “Podemos investir na construção e na operação de hospitais e condomínios para pessoas mais idosas”, afirma Rudge.

Além disso, com a perspectiva de um crescimento econômico mais consistente, diversos setores de infraestrutura em que a Promon atua, de energia a telecomunicações e tecnologia da informação, também deverão ser positivamente afetados.

De acordo com um estudo da consultoria Ernst & Young, a mudança do perfil demográfico da população brasileira deve dar ainda mais fôlego ao setor de construção civil. Estima-se que, todos os anos, cerca de 1,7 milhão de novas famílias sejam formadas no país.

Até 2030, serão pelo menos 35 milhões de novas famílias, principalmente da emergente classe C, que precisarão de um lugar para morar. Trata-se de outra tendência que começa a ser detectada: o surgimento de famílias pequenas e em franca ascensão social. As construtoras já perceberam o fenômeno e vêm adequando seus produtos aos novos consumidores.

 “As famílias estão ficando cada vez menores. Consequentemente, os apartamentos também devem ficar mais compactos”, diz Antonio Carlos Ferreira, diretor de incorporações da Gafisa, uma das maiores construtoras do país. Em 2007, as famílias tinham, em média, 3,1 pessoas. Em 2030, prevê-se que haverá apenas 2,4 pessoas por residência.

O operador logístico mineiro Lando Tavares, de 34 anos, comprou seu primeiro apartamento há aproximadamente um mês. Casado há quatro anos e pai de uma menina de 2 anos, ele aproveitou um aumento salarial e a oferta abundante de crédito para financiar em 25 anos um imóvel avaliado em 100 000 reais. Os Tavares representam a nova família brasileira — pequena e mais preocupada com a qualidade de vida.

Uma população mais velha traz também mudanças em termos de objetos de desejo. Um segmento crescente é o formado por homens e mulheres maduros e com dinheiro para gastar. O envelhecimento costuma tornar os consumidores mais exigentes. Para as montadoras de automóveis, isso deve produzir uma alteração na demanda.

A participação de veículos maiores e mais equipados deverá crescer consideravelmente nos próximos anos, com alta nas vendas de sedãs médios e modelos de luxo. “Eles devem tomar parte do mercado dos populares”, afirma Stephan Keese, sócio da consultoria especializada Roland Berger.

“As pessoas mais velhas geralmente têm mais dinheiro e compram produtos melhores.” Atualmente, os veículos compactos respondem por 69% do mercado brasileiro, ante 15% dos sedãs médios. Em 2020, a participação dos populares deve cair para 63%, enquanto a dos médios subirá para 20%. O mercado de carros de luxo também deve dobrar, para mais de 50 000 unidades por ano.

“Nos Estados Unidos e na Europa, os carros básicos são mais completos porque são desenvolvidos para uma população mais velha e exigente”, diz Keese. Essa é justamente a aposta que a marca japonesa Nissan fez recentemente para se expandir no Brasil. Instalada no país no final dos anos 90, a Nissan lançou em 2007 o modelo Sentra, aquele que “não tem cara de tiozão”.

O sedã, que custa a partir de 55 000 reais, obviamente não tem como público-alvo os jovens. A intenção foi chamar a atenção dos homens maduros, os potenciais consumidores.

 “Quando chegamos ao Brasil, já sabíamos da tendência de envelhecimento da população. Tínhamos certeza de que o segmento cresceria”, afirma Murilo Moreno, diretor de marketing da Nissan. “O tíquete médio vem subindo. Os carros de luxo estarão cada vez mais presentes nas ruas.”

O exemplo vem da Ásia
A legião de consumidores maduros deve impulsionar o crescimento de mercados antes pouco expressivos. Uma preocupação é envelhecer bem e de forma saudável. Essa nova realidade faz com que a indústria de lácteos, por exemplo, precise de um novo plano de negócios para os próximos anos.

Com um mercado infantil cada vez menor, não faz mais sentido investir milhões de reais em produtos com poucas possibilidades de crescimento. O foco agora são os leites funcionais, ricos em cálcio e outras vitaminas e consumidos por adultos.

“Esses produtos devem crescer 300% nos próximos cinco anos”, afirma Fernando Falco, presidente da Leitbom, controladora da marca Parmalat no Brasil. Segundo ele, nos próximos dois anos a Parmalat deve lançar pelo menos sete novos lácteos funcionais e só dois produtos voltados para o público infantil.

O crescimento do número de adultos em busca de uma vida mais saudável beneficia uma gama de empresas que vai muito além das fabricantes de alimentos. O Brasil já é o segundo mercado do mundo para as academias de ginástica, só atrás dos Estados Unidos.

Todos os países hoje considerados desenvolvidos se benefi ciaram de mudanças no perfil populacional para atingir estágios mais elevados de renda e qualidade de vida. Na Europa, no Japão e nos Estados Unidos, a transição demográfica foi mais lenta, tendo se iniciado com a revolução industrial.

Lá, as vantagens começaram no século 19, com um aumento da população gerado pelas conquistas científicas e pelo desenvolvimento da infraestrutura urbana de saneamento. Foi uma evolução que se estendeu ao início do século 20, com a redução da mortalidade infantil e a expansão do acesso a serviços médicos e educação.

O impulso inicial, de ampliação das populações, depois foi contido com a queda da natalidade. Na Ásia, excetuando o Japão, os avanços na qualidade de vida da população chegaram após a Segunda Grande Guerra. Mas, com as tecnologias e os conhecimentos já disponíveis, a adoção de melhorias foi intensa, o que gerou uma transição rápida.

Em países como Coreia do Sul, Singapura, Hong Kong e Taiwan, a mudança demográfica iniciada nos anos 60 gerou uma ampliação da força produtiva que serviu de base para a decolagem das economias. Os governos desses países souberam perceber que uma população com mais expectativa de vida também precisaria ser mais educada e que o ambiente de negócios precisaria ser nutrido.

A transformação que se viu em três décadas fez os quatro países merecerem o apelido de Tigres Asiáticos. Um estudo realizado pelos pesquisadores David Bloom e Jeffrey Williamson, da Universidade Harvard, concluiu que o bônus demográfico gerou um terço do crescimento dos quatro tigres entre 1965 e 1990.

“A mudança no perfil da população foi determinante para o milagre econômico asiático”, afirma Bloom. “Até então, esses países cresciam lentamente devido ao peso excessivo de uma população muito jovem.” O estudo mostra que, durante a transição, a massa local de trabalhadores cresceu a um ritmo de 2,4% ao ano, enquanto o crescimento total da população era de 1,6%.

A Coreia do Sul lançou as bases de seu sucesso antes mesmo de chegar ao bônus. Devastado pela guerra dos anos 50, o país passou a investir em educação e fez uma série de reformas para que sua economia deslanchasse. Mais tarde, em meados dos anos 80, quando chegou ao período de transição demográfica, já estava devidamente preparado.

Em três décadas, os sul-coreanos multiplicaram por 8 sua renda per capita, para perto de 20 000 dólares, o dobro da brasileira, e entraram para o clube dos países ricos. Atualmente, quem melhor está aproveitando a transição demográfica é a China.

Graças às políticas draconianas de controle de natalidade introduzidas pelo governo na década de 70, o país tem colhido os frutos de uma estrutura etária que, por ora, é favorável — há, desde os anos 90, cada vez menos crianças e cada vez mais adultos aptos a produzir.

Todos os anos, milhões de chineses entram para o mercado de trabalho e engrossam o já enorme contingente de mão de obra local. Dar emprego a tanta gente é um desafio, mas o país tem conseguido dar conta. Com custo baixo para produzir quase tudo, a enorme população chinesa é o motor que move a segunda maior economia do mundo.

Estima-se que o bônus tenha sido responsável por até 30% do crescimento do PIB da China na última década. Além disso, o fenômeno ajudou a tirar da pobreza cerca de 400 milhões de pessoas nos últimos 30 anos. Assim como o Brasil, a China ainda tem cerca de 20 anos de bônus demográfico pela frente. Mas há uma nítida diferença em como a oportunidade é encarada lá e aqui.

 “No Brasil, ainda não caiu a ficha de que estamos diante de uma janela temporária”, diz Rogério Rizzi de Oliveira, sócio da empresa de consultoria Monitor Group. “Os chineses correm para manter o crescimento acima de 10% porque sabem que isso só poderá ser feito num prazo curto. Nós, aqui, também precisamos apertar o passo.”

