quarta-feira, setembro 04, 2013

Produção industrial brasileira recua 2% em julho

Henrique Gomes Batista 
O Globo

Resultado veio pior do que o esperado por analistas, tanto na comparação mensal quanto na anual
Produção industrial brasileira deste ano continua a apresentar movimento de sobe e desce nos resultados mensais
"Com este resultado, estamos operando no mesmo patamar do início de 2010", afirma IBGE


RIO - A produção industrial brasileira recuou 2% em julho, na comparação com junho, revelou a Pesquisa Industrial Mensal (PIM), divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) nesta terça-feira. Em relação ao mesmo mês do ano passado, houve alta 2%. Com isso, o acumulado da produção industrial sobe 2% no ano e 0,6% nos últimos 12 meses, informou o instituto. Analistas consultados pela Bloomberg, com base em 36 estimativas, esperavam recuo de 1,3% na comparação mensal e avanço de 2,6% em relação ao ano anterior. Nas duas situações, o resultado veio pior do que o esperado.

A queda apresentada em julho praticamente elimina a expansão de 2,1% assinalada no mês anterior, destaca André Luiz Macedo, gerente da Coordenação de Indústria do IBGE. Mais uma vez, a produção industrial brasileira deste ano se comporta como uma gangorra, apresentando movimentos ora subindo e ora descendo nos resultados mensais: em quatro deles foi registrado alta e em outros três, queda.

- Isso tem sido uma característica deste ano, uma forte volatilidade, quando o crescimento da produção de um ano é praticamente devolvida no mês seguinte - disse. - Em um período recente, como nos últimos dez anos, não identifico algo similar ao que está ocorrendo neste ano, com tanta oscilação e com magnitude tão forte, ou seja, um mês há um crescimento forte, de mais de 2%, e no outro há uma queda muito forte - explicou.

Assim, afirma, o indicador da média móvel trimestral, utilizada pelo IBGE para mostrar tendência da produção, caiu 0,7%, primeiro resultado negativo nesta comparação desde dezembro de 2012.

- A produção industrial em julho ainda está 3,6% inferior ao registrado em maio de 2011, ápice da produção industrial. Com este resultado, estamos operando no mesmo patamar do início de 2010 - afirma Macedo.

Macedo lembra, no entanto, que o resultado de julho, na comparação com o mesmo mês do ano passado, apresenta o quarto resultado positivo seguido, com alta em julho de 2%. Contudo, ele afirmou que o resultado deste ano pode ter sido beneficiado pelo efeito calendário, uma vez que julho deste ano teve um dia útil a mais que o mesmo mês de 2012. No acumulado do ano, afirma o pesquisador do IBGE, a alta de 2% na produção industrial está mais impactada pela alta de 14,2% na produção de bens de capital.

- Isso explica porque, na comparação do acumulado do ano, ele não tem sido muito disseminado, com 14 dos 27 setores industriais em alta, 11 em queda e dois estáveis - afirmou.

Recuo generalizado
A queda setorial que mais impactou toda a indústria foi a redução mensal de 5,4% na produção de veículos automotores em julho, na comparação com junho deste ano. No mês passado, segundo o Instituto, o segmento tinha apresentado alta de 1,8%. A produção de automóveis e caminhões, que foi beneficiada pelo governo com redução de impostos, registra uma forte variação entre os meses, como resultado direto da variação mensal de vendas e estoques. Entre os setores da indústria, 15 apresentaram queda, 11 ficaram estáveis e apenas um apresentou alta.

- Estes segmentos não definem o ritmo da produção industrial, que é mais impactado pelo bens de produção de bens intermediários, mas a forte volatilidade da produção industrial pode estar sendo em parte explicada por estes dois segmentos, mas eles não estão sozinhos para explicar o movimento de queda de julho sobre junho - afirmou Macedo, lembrando que pequena parte da produção dos caminhões, automóveis e motos, assim como o setor de celulose e papel, apresentou alguns casos de paralisação no mês de julho, algumas causadas por férias coletivas, por exemplo.

