quarta-feira, setembro 04, 2013

A Síria e a comunidade internacional

Editorial
O Globo

Ao submeter ataque a Assad ao Congresso, Obama tenta dar legitimidade à ação e ganhar tempo para pressionar Rússia e China, que bloqueiam consenso

Décadas depois do fim da Guerra Fria, ainda é difícil mudar comportamentos arraigados daquela época. Não se consegue, por exemplo, consenso no Conselho de Segurança da ONU sobre a melhor maneira de o mundo lidar com a sangrenta guerra civil na Síria, apesar dos mais de 100 mil mortos e do uso das proscritas armas químicas, responsáveis por dizimar mais de 1.400 pessoas, entre elas muitas crianças. 

Rússia e China, aliados do regime assassino de Bashar Assad, bloqueiam as tentativas do Conselho de Segurança de aprovar resoluções mais punitivas em relação à Damasco. Ainda assim, o multilateralismo segue sendo a melhor maneira de lidar com problemas como o da Síria. Os EUA, tendo se obrigado a agir militarmente no caso de uso de armas químicas por Assad, preparam um ataque à margem de mandato específico da ONU. Não deveria.

Menos mal que o presidente Obama, visivelmente relutante em adotar a opção bélica que criticara no antecessor Bush, decidiu pedir aprovação do Congresso para um ataque limitado a centros de comando e controle, além de bases aéreas sírias. A Casa Branca busca legitimidade para a ação, e ganha tempo para que diplomatas tentem vencer a resistência de Moscou e Pequim no Conselho de Segurança.

Um dos pontos explorados pelos críticos da ação militar é a suposta falta de provas irrefutáveis de que as armas químicas foram usadas pelas forças de Assad em áreas rebeldes. Recordam o fato de Bush e o premier inglês à época, Tony Blair, terem utilizado o argumento de que Saddam Hussein possuía armas químicas e/ou biológicas para justificar a invasão do Iraque em 2003. A alegação se mostraria falsa.

As consequências desse erro foram tão fortes que o governo britânico preferiu submeter ao Parlamento sua participação no ataque à Síria. Apesar dos esforços do premier David Cameron para justificar a entrada do país ao lado dos EUA na guerra, a iniciativa foi derrotada no Parlamento. O mais sensato é os EUA esperarem os testes do material recolhido na Síria por inspetores da ONU para atestar, inequivocamente, que se tratam das banidas armas químicas.

Na pressão diplomática sobre Rússia e China, deve ser usado o argumento de que armas de destruição em massa não podem ser usadas impunemente. Há muitos países “perigosos” de olho no que acontecerá neste caso. Leniência com Assad estimulará o Irã a acelerar seu programa nuclear, a Coreia do Norte a impulsionar seu programa de mísseis. Pode passar a mensagem errada também a Israel que, diante das ameaças de Irã, Hezbollah e Hamas, vive com o dedo no gatilho.

Rússia e China devem entender que não é de seu interesse uma “licença” para armas químicas. Ambos têm em seu território grupos sectários religiosos que podem se sentir estimulados a uma escalada de violência e terrorismo.