Os desafios para que o Brasil aproveite ao máximo sua janela de oportunidades, porém, ainda são muitos. Não temos uma economia com a modernidade e a eficiência necessárias para gerar crescimento econômico de alta qualidade.

“O próximo governo precisará trabalhar muito para que possamos dar um salto. Do contrário, corremos o risco de desperdiçar parte do bônus”, afirma Rubens Ricúpero, ex-ministro da Fazenda e diretor da Faculdade de Economia da Fundação Armando Alvares Penteado, em São Paulo.

Temos as próximas duas décadas para alcançar um padrão de país rico — depois, a janela de oportunidades irá gradualmente se fechar. Se a transição não for devidamente aproveitada, a sociedade brasileira estará de frente para um novo e dramático quadro por volta de 2040: o de uma nação de idosos que não melhoraram sufi cientemente seu padrão de vida e, pior, sem recursos para sustentar a velhice.

O alerta sobre esse cenário sombrio é dado hoje pelos países europeus, onde os sistemas de seguridade e manutenção do bem-estar social estão em crise. Isso está ocorrendo mesmo em lugares que alcançaram altos níveis de renda per capita, como França, Reino Unido e Itália, e, de forma pior, nos que não enriqueceram tanto, como Grécia, Portugal ePolônia. Uma questão difícil de ser enfrentada é a da saúde.

“O custo para tratar um idoso é muito maior que o de um jovem”, afirma o economista Paulo Tafner, pesquisador do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada. “Até 2040, o gasto brasileiro com saúde vai se multiplicar por 3.” Caso o país não se prepare adequadamente, o já deficiente sistema público de saúde entrará em colapso.

O mesmo impacto se dá nas contas da deficitária Previdência Social. “É preciso reconhecer que o país não está preparado para ter 30 milhões ou 40 milhões de idosos, como deve acontecer nas próximas décadas”, diz Carlos Eduardo Gabas, ministro da Previdência.

Para Ronald Lee, de Berkeley, o Brasil terá de reavaliar seu sistema de aposentadoria, que ele considera provavelmente o mais generoso do mundo em relação ao nível de renda per capita. “Não há dúvida de que há muitos idosos pobres que precisam das pensões, mas eu suspeito que haja muita gente recebendo mais do que precisa”, afirma Lee.

“O modelo atual não será sustentável no futuro.” O custo da Previdência em relação ao PIB já é duas vezes maior que nos Estados Unidos, e a idade média do brasileiro ainda é inferior à dos americanos. São questões que deveriam estar na ordem do dia. Não estão.

Fazendo um paralelo com o que o pensador florentino Nicolau Maquiavel dizia do Príncipe, é preciso ter virtù e fortuna — competência e sorte — para triunfar. Tudo indica que a sorte agora está do lado do Brasil. Falta mostrar virtù para aproveitar ao máximo a janela de oportunidades. São 20 anos — e o relógio está correndo.


O tempo fora de tempo

Carlos Brickmann
Brickmann & Associados Comunicação

Diz o Eclesiastes, um dos livros da Bíblia, que há um tempo para tudo, um tempo para tudo o que ocorre. Há, pois, que ter o tempo como aliado; e saber quando a hora não chegou. E, quando não for o tempo, adiar o que se deseja.

É justo ou não o pedido do ministro Joaquim Barbosa de aumento de salários no STF? Pode ser; mas não é hora de elevar agora o salário do STF para mais de R$ 30 mil, quando o salário mínimo talvez vá para R$ 722, e só no ano que vem. É correto manter o mandato do deputado federal Natan Donadon, do PMDB, preso por corrupção? Este colunista acha que não, a Câmara acha que sim; mas não é hora de criar a figura jurídica do deputado sem direitos políticos, que não pode votar nem ser votado, nem comparecer às sessões, mas continua deputado.

Não é o tempo certo para que a cúpula do país faça reivindicações, por justas que lhe pareçam. Multidões foram às ruas pedir seriedade na administração pública. Não é o tempo certo para que o governador do Ceará, do PSB, compre quatro helicópteros sem licitação e contrate bufês suntuosos para servi-lo; nem para que o senador Cássio Cunha Lima, do PSDB, arranje emprego público para a namorada, a sogra e o cunhado; nem para que o governador gaúcho, do PT, gaste R$ 400 mil do Tesouro para avaliar se o jornal Zero Hora o trata com imparcialidade; nem para que o governador do Piauí, do PSB, queira pagar seu hidratante, xampu reparador e gel esfoliante com dinheiro público. Puro deboche.

Parafraseando o Eclesiastes, que proveito tirou o povo de suas manifestações? 

Sabedoria antiga
Um grande historiador, Capistrano de Abreu (1853-1927) dizia que a nossa Constituição deveria ter apenas dois artigos: "1 - Todo brasileiro fica obrigado a ter vergonha na cara. 2 - Revogam-se as disposições em contrário".

O caminho das pedras
Em duas semanas, dois jogos em Brasília, com times de fora, e duas grandes brigas no Estádio Mané Garrincha. Um torcedor do Flamengo foi seriamente machucado por são-paulinos; corinthianos e vascaínos brigaram a pauladas, ignorando a Polícia. Três dos brigões corinthianos estavam entre os detidos em Oruro, após a morte do garoto boliviano Kevin Strada. Fala-se em proibir as torcidas organizadas, mas isso não funciona: basta que troquem de nome, e pronto. 

No caso Watergate, a principal fonte dos jornalistas que revelaram o escândalo repetia sempre um lema: "Sigam o dinheiro". O que se tem de fazer no futebol é buscar o caminho do dinheiro. Como puderam os briguentos ir a Oruro, viajar de avião a Brasília, comprar os caros ingressos, fora outras despesas? Os que ficaram detidos em Oruro por vários meses certamente perderam o emprego. Quem paga suas viagens? 

Achando-se a resposta, as brigas acabam na hora.

Ela não sabia! 
Eduardo Gaievski, assessor da ministra-chefe da Casa Civil da Presidência da República, Gleisi Hoffmann, está foragido: exonerou-se e desapareceu depois de ter sido acusado de abusar sexualmente de meninas pobres, pagando-lhes de R$ 150 a R$ 200 (há outras acusações contra ele, mas esta é a mais grave). Gaievski foi prefeito de Realeza, no Paraná, preparava sua candidatura a deputado estadual pelo PT e seria coordenador da campanha de Gleisi ao Governo do Estado, no ano que vem. 

E que disse a petista Gleisi sobre o caso? Claro: que não sabia de nada. Que, antes de nomear o assessor, o Governo consultou a ABIN, a Justiça, cartórios "e todos os órgãos necessários", mas não recebeu informações porque os processos contra ele corriam em segredo de justiça. Pois é. Mas talvez tenha se esquecido do Cartório da Comarca de Realeza. 

A certidão, mediante simples consulta, lista 12 ações contra Gaievski, incluindo a de exploração sexual.

Dúvida pertinente
Uma pergunta: que significa "rigoroso inquérito"? Há inquéritos dignos desse nome que não sejam rigorosos? A propósito, já existe algum resultado do "rigoroso inquérito" sobre as denúncias da Siemens a respeito do cartel nos fornecimentos para trens urbanos e Metrô em São Paulo, que conforme as denúncias funcionaria desde o Governo Mário Covas, o primeiro da atual dinastia do PSDB? 

Há gente daquela época até hoje ocupando cargos importantes, e seria de seu interesse que tudo fosse logo esclarecido, para afastar qualquer suspeita.

A fila anda
É bom que o "rigoroso inquérito" sobre o cartel em São Paulo ande logo, porque parece que há mais coisas rolando. Existe quem fale em problemas em outros Estados, em fornecimentos para usinas e trens de passageiros regionais. 

Faça o que eu digo
Está em pleno desenvolvimento o esforço governista de demonização do senador boliviano Roger Pinto, que ficou 455 dias isolado num quarto da Embaixada brasileira em La Paz e fugiu para o Brasil com auxílio do diplomata Eduardo Saboia. Todas as acusações que o Governo boliviano fez contra ele foram descartadas pelo Governo brasileiro, ao conceder-lhe asilo; mas agora são utilizadas como se fossem verdadeiras e comprovadas. 