Na comparação de julho com junho deste ano, a produção de bens de capital apresentou redução de 3,3%, a produção de bens intermediários caiu 0,7% e a de bens de consumo retraiu 2,6% (queda de 7,2% na subcategoria duráveis e de 1,5% nas subcategorias semiduraveis e não duráveis). Os três setores com maior redução na produção em julho, ainda na comparação mensal, foram farmacêutica (-10,7%), Máquinas para escritório e Equipamentos de Informática (-9,4%) e Veículos Automotores (-5,4%). O único setor que apresentou alta foi refino de petróleo e Álcool, com elevação de 3,3% na produção nesta comparação.

Desde maio, bens intermediarios apresenta três meses de queda na comparação com o mês anterior, com redução acumulada de 1,8% nos últimos três meses. O setor tem o maior peso no indicador e representa 55% da indústria. Macedo lembra que, no resultado de julho, a queda da produção está muito disseminada, tanto por categorias de uso (bens de capital, intermediários e de consumo) como por setores industriais, com 15 dos 27 setores em queda e onze em estabilidade. O único que apresentou alta, na comparação mensal, foi o refino de petróleo e álcool, com elevação de 3,3% em julho na comparação com junho.

- O comportamento dos últimos cinco meses de petróleo, é positivo. De março a maio, o setor de refino vinha em uma recuperação, caiu em junho e cresceu em julho, mostrando que o refino foge um pouco da performance de outros segmentos dos bens intermediários, de queda - analisa.

Segundo Macedo, os bens intermediários são os que mais sofrem com a concorrência dos importados. Ele afirmou ainda que, apesar da forte desvalorização do real dos últimos dois meses, ainda é cedo para dizer que há um impacto da questão cambial, por causa, principalmente, dos prazos dos contratos de importação.
O gerente do IBGE destacou também que, embora tenha apresentado 3,3% de queda em julho na comparação com junho, a produção de bens de capital registra alta de 15,2% na comparação com julho de 2012, avanço de 14,2% no acumulado nos primeiros sete meses de 2013 e elevação de 2,4% nos últimos doze meses.

Manifestações
Macedo informou que é difícil mensurar se as manifestações populares pelo Brasil impactaram a queda da produção industrial, pois em geral foram casos isolados e a indústria poderia se recuperar no resto do mês.

- O que nos parece que justifica esta queda na produção industrial e a alta volatilidade do ano é o baixo nível de confiança dos empresários, nível de estoque acima da média para setores como automóveis, bebidas, vestuário e máquinas e equipamentos, a situação das famílias, seja com inadimplência, restrição ao crédito ou comprometimento da renda, incertezas internacionais e, um pouco, inflação - afirmou.

O IBGE também revisou os resultados da produção Industrial dos meses anteriores. Assim, em junho, segundo a instituição, a alta na produção foi de 2,1% na comparação com maio, quando o número prévio apresentava elevação de 1,9%. Já o resultado de maio na comparação com abril, que antes era estimado em queda de -1,8%, agora foi corrigido para queda de 2,0%.

O setor fechou o primeiro semestre com alta de 1,9%, puxada pela produção de bens de capital — importantes indicadores de grau de investimento. No entanto, foi marcado por uma intensa volatilidade nos resultados mensais. Em junho, avançou 1,9%, após dois meses com resultados opostos: queda de 1,8% em maio e alta de 1,9% em abril. Na ocasião, o comportamento de gangorra foi visto como preocupante por analistas.

Nesta segunda-feira, o Boletim Focus, divulgado pelo Banco Central, manteve a projeção de crescimento da produção industrial para 2013 em 2,11%, mesma previsão apontada na semana passada. Caso a expectativa se confirme ao final do ano, o setor ainda estaria longe de recuperar o recuo de 2,6%, registrado em 2012.