quarta-feira, setembro 04, 2013

O problema dos meios

J.R.Guzzo
Revista EXAME

No seu intento de reeleição da presidente Dilma, o governo distribui vantagens para ganhar adeptos e avaria a economia com medidas incoerentes. No final, sobrará uma conta a ser paga pela soma dos brasileiros

A prioridade máxima da presidente Dilma Rousseff é reeleger-se para um segundo mandato nas eleições de 2014: estará apenas perdendo seu tempo quem achar que ela possa estar preocupada, no mundo das coisas reais, com o câmbio, as metas do PAC, a “desoneração” do custo das empresas e as dúzias de outras altas questões em sua agenda. Vai pagar  o preço para isso – ou melhor, vai fazer com que os brasileiros paguem essa fatura, emprestando o próprio lombo para suportar os estragos a ser causados na economia e na administração do país pela estratégia de reeleição montada e remontada diariamente no Palácio do Planalto. 

Jogo jogado,  é claro – política, no Brasil, geralmente é isso aí mesmo. O que parece esquisito é a composição da fórmula. De um lado, entra nela a convicção de que o único princípio  respeitado na política nacional começa e acaba no verbo “ganhar”. Pecado, mesmo, é perder – e,  para evitar a derrota, continua com plena validade a filosofia de que os fins justificam os meios.

O fator de complicação, no caso, é que os meios escolhidos até agora, aparentemente, atrapalham os fins. A presidente, favorita com folga apesar de todos os seus aparentes desapontamentos recentes com as pesquisas de “popularidade”, sabe que o comportamento da economia durante os próximos 12 meses pode ser decisivo para a sua reeleição. Sabe, também, que precisa do apoio dessa tenebrosas Base aliada”, montada por seu antecessor, para desfrutar de “palanques” estaduais e outras preciosidades que “os profissionais” do ramo consideram indispensáveis para ganhar uma eleição presidencial. O diabo é que para saciar o apetite “padrão refugiado africano” que a base tem por cargos na máquina pública, e pelo livre  acesso ao Tesouro Nacional, o governo assina quase todo o dia a doação de vantagens aos amigos e aos amigos dos amigos.   Resultado: fica difícil manter a economia no prumo e, ao mesmo tempo, socar dinheiro e vantagens nos aliados.

Ainda há pouco, Dilma, de muito nenhenhém, deu aos parlamentares, em menos de dez dias, mais de 1 bilhão de reais em dinheiro que haviam arrecadado do Erário sob a forma de estranhíssimas “emendas parlamentares”.  Ou melhor: eles tinham aprovado as emendas, que lhes concedem verbas para aplicara  em obras em suas bases eleitorais, naturalmente construídas por empreiteiras amigas, ou para  colocar direto nos próprios bolsos, mas não o dinheiro sonante, que só sai com a caneta da presidente.

Os deputados ameaçaram votar contra várias questões de interesse do governo, inclusive a aprovação de diversos vetos presidenciais, se o dinheiro vivo não lhe fosse entregue já – e Dilma aceitou a barganha. Refrigério, luz e paz na base; choro e ranger de dentes entre os burocratas da contabilidade oficial. Alegria e tristeza, ao mesmo tempo, entre marqueteiros e organizadores do Dilma-14: ganham, com a mão esquerda, a harmonia temporária entre os amigos, e perdem, com a mão direta, as avarias que esse tipo de “acerto” traz para a economia.

A própria Dilma coloca, por sua conta, mais gatos nesse balaio , fazendo uma coisa e seu contrário ao mesmo tempo. O nome disso, em português  claro, é incoerência. De um lado, a presidente quer diminuir os custos de operação das empresas para ativar a performance econômica. Um bela oportunidade de fazer isso seria sancionar a lei que extingue a multa de 10% sobre o saldo do Fundo de Garantia – FGTS que pagam ao governo nas demissões sem justa causa  - e que se soma ao 40% já pagos aos demitidos. Mas Dilma não largar o osso, com o qual sustenta seu programa Minha Casa, Minha Vida, que considera um grande cabo eleitoral. Consequência: veta o fim da multa e continua encarecendo a vida das empresas, que é o contrário daquilo que quer fazer. Como é que fica? Não fica. Tudo bem quando o vento é a favor. Mas em agosto, entre outros desgostos, o real foi a moeda que mais perdeu valor em todo o mundo. É o vento de proa, direto.