Veja o que diz José Dirceu - o próprio - em seu blog: "Molina, que deveria estar cumprindo pena (...)"

carlos@brickmann.com.br 
www.brickmann.com.br

Um desafio para o ministro nº 40

Rolf Kuntz  
O Estado de S.Paulo

O juízo final vai criar um grave problema para os ministros da área econômica. Por falta de futuro, eles ficarão impedidos de prever - ou de prometer - resultados melhores para o ano seguinte, como fez ontem o ministro da Fazenda, Guido Mantega. Por enquanto eles têm essa rota de fuga, especialmente valiosa quando o cenário de curto prazo parece muito inseguro. Mesmo diante do resultado aparentemente bom do segundo trimestre, o ministro evitou projeções para 2013 e anunciou 2014 como um ano "mais promissor". Que significa promissor? A resposta será especialmente importante para o trabalho do ministro número 40, principal ajudante da presidente Dilma Rousseff, seu marqueteiro eleitoral e grande planejador de ações políticas de impacto.

O ministro da Fazenda recusou indicar números, mas talvez possam servir como referência de um ano "promissor" as estimativas incluídas na proposta de lei orçamentária para 2014:4% de expansão para o produto interno bruto (PIB) e inflação de 5%, medida pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), usado na política de metas do Banco Central (BC).

Não são de fato previsões, disse Mantega ao apresentar o projeto, na quinta-feira, como se os técnicos tivessem tomado quaisquer hipóteses mais ou menos críveis para calcular a receita e a despesa do próximo exercício. Pode parecer meio estranho, mas só um pouco. Afinal, nenhuma esquisitice deste governo causa mais muita estranheza. Para o marqueteiro presidencial, no entanto, esses números poderão ser muito relevantes.

Só para um exercício muito simples, admita-se para este ano um crescimento econômico de 3% - por enquanto, uma hipótese otimista. Se o PIB aumentar 4% em 2014, a expansão acumulada nos quatro anos de mandato da presidente Dilma Rousseff será de apenas 11%. A produção de bens e serviços terá crescido a uma taxa média inferior a 3% ao ano. Se a perspectiva de um desempenho ainda medíocre neste ano e no próximo se confirmar, o mercado de emprego ficará provavelmente mais fraco. A expansão do salário real, já menor em 2013, será prejudicada. Os empresários estarão menos dispostos a contratar e será mais difícil compensar com aumentos a perda salarial causada pela inflação.

Para estimular a produção o governo poderá usar novas doses de benefícios fiscais, cortando tributos de setores selecionados. Nesse caso, insistirá numa linha de ação fracassada. Incentivos desse tipo custam caro ao governo e só produzem efeitos localizados. Nem a médio prazo o aumento da produção compensa os buracos abertos na arrecadação. Mas o governo parece ainda acreditar nas virtudes da política adotada nos últimos anos. Os fatos desmentem essa crença, mas a teimosia tem sido muito mais forte que os fatos.

Dois outros fatores ainda poderão impulsionar o crescimento e, mais que isso, criar condições para uma expansão sustentável. Em primeiro lugar, novas concessões para infraestrutura poderão movimentar o setor da construção e produzir bons efeitos a curto e a médio prazos, a começar pela multiplicação de empregos. Os ganhos de eficiência econômica serão benefícios mais duradouros e de maior alcance. O governo tem apostado nessas possibilidades, mas foi incapaz, até agora, de iniciar a execução do programa, anunciado festivamente há um ano.

Se quiser tratar seriamente do assunto, a administração federal deverá ser mais pragmático na elaboração dos editais, pôr de lado preconceitos e abandonar a ideia mal concebida do trem-bala, um projeto caríssimo e nada prioritário neste momento. Muitíssimo mais importante, nesta altura, é cuidar das condições do transporte de carga, pensar nos sistemas multimodais e dar um jeito nos aeroportos ineficientes e congestionados.

O reajuste cambial poderá ser outro fator positivo. Ninguém sabe qual será o novo patamar do câmbio, depois de superada a atual instabilidade, mas o produtor nacional certamente ganhará algum poder de competição com o real mais barato. Será um erro enorme, no entanto, fazer do câmbio o fator decisivo de competitividade, como já ocorreu em outras épocas. Quem entra nesse jogo é condenado ao fracasso, até porque o estímulo cambial tende a tornar-se um vício. Os brasileiros deveriam conhecer muito bem a desastrosa sequência formada pela depreciação cambial e pela inflação.

Não há competitividade real e duradoura sem muito investimento. No segundo trimestre, o valor investido em máquinas, equipamentos, construção civil e obras de infraestrutura foi 3,6% maior que o dos primeiros três meses do ano e 9% superior ao de igual período de 2012. Mas esse crescimento ocorreu sobre uma base muito baixa. No trimestre, a relação entre investimento e PIB ficou em 18,6%. Um ano antes estava em 17,9%. Será preciso um esforço muito grande e muito sério para se chegar a uns 24% ou 25%, nível já superado, até com folga, por vários latino-americanos.

Além de investir mais em ativos físicos, o País precisará cuidar muito mais seriamente da formação de pessoal e da inovação tecnológica. Sem isso seu potencial de crescimento continuará muito limitado. Esse potencial é hoje estimado na faixa de 2% a 3% por economistas de muito boa reputação. É difícil uma estimativa precisa, mas os limites brasileiros, como tem mostrado a experiência, são muito estreitos, especialmente no setor industrial. Diante da baixa capacidade de oferta, qualquer aumento importante da demanda pode resultar em mais inflação e em deterioração das contas externas - fenômenos muito visíveis hoje, mesmo com modesto crescimento econômico. A solução de problemas desse tipo vai muito além do marketing eleitoral.

Brioches do poder

Gil Castello Branco (*)
O Globo

Como dizia o Barão de Itararé, ‘certos políticos brasileiros confundem a vida pública com a privada’

Às vésperas da Revolução Francesa, a rainha Maria Antonieta indagou a um subordinado sobre as razões de uma manifestação popular e foi informada de que o motivo principal era a falta de pão. A rainha, surpresa, perguntou: “Por que não comem brioches?” A frase entrou para a história como símbolo da alienação da soberana, que desconhecia como viviam os seus súditos, os quais, paradoxalmente, sustentavam a realeza.

No Brasil, dois séculos depois, o governo do Ceará — do socialista Cid Gomes — assinou contrato de R$ 3,4 milhões para serviços de buffet e decoração em eventos do gabinete do governador e na residência oficial, com cardápio que incluía lagosta, escargot e caviar. O edital de licitação, explícito e exótico, não deve diferir de outros adotados Brasil afora. Na verdade, o apreço pela culinária requintada com recursos públicos é característica de vários governantes.

O ex-presidente Fernando Henrique levou para Brasília a premiada chef Roberta Sudbrack, que cultivava nos jardins do palácio horta com ervas, legumes e verduras orgânicas. Lula teve a seu serviço o pernambucano Caio Henri, que comandou conhecido restaurante em São Paulo. Já a presidente Dilma contratou a chef Andréa Munhoz, que estagiou na capital paulista com o francês Emmanuel Bassoleil e pilotou a cozinha de vários restaurantes brasilienses. Os salários desses profissionais não costumam ser divulgados e sabe-se lá como são contratados. Na contramão da sofisticação, o ex-presidente da França, François Miterrand, levou para Paris uma chef de cuisine do interior para saborear no dia a dia uma comida simples como a da avó.

Além dos presidentes e governadores, outros burocratas comem e bebem do melhor. Na semana passada, por exemplo, o Contas Abertas flagrou o Ministério das Relações Exteriores adquirindo 500 garrafas de espumante brut com a exigência de que o produto tivesse “ao menos quatro premiações internacionais em concursos posteriores a 2008 e fosse amadurecido em contato com leveduras, por período mínimo de 12 meses”. Já o gabinete do Comandante da Aeronáutica gastou R$ 34,1 mil em tortas, docinhos, bolos, croissants, rocamboles e minissonhos, entre outras guloseimas. Tomara que não seja para distribuir como lanche nos aviões da FAB quando transportam autoridades.

Aliás, a alimentação é apenas um dos marcos do patrimonialismo da política brasileira. Mal esfriou o caso das iguarias, o mesmo governador cearense passou a utilizar em suas viagens oficiais um dos três helicópteros adquiridos por R$ 78 milhões, sem licitação, quando o uso deveria ser restrito à Secretaria da Ciência, Tecnologia e Educação. Vale lembrar que Cid Gomes foi quem levou a sogra de carona para viagem oficial de dez dias à Europa em jatinho alugado pelo governo por quase R$ 400 mil durante o carnaval. No Rio de Janeiro, o uso que o governador Sérgio Cabral e familiares faziam dos helicópteros do Estado faria corar Santos Dumont.

A vocação de Ícaro, às custas da FAB, já deslumbrou várias autoridades “sem noção”. O cearense Paes de Andrade, assim que substituiu Sarney em breve interinidade na Presidência da República, voou orgulhosamente com amigos para Mombaça, a sua cidade natal. Na gestão tucana, a moda dos ministros era viajar com a família a Fernando de Noronha. Um dos filhos de Lula, na companhia de diversos amigos, excursionou a Brasília e as fotos da folia foram parar na internet.

Recentemente, como se sabe, familiares do presidente da Câmara, Henrique Alves, e do ministro da Previdência, Garibaldi Alves, usaram jatinhos da Aeronáutica para torcer pela seleção, enquanto o presidente do Senado, Renan Calheiros, requisitava avião para comparecer ao casamento da filha de um colega. Para não falar da comitiva de Dilma, que atravessou o Atlântico e gastou mais de R$ 100 mil por noite para assistir à posse do Papa Francisco. Com a turbulência das denúncias, a FAB passou a informar quem requisita os aviões, mas não divulga os caronas.

A discussão sobre os gastos governamentais, principalmente os das autoridades, é absolutamente legítima. O limite entre o necessário e o supérfluo é tênue, e a austeridade tem que ser a regra. O bom senso recomenda que os governantes façam com os recursos públicos o que fariam com o próprio dinheiro. No entanto, pelo que temos visto, a célebre frase do Aparício Torelli, o Barão de Itararé, continua atual: “Certos políticos brasileiros confundem a vida pública com a privada.”

(*) Gil Castello Branco é economista e fundador da organização não-governamental Associação Contas Abertas

O problema dos meios

J.R.Guzzo
Revista EXAME

No seu intento de reeleição da presidente Dilma, o governo distribui vantagens para ganhar adeptos e avaria a economia com medidas incoerentes. No final, sobrará uma conta a ser paga pela soma dos brasileiros

A prioridade máxima da presidente Dilma Rousseff é reeleger-se para um segundo mandato nas eleições de 2014: estará apenas perdendo seu tempo quem achar que ela possa estar preocupada, no mundo das coisas reais, com o câmbio, as metas do PAC, a “desoneração” do custo das empresas e as dúzias de outras altas questões em sua agenda. Vai pagar  o preço para isso – ou melhor, vai fazer com que os brasileiros paguem essa fatura, emprestando o próprio lombo para suportar os estragos a ser causados na economia e na administração do país pela estratégia de reeleição montada e remontada diariamente no Palácio do Planalto. 

Jogo jogado,  é claro – política, no Brasil, geralmente é isso aí mesmo. O que parece esquisito é a composição da fórmula. De um lado, entra nela a convicção de que o único princípio  respeitado na política nacional começa e acaba no verbo “ganhar”. Pecado, mesmo, é perder – e,  para evitar a derrota, continua com plena validade a filosofia de que os fins justificam os meios.

O fator de complicação, no caso, é que os meios escolhidos até agora, aparentemente, atrapalham os fins. A presidente, favorita com folga apesar de todos os seus aparentes desapontamentos recentes com as pesquisas de “popularidade”, sabe que o comportamento da economia durante os próximos 12 meses pode ser decisivo para a sua reeleição. Sabe, também, que precisa do apoio dessa tenebrosas Base aliada”, montada por seu antecessor, para desfrutar de “palanques” estaduais e outras preciosidades que “os profissionais” do ramo consideram indispensáveis para ganhar uma eleição presidencial. O diabo é que para saciar o apetite “padrão refugiado africano” que a base tem por cargos na máquina pública, e pelo livre  acesso ao Tesouro Nacional, o governo assina quase todo o dia a doação de vantagens aos amigos e aos amigos dos amigos.   Resultado: fica difícil manter a economia no prumo e, ao mesmo tempo, socar dinheiro e vantagens nos aliados.

Ainda há pouco, Dilma, de muito nenhenhém, deu aos parlamentares, em menos de dez dias, mais de 1 bilhão de reais em dinheiro que haviam arrecadado do Erário sob a forma de estranhíssimas “emendas parlamentares”.  Ou melhor: eles tinham aprovado as emendas, que lhes concedem verbas para aplicara  em obras em suas bases eleitorais, naturalmente construídas por empreiteiras amigas, ou para  colocar direto nos próprios bolsos, mas não o dinheiro sonante, que só sai com a caneta da presidente.

Os deputados ameaçaram votar contra várias questões de interesse do governo, inclusive a aprovação de diversos vetos presidenciais, se o dinheiro vivo não lhe fosse entregue já – e Dilma aceitou a barganha. Refrigério, luz e paz na base; choro e ranger de dentes entre os burocratas da contabilidade oficial. Alegria e tristeza, ao mesmo tempo, entre marqueteiros e organizadores do Dilma-14: ganham, com a mão esquerda, a harmonia temporária entre os amigos, e perdem, com a mão direta, as avarias que esse tipo de “acerto” traz para a economia.

A própria Dilma coloca, por sua conta, mais gatos nesse balaio , fazendo uma coisa e seu contrário ao mesmo tempo. O nome disso, em português  claro, é incoerência. De um lado, a presidente quer diminuir os custos de operação das empresas para ativar a performance econômica. Um bela oportunidade de fazer isso seria sancionar a lei que extingue a multa de 10% sobre o saldo do Fundo de Garantia – FGTS que pagam ao governo nas demissões sem justa causa  - e que se soma ao 40% já pagos aos demitidos. Mas Dilma não largar o osso, com o qual sustenta seu programa Minha Casa, Minha Vida, que considera um grande cabo eleitoral. Consequência: veta o fim da multa e continua encarecendo a vida das empresas, que é o contrário daquilo que quer fazer. Como é que fica? Não fica. Tudo bem quando o vento é a favor. Mas em agosto, entre outros desgostos, o real foi a moeda que mais perdeu valor em todo o mundo. É o vento de proa, direto.

Um governo em apuros

Rogério Furquim Werneck
O Globo

Estreita-se o espaço de manobra na condução da política econômica

Em seis meses, o governo passou do triunfalismo de fevereiro à indisfarçável apreensão, que agora se vê em Brasília, com a longa e problemática travessia dos 13 meses que ainda faltam para as eleições de 2014.

No início do ano, embalado pela comemoração de uma década de conquista da Presidência, o PT pretendia estender os festejos por todo o ano de 2013, com a realização de dez grandes eventos nas maiores cidades do País. Há cerca de um mês, contudo, foi discretamente anunciado pelo partido que o último evento seria o de Salvador, no fim de julho. Os demais seriam cancelados. Interrupção tão abrupta das comemorações bem ilustra a rapidez da mudança de clima por que vem passando o governo.

Em fevereiro, o Planalto ainda alimentava a fantasia de que, após dois anos de crescimento econômico pífio, 2013 poderia ser o ano da virada. A ideia era assegurar a retomada da economia, a qualquer custo, e, na medida do possível, manter a inflação sob controle, com a adoção de medidas casuísticas de desoneração. Mas essas esperanças esvaíram-se ao longo dos últimos meses.

Em abril, com a inflação já no teto da meta, o governo se viu obrigado a conter a gritante perda de credibilidade do Banco Central e dar sinal verde para novo ciclo de alta da taxa de juros. No fim do primeiro semestre, as perspectivas de recuperação da economia tornaram-se ainda menos promissoras, na esteira do aumento de incerteza que adveio da onda de protestos de junho e da crescente perda de confiança na condução da política econômica.

Nos últimos dois meses, o que parecia ser apenas um quadro macroeconômico pouco promissor vem evoluindo para uma situação bem mais difícil, marcada por preocupante redução de espaço de manobra na condução da política econômica. Em grande medida, o estreitamento de possibilidades decorre do vigor da depreciação cambial que tem sido induzida pela perspectiva de mudança da política monetária americana e agravada pela perda de credibilidade da política econômica no Brasil.

Se não puder ser revertida, a depreciação do câmbio deverá impor ao governo escolhas muito mais duras na condução da política de metas para inflação. E é bem provável que, ao fim e ao cabo, o governo, com uma eleição pela frente, se veja obrigado a conviver com uma combinação de taxa de juros, crescimento e inflação bem mais desfavorável do que imaginava possível há alguns meses.

As escolhas poderiam ser menos adversas se o governo estivesse de fato disposto a restaurar a credibilidade da política fiscal. Mas tudo indica que lhe falta um requisito básico para fazer um movimento crível nesse sentido: convicção de que isso é efetivamente necessário.

O máximo que o governo se dispõe a fazer nessa linha é prometer, de pés juntos, que não voltará a recorrer à lamentável alquimia contábil que tem conspurcado o registro das contas públicas nos últimos anos. Mas nem mesmo isso é crível. Basta constatar, por exemplo, que, poucas semanas depois de ter ensaiado esse tipo de promessa, o governo já aventou a possibilidade de excluir gastos com projetos de mobilidade urbana da contabilidade da dívida dos governos subnacionais.

A esta altura, qualquer esforço sério de restauração da credibilidade da política fiscal exigiria mudança da equipe econômica. Algo que o governo obviamente não está disposto a fazer. Não obstante o lamentável desempenho da economia e a extensão do descrédito da política fiscal, a presidente não parece ter intenção de fazer qualquer alteração maior na equipe econômica, seja na Fazenda, seja no Tesouro, seja no BNDES.

Isso sugere que o problema de falta de credibilidade da política econômica é de solução bem mais difícil do que em geral se pensa. É preciso levar mais a sério o que diz a presidente Dilma, quando se dá ao trabalho de esclarecer, com todas as letras, que, na verdade, a central de formulação e condução da política econômica está instalada no terceiro andar do Palácio do Planalto. Só não entende quem não quer.

Colhendo os frutos da violência

Fernando Gabeira
O Estado de São Paulo 

A presença no interior do País, que alguns jornalistas chamam de Brasil profundo, às vezes me deixa em dúvida se estou levando em conta todos os dados possíveis da realidade. Será que tudo o que estou vendo é só um refluxo do movimento de massas e a ocupação do terreno por grupos radicais que usam a violência como um instrumento pedagógico?

Usei um verso de Drummond para definir os acontecimentos de junho: nasce uma flor no asfalto. E disse que seu maior inimigo era a violência, que terminaria por esvaziar as ruas e fortalecer o lado que se pretende combater. Não pensava em nada do tipo conselho aos jovens. Apenas dizia que é ilusão supor que a História recomeça do zero. Vive na minha memória, e de todos os sobreviventes dos anos 60, a lembrança dos acontecimentos que resultaram na luta armada e no fortalecimento da ditadura militar.

Os grupos que se radicalizam na maré baixa dos movimentos acreditam estar mantendo o espírito e preparando nova investida. No 7 de Setembro, quem sabe? Tenho algumas razões para discordar dessa tática, para além da pura e simples objeção à violência. Claro que não me importo com os mal-entendidos nem espero indulgência dos críticos. Valho-me do sentido da realidade que às vezes abandona os grupos radicais quando as ruas se esvaziam e só ouvimos o barulho do trânsito.

Nas ruas multidões portavam cartazes dizendo: “Desculpem o transtorno, estamos mudando o Brasil”. As pessoas viam isso com tolerância, pois era verossímil que tamanha energia concentrada pudesse mudar o País. O mesmo não vale para um grupo de vanguarda, pois é difícil atribuir capacidade de modificar o País a círculos isolados que se escondem sob máscaras e destroem símbolos do capitalismo.

Essas ações pedagógicas são realizadas na esperança de que se universalizem, de que outros as sigam e todos juntos destruam o sistema. Por essa esperança as pessoas se arriscam a ser presas. Acham que mais cedo ou mais tarde vingarão os frutos de sua ação pedagógica. O difícil é ver o tempo passando no cárcere e perceber que tudo aquilo era uma ilusão, constatar que a maioria esmagadora segue rejeitando a violência como forma de luta política.

É preciso passar um tempo no cárcere, comprometer a própria vida, para aprender essa lição elementar? Pode ser que entre os que queimam e destroem haja alguns que o façam por uma simples explosão nervosa. Mas os que organizam sistematicamente e consideram a tática correta estão jogando conscientemente com o próprio futuro.

Cansei de ver quebra-quebras em Berlim no 1.º de Maio. Sempre os mesmos, sempre na mesma loja de departamentos. E a Alemanha segue seu rumo.

Os políticos agora refluíram e a polícia brasileira parece indecisa sobre o que fazer com a violência que sobrevive no rescaldo das grandes manifestações. Os políticos temem a eleição, sabem que, mesmo calados, terão dificuldades em 2014. Por que se pronunciar e afastar mais a chance de voltar ao cargo?

Os resultados da baixa maré são claros. As bandeiras principais dos movimentos foram enfraquecidas. O governo recupera gradualmente o prestígio perdido. Não importa se o gigante acordou ou voltou a dormir. Vamos supor como correta a inversão daquela frase comum: quanto mais as coisas ficam as mesmas, mais elas mudam. Ainda não sabemos o impacto que o movimento de junho deixou na consciência de muitos. A pura observação nos autoriza a dizer que se buscava mais a condenação da política do que propriamente uma alternativa. Não só continuaram insolúveis alguns problemas na área política, como se acentuaram os indícios de que a ilusão de prosperidade sustentada foi para os ares.

A queda do real é só mais um capítulo da queda na realidade. Espera-se um aumento da gasolina e com ele mais aperto no bolso, apesar de sua correção. A sensação de crise econômica aos poucos vai se impondo à euforia da prosperidade, mas não há nenhuma esperança, no momento, de que possa ser superada por uma visão correta do atual governo.

A política externa brasileira continua sendo a política de um partido. Foi preciso que um jovem diplomata arrancasse um asilado de um quarto da embaixada em La Paz e fugisse com ele para o Brasil. No episódio da prisão dos torcedores corintianos, o mesmo diplomata, Eduardo Saboia, se esforçou para atendê-los enquanto as negociações com Evo Morales patinavam.

Estive na Bolívia para cobrir a revolta dos índios contra a construção de uma estrada na região Amazônica com financiamento do BNDES. Dois governos que se dizem populares se meteram numa aventura altamente impopular. Alguns adeptos do PT acham que é preciso falar fino com a Bolívia e grosso com os EUA. Será que a maioria da Nação realmente se sente paternal diante da Bolívia e ofendida diante dos EUA?

Com todos os descaminhos do governo é preciso contar apenas com novas manifestações? Elas têm um grande poder, mas já não somos inocentes sobre seu alcance real. Os políticos encenam um esforço concentrado, esperam o refluxo do movimento e caem, de novo, nas mesmas práticas repulsivas.

As grandes manifestações de junho tiveram o poder de revelar a incapacidade do sistema político no conjunto, a incompetência do governo e a repulsa à corrupção. Está na hora de valorizar não só o protesto, mas a busca de alternativas reais para o País. O crescimento dos últimos anos, apoiado numa bolha de consumo, parece ter chegado ao fim. A mediocridade do governo fica mais clara ainda.

Manifestações são vitais, mas a História é mais parecida com maratona do que tiro de cem metros. E a política, uma navegação que requer conhecimento dos mares, rochedos, portos a serem alcançados e as dificuldades do caminho. Estamos à deriva. Tal como na Espanha, sabemos o que as pessoas não querem. Prevemos altos índices de voto nulo. Cairá a legitimidade do poder político. Saída mesmo ainda não se vê no horizonte.

Acordem, oposicionistas! Acordo com Cuba fere o Artigo 49 da Constituição; tem de passar pelo Congresso

Reinaldo Azevedo

As oposições, o PSDB em particular, poderiam parar de ficar se autodestruindo — já há quem faça isso por elas com razoável eficiência — e prestar mais atenção à Constituição. Ainda que o Elio Gaspari possa criticar e considerar “manifestação de ódio”, o fato é que o acordo celebrado pelo Brasil com Cuba, qualquer que seja ele — até agora, não se conhece —, fere um dispositivo constitucional.

É verdade. Na hipótese de o Inciso I do Artigo 49 da Carta não ter sido revogado — que eu saiba, não foi —, lá se estabelece:

Art. 49. É da competência exclusiva do Congresso Nacional:
I – resolver definitivamente sobre tratados, acordos ou atos internacionais que acarretem encargos ou compromissos gravosos ao patrimônio nacional;

Entenderam?

Esse é o caso do acordo com Cuba. Trata-se de um acordo internacional que acarreta encargos ao patrimônio nacional. E, portanto, só pode ser celebrado com a aprovação do Congresso.

Mas é preciso recorrer ao instrumento certo, que, nesse caso, não é uma Ação Direta de Inconstitucionalidade porque a cubanização da medicina no interior do Brasil não deriva de um ato normativo específico. A MP que cuida do assunto não trata dos cubanos.

O instrumento correto, salvo melhor juízo dos especialistas, é um mandado de segurança com pedido de liminar. É claro que o governo recorreu a um truque, afirmando que o acordo foi celebrado com a OPA (Organização Pan-Americana de Saúde), não com o governo cubano. Em primeiro lugar, é mentira, claro! Em segundo lugar, continuaria inconstitucional do mesmo jeito.

Mais: quais são os termos desse acordo com Cuba? Com base na Lei da Transparência, os parlamentares devem exigir que sejam tornados públicos. 

O fascismo do PT contra os médicos

Luiz Felipe Pondé
Folha de São Paulo

Os judeus foram o bode expiatório dos nazistas. Nossos médicos são os "judeus do PT"

O PT está usando uma tática de difamação contra os médicos brasileiros igual à usada pelos nazistas contra os judeus: colando neles a imagem de interesseiros e insensíveis ao sofrimento do povo e, com isso, fazendo com que as pessoas acreditem que a reação dos médicos brasileiros é fruto de reserva de mercado. Os médicos brasileiros viraram os "judeus do PT".

Uma pergunta que não quer calar é por que justamente agora o governo "descobriu" que existem áreas do Brasil que precisam de médicos? Seria porque o governo quer aproveitar a instabilidade das manifestações para criar um bode expiatório? Pura retórica fascista e comunista.

E por que os médicos brasileiros "não querem ir"?

A resposta é outra pergunta: por que o governo do PT não investiu numa medicina no interior do país com sustentação técnica e de pessoal necessária, à semelhança do investimento no poder jurídico (mais barato)?

O PT não está nem aí para quem morre de dor de barriga, só quer ganhar eleição. E, para isso, quer "contrapor" os bons cidadãos médicos comunistas (como a gente do PT) que não querem dinheiro (risadas?) aos médicos brasileiros playboys. Difamação descarada de uma classe inteira.

A população já é desinformada sobre a vida dos médicos, achando que são todos uns milionários, quando a maioria esmagadora trabalha sob forte pressão e desvalorização salarial. A ideia de que médicos ganham muito é uma mentira. A formação é cara, longa, competitiva, incerta, violenta, difícil, estressante, e a oferta de emprego descente está aquém do investimento na formação.

Ganha-se menos do que a profissão exige em termos de responsabilidade prática e do desgaste que a formação implica, para não falar do desgaste do cotidiano. Os médicos são obrigados a ter vários empregos e a trabalhar correndo para poder pagar suas contas e as das suas famílias.

Trabalha-se muito, sob o olhar duro da população. As pessoas pensam que os médicos são os culpados de a saúde ser um lixo.

Assim como os judeus foram o bode expiatório dos nazistas, os médicos brasileiros estão sendo oferecidos como causa do sofrimento da população. Um escândalo.

É um erro achar que "um médico só faz o verão", como se uma "andorinha só fizesse o verão". Um médico não pode curar dor de barriga quando faltam gaze, equipamento, pessoal capacitado da área médica, como enfermeiras, assistentes de enfermagem, assistentes sociais, ambulâncias, estradas, leitos, remédios.

Só o senso comum que nada entende do cotidiano médico pode pensar que a presença de um médico no meio do nada "salva vidas". Isso é coisa de cinema barato.

E tem mais. Além do fato de os médicos cubanos serem mal formados, aliás, como tudo que é cubano, com exceção dos charutos, esses coitados vão pagar o pato pelo vazio técnico e procedimental em que serão jogados. Sem falar no fato de que não vão ganhar salário e estarão fora dos direitos trabalhistas. Tudo isso porque nosso governo é comunista como o de Cuba. Negócios entre "camaradas". Trabalho escravo a céu aberto e na cara de todo mundo.

Quando um paciente morre numa cadeira porque o médico não tem o que fazer com ele (falta tudo a sua volta para realizar o atendimento prático), a família, a mídia e o poder jurídico não vão cobrar do Ministério da Saúde a morte daquele infeliz.

É o médico (Dr. Fulano, Dra. Sicrana) quem paga o pato. Muitas vezes a solidão do médico é enorme, e o governo nunca esteve nem aí para isso. Agora, "arregaça as mangas" e resolve "salvar o povo".

A difamação vai piorar quando a culpa for jogada nos órgãos profissionais da categoria, dizendo que os médicos brasileiros não querem ir para locais difíceis, mas tampouco aceitam que o governo "salvador da pátria" importe seus escravos cubanos para salvar o povo. Mais uma vez, vemos uma medida retórica tomar o lugar de um problema de infraestrutura nunca enfrentado.

Ninguém é contra médicos estrangeiros, mas por que esses cubanos não devem passar pelas provas de validação dos diplomas como quaisquer outros? Porque vivemos sob um governo autoritário e populista.


Gilberto Freyre e os médicos cubanos

Percival Puggina  

Recebo carta de leitor disposto a ensinar-me que o convênio para admissão de médicos estrangeiros no Brasil prevê que eles sejam acompanhados pelas famílias. Como se eu não tivesse lido a Medida Provisória nº 623 de 19 de julho de 2013! Está ali, sim, com todas as letras, que o Brasil reconhece o óbvio direito do estrangeiro admitido no programa Mais Médicos de se fazer acompanhar por cônjuge e filhos enquanto prestar serviços ao nosso país. O problema que ao missivista pareceu irrelevante é este: enquanto os profissionais de quaisquer outras procedências exercerão esse direito, os cubanos são os únicos aos quais ele é vedado, não aqui, mas no país de origem. O doutor vem, mas a família fica lá, como garantia de retorno do cativo a seu dono e senhor, o Estado marxista-leninista de Cuba. O que a Medida Provisória de Dilma permite não está previsto nas Cartilhas do Cárcere do governo cubano. Há gente que pensa que os outros não pensam.

A vergonhosa manifestação promovida por alguns médicos brasileiros contra os cubanos que desembarcaram em Fortaleza foi um self-service bem fornido para proveito dos formadores de opinião que atribuem a preconceitos ideológicos qualquer atitude avessa à agenda petista. Como se a defesa dos interesses do petismo estivesse associada aos mais translúcidos e elevados ideais humanos! Ou, como se essa defesa fosse gerada por um ambiente filosófico e político blindado à mais tênue contaminação ideológica. Me poupem.

O site da revista Carta Capital na última quarta-feira deu destaque ao recém chegado Dr. Juan Delgado. "Não sei porque nos chamam de escravos", exclamou ele, observando que não vem tirar trabalho de ninguém e que todos irão para onde os médicos brasileiros não querem ir. Tem razão em parte, o Dr. Juan. A atitude dos seus colegas cearenses foi deplorável grosseria. Por outro lado, é irremediável a situação do escravo que sequer tem consciência de ser escravo. Danosa, também, a matéria da revista, claro, por não informar o leitor sobre a escravidão que o regime castrista impõe aos cidadãos da ilha. Carta Capital faz malabarismos. Também ela pensa que os outros não pensam.

A presidente Dilma veio às falas naquele estilo que não dá bola para sujeito, predicado e complemento: "É um imenso preconceito esse que algumas vezes a gente vê sendo externado contra os médicos cubanos. Primeiro, é importante dizer que os médicos estrangeiros, e aí não só os cubanos, porque tem cubano, argentino, uruguaio, espanhol, português, tem de várias nacionalidades. Esses médicos vêm ao Brasil para trabalhar onde os médicos brasileiros formados aqui não querem trabalhar". 

Pois é, presidente, também a senhora não percebe. Argentinos, uruguaios, espanhóis e portugueses vêm ao Brasil de livre e espontânea vontade e são admitidos no programa individualmente, um a um. Já os cubanos, são tratados como gado de curral, vendidos aos lotes. Recebem pequena fração do que seus outros colegas embolsam enquanto a parte robusta do ervanário gerado por seu trabalho vai para os cofres de Havana. (Nota: Repete-se aqui, com os médicos, o tipo de locação com que o regime de Havana servia a Moscou jovens soldados, como bucha de canhão, nas guerras e guerrilhas que os soviéticos mantinham ou subsidiavam na África.) Considerar que os cubanos merecem tão desumano e depreciativo tratamento é muito mais do que preconceito. É maldade e perversão. 

Critique os manifestantes de Fortaleza, presidente. Mas dê uma olhada no que a senhora e os stalinistas de seu governo andam fazendo. Seu Advogado Geral da União já avisou que para os médicos cubanos não haverá asilo... Pergunte à ministra Maria de Rosário o que ela acha disso tudo na perspectiva dos Direitos Humanos. E se ela disser que concorda, despache-a com aquela sua caneta (retrátil, é verdade) de assinar demissões. Lembrei-me de Gilberto Freyre. Brasília, nesta alvorada do século 21, tornou-se a nova Casa Grande que contrata e paga por cabeça na senzala cubana.

Peçam asilo, cubanos!

Rodrigo Constantino 
O Globo

Quem ficará com o grosso do meio bilhão que nosso governo vai desembolsar por ano é a ditadura dos irmãos Castro

Muitas coisas nessa importação de médicos cubanos não cheiram bem. O governo usou as manifestações nas ruas como pretexto para anunciar a medida, mas já vinha negociando com a ditadura cubana há meses. Era algo premeditado, que fazia parte dos planos do governo.

Além disso, sabe-se que não há liberdade na ilha, sob uma tirania comunista há meio século. Não podemos assumir que esses médicos estão vindo de livre e espontânea vontade. O governo brasileiro está importando trabalho escravo!

Tanto é assim que não há negociação direta com os médicos, que sequer podem reter seus próprios salários. Quem ficará com o grosso do meio bilhão que nosso governo vai desembolsar por ano é a ditadura dos irmãos Castro. Gilberto Carvalho acha essa “mais-valia” socialista justa. Mas desde quando escravidão é justiça?

Levanta suspeita também o fato de ser justamente um governo de uma ex-guerrilheira comunista, com profunda afinidade ideológica com o sistema cubano, quem está trazendo esses médicos para o país. Será que é paranoia questionar se há outros interesses nessa medida?

Vale notar que circulam vídeos no YouTube em que brasileiros, alguns do MST, afirmam que estão em Cuba para cursos de medicina, e que o objetivo é retornar ao Brasil e divulgar as maravilhas do modelo socialista. O ministro da Saúde garantiu que a língua não é barreira. Milhares de cubanos aprenderam português? Quando? Novamente: é paranoia suspeitar das reais intenções do governo?

Se for, então o grande jurista Ives Gandra Martins é paranoico. Escreveu no “Estadão” um artigo abordando exatamente essas questões. Como ele, existem milhares de outras pessoas respeitadas que se mostram incomodadas com a forma pela qual o governo está atacando o problema da falta de médicos no interior.

Para começo de conversa, por R$ 10 mil se contrata os melhores enfermeiros do país. E esses “médicos” cubanos vão atuar basicamente como enfermeiros. Ou vão fazer o teste Revalida e demonstrar que podem atuar como legítimos médicos no país? Quero só ver...

Alguns argumentam que a crítica é razoável, mas ainda assim nosso interior necessita de médicos (ou enfermeiros), e melhor os cubanos do que nada. Além da constatação do fracasso do PT na saúde, o raciocínio pragmático é perigoso. Podemos justificar a contratação de norte-coreanos para trabalhos braçais importantes por somas irrisórias, negociadas diretamente com o “proprietário” deles, o ditador comunista Kim Jong-un. Não é a mesma coisa?

O governo acusou os críticos dos médicos cubanos de preconceito. Do meu ponto de vista, preconceito tem quem trata gente feito gado, quem pensa que pode lidar com um tirano diretamente e depois importar pessoas como se fossem mercadorias. Eis o maior preconceito!

Por acaso esses cubanos vão gozar da mesma liberdade que todos os demais gozam em nosso país? Estarão sujeitos às leis trabalhistas? Estarão eles livres para ir e vir, dar entrevistas a quem quiser, casar, criticar seu governo ou até mesmo pedir asilo ao nosso governo? Ou, como há precedentes, ficarão escondidos e vigiados, com nosso próprio governo fazendo o papel de carcereiro dos Castro?

Não tenho preconceito algum contra cubanos. Tenho, ao contrário de Chico Buarque e companhia, pena deles. Vivem na miséria criada por décadas de socialismo. São vítimas de uma ditadura cruel, assassina, que já ceifou a vida de milhares de inocentes cujo único “crime” fora discordar do regime. Defender o modelo cubano em pleno século 21 é atestado de falta de caráter.

Eis a campanha que gostaria de lançar: cubanos, peçam asilo por aqui! O histórico é ruim, pois quando dois pugilistas fizeram isso, foram devolvidos de forma fria e insensível por nosso governo petista ao regime ditatorial. Mas vocês contam com o apoio da maioria dos brasileiros. Em grande quantidade, a situação ficará bastante delicada para as autoridades subservientes ao “senhor feudal” de vocês.

Tenho certeza de que encontrarão no povo brasileiro um aliado de peso contra sua escravidão opressora. Sei que muitos têm suas famílias como reféns lá na ilha-presídio. Decisão difícil. Mas acho que entenderiam, e mais poderia ser feito para ajudá-los daqui, em liberdade, do que de lá, sob a vigilância totalitária do governo.

No limite, busquem asilo na embaixada americana, que é mais garantido. Olhem os colegas que fizeram isso, e hoje estão em Miami, ajudando a denunciar essa ditadura abjeta. Garanto que dormem em paz com suas consciências, por terem mudado de lado. Denunciem seu algoz ao mundo também. Peçam asilo, cubanos!

Mais Médicos começa com faltas e desistências

Cecília Ritto e Mariana Janjacomo
Veja online

Na capital carioca, o número de médicos que faltaram no primeiro dia do programa supera o de profissionais que compareceram

(Estefan Radovicz/Agência O Dia/AE) 
Cerimônia de recepção aos profissionais brasileiros 
do programa Mais Médicos, em Realengo no Rio 

O primeiro dia do programa Mais Médicos foi marcado por faltas e desistências por parte dos médicos brasileiros. Em algumas cidades de São Paulo e do Rio de Janeiro, nenhum dos profissionais selecionados compareceu às unidades de saúde a que foram alocados — entre os que faltaram, uma parte nem sequer justificou sua ausência. Segundo as secretarias de saúde, alguns profissionais chegaram a comunicar oficialmente sua desistência do programa federal.

Na capital carioca, o número de faltosos foi maior do que o de presentes. Eram esperados dezesseis profissionais, mas só seis se apresentaram. Todos os que trabalharão na cidade são brasileiros e apenas um passa pelo curso de requalificação por ter se formado na Espanha — o que explica a ausência. 

Os médicos se encontraram com o secretário municipal de Saúde, Hans Dohmann, na Clínica da Família Nildo Aguiar, em Realengo, na manhã desta segunda-feira. Três irão para duas clínicas da família e outros três para centros municipais de saúde, com atendimento ambulatorial. Os profissionais vão atender a Zona Oeste, nos bairros de Realengo e Bangu, e a Zona Norte, em Fazenda Botafogo e Guadalupe.

Em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, o início do programa também ficou aquém do esperado. A cidade, a aproximadamente 25 quilômetros da capital, receberia o segundo maior contingente de profissionais no estado, com um total de treze médicos. No entanto, só cinco compareceram ao primeiro dia de trabalho. Dois deles são estrangeiros, um colombiano e um português, e têm até 16 de setembro para se apresentarem. O restante, no entanto, não tem a mesma desculpa: os onze são fluminenses ou paulistas formados em faculdades de medicina do Rio de Janeiro — ou seja, não vieram de longe por causa do programa. Parte deles reside no município do Rio.

Sandro Fernandes, coordenador do programa Saúde da Família de Caxias, para onde irão doze médicos, pretende cancelar o mais rápido possível as matrículas para abrir vagas a outros profissionais. “Alguns devem ter desistido. Há algumas semanas, selecionados vieram aqui em Caxias e ficaram em dúvida. Hoje tivemos mais um sinal de que alguns não comparecerão. Estamos tentando entrar em contato com esses profissionais para liberar a vaga para novos médicos”, diz. Ainda de acordo com ele, há duas possíveis explicações para a desistência dos médicos: a carga horária de 40 horas semanais e a necessidade de trabalhar em atenção básica. De acordo com Fernandes, os médicos que seriam alocados em Caxias são, em grande parte, recém-formados ou profissionais que trabalham em hospitais de grande porte.

São Paulo -- 
Em São Paulo, dos 23 municípios inscritos no Mais Médicos, em ao menos seis cidades ocorreram faltas e desistências. No município de Americana, situado na região metropolitana de Campinas, os dois médicos selecionados não apareceram nem justificaram a ausência. Em Campinas, eram esperados cinco médicos brasileiros, mas apenas três compareceram — os outros dois anunciaram, por meio de comunicado, que haviam desistido da missão. Segundo a secretaria de saúde da cidade, a população aguarda ainda a chegada de dois médicos brasileiros formados no exterior, que devem começar a trabalhar no dia 16 de setembro. 

De acordo com nota divulgada pela Secretaria Municipal da Saúde de São Paulo, na capital paulista, cinco dos seis profissionais esperados se apresentaram para obter mais informações relacionadas à documentação e trâmites necessários para iniciar o atendimento. Em Barueri, eram esperados três profissionais, mas apenas dois apareceram: um brasileiro e um boliviano que já morava no Brasil. O médico ausente também é boliviano e reside no Brasil.

No Guarujá, onde quatro brasileiros eram esperados, nenhum compareceu. O único médico que havia confirmado sua presença na cidade enviou um comunicado avisando de sua desistência. Em Carapicuíba, dos quatro médicos confirmados, apenas um se apresentou nesta segunda-feira.

Programa — 
O salário de 10.000 reais por mês só será repassado pelo governo federal aos médicos do programa que tiverem apresentado os documentos pessoais, o diploma, o registro profissional e o termo de adesão assinado, segundo informou o ministério da Saúde através de nota. Cabe aos gestores locais, de cada cidade, confirmar até o dia 12 de setembro os nomes dos profissionais que começaram a trabalhar. Depois desse prazo, o médico que não estiver trabalhando será excluído do sistema.

Resultado do PIB mostra importância do investimento

Editorial
O Globo

O país tem uma série de oportunidades pela frente que poderão ser aproveitadas se conseguir provar ao mundo que a economia entrará nos eixos

A expansão de 1,5% no Produto Interno Bruto do segundo trimestre, de acordo com levantamento ainda preliminar do IBGE, foi um alento nesse momento em que parecia se disseminar um clima generalizado de desânimo na economia brasileira. Foram cometidos muitos equívocos nos últimos anos, mas mesmo assim não se pode desconsiderar que o país tem uma série de oportunidades pela frente, que, se bem aproveitadas, ajudarão a constituir um novo quadro.

Os números do IBGE mostraram o quanto é importante o Brasil dar prioridade ao investimento (em insuficientes 18% do PIB), especialmente em infraestrutura, para eliminar gargalos e obstáculos à atividade produtiva. Sem oferta de energia elétrica, telecomunicações adequadas, transportes racionalizados (não apenas no que se refere a cargas, mas também à mobilidade urbana), todo o esforço feito pelas empresas para obter ganhos de produtividade acaba se diluindo.

Investimentos precisam ser financiados essencialmente por poupança doméstica, gerada nos negócios das empresas e no esforço financeiro das famílias, e também no setor público, que é o maior agente da economia.

A inflação crônica durante décadas mascarou a situação de enorme desequilíbrio das finanças públicas. Só a partir do lançamento do real é que essa realidade veio à tona. Um ajuste fiscal foi posto em prática a partir de 1999, mas foi mais calcada em aumento de carga tributária do que em controle de gastos.

Um arcabouço institucional foi montado para tentar pôr a casa em ordem, e de fato ocorreram muitos avanços. Estados e municípios não podem se endividar a bel-prazer, as folhas de pagamentos estão limitadas a uma percentagem das receitas, incluindo as despesas com aposentadorias e pensões. E no caso do governo federal, os desvios da política de ajuste são punidos pelo mercado com perda de credibilidade —, o que efetivamente ocorreu e as autoridades governamentais têm prometido corrigir.

Mesmo aproximando-se do fim de mandato, o governo Dilma ainda tem tempo para contribuir para um processo de recuperação da economia brasileira se fizer com que o setor público volte a poupar. E nesse caso terá de “matar a cobrar e mostrar o pau”, porque todos já se cansaram dos artifícios para se chegar, contabilmente, a um bom resultado nas finanças públicas, sem que o desempenho concreto apareça.

No ano que vem, o Brasil será sede da Copa do Mundo. É o momento de também provar que a economia brasileira está entrando nos eixos.

Marretando as contas

O Estado de S.Paulo

A marreta será de novo o grande instrumento da contabilidade federal, em 2014, a julgar pela proposta de lei orçamentária apresentada na quinta-feira pelos ministros da Fazenda, Guido Mantega, e do Planejamento, Míriam Belchior. Os resultados finais serão mais uma vez, como neste ano e nos anos anteriores, ajustados a pancadas para se ajustar à promessa de seriedade no manejo das contas públicas.

O governo definiu para o próximo ano um superávit primário de R$ 167,4 bilhões, soma equivalente a 3,2% do Produto Interno Bruto (PIB) estimado. Mas o resultado efetivo poderá ficar em apenas R$ 109,4 bilhões e tudo estará muito certo e dentro dos conformes, segundo os números divulgados e comentados em entrevista coletiva em Brasília.

O ministro Mantega ainda ensaiou uma ressalva, com a promessa de tentar o melhor resultado possível, se a economia mundial for mais favorável, mas a experiência e o bom senso proíbem levar a sério esse comentário. O cálculo do resultado primário inclui receitas e despesas normais da administração e desconsidera os custos da dívida pública. O superávit primário é normalmente usado, no Brasil, para o pagamento de juros devidos pelo Tesouro.

O roteiro para encolher a meta primária como se tudo estivesse normal é resumido num quadrinho muito simples e um tanto incompleto. Para produzir o resultado maior, o governo central deve contribuir com uma economia de R$ 116,1 bilhões (2,2% do PIB) e os governos estaduais e municipais, juntamente com suas empresas, devem participar com R$ 51,3 bilhões (1% do PIB). Nesse esquema, a contribuição das empresas federais é nula. Mas o projeto já prevê para o governo central um abatimento, por conta de investimentos, de R$ 58 bilhões, metade do valor fixado originalmente.

Com isso, a parcela federal fica reduzida a 1,1% do PIB. Refeita a soma - R$ 58,1 bilhões mais R$ 51,3 bilhões - chega-se ao compromisso final, R$ 109,4 bilhões, 2,1% do PIB.

A marretagem fica ainda mais notável quando se examinam alguns detalhes incluídos em outros quadros. Está prevista para o próximo ano uma receita de R$ 21 bilhões (0,5% do PIB), correspondente a dividendos pagos ao Tesouro por estatais. Isso representará 36% do resultado primário de R$ 58,1 bilhões programado, depois do desconto, para o poder central. Esses pagamentos poderão ser pouco menores que os estimados para este ano (R$ 22 bilhões), mas seu peso no resultado final continuará muito importante. Na prática, espera-se, portanto, uma ajuda considerável de empresas controladas pela União.

Dividendos já entraram muitas vezes na composição do saldo primário, mas nunca foram importantes como têm sido para o atual governo. Royalties e participações especiais também facilitarão o fechamento das contas, como em 2013.

Além de reduzir a meta, o governo tem recorrido cada vez mais a essas receitas para acertar seu balanço. Isso o dispensa de um controle efetivo do custeio, de uma programação eficiente de investimentos e de um esforço para aperfeiçoar a administração.

Além disso, é imprudência usar receitas extraordinárias, mais instáveis que as de impostos e contribuições, para custear gastos permanentes.

Como sinais de boa administração, o ministro mencionou a redução, proporcionalmente ao PIB, dos gastos com juros e a estabilidade da folha de pessoal. Mas os juros voltaram a subir, por causa da inflação, e a dívida bruta continua crescendo. Depois, a expansão da folha superou a inflação durante vários anos, sem melhora correspondente dos serviços públicos.

Para montar a proposta de orçamento, o governo tomou como hipóteses uma inflação de 5% e um crescimento de 4% para o PIB. Mas uma expansão de 4% ainda é um objetivo ambicioso, segundo Mantega, diante de um quadro internacional ainda complicado.

Ele insiste em atribuir a estagnação brasileira a fatores externos. Mas o Brasil poderia exibir um dinamismo bem maior, como outros emergentes, se o governo errasse menos. Este é um dado reconhecido no País e no exterior.